terça-feira, maio 01, 2007

Meu irmão de Maio

Mártires de Chicago
Irmão do mês de Maio. Irmão de medo.
Das lutas que travamos porta a porta.
Irmão desta razão deste segredo.
Esperança tão mais viva do que morta.
Irmão de Maio. Punho levantado
contra quem te quis sempre prisioneiro.
Pela força explorado. E deserdado.
Irmão de Maio. Irmão do ano inteiro.
Ai meu irmão de Maio é neste outono
das palavras mais duras mais avessas
que o medo vai soltar os cães do sono.
Irmão a quem não bastam as promessas.
És bem como as palavras. Não tens dono.
E eu canto a tua dor. Sem que mo peças.
(Joaquim Pessoa)



sexta-feira, abril 27, 2007

Amor Militante

primeiro 1º de Maio em Liberdade, 1974

Amor Militante


Regaço. Flor. Abraço. Movimento.
Lua de seiva. Vinho. Arco. Seta.
Palavra nua. Força. Forca. Vento.
Anel de lava. Passo. Início. Meta.

Retrato e acto. Cacto. Água. Poço.
Laço que eu faço. Braço que arremessa.
Nome de caça. Casa. Sangue e osso.
Amor que sempre acaba. E recomeça.

Amor que sempre faço. Porque é isso
que faz falta fazer. Amor amante.
Amor que é um compasso. Um compromisso.

Amor que é toda a vida ou um instante
em que se vive e morre de olhar fixo
e coração ao alto. Militante.

Joaquim Pessoa



domingo, abril 22, 2007

Festejemos 33 anos de Liberdade - II

25 de Abril, sempre!
JANTAR - CONVIVIO
Promovido pela A25A
dia 24, 20 horas, na FIL - Parque das Nações
INCREVAM-SE ! 21 3241420 ou pelo fax 21 3241429
Vamos festejar com os "capitães"
que nos devolveram a dignidade e a cidadania




terça-feira, abril 17, 2007

Festejemos 33 anos de Liberdade


Jantar - Convívio

Sexta-feira, 20 Abril, pelas 20 h.

no Mercado da Ribeira-Av 24 Julho, Lisboa
Façamos de Abril a força aglutinadora e unificadora de todos aqueles que prezam a Liberdade e repudiam o branqueamento que se tenta fazer do regime anterior.
VIVA O 25 DE ABRIL !



terça-feira, abril 10, 2007

Ontem terias feito 65 anos ...

Adriano Correia de Oliveira
(1942-1982)


ADRIANO


Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem queria caber e não cabia.

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.


(Manuel Alegre)


Em Outubro completam-se 25 anos que partiste.
Por que temos Memória
e queremos preservar essa Memória,
Não te deixaremos "morrer"
Até Sempre, Adriano !

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Há 20 anos que partiste

Zeca Afonso e amigos, numa sessão de Canto Livre, 1974
«AMIGO ... maior que o pensamento ...»

«Semeio palavras na música. Não tenho pretensões de dar a estas minhas deambulações pela música qualquer outro rótulo. Faço apenas canções. A canção insere-se sempre dentro de um processo. A sua eficácia depende do processo em que se insere. A sua importância depende da vastidão desse processo».

«Quando começamos a procurar alibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado»
(in José Afonso, andarilho, poeta e cantor, 1994)
ATÉ SEMPRE, ZECA !

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Eu Voto SIM




(…)

“Sou a favor da despenalização do aborto, nas condições e limites propostos no referendo, ou seja, desde que realizado por decisão da mulher, em estabelecimento de saúde, nas primeiras dez semanas de gravidez. Eis uma recapitualação das minhas razões.

1ª O que está em causa no referendo é decidir se o aborto nessas condições deve deixar de ser crime, como é hoje, sujeito a uma pena de prisão até 3 anos (art. 140.º do Código Penal). Por isso, é francamente enganador chamar ao referendo o “referendo do aborto” ou “sobre o aborto”, como muita gente diz. De facto, não se trata de saber a posição de cada um sobre o aborto (suponho que ninguém aplaude o aborto), mas sim de decidir se a mulher que não se conforma com uma gravidez indesejada, e resolve interrompê-la, deve ou não ser perseguida e julgada e punida com pena de prisão”
(Vital Moreira, in Público)

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Quem votar SIM fica sem funeral religioso ...

"Os cristãos que vão votar SIM no referendo serão alvo de excomunhão automática, a mais pesada das censuras eclesiásticas", garante o cónego Tarcísio Alves, pároco há cinco anos em Castelo de Vide (Portalegre).
A excomunhão automática atinge ainda "todos os intervenientes na execução do crime, como, por exemplo, médicos e enfermeiros", sublinha, enquanto consulta página a página o Código Canónico. "Se um católico aceitar a liberalização do aborto incorre na censura da excomunhão e não poderá ser reintegrado na comunidade cristã sem intervenção do bispo", sustenta ainda.
Doutorado pela Universidade Católica de Salamanca em Direito Canónico, Tarcísio Alves tem distribuído nos últimos tempos, pelos paroquianos, um boletim informativo em que adverte os devotos para os "perigos" de votar SIM no próximo referendo e as consequências, junto da Igreja, que poderão sobrevir. "Não fui eu que inventei estas regras, está tudo bem explícito no Cânone 1398" sublinha.
Mas o vigário judicial da diocese de Portalegre e Castelo Branco vai mais longe ao alertar os fiéis para "outros perigos" que podem surgir, se no próximo referendo o voto recair no SIM. "Se votar no 'sim' ou se se abstiver, poderá estar também a cometer um pecado mortal gravíssimo. No referendo até as irmãs vão sair dos conventos porque senão também incorrem num pecado de omissão", adverte.
Para o clérigo trata-se de "um caso grave", porque todos aqueles católicos que violarem as leis da Igreja sobre este ponto "não podem casar, baptizar-se e nem poderão ter um funeral religioso - Cânone 1331."
Tarcísio Alves garantiu ao DN que "não faz política nem fala do caso durante as missas de domingo, mas no seu boletim paroquial e através de e-mails". O cónego promete continuar a "esclarecer a população e a prova disso passa pela edição, ainda hoje, de mais um boletim que no último parágrafo apela mais uma vez ao voto no NÃO".
A comunidade católica de Castelo de Vide encara estes "avisos" de forma natural e aplaude a atitude do cónego. "Acho bem que expliquem os perigos do aborto às pessoas, principalmente a nós, os mais velhos, que nunca estudámos. O que sabemos é através daquilo que vemos na televisão", diz Piedade Godinho à entrada da igreja.
in DN de 19 Janeiro 2007

quarta-feira, janeiro 17, 2007

O Crime de Amar de Mais


É a «justiça» que temos e os juízes (alguns juízes) que temos. Um homem foi ontem condenado em Torres Novas a seis anos de prisão por se recusar a entregar a um desconhecido, o pai biológico, uma menina de cinco anos de quem, abandonada pela mãe, esquecida pelo pai, ele e sua mulher cuidam desde os três meses de idade.

O pai biológico nunca quis saber da gravidez da mulher com quem tinha tido o que, entre risinhos, chama de «caso casual». Só viu a bebé duas vezes, de passagem, uma quando foi chamado a fazer testes de ADN, outra dois anos depois.

Agora, em vésperas de a criança fazer cinco anos, decidiu reclamá-la. E o tribunal, pura e simplesmente, mandou que ela lhe fosse entregue, apesar de os psicólogos dizerem que arrancá-la àqueles que ela considera seus pais e entregá-la a um desconhecido será «dilacerante».

Para evitar à filha adoptiva (o processo de adopção estava em curso) a dilacerante separação, Luis recusa-se a revelar o seu paradeiro. Resultado: seis anos de prisão.

Porque os juízes (alguns deles) já não fazem «justiça», são meros burocratas da lei.

E a lei de tais juízes tanto dá para condenar a uma multa de 720 euros um polícia que matou um homem a tiro como para mandar seis anos para a cadeia quem, como o Luís, comete o crime de amar de mais.

(Manuel António Pina, Jornal de Notícias de 17.01.2007)


domingo, janeiro 14, 2007

Poema da Maria Rita

Maria Rita
é portuguesa
Maria Rita
Tem 18 anos
Maria Rita
é mulher
Maria Rita tem
um namorado
Maria Rita
fez sexo com o
namorado
Maria Rita
engravidou
Maria Rita
é parva
Maria Rita
logo que disse ao
namorado este cavou
Maria Rita
procurou resolver a questão
Maria Rita
encontrou uma senhora amiga
que lhe emprestou dinheiro
para fazer um aborto

Schssss ali naquela mulher de
confiança

Schssss não digas a ninguém
se não podes ir presa tu e ela também

Maria Rita não disse a ninguém
mas disse à mãe, e disse à tia, e disse
à irmã, também elas, todas elas,
tinham feito abortos,

Schssss não digam a ninguém
è que o senhor polícia pode bater
à porta.

Ana Vicente

in Por Uma Vida de Escolhas, editado pelo
Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo SIM

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Amadeu de Souza-Cardoso

DIÁLOGO DE VANGUARDAS
Exposição
na
Fundação Calouste Gulbenkian
15. Nov.06 - 14.Jan.07
Horário
das 10H00 às 22H00
6ª feira - encerra às 24H00
MEUS AMIGOS,
NÃO PERCAM ESTA EXPOSIÇÃO !
Dificilmente se conseguirão reunir, de novo, as obras que nesta mostra podemos admirar.
Quer as de Amadeu, quer a de todos os artistas que com ele conviveram no período que permaneceu em Paris e nas quais podemos constatar os diálogos que entre si estabeleceram.
AINDA RESTAM 3 DIAS !
E OS HORÁRIOS SÃO ALARGADOS ...
ACREDITEM QUE VALE A PENA UMA IDA À GULBENKIAN

terça-feira, janeiro 09, 2007

No começo de 2007

Barcas Novas


Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
ao mar deitadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas

Não lavram terra com elas
Os homens que levam guerra

Nelas mandam meter
os homens com sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas


(Fiama Hasse Pais Brandão)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Festas Felizes



Natal 2006


não te digo do natal coisa nenhuma
do natal enfeitado a sumaúma
que se arruma em cada ano nalgum canto

não te digo do natal em mar de espuma
esse efémero natal-coisa-nenhuma
quebradiço a ter-de-ser e sem encanto

não te digo do natal de coitadinhos
nem daquele de nós todos tão sozinhos
conformados sem ter sonhos nem espanto

não te digo do natal feito de prendas
num afecto leva-e-traz que me encomendas
e trocamos cada ano em qualquer canto

mas te digo um natal fio de seda
do casulo entretecido que te enreda
e te leva ao riso ao sonho em doce encanto

digo ainda do natal feito de enlaces
desfiando o casulo onde renasces
enlaçando cada ser por valer tanto

digo então um natal que desse fio
deslassado mundo fora como um rio
nos envolva a todos nós num acalanto

mais te digo do natal de um outro início
celebrando a nova esperança o solstício
recriado em nossa voz num novo canto.

Jorge Castro

Este poema é do meu amigo Jorge Castro (Orca) a quem agradeço a autorização concedida.
Ninguém melhor do que ele exprime toda a ternura desta data mas, ao mesmo tempo, a necessidade que muitos de nós sentem de (re) criar o Natal para que deixe de ser a época nataleira-consumista em que se tornou e se transforme na Festa Fraterna e Solidária que sempre deveria ser.

terça-feira, dezembro 05, 2006

A vida é efémera .... acreditem.

Entre os dias 7 de Novembro e 1 de Dezembro estive internada no serviço de cirurgia do Hospital de S. José, em Lisboa.
Inicialmente o diagnóstico foi o de Pancreatite Aguda e ... pedra na vesícula, sendo que os médicos sempre valorizaram muito mais a infecção no pâncreas em detrimento da vesícula. E foi assim que me mantive semanas a dieta zero (sem poder ingerir água, sequer) apenas molhando os lábios. Quando as coisas pareceram melhorar enviaram-me para casa à espera de oportunidade melhor para a operaçáo à vesícula. Só que, passados dois dias, eu estava de novo internada. E agora com temperaturas altías quase constantes e cólicas dolorosíssimas!
Confesso: vi a morte rondar-me, pensei que tinham chegado os últimos momentos.
Finalmente decidiram operar-me. E ainda bem que o fizeram porque a vesícula (um pequeno saco que temos na base do fígado) estava de tal forma infectada que uma peritonite era inevitável e, obviamente, uma septicémia tomaria conta de mim. Aconteceu na madrugada de 25 para 26 de Novembro. O pós-operatório foi mauzito com temperaturas altas e dores constantes.
Apesar de tudo, no dia 1 de Dezembro, dia do meu aniversário, quiseram oferecer-me um enorme presente e mandar-me para casa. Regressei com os pontos e um dreno.
E cá vou sobrevivendo e reagindo. Com imensas dores, com imenso mau-estar, por enquanto. Mas  salva pelo excelente SNS que temos. 

Valem-me os AMIGOS que não me abandonam. 

Obrigada ao meu vizinho Mário que cuidou (como sempre) com todo o carinho e toda a dedicação dos meus dois meninos de quatro patas: o Miró e a Elis Regina.

Obrigada, à querida ANGELA que nunca me abandonou. Amiga, tu és mais que amiga mais que  irmã. Tu és a IMPRESCINDÍDEL, aquela pessoa que, incondicionalmente, está sempre presente. Aceitando-me como sou, amando-me como sou. E nunca me abandonando.
Não tenho palavras para dizer-te o quanto te amo.
Mas tu sabes.

Vou agora descansar e recuperar para casa dos meus amigos Albergaria, a minha «família de acolhimento», os AMIGOS com quem sempre posso contar.

Um beijo para TODOS vocês !

segunda-feira, outubro 23, 2006

Vasco Gonçalves e as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA





Passados seis meses do 25 de Abril de 1974, na vigência do III Governo Provisório chefiado por Vasco Gonçalves, é apresentado no Palácio Foz em Lisboa, o Programa de Dinamização Cultural que iria ser coordenado pela Comissão Dinamizadora Central (CODICE), estrutura da 5ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, em colaboração com a Direcção-Geral da Cultura e Espectáculos.

Para o então Primeiro-Ministro, um dos principais objectivos desta iniciativa «era levar os militares, o MFA, às populações e apoiá-las no desenvolvimento, na tomadas de consciência dos problemas que elas tinham. [...] Pretendíamos, sobretudo, transformar as ideias de fundo dessas populações. Não pretendíamos transformar essas populações em socialistas ou em comunistas. Queríamos transformá-las em gente democrática, gente aberta a analisar as situações e arrancá-las de toda aquela carga de fascismo que durante 48 anos tinha pesado sobre elas».

A par destes objectivos, Vasco Gonçalves defendia, também, que as Campanhas tiveram um importante papel na democratização e dinamização das Forças Armadas, sublinhando o facto de os militares que as protagonizaram regressarem «mais politizados» devido ao contacto com as diferentes realidades que procuravam transformar. Nesse sentido, e numa perspectiva cara à Primeira República, Vasco Gonçalves evocou, numa sessão de esclarecimento realizada no Sabugo (Sintra) em Fevereiro de 1975, a figura do «militar-educador». Este deveria aprender com aqueles que procurava educar, com aqueles que procurava ensinar, com aqueles que procurava ajudar. Na sua óptica, a expressão que melhor caracterizava a Dinamização Cultural era o «trabalho quotidiano» porque as Campanhas constituíam uma aprendizagem mútua, um processo de conhecimento do país que a revolução surpreendeu.

Para Vasco Gonçalves o grande impulsionador das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA fora Ramiro Correia, o «comandante-médico que até fazia versos [...] um idealista no bom sentido do termo». Na génese desta iniciativa, salientava a importância da Acção Psico-social utilizada na guerra colonial, assegurando que «muitos militares vieram influenciados com isso e consideravam-se em condições de desenvolver uma acção desse nível dentro do nosso próprio país, com os seus compatriotas».

[...] a relação entre os militares e a população adquiriu novos contornos com a transição democrática e, para Vasco Gonçalves, as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA seriam uma ferramenta axial no fortalecimento desta relação, eternizada na expressão aliança Povo-MFA a qual condensava os ideais da facção progressista do MFA «que eram sobretudo os da libertação da nossa pátria, do nosso povo, da realização das aspirações básicas». Utilizava o termo «missão» para aludir às Campanhas, afirmando serem estas «um trabalho gigantesco para as nossas possibilidades», referindo-se à insuficiência de meios técnicos e humanos que dispuseram para a concretização desta proposta da agenda revolucionária. «Foi uma das nossas debilidades fundamentais» - afirmava.

Num dos muitos cartazes que desenhou [...] João Abel Manta pareceu representar a «esperança e a confiança» que Vasco Gonçalves depositava nesta iniciativa ao atribuir-lhe uma centralidade no célebre cartaz MFA-Vasco-Povo. Povo-Vasco-MFA (1975), onde surge ladeado por duas figuras híbridas meio soldado, meio povo, reforçadas pela frase «Força, Força Companheiro Vasco / Nós Seremos a Muralha de Aço». E foi da seguinte forma que Vasco Gonçalves se referiu a este cartaz: «O cartaz é muito terno, eu era o companheiro Vasco, mas para certo sector da população, não para o país».






Fonte: Texto de Sónia Vespeira de Almeida, com base em entrevista a Vasco Gonçalves (2002) no âmbito da sua tese de doutoramento em Antropologia; inserido no folheto comemorativo da homenagem a Vasco Gonçalves, realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 21 de Outubro de 2006.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Homenagem ao General Vasco Gonçalves (1922-2005)



Sábado, 21 de Outubro de 2006, às 15h30

Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa

Alameda da Universidade




Um grupo de cidadãs e cidadãos civis e militares, amantes da Liberdade e da Democracia, constituiu-se em Comissão Promotora de homenagem ao antigo Primeiro-Ministro de Portugal nos II, III, IV e V Governos Provisórios.

A passagem do primeiro aniversário da morte do General Vasco Gonçalves é o momento oportuno para reflectirmos sobre a sua figura ímpar, a sua dimensão ética, moral e política, o seu exemplo de dedicação ao País e aos portugueses, a sua simplicidade e transparência e sobretudo a sua luta por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Recordemos o homem íntegro, o cidadão excepcional, o militar corajoso e o político totalmente dedicado à causa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos.


Momento Cultural com:

Fausto Neves (pianista)


Manuel Freire

Maria do Céu Guerra

Coral dos Mineiros de Aljustrel

Coral Catarinas de Baleizão

Coro da Academia dos Amadores


Intervenções de:

Prof. Doutor Barata Moura

Coronel Vicente da Silva

Dr Vasco Gonçalves Laranjeira (neto do General)





terça-feira, agosto 29, 2006

Amesterdão



"Uma só Anne Frank comove-nos mais que as inúmeras pessoas que sofreram como ela, mas cujas imagens permanecem ocultas. E assim terá que continuar: se pudessemos compartilhar os sofrimentos de todos, ser-nos-ía impossível continuar a viver" (Primo Levi, escritor e sobrevivente de Auschwitz)

Passei uns dias em Amesterdão e fiquei fascinada.
com a luminosidade e paisagem citadinas
o muito verde e as muitas flores
os canais e as alamedas circundantes
o predomínio da bicicleta como meio de transporte.
a animação nas ruas
a arte e a cultura ao nosso alcance
(os 400 anos de Reambrandt são lembrados por todo o lado...)
as pessoas
a sua alegria, tolerância e civismo.
a liberdade
mas também as regras para vivê-la
sem prejudicar o outro.
Os museus.
(a emoção de olhar Van Gogh,
Reambrandt, Vermeer...)
a preocupação para que o passado esteja presente
e a Memória prevaleça.

Deixo-vos com a Casa de Anne Frank que me comoveu profundamente

com o Van Gogh Museum

e com a pintura flamenga do Rijks Museum

quinta-feira, agosto 17, 2006

In Memoriam de Regina Abreu



Morreste-me
e o sol fugiu
de repente

Morreste-me
e a dor é um estilete
a retalhar

Morreste-me
e o frio invade
e gela

Morreste-me
e abriste um sulco
sem fim.


Para a minha amiga REGINA ABREU.

Uma grande LUTADORA ANTIFASCISTA.
Uma grande MULHER.
Uma grande AMIGA.

domingo, agosto 06, 2006

Para Memória Futura



Tomás Xavier de Figueiredo
(1930-1994)


Canção Cinco e Dez

Às cinco e dez da madrugada tudo é já claro.
À lucidez do escuro junta-se o Sol que nasce.
Não adianta ver quando ver é fazer
O fazer precisa que muitos vejam
E leva isso sempre o tempo que leva.
E diz-se então o mesmo muitas vezes
De modos cada vez mais próximos de coisas mais distantes
Pois se busca o nexo que tornará simples o que é claro.
Mas nada se adianta o tempo
Se é preciso esperar:
Só se pode ir rindo.
Mas Senhores, já agora,
Se desta loucura em que me afundo
Mas eu sei,
E que da vossa é feita,
Mas fingis não saber
Fingindo sempre que é doutros que se fala,
Alguma ideia vos der jeito,
Fazei favor de a usar
Sem pagar royalties nem direitos:
As ideias são livres e anónimas como a água e o ar.
E se vos desagradam
Usai o remédio do tempo
E fazei por esquecer,
Porque não quero dar conselhos a ninguém
E gostaria apenas que me pagassem em moeda igual.
Deixai-me sossegado
E ficai sossegados
Pois nenhum de nós dura muito tempo.
Os erros são o estrume da história
Mas a água e o ar são o lugar das flores e dos frutos
E o estrume só é útil na terra.
Perdoai aos que vos enganaram
Para que vos perdoem aqueles que vós próprios enganastes.
Os que se seguem nada têm a ver com os nossos enganos mútuos
E poderão voltar a usar as nossas palavras certas
Do tempo em que estavam exactas.
Mas só quando estivermos já esquecidos,
Pois é esse o preço da cegueira voluntária.


(in Rumo a Cacilhas, Sempre!, 1991, p. 123)

sábado, julho 29, 2006

Carta a Frank




Escrevo-te esta carta com o coração apertado. Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário politico ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas - como te costumas classificar, para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel são árabes - mais progressistas que conheço. Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramalah. Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso.

Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo que defendo para o povo palestiniano. Esqueço, com alguma má consciência, que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico. Esqueço também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700 mil palestianianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.

Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de facto, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de´água e de electricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os check points e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de facto, os meter num vasto campo de concentração). As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano. E agora tudo faz sentido.

A invasão e destruição do Líbano em 1982 ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações. Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?

Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis. Depois do Líbano, seguir-se-ão a Síria e o Irão. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.

Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lóbi comunicacional - que sufocantemente domina os jornais do meus país - com a benção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da UE. Sei que partilhas muito do que penso e espero compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país. Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz.

(Boaventura Sousa Santos, in Visão, 27 Julho 2006)

segunda-feira, julho 24, 2006

O menino e a paleta



No hotel, o único hotel daquela cidade, tão pequena que parecia ser a primeira cidade construída no mundo, o meu amigo, meu único amigo naquele momento único, contou-me a história de um menino que desenhava tudo, as flores, as nuvens, os peixes e as estrelas, em cinzento, um cinzento uniforme e triste.

As paredes da sala estavam cheias de quadros dos alunos, numa generosidade, num esbanjamento de cores que fazia sorrir os olhos da gente. Mas, no meio de toda aquela paleta, um desenho cinzento contrastava, doia, fazia pensar. E os professores, convencidos que o menino era daltónico, resolveram mandá-lo ao médico para obterem confirmação do que pensavam.

O médico observou e interrogou o menino, que gostava de cores, saboreava as cores, punha tanta força no que dizia que o verde dos insectos tinha reflexos metálicos, o arco-íris dos pássaros voava, cantava, tão feliz e evidente que só um louco poderia falar de daltonismo. Aquele menino era normal, captava todas as cores, remexia nelas como quem mergulha numa piscina, atirava ao ar o amarelo, o azul, o laranja, o lilás, num jogo malabar, exacto, impressionante, sem hesitações.

Voltou o menino à escola e a curiosidade, quase inquietação, voltou ao cérebro dos professores. E disseram ao menino que passasse o fim-de-semana desenhando e trouxesse de casa cinco trabalhos diferentes que ele próprio deveria escolher. Vieram os desenhos: uma zebra correndo, uma girafa fugindo de um leão com seu pescoço longo, longo, longo, um cacho de bananas no chão congolês, as montanhas pardas do Ruanda Urundi, o sol vermelho mergulhando no rio, tudo cinzento, implacavelmente cinzento, inexoravelmente cinzento. Foi então que os professores chamaram burro ao médico, olharam o aluno com olhos assustados e resolveram visitar os pais do menino nesse mesmo dia.

E lá foram, em comitiva, o mais velho levando a criança pela mão como quem ajuda um enfermo e os outros seguindo, com caras fechadas, graves e ridiculamente solenes. A ladeira era íngreme, o bairro carcomido, e a casa tinha frinchas, buracos, marcas e socos do tempo. Os pais do menino, com gestos amedrontados, pediram desculpa de só terem três cadeiras e os professores falaram dos desenhos do aluno avançando lentamente, preparando terreno, como quem vai anunciar uma desgraça. E afinal tudo era tão simples quanto cruel. O menino não tinha, nem nunca tivera, lápis de cores.

Saímos do hotel curvados pelo peso daquela história. O tempo mudara e tudo era chumbo e cinza è nossa volta. Como nos desenhos do menino pobre.



(Sidónio Muralha, in O Andarilho, Prelo, 1975, pp.19-21)

quinta-feira, julho 20, 2006

Parabéns, Raquel



A Páginas Tantas...

Feliz Aniversário

"Vai, semente,
cresce, germina,
rompe os prédios,
fura o telhado,
estoira o mundo,
rasga as núvens,
racha o céu,
enche a noite de novas estrelas
que riem, sofrem e choram
feitas de carne humana."

Amiga,

Acende o archote dos tempos
Para iluminar novos tempos
que outros tempos
tempos traz.

(sobre poema de J Gomes Ferreira)


sábado, julho 15, 2006

Notícias do bloqueio

Aproveito a tua neutralidade
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos em silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia como um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vais pois e conta nos jornais diarios
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

(Egito Gonçalves)


Publicado em 1953, este poema circulou semi-clandestinamente sendo grande a repercussão alcançada entre as hostes oposicionistas. Influenciando toda uma geração de jovens poetas, «Notícias do Bloqueio» foi o nome escolhido por alguns deles ao decidirem editar um fascículo de poesia,entre 1957-1962, a partir do Porto, publicação que constituíu um marco na resistência à ditadura de Salazar.

quinta-feira, julho 13, 2006

Para o meu amigo LR

Nenhuma viagem se compara à tua
Tu navegas numa ilha
E só nessa ilha podes viajar
Em qualquer viagem da tua vida

A tua ilha é sempre no ilhéu do coração
E com o teu olhar e os teus passos
Propagas-te e dilatas-te no espaço
Na surpresa de tudo ser o que é
E não ser
E assim te perdes sem te perderes
Como quem atravessa um muro
E respira com a sua sede
De respirar

Às vezes parece-te que a tua vida não é a tua vida
Mas foi a vida que te deu a vida
E nada se parece contigo
E em tudo viajas no assombro de navegares
Sem conheceres bem o teu rumo
Com a coragem de quereres vir ao encontro
Da verdadeira vida
Fora de ti longe de ti
Transformada em ti.

(Antonio Ramos Rosa, 21-02-04)

sábado, julho 08, 2006

Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) e "os cafres da Europa" - II



Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989)


A 1 de Janeiro de 1949 iniciara-se a campanha eleitoral para a Presidência da República. Pela primeira vez aparecia um candidato oposicionista, o General Norton de Matos. Iam ser postas à prova as "eleições livres e democráticas" prometidas por Salazar.

A imprensa trazia para a ribalta a voz da oposição.

Segue-se a entrevista a Manuel Rodrigues Lapa, publicada no Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1949.

Como se sabe, Manuel Rodrigues Lapa seria preso no dia seguinte e encarcerado no Aljube, sendo solto a 10 do mesmo mês.

________________________________________________________
ENTREVISTA 


Com a abertura do período eleitoral, logo se anunciou que se iam fazer criticas severas à obra da actual situação, e o próprio Governo declarou que esperava essas criticas e não se oporia a que fossem apresentadas, com perfeita liberdade de expressão. Um dos aspectos que mais têm sido focados pelos que se opõem ao regime vigente é o que se refere ao ensino. Aproveitámos um encontro com um dos mais categorizados professores universitários da oposição, para abordar, precisamente, este problema.

O nosso entrevistado é o professor dr Manuel Rodrigues Lapa, erudito a quem se deve uma obra valiosa de investigação e vulgarização literária. Depois de completar os seus estudos em Paris, o prof Rodrigues Lapa entrou na Faculdade de Letras de Lisboa, onde regeu a cadeira de Filologia e Literatura Portuguesas até Maio de 1935, em que foi demitido por motivos políticos, incluído na primeira lista dos funcionários afastados conhecida sob a designação de «Lista dos 33». (…) Foi director do semanário O Diabo de 1935 a 1937. Actualmente (…) trabalha numa reedição das suas «Lições da Literatura Portuguesa, das Obras de Tomas António Gonzaga, que publicou no Brasil, e da Estilística da Língua Portuguesa. Dirige, além disso, a colecção de Textos Literários da «Seara Nova».

Considerado uma das nossas maiores autoridades em assuntos de literatura portuguesa, o professor Rodrigues Lapa é geralmente conhecido como um dos mais firmes adversários da actual situação politica. Eis a razão por que, neste momento, a sua opinião se reveste de particular interesse.

P – Que pensa, como professor, sobre os problemas do ensino durante este regime?

R – Se nos vários departamentos da governação e administração muito há a criticar, os erros, quase diria os crimes em matéria de educação são de tal ordem, que excedem o que de pior se pode imaginar a tal respeito.

P – Diga então…

R – Não é agora a altura de entrar em pormenores, que terão cabimento em outro lugar e poderão esconder, tal a sua espessura, a verdadeira face do problema. As criticas serão feitas por entidades competentes e especializadas.

P – Mas o doutor …


A Situação do Ensino

R – Eu não me escusarei a fazer também essas criticas concretas e indispensáveis. Na próxima reunião de sábado, na Voz do Operário, tenciono mesmo apresentar um trabalho de critica ao ensino universitário – aquele, naturalmente, com o qual mais tenho contactado.

Por agora, o que já lhe posso dizer é esta cruel realidade: retrocedemos mais de um século nos princípios e nos métodos educativos. Tudo o que a Republica criou, logo após o seu advento, inspirada nas concepções do progresso e da liberdade, com uma franqueza por vezes ingénua, mas simpaticamente generosa, foi suprimido ou abastardado pelos pedagogos da Ditadura. E vê-se bem porquê. A principal preocupação dum regime despótico é deformar a alma simples e generosa da mocidade, porque tem a convicção, bem fundada, de que, se ela lhe foge, não encontra condições de sobrevivência. Por isso, lança mão da escola, logo a seguir aos quartéis. E que faz então? Com atropelo dos mais sagrados princípios da ciência da educação, procura levar para a escola a disciplina imposta dos quartéis, a sua férrea hierarquia, o sentido da obediência passiva. Nem por um momento lhe acode, nem pode acudir, que a alma da criança é como a flor, que precisa de ar e luz para viver; e que só com os estímulos da liberdade a criança se conhece e se revela.

Entramos então no capitulo da «pedagogia heróica», que é o contraposto da verdadeira pedagogia: rufos de tambor, marchas pelas ruas da cidade, braços ao alto e a algazarra das canções agressivas. Os pais e as mães contemplam tristemente os seus filhos, desviados dos seus deveres de estudantes pacíficos para esta mascarada bélica e ruidosa. É a isto que se chama nacionalismo, uma coisa que parece ter sido inventada pela Ditadura … Este espectáculo, que reduz o mocinho à condição mesquinha de autómato, cessa mais ou menos, quando o estudante entra para a escola superior, já com barba na cara, um pedacinho de homem. A inteligência e o carácter já estão meio formados. O ambiente das Universidades, agora purificadas da lepra dos maus professores, as lições dos conspícuos catedráticos, graves nas suas cadeiras vitalícias, acabam por fazer o resto: é mais um bacharel submisso que se senta à mesa do orçamento, ruminando sossegadamente a sua ração diária, feliz, tranquilo, só saindo do seu beatifico torpor, quando se trate de assistir a uma dessas manifestações espontâneas sugeridas pelo seu superior hierárquico.

É destes cidadãos que a Ditadura quer fabricar em série, através das suas escolas? Que lhe prestem; mas, ou muito nos enganamos, ou a mocidade de hoje, permeável às solicitações do ambiente, contrário ao regime, recebendo incitações da parte culta e sã da Nação, não se deixa totalmente corromper e encontra em si mesma e no ar que respira o antídoto contra os venenos que lhe querem instilar. Pobre mocidade! Nós a salvaremos da ignomínia e da servidão. Nós lhe incutiremos o verdadeiro nacionalismo, que é o culto da verdade no amor da Pátria, a compreensão fraterna e o sentimento da humanidade.


O Modelo Político

P – Vê-se que as suas preocupações politicas continuam vivas. Que pensa do momento politico actual?

R – Ora! O que pensa toda a gente de bom senso: que é chegada a oportunidade de acabar sem sobressalto, com este estado de coisas, que nos envergonha como europeus (continuamos a ser os cafres da Europa, como nos alcunhavam no século XVII), e nos está causando graves inconvenientes, impedindo que possamos entrar na grande família das Nações Unidas. O regime que há 22 anos nos desgoverna e nos oprime – apesar do rótulo de «democracia orgânica» com que o quiseram camuflar – não tem a menor possibilidade de ingresso, a não ser que se dê a mudança das instituições vigentes, com base nos princípios da verdadeira democracia.

Insisto no adjectivo verdadeira: regime do povo, pelo povo e para o povo, considerado na sua totalidade e com igualdade de todos os cidadãos e a mesma garantia de acesso aos bens da vida. O termo anda de tal modo adulterado, que é necessário reconduzi-lo ao seu significado genuíno, que não pode deixar de ser o que apontei. Enfim, meu caro amigo, e revertendo ao principio, se houvesse nos homens da Situação um pouco de senso-comum e não estivessem muitos deles soldados a isto por interesses que não têm nada de espiritual, era chegada a ocasião de se escapulirem pelas traseiras, com menor prejuízo para a integridade do físico. Mas sucede com eles o que sucede com todos os regimes em decomposição: quanto menos crêem na sobrevivência das instituições que os mantêm, mais aferradamente se empenham na sua defesa.

P – Pensa então que o regime actual se aproxima do fim?

R – Sem duvida. É uma corrida vertiginosa para o abismo. Em 22 anos de Ditadura não convenceram ninguém; e muitos que ajudaram o monstro a nascer, desiludidos e ultrajados, já viram as armas contra ele. Chega a ser cómico o trágico desta situação, que apenas se segura no alto duma baioneta.

A Posição do Escritor

R – Sou escritor e orgulho-me de ter sido algum tempo jornalista, director do jornal O Diabo, órgão da oposição, já se vê. O que passei nesse tempo com a Censura daria para contos largos: paginas inteiras deitadas abaixo pelo lápis azul, o mais vivio e acerado do pensamento obrigado a um silencio injusto, tudo isso, toda essa revolta acumulada na alma, marca um homem para sempre. Desde esse momento compreendi a trágica situação de muitos jornalistas submetidos à censura. Um jornalista manietado, que não ausculta livremente a opinião publica, que se vê forçado a publicar versões falsas ou deturpadas dos acontecimentos, deve sofrer muito. É realmente de endoidecer. Por isso, é aproveitar esta liberdade que nos concedem, de muito má vontade, encher os pulmões de ar fresco e dizê-las boas e bonitas. O dever dos escritores – não consideramos como tais certos escribas arregimentados – é e sempre foi, nos períodos culminantes de crise, como esta que atravessamos, dar o corpo ao manifesto, servir as aspirações do povo, comungar com ele no seu anseio de liberdade e justiça.

P – Defende, portanto, a participação activa do escritor na propaganda política?

R – Pois claro. Não traímos a nossa missão, descendo de vez em quando do nosso gabinete à praça publica, onde rumorejam as multidões do povo que trabalha. Ele precisa de nós, do nosso saber, a que ainda não chegou, do nosso conselho. Nós precisamos dele, da sua energia pura e palpitante, do seu entusiasmo criador.

P – E qual a posição do escritor em face dos actuais problemas políticos nacionais?

R – Estou absolutamente convencido de que a grande maioria dos escritores portugueses está, neste lance decisivo, ao lado do candidato que consubstancia as aspirações do povo e que promete solenemente dar-lhes satisfação, empenhando nisso a sua honra de soldado, que o é de verdade, como o provam a sua acção em África e por ocasião da outra Guerra, ao serviço duma grande causa civilizadora. Não é o homem que sobretudo nos interessa: é o que ele simboliza para nós: um ideal de Democracia actuante, que conduza o País pela via do Progresso e da Liberdade.


in Diário de Lisboa de 5 Janeiro 1949

terça-feira, julho 04, 2006

Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) e "os cafres da Europa" - I

 
Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989)


Manuel Rodrigues Lapa foi preso pela PIDE em 6 de Janeiro de 1949, em plena campanha eleitoral para eleição do Presidente da República. Enquanto apoiante do candidato oposicionista Norton de Matos, e ao abrigo da liberdade de imprensa do momento, o jornal Diário de Lisboa publicara uma entrevista onde Rodrigues Lapa afirmava que continuam a considerar-nos «os cafres da Europa como nos alcunhavam no século XVII». Esse o seu crime.
Já em liberdade, e ainda em período de campanha eleitoral, Rodrigues Lapa enviou para o Diário de Lisboa um documento que intitulou Em Legítima Defesa mas foi impedido de publicar.  É esse documento que aqui se transcreve.


Em Legítima Defesa
(Nota enviada ao Diário de Lisboa em 18 de Janeiro de 1949, impedida de publicar pela censura)


No dia 6 do corrente fui preso à porta da minha residência. Chegado à Policia Internacional e de Defesa do Estado, entregaram-me um papel: era o mandado de captura. Nele vi que estava incriminado pelos artigos 149 e 174 do Código Penal. Devia ser «um caso sério», como diria um dos meus futuros camaradas de prisão; mas como não estou habituado àquela amena literatura do Código, não soube de que se tratava, calculando embora que fosse por motivo da minha entrevista no Diário de Lisboa. Fui conduzido ao Aljube. À entrada do cárcere, deparei com dois homens, avergados ao peso de atrozes responsabilidades: um deles, o Quesadas Sanches, do Barreiro, cometera um crime imperdoável – fora apanhado com o livro do Sr General Norton de Matos, e ali estava havia mais de um mês; o outro, um rapagão de Monte-Redondo, o Pancadares, perpetrara crime ainda mais hediondo: projectara organizar uma escola nocturna e uma pequena biblioteca e era ainda acusado de «andar a espalhar panfletos à mão armada» (!). Estão a ver os propósitos sinistros daquele homem e como ele inventou um método eficacíssimo de propaganda: chegar ao pé dum sujeito, largar dois tiros para o ar e meter-lhe nas unhas o papelinho…

Só no dia seguinte soube, positivamente, devido ao esclarecimento do meu advogado, o rol dos meus crimes: produzira falsas afirmações susceptíveis de fazer perigar o bom nome, o crédito e o prestígio de Portugal no estrangeiro; instigara à desobediência colectiva; incitara, enfim, à luta politica pela violência ou pelo ódio. Fiquei atónito; mas olhei para dentro de mim e não vi as negridões de que me acusavam. Como é que um pobre estudioso de gabinete podia ser tão mauzinho? E então começou a fazer-se luz na minha consciência: eu, acusado de instigar ao ódio, contra a própria letra das minhas afirmações, tinha sido vitima de uma conspiração odiosa; eu, acusado de desprestigiar o bom nome de Portugal, contra toda a evidência da minha obra, estava sendo perseguido pelos que, a cada momento, pelos seus actos, o desautorizam nas esferas cultas e responsáveis do estrangeiro. Era engraçado, não era?

O mais curioso foi aquela peregrina nota do Ministério da Justiça, publicada nos jornais do dia 7, obra-prima de hermenêutica que vale a pena transcrever na integra:

«Em declarações prestadas ao Diário de Lisboa, o Dr Manuel Rodrigues Lapa, depois de considerar os portugueses como os cafres da Europa, numa continuidade que parece, segundo a opinião expressa, vai do século XVII até aos dias de hoje, atribui a esta incrível inferioridade a impossibilidade de entrarmos como nação (em igualdade de condições com a Inglaterra ou a Libéria, a França ou a Abissínia) na grande família das Nações Unidas. A gravidade da injuria feita a todo o pais, além de outras afirmações que os tribunais julgarão, determinou a instauração de procedimento criminal»
Compare-se agora esta nota com o texto incriminado, e logo se verá a grosseira deturpação das minhas palavras e a precipitação nervosa dos cavalheiros, que queriam à fina força molestar-me e o conseguiram: «é chegada a oportunidade de acabar, sem sobressalto, com este estado de coisas que nos envergonha como europeus (continuamos a ser os cafres da Europa, como nos alcunhavam no século XVII), e nos está causando graves invonvenientes, impedindo que possamos entrar na grande família das Nações Unidas».

Não haverá no gabinete do Senhor Ministro da Justiça alguém que conheça as leis elementares do português literário? Que ligação intima haverá entre a frase já célebre dos cafres, metida cautelosamente entre parênteses, e o que se segue a respeito do nosso ingresso nas Nações Unidas? E a que propósito vem aquela referência à Libéria e à Abissínia? Pois não é absolutamente claro que essa imagem literária atinge não o País, não a Nação, não a Pátria, que do coração estremecemos, mas as instituições transitórias que a envilecem, reduzindo-a, pela incultura, pela barbárie supersticiosa e pela tirania, a uma espécie de tribu cafreal? Pois não é verdade que nós reconhecemos dolorosamente esse facto e que tudo faremos para que assim não seja, reintegrando a Pátria, redimida e purificada, no lugar que lhe compete em meio das nações civilizadas? Pois não é evidente que a repulsão que sentimos por este Governo, que representa uma escassa minoria da Nação, nos é ditada pelo nosso ardente amor da Pátria, que haveremos de servir e honrar através de todos os sacrifícios?

Mas noto que a indignação me faz esquecer… Moderemos o tom, para mais jocoso, e vejamos melhor agora aquela frase alusiva aos cafres, que parece ter irritado sobremodo os homens da Situação. O pobre do Casais Monteiro já sofreu as consequências da simpática solidariedade que teve para comigo: ferraram com ele no Aljube. Agora só falta ir para lá o Senhor Henrique Galvão; e o próprio Senhor Presidente do Ministério não estará muito seguro. Sim, porque estes notáveis senhores também abundam nas mesmas ideias. O Senhor Henrique Galvão, por motivo da proposta de lei da organização hospitalar, em 24 de Janeiro de 1946, disse o seguinte na Assembleia Nacional: «Mas não terá paralelo o que se passa com os pretos, os seus feitiços e feiticeiros, com o que se passa com os aldeãos de muitas das nossas aldeias e povoados, perdidos em reconcavos da serra e cantos frios sem civilização? Não haverá entre nós também uma população que, pelas dificuldades com que luta, pela ignorância, pelo recurso tradicional à bruxa, pela distancia, etc., vive e morre sem assistência medica e que só se tratará se o hospital for ao seu encontro?» A comparação é evidente e acertada, e a forma interrogativa da frase não ilude ninguém: o orador punha ao nível dos cafres as baixas superstições, crendices e ignorância de certas populações rurais portuguesas. O Senhor Presidente do Ministério, que parece ter por nós todos o mais absoluto desprezo, não declarou no seu último discurso que a desliberdade que nos impõe é proporcional à incultura em que jazemos? O Armindo Rodrigues viu perfeitamente o caso (vê lá no que te metes…) e já estabeleceu o paralelo entre dois homens e as duas situações. E cabe-me agora protestar contra a desigualdade de tratamento que se dá a um e a outro.

O mais patusco guardo-o para o fim. Aquela referência aos cafres nem sequer é minha, ó cavalheiros. É um plagio desavergonhado, sabem de quem: do padre António Vieira, o grande orador jesuíta do século XVII! Vejam o grande escândalo: os homens da Oposição a fazerem causa comum com os jesuítas ! Já vão ver porquê. Como todas as pessoas cultas sabem, o padre António Vieira, que foi um grande lutador de nobre ideais, tomou a defesa dos cristãos-novos, que desejava ver reintegrados na vida nacional por uma politica de tolerância e de inteligência, que soubesse aproveitar em beneficio do País o seu trabalho, as suas iniciativas e as suas riquezas. Nos países cultos da Europa que visitou, viu-os considerados e felizes; e quando ouvia o apodo de cafres da Europa, com que por lá nos mimoseavam, e que se dirigia não ao povo mas às instituições retrógradas que o cafrealizavam, não podia deixar de reconhecer o bem fundado da metáfora. Um dia, a propósito de uma superstição grosseira, uma venda de relíquias, que comentava ironicamente, escreveu ao seu amigo Duarte Ribeiro de Macedo:
«Assim resgatávamos antigamente o ouro na Cafraria, e imos qualificando o nome, que não sem razão nos chamam, de cafres da Europa».
Moral do caso e sem largos comentários: se o padre António Vieira fosse hoje vivo, iria malhar com os ossos ao Aljube, pelo mesmo «crime» que eu cometi, arrimado a ele na citação da frase. Aliás, por esse e outros «crimes», também teve de prestar contas à Inquisição. E vejam o paralelismo flagrante de tudo isto: no século XVII a oposição era formada pelos cristãos-novos; hoje, a oposição, muito mais numerosa, quase todo o País, constituimo-la nós, e contra ambos se moveu e move o mesmo aparelho repressivo. Já é um bem que não tenhamos a fogueira e o espectáculo medonho dos autos-de-fé.

Ora aqui têm os cavalheiros a explicação da frase que tantos engulhos causou nos arraiais da Situação. Não lhes levo nada pela lição, embora não esteja disposto, depois de me terem demitido da Universidade sem me pagarem o que me deviam, a exercer o magistério gratuitamente. Também, era melhor …

a) Manuel Rodrigues Lapa

Em Legítima Defesa, in Depoimentos, 2ª série, Campanha Eleitoral da Oposição, edição dos Serviços Centrais da Candidatura [de Norton de Matos], Lisboa, 1949, p.10-15

quarta-feira, junho 28, 2006

Do que um Homem é capaz



Jose Mário Branco





DO QUE UM HOMEM É CAPAZ
AS COISAS QUE ELE FAZ
PARA CHEGAR AONDE QUER

É CAPAZ DE DAR A VIDA
PARA LEVAR DE VENCIDA
UMA RAZÃO DE VIVER

A VIDA É COMO UMA ESTRADA
QUE VAI SENDO TRAÇADA
SEM NUNCA ARREPIAR CAMINHO

E QUEM PENSA ESTAR PARADO
VAI NO SENTIDO ERRADO
A CAMINHAR SOZINHO

VEJO GENTE CUJA VIDA
VAI SENDO CONSUMIDA
POR MIRAGENS DE PODER

AGARRADOS A ALGUNS OSSOS
NO MEIO DOS DESTROÇOS
DO QUE NUNCA HÃO-DE FAZER

VÃO POLUINDO O PERCURSO
COM AS SOBRAS DO DISCURSO
QUE LHES SERVIU PARA ABRIR CAMINHO

À CUSTA DAS NOSSAS UTOPIAS
USURPAM REGALIAS
PARA CONSUMIR SÓZINHO

COM POLITICAS CONCRETAS
IMPÕEM ESSAS METAS
QUE NOS ENTRAM CASA DENTRO

COMO A TRILATERAL
COMO A TRETA LIBERAL
E AS VIRTUDES DO CENTRO

NO LUGAR DA CONSCIÊNCIA
A LEI DA CONCORRÊNCIA
PISANDO TUDO PELO CAMINHO

PARA CASTRAR A JUVENTUDE
MASCARAM DE VIRTUDE
O QUERER VENCER SÓZINHO

FICAM CINICOS, BRUTAIS
DESCENDO CADA VEZ MAIS
PARA SUBIR CADA VEZ MENOS

QUANTO MAIS O MAL SE EXPANDE
MAIS ACHAM QUE SER GRANDE
É LIXAR OS MAIS PEQUENOS

QUEM ESCOLHE SER ASSIM,
QUANDO CHEGAR AO FIM
VAI VER QUE ERROU O SEU CAMINHO

QUANDO A VIDA É HIPOTECADA
NO FIM NÃO SOBRA NADA
E ACABA-SE SOZINHO

MESMO SENDO OS PODEROSOS
TÃO FRACOS E GULOSOS
QUE PRECISAM DO PODER

MESMO HAVENDO TANTA GENTE
PARA QUEM É INDIFERENTE
PASSAR A VIDA A MORRER

HÁ PRINCIPIOS E VALORES
HÁ SONHOS E HÁ AMORES
QUE SEMPRE IRÃO ABRIR CAMINHO

E QUEM VIVER ABRAÇADO
À VIDA QUE HÁ AO LADO
NÃO VAI MORRER SOZINHO

José Mário Branco, in Resistir é Vencer, 2004

segunda-feira, junho 26, 2006

Os Telhados de Lisboa





Lisboa vista do Castelo



Os Telhados de Lisboa
por Norberto de Araújo


Os cenários da cidade, tomados do alto, poder-se-iam chamar os telhados de Lisboa.

Há os miradouros de panorama extensivo, que abarcam todas as distâncias. E há os miradouros suspensos sobre a cobertura confusa do casario: só se distinguem empenas, mansardas, telhados, campanários pequeninos, a ramagem tímida de um quintal.

E tudo se amalgama na intimidade dos planos. Perdem-se as linhas do trânsito, os portais fidalgos, as belas varandas de renda, as bocas sombrias dos casebres.

Destes cenários desgrenhados a poesia ascende, sem ritmo, num pitoresco desconcertante de acaso.

Põe-se de poleiro o galo alfacinha!

Do alto suspenso do Carmo ou das lombas de S Cristovão, de S Pedro de Alcântara ou do Monte de S. Gens, Lisboa parece um castelo de cartas, numa das quais há sempre uma nesga do Castelo. Lisboa é, assim, uma estampa aberta em xilogravura, traço aqui, traço ali, sem nenhum «talhe de foice». Mas nem bárbara nem atropelada. Nem monótona nem hostil.

Ao pé de Santa Luzia aninha-se a Alfama - com os telhados em pérgula contínua: aqui um fragmento de água-forte, além um pedaço de aguarela. Deste cenário alfamista, cinzento, salpicado de rosa e verde-ervilha, ascende a frontaria branca de Santo Estêvão, como que a abençoar aquela mediania urbanista, delirante de labirintos.

Nada mais estranho e mais deslumbrante do que os planos sobrepostos e indecifráveis de Lisboa. Não há que ver: há que sonhar. Por muito que se saiba de bairros, e de ruas, e de palácios, e de eirados - tudo quanto se sabe por adivinhação. As definições pairam como um mistério ondulante, tostado pelo sol das idades.

À tardinha o ocaso esbrasa numa vidraça: será a minha casa que está a arder?
À noite uma luzinha tremula numa janela: será o meu amor que está a costurar?
De madrugada a alva espreguiça-se e levanta-se num telhado: será o sol que ali dormiu esta noite?



Norberto de Araújo, in Legendas de Lisboa, pp.212-213

quinta-feira, junho 15, 2006

Os poetas nunca morrem



Eugenio de Andrade (1923-2005) 






O Comum da Terra
(a Vasco Gonçalves)

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

14 de Maio de 1976

Eugénio de Andrade



Obrigada, Vasco Gonçalves

 
Vasco Gonçalves (1922-2005) - Foto de Eduardo Gageiro



Morreste há um ano (11 Junho).
Recordo-te como o homem mais sério que
governou Portugal.
Aquele que falava a nossa linguagem
Aquele que nos devolveu
- a capacidade de sonhar.
- a capacidade de transformar.
- a capacidade de acreditar.
- a capacidade de viver.

Obrigada, Vasco Gonçalves !


julia coutinho



terça-feira, junho 13, 2006

Até Sempre, Álvaro Cunhal



Há um ano desaparecia Álvaro Cunhal. Um Homem e um Político excepcionais.

Assinalando este dia, deixo-vos uma carta, inédita, que descobri nos arquivos da PIDE/DGS, escrita para sua irmã, Maria Eugénia, em 1966, aquando das mortes do cunhado, o médico Fernando Medina, e do pai, o advogado Avelino Cunhal.

Apreendida pela Pide, a carta nunca chegaria ao destino. Ela revela-nos um homem amargurado e preocupado com a irmã e os sobrinhos e com a mãe, cega. Com a sua família. Que adorava.

Uma faceta praticamente desconhecida de Alvaro Cunhal. Mas que existia. E aqui se revela.

Júlia Coutinho


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«Moscovo, 1 de Março de 1966*

Minha muito querida irmã:

Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando, a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias. Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho.

A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.

Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamento amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã.

À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdõem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão amargas situações.

Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!

Peço-te, querida irmã, que procures escrever-me algumas palavras, se não do que se passou (por te ser demasiado penoso) ao menos do que se passa. Eu não sei se esta carta te chegará às mãos, dada a pessoa que a escreve, dado o país de onde vai e dado que nem certo estou dos endereços para onde a envio (que em tempos me disseram ser o teu e o do Pai). Tenho porém uma certa esperança em que a venhas a receber. E, se a receberes, tenta escrever-me. A direcção é simples:


URSS - Moscovo 132
Hotel
Álvaro Cunhal

É o bastante e, tratando-se como se trata, de questões familiares e questões desta natureza, pode ser que a tua carta me chegue.

Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.

Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.

Com a imensa ternura do teu irmão

Álvaro»


*Arquivos da PIDE/DGS - ANTT, processo E/GT 2673 - NT 1479, doc. 4.