domingo, janeiro 15, 2006

Ao Meu Amigo L.R.

Joaquim Pessoa (Barreiro, 1948) é um poeta praticamente esquecido, uma voz arredada do nosso convívio.

Não se edita, não se lê, não se escuta.

Das gerações mais novas, quem o conhece?

Mas vai ficar na História, a par com Ary, como uma das vozes mais interventivas do pós 25 de Abril.

Para mim ele será, sempre, a voz do Amor e do Combate.

Leiam-no e saboreiem-no. Ficarão mais enriquecidos.



AS PALAVRAS DO MEU CANTO

Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
porque são a razão de quem as sente.

Palavras. Todas elas do meu povo.
Amigas. Companheiras. Namoradas.
E são o canto antigo. O canto novo
de quem não as quer ver amordaçadas.

Palavras que são vento. E tempestade.
Palavras que são sol. E são abrigo.
Verdade. Amor. Poema. Liberdade.
E a palavra maior: palavra Amigo.

Palavras que são arcos. E são setas.
Com elas se defende uma canção.
As palavras são as armas que os poetas
devem fazer passar de mão em mão.

Camões lutou com elas. E por elas.
Junqueiro perfilou-as. E Cesário
abriu todas as portas e janelas
e veio à rua escrever como um operário.

As palavras do sangue. Essas palavras
que são a tua foice. O meu poema.
Palavras de suor quando tu lavras.
De alegria se escrevo e vale a pena.

Palavras que te dizem: estou aqui.
Palavras que me doem. E que eu canto.
Palavras com raiz no meu país
e que já me doeram. Nas não tanto.

Palavras que não gosto de dizê-las
assim feridas. E tu amor não digas!
Palavras encarnadas. Estou a vê-las
em Maio que é o mês das raparigas.

São palavras de fogo. Mas não ardem.
Palavras simples. Do meu cantar de agora.
São palavras. Amigas que não partem.
E ficando resistem à demora.

Palavras que não morrem. Nunca morrem.
E são a minha voz. A minha gente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.


Joaquim Pessoa, in Amor Combate, p.107

21 comentários:

Fernando Bizarro disse...


Tenho mais 5 anos do que Joaquim Pessoa. Conheço a sua fantástica Poesia de combate desde que ele começou a editar.

Um Abraço,

Paula Raposo disse...

Tenho lido muito pouco de Joaquim Pessoa. Aqui tive a oportunidade de ler mais um poema, não conhecia, mas de facto 'as palavras nunca morrerão se um homem as disser sempre de frente...' Beijinhos para ti, Júlia que me proporcionaste estas maravilhosas palavras do Poeta.

LetrasaoAcaso disse...

Temos duas coisas em comum: o gosto da poesia de Joaquim Pessoa e a candidatura de Alegre.
Beijos

Reporter disse...

Joaquim Pessoa... sinal +

Betty Branco Martins disse...

Olá Júlia

Recebi o teu mail. E vim até aqui. E foi um prazer :)

Tenho que confessar que é a primeira vez que leio Joaquim Pessoa (obrigada por isso) a partir de agora irá fazer parte da leitura que tenho mesmo (que conhecer) que ler

Manuel Alegre - claro está - O NOSSO CANDIDATO!!!

Estou no "Fragmentos) vai até lá, vou gostar de te "ver"

Um beijo

Boa semana

OrCa disse...

Com Pessoa (Joaquim) e com Alegre, naturalmente, cara amiga! Muitas vozes, se diria, mas um só combate.

Beijos.

Nilson Barcelli disse...

Quem me dera escrever assim.
Por acaso o meu último poema (tentativa) também fala da morte, porque eu não quero morrer...
Beijinhos

Manuel disse...

É e será a sina de muitos poetas lusos. Joaquim Pessoa, mesmo não sendo como o outro Pessoa, escreveu algumas das mais belas letras da música portuguesa das últimas décadas do séc. XX.
É importante o que a Júlia fez: lembrar, trazer para a praça da partilha os textos que não podem morrer na poeira.
Gostei de ver este teu espaço.

HarryHaller disse...

Obrigado Júlia, não conhecia este poeta e gostei de conhecer.
É um belo poema sobre a liberdade de expressão, que é necessária para que a palavra seja um instrumento ao serviço da justiça, da verdade e da paz.

Um abraço

Lobo das Estepes

Alma de Poeta disse...

Apluso a divulgação de qualquer poeta com valor e que não tenha a devida divulgação. São bens que se perdem na nossa cultura. Graças a Deus que sempre podemos fazer alguma coisa, com esta ferramenta muito forte que se chama internet. Aposta na divulgação desse e de outros poetas esquecidos. Deixo um beijinho

Sandra Feliciano disse...

Realmente não conhecia, mas gostei de ficar a conhecer. No dia 28 trazes-me coordenadas de onde encontrar mais disto? ;-)

lobices disse...

...tive o grato prazer de conhecer pessoalmente o Joaquim Pessoa e de o ouvir ler a sua poesia em recanto manso à volta de mesa de amigos...

augustoM disse...

Vês a vantagem de teres um blog? Se não fosses tu, possivelmente nunca ouviria falar de Joaquim Pessoa. Estavas mesmo a fazer falta.
Umbeijo. Augusto

girassol disse...

Joaquim Pessoa. Muito boa escolha. Conheço a poesia dele, e gosto, gosto muito. Já o ouvi ler a sua poesia e é bom vê-la divulgada, aqui. A propósito, vou agora mesmo escolher um poema para deixar lá no meu blog. É isso mesmo!... Obrigada por isto, não só por esta escolha mas por tudo por aqui...

stillforty disse...

Olá Julinha
Gosto muito de Joaquim Pessoa. Bom vê-lo aqui e saborear este poema.

Estive ausente uns diazitos e o teu blog é o primeiro que visito, desta vez.

Não ando com muita inspiração para postar, amanhã se verá.

Beijinhos

Ofeliazinha disse...

Não conhecia, mas ainda bem que tomo conhecimento pois será sem duvida mais um nome a anotar na minha memória para não mais esquecer. Obrigada.

dulce disse...

Gosto muito de Joaquim Pessoa e já postei tb poesia dele.
Boa escolha
Beijos

Arte por um Canudo 2 disse...

Palavras sábias de Joaquim Pessoa!Bom gosto de quem as publica.Parabéns por este momento.

Guida Alves disse...

Obrigada, Júlia, por teres pasado pela minha "casa". Quanto ao Joaquim Pessoa (que foi meu colega bancário) acho que tenho tudo ou quase tudo o que ele publicou. Devidamente lido e assimilado. Mas, como eu dizia há poucos minutos a um dos meus filhos, o que "está a dar" e pseudo-literatura chamada "light", que não gasta neurónios, e nos dá uma visão rosada e celestial do mundo em que vivemos. "Amor Comnbate"? Qual "combate", qual carapuça"! Abraço.

Leonilde Santos disse...

Obrigada Júlia por lembrares aqui um dos grande poetas da língua portuguesa que tão esquecido e tão desconhecido é entre os seus compatriotas.

Somos efectivamente um país de poetas como diz Manuel Alegre, mas poucos são os que conseguem publicar ou ser lidos, num país onde se prefere pagar centenas de euros para ir ver um jogo de futebol em vez de se comprar um livro de poesia ou ir ver uma peça de teatro que não seja La Féria ou quejandos.


Beijos
Leonilde Santos (Noel Santa Rosa)

Anónimo disse...

Então o pessoal não conhece O Joaquim Pessoa... Tá tudo dito!
ò júlia continua, continua que afinal a poesia não chega, nunca chega...