quarta-feira, julho 30, 2008

M Helena Vieira da Silva (1908-1992)


M Helena Vieira da Silva nasceu há cem anos.

"Eu sou complicada e a minha vida é simples. Minha mãe, o Arpad, o cavalete e a tela ou o papel, c'est tout. As pessoas no século XX andam de um lado para o outro e as amizades perdem-se. É mais fácil o amor que a amizade."
(carta a Agustina Bessa-Luis de 20.3.1980)
Acerca da Irresolução
"A irresolução é também uma espécie de medo que, ao reter a alma como que numa balança sopesando as várias acções que pode desenvolver, faz com que não execute nenhuma dela, ganhando assim tempo para escolher antes de se decidir, o que, se tem algo de bom, se torna mau quando dura mais do que devido e quando gasta a deliberar o tempo que deveria ser utilizado para agir. Digo, pois, que é uma espécie de medo, embora posssa acontecer, ao vermo-nos perante várias opções de bondade aparentemente igual, sentirmo-nos hesitantes e inseguros sem que isso nos inspire o menor receio; a verdade é que essa espécie de irresolução deriva apenas do assunto com que nos deparamos, e não de uma emoção espiritual; é que não se trata de uma paixão, ainda que o receio de falhar na escolha faça crescer a incerteza. Mas este medo é tão vulgar e tão forte em alguns de nós que, frequentemente, mesmo quando nada há para optar e apenas existe uma coisa a pegar ou largar, nos paralisa e nos põe inutilmente à procura de outras saidas; este exagero de irresolução tanto deriva do excessivo desejo de fazer bem como de uma fraqueza do entendimento, que se move na confusão e na falta de ideias claras e distintas; o remédio contra tal abuso é habituarmo-nos a fazer julgamentos certeiros e precisos acerca de tudo aquilo que se nos depara, e acreditarmos que cumprimos sempre o nosso dever quando executamos o que pensamos ser melhor, mesmo que possamos avaliar muito mal."
Maria Helena Vieira da Silva
(texto inédito inserido no JL de 4-17 Junho 2008)

domingo, julho 27, 2008

a revista Seara Nova

Confinada a quatro números por ano, a revista Seara Nova sobrevive. Mas não deixa de ser caricato (ou sintomático) que a Ditadura nunca tenha conseguido aniquilá-la e seja agora o regime democrático a ditar-lhe tal sorte. Com avanços e recuos, sempre a Seara cumpriu os objectivos por que surgiu. Foi um baluarte do ideário republicano e na sua sede, (durante anos na Rua Luciano Cordeiro 103-1º) fizeram-se inúmeras reuniões oposicionistas e prepararam-se campanhas eleitorais, como a de Arlindo Vicente em 58, onde a PIDE conseguiu mesmo introduzir um bufo que informou, passo a passo, das diligências eleitorais. Saramago escreveu o primeiro editorial após Abril.
Em entrevista ao Primeiro de Janeiro, em 1937, Luís da Câmara Reys, um dos fundadores, relatava assim o surgimento da Seara Nova:
(...) Nasceu de uma reunião na Biblioteca Nacional, no gabinete do Director, onde me encontrei a convite de Raul Brandão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Ferreira Macedo e Jaime Cortesão. Foi cerca do ano de 1920. Apareci ali sem saber qual era o fim da reunião. Pouco depois conhecia-o: era o de elaborar um programa de acção politica e social, um programa mínimo de realizações nacionais, em que pudessem colaborar todos os elementos sinceros e sãos da colectividade (...) O pequeno grupo inicial alargou o âmbito da sua acção, empregando vários elementos à esquerda e à direita. Deste modo se trabalhou durante alguns meses. Foi difícil e lenta esta acção. Atingiu-se a concretização de um certo número de ideias e normas e fez-se a eliminação dos que, por incompreensão ou interesse, não eram desejáveis ou não desejavam comprometer-se, o que vinha a dar ao mesmo (...) Um dia, os elementos afins reuniram novamente e decidiram fundar uma revista de doutrina e critica e organizar uma secção editorial, cuja base comercial foi a Empresa de Publicidade Seara Nova, [constituída em Maio de 1921, com sede na rua António Maria Cardoso, 26. Os corpos gerentes da empresa eram constituídos por Ferreira de Macedo – substituído em 1923 pelo Capitão Fernandes Duarte –, Jaime Cortesão e Luis Câmara Reys (Direcção), Faria de Vasconcelos, António Tomás Conceição Silva e Rodrigo Caeiro Vieira (Mesa da Assembleia Geral), João de Araújo Morais, João Maria Sant'Iago Prezado e José das Neves Leal (Conselho Fiscal)"] Foi baptizada por Aquilino, que sugeriu a primeira palavra, [Seara] e por mim, que a completei com a segunda [Nova].
Acaba de sair o Número de Verão/2008 - (Nº 1704) que se encontra à venda em alguns quiosques e livrarias, em número inferior ao desejável.
A assinatura anual é de 15 € para os quatro números do ano e pode ser feita por qualquer meio para a Seara Nova:
Rua Latino Coelho, 6 - 4º - Esq. / 1050 – 136 LISBOA
Telef. 213 555 407 - Fax 213 544 824

sexta-feira, julho 25, 2008

A grande referência da minha juventude

Simone de Beauvoir (1908-1986) foi a mais importante referência da minha juventude e marcou decisivamente a minha vida. Li-lhe o primeiro livro, Os Mandarins, em edição brasileira, por acaso. Em 1968/69 eu vivia num quarto na Trav de Sta Quitéria e habituara-me a espreitar a biblioteca da minha senhoria. Descobri Simone de Beauvoir, apaixonei-me pela sua escrita e nunca mais dela prescindi. Procurei-lhe a obra, que consegui apenas no pós 25 de Abril quando foi editada pela Bertrand. A Liberdade a passar por aqui. E a sua relação com Sartre um modelo a perseguir, pese embora sem grande êxito, confesso.
Mais do que a ensaistica adoro a obra memorialista. Lê-la é iniciar um périplo vertiginoso pela História do Século XX, transversal a toda a Europa e não só a França, os principais conflictos que a dilaceraram, bem como as diversidades políticas, culturais e artísticas que nela coexistiram e de que foi, em muitos casos, protagonista privilegiada. Portugal recebeu-a em 1945 e o seu olhar é devastador para a nossa ditadura. Assinou as crónicas com pseudónimo para não importunar a irmã e o cunhado que aqui viviam.
Em Paris segui-lhe o rasto. Na Sorbone visitei o departamento de Filosofia e detive-me na biblioteca onde se refugiou para escrever O Segundo Sexo. No Flore perscrutei os cantos onde diariamente escrevia durante a ocupação, sobretudo no 1º andar. Procurei os livros que me faltavam e trouxe uma biografia póstuma com conversas ineditas. Visitei-lhe o tumulo, que divide com Sartre, em Montparnasse. Cúmplices na morte como na vida.
No ano do seu centenário estou a relê-la. Aqui fica um pouco das suas memórias quando, em 1929, a vida com Sartre começava a estruturar-se.
Sartre não tinha vocação para a monogamia; agradava-lhe a companhia das mulheres (...) não tencionava, com vinte e três anos, renunciar para sempre à sua sedutora diversidade. «Entre nós», explicava-me, servindo-se de um vocabulário a seu gosto, «trata-se de um amor necessário: é conveniente conhecermos também amores contingentes». Éramos da mesma natureza e o nosso entendimento duraria tanto como nós: mas não podia substituir as efémeras riquezas dos encontros com seres diferentes (...) Reflectimos longamente sobre isto.
(...) Foi nesse momento que Sartre propôs: «Façamos um contrato de dois anos.» Eu podia conseguir ficar em Paris durante aqueles dois anos e passá-lo-íamos na maior intimidade possível.(...) Ficaríamos separados dois ou três anos e encontrar-nos-íamos em qualquer parte do mundo, em Atenas, por exemplo, para recomeçarmos, durante um tempo mais ou menos longo, uma vida mais ou menos em comum. Nunca nos transformaríamos nuns estranhos um para o outro, nunca qualquer de nós faria em vão um apelo ao outro e nada prevaleceria contra esta aliança; mas era necessário que ela não degenerasse em obrigação ou em hábito: devíamos a todo o preço preservá-la desse apodrecimento. Concordei. A separação desejada por Sartre não deixava de me assustar; (...) o que me ajudava era o facto de já ter comprovado a solidez da palavra de Sartre. Com ele, um projecto não era conversa no ar, mas um verdadeiro momento de realidade. Se me dissesse: «Encontramo-nos exactamente daqui a vinte e dois meses, às dezassete horas, na Acrópole», eu tinha a certeza de o encontrar na Acrópole, exactamente às dezassete horas, vinte e dois meses mais tarde. (...)
Não estava em causa o usarmos das liberdades que nos tínhamos teoricamente concedido, durante o período deste «contrato»; tencionávamos entregar-nos sem reticências e sem reservas à novidade da nossa história. Concluímos outro pacto: não somente nenhum de nós nunca mentiria ao outro, como também não lhe esconderia nada.(....)Estava habituada ao silêncio e, no princípio, esta regra perturbou-me. Mas compreendi depressa as suas vantagens; não tinha de voltar a preocupar-me comigo própria: um olhar, sem dúvida benevolente, mas mais imparcial que o meu, devolvia de cada um dos meus movimentos uma imagem que eu considerava objectiva; este controle defendia-me do medo, das falsas esperanças, vãos escrúpulos, fantasmas dos pequenos delírios que tão facilmente se adquirem com a solidão. (...) Sartre era-me tão transparente como eu própria: que tranquilidade! Cheguei a exagerar: uma vez que ele não me escondia nada, julguei-me dispensada de lhe fazer a mínima pergunta (...) Mas se então me arrependi pela falta de vigilância, nem por isso incriminei o estatuto que tínhamos adoptado e de que nunca nos afastámos: era o único que nos convinha.
Isso não implica que a meus olhos a sinceridade seja, para toda a gente e para todas as situações, uma lei ou uma panaceia; tive seguidamente muitas ocasiões para reflectir sobre os seus bons e maus empregos. (...) A palavra, por vezes, representa apenas uma maneira de se calar, mais hábil do que o silêncio. (...)
A fraternidade que uniu as nossas vidas tornou supérflua e irrisória toda a ligação forçada que nos podíamos ter imposto. De que é que serviria por exemplo, habitar sob o mesmo tecto quando o mundo era a nossa propriedade comum? E para quê recear distâncias que nunca nos poderiam separar? Um só projecto nos animava: tudo abarcar e tudo testemunhar; ele obrigava-nos a seguir, por vezes, caminhos divergentes sem que escondêssemos um ao outro a menor das nossas descobertas (...) O que nos unia era o que nos separava; e através desta separação reencontrávamo-nos unidos no mais íntimo de nós próprios.
(...) éramos dois místicos. Sartre tinha uma fé incondicional na Beleza, que não distinguia da Arte, e eu atribuía à Vida um valor supremo. As nossas vocações não eram exactamente as mesmas. (...) Um dia anotei: «Tenho vontade de escrever; tenho desejo de frases no papel, de coisas da minha vida postas no papel» Mas, num outro dia, esclareci: «Nunca saberei apreciar a arte senão como salvaguarda da minha vida. Nunca serei, como Sartre, escritora acima de tudo.» (...) admirava o facto de ele conduzir o seu destino com as próprias mãos; longe de me sentir perturbada com isto, achava confortável estimá-lo mais do que a mim mesma.
Sentir um entendimento total com alguém, é, de qualquer maneira, um privilégio muito grande; a meus olhos, isto tinha um valor literalmente infinito. (...) Em 1929, acreditava na paz, no progresso, num futuro risonho. Era necessário que a minha própria história participasse na harmonia universal; se infeliz, ter-me-ia sentido como no exílio: a realidade ter-me-ia escapado.
(Simone de Beauvoir, in A Força da Idade, Livraria Bertrand, Amadora, pp 23-28)

terça-feira, julho 22, 2008

Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses, GRAVURA

Era assim que se chamava e foi criada no dia 20 de Julho de 1956. Não só uma cooperativa mas também uma sociedade para driblar os censores. Terminavam as Gerais de Artes Plásticas (1946-1956) e tinha início uma experiência pioneira que veio inovar e revolucionar o fazer e o divulgar da arte e dos artistas portugueses.

Com a GRAVURA a arte alcançou a necessária democratização e os objectivos que já vinham das EGAP´s: chegar ao maior numero de pessoas possível. Para isso se uniram esforços e se fizeram experiências, aprendeu-se e ensinou-se a Gravura, modalidade que nem sequer a Escola de Belas Artes contemplava.

Levou-se a arte ao mais recôndito do país através de exposições itinerantes onde democraticamente todos os artistas colaboravam. Lembro do Sá Nogueira me dizer que foi das experiências mais gratificantes que teve, poder levar uma exposição a Castelo Branco, por exemplo, e dialogar com os estudantes locais sobre problemas artísticos. Muitos jovens foram por elas influenciados.
Por outro lado, entraram para sócios artistas há muito afastados das EGAPs e outros que nunca lá tinham exposto, como o Almada, por exemplo.

Aqui fica uma fotografia de Alice Jorge a iniciar o "Mestre" com o apoio de Júlio Pomar.





Foram muitos os sócios fundadores e a sua primeira direcção foi a seguinte:
Dr. José Julio Andrade dos Santos - Presidente; Arqt Francisco da Conceição Silva - Vice-Presidente; Dr. Armando Augusto Vieira dos Santos - 1º Secretário; Maria Alice da Silva Jorge - 2º Secretário; Joaquim José Barata - Tesoureiro; Cipriano Dourado dos Santos - 1º Suplente; Júlio Artur da Silva Pomar - 2º Suplente

A primeira sede da cooperativa foi na garagem do sócio-fundador Engº Manuel Antunes Machado Torres, na Avenida Vasco da Gama, 26, Algés, mas as reuniões faziam-se em Lisboa.

Passou depois para Lisboa, para a Rua das Taipas, 12-r/c, naquele que veio a ser o atelier de Rolando Sá Nogueira; e só mais tarde, com o apoio fundamental da Fundação Calouste Gulbenkian foi possível passar para uma sede com condições logísticas e técnicas para servir de oficina, escola e galeria onde ainda se mantém, na Travessa do Sequeiro nº 4, instalações que foram inauguradas a 5 de Fevereiro 1960, com a presença do Dr Azeredo Perdigão, conforme a notícia abaixo de O Século de 6 de Fevereiro, assegurando a Gulbenkian a renda do edifício durante os dois anos seguintes.


Jornal O SÉCULO de 6 Jan 1960

Na inauguração:  J Pomar, A Vieira Santos, F Conceição Silva, J Julio Andrade dos Santos e J Azeredo Perdigão

Como pode ler-se na noticia acima a GRAVURA abriu com uma exposição de pintura, cerâmica e desenho de um dos fundadores, o artista Querubim Lapa, e tinha como objectivo imediato levar exposições itinerantes à África portuguesa e a todo o país, estando uma já preparada para seguir para Castelo Branco, a tal exposição que Sá Nogueira acompanhou e fez sessões de esclarecimento locais.

Mas a polícia política estava atenta a todas as movimentações e num relatório de 17 de Setembro de 56, o solícito agente informa as chefias da PIDE de todos os passos da "sociedade", dos sócios que a fundaram e dos elementos da direcção, terminando:
"Esta sociedade tem por fim promover a edição de gravuras de arte que serão elaboradas pelos respectivos sócios e exclusivamente destinadas aos mesmos. (...) Consta que tem apenas funções artísticas e que se destina a explorar uma arte que até agora o não tem sido em Portugal. Por enquanto o número de sócios é pouco superior à centena e são todos artistas."
Aqui fica a minha homenagem aos homens e mulheres pioneiros nesta aventura que tanto contribuiu para a alteração do gosto estético entre nós e mudou o estatuto da arte e dos artistas em Portugal.

Julia Coutinho

Nota: o meu muito obrigada ao Zé Pedro Andrade dos Santos pela cedência da foto da inauguração da GRAVURA que muito veio enriquecer este texto.

domingo, julho 20, 2008

Parabéns a uma pessoa especial

O meu querido amigo Fernando Vieira de Sá faz hoje 94 anos !
PARABÉNS, FERNANDO !
que continues a ser a pessoa que és, com o empenhamento cívico de sempre e igual nobreza de espírito, o camarada e o amigo disponível e atento. Por muitos e bons anos! Conheçam-no aqui!
(Lisboa, 20 de Julho de 1914)

sábado, julho 19, 2008

uma espécie de traição

Sou leitora de Eduardo Lourenço e admiro especialmente dois dos seus livros "Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista" e "O Labirinto da Saudade" que sempre recomendo a quem queira reflectir nessa coisa do sentir e do ser português. O livro foi lançado em 1978 e desde então tem sido uma espécie de manual para os seres que se interrogam e procuram signos identitários. Em entrevista recente Eduardo Lourenço confessa ter escrito o livro em 1958, quando se encontrava no Brasil, tendo subjacente a problemática africana e a colonização, temáticas que então se desenhavam para todos os povos colonizadores e que para os portugueses desembocaria na Guerra do Ultramar que durou de 1961 a Abril de 1974.
Fiquei admirada. -- Então o Labirinto da Saudade não é contemporâneo da primeira edição? Então o professor fazia análises destas nos anos cinquenta e nunca as publicou? Nunca as deu a conhecer? Nem sequer fora de Portugal? Teria sido uma excelente ajuda para os que aqui continuavam a debater-se dia-a-dia com a opressão silenciosa.
«nessa altura, eu não podia publicar aquele tipo de reflexão sem abdicar de vir a Portugal. E eu disso nunca abdiquei. Não era um militante por conta própria ou por conta de algum partido. Não tinha nenhuma espécie de importância política que me colocasse nesse papel. Era a título puramente privado que eu fazia essas reflexões. (...) E naquela altura ninguém tinha ideia que dali a uns anos o regime pudesse terminar.»
No Brasil Eduardo Lourenço conviveu com um núcleo de exilados políticos e dessa convivência escreveu alguns artigos para os jornais da oposição, como o Portugal Democrático, mas sob pseudónimo. Talvez seja demasiado simplista esta minha análise, mas a verdade é que o professor preferia não publicar a afrontar o regime. E, no entanto, ter-nos-iam sido, na altura, de extrema importância as suas reflexões. Como o vieram a ser no pós-25 de Abril.
Sempre estarei grata ao professor Eduardo Lourenço por ser o pensador e o grande trabalhador intelectual que ninguém contesta. Mas, confesso, senti-me traída pela sua postura «oposicionista». Como se de um «herói com pés de barro» se tratasse.

sábado, julho 12, 2008

Valeu a pena

Correu bem a palestra sobre a obra, a vida e o tempo de José Dias Coelho.
Dizem os donos da galeria que a questão do calendário, com as férias no horizonte para uns e o final de trabalhos lectivos para outros, nomeadamente professores, ditaram a fraca assistência.
Mas esteve presente toda a família de José Dias Coelho.
Só por isso, valeu a pena.

quinta-feira, julho 10, 2008

Convite

11 de Julho de 2008 - Sexta-feira, às 21h30: PALESTRA
Tema: ESCULTOR JOSÉ DIAS COELHO : UMA ABORDAGEM À SUA VIDA E AO SEU TEMPO
Proferida por Júlia Coutinho

MATOS FERREIRA
GALERIA DE ARTE
BAIRRO ALTO - Rua Luz Soriano, 18 / 1200 - 247 LISBOA *
Tlf: 213 230 011 - Tlm: 962 953 722

Informações mais detalhadas em http://www.galeriamatosferreira.com/

quarta-feira, julho 09, 2008

Convite - Sábado, 12 Julho, 17H30 - Faro









Por iniciativa de José António Barreiros e Liliana Palhinha vai inaugurar-se no sábado, dia 12, pelas 17h30, em Faro, um Espaço de Memória e uma Livraria, - Pátio de Letras -, um projecto que vai enriquecer a oferta cultural da zona. Saudamos a iniciativa e desejamos os maiores êxitos.
Quando me deslocar ao Sul ... lá irei!
Mais informações, aqui!

sábado, julho 05, 2008

Manuela Porto (1908-1950) desapareceu há 58 anos

Manuela Porto (1908-1950) nasceu há 100 anos (24.4) e seria da maior justiça lembrá-la quando ocorreu há pouco um Congresso Feminista. Ela que foi uma paladina dos direitos das mulheres e abriu caminhos inóspitos, tendo traduzido e divulgado autoras até então desconhecidas como Louisa May Alcott, Anne Bronte, Elizabeth Gaskell, Hazel Goodwin, Katherine Mansfield e sobretudo Virginia Woolf, sobre quem fez uma palestra em 6 de Janeiro de 1947, aquando da Exposição de Livros Escritos por Mulheres, na SNBA, evento que haveria de levar à demissão de Maria Lamas do jornal O Século e ao encerramento do Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas em 28 de Junho desse ano.
Curiosamente, é neste ano do seu centenário que o nome de Manuela Porto é finalmente resgatado do silêncio em que se encontrava através de um trabalho académico notável (que em breve será editado) de Diana Dionísio, neta de Mário Dionísio, um dos poetas que Manuela divulgou. Não deixa de ser sintomático que isso aconteça pela mão de uma jovem que, tal como MP, (filha do republicano, escritor e pedagogo César Porto) é herdeira de um património político e cultural que forçosamente lhe moldariam o carácter. Neste trabalho é analisada sobretudo a vertente teatral em Manuela Porto, o que não é pouco, se considerarmos que a mesma foi actriz e, tendo-se afastado dos palcos, nunca deixou de ao teatro estar ligada. Outros caminhos ficam em aberto mas, a partir de agora, tudo será mais fácil. Duro mesmo, foi começar do zero absoluto, como a Diana Dionísio começou. E eu sei do que falo.
Casada com o artista plástico Roberto de Araújo Pereira, MP foi escritora, crítica, encenadora, actriz, declamadora, oposicionista e feminista. Teve um papel importantíssimo na divulgação dos nossos poetas, desde os da Presença aos do Novo Cancioneiro, e foi graças a si que os portugueses conheceram Fernando Pessoa ainda na década de trinta. Mulher extraordinária, muito para além do seu tempo, ela foi a "recriadora dos poetas", a que dizia poesia como quem respira.
Manuela Porto viveu apenas 42 anos. Suicidou-se em 7 de Julho de 1950. Faz hoje 58 anos. Os jornais noticiaram que "morrera em casa", mas não, os amigos ainda a levaram para o Hospital de São José, onde o poeta e médico Armindo Rodrigues assistiu à sua morte, na sequência de uma overdose de barbitúricos. Para a censura não existiam suicídios, nem mortes violentas. Era o país do faz de conta.
«Nada, -- ouviram? -- nada conseguirá salvar do esquecimento de cova cheia a outra Manuela, a verdadeira Manuela do nosso convívio (...) que, no fim de contas, tudo valia para nós: a Manuela de todos os dias no Chiado, da Brasileira, às 6 horas da tarde, dos ensaios pacientes na Academia dos Amadores de Música, das reuniões aos domingos em volta do chocolate do João José Cochofel, dos jantares aconchegados na sua salinha defronte do Enterro de Mário Eloy; a Manuela do sorriso forçadamente quente (às vezes com tantos punhais nos recantos de sofrer); a Manuela que, como todas as mulheres superiores, possuia o segredo daquela intimidade misteriosa que, ao mesmo tempo, aproxima e afasta (e assim quem lhe descobria os defeitos?); a Manuela a ocultar, sob a leve afectação de uma máscara exageradamente feminina, o seu coração de jacobina varonil; a Manuela, amiga e Anjo da Fama dos poetas -- de todos! de todos! -- desde o Fernando Pessoa aos últimos escorraçados do neo-realismo... (pedras de todos os cantos! Insultos de todos os céus! ódios de todos os negrumes! E é por isso que estou com eles. A poesia é escândalo! A poesia é perigo!); a Manuela, ídolo insubstituível dessas trezentas pessoas heróicas que andam, de um lado para o outro, em Lisboa, a fingir cultura: -- a correr das dissonâncias da Sonata para o pescoço torcido da geral do São Carlos; da Exposição das Artes Plásticas para o último concerto de canções do Lopes Graça; da estreia do Auto da Índia no teatrinho do Grupo Dramático Lisbonense para o recital poético na Associação Feminina para a Paz... A Manuela que, quando me encontrava, pedia-me sempre, em cadência de súplica: «ó Zé Gomes: escreva-me uma peça!»
José Gomes Ferreira
(parte de um texto publicado na Vértice, vol X, nº 86, Outubro de 1950)

sexta-feira, julho 04, 2008

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)



Adolfo Casais Monteiro (Porto 1908 - Brasil 1972)



Faria hoje 100 anos. Lembrar-se-ão disso as entidades culturais deste país? Saberão do homem que lutou desde os seus 17 anos contra a ditadura que nos amordaçou meio século? Adolfo Casais Monteiro fez da escrita uma arma no combate pela Liberdade e pela Democracia. Obrigado a exilar-se no Brasil na década de cinquenta, juntou-se às hostes oposicionistas que fizeram do jornal Portugal Democrático, em São Paulo, uma tribuna. Dessa pleiade de cidadãos audazes fizeram parte, entre outros, Vitor Ramos, Augusto Aragão, Carlos Maria Araujo, Fernando Lemos e Jorge de Sena. Destes, apenas Lemos e Sena viram Portugal libertado. Homem de cultura, poeta e fundador da revista Presença, teve no Brasil a carreira académica que aqui lhe foi negada. Foi casado com a escritora Alice Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes, e tem um filho, João Paulo Monteiro, também ele fugido à repressão salazarista nos anos sessenta. Faleceu a 24 de Julho 1972.
De uma compilação de textos seus, saida em 1974, retiro um que nos fala dos artistas e das artes plásticas portuguesas ao mesmo tempo que denuncia os meandros da representação oficial portuguesa à V Bienal de São Paulo, em 1959.

O SNI e os Artistas Portugueses

O fim da Segunda Guerra Mundial despertou em Portugal muitas esperanças, renovou coragens gastas de tanto bater a cabeça contra as paredes do túmulo do pensamento. Entre outras coisas, levou os artistas a tomar posições de independência que os puseram em franca oposição ao mecenato do Secretariado Nacional de Informação (SNI); até aí, as amizades pessoais de António Ferro, que sempre mantivera boas relações com os artistas, tinham-lhe dado uma vitória que o Estado Novo não alcançara em nenhum outro sector: ele pudera jogar com as suas exposições como uma prova de que pelo menos os artistas aceitavam estender a mão à ditadura. Com efeito, era em número reduzido os que entendiam haver também nas artes plásticas uma frente de batalha -- alegando que as suas opiniões pessoais não lhes proibiam fazer, inclusive, cartazes de propaganda. Um conheci eu que, ao mesmo tempo que os duma exposição anti-comunista do SNI, fizera selos do Socorro Vermelho...

Pois em 1946, graças sobretudo à presença de uma nova geração que não fora das relações de António Ferro ao tempo que este era «um dos do Orpheu», iniciou-se a ofensiva, começando a ser boicotadas as exposições oficiais. E foi feita a «I Exposição Geral de Artes Plásticas», que precipitou o fim dos «Salões de Arte Moderna» do SNI, e constituiu, ao mesmo tempo que uma afirmação de independência, moralmente falando, sinal de renovação estética.
Desde então reinou a desorientação nas atitudes oficiais, como se pode verificar aqui pelas divergências de critério quanto à participação portuguesa nas Bienais. Quando da primeira, os «mentores» ainda não tinham percebido que se tratava de arte moderna, e ficaram muito escandalizados por terem recusado a entrada a um académico chamado João Reis. Depois perceberam, e oscilaram entre intervir e não. Essa história está feita; vejamos o que sucedeu agora.

Em 1958, Salazar, logo em seguida à evidente derrota sofrida nas eleições, fez um apelo à juventude, e o SNI «descobriu» então os novos artistas portugueses, convidando-os para uma exposição colectiva em S. Francisco da Califórnia, acenando-lhes com uma exposição em Madrid, com um salão dos «Novíssimos» e... serem levados à Bienal. E, capciosamente, quis fingir-se de fora, para o que convidou dois dos mais considerados críticos de arte para «colaborarem» na organização ou no júri dessas manifestações. Mas o negócio saiu-lhes furado: não só os críticos independentes em questão recusaram dar-lhe a sua colaboração, como o fizeram também 28 dos artistas convidados. Correndo atrás de outros, para que a «fachada» não ficasse muito nua, sofreu mais recusas, e o resultado aí está: da representação portuguesa na V Bienal, somente dois artistas, Júlio Resende e Fernando Lanhas, estão à altura duma representação nacional. O resto é para encher. Valha-nos a presença de Amadeo de Sousa-Cardoso, o qual, tendo morrido em 1918, está, evidentemente, à margem da questão...

Não estão pois na Bienal, salvo as duas excepções que acabo de referir, os mais representativos valores da arte portuguesa contemporânea. Faltam lá Vespeira, Fernando Azevedo, Júlio Pomar, José Júlio, Joaquim Rodrigo, Albertina Mântua, António Charrua, Nikias Skapinakis, Sá Nogueira, Calvet da Costa, Querubim Lapa, Gonçalo Duarte, Menez Ribeiro da Fonseca, Santiago Areal, João Abel Manta, Bartolomeu Cid e Alice Jorge. E estes, com muitos outros, num total de cinquenta, constituíram o Salão dos Independentes, aberto em Junho, o qual, segundo as mais fidedignas informações, revelou um conjunto mito superior ao apresentado no tal Salão dos Novíssimos do SNI. Assim o reconheceu a crítica responsável, enquanto a assalariada os atacava, ou lhes fazia as acusações torpes do costume. Assim ficou novamente clara a separação da arte oficial e da arte independente, passando os representantes daquela a ser justificadamente conhecidos como os Dependentes... E destes saiu, logicamente, a representação oficial ora exposta na Bienal.

Como essa gente é vingativa, não admira que, ao mesmo tempo, a polícia tenha intervindo junto do Instituto para a Alta Cultura a fim de que fosse impedida a organização duma exposição de arte abstracta que a convite da Universidade de Santiago de Compostela, devia realizar-se naquela cidade da Galiza Pois não é lógico? – a maioria dos pintores que desta fariam parte era dos Independentes... Fica assim avisado o respeitável público de que, à sombra do grande e malogrado Amadeo de Sousa-Cardoso, não é uma representação da arte portuguesa que se acha na Bienal, mas uma representação do Secretariado Nacional da Informação. E não é mau saber-se que Nuno Siqueira, René Bértholo, Lourdes Castro, Eduardo Luís e António Quadros (ai, será o nosso Quadros do «independente» baluarte da «filosofia portuguesa», por nome «51»? Querem ver que é mesmo?!) foram os signatários de um manifesto em que se fazia a propaganda das realizações do SNI, manifesto distribuído em Lisboa pelos cuidados de um crítico assalariado do mesmo, pois os ditos artistas estavam em Paris, gozando merecidas bolsas. Ofensivo para os seus colegas Independentes, além de comprometer falsamente outros camaradas seus, o manifesto foi condenado por uma declaração assinada por uns 30 artistas.

Quer dizer que, em vez de reconhecer como única solução a que fora adoptada para a anterior Bienal (em relação à qual o SNI se limitara a trazer para cá os trabalhos escolhidos sem a menor intervenção oficial), voltamos à ditadura nas artes plásticas. Será burrice? Será apenas gosto pela prepotência? Seja o que for, mostra o perigo destas representações deixadas ao arbítrio de governos fascistas. É muito provável que, dos Independentes, muitos não tenham reagido sequer por motivos políticos, mas por recusarem ao SNI autoridade moral e estética que lhe desse o direito de escolher uma representação nacional da arte portuguesa. O pobre do Estado Novo não pretende já ter uma estética própria, como quando um ministro da Educação ao ver o catálogo da representação a não sei qual das Bienais, bradava, arrepelando-se todo, que «aquilo» nunca mais se repetiria. «Aquilo» era a arte moderna... Regenerado sob esse ponto de vista, não se decide o Estado Novo a deixar de meter o nariz, e depois a pata, em assuntos de arte, para mostrar a sua autoridade ... moral. Resignou-se a não ser bota de elástico, mas faz questão de ser policial.

A propósito: o autor destas linhas acaba de saber que está proibida a publicação de artigos seus em Portugal – tratem eles do que tratarem. É o que se prova pelas informações que me chegam, não deixam margem a dúvidas. O ódio ao «nome» é um princípio comum aos fascismos peninsulares. Ainda me lembro de que uma das primeiras «medidas» tomadas pelo Franquismo foi... barrar a tinta preta o nome dos eruditos não-fascistas que prefaciavam os volumes da famosa colecção erudita «Clássicos Castellanos». O prefácio, as notas, etc. lá estavam -- mas desaparecia o nome. Boa ideia: vou ser autor anónimo, em Portugal, ou pseudónimo! Pois se o mal está apenas no nome!

Adolfo Casais Monteiro
(texto publicado no jornal Portugal Democrático, em São Paulo, Brasil, e reunido no livro O País do Absurdo, textos políticos, edição Republica, Lisboa, Dez.1974)



quarta-feira, julho 02, 2008

Esquerda e cultura: o futuro já não é o que era


Esquerda e cultura: o futuro já não é o que era
4 e 5 Julho 2008 :: Lisboa, Fábrica Braço de Prata
ENTRADA LIVRE até às 22:00
Jantares sujeitos a inscrição
Concertos – Teatro – Gastronomia – Conferências – Exposições

terça-feira, julho 01, 2008

Liberdade

Nos meus cadernos da escola
Na minha carteira nas árvores
Sobre a areia e sobre a neve
Escrevo o teu nome

Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas em branco
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Na memória da minha infância
Escrevo o teu nome

Em cada raio da aurora
Sobre o mar e sobre os barcos
Na montanha enlouquecida
Escrevo o teu nome

Na saúde recuperada
No perigo desaparecido
Na esperança sem lembranças
Escrevo o teu nome

E pelo poder de uma palavra
a minha vida recomeça
Eu renasci para conhecer-te
Para dizer o teu nome

Liberdade.

(Paul Éluard, trad. por Jorge de Sena)