quinta-feira, abril 26, 2018

Pitum Keil Amaral: A Escola de Belas Artes de Lisboa, em 1956

Francisco Pires Keil Amaral, Pitum (n. 1935) - em idade aproximada de aluno da ESBAL

Em 1956, Pitum, pseudónimo por que todos conhecem o arquitecto Francisco Pires Keil Amaral, era um jovem estudante de arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa, precisamente a mesma escola que seus pais - Maria Keil e F Keil do Amaral - frequentaram, nos anos trinta, mas que pouco ou nada evoluira desde então, quer em condições logísticas quer no ensino ministrado. Apesar de em 1950 ter sido decretado que passaria a escola superior, só o passou de facto, em 1957 quando a regulamentação da lei foi aprovada.

Por outro lado, uma Associação Académica (designação anterior às AEs) existente na altura e da qual Keil do Amaral, pai, fora dirigente, seria extinta ainda nos anos trinta pelo novo director da Escola, o arquitecto Luis Alexandre da Cunha, e nunca mais os estudantes conseguiram ver reconhecida pela tutela uma Associação legitimamente escolhida pelos próprios, apesar do esforço de muitos que por isso se bateram ao longo dos tempos.

Também os jovens da geração de Pitum se movimentaram nesse sentido e uma das iniciativas a que deitaram mão foi o lançamento de um Boletim - o VER -, que teve inicio, cremos, no ano lectivo de 1953/54 e se prolongou por várias anos e séries com alguns percalços pelo caminho. Seria para esse boletim o destino deste trabalho de Keil do Amaral, filho, que, no entanto, não chegou a publicar-se.

Trata-se de um trabalho exaustivo da/sobre a Escola de Belas Artes de Lisboa. Um levantamento rigoroso e honesto como não conheço outro. Um documento precioso para quem deseja estudar e historiar a escola e o ensino das Artes na escola de Lisboa, pese embora os mais de sessenta anos volvidos. Vai ser útil, tenho a certeza.

Muito obrigada ao arquitecto Francisco Pires Keil Amaral por ter-nos confiado este seu trabalho, inédito, e dar-nos o privilégio de o publicarmos neste blogue.  Segue-se o respectivo documento e o seu curriculum vitae sucinto.

Julia Coutinho




 















cv sucinto de Francisco Pires Keil Amaral, Pitum



terça-feira, abril 24, 2018

25 de Abril com Sophia e Manuel San Payo

25 de Abril, por Manuel San Payo




Sempre adorei este poema da Sophia e este desenho do Manuel. Nos 44 anos do 25 de Abril decidi juntá-los. Porque ambos falam de valores essenciais: Verdade e Liberdade. Ficam muito bem juntos. 


NESTA HORA

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade


Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida


O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe


A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados


Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar


Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
— Sob o ausente olhar silente de atenção


Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste


Sophia de Mello Breyner, O Nome das Coisas, 1974

quinta-feira, março 01, 2018

João Varela Gomes (1925-2018)






No momento em que nos despedimos para sempre de João Varela Gomes, quero prestar-lhe a minha sentida homenagem através de dois pequenos apontamentos.

1 - Em Novembro de 1961 Salazar realizou eleições de deputados à Assembleia Nacional e a oposição decidiu concorrer. Não foi nada fácil a constituição da lista oposicionista por Lisboa mas o então capitão João Varela Gomes teve a coragem de a integrar. Ficaram célebres as suas intervenções públicas, nomeadamente na sessão realizada a 3 desse mês no Teatro da Trindade. Do seu processo nos arquivos da PIDE/DGS respigamos algumas informações dos agentes da polícia política que fizeram a cobertura dessa noite. 
    
a) - "O capitão Varela Gomes disse o seguinte:  "Eu tenho notado que me têm distinguido com aplausos e quero endossar esses aplausos para o povo que tanto tem sido humilhado pelo Governo.  O Governo Salazarista não tem programa e quer sobreviver. Ele embarcou num navio de piratas que se chama fascismo. Imitando esse sistema ele criou a Mocidade e a Legião, e em 1945, sentindo-se atrapalhado criou o Campismo para a Mocidade e incumbiu a Legião da Defesa Civil do Território.
(…) Um grupo de aduladores e subservientes colocou Salazar num pedestal e nós iremos arrancá-lo desse pedestal. (…)  A única vitória que o Estado Novo até hoje conseguiu foi a de nos trazer a todos adormecidos e apáticos".
(SC SR 2846/58 cx 2829, doc 210, informação de "Jacinto Lemos")  
b) - (…) entre os diversos oradores destacou-se o capitão Varela Gomes que  (…)  foi muito ovacionado, com a assistência em pé. Foi de todos os oradores o que mais atacou o Governo e o senhor Presidente do Conselho
(SC SR 2846/58 cx 2829, doc 210, relatório do agente Martins Ferreira)

JVG a discursar no Teatro da Trindade em 3 Nov. 1961. Na mesa podem ver-se Augusto Casimiro, Luis Dias Amado, Lino Neto e Orlando Ramos, entre outros.


Assistência aplaude JVG no Teatro da Trindade em 3 Nov 1961



2 - Conheci Varela Gomes muito antes de o conhecer. Sabia de há muito os feitos, a coragem e o carácter forte e impoluto desse homem que era uma «força da natureza», no dizer do próprio filho, Paulo Varela Gomes,  mas o nosso encontro pessoal deu-se apenas em Março de 2007 aquando de uma série de conferências levadas a cabo pela Cooperativa Militar com o apoio da Comissão Portuguesa de História Militar, subordinadas ao tema: Oposição Político-Militar ao Estado Novo, no 3º Quartel do Séc. XX, efectuadas nos dias 20, 22, 27 e 29 de Março de 2007.  Varela Gomes interveio no dia 27 e a sua comunicação deixou-me entusiasmada pelo que dava a conhecer do percurso antifascista mas também pela forma contundente como se referiu a duas comunicações anteriores, altamente reacionárias, de dois oficiais reformados da Força Aérea. Intervindo a seguir a eles, Pezarat Correia desmontara já esses discursos mas Varela Gomes não quis também deixar de responder aos dois saudosos do salazarismo. 

Tivemos oportunidade de conversar bastante e passados dias escreveu-me a dar conta das suas actividades de escriba interventivo e militante, ao mesmo tempo que enviava o jornal Alentejo Popular, sediado em Beja e onde colaborava, e os dois últimos números dos SAMIZDAT, como chamava aos caderninhos que escrevia e editava clandestinamente, conforme sublinhara.
Escusado será dizer que nunca mais deixei de acompanhar o meu amigo João Varela Gomes e tudo o que saía da sua lavra.







No entretanto, o Alentejo Popular terminou em 2012 e o sr Luis Alves Dias, dono da Livraria Ler e seu editor, faleceu em 2015, embora saibamos que a livraria retomou a actividade sob a direcção do filho e continua a ser um local de referência em Campo de Ourique. 

Deixo-vos o texto da comunicação de João Varela Gomes às Conferências da Cooperativa Militar. O autor acabou por falar de improviso com recurso a uns apontamentos que também estão em meu poder. Mas o conteúdo destas páginas, que JVG entregou previamente à organização, é de tal forma valioso que me parece importante chegar ao conhecimento do maior número de pessoas possível. Por elas se pode acompanhar o percurso combativo de um Homem e de um Militar que entre 1958-1974 escolheu estar contra Salazar e Caetano e ao lado das gentes do seu país. 
Um Homem a quem devemos muito do que somos. E que continua a ser desconhecido por muitos e mal-amado por muitos mais.

Perguntei-lhe porque não continuou o projecto das suas memórias iniciado com Tempo de Resistência, I Parte, (Jan 1962-Set 1963), da Ler Editora, 1980. Resposta: «porque ninguém lê, ninguém se interessa». É pena, digo eu. Todos ficámos a perder.















sexta-feira, dezembro 29, 2017

Jose Dias Coelho e a última fatia de bolo-rei (1961)

Jose Dias Coelho fotografado junto a um dos seus trabalhos

Jose Dias Coelho (1923-1961) era um jovem e muito promissor artista plástico que frequentava as últimas cadeiras do curso de escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, quando de tudo abdicou para seguir os seus ideais políticos e dedicar a vida à luta contra o regime de Salazar.

Nas fileiras da Juventude Comunista desde 1942 e, mais tarde, nas do Partido Comunista, foi sucessivamente activista do MUNAF e do MUD Juvenil, de que foi dirigente empenhado a nível central mas, sobretudo, na sua escola, onde dirigiu lutas renhidas contra a direcção pela implantação de uma Associação livremente eleita pelos estudantes, bem como nas lutas travadas pelos artistas plásticos nas salas da SNBA consubstanciadas nas EGAPs (Exposições Gerais de Artes Plásticas 1947-1956) numa frente comum contra a arte oficiosa do SPE/SNI que incomodou o regime.

Detido pela PIDE em plena campanha eleitoral da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República (Jan 49), manteve-se numa situação de semi-legalidade até que em meados de 55, quando vivia já com Margarida Tengarrinha (1928) e lhe nascera a primeira filha, Teresa (53), aceita passar à clandestinidade, como funcionário do PCP, juntando-se-lhe pouco depois a mulher e a filha a tempo de passarem juntos o Natal.

O casal foi fundar e gerir um Gabinete Técnico onde se fabricavam documentos falsos, fundamentais para a «normal» vida clandestina dos membros do Partido. Quando é morto pela polícia política, a 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche (actual Rua José Dias Coelho), em Alcântara, pertencia à Organização Regional de Lisboa do PCP e dirigia o Sector Intelectual.

Mário Castrim (1920-2002), escritor e jornalista do Diário de Lisboa, recorda, no poema abaixo, a última reunião clandestina que tiveram, em sua casa, precisamente na Rua da Creche, dias antes de o terem morto.








Mário Castrim (1920-2002)



quinta-feira, agosto 17, 2017

João da Silva: a morte do carrasco do Tarrafal e de Caxias


Devo a António Dias Lourenço o ter-me revelado, nos anos noventa, a forma trágica como ocorreu a morte de João da Silva, esse «carrasco» dos presos políticos no Tarrafal e em Caxias, num desastre de viação na Av da Liberdade. A data não recordava. Falou-me, sim, do regozijo que o acontecimento  provocou nas hostes antifascistas e sobretudo nos ex-tarrafalistas  - que sob o seu jugo sofreram horrores -, que durante muito e muito tempo afluíram ao local numa espécie de «romaria» como que a certificarem-se de que a besta morrera mesmo.

Durante anos procurei noticias que corroborassem as informações de ADL até que encontrei, por fim, quando já desanimava. O desastre deu-se a 15 de Janeiro de 1960, conforme as noticias abaixo de O Século e do Diário de Lisboa de 16, e por elas se pode aferir da brutalidade do acidente provocado pela leviandade do capitão João da Silva ao atravessar fora da placa para peões e que arrastou consigo outras vítimas, uma delas mortal. 


Jornal O SÉCULO, 16 Janeiro 1961


Jornal Diário de Lisboa, 16 Janeiro  1960


João da Silva, capitão do exército ao serviço da polícia política e que integrara uma comissão de militares que fora à Alemanha estudar os campos nazis, foi o homem nomeado pela PVDE  para terceiro director do Campo do Tarrafal, cargo que ocupou entre Outubro de 1938 e Junho de 1940.

Foi durante o seu consulado, a par do do director inicial capitão Manuel Martins dos Reis - o campo foi inaugurado em Outubro de 1936 -, que foram praticadas as maiores barbaridades contra os presos ali concentrados, devendo-se-lhe a criação da chamada Frigideira e a constituição da Brigada Brava dois exemplos de práticas punitivas e destrutivas do ser humano, entre muitas outras.

Não vou aqui tratar em profundidade o Campo do Tarrafal a que os presos chamavam «campo da morte lenta», e os métodos de tortura utilizados, até porque existem já muitos estudos facilmente acessíveis a quem queira informar-se. Este artigo pretende apenas dar a conhecer o final de vida triste do tristemente «célebre» João da Silva, e revelar aspectos até agora desconhecidos do mesmo.

Para além do Tarrafal João da Silva esteve ainda à frente da prisão política de Caxias, nos anos cinquenta, até atingir o limite de idade.

Poder-se-á, eventualmente, questionar o regozijo sentido pela sua morte. Não deveria ser assim, diz-nos o bom-senso. Mas quais as vítimas que resistem a não festejar o aniquilamento dos seus algozes ? E quem se atreve a condená-las ? Eu não.

Sérgio Vilarigues, um dos presos que inaugurou o campo do Tarrafal e sentiu na pele o seu jugo, descreveu João da Silva como «um homem sem escrúpulos e sem quaisquer sentimentos humanos» -  «um autêntico carrasco para os presos». (Avante, 5 Março 97)

Morreu sem honra e sem glória.