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terça-feira, janeiro 03, 2012

Parabéns, Maria Teresa Horta!



Maria Teresa Horta viu atribuido o Prémio D. Dinis 2011 ao seu romance "As Luzes de Leonor". Parabéns à minha querida amiga Teresa pelo seu grande trabalho de investigação histórica e pela forma como soube conciliá-la com a tecitura dos sentimentos numa autêntica filigrana da palavra!!! Parabéns à Dom Quixote e sobretudo à sua editora Cecilia Andrade! Um Prémio merecidíssimo!!!

Perdoem-me, mas depois de ver a vergonhosa campanha feita para a divulgação de um outro livro saído sob o mesmo tema, que misturava vinho com literatura oferecendo uma garrafa por cada livro comprado, livro ainda por cima editado sob a chancela do mesmo Grupo Editorial, não posso deixar de afirmar: FEZ-SE JUSTIÇA!

Maria Teresa Horta tem sido uma escritora muito maltratada pelas chamadas elites culturais da nossa praça. A incansável luta que ao longo da vida tem mantido em prol da Mulher e do Feminismo, as suas posições políticas e partidárias, a força e ousadia nos temas que aborda na poesia e na prosa suscitaram demasiados anticorpos que dificilmente são debelados.

Mas isso que importa? A prova-lo está este Prémio que, como todos sabemos,premeia trabalhos na área da investigação histórica e científica, ter recaído este ano sobre o seu trabalho As Luzes de Leonor, uma biografia romanceada sobre a sua tetra-avó, a Marquesa de Alorna.

Maria Teresa Horta não escreve, apenas, poesia ou prosa eróticas. Maria Teresa Horta é uma Grande ESCRITORA e uma Grande MULHER de bases muito Sólidas!!!

Parabéns, Teresa! Parabéns por TUDO quanto nos tens dado!

domingo, janeiro 01, 2012

Para 2012 eu desejo...

Pintura de Teresa Dias Coelho



Eu desejo!

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de Ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente. ...

Para vocês, desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
Para vocês desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.
Para vocês, neste Ano Novo, desejo que os amigos sejam cúmplices.
Que sua família esteja mais unida.
Que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de desejar tantas coisas!
Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a vocês.
Então, desejo apenas que vocês tenham muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam movê-los a cada minuto, rumo à felicidade.

Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, dezembro 01, 2011

Hoje é o meu aniversário...

(desenho de Alvaro Cunhal)




AMIZADE
para a Júlia Coutinho




Se tu não existisses
tinhas de ser
inventada

Pelos amigos mais
íntimos

A começar no sorriso
e depois no coração
na palavra solidária

Na insistência
com a teima
de bandeira libertária

Por isso Júlia,
eu digo:
se agora nos fugisses


Tinhas de ser
recriada

Nessa tua resistência
de vontade
passionária


Maria Teresa Horta
Lisboa, 1 de Dezembro de 2011






Nota: a Amizade e a generosidade da Maria Teresa Horta deixam-me sem palavras. Obrigada, querida Teresa!

terça-feira, outubro 25, 2011

Maria da Piedade Almeida (1916-2011)

Maria da Piedade Almeida (23-03-1916 - 14-10-2011)



No passado dia 14 deixou-nos para sempre, Maria da Piedade Almeida. Tinha 95 anos. Curvo-me perante a figura desta mulher de grande carácter e firmeza a quem a PIDE matou o marido em Janeiro de 1949, ficando sem quaisquer meios de subsistência e com uma filhinha para criar, e que lutou incansavelmente, antes e depois do 25 de Abril, para que se fizesse justiça e a morte do marido, António Lopes de Almeida, não ficasse esquecida.


A morte atroz de António Lopes de Almeida, operário da Marinha Grande, às mãos da sinistra polícia política, a PIDE, quando se encontrava detido no Aljube, já por mim tinha sido evocada neste blogue. Mas gostaria de vos deixar o testemunho oral de Maria da Piedade Almeida aqui assinalado e que expressa bem toda a dor e sofrimento por que passou esta família.


As minhas sinceras condolências à família.

Honra à sua Memória!





sexta-feira, julho 22, 2011

Fez-se História. ABRIL está vivo!

(os «arguidos» Margarida Fonseca Santos, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira, ladeados pelos advogados Vitor Ferreira e representante da SPA)




«A crítica pública deve ser um direito e não um risco» -- sentenciou o juíz ao absolver os «arguidos» do odiendo processo que hoje chegou ao fim. Mais: os queixosos foram condenados a pagar as custas do processo. Estão de parabéns Margarida Fonseca Santos autora da peça A Filha Rebelde, Carlos Fragateiro que dirigia o Teatro D. Maria II e que ousou leva-la a público, e José Manuel Castanheira, também dirigente e co-autor da encenação. Venceu a Liberdade de Expressão e de Criação artísticas. Venceu a Democracia. Iva Delgado, a filha do general Humberto Delgado - indirectamente visado no processo - escreveu, com toda a sua imensa sensibilidade e sentido cívico, o belíssimo texto que publico abaixo. Nada melhor para desfecho deste caso que nunca deveria ter existido.



A vitória dos rebeldes*
por Iva Delgado


A sala do tribunal apinhada, os olhares que antes de se trocarem já se tocaram, o aperto no cotovelo, o beijo rápido, o sorriso escondido, o "vamos lá ver" sussurrado, a sensação de momento histórico, a presença inequívoca dos media, tudo isto se viveu no dia 22 de Julho de 2011, dia de leitura da sentença do caso " A Filha Rebelde".

A autora, serena e calma, era a imagem do equívoco gerado por este processo. A Margarida Fonseca Santos não cabe no papel de arguida, nem no de vítima, tampouco no de difamadora seja de quem for. Ela é a generosidade de alma, a criadora. Se alguma coisa se lhe pode atribuir de excessivo é a grandeza com que gere a sua arte, sem artifícios, genuinamente humana, centrada numa sensibilidade cândida.

A leitura da sentença durou uma eternidade, apesar da rapidez profissional do juiz. O esforço para captar o sentido das palavras, passada a floresta do emaranhado burocrático, a barreira das fórmulas processuais, o som não projectado da voz do juiz, o sorriso estéril da acusação não contribuíam para certezas prévias.

A meio da pilha de folhas lá se ia percebendo que a honra de uma pessoa só pode ser objecto de atentado se a pessoa for viva. Que a memória de alguém já falecido também tem questões normativas, que há prazos, limites, regras de jogo. Não é um qualquer familiar que por dá cá aquela palha se sente subitamente ofendido por palavras escritas em contexto ficcional, sobre um parente morto que é figura histórica. Tudo isso ia perpassando pelo que captámos da leitura do juiz. E muito mais, que quando um caso deixa dúvidas está em aberto para interpretações múltiplas, desde do ponto de vista histórico ao ficcional, passando pelo ensaístico, jornalístico e outros, que não se esgota no plano jurídico.

Uma frase, perfeitamente articulada, fixou-se como uma legenda iluminada: " A criação não é um risco, é um direito".

Nesse momento a Margarida estava ali, não porque escrevera uma peça sobre a filha do último director da PIDE, ofensiva para a memória e bom nome deste ( dando a entender que fora o mandante do assassinato de Humberto Delgado) mas sim porque exercera o seu direito de expressar-se livremente através da ficção sobre uma figura histórica. Estas não pertencem aos seus familiares, nem são património exclusivo de ninguém. O juiz assim deliberou, assim absolveu, assim se retomou a rota democrática que cabe à justiça defender. Os cravos vermelhos trazidos por alguém foram uma efusiva confirmação da força do 25 de Abril que derrotou os Silva Pais deste país.

Lisboa, em 22.07.2011


*texto originalmente publicado no «GRUPO - Solidariedade com os réus do processo crime "A Filha Rebelde"» no Facebook.

sexta-feira, julho 08, 2011

No adeus a António Jorge Branco

(1937-2011)


Na hora da partida no António Jorge Branco faço minhas as palavras do Fernando Pinto.
Também eu fiz parte desta geração que ele descreve e que fez do After Height simultaneamente um refúgio e um local de liberdade. Tal como na «velha Lontra»... Obrigada, Fernando. Até sempre, António Jorge.



ANTONIO JORGE BRANCO

Estava hoje determinado em prosseguir a linha de textos que tenho vindo a elaborar, que se enquadram na tentativa de compreensão do nosso presente, na busca de sentido para o nosso futuro e nas formas de os conseguir. É uma reflexão que entendo todos devemos fazer para nos referenciarmos neste turbilhão de informações e contra-informações, de dúvidas e dívidas, de cupabilizações e descupabilizações e de contradições e confusões em que hoje nos vemos mergulhados. Contudo, esta época do ano é inclemente para quem está fisicamente debilitado e, talvez devido a esse facto, tenho perdido alguns amigos mais velhos e mais frágeis. E isso também me fez pensar na brevidade e no sentido desta nossa vida, e no exemplo que muitos constituem. Que eu tenha conhecimento, o último amigo que me deixou foi o António Jorge Branco. Jornalista de profissão, homem íntegro por opção, músico por paixão, o António era meu amigo há uma trintena de anos. No entanto, habituei-me a ouvir a sua voz bem timbrada há muito mais tempo quando, ainda puto, de férias em casa dos meus avós e obrigado a deitar cedo, metia o rádio dentro da cama (um “transístor” do tamanho de um tijolo…) e o ouvia a ele e á musica que passava, violando as directrizes grã-maternas de “fechar a luz e o rádio”. Isto passava-se, ainda a televisão era um luxo de poucos. Muitos anos depois, conheci um António Jorge que tocava piano num bar que eu frequentava. Tocava por prazer, de ouvido, mas como poucos. Disseram-me “É irmão do Zé Mário…”. Então associei, António Jorge… Branco! Quando finalmente lhe ouvi a voz, não duvidei: era a voz do “locutor” do Porto que fascinava as noites das minhas férias em criança, e perguntei-lhe. Que sim, que era jornalista e que o piano era só uma forma de escape. Contei-lhe da minha infância e assim começou uma amizade. Como gosto de cantar, ali se iniciou um duo ocasional, animando-nos a nós e aos nossos amigos, nessa Lisboa solta e que parecia não ter dia, porque de dia, cada um nas suas profissões, raramente nos cruzávamos. Recordo os irmãos Salomés, o Vitorino, o Janita e o Carlos, o António Victorino de Almeida e a Estrela Novais, o Luís Pignatelli e a Lia Gama e tantos, tantos outros actores, músicos, jornalistas, gente conhecida e gente como eu, anónima mas amante da noite. Para além da música, da noite e, porque não dizê-lo, dos copos, unia-nos uma grande esperança no futuro que então se começava a desenhar em liberdade, saídos que éramos da negra noite da ditadura. Fica-me a integridade, a coerência e a consistência da maioria dos boémios dessa Lisboa, unidos na liberdade daquele naco de noite sem obrigações. Obrigatória era só a conversa, a música, o convívio. Durante anos, aquele bar (para os anais, o “After Eight”, ali à Praça das Flores) foi o lugar geométrico de muitos de nós, a nossa sala de estar, o nosso clube de convívio. Ilusões e desilusões, sentimentos e ressentimentos, amores e desamores, tudo por ali passou. Como pano de fundo, o som do piano do António Jorge, do Rui Madeira, do Carlos Carlos, e de tantos outros, pianistas profissionais ou ocasionais insuspeitos. Hoje, seria um bar de “famosos”, então, era um retiro de gente desejosa que os holofotes se apagassem, que os microfones se desligassem, que fossem tratados como gente normal, que de facto eram e são. Com tanto jornalista por metro quadrado (os metros quadrados eram poucos, mas os jornalistas e os famosos, muitos), nunca nada do que ali se passou saltou para os jornais: o respeito pela privacidade era a regra e ali ninguém procurava cachas, notícias sensacionais ou escândalos. Mas tudo tem um tempo e aquele tempo acabou por acabar, acabando até com o tal bar. Muitos anos depois, ainda se tentou mudar de poiso e de novo se pediu ao António Jorge que reanimasse as noites moribundas. Debalde! O Tempo tem um tempo que só ele sabe e já nem mesmo o António Jorge, com toda a poesia que lhe saia das mãos quando as sobrepunha a um piano, conseguiu reanimar as noites da anunciada decadência. A Velha Guarda estava desmobilizada, dispersa, tratando dos netos, e a Nova, ainda em gestação, talvez em formação. E lá voltou ele prá sua TSF, tecendo com o amor e o saber que sempre pôs em tudo, as suas Lendas e Calendas dos seus Portugais Passados nos Dicionários da Rádio que tanto acarinhou. Hoje, ele, eu, os outros, encontramo-nos se calha, onde calha, e lá renovamos a cantoria, o convívio, a bebedoria (já menos, é certo) porque a amizade, essa, está fora de questão que algum dia sucumba. Mesmo que o António Jorge, como outros mais, tenha decidido que nunca mais voltaria a aparecer, continuaremos a celebrar e a celebrá-lo, embora saibamos que nada voltará a ser como dantes. Li nos jornais de segunda-feira: ”O jornalista António Jorge Branco, um dos fundadores da TSF, morreu hoje aos 74 anos de idade, disse fonte da estação de rádio à Lusa. António Jorge Branco, que actualmente não se encontrava no activo, foi responsável por programas como "Lendas e Calendas", "Portugal Passado" e "Dicionário da Rádio". O radialista foi também presidente do Conselho Deontológico do Sindicato de Jornalistas.” Para mim, para muitos de nós, não foi só o António Jorge Branco que se foi! Foi um símbolo de uma forma de estar na vida, de uma forma de ver e encarar o Mundo, foi mais uma teia que se nos rompeu na memória.

Fernando Pinto

CRÓNICAS AO CORRER DA PENA (504)

07 de Julho de 2011

sábado, julho 02, 2011

José Dias Coelho: arte, solidariedade e intervenção cívica

Imagem da sessão de 20-06-2011


No passado dia 20 fui à Escola Secundária Cacilhas-Tejo fazer uma conferencia sobre José Dias Coelho: a arte e a vida de mãos dadas».

Fui muito bem recebida e tive uma plateia interessada e atenta a tudo que foi dito.

Aqui vos deixo com a notícia reallizada pelos organizadores.
http://becre-esct.blogspot.com/2011/06/jose-dias-coelho-arte-solidariedade-e.html

E também com a avaliação que a assistência fez da sessão:

http://becre-esct.blogspot.com/2011/06/o-prazer-de-ler-xii-jose-dias-coelho_22.html

Vale bem a pena a divulgação da vida e da obra do escultor José Dias Coelho, um homem morto pela PIDE aos 38 anos, quando muito havia a esperar dele como Homem e como Artista Plástico.