quarta-feira, setembro 24, 2008

In Memoriam de Maria Helena Coimbra (1925-2008)

Maria Helena Meira Dias Coimbra Ribeiro, "Nena", (25.3.1925 - 24.9.2008)




Contigo acreditei

nas minhas asas

e aprendi a voar.


Ensinaste-me

o tropeçar

o cair

o magoar.


Mas sempre

sempre

o (re) erguer.


Foste a pessoa exacta

no caminho incerto.


... Como posso dizer-te adeus?


Julia Coutinho

segunda-feira, setembro 22, 2008

Maria Keil e o Metropolitano – Um esclarecimento necessário


Um texto despretensioso deste blog acabou por dar origem a um autêntico furacão internético e está a provocar algumas dores de cabeça à autora e aos visados. Peço, por isso, a vossa atenção para o esclarecimento que se segue.

Tudo começou com um apontamento breve inscrito neste blog a propósito dos 94 anos de Maria Keil no dia 9 de Agosto. De passagem, lembrei a história dos painéis que a Maria fez para o Metropolitano de Lisboa entre finais dos anos 50 e inicio dos 70 e que, aquando das obras de ampliação do metro, nos anos subsequentes foram parcialmente destruídos – tendo a estação dos Restauradores sido a mais afectada, acabando a obra de Maria Keil naquela estação por ficar completamente destruída; mas a celeuma na altura foi tanta e a Maria insurgiu-se de tal forma, que fez com que a administração do Metropolitano repensasse os processos da renovação que estava a ser efectuada, voltando atrás e acabando mesmo por encomendar à artista uma das novas estações, precisamente aquela que está há anos para ser inaugurada, a estação de São Sebastião, e que Maria Keil tem pronta, prevendo-se que o seja aquando dos 50 anos do Metropolitano em 2009.

A verdade é que o assunto foi sanado e ultrapassado pela própria autora, e a referência que lhe fiz neste blog, nomeadamente com a transcrição de parte substancial da entrevista dada por Maria Keil a António Melo, em 1999, pretendia apenas lembrar esse episódio lamentável, sem quaisquer outras motivações nem acusações fosse a quem fosse.

Acontece que a chamada blogosfera é um meio de comunicação particularmente propício a leituras apressadas e frequentemente incorrectas da realidade. E a internet, pela capacidade de difusão rápida que permite, torna-se muitas vezes veículo, mesmo que involuntário, de meias verdades que a seguir se transformam em pequenas mentiras, as quais por sua vez degeneram não raras vezes em verdadeiras calúnias.

Foi mais ou menos isto que se passou com esta história. A partir deste apontamento, o assunto voltou a ser abordado, de forma mais contundente, no blog do Samuel (http://www.samuel-cantigueiro.blogspot.com/), que na altura saudei, o qual foi por sua vez citado em numerosos outros espaços, com mais um ou outro pormenor, uma ou outra acusação.

A partir daqui gerou-se uma autêntica bola de neve que culminou com a criação, no blog http://faceocultaterra.blogspot.com/ de uma indignada “petição online” (que reproduz, no essencial, o texto do blog de Samuel) onde se exorta “o Conselho de Gerência do Metropolitano de Lisboa a, rapidamente, diligenciar obter os desenhos dos painéis destruídos e mandar executar, à empresa que produziu (a Viúva Lamego) novos painéis.”

Pelo meio ficam prosas para todos os gostos, umas a pedirem que o Ministro da Cultura se retrate, outras a pedirem explicações à administração do Metro, todas a dizerem mal do actual Governo e/ou da Câmara Municipal. Até Manuel António Pina embarcou na onda e escreveu uma crónica, com a qualidade irrepreensível que o caracteriza, clamando contra os “responsáveis”.

Tudo isto porque alguém tresleu as minhas palavras e catapultou para a ribalta, eventualmente com boa intenção, uma guerra que não existe – mas que, naturalmente, está a incomodar profundamente a Maria Keil. Porque é óbvio que nem o actual governo nem a administração em exercício do Metropolitano têm qualquer coisa a ver com o assunto (as obras em causa têm mais de dez anos!) e em parte alguma do texto que, involuntariamente, originou esta “tempestade” se diz que “no Metropolitano de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra”. Essa foi, precisamente, uma leitura (extemporânea) do Samuel, e que acabou por funcionar como o fósforo que ateou a fogueira – acabando o fogo por se estender à imensa floresta dos blogs!

Há com certeza muitos motivos para discordar das políticas do governo e criticar o primeiro-ministro José Sócrates. Mas este não é, em definitivo, um deles. E só por desatenção, má fé ou desonestidade intelectual poderemos continuar a alimentar esta guerra sem sentido. Daí o meu apelo a que, de uma vez por todas, se ponha cobro a este lamentável episódio. De que, pela parte que me toca, desde já me penitencio. Mas que pode ter, pelo menos, a vantagem de nos levar a reflectir sobre o peso das palavras mal interpretadas e sobre as consequências de uma leitura apressada ou negligente daquilo que nos aparece no espaço virtual.

Desde já, as minhas desculpas públicas a Maria Keil.

Chamo a atenção para uma entrevista recente da autora, sobre o assunto:

http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=ABCC6D5A-AA02-4079-A051-ED74082C129C&channelid=00000013-0000-0000-0000-000000000013

segunda-feira, setembro 08, 2008

tempo das palavras ausentes

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava.
Acreditava,porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos. Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.Era no tempo em que os meus olhos eram os tais peixes verdes.Hoje são apenas os meus olhos.É pouco, mas é verdade:uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus

Eugénio de Andrade

domingo, agosto 24, 2008

Antonio Charrua (1925-2008)




Antonio Charrua (Lisboa 6 Maio 1925 - Évora 21 Agosto 2008), foto de Frederico Mira George, 2002


O pintor morreu ... e foi ontem a enterrar, em Évora.
Talvez agora lhe (re) conheçam a Obra. É verdade que existem pessoas discretas sem apetência para se colocarem em bicos dos pés e António Charrua pertencia a essa rara estirpe. Cônscio do silenciamento a que o Homem e a Obra haviam sido votados, fez questão de referir em 2001: "paira sobre toda a minha obra uma ideia de morte, mas também a sua recusa".
António Charrua frequentou Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, não tendo terminado o curso. Começa por expôr no Porto, em 1953, e nesse mesmo ano participa na VII Exposição Geral de Artes Plásticas, na SNBA, em Lisboa. Esteve ligado aos "artistas resistentes" e foi sócio fundador da Cooperativa dos Gravadores Portugueses, GRAVURA, em 1956. Foi um dos 50 Independentes que expuseram em 1959 na SNBA. Em 1960 foi galardoado pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde está representado. Dedicou-se à pintura, à escultura, gravura e cerâmica.
Nascido em Lisboa em 6 de Maio de 1925, há muito que se recolhera à casa da família, na velha Rua da Mouraria, em Évora. E foi esta cidade alentejana que em 2005 lhe prestou homenagem instalando-lhe a escultura, - "Diálogo de Ícaro com o Sol" -, numa das rotundas da cidade.
Por sua vez, também o Museu Municipal de Évora havia organizado uma retrospectiva da sua obra, com a edição de um excelente catálogo, em 2001.

A revista Arquitectura e Vida entrevistou-o nessa altura. Invocando André Malraux para afirmar a "livre forma das Vozes do Silêncio", Antonio Charrua confessa:
"(...) o gesto é para mim decorrente da emergência da própria força do acaso que deverá ser assumida, embora nem sempre ele faça lei. Encontro-o tão exacto e irrepetível quanto a própria vida... como quando encontramos alguém no decorrer da existência. Há sempre uma timidez, uma supressão no humano. Nunca dizemos suficientemente as coisas essenciais às pessoas importantes, como por exemplo isto: amo-te."
 
Desapareceu um Homem e um Artista singulares. Que sabia não ser amado no seu país.


terça-feira, agosto 12, 2008

Apresento-vos a Elis Regina

Já conhecem o Miró. Hoje apresento-vos a Elis Regina, na foto tentando desalojar o Miró do cesto onde dormia calmamente. É o estilo dela: quando ele está muito sossegadinho no seu canto, ela, ladina e marota, salta para o seu lado e aninha-se à força, usurpando-lhe o espaço e deixando-o incomodado a ponto de o obrigar a mudar de poiso.
A Elis tem cinco anos e foi a minha amiga Ana Rebelo quem a foi buscar à "maternidade" e ma trouxe pequenininha e indefesa. Tive a surpresa de a encontrar quando cheguei a casa após uma cirurgia no Hospital dos Capuchos.
Lembro-me de chegar combalida e observar o Miró a um canto, a olhar curioso o novo membro da família, mas sem se aproximar, sem lhe dar confiança; enquanto ela, pequenina, retirada nesse dia à "família" mais parecia um passarinho assustado mas curioso, a cheirar todos os cantos da casa e a passear destemida mesmo nas "barbas" do Miró.
O nome surgiu-me naturalmente: a coragem desta menina acabadinha de chegar a um lugar desconhecido e a forma como se passeava imponente (apesar de cair imenso) frente ao gato da casa, desafiando-o, levaram-me a dar-lhe o nome da Elis Regina, a corajosa cantora-pimentinha que sempre admirei e que fez da sua vida um constante desafio que só a morte travou.
A Elis é uma sobrevivente e enfrenta todos os desafios. Ao contrário do Miró, mete tudo na boca e engole se lhe agrada. Por esse péssimo hábito já me pregou um grande susto. No seu primeiro Natal, e sem que eu desse por isso, engoliu uma fita natalícia. Começou a vomitar apesar do apetite que sempre a animava. Foi operada in extremis quando a fita já se enrolara nos intestinos e os estrangulava. Sobreviveu, felizmente.
Hoje, a Elis e o Miró são grandes amigos e não passam um sem o outro. Foi o melhor que fiz: ter dois meninos para fazerem companhia um ao outro.
E agora, meus amigos, vou de férias!
Até sempre!

sábado, agosto 09, 2008

Parabéns, Maria Keil !


Acreditam que a Maria Keil faz 94 anos? ! Pois é. Vendo-a, ouvindo-a, ninguém acredita. Mas a Maria (como gosta de ser tratada) nasceu a 9 de Agosto de 1914 em Silves cidade que este ano a homenageou com uma sala na nova Biblioteca que perpetuará o seu nome. Uma mulher simples e franzina que se mantém atenta e activa e que até há pouco se deslocava sozinha pela cidade tendo, aos 84 anos, só e de mochila às costas, visitado e calcorreado a Expo98.

Veio aos 15 anos para a Escola de Belas-Artes de Lisboa e em 1933 casou com o jovem arquitecto Francisco Keil do Amaral, de quem teve um filho, o Pitum. Oposicionista desde cedo militou no MUD e nas organizações de Mulheres. Participou nas Exposições Gerais de Artes Plásticas e teve um quadro apreendido pela PIDE, na II EGAP, em 1947. Foi presa em Dezembro de 1953 no aeroporto de Lisboa, com outras pessoas que esperavam Maria Lamas vinda do Congresso dos Povos pela Paz, em Viena, tendo permanecido dois meses em Caxias.

No final dos anos 50 reinventou e relançou a azulejaria portuguesa: decorou as primeiras 19 estações do Metropolitano, gratuitamente. E apenas porque era proibido o figurativo recorreu aos padrões geométricos quebrando a simetria através da cor. Não a incomoda ser conhecida como "a mulher dos azulejos" mas ficou deveras magoada com a forma como as obras de renovação do Metro, há dez anos, lhe destruiram o seu trabalho. Sem contemplações. E porque foi um trabalho não pago viu-se impossibilitada de accionar um protesto legal.

«Não havia meios [financeiros]. Não me pagaram nada. Absolutamente nada. Ofereci as 19 estações que fiz. Tudo aquilo foi um trabalho que fiz no atelier do meu marido, para alegrar as estações que ele estava a desenhar e eram muito pobrezinhas. Ele queria qualquer coisa alegre lá dentro, para não ficar cimento armado e tudo cinzento. Agora não posso refilar por me andarem a picar as paredes porque, de facto, eu dei tudo.» confessa em 1999 a António Melo.

«Houve um arquitecto que veio aqui [a casa] falar sobre o que fizeram na estação dos Restauradores e me disse: "Pois é... Eu percebo que isto seja um grande desgosto para a senhora". Disse-lhe: "Não é um desgosto para mim. Para vocês é que é uma vergonha. Por isso é que veio falar comigo. Vergonha de picar uma parede sem dizer nada. Vergonha e ignorância". (...) «Infelizmente [a destruição] nem foi contra mim. Foi para ser diferente. Para fazer novo, moderno. Isto é que é grave, eles destroem o azulejo porque não lhe dão valor. É um padrão que se repete, logo é artesanato.» (...) «Mas a crítica que faço muito a sério é que o azulejo é uma coisa importante que os modernistas não apreenderam. Mesmo hoje muitos não conseguiram aderir à simplicidade do azulejo, porque aquilo é difícil demais para eles. Transformam-no em papel de embrulho»

Questionada sobre o tempo da resistência ou da democracia, responde:

«A guerra é um mal que é preciso evitar a todo o custo. (...) Há um quadro do Picasso que tem por título "A Guerra". Tem uma força de denúncia, que uma pessoa ao vê-lo sente que guerra, não! Mas "A Paz", que é um outro quadro dele, com meninas a fazer rodinhas e um sol a nascer, também não é vida. Sinto que é preciso procurar aqui uma alternativa a este manso, mole. Na vida é preciso alguma vibração. Ainda temos que encontrar essa vida.»


É um privilégio termos a Maria Keil connosco. Conheçam-na melhor aqui em 2000 e aqui em 2004










quarta-feira, agosto 06, 2008

Hiroshima, nunca mais

Pelas 8:15h do dia 6 de Agosto de 1945, Hiroshima foi arrasada pela primeira bomba atómica lançada pelos Estados Unidos. Paul Tibbets que comandava o B-29, "Enola Gay" (nome de sua mãe) fê-la detonar a 576m acima da cidade, prvocando um clarão que logo se transformou num gigantesco cogumelo de 9.000 m de altura provocando ventos de 640 a 970 km/h eque espalharam material radioativo numa espessa nuvem de poeira. A explosão provocou um calor de cerca de 5,5 milhões de graus centígrados, similar à temperatura do Sol. Foi até hoje a arma que mais mortes provocou num curto espaço de tempo; 221.893 mortos é o total das vítimas reconhecidas oficialmente. Num raio de 2 km, a partir do centro da explosão, a destruição foi total. A grande maioria das vítimas eram civis que nada tinham a ver com a guerra. Todos os sobreviventes ficaram afectados. Milhares de pessoas foram desintegradas e, na falta de cadáver, as mortes nunca foram confirmadas.
O comandante Paul Tibbets, falecido recentemente, jamais se arrependeu. Verdade seja dita que Truman também não.
Uma série de fotografias inéditas estão agora a ser divulgadas. Foram encontradas por Robert L. Capp, um militar norte-americano, nos arredores da cidade. Capp doou as fotos em 1998 na condição de apenas serem divulgadas em 2008. Caso tenhas nervos de aço, veja aqui toda a série.
Se não conseguirem aceder acima, visitem este site.
Testemunho dos Jovens de Hiroxima é um livro que reune testemunhos de crianças na altura, com prefácio de Bertrand Russel. Deixo-vos com o depoimento de Masayuki Hayashide, um menino que em 1945 andava na 4ª classe.
Quando a guerra redobrava de violência, o meu irmãozinho e eu fomos evacuados para Kaway no distrito de Takada. O meu pai, a minha mãe e a minha irmã mais pequena ficaram em Senda, Hiroshima. Nessa altura o meu irmão tinha seis anos e eu onze. A minha mãe enviou-nos, a mim e ao meu irmãozinho, muitas cartas.
Todas as vezes que eu lia as cartas, o meu irmãozinho perguntava: «In-chan (mano grande), quando voltamos para Hiroshima?» Fazia com tanta frequência esta pergunta que me feria os nervos, e por vezes, repreendia-o. Relembrando isto, compreendo que era uma coisa pouco razoável da minha parte e lamento-o agora. Ele desejava tanto ir para casa que o meu avô por fim cedeu e uma semana antes do lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima ele levou-o aos meus pais. Ao vê-lo partir, invejei-o. Agora, sinto pena de mim mesmo, pois era o irmão mais velho.
Depois disto, no dia 6 de Agosto, no momento em que iam começar as aulas e a campainha tocava para a entrada, um relâmpago e Bum!! ouviu-se um estrondo terrível. As janelas de vidro da escola estilhaçaram com violência e no céu para leste uma nuvem de fumo branco inflamou. Fiquei assustado e escondi-me no abrigo da escola. Momentos depois, como não ouvisse mais ruídos, saímos cuidadosamente de rastos para observar. Começou a dizer-se que fora atacado o aeródromo de Kamine.
Uma manhã bem cedo, quatro ou cinco dias depois, o meu avô arranjou lugar num camião e partiu para Hiroshima. A avó e eu tínhamos acabado de cear e ido para a cama quando ouvimos, já meio adormecidos, bater à porta. Quando a avó abriu o meu avô entrou. Segundo a sua história, Hiroshima estava completamente em ruínas. Quando foi a Senda, encontrou o meu pai apenas com uma beliscadura no braço, mas a mãe tinha o corpo todo queimado, bem como o meu irmão e a minha irmã; mas estes estavam já mortos.
Na manhã seguinte, a avó e eu fomos de autocarro a Kabe e dali partimos a pé para Yokogowa. Quando lá chegámos, não quis acreditar que o que os meus olhos viam fora Hiroshima. Mal conseguíamos perceber onde nos encontrávamos. Por fim, seguindo as linhas dos eléctricos chegámos a Senda. A casa estava totalmente destruída. Uma pessoa que vivera perto de nó aproximou-se e disse-nos onde se refugiara a mãe e dirigimo-nos para o parque de Yamanaka.
A mãe estava completamente prostrada. O seu cabelo caíra quase todo. Tinha o peito em chaga e de um buraco nas costas saiam e entravam vermes. O local encontrava-se cheio de moscas e mosquitos e um odor nauseabundo empestava tudo. Para onde quer que olhasse só via pessoas imóveis. A partir da noite em que chegámos, a mãe piorou e parecia que a víamos enfraquecer diante dos nossos olhos. Como durante toda a noite tivera dificuldade em respirar, fizemos tudo o que pudemos para a aliviar. Na manhã seguinte eu e a minha avó cozinhámos a açorda. Quando a levámos à mãezinha ela soltava o último suspiro. Quando pensámos que deixara de viver, ela respirou profundamente ainda uma vez e não voltou mais a respirar. Eram 9 horas da manhã de 19 de Agosto. No local do Hospital da Cruz Vermelha Japonesa, o odor dos corpos que cremavam era intenso. A dor demasiada fez-me parecer um estranho a mim mesmo, e a despeito da minha dor não consegui chorar. Era como se o meu irmãozinho tivesse vindo para Hiroshima de propósito para morrer. Por que não o retive uma semana mais? A minha pena é maior do que a posso suportar. O meu irmãozinho e a minha irmã já estavam ambos mortos antes de eu voltar.
Depois o meu pai e eu levámos uma vida difícil. Sentimo-nos sós sem a mãe e os pequenos. Mesmo agora, quando penso neles, parece-me ouvir o meu irmãozinho chamando «In-chan!» (mano grande) e a minha irmã «Ah-chan!» (mamã).
Podem imaginar que vida tão dura o pai e eu temos levado? E quantas pessoas foram ainda mais infelizes do que nós? Eu, que conheço os malefícios da bomba atómica, acredito que devemos fazer o possível para que não haja mais guerras.
Rezo para que toda a gente recorde o dia 6 de Agosto, de maneira que haja paz eterna.

(Testemunhos dos Jovens de Hiroxima, trad. de H. Silva Letra, Portugália Editora, Lisboa, 1965)

quarta-feira, julho 30, 2008

Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992)




Maria Helena Vieira da Silva nasceu há cem anos.


"Eu sou complicada e a minha vida é simples. Minha mãe, o Arpad, o cavalete e a tela ou o papel, c'est tout. As pessoas no século XX andam de um lado para o outro e as amizades perdem-se. É mais fácil o amor que a amizade."


(carta a Agustina Bessa-Luis de 20-3-1980)








Acerca da Irresolução

Texto inédito inserido no JL de 4-17 Junho 2008


"A irresolução é também uma espécie de medo que, ao reter a alma como que numa balança sopesando as várias acções que pode desenvolver, faz com que não execute nenhuma dela, ganhando assim tempo para escolher antes de se decidir, o que, se tem algo de bom, se torna mau quando dura mais do que devido e quando gasta a deliberar o tempo que deveria ser utilizado para agir. 

Digo, pois, que é uma espécie de medo, embora possa acontecer, ao vermo-nos perante várias opções de bondade aparentemente igual, sentirmo-nos hesitantes e inseguros sem que isso nos inspire o menor receio; a verdade é que essa espécie de irresolução deriva apenas do assunto com que nos deparamos, e não de uma emoção espiritual; é que não se trata de uma paixão, ainda que o receio de falhar na escolha faça crescer a incerteza. 

Mas este medo é tão vulgar e tão forte em alguns de nós que, frequentemente, mesmo quando nada há para optar e apenas existe uma coisa a pegar ou largar, nos paralisa e nos põe inutilmente à procura de outras saidas; este exagero de irresolução tanto deriva do excessivo desejo de fazer bem como de uma fraqueza do entendimento, que se move na confusão e na falta de ideias claras e distintas; o remédio contra tal abuso é habituarmo-nos a fazer julgamentos certeiros e precisos acerca de tudo aquilo que se nos depara, e acreditarmos que cumprimos sempre o nosso dever quando executamos o que pensamos ser melhor, mesmo que possamos avaliar muito mal."

Maria Helena Vieira da Silva

domingo, julho 27, 2008

a revista Seara Nova




Capa do 1º numero da Seara Nova, 15 Outubro 1921

Confinada a quatro números por ano, a revista Seara Nova sobrevive. Mas não deixa de ser caricato (ou sintomático) que a Ditadura nunca tenha conseguido aniquilá-la e seja agora o regime democrático a ditar-lhe tal sorte. Com avanços e recuos, sempre a Seara cumpriu os objectivos por que surgiu. Foi um baluarte do ideário republicano e na sua sede, (durante muitos anos na Rua Luciano Cordeiro 103-1º), fizeram-se inúmeras reuniões oposicionistas e prepararam-se campanhas eleitorais, como por exemplo a de Arlindo Vicente, em 1958, na qual a PIDE conseguiu mesmo introduzir um bufo que informou, passo a passo, das diligências eleitorais. Saramago escreveu o primeiro editorial após Abril.

Em entrevista ao Primeiro de Janeiro, em 1937, Luís da Câmara Reys, um dos fundadores, relatava assim o surgimento da Seara Nova:

(...) Nasceu de uma reunião na Biblioteca Nacional, no gabinete do Director, onde me encontrei a convite de Raul Brandão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Macedo e Jaime Cortesão. Foi cerca do ano de 1920. Apareci ali sem saber qual era o fim da reunião. Pouco depois conhecia-o: era o de elaborar um programa de acção politica e social, um programa mínimo de realizações nacionais, em que pudessem colaborar todos os elementos sinceros e sãos da colectividade (...) O pequeno grupo inicial alargou o âmbito da sua acção, empregando vários elementos à esquerda e à direita. Deste modo se trabalhou durante alguns meses. Foi difícil e lenta esta acção. Atingiu-se a concretização de um certo número de ideias e normas e fez-se a eliminação dos que, por incompreensão ou interesse, não eram desejáveis ou não desejavam comprometer-se, o que vinha a dar ao mesmo (...) Um dia, os elementos afins reuniram novamente e decidiram fundar uma revista de doutrina e critica e organizar uma secção editorial, cuja base comercial foi a Empresa de Publicidade Seara Nova, [constituída em Maio de 1921, com sede na rua António Maria Cardoso, 26. Os corpos gerentes da empresa eram constituídos por Ferreira de Macedo – substituído em 1923 pelo Capitão Fernandes Duarte –, Jaime Cortesão e Luis Câmara Reys (Direcção), Faria de Vasconcelos, António Tomás Conceição Silva e Rodrigo Caeiro Vieira (Mesa da Assembleia Geral), João de Araújo Morais, João Maria Sant'Iago Prezado e José das Neves Leal (Conselho Fiscal)". Foi baptizada por Aquilino, que sugeriu a primeira palavra, [Seara] e por mim, que a completei com a segunda [Nova]

 
No momento em que escrevemos acaba de sair o Número de Verão/2008 - (Nº 1704) que se encontra à venda em alguns quiosques e livrarias, em número inferior ao desejável.


A assinatura anual é de 15 € para os quatro números do ano e pode ser feita por qualquer meio para a Seara Nova:


Rua Latino Coelho, 6 - 4º - Esq. / 1050 – 136 LISBOA
Telef. 213 555 407 - Fax 213 544 824


email: searanova@searanova.publ.pt

sexta-feira, julho 25, 2008

Simone de Beauvoir, a minha grande referência

Simone de Beauvoir (1908-1986) e Jean-Paul Sartre (1905-1980)

Simone de Beauvoir foi a mais importante descoberta literária da minha juventude e marcou decisivamente o meu percurso de vida. O primeiro livro que li - Os Mandarins -, em edição brasileira, descobri-o por mero acaso. Estavamos em 1968 e vivia num quarto na Trav de Sta Quitéria cuja senhoria era dona de uma profusa biblioteca que me habituei a espreitar. Descobri Simone de Beauvoir, apaixonei-me pela sua escrita e nunca mais dela prescindi. Tinha 20 anos e foi uma revelação. Procurei-lhe a obra, que apenas consegui na totalidade no pós 25 de Abril quando foi editada pela Bertrand. A Liberdade a passar por aqui. E a sua relação com Sartre um modelo a perseguir, pese embora sem grande êxito, confesso, porque nunca encontrei alguém que me secundasse nas ideias e modo de viver a dois.  Mas consegui preservar a minha independência: não casar, não ter o casamento como objectivo de vida, e ter casa própria não a dividindo em permanência, ou seja, cada um de nós teria a sua própria casa de residência.  

O Segundo Sexo foi um deslumbramento, uma espécie de epifania.  Mas confesso que adoro toda a obra memorialista que produziu. Lê-la é como iniciar um périplo vertiginoso pela História do Século XX, que é transversal a toda a Europa e não só a França, com os principais conflictos que a dilaceraram e as diversidades políticas, culturais e artísticas que nela coexistiram e de que Simone foi, em muitos casos, protagonista privilegiada. Portugal recebeu-a em 1945 e o seu olhar é devastador para a nossa ditadura. Mesmo em Paris assinou as crónicas com pseudónimo para não vir a importunar a irmã e o cunhado, que era adido cultural, e aqui viviam.

Uma vez em Paris, em 1993, segui-lhe o rasto. Na Sorbonne visitei o departamento de Filosofia e História e detive-me na biblioteca onde se refugiou meses a fio para escrever O Segundo Sexo. No Flore perscrutei os cantos onde diariamente escrevia, durante a ocupação, sobretudo no 1º andar. Procurei os livros que me faltavam e trouxe uma biografia póstuma com conversas ineditas. Visitei-lhe o túmulo, que divide com Sartre, em Montparnasse. Cúmplices na morte como na vida.



cemitério de Montparnasse, 1993



no Cafe de Flore, Agosto de 1993

 
No ano do seu centenário estou a relê-la. Aqui ficam um pouco das suas memórias quando, em 1929, a vida com Sartre começava a estruturar-se.

«Sartre não tinha vocação para a monogamia; agradava-lhe a companhia das mulheres (...) não tencionava, com vinte e três anos, renunciar para sempre à sua sedutora diversidade. «Entre nós», explicava-me, servindo-se de um vocabulário a seu gosto, «trata-se de um amor necessário: é conveniente conhecermos também amores contingentes». Éramos da mesma natureza e o nosso entendimento duraria tanto como nós: mas não podia substituir as efémeras riquezas dos encontros com seres diferentes (...) Reflectimos longamente sobre isto.

(...) Foi nesse momento que Sartre propôs: «Façamos um contrato de dois anos.» Eu podia conseguir ficar em Paris durante aqueles dois anos e passá-lo-íamos na maior intimidade possível.(...) Ficaríamos separados dois ou três anos e encontrar-nos-íamos em qualquer parte do mundo, em Atenas, por exemplo, para recomeçarmos, durante um tempo mais ou menos longo, uma vida mais ou menos em comum. Nunca nos transformaríamos nuns estranhos um para o outro, nunca qualquer de nós faria em vão um apelo ao outro e nada prevaleceria contra esta aliança; mas era necessário que ela não degenerasse em obrigação ou em hábito: devíamos a todo o preço preservá-la desse apodrecimento

Concordei. A separação desejada por Sartre não deixava de me assustar; (...) o que me ajudava era o facto de já ter comprovado a solidez da palavra de Sartre. Com ele, um projecto não era conversa no ar, mas um verdadeiro momento de realidade. Se me dissesse: «Encontramo-nos exactamente daqui a vinte e dois meses, às dezassete horas, na Acrópole», eu tinha a certeza de o encontrar na Acrópole, exactamente às dezassete horas, vinte e dois meses mais tarde. (...)

Não estava em causa o usarmos das liberdades que nos tínhamos teoricamente concedido, durante o período deste «contrato»; tencionávamos entregar-nos sem reticências e sem reservas à novidade da nossa história. Concluímos outro pacto: não somente nenhum de nós nunca mentiria ao outro, como também não lhe esconderia nada. (....) Estava habituada ao silêncio e, no princípio, esta regra perturbou-me. Mas compreendi depressa as suas vantagens; não tinha de voltar a preocupar-me comigo própria: um olhar, sem dúvida benevolente, mas mais imparcial que o meu, devolvia de cada um dos meus movimentos uma imagem que eu considerava objectiva; este controle defendia-me do medo, das falsas esperanças, vãos escrúpulos, fantasmas dos pequenos delírios que tão facilmente se adquirem com a solidão. (...) Sartre era-me tão transparente como eu própria: que tranquilidade! 


Cheguei a exagerar: uma vez que ele não me escondia nada, julguei-me dispensada de lhe fazer a mínima pergunta (...) Mas se então me arrependi pela falta de vigilância, nem por isso incriminei o estatuto que tínhamos adoptado e de que nunca nos afastámos: era o único que nos convinha.
Isso não implica que a meus olhos a sinceridade seja, para toda a gente e para todas as situações, uma lei ou uma panaceia; tive seguidamente muitas ocasiões para reflectir sobre os seus bons e maus empregos. (...) A palavra, por vezes, representa apenas uma maneira de se calar, mais hábil do que o silêncio. (...)


A fraternidade que uniu as nossas vidas tornou supérflua e irrisória toda a ligação forçada que nos podíamos ter imposto. De que é que serviria por exemplo, habitar sob o mesmo tecto quando o mundo era a nossa propriedade comum? E para quê recear distâncias que nunca nos poderiam separar? Um só projecto nos animava: tudo abarcar e tudo testemunhar; ele obrigava-nos a seguir, por vezes, caminhos divergentes sem que escondêssemos um ao outro a menor das nossas descobertas (...) O que nos unia era o que nos separava; e através desta separação reencontrávamo-nos unidos no mais íntimo de nós próprios.


(...) éramos dois místicos. Sartre tinha uma fé incondicional na Beleza, que não distinguia da Arte, e eu atribuía à Vida um valor supremo. As nossas vocações não eram exactamente as mesmas. (...) Um dia anotei: «Tenho vontade de escrever; tenho desejo de frases no papel, de coisas da minha vida postas no papel» Mas, num outro dia, esclareci: «Nunca saberei apreciar a arte senão como salvaguarda da minha vida. Nunca serei, como Sartre, escritora acima de tudo.» (...) admirava o facto de ele conduzir o seu destino com as próprias mãos; longe de me sentir perturbada com isto, achava confortável estimá-lo mais do que a mim mesma.


Sentir um entendimento total com alguém, é, de qualquer maneira, um privilégio muito grande; a meus olhos, isto tinha um valor literalmente infinito.
(...) Em 1929, acreditava na paz, no progresso, num futuro risonho. Era necessário que a minha própria história participasse na harmonia universal; se infeliz, ter-me-ia sentido como no exílio: a realidade ter-me-ia escapado.»



Fonte: Simone de Beauvoir, A Força da Idade, Livraria Bertrand, Amadora, pp 23-28

terça-feira, julho 22, 2008

Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses - GRAVURA

Era assim que se chamava e foi criada no dia 20 de Julho de 1956. Não só uma cooperativa mas também uma sociedade para driblar os censores. Terminavam as Gerais de Artes Plásticas (1946-1956) e tinha início uma experiência pioneira que veio inovar e revolucionar o fazer e o divulgar da arte e dos artistas portugueses.

Com a GRAVURA a arte alcançou a necessária democratização e os objectivos que já vinham das EGAP´s: chegar ao maior numero de pessoas possível. Para isso se uniram esforços e se fizeram experiências, aprendeu-se e ensinou-se a Gravura, modalidade que nem sequer a Escola de Belas Artes contemplava.

Levou-se a arte ao mais recôndito do país através de exposições itinerantes onde democraticamente todos os artistas colaboravam. Lembro do Sá Nogueira me dizer que foi das experiências mais gratificantes que teve, poder levar uma exposição a Castelo Branco, por exemplo, e dialogar com os estudantes locais sobre problemas artísticos. Muitos jovens foram por elas influenciados.
Por outro lado, entraram para sócios artistas há muito afastados das EGAPs e outros que nunca lá tinham exposto, como o Almada, por exemplo.

Aqui fica uma fotografia de Alice Jorge a iniciar o "Mestre" com o apoio de Júlio Pomar.





Foram muitos os sócios fundadores e a sua primeira direcção foi a seguinte:
Dr. José Julio Andrade dos Santos - Presidente; Arqt Francisco da Conceição Silva - Vice-Presidente; Dr. Armando Augusto Vieira dos Santos - 1º Secretário; Maria Alice da Silva Jorge - 2º Secretário; Joaquim José Barata - Tesoureiro; Cipriano Dourado dos Santos - 1º Suplente; Júlio Artur da Silva Pomar - 2º Suplente

A primeira sede da cooperativa foi na garagem do sócio-fundador Engº Manuel Antunes Machado Torres, na Avenida Vasco da Gama, 26, Algés, mas as reuniões faziam-se em Lisboa.

Passou depois para Lisboa, para a Rua das Taipas, 12-r/c, naquele que veio a ser o atelier de Rolando Sá Nogueira; e só mais tarde, com o apoio fundamental da Fundação Calouste Gulbenkian foi possível passar para uma sede com condições logísticas e técnicas para servir de oficina, escola e galeria onde ainda se mantém, na Travessa do Sequeiro nº 4, instalações que foram inauguradas a 5 de Fevereiro 1960, com a presença do Dr Azeredo Perdigão, conforme a notícia abaixo de O Século de 6 de Fevereiro, assegurando a Gulbenkian a renda do edifício durante os dois anos seguintes.


Jornal O SÉCULO de 6 Jan 1960

Na inauguração:  J Pomar, A Vieira Santos, F Conceição Silva, J Julio Andrade dos Santos e J Azeredo Perdigão

Como pode ler-se na noticia acima a GRAVURA abriu com uma exposição de pintura, cerâmica e desenho de um dos fundadores, o artista Querubim Lapa, e tinha como objectivo imediato levar exposições itinerantes à África portuguesa e a todo o país, estando uma já preparada para seguir para Castelo Branco, a tal exposição que Sá Nogueira acompanhou e fez sessões de esclarecimento locais.

Mas a polícia política estava atenta a todas as movimentações e num relatório de 17 de Setembro de 56, o solícito agente informa as chefias da PIDE de todos os passos da "sociedade", dos sócios que a fundaram e dos elementos da direcção, terminando:
"Esta sociedade tem por fim promover a edição de gravuras de arte que serão elaboradas pelos respectivos sócios e exclusivamente destinadas aos mesmos. (...) Consta que tem apenas funções artísticas e que se destina a explorar uma arte que até agora o não tem sido em Portugal. Por enquanto o número de sócios é pouco superior à centena e são todos artistas."
Aqui fica a minha homenagem aos homens e mulheres pioneiros nesta aventura que tanto contribuiu para a alteração do gosto estético entre nós e mudou o estatuto da arte e dos artistas em Portugal.

Julia Coutinho

Nota: o meu muito obrigada ao Zé Pedro Andrade dos Santos pela cedência da foto da inauguração da GRAVURA que muito veio enriquecer este texto.

domingo, julho 20, 2008

Parabéns a uma pessoa especial

O meu querido amigo Fernando Vieira de Sá faz hoje 94 anos !
PARABÉNS, FERNANDO !
que continues a ser a pessoa que és, com o empenhamento cívico de sempre e igual nobreza de espírito, o camarada e o amigo disponível e atento. Por muitos e bons anos! Conheçam-no aqui!
(Lisboa, 20 de Julho de 1914)

sábado, julho 19, 2008

Eduardo Lourenço, o que não quis ser exilado



Eduardo Lourenço (n. 1923)

Antes de mais quero dizer que sou admiradora de Eduardo Lourenço e gosto especialmente de dois livros "Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista" e "O Labirinto da Saudade" que sempre recomendo a quem queira reflectir nessa coisa do sentir e ser português. O livro foi lançado em 1978 e desde então tem sido uma espécie de manual para os seres que se interrogam e procuram signos identitários. No entanto, em entrevista recente, Eduardo Lourenço confessa ter escrito o livro vinte anos antes, em 1958, quando se encontrava no Brasil, tendo subjacente a problemática africana e a colonização, temáticas que então se desenhavam para todos os povos colonizadores e que para os portugueses desembocariam na Guerra do Ultramar que durou de 1961 a Abril de 1974.

Fiquei admirada. - Então O Labirinto da Saudade não é contemporâneo da primeira edição? Então o professor fazia análises destas nos finais de cinquenta e nunca as publicou? Nunca as deu a conhecer? Nem sequer fora de Portugal? Teria sido uma excelente ajuda para os que aqui e no estrangeiro continuavam a bater-se pela Democracia no país.

Diz o professor: «nessa altura, eu não podia publicar aquele tipo de reflexão sem abdicar de vir a Portugal. E eu disso nunca abdiquei. Não era um militante por conta própria ou por conta de algum partido. Não tinha nenhuma espécie de importância política que me colocasse nesse papel. Era a título puramente privado que eu fazia essas reflexões. (...) E naquela altura ninguém tinha ideia que dali a uns anos o regime pudesse terminar.»

Também no Brasil, onde deu aulas na Universidade Federal da Bahia, Lourenço conviveu com um núcleo de portugueses exilados políticos e, a pedido de Miguel Rodrigues escreveu dois artigos, um deles publicado no Portugal Democrático, mas sob pseudónimo. E foi tudo. Bem diferentes foram as atitudes de Jorge de Sena ou Adolfo Casais Monteiro ou Joaquim Barradas de Carvalho ou Maria Antónia Fiadeiro e outros que sempre colaboraram de cara descoberta com o Portugal Democrático, jornal fundado em 1956, em São Paulo, por Vitor Ramos.

Talvez seja demasiado simplista esta minha análise, mas a verdade é que o professor preferia não publicar, não dar a conhecer o que pensava e reflectia só para não afrontar a ditadura. E, no entanto, ter-nos-iam sido, na altura, de extrema importância as suas reflexões. Como o vieram a ser no pós-25 de Abril, claro. Mas imagine-se a estocada no regime salazarista se O Labirinto da Saudade tivesse sido publicado nos anos 1958/59/60/61 mesmo que em outro país. 

Sentir medo é humano e legítimo. E sempre estarei grata ao professor Eduardo Lourenço por ser o pensador e o grande trabalhador intelectual que ninguém contesta e nos prestigia. Respeito-o imenso mas, confesso, sinto-me defraudada por esta sua postura «anti-oposicionista». Como se de um «herói com pés de barro» se tratasse. Afinal Eduardo Lourenço foi apenas um emigrante que não quis ser exilado. Eu é que estava errada.

Julia Coutinho




sábado, julho 12, 2008

Valeu a pena

Correu bem a palestra sobre a obra, a vida e o tempo de José Dias Coelho.
Dizem os donos da galeria que a questão do calendário, com as férias no horizonte para uns e o final de trabalhos lectivos para outros, nomeadamente professores, ditaram a fraca assistência.
Mas esteve presente toda a família de José Dias Coelho.
Só por isso, valeu a pena.

quinta-feira, julho 10, 2008

Convite

11 de Julho de 2008 - Sexta-feira, às 21h30: PALESTRA
Tema: ESCULTOR JOSÉ DIAS COELHO : UMA ABORDAGEM À SUA VIDA E AO SEU TEMPO
Proferida por Júlia Coutinho

MATOS FERREIRA
GALERIA DE ARTE
BAIRRO ALTO - Rua Luz Soriano, 18 / 1200 - 247 LISBOA *
Tlf: 213 230 011 - Tlm: 962 953 722

Informações mais detalhadas em http://www.galeriamatosferreira.com/

quarta-feira, julho 09, 2008

Convite - Sábado, 12 Julho, 17H30 - Faro









Por iniciativa de José António Barreiros e Liliana Palhinha vai inaugurar-se no sábado, dia 12, pelas 17h30, em Faro, um Espaço de Memória e uma Livraria, - Pátio de Letras -, um projecto que vai enriquecer a oferta cultural da zona. Saudamos a iniciativa e desejamos os maiores êxitos.
Quando me deslocar ao Sul ... lá irei!
Mais informações, aqui!

sábado, julho 05, 2008

In Memoriam de Manuela Porto (1908-1950)


Manuela Cesarina Sena Porto (1908-1950)

Manuela Porto nasceu há cem anos, no dia 24 Abril de 1908, e teria sido da maior justiça lembrá-la no Congresso Feminista ocorrido há pouco*. Ela que foi uma paladina dos direitos das mulheres e abriu caminhos inóspitos tendo traduzido e divulgado autoras até então desconhecidas como Louisa May Alcott, Anne Bronte, Elizabeth Gaskell, Hazel Goodwin, Katherine Mansfield e sobretudo Virginia Woolf, sobre quem fez uma palestra em 6 de Janeiro de 1947, inserida na Exposição de Livros Escritos por Mulheres organizada pelo Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas (CNMP), no salão da SNBA, evento que teve grande repercussão e haveria de levar à demissão de Maria Lamas do jornal O Século, onde dirigia o suplemento Modas e Bordados, e ao encerramento do Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, em 28 de Junho desse ano.


Virginia Woolf, O Problema da Mulher nas Letras, conferência na SNBA em 6.Jan.1947 que a Seara Nova editou.

Curiosamente, é no ano do seu centenário que o nome de Manuela Porto é finalmente resgatado do silêncio através de um trabalho académico notável (que espero seja editado) de Diana Dionísio, neta de Mário Dionísio, um amigo de MP e um dos poetas do Novo Cancioneiro que divulgou. Não deixa de ser sintomático que isso aconteça pela mão de uma jovem que, tal como MP, (filha do republicano, escritor e pedagogo César Porto) é herdeira de um património humanista político-cultural que forçosamente lhes moldaram o carácter. Neste trabalho, Diana Dionisio analisa sobretudo a vertente teatral em Manuela Porto, o que não é pouco, se considerarmos que a mesma após se afastar dos palcos nunca deixou de aos palcos e ao teatro estar ligada tendo fundado e dinamizado o Corpo Cénico do Grupo Dramático Lisbonense,  onde se revelou a actriz Gina Santos que faria carreira no Nacional. Muitos outros caminhos ficam em aberto mas, a partir de agora, tudo será mais fácil. Duro mesmo foi começar do zero absoluto, como a Diana começou. E eu sei bem do que falo.

Edificio na Rua Marcos Portugal, 22-24, (actual 22-A) onde funcionava o Grupo Dramático Lisbonense (GDL). As instalações seriam destruidas por um fogo em 1949 e o GDL acolhido temporariamente na Academia dos Amadores de Música onde apresentou alguns espectáculos.

Casada com o artista plástico Roberto de Araújo Pereira, Manuela Porto foi escritora, tradutora, crítica teatral, actriz, encenadora, declamadora, oposicionista e feminista. Ligada ao MUNAF (Movimento de Unidade Anti-Fascista), ao MUD (Movimento de Unidade Democrática) e à CEJAD (Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos) teve um papel importantíssimo na divulgação dos nossos poetas desde os da Presença aos do Novo Cancioneiro, e foi graças a si que os portugueses conheceram Fernando Pessoa (1888-1935) pouco depois da sua morte, através de recitais  nos salões de O Século. Mulher extraordinária, muito para além do seu tempo, ela foi a arauta dos poetas, a que dizia poesia como quem vive e respira.



























Diário de Lisboa 15 Janeiro 1942 -  (uma das sessões no Salão de O Século)




Em entrevista a Diana Dionisio, em Janeiro de 2006, Luiz Francisco Rebello (1924-2011) recorda essas noites mágicas no salão de festas de O Século com Manuela Porto a dizer o longo poema Ode Marítima, de Alvaro de Campos, completamente de cor:

«coisa extraordinária - a declamação da Ode Marítima no salão de festas do Século. Ela era uma extraordinária declamadora de poesia (...) Parecia uma coisa impossível. Saber de cor a Ode Marítima... era uma hora, que diabo!... Dizer de cor a Ode marítima inteira parecia uma coisa extraordinária. Eu lembro-me no salão de festas do Século, fizeram-se uma série de coisas, uma série de conferências sobre teatro português. Ela dizia... era uma espécie de mímica com as mãos que esvoaçavam, era deslumbrante. Tinha um ar etéreo, o que contrastava até muito com a violência de certos passos da Ode Marítima. A ideia que eu tenho é de... uma noite de magia.»  


Manuela Porto viveu apenas 42 anos. Suicidou-se em 7 de Julho de 1950. Não era a primeira vez que o tentava mas foi desta que conseguiu. Os jornais noticiaram que "morrera em casa", mas não, os amigos ainda a levaram com vida para o Hospital de São José, acompanhada pelo médico e poeta Armindo Rodrigues que aí assistiu à sua morte na sequência de brutal overdose de barbitúricos. Mas para a censura não existiam suicídios, nem mortes violentas, nem doenças fatais. Era o país do "faz de conta". Na altura, exercia as funções de Secretária da Redacção da revista Eva. 

O poeta José Gomes Ferreira (1900-1985), seu companheiro de jornada, evoca-a na Vértice:

«Nada, ouviram? - nada conseguirá salvar do esquecimento de cova cheia a outra Manuela, a verdadeira Manuela do nosso convívio (...) que, no fim de contas, tudo valia para nós: a Manuela de todos os dias no Chiado, da Brasileira, às 6 horas da tarde, dos ensaios pacientes na Academia dos Amadores de Música, das reuniões aos domingos em volta do chocolate do João José Cochofel, dos jantares aconchegados na sua salinha defronte do Enterro de Mário Eloy; a Manuela do sorriso forçadamente quente (às vezes com tantos punhais nos recantos de sofrer); a Manuela que, como todas as mulheres superiores, possuia o segredo daquela intimidade misteriosa que, ao mesmo tempo, aproxima e afasta (e assim quem lhe descobria os defeitos?); a Manuela a ocultar, sob a leve afectação de uma máscara exageradamente feminina, o seu coração de jacobina varonil; a Manuela, amiga e Anjo da Fama dos poetas -  de todos! de todos! -  desde o Fernando Pessoa aos últimos escorraçados do neo-realismo... (pedras de todos os cantos! Insultos de todos os céus! ódios de todos os negrumes! E é por isso que estou com eles. A poesia é escândalo! A poesia é perigo!); a Manuela, ídolo insubstituível dessas trezentas pessoas heróicas que andam, de um lado para o outro, em Lisboa, a fingir cultura: -  a correr das dissonâncias da Sonata para o pescoço torcido da geral do São Carlos; da Exposição das Artes Plásticas para o último concerto de canções do Lopes Graça; da estreia do Auto da Índia no teatrinho do Grupo Dramático Lisbonense para o recital poético na Associação Feminina para a Paz... A Manuela que, quando me encontrava, pedia-me sempre, em cadência de súplica: "ó Zé Gomes: escreva-me uma peça!"»

(JGF, parte de um texto publicado na Vértice, vol X, nº 86, Outubro de 1950, numero inteiramente dedicado a MP)


Diario de Lisboa 5-06-1950
Muito provavelmente terá sido o sarau em conjunto com Maria Barroso aqui anunciado para 9 de Junho de 50 na Casa do Alentejo, a última participação pública de Manuela Porto. Com esta conferência de Maria Lamas, "A Paz e a Vida", no Museu João de  Deus, e mais tarde repetida no Porto, nos Fenianos, dava-se início à existência da Comissão Nacional de Paz com a eleição de uma comissão abrangente de personalidades que incluia, também, Manuela Porto.

José Gomes Ferreira, juntando-se a muitos outros poetas e escritores, vai dedicar-lhe este poema na Vértice, vol X, nº 86, Outubro de 1950, inteiramente dedicada a MP) .


Na morte de Manuela Porto

 

Devia morrer-se de outra maneira. 

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.

Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol

a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos

os amigos mais íntimos com um cartão de convite

para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica

a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje

às 9 horas.  Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos

escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir

a despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. 

"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,

numa lassidão de arrancar raízes...

(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis


(José Gomes Ferreira, 1900-1985)


Também amigos seus lançam um livro, inédito, em 1952 no segundo aniversário da sua morte:
  
Diario de Lisboa, 7 Julho 1952

Julia Coutinho

______________

Nota* - este texto foi escrito originalmente em 2008, ano em que se realizou o Congresso Feminista na Fundação Calouste Gulbenkian, organizado pela UMAR, e aqui referido. E veio a ser reescrito e acrescentado de documentos pela autora.
Julia Coutinho