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terça-feira, novembro 20, 2018

In Memoriam de Alexandre Vargas (1952-2018)


 
 
 
Alexandre Vargas Ferreira (31 Dez 1952 - 14 Nov 2018)

Alexandre Vargas faleceu. Foi encontrado morto em sua casa. E eu, que poucas vezes estivera com ele, fiquei impressionada como se de um amigo íntimo. Estranho fenómeno este. Conheci-o nos anos oitenta e através do irmão e meu amigo, o arquitecto Raúl Hestnes Ferreira (1931-2018), também falecido em Fevereiro deste ano, fui-o acompanhando. Porque o Alexandre era dotado de rara sensibilidade mas muito introvertido e a morte do pai, o poeta José Gomes Ferreira (1900-1985), afectou-o muitíssimo. Tinham uma relação muito próxima e Gomes Ferreira votava um amor especial a este filho que lhe nascera já na idade serôdia, 21 anos depois de ter sido pai pela primeira vez. Chamou-lhe Alexandre, o nome do avô, o grande benemérito republicano Alexandre Ferreira (1877-1950) falecido pouco antes. E o Alexandre dedicou-se à Filosofia e tornou-se Poeta adoptando o nome da mãe Rosalia Vargas.
 
Aquando da data do aniversário do pai (8 Fev), a seguir a ter falecido, o JL de Fev 1986 celebrou-o e o nosso poeta Alexandre publicou o poema "Um beijo para Zé Gomes um ano depois" cuja cópia, apesar de não muito boa, deixo aqui. Depois esteve 10 anos silencioso. Foi um longo período de recolhimento. Pelo caminho ficou um livro, ainda inédito, para o qual Luis Manuel Gaspar fez desenhos aos quais pertence o retrato abaixo reproduzido.


JL, Jornal de Letras, Fev 1986

Desenho de Luis Manuel Gaspar, de um conjunto que o autor fez para um livro de Alexandre que nunca chegou a sair 


Numa entrevista de inicios de noventa o Raul falou sobre as escolhas profissionais dos dois irmãos e da influência que o pai exerceu em ambos:

«Eu também gostava muito de escrever, mas fui também muito influenciado pela personalidade do arquitecto Keil do Amaral. O meu pai convivia muito com artistas plásticos - sei lá...Manuel Ribeiro de Pavia, a pintora Maria Keil,... - e os meus padrinhos foram Bernardo Marques (desenhador) e Ofélia Marques (uma grande pintora, também). Eu fui criado nas artes, e gostava muito de desenhar. Aos 15, 16 anos, naquelas opções da escola, acabei por enveredar pela arquitectura, e não estou nada arrependido, de facto. 
 
Com o meu irmão já foi diferente. Era muito mais novo do que eu - menos 21 anos - e acabou por ter uma relação muito diferente com o meu pai. Quando ele nasceu, já o escritor José Gomes Ferreira era muito conhecido - o que não aconteceu comigo. Apanhou a fase áurea do meu pai, e, influenciado ou não - e acredito que sim - acabou por ingressar em Humanidades, e depois na Faculdade de Letras. Se bem que a poesia dele seja muito diferente da do meu pai: é uma poesia muito de conceitos, abstracta, um pouco hermética e difícil - e daí talvez que ainda não seja muito conhecida. Mas eu pessoalmente gosto muito.»

E sobre a edição obra do pai:

«Em relação à divulgação da obra [do poeta José Gomes Ferreira], penso que ela tem deixado muito a desejar. Há ainda pelo menos 19 volumes para editar do seu diário - saiu apenas o 1º volume.* E há muitos outros livros e crónicas para publicar. Eu gostaria de me empenhar mais nisso, mas tenho também muito pouco tempo. Os direitos de autor foram-nos legados a mim e ao meu irmão - e tomamos todas as decisões em conjunto acerca da sua obra - mas o meu irmão é também uma pessoa muito introvertida, não tem "queda" para isso...Eu quero ver se arranjo mais tempo.»
 
 
Alexandre e o pai na casa de Albarraque desenhada por Raul em 1960
 
 
O poeta deixou alguns livros publicados e sabe-se que trabalhava numa recolha de toda a sua poesia com vista a publicação.
 
O Alexandre vai ser cremado amanhã, dia 17, no Alto de São João.
 
Até sempre, Poeta Alexandre Vargas.
 
 
 
 

* Até ao momento já sairam nove Diários de José Gomes Ferreira, pela Dom Quixote. Esperemos que tenham continuidade e se editem os restantes dez volumes.


http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/j_g_ferreira/entrevis.html
 

sábado, abril 15, 2006

Estávamos em 1939...

Na Europa, as guerras sucediam-se. À primeira Grande Guerra (14-18) sucedera-se a de Espanha (36-39) e depois a Segunda Mundial (39-45). Em Portugal viviam-se tempos conturbados e repressivos: perseguições, prisões, torturas, mortes. A Polícia Política e a Censura eram os principais bastiões da Ditadura. Os seus sustentáculos.

Mas houve, sempre, homens que resistiram. Pelas mais diversas formas.


Este poema foi escrito por José Gomes Ferreira.
Para ser cantado por Edmundo Bettencourt.
A revista Seara Nova quis publicá-lo.
A Censura não deixou. A Resistência deu-lhe vida.



Serenata Cínica


Menino que vais na rua
não cantes nem chores: berra.
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.

Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.

Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.

Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.

Pisa a lua sem remorsos
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.

Pisa-a, frio, com coragem
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.

Menino que vais na rua
não chores, nem cantes: berra
ou então salta p'rá lua
e mija de lá na terra.



José Gomes Ferreira
o poeta que se recusava a ter mais de 20 anos

in Poeta Militante, 1º volume, pub. D. Quixote, p. 237