Mostrar mensagens com a etiqueta Jose Dias Coelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jose Dias Coelho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Nos 57 anos do assassinato de Jose Dias Coelho

Jose Dias Coelho (1923-1961) em 1946, com 24 anos



A 19 de Dezembro de 1961 o escultor José Dias Coelho foi assassinado por uma brigada da PIDE. 

Era então funcionário do Partido Comunista Português e dirigente da organização de Lisboa, partido político a que aderira em 1942 e passara a trabalhar na clandestinidade em 1955. Viveu sete anos clandestino com a companheira Margarida Tengarrinha e a filha de ambos, Teresa (Set.1953). Na clandestinidade nasce-lhes a segunda filha, Margarida (Abril 1959).

Vários foram os pseudónimos adoptados por Dias Coelho nas diversas frentes do trabalho clandestino. Conhecem-se alguns como Fausto e Romeu mas, quando assumiu a responsabilidade do trabalho com os intelectuais, antes ainda de fazer parte da direcção da organização de Lisboa, adoptou o de Pedro. 

Assinalando os 57 anos sobre a sua morte, torno público um artigo da sua autoria, como Pedro, inserido no Militante nº 99, de Fevereiro de 1959.  Aqui fica para memória futura. E para que o seu nome não seja esquecido apesar das entidades públicas deste país do pós-25 de Abril o ignorarem. Tal como ignora outros que foram mortos pela policia política, que sacrificaram a vida pela Liberdade e acabaram esquecidos de qualquer reconhecimento público pelas entidades do país que também ajudaram a libertar.






Júlia Coutinho
19 Dezembro 2018



sexta-feira, dezembro 29, 2017

Jose Dias Coelho e a última fatia de bolo-rei (1961)

Jose Dias Coelho fotografado junto a um dos seus trabalhos, o retrato de Maria Antonieta, a Fuffi, irmã do colega e amigo, o arqt Vittorio David.

Jose Dias Coelho (1923-1961) era um jovem e muito promissor artista plástico que frequentava as últimas cadeiras do curso de escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, quando de tudo abdicou para seguir os seus ideais políticos e dedicar a vida à luta contra o regime de Salazar.

Nas fileiras da Juventude Comunista desde 1942 e, mais tarde, nas do Partido Comunista, foi sucessivamente activista do MUNAF e do MUD Juvenil, de que foi dirigente empenhado a nível central mas, sobretudo, na sua escola, onde dirigiu lutas renhidas contra a direcção pela implantação de uma Associação livremente eleita pelos estudantes, bem como nas lutas travadas pelos artistas plásticos nas salas da SNBA consubstanciadas nas EGAPs (Exposições Gerais de Artes Plásticas 1946-1956) numa frente comum contra a arte oficiosa do SPE/SNI que incomodou o regime.

Detido pela PIDE em plena campanha eleitoral da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República (Jan 49), manteve-se numa situação de semi-legalidade até que em meados de 1955, quando vivia já com Margarida Tengarrinha (1928) e lhe nascera a primeira filha, Teresa (1953), aceita passar à clandestinidade, como funcionário do PCP, juntando-se-lhe pouco depois a companheira e a filha a tempo de passarem juntos o Natal desse ano.

O casal foi fundar e gerir um Gabinete Técnico onde se fabricavam documentos falsos, fundamentais para a «normal» vida clandestina dos membros do Partido. Quando é morto pela polícia política, a 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche (actual Rua José Dias Coelho), em Alcântara, pertencia à Organização Regional de Lisboa do PCP e dirigia o Sector Intelectual.

Mário Castrim (1920-2002), escritor e jornalista do Diário de Lisboa, recorda, no poema abaixo, a última reunião clandestina que tiveram, em sua casa, precisamente na Rua da Creche, dias antes de o terem morto.








Mário Castrim (1920-2002)



terça-feira, maio 09, 2017

Joao Abel Manta: o artista resistente






«Foram dois indivíduos extremamente importantes para a minha formação mental, o Zé [Dias] Coelho e o João Abel [Manta]; dois líderes naturais (...) um pela consciência política, o outro pela grande cultura»
Rolando Sá Nogueira





Falar de João Abel Manta é recordar uma geração que, no período após a Segunda Guerra, forjou um combate militante ao «Estado Novo» e aprendeu a resistência dos actos, das palavras e do silêncio. Num tempo em que a cultura subvertia e incomodava.

Fixemo-nos em 1945, ano em que finda a Segunda Guerra Mundial e surge o movimento oposicionista MUD - Movimento de Unidade Democrática, e também o ano lectivo (45-46) em que o futuro arquitecto ingressa na escola de Belas-Artes de Lisboa no velho casarão de São Francisco, onde o jovem de 17 anos vai encontrar um ensino obsoleto e um ambiente asfixiante, que desprezará, mas onde vai iniciar um ciclo de encontros, partilhas, lutas e emoções que irão consolidar o homem e o cidadão João Abel Manta.

Um curriculum idêntico ao primeiro ano de pintura, escultura e arquitectura aproxima-o de colegas com cadeiras em atraso[i] como Jorge Vieira, Francisco Castro Rodrigues, Duarte Castel-Branco, Rolando Sá Nogueira e José Dias Coelho, criando um grupo de amigos que dará origem a “uma verdadeira tertúlia (...) onde cada indivíduo contribuía com a sua curiosidade e com o seu saber para o conhecimento do grupo inteiro”.[ii]

João Abel já então detinha, pelo berço e pelo convívio[iii], uma enorme cultura nas áreas das artes plásticas, música, cinema e literatura, pelo que a sua preponderância no grupo surge naturalmente. Nas palavras de Sá Nogueira, um dos seus grandes amigos:   “eu costumo dizer que li o Eça de Queirós por causa do João Abel Manta (...) Em miúdo não lia, mas com os meus amigos, nas nossas tertúlias, li o Eça e muitos outros autores porque eu próprio concluí ser necessário, e passei a ter prazer na leitura (...) O mesmo com a música.
Outra particularidade o distingue: as viagens anuais que com os pais faz a Paris e outras cidades europeias de onde regressa carregado de livros e revistas que aqui não existem, e que passam de mão em mão entre os amigos. Será, pois, nestas tertúlias que se vão fomentando gostos e criando hábitos culturais e de convívio, que suprirão, em parte, as lacunas escolares e até familiares de muitos deles.

No grupo, enquanto João Abel prevalecia pela cultura, José Dias Coelho impunha-se pela acção cívica e política e teve, conforme Sá Nogueira, “uma importância muito grande na formação cívica do grupo, porque estava sempre a espicaçar” assumindo a “função de alertar os outros” e levá-los a agir enquanto cidadãos.

J Abel Manta com J Dias Coelho e R Sá Nogueira


O MUD Juvenil é formado em Julho de 46 e a sua organização em Comissões nos diversos estabelecimentos de ensino estendeu-se também a Belas-Artes[iv], tendo-se iniciado aí os maiores esforços  para revitalizar a associação académica que estava inactiva desde os anos trinta. Foi eleita uma pró-comissão abrangente que trabalhou com empenho na discussão e aprovação dos respectivos Estatutos que, lamentavelmente, a tutela nunca homologou. Criou-se no entanto uma dinâmica que jamais se apagaria, tendo Belas-Artes integrado nesse mesmo ano a primeira Festa da Queima das Fitas comum a toda a academia de Lisboa quebrando o velho hábito dos festejos isolados.



Alunos de Belas Artes no final do ano lectivo 1945-46 (JAM é o 3º da 1ª fila a contar da direita)






Belas-Artes no final do Cortejo da Queima das Fitas em 1946 (JAM está na última fila só aparecendo a cabeça)




O ano de 1947 será paradigmático da resistência dos jovens ao regime de Salazar e para a História ficam as violentas repressões ocorridas na Semana da Juventude (Março) e no assalto pelas polícias à Faculdade de Medicina[v] (Abril), onde os estudantes se reuniam em protesto e solidariedade com os camaradas do MUD Juvenil perseguidos e encarcerados. É neste contexto que João Abel concebe o desenho “Natal de 1947” assinado apenas JA (João Abel) para angariação de fundos que revertessem em apoio aos valentes jovens mudistas.



O original foi oferecido pelo autor ao amigo Dias Coelho e este, ao entrar para a clandestinidade, em 1955, ofereceu-o a uma amiga, Lia Fernandes, que ainda o conserva



Ainda nesse ano, participa na II Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP), assistindo à violência da PIDE que invade a SNBA e apreende onze obras de dez neo-realistas, só as devolvendo com a exigência de não mais voltarem a ser mostradas em público.[vi] 
Virá a participar em todas as EGAPs (1946-56) tal como pertencerá aos corpos directivos da SNBA e aos do seu Sindicato (Arquitectos). Igualmente será um dos fundadores e membro activo da cooperativa GRAVURA formada em 1956.
Hoje as EGAPs estão esquecidas. E, no entanto, não subsistem dúvidas de que as mesmas configuraram “o primeiro combate organizado pela oposição ao Salazarismo”[vii] precisamente pela “consciência que trouxeram aos artistas da recusa de expor no SNI”[viii] e ainda pela frente cívica que constituíram e as sensibilidades que juntaram.
À distância, tendo presentes as discussões que se seguiram entre neo-realistas e surrealistas e o desespero aqui evidenciado pelo regime, é legítimo concluir que, por mais ingénua que haja sido a sua formulação, o neo-realismo foi a linguagem certa para o momento certo, a mais incomodativa e aquela que, pelo seu sentido pragmático, na feliz expressão de Ernesto de Sousa, melhor atingiu os objectivos da oposição. Como dissera Álvaro Cunhal num escrito elaborado na Penitenciária e publicado na revista Vértice, sob o pseudónimo de António Vale, o conteúdo haveria de dominar a forma.

 
Jantar de alguns artistas participantes na II EGAP, Maio 1947


Num período propício à formação de movimentos cívicos e culturais como o campismo e o cineclubismo, por exemplo, é criado em Lisboa por iniciativa de José Ernesto de Sousa e outros jovens, o Círculo de Cinema que, entre outras actividades, editava um Boletim. Pelo seu imenso activismo o clube torna-se suspeito e, quando a PIDE assalta a sede e prende alguns membros, apreende também um Boletim em fase de composição no qual se noticia o nome de todos os dirigentes, incluindo João Abel Manta que co-dirigia essa publicação[ix].
Acresce ainda que a sua morada já andava a ser vigiada por servir de recepção de correspondência (que entregava a Dias Coelho) e o seu quarto, “que até tinha uma porta que dava directamente para o patim da entrada” era utilizado para reuniões clandestinas, a pedido do amigo Zé Coelho.

E foi assim que pelas 00:30 da madrugada do dia 1 de Fevereiro de 1948, João Abel é preso pela PIDE na casa dos pais — Rua Tenente Valadim (actual Infante Santo) 362-2º Esq. — e levado para a prisão de Caxias por “fazer parte de uma organização clandestina”.[x]  Tinha 20 anos, acabados de fazer no dia anterior, 29 de Janeiro.


Ficha da PIDE de João Abel Manta (apesar do mau estado é um documento importante)


Em Caxias, começa por ser colocado em companhia dos cineclubistas mas “eles acabaram por sair primeiro e eu fiquei lá sozinho na cela”. Os interrogatórios na sede da PIDE são de extrema violência psicológica com o famigerado Fernando Gouveia a exigir nomes. Para não colocar em perigo gente ainda não assinalada pela polícia, como Dias Coelho, cita alguns membros do Juvenil que estiveram ou ainda se encontravam presos. Fisicamente não foi torturado: os agentes tratariam com alguma deferência uns tantos que consideravam serem filhos-família.

A Direcção [Universitária] Provisória do MUD Juvenil emite um comunicado apelando à unidade e ao protesto, afirmando que “a defesa dos nossos amigos presos é a própria defesa do Movimento”, ao mesmo tempo que um abaixo-assinado de solidariedade para com João Abel é posto a circular na Escola de que era aluno mas sem grande êxito porque “entre os colegas do meu curso [arquitectura] houve uma série de gente que recusou assinar com medo do «Cunha Bruto»”, o professor que tutelava duas cadeiras fundamentais do curso e que todos os alunos temiam. No entanto houve um número restrito que não se deixou intimidar e corajosamente protestou junto da PIDE pela prisão do colega: José Dias Coelho, Rolando Sá Nogueira e Nuno Craveiro Lopes

 
Nuno Craveiro Lopes, colega e amigo de JAM. Ambos terminariam o curso de Arquitectura em 52 mas NCL fará toda a vida profissional em Lourenço Marques (Maputo) tendo aí falecido em 1971.


É solto a 14 de Fevereiro de 1948. Sobre a reacção familiar, recorda que o pai Manta, apesar de oposicionista, “não gostou que eu tivesse sido preso, achava um bocado inútil essas coisas (...) mas a minha mãe reagiu extraordinariamente e deu-me todo o apoio” - ou não fosse Clementina Carneiro de Moura uma digna subsidiária da ética republicana.[xi]

A polícia política não mais o largaria. Mas João Abel Manta nunca deixará de intervir socialmente, sobretudo quando estão em jogo as causas da cultura.

Quando em 1959 morre Diogo de Macedo e o regime nomeia o pintor Eduardo Malta para o substituir na direcção do Museu de Arte Contemporânea, João Abel afirma publicamente: “Com Diogo de Macedo sempre trilhámos os caminhos da arte do nosso tempo, mas agora teremos certamente de lutar contra todos os preconceitos e ameaças que nos vão tolher os passos”[xii]. Essa luta contra o conhecido academismo de Malta ficou expressa numa das várias representações então dirigidas ao ministro da Educação Nacional, discordando da nomeação e sugerindo/exigindo que fosse substituído.[xiii]

Várias obras de João Abel foram censuradas e o auge acontece já na época marcelista com a acusação de ridicularizar a bandeira portuguesa num cartoon publicado no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa de 11.11.1972 e, por isso mesmo, levado à barra do Tribunal. O desenho apresentava uma bandeira nacional sem a totalidade dos atributos e, no centro, por sob a esfera armilar, uma cabeça de mulher, supostamente a cantar. Era óbvia a crítica aos habituais festivais da canção de onde os artistas de maior qualidade estavam arredados. 


O cartoon que irritou Marcelo Caetano



Viu-se obrigado a pagar uma fiança para aguardar julgamento em liberdade e em Junho de 73 quando o processo finalmente foi concluido, com a sua absolvição, foi afirmado pelo advogado de defesa, José Carlos de Vasconcelos:
“Este não foi o processo de João Abel Manta – mas o processo dos seus próprios denunciantes, da censura, do fascismo (...) É portanto um processo político, que leva ao extremo do ridículo a farsa da pseudoliberalização marcelista (...) e é também um processo que felizmente chegou até este tribunal (...) cuja única sentença condenatória será, na consciência de nós todos, homens livres, para o regime que trouxe para este banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Manta.” [xiv]

O 25 de Abril de 1974 chegaria a tempo de João Abel Manta não voltar a ser incomodado pela polícia política, desta feita pelos desenhos do livro Dinossauro Excelentíssimo que produziu com o amigo José Cardoso Pires, e que ficaria para a posteridade, a par com as suas Caricaturas Portuguesas do Tempo de Salazar, como a mais lúcida e feroz denúncia dos cinquenta anos de obscurantismo vividos no nosso país.




Julia Coutinho

Nota:  este artigo, com ligeiras alterações, foi publicado no catálogo de uma Exposição realizada pela CM Amadora, em 2008, pelos 80 anos de vida de João Abel Manta.
 


[i] João Abel Manta foi dos raríssimos alunos (se não o único) a fazer o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, sem atrasos. As razias eram em Geometria Descritiva ou em Desenho Arquitectónico (1º ano) e Construções (4º ano) de Luís Alexandre da Cunha, o “Cunha Bruto”, que também foi director da escola. Ficaram célebres as debandadas para a Escola de Belas-Artes do Porto, para fazer as cadeiras deste professor.
[ii] Rolando Sá Nogueira, entrevista à autora, em Março.2001. Todas as citações de RSN são desta fonte.
[iii] A Família Manta convivia com Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Dordio Gomes, Keil do Amaral, Gualdino Gomes, Lopes-Graça, Bernardo Marques, Bento Jesus Caraça, Pulido Valente, e muitos outros.
[iv] Pertenceram à Comissão do MUD Juvenil da Escola de Belas-Artes de Lisboa, entre 1946-1952, J.Dias Coelho, J.Abel Manta, R.Sá Nogueira, Jorge Vieira, Lima de Freitas, Nuno Craveiro Lopes, Alice Jorge, F. Castro Rodrigues, M.Emília Cabrita, Raul Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, António Alfredo, M.Cecília Ferreira Alves, Bartolomeu Cid, A. Sena da Silva, Lia Fernandes, Tomás Xavier de Figueiredo,  etc.
[v] Em 29.04.1947 com prisões e agressões indiscriminadas. Na sequência, Salazar demitiu grande número de professores do ensino superior, nomeadamente o director da Faculdade de Medicina.
[vi] Foram 10 as EGAP´s, entre 1946-1956. A invasão da Pide deu-se a 13.05.1947 pelas 13 horas, e as obras apreendidas foram 11, de Julio Pomar, Avelino Cunhal, Viana Dionísio (Jose Viana) Jose Chaves (Mário Dionísio), Maria Keil, Arnaldo Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares (2 obras) e Rui Pimentel (Arco).
[vii] Antonio Valdemar, “SNBA: continuidade e ruptura”, DN 18.03.2001
[viii] João Abel Manta, entrevista à autora em 22.08.2002. Todas as citações de JAM são desta fonte.
[ix] A sede funcionava na Rua B às Amoreiras 4-1º Dto – Lisboa, das 21.30 às 24 horas, em casa alugada para o efeito e inaugurada em 10.11.1947. O assalto da PIDE deu-se em 31.01.1948.
[x] Conforme Registo Geral de Presos e Processo  ANTT/ PIDE/DGS 214/48 – NT 4956
[xi] Abel Manta (pai) foi muito maltratado pelo regime. Em 1932, concorre à Escola de Belas Artes de Lisboa para professor de Pintura, sendo preterido por Henrique Franco, num processo muito pouco claro, de que recorreu. Um ano depois, Henrique Franco demite-se e, em vez de ser chamado o segundo classificado no concurso, o regime nomeia Varela Aldemira que fora discípulo de Columbano.  Já em 1939 Abel Manta e Dordio Gomes haviam sido chamados para decorar a escadaria principal do Palácio de S. Bento. Por questões estéticas, são dispensados quando as obras se encontram quase prontas, sendo as mesmas destruídas e ambos substituídos por Lino António, numa humilhação sem precedentes apesar de terem sido indemnizados.
[xii] Lista da PIDE com declarações públicas dos artistas plásticos e assinalando, de entre eles, quais os que se encontravam representados no Museu de Arte Contemporânea.
[xiii] A acção de Eduardo Malta (1900-1967) à frente do Museu de Arte Contemporânea revelar-se-ia catastrófica, a todos os níveis, como já foi publicamente admitido. Após o incêndio do Chiado seria o edifício objecto de requalificação profunda, reabrindo em 1994 como Museu do Chiado.
[xiv] J. Carlos Vasconcelos, «Cartoons» que abalaram o fascismo  e fizeram sorrir a revolução», in O Jornal de 19.12.75, pp. 20-21.



sábado, julho 02, 2011

Jose Dias Coelho: a arte e a vida de mãos dadas

Imagem da sessão de 20-06-2011 com o organizador, prof José Fernando Vasco


No passado dia 20 fui à Escola Secundária Cacilhas-Tejo fazer uma conferencia sobre José Dias Coelho a que chamei «A arte e a vida de mãos dadas».

Fui muito bem recebida e tive uma plateia interessada e atenta.

Aqui vos deixo a notícia realizada pelos organizadores.
http://becre-esct.blogspot.com/2011/06/jose-dias-coelho-arte-solidariedade-e.html

E também a avaliação que a assistência fez da sessão:

http://becre-esct.blogspot.com/2011/06/o-prazer-de-ler-xii-jose-dias-coelho_22.html

Vale bem a pena a divulgação da vida e da obra do escultor José Dias Coelho, um homem morto pela PIDE aos 38 anos, quando muito havia a esperar dele como Homem e como Artista Plástico.


JC

quarta-feira, abril 28, 2010

In Memoriam de Sofia Ferreira (1922-2010)

(1 Maio 1922 - 22 Abril 2010)

Conheci pessoalmente Sofia Ferreira em Fevereiro de 2001 quando acedeu a conversar comigo sobre Jose Dias Coelho, a experiência desse convívio na clandestinidade e, no geral, sobre os tempos sombrios que conheceu como ninguém. Fiquei deslumbrada com a sua doçura e humanidade. Nunca me regateou uma conversa mesmo sabendo que eu era uma ex-pcp. Muitos dos seus camaradas não conseguem ter essa abertura própria de almas superiores. Habituei-me a amá-la e respeitá-la. Guardo o livro de Giovanni Ricciardi sobre Soeiro Pereira Gomes que me ofereceu com a dedicatória: «Para a amiga Júlia como uma boa recordação da nossa conversa sobre a História do PCP e do camarada Dias Coelho». Foi com grande mágoa que a vi partir no passado dia 22 uns dias antes de completar 88 anos. Deixou-nos para sempre uma grande Mulher. Viva Sofia Ferreira!

Deixo-vos com um texto da jornalista São José Almeida inserido no Público de 24 de Abril.


A sua vida e a luta sobressaem como referências maiores de alguém que conhecia o sentido da justiça e da solidariedade

A última vez que falei com Sofia Ferreira foi em 2004, na sede do PCP na Rua Soeiro Pereira Gomes, em Lisboa. O motivo foi um trabalho que realizei então sobre um conjunto de cartas escritas por algumas das mulheres que estavam presas na cela das mulheres em Caxias, em 1961. As cartas destinadas à publicação numa revista política internacional, mais não eram do que denúncias da violência exercida sobre os antifascistas nas cadeias da PIDE. E neste caso com a particularidade raríssima de serem denúncias escritas por mulheres.

Sofia Ferreira não assinava nenhuma dessas cartas, mas aceitou falar comigo assumindo-se como a dirigente do PCP que era à época, em conjunto com Maria Alda Nogueira, responsável pela célula do PCP na cadeia de Caxias. Esta conversa veio-me à memória, quando há uns dias me disseram que Sofia Ferreira estava mal, pois tinha sofrido um AVC. A notícia da sua morte veio dias depois, na quinta-feira.

Faleceu a poucos dias de completar 88 anos (nasceu a 10 de Maio de 1922) uma das mais importantes mulheres que se dedicaram à vida política em Portugal no século XX e uma das mais marcantes e importantes mulheres que conseguiram atingir o topo da hierarquia do centralismo democrático do PCP e integrar a sua direcção máxima, o comité central desde o V Congresso em 1957, no local da Galiza, na freguesia do Estoril, até ao XII Congresso, no Porto, em 1988.

A memória dessa conversa que mantivemos numa das salas do rés-do-chão da Soeiro (a primeira à esquerda, logo ao pé da escada) é a força do seu olhar, bem como a tranquilidade e a certeza que dela emanava de quem não duvida um minuto da bondade e da verdade das convicções pelas quais fez o sacrifício da sua vida dedicada aos outros. Nunca falando de si, tratou de certificar que as cartas eram verdadeiras e de contar a forma como a organização clandestina do PCP cumpriu esta tarefa política de denunciar o que se passava nas cadeias fascistas.

Nunca falou de si. E de pessoal durante toda a conversa só uma discreta pergunta, com um sorriso e alguma ternura nos olhos: "Foi você que fez a biografia da Maria Alda, não foi? Um dia havemos de falar..." E respondi que sim, que Maria Alda Nogueira tinha sido a minha primeira biografada, e ficámos de conversar um dia. A voragem da actualidade e a obsessão da notícia, mais as voltas da vida, acabaram por nunca possibilitar essa conversa.

Irmã de Mercedes Ferreira e de Georgete Ferreira, Sofia Ferreira, que é hoje em Portugal uma personalidade quase desconhecida e uma referência apenas para algumas gerações mais velhas, é uma das figuras que marcam o século XX português, pela sua capacidade de entrega e de abnegação em beneficio da comunidade, desde que em 1946 mergulhou na clandestinidade como militante do PCP. Valores que à luz dos dias de hoje parecem estranhos numa sociedade que cedeu ao individualismo e aos egoísmo mais cruel e desumano.

Sofia Ferreira foi uma das mulheres que mais anos de prisão cumpriu, mais de 13 anos nas cadeias da PIDE (de 25 de Março de 1949 a 4 de Fevereiro de 1953 e de 28 de Maio de 1959 a 6 de Agosto de 1968). Presa a primeira vez com Álvaro Cunhal e com Militão Ribeiro no Luso, é presa a segunda vez em conjunto com o seu marido, António Santo, na rua, em Lisboa. Em 1969, passa algum tempo na União Soviética e assume depois responsabilidades de topo na hierarquia do PCP, antes e depois do 25 de Abril.

A importância real de Sofia Ferreira no aparelho e na história do PCP é conhecida e faz parte da história de Portugal. Teve, de acordo com a sua biografia oficial, responsabilidades diversas e de peso ao longo de décadas. Da imprensa clandestina ao apoio ao secretariado, passando pela responsabilidade de várias organização regionais.

O momento da sua biografia política mais conhecido é o facto de ter sido presa com Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro na casa clandestina do Luso em 1949. Sobre a qual fez, aliás, um impressionante depoimento, logo após o 25 de Abril a Rose Nery Nobre de Melo que mostra como de facto Sofia Ferreira sabia exactamente o peso e a importância do seu percurso (Mulheres Portuguesas na Resistência, Seara Nova, 1975).

Senhora de uma segurança imensa, Sofia Ferreira tinha atrás de si a lenda de ter sido presa no Luso com Cunhal e Militão, onde era a companheira da casa clandestina. Era olhada por muitos como uma das namoradas de Cunhal. Mas o seu prestígio e a sua autoridade vinham do que foi o seu percurso e a sua magnífica capacidade de entrega.

Estranhamente ou não, esta mulher discreta e dura, mas afável, era mencionada muitas vezes como a "terrível Sofia". Uma forma de tratamento curiosa, que não era exclusivo seu - havia também a "terrível Alda" e a "terrível Georgete", por exemplo. O que diz muito sobre o PCP, mas sobretudo sobre o Portugal, quer de antes, quer depois do 25 de Abril. O país machista, em que a autoridade de uma mulher não é vista com respeito e por mérito próprio, mas sim como algo que é fruto de um carácter diferente do que é ser mulher, como algo antinatural numa mulher, logo terrível.

Sofia Ferreira foi das poucas mulheres a mostrarem o que era capacidade de luta, de liderança, de sacrifício em nome dos outros, da política e de um projecto. Foi das poucas mulheres na sua época e da sua geração a mostrarem que as mulheres podem ser iguais aos homens. E nesse sentido também uma pioneira. E, por mais que nos distanciemos do seu projecto e o recusemos, não podemos rejeitar o mérito e a grandeza de uma mulher que dedicou a sua vida à luta em que acreditava e sobre a qual estava convencida de que com ela melhoraria a condição dos seres humanos e lhes daria dignidade.

Num país retrógrado e conservador como Portugal em que ainda hoje as mulheres - mesmo trabalhando ao lado do homem ou mais que este e recebendo menos -, são consideradas em função do que é o espaço do lar e o espaço da família, a vida e a luta de Sofia Ferreira sobressaem como referências maiores de alguém que conhecia o sentido da justiça e da solidariedade.

Obrigada Sofia Ferreira por tudo o que deu sempre aos outros e por eles. E desculpe ter-me deixado atropelar pela voragem dos dias e nunca termos tido a oportunidade de ter aquela conversa. Jornalista (
sao.jose.almeida@publico.pt)


http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=35682