segunda-feira, janeiro 22, 2007
Quem votar SIM fica sem funeral religioso ...
quarta-feira, janeiro 17, 2007
O Crime de Amar de Mais

É a «justiça» que temos e os juízes (alguns juízes) que temos. Um homem foi ontem condenado em Torres Novas a seis anos de prisão por se recusar a entregar a um desconhecido, o pai biológico, uma menina de cinco anos de quem, abandonada pela mãe, esquecida pelo pai, ele e sua mulher cuidam desde os três meses de idade.
O pai biológico nunca quis saber da gravidez da mulher com quem tinha tido o que, entre risinhos, chama de «caso casual». Só viu a bebé duas vezes, de passagem, uma quando foi chamado a fazer testes de ADN, outra dois anos depois.
Agora, em vésperas de a criança fazer cinco anos, decidiu reclamá-la. E o tribunal, pura e simplesmente, mandou que ela lhe fosse entregue, apesar de os psicólogos dizerem que arrancá-la àqueles que ela considera seus pais e entregá-la a um desconhecido será «dilacerante».
Para evitar à filha adoptiva (o processo de adopção estava em curso) a dilacerante separação, Luis recusa-se a revelar o seu paradeiro. Resultado: seis anos de prisão.
Porque os juízes (alguns deles) já não fazem «justiça», são meros burocratas da lei.
E a lei de tais juízes tanto dá para condenar a uma multa de 720 euros um polícia que matou um homem a tiro como para mandar seis anos para a cadeia quem, como o Luís, comete o crime de amar de mais.
(Manuel António Pina, Jornal de Notícias de 17.01.2007)
domingo, janeiro 14, 2007
Poema da Maria Rita
é portuguesa
Maria Rita
Tem 18 anos
Maria Rita
é mulher
Maria Rita tem
um namorado
Maria Rita
fez sexo com o
namorado
Maria Rita
engravidou
Maria Rita
é parva
Maria Rita
logo que disse ao
namorado este cavou
Maria Rita
procurou resolver a questão
Maria Rita
encontrou uma senhora amiga
que lhe emprestou dinheiro
para fazer um aborto
Schssss ali naquela mulher de
confiança
Schssss não digas a ninguém
se não podes ir presa tu e ela também
Maria Rita não disse a ninguém
mas disse à mãe, e disse à tia, e disse
à irmã, também elas, todas elas,
tinham feito abortos,
Schssss não digam a ninguém
è que o senhor polícia pode bater
à porta.
Ana Vicente
in Por Uma Vida de Escolhas, editado pelo
Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo SIM
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Amadeu de Souza-Cardoso
terça-feira, janeiro 09, 2007
No começo de 2007
Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas
Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens
Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra
São de guerra as barcas novas
ao mar deitadas com homens
Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas
Não lavram terra com elas
Os homens que levam guerra
Nelas mandam meter
os homens com sua guerra
Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas
Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas
(Fiama Hasse Pais Brandão)
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Festas Felizes

não te digo do natal coisa nenhuma
do natal enfeitado a sumaúma
que se arruma em cada ano nalgum canto
não te digo do natal em mar de espuma
esse efémero natal-coisa-nenhuma
quebradiço a ter-de-ser e sem encanto
não te digo do natal de coitadinhos
nem daquele de nós todos tão sozinhos
conformados sem ter sonhos nem espanto
não te digo do natal feito de prendas
num afecto leva-e-traz que me encomendas
e trocamos cada ano em qualquer canto
mas te digo um natal fio de seda
do casulo entretecido que te enreda
e te leva ao riso ao sonho em doce encanto
digo ainda do natal feito de enlaces
desfiando o casulo onde renasces
enlaçando cada ser por valer tanto
digo então um natal que desse fio
deslassado mundo fora como um rio
nos envolva a todos nós num acalanto
mais te digo do natal de um outro início
celebrando a nova esperança o solstício
recriado em nossa voz num novo canto.
Jorge Castro
terça-feira, dezembro 05, 2006
A vida é efémera .... acreditem.
Inicialmente o diagnóstico foi o de Pancreatite Aguda e ... pedra na vesícula, sendo que os médicos sempre valorizaram muito mais a infecção no pâncreas em detrimento da vesícula. E foi assim que me mantive semanas a dieta zero (sem poder ingerir água, sequer) apenas molhando os lábios. Quando as coisas pareceram melhorar enviaram-me para casa à espera de oportunidade melhor para a operaçáo à vesícula. Só que, passados dois dias, eu estava de novo internada. E agora com temperaturas altías quase constantes e cólicas dolorosíssimas!
Confesso: vi a morte rondar-me, pensei que tinham chegado os últimos momentos.
Finalmente decidiram operar-me. E ainda bem que o fizeram porque a vesícula (um pequeno saco que temos na base do fígado) estava de tal forma infectada que uma peritonite era inevitável e, obviamente, uma septicémia tomaria conta de mim. Aconteceu na madrugada de 25 para 26 de Novembro. O pós-operatório foi mauzito com temperaturas altas e dores constantes.
Apesar de tudo, no dia 1 de Dezembro, dia do meu aniversário, quiseram oferecer-me um enorme presente e mandar-me para casa. Regressei com os pontos e um dreno.
E cá vou sobrevivendo e reagindo. Com imensas dores, com imenso mau-estar, por enquanto. Mas salva pelo excelente SNS que temos.
Valem-me os AMIGOS que não me abandonam.
Obrigada ao meu vizinho Mário que cuidou (como sempre) com todo o carinho e toda a dedicação dos meus dois meninos de quatro patas: o Miró e a Elis Regina.
Obrigada, à querida ANGELA que nunca me abandonou. Amiga, tu és mais que amiga mais que irmã. Tu és a IMPRESCINDÍDEL, aquela pessoa que, incondicionalmente, está sempre presente. Aceitando-me como sou, amando-me como sou. E nunca me abandonando.
Não tenho palavras para dizer-te o quanto te amo.
Mas tu sabes.
Vou agora descansar e recuperar para casa dos meus amigos Albergaria, a minha «família de acolhimento», os AMIGOS com quem sempre posso contar.
Um beijo para TODOS vocês !
segunda-feira, outubro 23, 2006
Vasco Gonçalves e as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA
Para o então Primeiro-Ministro, um dos principais objectivos desta iniciativa «era levar os militares, o MFA, às populações e apoiá-las no desenvolvimento, na tomadas de consciência dos problemas que elas tinham. [...] Pretendíamos, sobretudo, transformar as ideias de fundo dessas populações. Não pretendíamos transformar essas populações em socialistas ou em comunistas. Queríamos transformá-las em gente democrática, gente aberta a analisar as situações e arrancá-las de toda aquela carga de fascismo que durante 48 anos tinha pesado sobre elas».
A par destes objectivos, Vasco Gonçalves defendia, também, que as Campanhas tiveram um importante papel na democratização e dinamização das Forças Armadas, sublinhando o facto de os militares que as protagonizaram regressarem «mais politizados» devido ao contacto com as diferentes realidades que procuravam transformar. Nesse sentido, e numa perspectiva cara à Primeira República, Vasco Gonçalves evocou, numa sessão de esclarecimento realizada no Sabugo (Sintra) em Fevereiro de 1975, a figura do «militar-educador». Este deveria aprender com aqueles que procurava educar, com aqueles que procurava ensinar, com aqueles que procurava ajudar. Na sua óptica, a expressão que melhor caracterizava a Dinamização Cultural era o «trabalho quotidiano» porque as Campanhas constituíam uma aprendizagem mútua, um processo de conhecimento do país que a revolução surpreendeu.
Para Vasco Gonçalves o grande impulsionador das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA fora Ramiro Correia, o «comandante-médico que até fazia versos [...] um idealista no bom sentido do termo». Na génese desta iniciativa, salientava a importância da Acção Psico-social utilizada na guerra colonial, assegurando que «muitos militares vieram influenciados com isso e consideravam-se em condições de desenvolver uma acção desse nível dentro do nosso próprio país, com os seus compatriotas».
[...] a relação entre os militares e a população adquiriu novos contornos com a transição democrática e, para Vasco Gonçalves, as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA seriam uma ferramenta axial no fortalecimento desta relação, eternizada na expressão aliança Povo-MFA a qual condensava os ideais da facção progressista do MFA «que eram sobretudo os da libertação da nossa pátria, do nosso povo, da realização das aspirações básicas». Utilizava o termo «missão» para aludir às Campanhas, afirmando serem estas «um trabalho gigantesco para as nossas possibilidades», referindo-se à insuficiência de meios técnicos e humanos que dispuseram para a concretização desta proposta da agenda revolucionária. «Foi uma das nossas debilidades fundamentais» - afirmava.
Num dos muitos cartazes que desenhou [...] João Abel Manta pareceu representar a «esperança e a confiança» que Vasco Gonçalves depositava nesta iniciativa ao atribuir-lhe uma centralidade no célebre cartaz MFA-Vasco-Povo. Povo-Vasco-MFA (1975), onde surge ladeado por duas figuras híbridas meio soldado, meio povo, reforçadas pela frase «Força, Força Companheiro Vasco / Nós Seremos a Muralha de Aço». E foi da seguinte forma que Vasco Gonçalves se referiu a este cartaz: «O cartaz é muito terno, eu era o companheiro Vasco, mas para certo sector da população, não para o país».
Fonte: Texto de Sónia Vespeira de Almeida, com base em entrevista a Vasco Gonçalves (2002) no âmbito da sua tese de doutoramento em Antropologia; inserido no folheto comemorativo da homenagem a Vasco Gonçalves, realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 21 de Outubro de 2006.
quinta-feira, outubro 19, 2006
Homenagem ao General Vasco Gonçalves (1922-2005)
Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade
Um grupo de cidadãs e cidadãos civis e militares, amantes da Liberdade e da Democracia, constituiu-se em Comissão Promotora de homenagem ao antigo Primeiro-Ministro de Portugal nos II, III, IV e V Governos Provisórios.
A passagem do primeiro aniversário da morte do General Vasco Gonçalves é o momento oportuno para reflectirmos sobre a sua figura ímpar, a sua dimensão ética, moral e política, o seu exemplo de dedicação ao País e aos portugueses, a sua simplicidade e transparência e sobretudo a sua luta por uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Recordemos o homem íntegro, o cidadão excepcional, o militar corajoso e o político totalmente dedicado à causa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos.
Momento Cultural com:
Fausto Neves (pianista)
Manuel Freire
Maria do Céu Guerra
Coral dos Mineiros de Aljustrel
Coral Catarinas de Baleizão
Coro da Academia dos Amadores
Intervenções de:
Prof. Doutor Barata Moura
Coronel Vicente da Silva
Dr Vasco Gonçalves Laranjeira (neto do General)
segunda-feira, outubro 16, 2006
terça-feira, agosto 29, 2006
Amesterdão

"Uma só Anne Frank comove-nos mais que as inúmeras pessoas que sofreram como ela, mas cujas imagens permanecem ocultas. E assim terá que continuar: se pudessemos compartilhar os sofrimentos de todos, ser-nos-ía impossível continuar a viver" (Primo Levi, escritor e sobrevivente de Auschwitz)
Passei uns dias em Amesterdão e fiquei fascinada.
com a luminosidade e paisagem citadinas
o muito verde e as muitas flores
os canais e as alamedas circundantes
o predomínio da bicicleta como meio de transporte.
a animação nas ruas
a arte e a cultura ao nosso alcance
(os 400 anos de Reambrandt são lembrados por todo o lado...)
as pessoas
a sua alegria, tolerância e civismo.
a liberdade
mas também as regras para vivê-la
sem prejudicar o outro.
Os museus.
(a emoção de olhar Van Gogh,
Reambrandt, Vermeer...)
a preocupação para que o passado esteja presente
e a Memória prevaleça.
Deixo-vos com a Casa de Anne Frank que me comoveu profundamente
com o Van Gogh Museum
e com a pintura flamenga do Rijks Museum
quinta-feira, agosto 17, 2006
In Memoriam de Regina Abreu

e o sol fugiu
de repente
Morreste-me
e a dor é um estilete
a retalhar
Morreste-me
e o frio invade
e gela
Morreste-me
e abriste um sulco
sem fim.
Para a minha amiga REGINA ABREU.
Uma grande LUTADORA ANTIFASCISTA.
Uma grande MULHER.
Uma grande AMIGA.
domingo, agosto 06, 2006
Para Memória Futura

Tomás Xavier de Figueiredo
(1930-1994)
Canção Cinco e Dez
Às cinco e dez da madrugada tudo é já claro.
À lucidez do escuro junta-se o Sol que nasce.
Não adianta ver quando ver é fazer
O fazer precisa que muitos vejam
E leva isso sempre o tempo que leva.
E diz-se então o mesmo muitas vezes
De modos cada vez mais próximos de coisas mais distantes
Pois se busca o nexo que tornará simples o que é claro.
Mas nada se adianta o tempo
Se é preciso esperar:
Só se pode ir rindo.
Mas Senhores, já agora,
Se desta loucura em que me afundo
Mas eu sei,
E que da vossa é feita,
Mas fingis não saber
Fingindo sempre que é doutros que se fala,
Alguma ideia vos der jeito,
Fazei favor de a usar
Sem pagar royalties nem direitos:
As ideias são livres e anónimas como a água e o ar.
E se vos desagradam
Usai o remédio do tempo
E fazei por esquecer,
Porque não quero dar conselhos a ninguém
E gostaria apenas que me pagassem em moeda igual.
Deixai-me sossegado
E ficai sossegados
Pois nenhum de nós dura muito tempo.
Os erros são o estrume da história
Mas a água e o ar são o lugar das flores e dos frutos
E o estrume só é útil na terra.
Perdoai aos que vos enganaram
Para que vos perdoem aqueles que vós próprios enganastes.
Os que se seguem nada têm a ver com os nossos enganos mútuos
E poderão voltar a usar as nossas palavras certas
Do tempo em que estavam exactas.
Mas só quando estivermos já esquecidos,
Pois é esse o preço da cegueira voluntária.
(in Rumo a Cacilhas, Sempre!, 1991, p. 123)
sábado, julho 29, 2006
Carta a Frank

Escrevo-te esta carta com o coração apertado. Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário politico ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas - como te costumas classificar, para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel são árabes - mais progressistas que conheço. Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramalah. Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso.
Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo que defendo para o povo palestiniano. Esqueço, com alguma má consciência, que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico. Esqueço também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700 mil palestianianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.
Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de facto, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de´água e de electricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os check points e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de facto, os meter num vasto campo de concentração). As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano. E agora tudo faz sentido.
A invasão e destruição do Líbano em 1982 ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações. Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?
Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis. Depois do Líbano, seguir-se-ão a Síria e o Irão. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.
Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lóbi comunicacional - que sufocantemente domina os jornais do meus país - com a benção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da UE. Sei que partilhas muito do que penso e espero compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país. Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz.
(Boaventura Sousa Santos, in Visão, 27 Julho 2006)
segunda-feira, julho 24, 2006
O menino e a paleta

No hotel, o único hotel daquela cidade, tão pequena que parecia ser a primeira cidade construída no mundo, o meu amigo, meu único amigo naquele momento único, contou-me a história de um menino que desenhava tudo, as flores, as nuvens, os peixes e as estrelas, em cinzento, um cinzento uniforme e triste.
As paredes da sala estavam cheias de quadros dos alunos, numa generosidade, num esbanjamento de cores que fazia sorrir os olhos da gente. Mas, no meio de toda aquela paleta, um desenho cinzento contrastava, doia, fazia pensar. E os professores, convencidos que o menino era daltónico, resolveram mandá-lo ao médico para obterem confirmação do que pensavam.
O médico observou e interrogou o menino, que gostava de cores, saboreava as cores, punha tanta força no que dizia que o verde dos insectos tinha reflexos metálicos, o arco-íris dos pássaros voava, cantava, tão feliz e evidente que só um louco poderia falar de daltonismo. Aquele menino era normal, captava todas as cores, remexia nelas como quem mergulha numa piscina, atirava ao ar o amarelo, o azul, o laranja, o lilás, num jogo malabar, exacto, impressionante, sem hesitações.
Voltou o menino à escola e a curiosidade, quase inquietação, voltou ao cérebro dos professores. E disseram ao menino que passasse o fim-de-semana desenhando e trouxesse de casa cinco trabalhos diferentes que ele próprio deveria escolher. Vieram os desenhos: uma zebra correndo, uma girafa fugindo de um leão com seu pescoço longo, longo, longo, um cacho de bananas no chão congolês, as montanhas pardas do Ruanda Urundi, o sol vermelho mergulhando no rio, tudo cinzento, implacavelmente cinzento, inexoravelmente cinzento. Foi então que os professores chamaram burro ao médico, olharam o aluno com olhos assustados e resolveram visitar os pais do menino nesse mesmo dia.
E lá foram, em comitiva, o mais velho levando a criança pela mão como quem ajuda um enfermo e os outros seguindo, com caras fechadas, graves e ridiculamente solenes. A ladeira era íngreme, o bairro carcomido, e a casa tinha frinchas, buracos, marcas e socos do tempo. Os pais do menino, com gestos amedrontados, pediram desculpa de só terem três cadeiras e os professores falaram dos desenhos do aluno avançando lentamente, preparando terreno, como quem vai anunciar uma desgraça. E afinal tudo era tão simples quanto cruel. O menino não tinha, nem nunca tivera, lápis de cores.
Saímos do hotel curvados pelo peso daquela história. O tempo mudara e tudo era chumbo e cinza è nossa volta. Como nos desenhos do menino pobre.
(Sidónio Muralha, in O Andarilho, Prelo, 1975, pp.19-21)
quinta-feira, julho 20, 2006
Parabéns, Raquel

A Páginas Tantas...
Feliz Aniversário
"Vai, semente,
cresce, germina,
rompe os prédios,
fura o telhado,
estoira o mundo,
rasga as núvens,
racha o céu,
enche a noite de novas estrelas
que riem, sofrem e choram
feitas de carne humana."
Amiga,
Acende o archote dos tempos
Para iluminar novos tempos
que outros tempos
tempos traz.
(sobre poema de J Gomes Ferreira)

sábado, julho 15, 2006
Notícias do bloqueio
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.
Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.
Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...
Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos em silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.
Vai pois e noticia como um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.
Vais pois e conta nos jornais diarios
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.
Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.
Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.
(Egito Gonçalves)
Publicado em 1953, este poema circulou semi-clandestinamente sendo grande a repercussão alcançada entre as hostes oposicionistas. Influenciando toda uma geração de jovens poetas, «Notícias do Bloqueio» foi o nome escolhido por alguns deles ao decidirem editar um fascículo de poesia,entre 1957-1962, a partir do Porto, publicação que constituíu um marco na resistência à ditadura de Salazar.
quinta-feira, julho 13, 2006
Para o meu amigo LR
Tu navegas numa ilha
E só nessa ilha podes viajar
Em qualquer viagem da tua vida
A tua ilha é sempre no ilhéu do coração
E com o teu olhar e os teus passos
Propagas-te e dilatas-te no espaço
Na surpresa de tudo ser o que é
E não ser
E assim te perdes sem te perderes
Como quem atravessa um muro
E respira com a sua sede
De respirar
Às vezes parece-te que a tua vida não é a tua vida
Mas foi a vida que te deu a vida
E nada se parece contigo
E em tudo viajas no assombro de navegares
Sem conheceres bem o teu rumo
Com a coragem de quereres vir ao encontro
Da verdadeira vida
Fora de ti longe de ti
Transformada em ti.
(Antonio Ramos Rosa, 21-02-04)
sábado, julho 08, 2006
Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) e "os cafres da Europa" - II
terça-feira, julho 04, 2006
Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) e "os cafres da Europa" - I
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| Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) |
Em Legítima Defesa
(Nota enviada ao Diário de Lisboa em 18 de Janeiro de 1949, impedida de publicar pela censura)
Só no dia seguinte soube, positivamente, devido ao esclarecimento do meu advogado, o rol dos meus crimes: produzira falsas afirmações susceptíveis de fazer perigar o bom nome, o crédito e o prestígio de Portugal no estrangeiro; instigara à desobediência colectiva; incitara, enfim, à luta politica pela violência ou pelo ódio. Fiquei atónito; mas olhei para dentro de mim e não vi as negridões de que me acusavam. Como é que um pobre estudioso de gabinete podia ser tão mauzinho? E então começou a fazer-se luz na minha consciência: eu, acusado de instigar ao ódio, contra a própria letra das minhas afirmações, tinha sido vitima de uma conspiração odiosa; eu, acusado de desprestigiar o bom nome de Portugal, contra toda a evidência da minha obra, estava sendo perseguido pelos que, a cada momento, pelos seus actos, o desautorizam nas esferas cultas e responsáveis do estrangeiro. Era engraçado, não era?
O mais curioso foi aquela peregrina nota do Ministério da Justiça, publicada nos jornais do dia 7, obra-prima de hermenêutica que vale a pena transcrever na integra:
Mas noto que a indignação me faz esquecer… Moderemos o tom, para mais jocoso, e vejamos melhor agora aquela frase alusiva aos cafres, que parece ter irritado sobremodo os homens da Situação. O pobre do Casais Monteiro já sofreu as consequências da simpática solidariedade que teve para comigo: ferraram com ele no Aljube. Agora só falta ir para lá o Senhor Henrique Galvão; e o próprio Senhor Presidente do Ministério não estará muito seguro. Sim, porque estes notáveis senhores também abundam nas mesmas ideias. O Senhor Henrique Galvão, por motivo da proposta de lei da organização hospitalar, em 24 de Janeiro de 1946, disse o seguinte na Assembleia Nacional: «Mas não terá paralelo o que se passa com os pretos, os seus feitiços e feiticeiros, com o que se passa com os aldeãos de muitas das nossas aldeias e povoados, perdidos em reconcavos da serra e cantos frios sem civilização? Não haverá entre nós também uma população que, pelas dificuldades com que luta, pela ignorância, pelo recurso tradicional à bruxa, pela distancia, etc., vive e morre sem assistência medica e que só se tratará se o hospital for ao seu encontro?» A comparação é evidente e acertada, e a forma interrogativa da frase não ilude ninguém: o orador punha ao nível dos cafres as baixas superstições, crendices e ignorância de certas populações rurais portuguesas. O Senhor Presidente do Ministério, que parece ter por nós todos o mais absoluto desprezo, não declarou no seu último discurso que a desliberdade que nos impõe é proporcional à incultura em que jazemos? O Armindo Rodrigues viu perfeitamente o caso (vê lá no que te metes…) e já estabeleceu o paralelo entre dois homens e as duas situações. E cabe-me agora protestar contra a desigualdade de tratamento que se dá a um e a outro.
O mais patusco guardo-o para o fim. Aquela referência aos cafres nem sequer é minha, ó cavalheiros. É um plagio desavergonhado, sabem de quem: do padre António Vieira, o grande orador jesuíta do século XVII! Vejam o grande escândalo: os homens da Oposição a fazerem causa comum com os jesuítas ! Já vão ver porquê. Como todas as pessoas cultas sabem, o padre António Vieira, que foi um grande lutador de nobre ideais, tomou a defesa dos cristãos-novos, que desejava ver reintegrados na vida nacional por uma politica de tolerância e de inteligência, que soubesse aproveitar em beneficio do País o seu trabalho, as suas iniciativas e as suas riquezas. Nos países cultos da Europa que visitou, viu-os considerados e felizes; e quando ouvia o apodo de cafres da Europa, com que por lá nos mimoseavam, e que se dirigia não ao povo mas às instituições retrógradas que o cafrealizavam, não podia deixar de reconhecer o bem fundado da metáfora. Um dia, a propósito de uma superstição grosseira, uma venda de relíquias, que comentava ironicamente, escreveu ao seu amigo Duarte Ribeiro de Macedo:
Em Legítima Defesa, in Depoimentos, 2ª série, Campanha Eleitoral da Oposição, edição dos Serviços Centrais da Candidatura [de Norton de Matos], Lisboa, 1949, p.10-15



