Para os Meus Amigos,
E para todos os que ainda o não são mas que fazem parte, já, dessa teia invisível de relacionamentos que à Amizade conduzem.
[…]
"Em muitos contos, o herói, em busca da verdade, chega a uma zona fronteiriça entre o interior e o exterior, entre a superfície e as profundezas, entre o aquém e o além, onde encontra animais que vêm em sua ajuda, falam com ele e lhe mostram o bom caminho no anti-mundo da sua consciência. Em O Principezinho, é à Raposa que cabe esse papel [...] pois, na fronteira do além do deserto, o seu conselho vem realmente salvá-lo.
Com efeito, mal o Principezinho chega à terra e se aproxima do mundo dos homens, imediatamente se vê posto em questão. Ninguém conseguiria viver sem algo a que se consagrasse, que fosse para si único, belo, precioso. Até então, no seu pequeno planeta, a Rosa constituía para o Principezinho esse tesouro. Considerara-a incomparável durante tanto tempo – nunca pudera confrontá-la com mais nada – que a vira como um milagre único. Ora, eis que calha passar por um jardim cheio de rosas e é forçado a uma dolorosa comparação que ameaça abalá-lo profundamente.
Quando se desmorona aquilo em que acreditámos como algo absoluto, quando o que se reverenciou e amou aparece subitamente como um exemplar entre outros pertencentes a uma espécie de indivíduos multiplicáveis à vontade, quando aquilo a que nos dedicamos de alma e coração parece de repente esvaziar-se de valor pelo simples facto da sua abundância, não só nos decepcionamos como podemos sentir-nos completamente perdidos e órfãos – ficamos sem saber onde fixar o coração. É o que acontece ao Principezinho quando se descobre diante de cinco mil rosas. Num instante tudo é posto em questão: o problema de saber se a sua Rosa é única determina o sentido do mundo, a alegria, a esperança, o amor, a confiança, o passado e o futuro; a única coisa que lhe interessa agora é saber o que torna a sua Rosa única: este carácter não poderá constituir uma qualidade objectiva, pois não se trata de uma propriedade exterior, mas depende de uma visão da alma e portanto só se poderá extrai-lo do interior. É o coração que confere ao outro o seu valor e significado. Essa é precisamente a lição da Raposa, o conteúdo da sua introdução mágica no universo do amor.
No essencial, a Raposa não vem ensinar nada de novo ao Principezinho. As lições que lhe dá apenas servem para muni-lo contra o perigo da realidade exterior mostrando-lhe em que consiste a sua riqueza interior e o carácter único da Rosa. Trata-se de tornar plenamente consciente, e assim fortificar, o que ele já intuíra no seu planeta. Aí, só por acaso, descobrira a Rosa, como um feliz achado. Ela crescera de repente no seu mundo, e foi sem o notar, pelo simples facto de, bem ou mal, ter suportado os seus humores, admirado a sua beleza e protegido a sua susceptibilidade, que se criara um laço interior de confiança e de familiaridade. Tinham-se ligado um ao outro sem querer, duma forma natural. Sem saber, o Principezinho tinha aprendido o segredo da amizade. Como lhe explica a Raposa, a amizade consiste precisamente nesse paciente processo de aprendizagem progressiva e nessa descoberta recíproca da confiança que acontece quando dois seres são «cativados» um pelo outro. No amor, como em tudo o que possui valor para o ser humano, é absurdo pretender «poupar» tempo, como o fazem as «pessoas crescidas», e querer colher frutos antes de florirem e amadurecerem. A pressa, a insistência, a precipitação só lhe podem causar dano, pois os mais tímidos e sensíveis, os mais pudicos e apaixonados dos enamorados precisam de um longo tempo de aproximação que lhes permita desfazerem-se de qualquer receio do «caçador» e habituarem-se progressivamente à presença do outro, entregando-se-lhe de dia para dia um pouco mais. Não se pode comprar o afecto, a confiança, a ternura ou a elevação da alma que possibilita a presença do outro, daquele que se ama. Mas pode descobrir-se a pouco e pouco a linguagem dos seus olhos, as suas expressões, os seus gestos – tudo aquilo que faz com que se inaugure uma relação infinitamente preciosa e única, de valor incomparável.
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Quanto mais longa é a busca do outro, essa maturação da confiança que resulta de se ser «cativado», mais a relação se enriquece com a comunhão e as recordações de tudo o que se viveu em comum, e a poesia da ternura das coisas funde-se com o rosto e o ser do outro, como se o universo fosse afinal um imenso campo de forças cujas linhas levam ao coração amado.
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Não há amizade que não se submeta às leis de tal “cerimonial”, da sacralização ritual do tempo vulgar, para que a presença se dê interiormente.”
Eugen Drewermann, O Essencial é Invisível, uma leitura psicanalítica de O Principezinho, pp. 45-48




