domingo, maio 28, 2006

Testamento de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1993)



 Maria Helena Vieira da Silva (1908-1993) - retratada pelo marido
 
 
«TESTAMENTO» 

Eu lego aos meus amigos

Um azul cerúleo para voar alto.
Um azul cobalto para a felicidade.
Um azul ultramarino para estimular o espírito.
Um vermelhão para o sangue circular alegremente.
Um verde musgo para apaziguar os nervos.
Um amarelo ouro: riqueza.
Um violeta cobalto para o sonho.
Um garança para deixar ouvir o violoncelo.
Um amarelo barife: ficção científica e brilho; resplendor.
Um ocre amarelo para aceitar a terra.
Um verde veronese para a memória da primavera.
Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.
Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.
Um amarelo limão para o encanto.
Um branco puro: pureza.
Terra de siena natural: a transmutação do ouro.
Um preto sumptuoso para ver Ticiano.
Um terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra.
Um terra de siena queimada para o sentimento de duração.


(texto encontrado nos papéis de M Helena Vieira da Silva após a sua morte,
onde nos transmite a convicção de que as cores, simples matéria pigmentada, contêm afinal todo o arco-iris de que a vida é composta)

quarta-feira, maio 24, 2006

Braçadas de cravos vermelhos para ti, Fernando.

Fernando Bizarro



 
O Fernando partiu
Sem dizer adeus.
Foi embora,
simplesmente.

Revelou-me a blogosfera.
Abriu-me as portas.
Convidou-me.
Desafiou-me.
Empurrou-me.
Obrigou-me a entrar.

Fiz-lhe a vontade.
E fiquei a dever-lhe:

Blogstícios
Blognócios
Desafios
Sensações
Discussões
e Amizades

que... valeram a pena.
Que vão ficar.
Para sempre.

Obrigada, Fernando.
 
 
julia coutinho
 
 
 

terça-feira, abril 25, 2006

Viva o 25 de Abril!

Vivam os militares que no-lo deram!
. Em 25 de Abril de 1974 os militares do MFA
cumpriram a sua missão patriótica, a utopia...
tornava-se realidade e o povo português celebrava
em festa a sua liberdade resgatada!

Vasco Lourenço, fotografado por Dionísio Leitão, a ler

a Mensagem dos Capitães de Abril de 1974 aos Jovens de Hoje:

SINTAM a Liberdade,
como condição essencial da dignidade humana.
VIVAM em Liberdade para a paz, a solidariedade,
a justiça e o bem estar individual e social.
LUTEM pela Liberdade sem medo,
mas com respeito pela liberdade dos outros.

(in 32 Anos de Vida. 30 Anos de Poder Local Democrático, A25A, 2006)

--
Associação 25 de Abril

sábado, abril 15, 2006

Estávamos em 1939...

Na Europa, as guerras sucediam-se. À primeira Grande Guerra (14-18) sucedera-se a de Espanha (36-39) e depois a Segunda Mundial (39-45). Em Portugal viviam-se tempos conturbados e repressivos: perseguições, prisões, torturas, mortes. A Polícia Política e a Censura eram os principais bastiões da Ditadura. Os seus sustentáculos.

Mas houve, sempre, homens que resistiram. Pelas mais diversas formas.


Este poema foi escrito por José Gomes Ferreira.
Para ser cantado por Edmundo Bettencourt.
A revista Seara Nova quis publicá-lo.
A Censura não deixou. A Resistência deu-lhe vida.



Serenata Cínica


Menino que vais na rua
não cantes nem chores: berra.
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.

Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.

Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.

Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.

Pisa a lua sem remorsos
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.

Pisa-a, frio, com coragem
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.

Menino que vais na rua
não chores, nem cantes: berra
ou então salta p'rá lua
e mija de lá na terra.



José Gomes Ferreira
o poeta que se recusava a ter mais de 20 anos

in Poeta Militante, 1º volume, pub. D. Quixote, p. 237

segunda-feira, março 27, 2006

Inaugurado Museu da Língua Portuguesa

...em São Paulo, Brasil


 
"O mesmo estudo aponta o português como a sexta língua mais falada no planeta e como língua oficial de oito países, dos quatro continentes. O que mostra como a língua portuguesa é cada vez mais importante no mundo."



Discurso do ministro da Cultura, Gilberto Gil

Bom dia, amigos e amigas de São Paulo!
Bom dia, amigos e falantes da língua portuguesa!
A Estação da Luz transforma-se na estação da língua e da palavra. E afinal, de que são feitas as palavras, se não da luz do som, da luz dos olhos e das mãos? Os versos de Cecília Meireles nos inspiram: Ai, palavras, ai, palavras, / Que estranha potência a vossa! / Ai, palavras, ai, palavras, / Sois de vento, ides no vento, / No vento que não retorna, / E, em tão rápida existência, / Tudo se forma e transforma! LÍNGUA é uma palavra da língua portuguesa que a língua gosta de falar. Que paixão falar palavras em língua portuguesa. Que paixão é essa que prende e liberta aquele que faz da palavra o seu ofício! “Há pessoas”, como diz Manoel de Barros, “que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras”.
No prazer de saborear palavras com a língua portuguesa poderíamos passar aqui muitas horas a conversar, mas aqui estamos para inaugurar o Museu da Língua Portuguesa, um museu que une tradição e tecnologia para apresentar aos cidadãos a importância da comunicação, que, afinal de contas, é o ponto de encontro dos seres humanos.
A nossa linguagem é falada por uma voz muito própria, de modo gestualizado e corporalmente falante, uma performance de corpo vital em nosso sistema de comunicação. Monteiro Lobato foi um dos que observaram muito bem essa nossa figuração da língua sob a imagem do Jeca Tatu. O cinema brasileiro bebeu nessa fonte em momentos de grande popularidade através dos memoráveis mestres dessa língua corporal brasileira como Masarope, Oscarito e Grande Otelo.
Curiosamente nos reunimos aqui hoje nessa estação da Luz que surge nos contos novos de Mário de Andrade e é o lugar itinerante de um operário que vagueia num primeiro de maio. Nessas vizinhanças nas quais se abriam as tantas portas de entrada para a São Paulo. Uma cidade que começava a crescer com sua indústria e trazia para dentro de si, através da máquina a vapor, os muitos sotaques e as muitas populações que se fundem nesse idioma. Quantas línguas somos capazes de falar ao mesmo tempo e quantos Brasis existem num só território. Língua é identidade nacional em processo.
A inauguração do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo evoca espacialmente essa passagem de Mário de Andrade. Mas para além de suas andanças pela Paulicéia Desvairada, foi ele, Mário de Andrade, que idealizou a criação do Museu da Palavra. Nesse Museu, vinculado à Divisão de Expansão Cultural do Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo, estariam reunidos registros das diferentes modalidades, ritmos, entonações e expressões dos falares brasileiros, eruditos e populares.
Foi ainda Mário de Andrade que organizou o 1º Congresso da Língua Nacional Cantada, em julho de 1939. De algum modo, ali, em Mário de Andrade, encontram-se algumas sementes do Museu que hoje inauguramos.
Oswald de Andrade é outro que devemos evocar com as memórias sentimentais de seu alter ego que perambula nessa região central da cidade fazendo o caminho encantado dos bondes elétricos - outra face dessa mesma São Paulo e de nossa língua desde sempre experimental. Oswald, que foi um precursor da poesia concreta, captou tão bem a língua urbana e sua espacialidade impressa. Assim como Haroldo de Campos que, em seus poemas, traduziu uma língua quase gráfica.
O Museu da Língua Portuguesa hoje inaugurado, ao contar a história da língua, oferece, com arte e tecnologia, uma viagem pelo tempo e pela cultura brasileira. Além disso, com a exposição temporária sobre Guimarães Rosa, comemora os 50 anos de Grande sertão: veredas.
Este Museu, desde o início, contou com o apoio do Governo Federal e do Ministério da Cultura que contribuíram na sua concepção, na restauração desse belo edifício e no seu financiamento, que se viabilizou por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
São investimentos notáveis, mas é preciso avançar e investir ainda mais nas ações de educação, na acessibilidade, nas exposições, na conservação e na segurança dos museus. Nesse sentido, a criação do Instituto Brasileiro de Museus, sobre a qual tenho me manifestado insistentemente, é urgente. Precisamos de um Instituto que cuide dos museus com atenção e carinho especiais.
A instalação do Museu da Língua Portuguesa nesta antiga estação ferroviária, parte de uma rede de caminhos de ferro que se espalham pelo Brasil, deve servir para inspirar a sua vocação. Que esse museu seja um ponto de intensa articulação de uma rede de valorização da língua portuguesa; que ele seja uma estação de idas e vindas, de chegadas e partidas, local de troca e irradiação dos movimentos da língua viva, que nos muda e é continuamente por nós modificada. 

Um dos desafios desse Museu é tratar a língua portuguesa não apenas como patrimônio que se transmite de uma geração para outra, mas também como Mátria e Matriz que une e irmana, no mundo, todos os cidadãos que falam a língua portuguesa. Um povo é considerado extinto quando sua língua morre. Manter a língua viva é, portanto, manter uma cultura viva. 

Segundo pesquisa da Unesco, metade das seis mil línguas do mundo estão em risco de extinção e, a cada duas semanas, uma língua desaparece. O mesmo estudo aponta o português como a sexta língua mais falada no planeta e como língua oficial de oito países, dos quatro continentes. O que mostra como a língua portuguesa é cada vez mais importante no mundo. A vitalidade de uma língua é a vitalidade de um povo. Se os atos de fala e os atos de palavra podem ser ações, gerar movimentos e criar realidades, então faço aqui da minha palavra um voto: que este Museu amplifique e ressoe a voz da Língua Portuguesa no mundo.

São Paulo, 20 de março de 2006


sábado, março 18, 2006

Procura-se um Amigo



Por que não sou poeta, recorro às palavras de quem sabe tecê-las para dizer o que sentimos.
JC


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das
canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 
Vinicius de Moraes

segunda-feira, março 13, 2006

Visita ao Forte e Museu de Peniche

O Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!" realiza no dia 1 de Abril (sábado), uma visita ao Forte e Museu de Peniche, seguida de almoço-convívio num restaurante local.


O almoço-convívio será associado a uma reflexão sobre a preservação e divulgação da memória histórica da ditadura e da resistência.

Teremos como convidados o historiador António Borges Coelho e o artista plástico Rogério Ribeiro.



O programa previsto desta iniciativa é:

Partida às 9 horas da manhã, em camioneta, da Praça de Espanha
(junto das antigas instalações do Teatro Aberto);
Visita ao Forte e Museu de Peniche a partir das 11 horas;
Almoço-convívio (caldeirada) às 13.30 horas;
Regresso a Lisboa às 17 horas.


As inscrições devem ser efectuadas até
27 de Março, com o pagamento de 25 € (transporte e almoço)

pessoalmente junto de membros do Movimento Cívico,
na Sede do SPGL (Rua Fialho de Almeida, 3 – Lisboa)
ou na Sede do Movimento (Rua da Misericórdia, 95 – Lisboa).


Contactos telefónicos
21 4116813 e 21 3143649

Mais informações aqui

terça-feira, março 07, 2006

Dia Internacional da Mulher

Comemorações dia 8 de Março, Quarta-feira


A Ferlap* estará presente nos Seminários “Estereótipos de género: olhares sobre a igualdade a diferença” a realizar na Assembleia da República e “Género em Agenda. Boas Práticas de trabalho com Jovens” a realizar no Auditório do Conselho Nacional da Juventude. Para além disso adere ao cordão humano, pela igualdade de direitos e pelo combate às discriminações, organizado pela Comissão para a Igualdade entre Mulheres e Homens da CGTP, que se vai realizar a partir das 15H30, entre o Rossio e a residência do Primeiro Ministro.

DIA 11 (Sábado)
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Na Sede da Ferlap
10H30 -
Abertura dos trabalhos - Saudação do Presidente do CE da Ferlap, António Castela
10H45 -
Colóquio “A mulher e o Associativismo”
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Oradoras:
Maria de Jesus Barroso (Presidente da Fundação Pro Dignitate)
Maria João Boléu Tomé (Primeira Presidente da Ferlap e primeira Presidente da Confap)
Moderadora: Helena Dias (Presidente da Mesa da AG da Ferlap)

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12H30 - Interrupção dos trabalhos para almoço no Restaurante "O Mercado"
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No Salão da Junta de Freguesia de Alcântara
15H30 - Mesa de Debate, "A mulher na família, na profissão e na intervenção social”
Coordenação: Universina Coutinho (Associada Benemérita da Ferlap)
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Participantes:
Elsa Sertório (Escritora, autora do livro "Mulheres Imigrantes")
Luísa Ortigoso (Actriz)
Maria de Fátima Campos (Autarca, Presidente da JF de Monte Abraão)
Maria Helena Gonçalves (Sindicalista)
Maria José Maurício (Mestre em Assuntos da Mulher, Consultora/Formadora para as questões de género).
Maria José Nogueira Pinto (Autarca, Vereadora da Habitação Social da CML).
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Relato dos trabalhos e notas finais: Helena Dias e António Castela (Presidentes da MAG e do CE da Ferlap)
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18H30 - 3 MULHERES com o espectáculo
de poesia dramatizada “EU NÃO SOU EU”
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Estará disponível durante a tarde uma contadora de estórias para crianças (Liliana Lima).
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Com o apoio:
Câmara Municipal de Lisboa
Junta de Freguesia de Alcântara
Restaurante "O Mercado"

Inscrições: Tel. 21 855 03 86 / Tlm. 91 870 99 02 / Fax 21 855 13 71 até ao dia 08/03.
Almoço: 12,50 Euros, no Restaurante “O Mercado”, ao lado da Junta de Freguesia de Alcântara. Asseguramos actividades para as crianças durante a realização dos trabalhos, mediante inscrição prévia.
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*FERLAP
FEDERAÇÃO REGIONAL DE LISBOA DAS ASSOCIAÇÕES DE PAIS
RUA DAS COURELAS, LOTE 3, 1800-154 LISBOA
TEL: 218 550 386 - FAX: 218 551 371
Página: www.ferlap.com

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Aos Meus Amigos

Não sei ser alegre
com hora marcada
em data específica.
Perversas e doridas
as palavras escasseiam.
Sabem a sal.

A cada momento
invento a coragem.
Para amar
para continuar
para ser.

Deixo-vos as palavras do poeta.
(que não sou ... nem sei)

Júlia



Canção da Coragem

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue
deixaria a minha casa
como se fosse um culpado.

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue.

Nem que a morte me dissesse:
"-- Virás, de noite, comigo...",
eu trairia um amigo.
Nem que a morte me levasse.

Nem que a morte me dissesse.
Nem que a vida me fugisse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
deixaria de cantar.
Nem que a morte me calasse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho.

Nem que a morte acontecesse
bem por dentro dos meus olhos
eu deixaria de ver
todo o amor de joelhos.

Nem que a morte acontecesse
ou, meu amor, eu cegasse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza
eu me dava por vencido.
Nem que a morte me doesse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza.

E se a morte violentasse
as paredes do meu peito
meu coração lá estaria
como uma rosa de esperança.

Como um pássaro de sangue
poisado nas tuas mãos.

(Joaquim Pessoa in Amor Combate)

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

SOMOS TODOS ARGUIDOS !



logo de João Tito Basto







No dia 5 de Outubro de 2005 um conjunto de cidadãos concentrou-se frente à antiga sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, protestando contra a intenção de apagar da memória dos portugueses aquele espaço onde tanto mal foi infligido a milhares de homens e mulheres resistentes antifascistas.
 
Protestávamos contra a transformação do edifício num condomínio de luxo fechado.

Protestávamos pela história do edifício que se pretende apagada, silenciada.

Protestávamos porque as vozes das inúmeras vítimas assim nos exigiam e exigem.

Protestávamos, porque em vez da sede da polícia política e palco de torturas, aquele edifício passou a ser um antigo palácio da nobreza, palco de faustosos eventos, cujo historial termina, gloriosamente, com a conspiração de 1640. Tal a versão apregoada no site da imobiliária PAÇO DO DUQUE.

Como se a partir de 1640 o edifício da Antonio Maria Cardoso não tivesse uma História tenebrosa!

Para lutar por esta causa foi constituído o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

Há dias dois membros do nosso movimento - o "Capitão de Abril" Duran Clemente e João de Almeida -, foram convocados pela PSP para prestar declarações sobre a sua participação naquela concentração do dia 5 de Outubro, tendo sido ouvidos no início da semana e constituidos arguidos.

Mas não foram apenas dois os elementos do NAM que estiveram frente à ex-sede da PIDE/DGS no dia 5 Outubro 2005. Não são apenas dois os arguidos. Somos Todos Arguidos!

Por estas razões os membros deste movimento decidiram convocar uma conferência de imprensa a fim de denunciarem esta manobra claramente persecutória e intimidatória para com os cidadãos que integram este movimento que cresce dia após dia.

Abaixo segue a nota enviada à imprensa.




Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!" Convoca Conferência de Imprensa:

Convidamos os Órgãos de Comunicação Social para participarem na Conferência de Imprensa a realizar sexta-feira, dia 24 de Fevereiro 2006, às 18 horas, na Sede da Associação 25 de Abril - Rua da Misericórdia, 95, Lisboa - tendo como finalidade denunciar a inqualificável atitude persecutória das autoridades policiais sobre dois membros do Movimento Cívico "Não apaguem a Memória!" (o "capitão de Abril" Duran Clemente e João Almeida) e informar sobre os princípios orientadores e actividades deste Movimento. Os cidadãos referidos estarão presentes nesta Conferência de Imprensa.












terça-feira, fevereiro 14, 2006

Amor e Liberdade

14 de Fevereiro - Dia dos Namorados.
Como se fosse necessário um dia específico
para nos lembrar que o AMOR é urgente.
Necessário. Saudável.
... É o consumismo ditatorial a determinar
os "dias" mais convenientes
para a sua própria sobrevivência...

A verdade é que depois do 25 de Abril TODOS podem namorar.
Publicamente. Sem constrangimentos.
Novos e velhos.
Sem falsos pudores.
Pode-se andar de mão-na-mão livremente.
Beijar livremente.
Acariciar.
Mostrar que o amor é (tem que ser) uma prática diária.

......
Mas nem sempre foi assim.
Aqui fica um documento a atestá-lo.
Trata-se de uma Postura da Câmara Municipal de Lisboa
(e quantas outras não existiriam por esse país fora...)
a coberto dos "bons costumes" ...
Por que Salazar zelava.
Através da Polícia de Costumes.
Era a repressão nua e crua.
Estávamos em 1953.

Para Memória Futura.


CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

Aditamento à Postura Municipal nº 69.035, de? De 1953

«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins, e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guardas Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes.

Assim, e em aditamento àquela Postura 69.035, estabelece-se e determina-se que o Artº 48º tenha o cumprimento seguinte:

1º - Mão na mão.................................. (2$50);
2º - Mão naquilo.................................. (15$00);
3º - Aquilo na mão.............................. (30$00);
4º - Aquilo naquilo.............................. (50$00);
5º - Aquilo atrás daquilo...................... (100$00);

Parágrafo Único - Com a língua naquilo ... 150$00 de multa, preso e fotografado.»

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

José Dias Coelho (1923-1961)





José Dias Coelho (1923-1961), foto de Hernâni Gandra


José Dias Coelho nasceu em Pinhel, distrito da Guarda, a 19 Junho de 1923.

Foi morto pela PIDE em Lisboa, na Rua da Creche, no dia 19 Dezembro de 1961.

Escultor. Militante comunista. Vivia na clandestinidade.

Tinha 38 anos.

Tinha duas filhas.

Após o 25 de Abril, um grupo de amigos decidiu homenageá-lo na SNBA.

Entre eles, o escritor José Cardoso Pires.

É da sua autoria o texto que se segue, e que leu na altura.

Publicá-lo-ia mais tarde em «E Agora, José?».

Aqui fica. Para Memória Futura.



Prá Frente Meu Coração

Quando revivemos um Amigo como José Dias Coelho, cada um de nós traz dele uma imagem sentida, quase privada. Vemo-lo -- eu, por exemplo -- como companheiro de juventude; sonhamo-lo – alguns poderão até recordá-lo – na pátria da clandestinidade; repetimo-lo através dos versos e dos desenhos que nos deixou, traços da sua voz mais privada. E todos, falando dele, pensamos na cruel, na terrível mancha de luto, que marca a sua ausência neste início de liberdade. Estaria aqui e mais além, no comício ou no atelier, não importa: mas connosco. Trabalhando à luz do dia o país que desponta.

Sabemos que é um capítulo do ódio ou do medo, a morte imposta aos militantes da liberdade. Mas sabemos igualmente que é dela que o fascismo faz moeda própria e alimento essencial; que onde haja exploração do homem está ela, a morte, disfarçada de comum e natural, e que, irmã traidora da fome, tem na guerra, em todas as guerras, a sua razão mercenária. Que, desde os berros falangistas do «Viva la Muerte!» às chacinas do Chile, é a Morte, Morte e sempre a Morte, que aparece como exibição imperialista de orgulho e de poder.

Por isso é que os verdadeiros revolucionários amaram e defenderam a Vida com o risco do último sacrifício -- e entre esses, Dias Coelho, o meu amigo de longe e para sempre. Poucos como ele tiveram tão saudável e empenhado gosto de viver, e raros, raríssimos, usaram de tão serena tolerância no desejo de compreender e lutar.
Uma simplicidade imediata fazia com que tudo nele, ideias, gestos, convívio, fosse um comunicar espontâneo -- ou uma entrega confiante, se quiserem. Revejo-o em 1945 numa concentração na Faculdade de Ciências; ou em certas tardes à mesa do velho Chiado (o café e a «Pomba de Picasso» em cima do tampo de mármore); nos passeios do MUD Juvenil (outro roteiro de politização) – percorro, em suma, todo um passado activo de iniciação, de prisões e de alegrias, e encontro sempre aquele sorriso, tão dele, a perdurar sobre o eco e a recordação.

Jornadas estudantis, domingos sobre o Tejo, onde isso vai. Mas tudo tão nítido neste momento, é curioso, tudo tão identificado com ele, Dias Coelho, que é a sua figura que permanece e se transforma em meridiano natural da nossa geração. Assim: como uma vertical sobre o horizonte.

(Nesse tempo, lembro-me bem, cantava-se Lopes Graça em versos de poetas vivos. «Vozes ao alto / vozes ao alto / unidos como os dedos na mão...». Fazia-se teatro com Manuela Porto e pintura militante: novos e velhos no mesmo salão das Gerais de Artes Plásticas. «Desatávamos os nós do silêncio», como diria Eugénio de Andrade, na Memória a José Dias Coelho, escrita em pleno fascismo.

Um espaço, uma reticência da memória, e retomo Dias Coelho, agora no Movimento da Paz: execução dos Rosenberg, milhões de assinaturas a dizer não à morte, Ehrenburg e Éluard, tanta coisa. Aqui, no país muralhado com juízes do Plenário sentados em torres sinistras, também a Paz era difícil. Contudo, triunfava, e era nossa. Na grande leva de obreiros que a erguiam lá estava Dias Coelho: desenhando cartazes, presente em reuniões, angariando fundos, e sempre com aquele sorriso de camponês citadino que lhe iluminava a voz e o olhar.

Assim fazíamos, ele, eu, toda uma geração, a aprendizagem da vida. Procurávamos, quer isto dizer, saboreá-la no mais simples e no mais denso que ela oferecia, e talvez por isso é que, muitos anos mais tarde, ao ler: «Em toda a parte / há um pedaço de mim / que se quer dar» eu tenha reconhecido subitamente a assinatura do homem que fez esses versos: o José Coelho, o companheiro que se repartia e estava inteiro no bom e no difícil, no prazer e na coragem.

Esta capacidade de abranger o mundo e de tudo partilhar foi, tenho a certeza, a poderosa força de José Dias Coelho, aquilo que o impeliu para a tarefa de modificar e construir contra o errado e o desumano. A morte de um camponês ou um aceno de criança levantavam prontamente nele a indignação ou o amor, e, logo, o tal «pedaço de si que se quer dar». Respondia então com o desenho aberto e tranquilo, o traço limpo, urgente, uma necessidade de comunicar e de fazer testemunho. Ou lançava-se ao barro e esculpia, com aquelas suas mãos sólidas de terra-a-terra, o protesto vincado ou o instante de um amigo na sua expressão mais íntima, pessoalíssima. Aconteceu isso nas peças de escultura que nos deixou em desencontrados períodos de trabalho – na cabeça agreste de Redol, por exemplo, ou no busto de Margarida Tengarrinha, tão repassado de serenidade e de melancolia.

Não sou eu quem melhor pode falar dos capítulos interrompidos da biografia de Dias Coelho, artista e militante. Discutimos, horas e serões, os mil enredos da viabilidade da arte numa sociedade repressiva, a propósito dos desenhos que ele fazia na altura para a revista Vértice sobre textos meus, mas não acho que possa reproduzir agora com fidelidade o essencial dessas conversações. Do que me recordo é que me ficou a palavra Comunidade como tema geral de todos os seus trabalhos de então e daquele que viria depois a produzir. Comunidade. Amor. Na realidade, toda a poesia, toda a arte, toda a vida de José Dias Coelho têm essa constante lírica que não é mais do que a exaltação do amor e do entendimento. As tais coisas partilhadas, torno a dizer.

Penso que um homem assim, que se procura através de todas as formas de comunicar ao seu alcance – a arte, a militância comunista – penso que um homem destes só pede da vida (e com que entusiasmo!) a parte mais árdua e mais justa. Sabemos das prioridades que se lhe põem em certas encruzilhadas decisivas, e como escritores da grandeza de Soeiro Pereira Gomes sacrificaram com dor o sonho de comunicar à luz do dia para se entregarem a uma outra tarefa, mais urgente e perigosa: a de arrancarem a pátria à servidão capitalista, restituindo-lhe a palavra livre, a mão e o olhar livres com que ele e todos pudessem descrever e amar.

Com isto não me refiro apenas aos intelectuais, escritores ou artistas que se jogaram na luta total, no tudo ou nada, sobrepondo a acção político ao talento natural. Penso neles, de facto, pensando em Dias Coelho; sei que fizeram tal opção para libertar o Homem e também a Arte que tanto amavam, e para que outros a seguir, mais felizes, a pudessem retomar. Mas penso também que, a par deles, dezenas e dezenas de operários e camponeses dotados para contar em verso ou em imagem as vidas que experimentaram foram para sempre calados pela fome ou pela exploração cultural.

A luta política, aquela que vai às raízes, entenda-se, é uma técnica de construir a felicidade. O livro e a arte enriquecem o homem, é certo; mas não é menos certo que não se pode escrever ou desenhar a palavra Amor, indiferente às vítimas do ódio que nos rodeiam ou ignorando as desigualdades e os pavores. Se hoje o meu, o nosso orgulho de cidadãos é o de, pela primeira vez, podermos adormecer com a consciência de que ninguém neste país está a ser torturado, isso só exige que defendamos esse privilégio com vigilância dobrada e que escrevamos a tal palavra Amor com maior beleza e imaginação.

Foi exactamente para lutar por um momento assim -- essa paz sem remorso, esse direito -- que José Dias Coelho, há muitos, muitos anos, desabafou comigo num fim de tarde: «Zé, eu não suporto mais isto!»

Escolheu, soube-o depois, a via definitiva, a do comunista que se lança, inteiro e definitivo, contra um mundo velho e feroz. Ia, no fundo, em busca de uma outra expressão do homem e levava dentro de si um verso que um dia iria escrever: «Vai prá frente, meu coração...»

Foi. Para a frente e de cara voltada para a luz. E ele, que tanto adorava a cidade e o ar livre, caiu em plena rua, assassinado. Mesmo assim, quando o recordamos e o temos orgulhosamente connosco, é à frente de nós que o sentimos – à frente, como o seu nobre coração.


José Cardoso Pires, in E Agora, José? Publicações Dom Quixote, pp. 96-101

terça-feira, janeiro 31, 2006

Assinalando o 31 de Janeiro de 1891

Como forma de assinalar, neste dia 31 de Janeiro que hoje estamos a viver, os 115 anos decorridos sobre a revolução republicana de 1891, deixo-vos aqui uma imagem (gravura publicada na revista Ilustração) onde se documenta a proclamação do novo regime feita a partir da varanda da Câmara Municipal do Porto, bem como o modo como então se saudou e festejou aquela vitória da liberdade ainda que efémera, como dolorosamente se viu logo depois... com chapéus e bengalas ao alto...



Mas, a 31 de Janeiro de 1908, há que recordá-lo aqui também, em plena ditadura de João Franco, depois de esmagada a reacção revolucionário republicana de 28 de Janeiro, o rei Carlos I assinou um decreto que conferia ao ditador poderes de excepção, permitindo-lhe perseguir, prender e deportar, sumariamente (ie: sem processo judicial), qualquer pessoa suspeita de republicanismo activo ou de mera insubmissão ao regime e ao governo, decreto esse que terá motivado o atentado regicida levado a cabo no dia seguinte...

Fonte: Associação República e Laicidade


 

domingo, janeiro 29, 2006

O ESSENCIAL É INVISÍVEL


Para os Meus Amigos,

E para todos os que ainda o não são mas que fazem parte, já, dessa teia invisível de relacionamentos que à Amizade conduzem.

[…]
"Em muitos contos, o herói, em busca da verdade, chega a uma zona fronteiriça entre o interior e o exterior, entre a superfície e as profundezas, entre o aquém e o além, onde encontra animais que vêm em sua ajuda, falam com ele e lhe mostram o bom caminho no anti-mundo da sua consciência. Em O Principezinho, é à Raposa que cabe esse papel [...] pois, na fronteira do além do deserto, o seu conselho vem realmente salvá-lo.

Com efeito, mal o Principezinho chega à terra e se aproxima do mundo dos homens, imediatamente se vê posto em questão. Ninguém conseguiria viver sem algo a que se consagrasse, que fosse para si único, belo, precioso. Até então, no seu pequeno planeta, a Rosa constituía para o Principezinho esse tesouro. Considerara-a incomparável durante tanto tempo – nunca pudera confrontá-la com mais nada – que a vira como um milagre único. Ora, eis que calha passar por um jardim cheio de rosas e é forçado a uma dolorosa comparação que ameaça abalá-lo profundamente.

Quando se desmorona aquilo em que acreditámos como algo absoluto, quando o que se reverenciou e amou aparece subitamente como um exemplar entre outros pertencentes a uma espécie de indivíduos multiplicáveis à vontade, quando aquilo a que nos dedicamos de alma e coração parece de repente esvaziar-se de valor pelo simples facto da sua abundância, não só nos decepcionamos como podemos sentir-nos completamente perdidos e órfãos – ficamos sem saber onde fixar o coração. É o que acontece ao Principezinho quando se descobre diante de cinco mil rosas. Num instante tudo é posto em questão: o problema de saber se a sua Rosa é única determina o sentido do mundo, a alegria, a esperança, o amor, a confiança, o passado e o futuro; a única coisa que lhe interessa agora é saber o que torna a sua Rosa única: este carácter não poderá constituir uma qualidade objectiva, pois não se trata de uma propriedade exterior, mas depende de uma visão da alma e portanto só se poderá extrai-lo do interior. É o coração que confere ao outro o seu valor e significado. Essa é precisamente a lição da Raposa, o conteúdo da sua introdução mágica no universo do amor.

No essencial, a Raposa não vem ensinar nada de novo ao Principezinho. As lições que lhe dá apenas servem para muni-lo contra o perigo da realidade exterior mostrando-lhe em que consiste a sua riqueza interior e o carácter único da Rosa. Trata-se de tornar plenamente consciente, e assim fortificar, o que ele já intuíra no seu planeta. Aí, só por acaso, descobrira a Rosa, como um feliz achado. Ela crescera de repente no seu mundo, e foi sem o notar, pelo simples facto de, bem ou mal, ter suportado os seus humores, admirado a sua beleza e protegido a sua susceptibilidade, que se criara um laço interior de confiança e de familiaridade. Tinham-se ligado um ao outro sem querer, duma forma natural. Sem saber, o Principezinho tinha aprendido o segredo da amizade. Como lhe explica a Raposa, a amizade consiste precisamente nesse paciente processo de aprendizagem progressiva e nessa descoberta recíproca da confiança que acontece quando dois seres são «cativados» um pelo outro. No amor, como em tudo o que possui valor para o ser humano, é absurdo pretender «poupar» tempo, como o fazem as «pessoas crescidas», e querer colher frutos antes de florirem e amadurecerem. A pressa, a insistência, a precipitação só lhe podem causar dano, pois os mais tímidos e sensíveis, os mais pudicos e apaixonados dos enamorados precisam de um longo tempo de aproximação que lhes permita desfazerem-se de qualquer receio do «caçador» e habituarem-se progressivamente à presença do outro, entregando-se-lhe de dia para dia um pouco mais. Não se pode comprar o afecto, a confiança, a ternura ou a elevação da alma que possibilita a presença do outro, daquele que se ama. Mas pode descobrir-se a pouco e pouco a linguagem dos seus olhos, as suas expressões, os seus gestos – tudo aquilo que faz com que se inaugure uma relação infinitamente preciosa e única, de valor incomparável.

[...]
Quanto mais longa é a busca do outro, essa maturação da confiança que resulta de se ser «cativado», mais a relação se enriquece com a comunhão e as recordações de tudo o que se viveu em comum, e a poesia da ternura das coisas funde-se com o rosto e o ser do outro, como se o universo fosse afinal um imenso campo de forças cujas linhas levam ao coração amado.

[...]
Não há amizade que não se submeta às leis de tal “cerimonial”, da sacralização ritual do tempo vulgar, para que a presença se dê interiormente.”


Eugen Drewermann, O Essencial é Invisível, uma leitura psicanalítica de O Principezinho, pp. 45-48

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Bandeira da Resistência





Em 1947 a Seara Nova editava Marchas, Danças e Canções.

Uma colectânea de poemas de Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e outros neo-realistas.

Organizados e musicados por Fernando Lopes-Graça.

Divulgados pelo Coro da Academia dos Amadores de Música.

Foram a bandeira da Resistência.

Em Novembro de 1947 a Pide assaltou as instalações da Seara Nova. Apreendeu todos os exemplares existentes e proibíu as canções .

Passaram a ser clandestinas.

Fazem parte da História da Resistência Portuguesa.

Deixo-vos duas dessas Canções.



HINO AO HOMEM

Homem, se homem queres ser
e não uma sombra triste,
olha para tudo o que existe
com olhos de bem o ver.

Nada receies saber.
Ao que não amas, resiste.
Mesmo vencido, persiste
e acabarás por vencer.

Quere e poderás poder.
Vai por onde decidiste.
A liberdade consiste
no que a razão te impuser.


Armindo Rodrigues



OS BURLESCOS E OS BURLADOS

No terreiro de dançar
anda uma dança inocente;
os burlescos e os burlados
dançam e fingem de gente.

Coxeia e tropeça,
ó meu coração !
A dança começa,
cumpre-me a promessa
de rojares o chão.

Com facas de matar porcos
e podôas de podar,
os burlescos fazem roda
e os burlados sem gritar!

Tapa a alma nua
que ta vêem toda !
Atira-te à rua,
come o sol, a lua,
mas entra na roda !

Burlescos com alguidares,
cheios de postas sangrentas,
bebem sangue dos burlados
e fazem caras nojentas.

Coração, volteia
na roda imunda !
Tropeça e coxeia
-- ou dança, ou cadeia ! --
meu coxo corcunda.

E, no São João da vida,
assim burlescos inchados
passam a noite saltando
a fogueira dos burlados.

Ai, dança a sorrir,
coração marreca !
Pudesse dormir,
mesmo a fingir,
a tua soneca !


Carlos de Oliveira

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Antes de votar ... Reflicta !!!


Aristides de Sousa Mendes
Aristides de Sousa Mendes

Domingo, dia 22 de Janeiro, realizam-se eleições.

Vamos eleger o cidadão que queremos para Presidente da República Portuguesa.

Como tema de reflexão, trago-vos um episódio da nossa História dos anos 40, sob o regime do Prof. Salazar, que se articula com outro episódio bem mais recente, sob o consulado do Prof. Cavaco Silva.

Antes de votar...

"Pense nisto:

Um dos papéis mais importantes – embora não dos mais conhecidos previstos na Constituição da República Portuguesa para o cargo de Presidente da República é o da concessão de «perdões» ou «indultos», como recurso de última instância perante uma grave injustiça praticada pelo sistema judicial.

De facto, em momentos excepcionais da história, em nome de valores mais altos, tal como o da dignidade humana, alguns cidadãos são obrigados a agir contra a letra da lei.

Perante esses casos, o sistema judicial ou administrativo pode ver-se de mãos atadas, tendo de aplicar cegamente uma lei, ainda que ciente de estar a cometer uma injustiça ao punir quem violou a lei em nome de valores mais altos.

Um caso exemplar desse tipo de situação aconteceu, durante a Segunda Guerra Mundial, com o Cônsul Português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes.

Simultaneamente confrontado com o terrível destino a que estavam sujeitos os cidadãos judeus que fugiam do holocausto nazi – e para quem a única esperança de sobrevivência era alcançar Portugal e daí partir para um destino seguro – e com as ordens expressas de Salazar para que não lhes fossem concedidos vistos de entrada em Portugal, Aristides de Sousa Mendes optou por violar a lei e as determinações hierárquicas, em nome do princípio mais alto da salvaguarda da vida humana.

Sumariamente despedido por Salazar, Aristides de Sousa Mendes viria a morrer na miséria, privado de pensão e de todas as regalias da carreira diplomática.

Quando, de 1985 a 1987, se procurou reabilitar a memória de Aristides de Sousa Mendes, reintegrando-o a título póstumo na carreira diplomática e apresentando o pedido de desculpas do Governo Português à família do diplomata, essas diligências encontraram a oposição declarada do então Primeiro-Ministro, Aníbal Cavaco Silva.

De acordo com o chefe do governo, por muito louváveis que fossem as intenções do diplomata português, o facto é que tinha desobedecido a uma ordem directa do Presidente do Conselho e que, em iguais circunstâncias, ele, Cavaco Silva, teria procedido da mesma forma que o então Presidente do Conselho, pois não poderia aceitar uma insubordinação semelhante de um dos seus diplomatas.

Embora à letra da lei, o actual candidato a Presidente da República estivesse absolutamente correcto, a sua posição é moralmente condenável à luz de quaisquer princípios.


O cumprimento da lei de um estado soberano não pode estar acima da defesa dos princípios básicos da humanidade. Essa miopia que põe o cumprimento de uma regra escrita acima da defesa dos valores humanos é aquilo que distingue um mero burocrata de um verdadeiro líder. O motivo pelo qual a Constituição confere ao Presidente da República o direito de inverter a decisão de um tribunal penal é, precisamente, pelo reconhecimento da limitação de uma lei escrita no papel.

Um candidato que não percebe essa distinção não é digno de ser eleito Presidente da República, pois essa distinção é também a distinção entre um mero tecnocrata e um verdadeiro líder de uma nação
".

Fonte: Associação República & Laicidade.



VOTE! CUMPRA O SEU DEVER DE CIDADÃO! MAS... VOTE EM CONSCIÊNCIA!

terça-feira, janeiro 10, 2006

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA!


Meus amigos,

Venho dar-vos a conhecer o Movimento Cívico NÃO APAGUEM A MEMÓRIA! que um grupo de cidadãos indignados, de que faço parte, decidiu fundar e dinamizar com vista a combater o crescente e sistemático apagamento da Memória da/na nossa História Contemporânea.

Convido-vos, primeiro, a visitarem o site da imobiliária que negoceia o condomínio de luxo que está a ser construído por entre as paredes do edificio que foi a sede da PIDE/DGS, ali ao Chiado, na Rua António Maria Cardoso.

Chamam-lhe eufemisticamente o «Paço do Duque». E contam a sua História. Uma História aristocrata que termina, imaginem, em 1640!

Entrem no site: Paço do Duque e digam de vossa justiça.

Deixo-vos agora o Manifesto do movimento cívico NÃO APAGUEM A MEMÓRIA! Apresentado publicamente no dia 12 de Novembro passado.

Através dele, lançámos uma campanha de recolha de assinaturas para levar o assunto aos órgãos institucionais.

APELO À VOSSA PARTICIPAÇÃO.

SUBSCREVAM ! ADIRAM ! DIVULGUEM !



segunda-feira, janeiro 02, 2006

General Norton de Matos (1867-1955)

General Norton de Matos (1867-1955)

José Mendes Ribeiro NORTON DE MATOS foi o homem que a oposição escolheu, em Julho de 1948, para protagonizar as primeiras supostas eleições livres para a Presidência da República,  no ano seguinte, e que pela unidade e movimentações de massas que suscitou, fez tremer Salazar constituindo a primeira grande ameaça ao regime do Estado Novo.

Nascera Norton de Matos em Ponte de Lima, Viana do Castelo, a 27 de Março de 1867. 
Velho republicano e maçon, ministro por duas vezes e Governador de Angola onde fundou a cidade de Nova Lisboa (actual Huambo), Norton de Matos fora um dos muitos professores destituídos pelo Governo de Salazar e impedido de continuar a dar aulas no Instituto Superior Técnico.
Como se sabe, após a vitória dos aliados, na Segunda Guerra Mundial, Salazar viu-se constrangido a ceder alguma abertura política para impressionar os países democráticos, convencido que estava da desagregação interna e convocou «eleições livres». Pelo contrário, esta abertura foi muito bem aproveitada pela oposição que sabiamente constituiu o MUD, Movimento de Unidade Democrática, nele agregando toda a família oposicionista. Norton de Matos junta-se a personalidades como Bento de Jesus Caraça, Mário de Azevedo Gomes, Manuel Mendes, Isabel Aboim Inglês, Mário Dionísio e muitos outros, tendo integrado a Junta Consultiva daquele movimento cívico.

O MUD teve o efeito de um autêntico vendaval no marasmo da vida social e política que se vivia no país desde a implantação do Estado Novo e manteve-se unida até se desagregar de novo após 49.

Em 1948 dá-se início ao processo de candidaturas para as eleições à presidência da república, que viriam a ocorrer em 1949, e o General Norton de Matos aceita ser o candidato da oposição.
No Manifesto que então dirigiu ao povo português, podia ler-se:
"Cansado de divergências internas, o povo português deseja que todos os habitantes de Portugal sejam acima de tudo portugueses; que a tolerância e o respeito pela pessoa humana os ligue a todos e permitam a cada um viver a sua vida sem o terror desmoralizante da incerteza."
Serão as primeiras "eleições" presidenciais "abertas" a outras candidaturas que não a do partido único instituído por Salazar, a União Nacional. Em confronto com Carmona, o candidato do regime que estava no lugar desde Novembro de 1926.




Estávamos em Janeiro de 1949, a campanha eleitoral iniciara-se no primeiro dia do ano. O povo tinha um candidato e em Coimbra, por exemplo, podia ler-se numa parede:

"Se votares por Carmona
Comes broa e azeitona.
Se votares por Matos
Comes sopa e dois pratos."

A campanha foi entusiástica e no dia 23 de Janeiro, perante uma multidão reunida no Porto, Norton de Matos caracterizava a Segunda República por que lutava:

"[...] não poderá existir nessa Segunda República nada de totalitário, de nazista e de fascista, de anti-democrático, de contrário aos direitos fundamentais do homem, da falta de respeito à pessoa humana, de exploração do homem pelo homem, de apagamento do indivíduo, quero dizer duma entidade real portadora de direitos e deveres, o cidadão, como unidade fundamental de todas as colectividades humanas e cujos atributos inamovíveis são, entre outros, os direitos à vida e à existência sã, à liberdade pessoal, ao trabalho (com o dever correlativo), à residência, à inviolabilidade do domínio, ao sigilo de correspondência, à propriedade pessoal, ao acesso a qualquer profissão, à instrução, à cultura, à personalidade, à assistência médica e à segurança social, à petição aos poderes públicos, à resistência perante a opressão e a tirania."

Mas Salazar recusava-se a abrir mão das "condições mínimas" exigidas para um acto eleitoral isento, em pé de igualdade para ambas as candidaturas. Norton de Matos acaba por desistir no dia 12 de Fevereiro, véspera das eleições, uma decisão saida do plenário das estruturas da candidatura de todo o país. Não sem alguma resistência do candidato que, apesar da idade e dos condicionalismos, ficara impressionado com o apoio popular, sobretudo no Porto, e considerava ter condições para ir às urnas.

Na verdade em Angola, onde a dificuldade das comunicações impediu que chegasse a notícia da sua desistência, votou-se. E Norton de Matos ganhou em Nova Lisboa. 
Carmona manteve-se no poder até à morte em 18 Abril 1951, com 81 anos.

Norton de Matos faleceu a 2 de Janeiro de 1955. Tinha 87 anos.

Faz hoje precisamente 51 anos.

JC



quinta-feira, dezembro 29, 2005

Feliz Ano Novo 2006



Admiro imenso os poetas, esses seres superiores que dominam a palavra e no-la transmitem depurada, trabalhada, reduzida à expressão mais simples, ao essencial. Mas um essencial profundo de infinita sabedoria e sensibilidade. Que nos entra pelos sentidos. E deixa saciados.

Como não sou poeta, recorro a Carlos Drumond de Andrade, para vos oferecer uma Receita de Ano Novo.


Um Ano Novo que desejo... ALEGRE!


Um Ano Novo ... sem Cavaco e tudo o que ele representa !






RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade