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quarta-feira, junho 13, 2018

Alvaro Cunhal (1913-2005)

Alvaro Cunhal na sua 1ª prisão, em 1937


Partiu há 13 anos, num dia 13 de Junho. 
A minha homenagem através de Jose Saramago.


"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. 

As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. 

Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. 

Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. 

Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Green disse a Eduardo Lourenço: "O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal." O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."

Jose  Saramago

http://caderno.josesaramago.org/55262.html





sábado, julho 19, 2008

Eduardo Lourenço, o que não quis ser exilado



Eduardo Lourenço (n. 1923)

Antes de mais quero dizer que sou admiradora de Eduardo Lourenço e gosto especialmente de dois livros "Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista" e "O Labirinto da Saudade" que sempre recomendo a quem queira reflectir nessa coisa do sentir e ser português. O livro foi lançado em 1978 e desde então tem sido uma espécie de manual para os seres que se interrogam e procuram signos identitários. No entanto, em entrevista recente, Eduardo Lourenço confessa ter escrito o livro vinte anos antes, em 1958, quando se encontrava no Brasil, tendo subjacente a problemática africana e a colonização, temáticas que então se desenhavam para todos os povos colonizadores e que para os portugueses desembocariam na Guerra do Ultramar que durou de 1961 a Abril de 1974.

Fiquei admirada. - Então O Labirinto da Saudade não é contemporâneo da primeira edição? Então o professor fazia análises destas nos finais de cinquenta e nunca as publicou? Nunca as deu a conhecer? Nem sequer fora de Portugal? Teria sido uma excelente ajuda para os que aqui e no estrangeiro continuavam a bater-se pela Democracia no país.

Diz o professor: «nessa altura, eu não podia publicar aquele tipo de reflexão sem abdicar de vir a Portugal. E eu disso nunca abdiquei. Não era um militante por conta própria ou por conta de algum partido. Não tinha nenhuma espécie de importância política que me colocasse nesse papel. Era a título puramente privado que eu fazia essas reflexões. (...) E naquela altura ninguém tinha ideia que dali a uns anos o regime pudesse terminar.»

Também no Brasil, onde deu aulas na Universidade Federal da Bahia, Lourenço conviveu com um núcleo de portugueses exilados políticos e, a pedido de Miguel Rodrigues escreveu dois artigos, um deles publicado no Portugal Democrático, mas sob pseudónimo. E foi tudo. Bem diferentes foram as atitudes de Jorge de Sena ou Adolfo Casais Monteiro ou Joaquim Barradas de Carvalho ou Maria Antónia Fiadeiro e outros que sempre colaboraram de cara descoberta com o Portugal Democrático, jornal fundado em 1956, em São Paulo, por Vitor Ramos.

Talvez seja demasiado simplista esta minha análise, mas a verdade é que o professor preferia não publicar, não dar a conhecer o que pensava e reflectia só para não afrontar a ditadura. E, no entanto, ter-nos-iam sido, na altura, de extrema importância as suas reflexões. Como o vieram a ser no pós-25 de Abril, claro. Mas imagine-se a estocada no regime salazarista se O Labirinto da Saudade tivesse sido publicado nos anos 1958/59/60/61 mesmo que em outro país. 

Sentir medo é humano e legítimo. E sempre estarei grata ao professor Eduardo Lourenço por ser o pensador e o grande trabalhador intelectual que ninguém contesta e nos prestigia. Respeito-o imenso mas, confesso, sinto-me defraudada por esta sua postura «anti-oposicionista». Como se de um «herói com pés de barro» se tratasse. Afinal Eduardo Lourenço foi apenas um emigrante que não quis ser exilado. Eu é que estava errada.

Julia Coutinho