domingo, novembro 16, 2008
quinta-feira, novembro 13, 2008
domingo, novembro 02, 2008
A tanto chegava a abjecção!
Ali estava ele na ampla sala de leitura da nova Torre do Tombo, à espera que lhe trouxessem os documentos requisitados. Consultava, finalmente, o seu processo nos arquivos da PIDE/DGS. (...)
Pessoalmente não tinha nenhum prazer em regressar a esse mundo da PIDE/DG, que só muito palidamente aflora nos seus arquivos.
Sim, lá não estão: o suplicio da tortura, as dores dos espancamentos, as alucinações da privaçao do sono, a angústia da incomunicabilidade sem fim, o medo dos interrogatórios feitos por uma roda de esbirros, o pesadelo dos longos anos de prisão, a permanente incerteza do dia de amanhã para quem caia nas garras dos torcionários e para os que viviam permanentemente perseguidos por eles, como acontecia com os clandestinos.
Bastou-lhe, no entanto, o propósito de consultar os arquivos, as formalidades para proceder à consulta e o período de espera que estava agora a viver, para que tudo isto lhe viesse a pouco e pouco à memória. Nunca tivera pressa de saber o que se dizia lá a seu respeito, ao contrário de outros que correram à Antonio Maria Cardoso «para consultar a ficha» (...) talvez por que tinha a consciência absolutamente tranquila quanto ao seu comportamento sempre que enfrentara aquela máquina de terror e de desonra e, além disso, não tinha a menos espécie de vocação masoquista. Ou seria antes por que se entregou de alma e coração à revolução, muito mais virado para o futuro que se queria construir, do que para o passado que se devia soterrar para sempre?
(...)
A primeira peça que o interessou foi um volume que constituia o auto das apreensões feitas pela Pide de uma das vezes que lhe assaltara a casa. Lá estavam alguns raros jornais e folhetos clandestinos, pois tinha o cuidado de não os guardar depois de lidos, mas muitos manifestos, declarações, apelos, tarjetas, selos dos movimentos oposicioistas, legais e semi-legais, rascunhos de artigos da sua autoria, versando matéria mais ou menos política. Achou óbvias estas apreensões. A sua indignação começou quando deparou com um diploma de curso, cuja falta lhe causara os maiores transtornos profissionais. Procurara-o por toda a parte, inclusivamente em casa dos pais e dos avós, nunca pensando que pudesse ter sido objecto de apreensão pela PIDE.
- Com que direito! - interrogou-se interiormente, mas era tanta a veemência da sua pergunta que deve ter produzido alguns sons, pois vários rostos se viraram, com expressa reprovação, na sua direcção.
O espanto indignado que começara a possui-lo não cessava de aumentar à medida que ia encontrando cartas pessoais da mulher, da mãe, dos amigos tratando questões familiares, as mais pessoais e íntimas, mesmo sobre doenças, partilhas, situações afectivas - tudo o que a devassa pidesca abocanhava.
- Com que direito? - Era a pergunta que lhe vinha das entranhas e que tinha de sufocar para não perturbar os restantes leitores.
Não conseguiu ficar sentado, quando, entre muitas outras fotografias, apreendidas, deparou com vários retratos do irmão, já então falecido, dispostos numa fila, com vistas de vários ângulos, como a indicar que se tratava de um elemento suspeito.
(...)
Veio-lhe então às mãos uma peça que continha um conjunto de cartas de «bufos» com denúncias sobre uma viagem que em certa altura fizera ao Algarve, para visitar os pais e outros familiares. Davam informações precisas das terras onde tinha estado, o que fizera, pessoas com quem se tinha encontrado.
Um das cartas informava da descida do Guadiana que tinha feito num barco de carreira - o «gasolina» - que então estabelecia ligação entre Mértola e Vila Real de Sto Antonio, acostando a Alcoutim e parando ao largo de outras povoações ribeirinhas. Referia, velhacamente, como «contactos», as conversas que tivera a bordo com diferentes pessoas, indo ao ponto de identificar algumas delas. Nunca podia ter imaginado que fosse seguido com esta minúcia pelas forças policiais. Os «bufos» algarvias deviam ter sido alertados por ordens de Lisboa.
- Caramba, como o nosso país estava minado! - Comentou para si.
Viu então a última carta do conjunto. Era um «bufo» que o denunciava como tendo participado e dirigido uma reunião em Aljezur. Tratava-se de uma rematada mentira, não estivera em Aljezur, nem de lá se aproximara, nessa viagem.
Ali estava a confirmação de como os «bufos» ao serviço da PIDE, além de denunciarem o que escutavam, observavam ou que de qualquer forma conheciam, faziam também denúncias que sabiam ser falsas, chegando a enganar os comandos repressivos, por razões de pura vingança contra os denunciados ou para mostrarem serviço, os que recebiam subsidios regulares, ou ainda para ganharem mais algum, os que eram pagos à peça, por denúncia apresentada.
- A tanto chegava a abjecção! (...)
Carlos Brito, águas do meu contar, campo das letras, 2002
quarta-feira, outubro 29, 2008
No centenário de Francisco de Paula Oliveira, «Pavel» (1908-2008)
Francisco de Paula Oliveira Junior nasceu em Lisboa, freguesia de Santa Catarina, em 29 de Outubro de 1908. Do pai herda o nome e os ideais anarquistas que o levam a ingressar na Federação das Juventudes Sindicalistas, que abandona após a revolta de 7 de Fevereiro de 1927, conforme nos refere Emidio Santana nas suas Memórias. Tudo leva a crer que se tenha de imediato aproximado do Partido Comunista Português onde, nos anos subsequentes, vai liderar e organizar as Juventudes Comunistas, tendo fundado "O Jovem" e o "Juventude Vermelha". Também sua mãe, Maria Adelaide, vem a ser uma dedicada militante comunista. Ao personagem central de A Mãe, de Gorki, irá buscar o pseudónimo que adopta: "Pavel".
Operário no Arsenal de Marinha desde os 11 anos, onde trabalha com Bento Gonçalves, a polícia política acreditava que a Pavel se devia muito do impulso organizativo dos arsenalistas no seu Sindicato, um dos raros de então a fugir à orbita anarquista. Simultaneamente, como todos os operários navais, estuda à noite.
Breve passa à clandestinidade, vindo a ser um dos principais dirigentes das Juventudes e, depois, do PCP, a cujo Secretariado vai pertencer com José de Sousa e Bento Gonçalves tendo, após a prisão e deportação destes para o Tarrafal, ascendido a principal dirigente. Fez várias viagens à URSS tendo aí permanecido como delegado do PCP junto da Internacional Comunista (IC) sob o nome de Fernando Queiroz.
Era um homem de formação humanista, de grande inteligência e cultura e com grande facilidade de aprendizagem, conforme testemunhos coevos. Quando foi preso pela primeira vez, em 1932, e devido às lesões pulmonares de que sofria, colocaram-no num sanatório. Aí, sabendo que em breve seguiria para representante do partido junto da IC, na URSS, aproveitou para estudar, sozinho, a língua russa. E conseguiu-o. Falava fluentemente russo, espanhol e francês. Em 1935 interveio, com Bento Gonçalves, como delegados do PCP ao VII Congresso da IC realizado na Casa dos Sindicatos em Moscovo. Bento Gonçalves falou em português enquanto Pavel proferiu o seu discurso em francês, durante 24 minutos (JPP,vol.II,p.125). Na URSS tratou finalmente dos problemas pulmonares, refez a vida e teve um filho a quem chamou Pavel Queiroz, os dois pseudonimos que adoptara.
No regresso a Portugal e após um ano de intensa actividade partidária é preso em 10 de Janeiro de 1938 na sua casa clandestina - Rua da Beneficência 180-2º/3º - pelo tenebroso José Gonçalves, na altura ainda Agente de Terceira, da Secção de Defesa Política e Social, da PVDE. Resiste à polícia com troca de tiros, e também aos bombeiros que acorreram devido ao incêndio que propagara aos armários da casa, no último andar, na tentativa de ganhar tempo e destruir o máximo de documentação comprometedora, uma vez que ali funcionava a redacção do Avante!, o que conseguiu.
Encerrado no Aljube consegue passar para a enfermaria. Alicia então um jovem enfermeiro - Augusto Rodrigues Pinto - que havia pertencido às Juventudes Comunistas e o ajuda num plano de fuga na condição de com ele seguir para a União Soviética. Apoiada pelo partido, a espectacular evasão da enfermaria do Aljube ocorre no dia 23 de Maio de 1938 e nela estão envolvidos Stella e Fernando Piteira Santos a quem ficará grato para sempre. Leva consigo o enfermeiro e um outro jovem comunista preso, em estado de tuberculose extrema, António Gomes Pereira, o "Casanova".
Lamentavelmente viviam-se momentos turbulentos no xadrez político internacional com a Guerra Civil de Espanha, com o nazismo e o fascismo em ascensão e com as purgas estalinistas. Também entre nós o ambiente era de guerrilha conspirativa intensa; culminando um longo processo de desconfianças e intrigas, os comunistas portugueses acabariam por ser expulsos da IC ficando desligados da mesma até finais dos anos quarenta. Pavel sabe que só junto da IC a situação terá alguma reversibilidade e segue com os dois companheiros para Paris, no intuito de conseguir regressar a Moscovo onde o aguardavam mulher e filho. Foi mal acolhido. A IC desconfiou da sua fuga e os camaradas portugueses abandonaram-no. Hoje sabe-se que as dúvidas sobre si foram forjadas por Armando Magalhães, o homem com aspirações na hierarquia partidária e autor do relatório que fez chegar a Vittorio Codovilla (1894-1970). Os processos estalinistas na IC haviam feito mais uma vítima.
Depois de meses miseráveis em Paris, durante os quais o jovem António Gomes Pereira piora, é internado e vem a falecer, Pavel, com o apoio do PCE assume a identidade de António Rodriguez Diaz, um revolucionário morto na Guerra Civil de Espanha e segue para o México com o amigo Augusto. Ambos constituirão família mexicana e conservar-se-ão amigos até à morte.
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| Francisco de Paula Oliveira / Pavel / Antonio Rodriguez com a mulher, Toinette, María Antonieta Fernández |
No México e após as naturais dificuldades dos primeiros tempos durante os quais trabalha como torneiro-mecânico - a sua profissão arsenalista -, vai colaborar nos periódicos locais e conviver com as elites progressistas e artísticas que o acolhem e com ele colaboram. Lança-se no estudo da sua mais recente paixão - a Arte -, e vem a tornar-se num grande jornalista, repórter internacional, escritor e crítico de arte, mais tarde professor e, sobretudo, no maior especialista mundial do Muralismo Mexicano. Ficara seduzido por essa forma de arte que os próprios mexicanos pareciam não valorizar. O seu livro «El Hombre en Llamas», editado primeiro na Alemanha Democrática (RDA) e só depois no México, recebeu o prémio do melhor livro de arte na Feira do Livro de Francfort, em 1968.
Após o 25 de Abril António Rodriguez foi convidado, através da Secretaria de Estado da Cultura, (David Mourão-Ferreira) a visitar Portugal, tendo realizado três conferências na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito da exposição sobre Máscaras Mexicanas que ali decorria. Voltou ainda nos anos oitenta mas, para além de alguns apontamentos jornalisticos, a sua passagem foi mais discreta.
Teve quatro filhos do casamento com a mexicana «Toinette», Maria Antonieta Fernandez.
Manteve-se fiel aos ideais e valores humanistas da juventude.
Morreu em 15 de Agosto de 1993.
Portugal desconhece-o.
Julia Coutinho
Nota: já depois de escrever esta biografia, escrevi uma intervenção sobre Pavel aqui.
Julia Coutinho
Nota: já depois de escrever esta biografia, escrevi uma intervenção sobre Pavel aqui.
domingo, outubro 19, 2008
Parabéns, amiga!
A Angela fez 40 anos no dia 17 de Outubro. Nasceu em 1968. Faz parte dessa excelente safra
Dissertação acerca do tema
“Comemorar ou não comemorar os 40 anos ...”
Quando recentemente anunciei publicamente a minha intenção de comemorar esta data, um amigo meu quase ficou incrédulo chegando mesmo a afirmar “que era preciso ter muita coragem”. Ora, o que ele queria dizer verdadeiramente era que este tipo de comemorações são realmente disparatadas não havendo mesmo razão nenhuma para andarmos neste estado tonto de contentamento precisamente na altura da vida que marca oficialmente o início da n/ decadência... seria até melhor ficar “escondidinha” à espera que isto passesse, na vã esperança de que ninguém note nada! (isto é que é de amigo, sim senhor!)
Ora, tenho para mim que em situações desta natureza só há 2 hipóteses. A hipótese a) entrar num estado de angustia depressiva, desaparecer temporariamente para parte incerta e só regressar quando a neura passar. Ou, hipótese b) disfarçar a coisa através de um processo de auto convencimento: ir acreditando que isto de fazer 40 ano é muito bom, exercitar um estado de alegria natural, juntar a “cambada” e fazer festa rija num saudável ambiente de maluqueira colectiva: cantar, dançar e rir à parva, comer à fartazana e quiçá apanhar uma “ganda buba”.
Pois sempre me inclinei mais para esta última hipótese até porque não fui talhada nem tenho perfil para a “deprimivite”. Para além do que, nestas ocasiões, sempre massajamos razoavelmente o n/ ego com tradicional fiada de piropos da praxe do tipo “Dava-te menos 10 anos”, ou “Tás muito bem: nem cabelos brancos nem pé-de-galinha”, ou ainda (e espero realmente ouvir esta) “Tás muita BOA!”. Por outro lado, também já me disseram que é aos 40 atingimos o auge de... de muitas coisas... da nossa maturidade e assim... Portanto, deposito hoje grande confiança no meu futuro (não sei se por seu turno, o futuro deposita em mim alguma coisa de jeito ...) e até acalento grandes esperanças de... qualquer coisa boa!
Ora, volvidos 40 anos, já deu para perceber que a vida é feita de muitos altos e baixos e que o melhor é mesmo aproveitar os altos, de preferência com bom humor e em boa companhia! Agora ficava bem dizer que vocês são a melhor companhia do mundo e que vos tenho a todos no coração mas depois isto ficava um bocado piroso. Digo-vos simplesmente, e isto agora é muito a sério, que tenho um pouco de cada um de vós na pessoa que sou hoje... e julgo que o recíproco também é verdadeiro.
Bem hajam a todos (especialmente aos quarentões) . Divirtam-se e façam o favor de serem muito felizes!
(A quarentona)
terça-feira, outubro 14, 2008
Antonio Gancho (1940-2006)
Nasceu em Évora em 1940. Morreu no Telhal, onde esteve "encarcerado" os últimos 38 anos de vida.Deixou poemas que dizem da sua lucidez e da sua liberdade.
SOBRE UMA MANHÃ QUALQUER
Manhã de ouro lhe poderíamos chamar
se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado,
e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho
e a cena desenrolar-se-á com maçãs de estanho,
aves de estanho, rios de estanho...
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz,
a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que material
fora a primeira manhã!
Evidentemente que
(e aqui já cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc. e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje,
e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã,
Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal.
Antonio Gancho, in o ar da manhã, assírio & alvim, 1995
terça-feira, outubro 07, 2008
Antonio Borges Coelho: 80 anos
A sua vida é um exemplo, uma referência. Lutador antifascista, desde jovem militou e foi dirigente do MUD Juvenil, tendo sido funcionário do Partido Comunista Português. Preso no Aljube e em Peniche, passou anos nas prisões e sofreu as represálias infligidas pela PIDE aos que ficaram, após a fuga de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960. Foi ainda em Peniche que casou com a Isaura, também ela uma lutadora pelos direitos cívicos das Enfermeiras, e por isso presa, julgada e condenada. Pai e avô babadíssimo da Sónia e do Francisco.
Historiador e investigador incansável, ao seu labor honesto e meticuloso se devem os primeiros trabalhos que abriram caminhos e desfizeram mitos da História de Portugal, como bem recordou Cláudio Torres. Após o 25 de Abril ensinou na Faculdade de Letras de Lisboa (FLUL). Conheço ex-alunos que o recordam não só como Mestre e Pedagogo mas, sobretudo, como Humanista. Com um imenso respeito. O mesmo respeito com que o Professor Borges Coelho os tratava, mesmo quando as divergências ocorriam.
Perseguidor da utopia universalista, acredita que os Homens podem transformar o mundo e torná-lo melhor. Acredita no diálogo, nos consensos mínimos, no poder da(s) palavra(s) e na aproximação dos contrários se com boas-vontades. Como se todos pudessemos ser "crianças crescidas" e ter o dom da inocência dos primeiros olhares. Acreditar. Confiar. Perseguir. Lutar.
Amante da poesia, escreveu em Janeiro de 1957:
LIBERDADE
... amo-te de menino
Encontrei-te
Num mundo de operários
Na prisão
É TEMPO ! É TEMPO!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!
Foi este o poema escolhido para decorar o enorme bolo comemorativo dos 80 anos do professor António Borges Coelho. Um festa da iniciativa da equipa do Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, que Borges Coelho fundou e dirigiu entre 1999 e 2005.
Eu estive lá e foi emocionante ver e sentir aquela imensidão de pessoas dos mais variados quadrantes políticos e culturais irmanados num objectivo comum: homenagear um Homem e um Amigo de excepção. A mostrar que não existem barreiras que resistam, se os Homens quiserem. Pessoalmente sinto-me uma privilegiada pela sua amizade.
Assinalando a data, a Caminho reeditou Portugal na Espanha Árabe, uma obra pioneira, que foi apresentada por Cláudio Torres.
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sábado, outubro 04, 2008
Morreu há cinquenta anos
Maria dos Santos Machado
"Rubina"
(25.2.1890 - 4.10.1958)
Morreu na véspera do dia comemorativo da implantação da República, no rescaldo das eleições fraudulentas de Humberto Delgado e em plena rua, na Amadora, quando tentava alugar um quarto para viver. O coração traíu-a. Não aguentou. Parou para sempre.
Oriunda de uma família burguesa, Maria Machado nasceu na Calheta, nos Açores. Professora Primária, veio para o Continente exercer o Magistério e aqui militou no Socorro Vermelho Internacional, tendo sido uma das fundadoras da Comissão Feminina Portuguesa para a Paz em 1936. Assinalada pela polícia política sofreu as habituais perseguições da PVDE/PIDE tendo sido expulsa do ensino e impedida de ensinar mesmo gratuitamente, aos mais necessitados. Militante do Partido Comunista foi presa várias vezes, a última das quais no próprio ano em que faleceu.
Por razõs de saúde teve de deixar a clandestinidade mas continuou sempre activa no apoio, a todos os níveis, aos presos políticos e suas famílias. Fez testamento a favor do seu Partido.
Maria Machado foi uma mulher que fez da sua vida uma jornada de luta contra Salazar. Lembrá-la é alimentar a Memória de um tempo que desejamos não mais se repita.
terça-feira, setembro 30, 2008
A minha memória de José Cardoso Pires
5ª feira
18h00
Casa Fernando Pessoa
R Coelho da Rocha 16 - Lisboa
No dia do seu nascimento
os amigos recordam
Com António Lobo Antunes
e Júlio Pomar
"Nenhum escritor gosta de falar do que escreveu a não ser em ocasiões muito, mas mesmo muito, especiais. Nenhum -- friso bem -- faz livros para complicar a vida."
José Cardoso
segunda-feira, setembro 29, 2008
Ainda... lamentavelmente
Disse o Samuel de sua justiça sobre a questão dos painéis. Não vou comentar este seu último post sobre o assunto. Só lamento que, apesar das inúmeras citações que nele faz de palavras minhas, tenha omitido a mensagem por mim deixada no dia 23 do corrente no seu post inicial sobre a Maria Keil, ou seja, no dia 14 de Agosto de 2008. Para memória futura, aqui fica esse meu comentário. Leiam-no com atenção.
Meus caros,
Não subscrevo a petição que anda a circular e que transcreve o texto do Samuel. Penso que a indignação é uma atitude saudável e que nos dignifica, mas tem que basear-se em causas sérias e justas. A verdade é que as minhas palavras primeiro e depois as do Samuel foram sendo empoladas e aproveitadas para objectivos que transcendem os objectivos iniciais.
Podemo-nos indignar, não temos é o direito de interferir com as decisões tomadas pela Maria. Temos que a respeitar. Ela chegou a acordo com o Metropolitano. Os acontecimentos têm mais de 10 anos! Os problemas estão sanados e ultrapassados. Já pensaram como aquela senhora de 94 anos se sentirá ao saber de toda esta celeuma pública, AGORA, para um problema que ela propria resolveu, sózinha, na altura própria? Pensem um bocadinho e não alimentem mais esta cadeia de indignação extemporânea, por muito que vos custe.
Convido-vos a visitar o meu blog www.ascausasdajulia.blogspot.com e lerem o que lá escrevi. Eu nunca desejei (e penso que o Samuel também) que chegássemos a esta situação incendiária. Conheço pessoalmente a Maria Keil, merece-me o maior respeito, e sinto-me particularmente culpada. Por isso lhe peço publicamente desculpas.
23 de Setembro de 2008 22:51
23 de Setembro de 2008 22:51
A petição vai ser retirada
Apenas para informar que o blog http://faceocultaterra.blogspot.com/ autor da petição online sobre os painéis de Maria Keil, acaba de publicitar naquele blog a intenção de retirar o documento da net.
Saudamos a iniciativa.
Saudamos a iniciativa.
domingo, setembro 28, 2008
Maria Keil no Expresso de 27 Set 2008
A história dos azulejos que não querem ser defendidos
por Alexandre Costa - Expresso
Maria Keil não compreende como anda a circular uma petição para a reposição dos seus azulejos no Metro.
"Em que mundo é que vivemos, que põem coisas assim na Internet sem falar com ninguém?", interroga Maria Keil, a pintora, ilustradora e ceramista, actualmente com 94 anos.
Mais de três mil pessoas já subscreveram na Internet uma petição que a apresenta como vítima do Metropolitano de Lisboa, por este ter destruído alguns dos seus painéis de azulejos. Só que ninguém falou com a artista, que há muito chegou a acordo com a empresa. "A petição é um perfeito disparate", comenta, abismada com a história, "foram pegar nisto agora para quê? Quem querem atingir? É horrível".
O documento apresenta como recente um caso com mais de uma década. A sua criação é um autêntico fenómeno de 'bola de neve' típico da Net e dos blogues. Um pequeno comentário dá origem a um texto inflamado que deturpa os factos e cuja informação todos dão como certa. Em causa está a destruição de alguns dos painéis de azulejos de Maria Keil durante as obras de alargamento e remodelação de estações de Metro ocorridas nos anos 80 e 90. Especialmente em foco está a intervenção na estação dos Restauradores (em 1997), cujos azulejos foram irremediavelmente destruídos, enquanto que os da estação de São Sebastião serão repostos, mantendo o seu aspecto original, de acordo com o estabelecido entre a transportadora e a artista.
Os painéis de azulejos foram criados, a partir dos anos 50, por Maria Keil, que os ofereceu para as primeiras 19 estações do Metro, concebidas pelo seu falecido marido, o arquitecto Francisco Keil do Amaral. Em 1999 a artista criticara, em entrevista ao jornal 'Público', a destruição dos seus painéis dos Restauradores, sem que a empresa lhe tivesse comunicado sequer o que ia fazer. "Agora não posso refilar por me andarem a picar as paredes porque, de facto, dei tudo".
Foi uma referência a essa entrevista — a 9 de Agosto passado, por ocasião do 94º aniversário da artista —, no blogue de Júlia Coutinho ('As Causas de Júlia'), que veio a provocar uma cadeia de reacções.
Samuel Quedas leu o «post» e desenvolveu o assunto no blogue 'Cantigueiro', insurgindo-se por, "ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização". O bloguista acrescentou que no "Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra".
O atear da polémica
O texto não passou despercebido aos autores do blogue 'A Face Oculta da Terra', Carlos Alberto Augusto e Rui Mota, que, o transformaram numa petição.
Entre os signatários da petição — disponível em http://www.petitiononline.com/MK2008PT/petition.html — surgem nomes como o da médica Isabel do Carmo ou da coreógrafa Vera Mantero. Ambas referiram ao EXPRESSO não fazer ideia de que Keil se opõe à petição e que, caso soubessem, muito provavelmente não a teriam apoiado.
O número de signatários continua a crescer, assim como uma onda de críticas à administração do Metro ou à autarquia de Lisboa. Há mesmo um bloguer que já pediu a demissão do actual ministro da Cultura...
Contactado pelo EXPRESSO, Rui Mota diz que vão manter a petição tal como está, porque se trata de "um acto de cidadania" contra o "atentado ao património", independentemente da posição da ceramista sobre o assunto. Samuel Quedas afirma que não é responsável pela petição, que é inteiramente constituída pelo seu texto.
Alexandre Costa
acosta@expresso.pt
quinta-feira, setembro 25, 2008
Mensagem do Pitum Keil do Amaral, filho de Maria Keil
Cara Amiga,
Desculpe se lhe não respondi mais depressa mas estamos no início do ano lectivo, e ando atarefado com a abertura das aulas.
Esta história da petição, abaixo assinado ou o que quer que seja acerca dos azulejos da minha Mãe para o Metropolitano de Lisboa, não tem jeito nenhum.
Fiz o possível para que ela não tomasse conhecimento do que se ia passando, mas agora já são desconhecidos a telefonar-lhe directamente, pedindo para também assinar !!
Ela ficou muito incomodada, claro , pois trata-se de factos passados há quase vinte anos, e que ficaram esclarecidos entre ela e a Administração do Metro.
É natural que ela tenha ficado magoada e ressentida, mas a remoção dos azulejos não teve motivos estéticos, nem foi vandalismo, mas sim a necessidade de ampliar as estações. É evidente que a Administração da época não foi correcta ao agir sem uma prévia explicação.
Mas isto, como disse, foi há quase vinte anos, e a minha Mãe continuou em boa relação com o Metro, que lhe encomendou uma nova estação – agora devidamente remunerada (enquanto as outras 19, por mútuo acordo, não foram pagas pelo Metro, recebendo minha Mãe, apenas, uma percentagem modesta sobre os azulejos aplicados, paga pela Fábrica que os fez).
Era impensável repor os azulejos, pois as superfícies onde antes estiveram ou já não existem ou estão completamente alteradas. Não tinha cabimento.
Felizmente, tudo o que minha Mãe fez sobre azulejos, para o Metro e muito mais, está documentado, e guardado no Museu do Azulejo em Lisboa.
Seria bem mais interessante que se falasse no papel que Maria Keil e o seu marido, o Arquitecto Francisco Keil do Amaral, tiveram na reabilitação e modernização do nosso azulejo tradicional aplicado na construção, abrindo caminho para as intervenções de muitos outros artistas, e para a difusão desta forma de Arte por esse mundo fora, desde o Japão até não sei onde – embelezando várias estações de metropolitano e não só.
O que a Júlia escreveu no seu blog está muito bem. A volta que deram ao assunto é que não faz sentido.
Retenha-se a necessidade de legislação e de prática na defesa dos direitos de autor das obras de arte públicas, muitas vezes abusadas e destruídas. – sim senhor .
Mas quanto à Maria Keil, no final de uma vida longa de trabalho, merece que a não envolvam em polémicas que não desencadeou, nem vêm a propósito.
Um abraço do Pitum
quarta-feira, setembro 24, 2008
In Memoriam de Maria Helena Coimbra (1925-2008)
Contigo acreditei
nas minhas asas
e aprendi a voar.
Ensinaste-me
o tropeçar
o cair
o magoar.
Mas sempre
sempre
o (re) erguer.
Foste a pessoa exacta
no caminho incerto.
... Como posso dizer-te adeus?
Julia Coutinho
segunda-feira, setembro 22, 2008
Maria Keil e o Metropolitano – Um esclarecimento necessário
Um texto despretensioso deste blog acabou por dar origem a um autêntico furacão internético e está a provocar algumas dores de cabeça à autora e aos visados. Peço, por isso, a vossa atenção para o esclarecimento que se segue.
Tudo começou com um apontamento breve inscrito neste blog a propósito dos 94 anos de Maria Keil no dia 9 de Agosto. De passagem, lembrei a história dos painéis que a Maria fez para o Metropolitano de Lisboa entre finais dos anos 50 e inicio dos 70 e que, aquando das obras de ampliação do metro, nos anos subsequentes foram parcialmente destruídos – tendo a estação dos Restauradores sido a mais afectada, acabando a obra de Maria Keil naquela estação por ficar completamente destruída; mas a celeuma na altura foi tanta e a Maria insurgiu-se de tal forma, que fez com que a administração do Metropolitano repensasse os processos da renovação que estava a ser efectuada, voltando atrás e acabando mesmo por encomendar à artista uma das novas estações, precisamente aquela que está há anos para ser inaugurada, a estação de São Sebastião, e que Maria Keil tem pronta, prevendo-se que o seja aquando dos 50 anos do Metropolitano em 2009.
A verdade é que o assunto foi sanado e ultrapassado pela própria autora, e a referência que lhe fiz neste blog, nomeadamente com a transcrição de parte substancial da entrevista dada por Maria Keil a António Melo, em 1999, pretendia apenas lembrar esse episódio lamentável, sem quaisquer outras motivações nem acusações fosse a quem fosse.
Acontece que a chamada blogosfera é um meio de comunicação particularmente propício a leituras apressadas e frequentemente incorrectas da realidade. E a internet, pela capacidade de difusão rápida que permite, torna-se muitas vezes veículo, mesmo que involuntário, de meias verdades que a seguir se transformam em pequenas mentiras, as quais por sua vez degeneram não raras vezes em verdadeiras calúnias.
Foi mais ou menos isto que se passou com esta história. A partir deste apontamento, o assunto voltou a ser abordado, de forma mais contundente, no blog do Samuel (http://www.samuel-cantigueiro.blogspot.com/), que na altura saudei, o qual foi por sua vez citado em numerosos outros espaços, com mais um ou outro pormenor, uma ou outra acusação.
A partir daqui gerou-se uma autêntica bola de neve que culminou com a criação, no blog http://faceocultaterra.blogspot.com/ de uma indignada “petição online” (que reproduz, no essencial, o texto do blog de Samuel) onde se exorta “o Conselho de Gerência do Metropolitano de Lisboa a, rapidamente, diligenciar obter os desenhos dos painéis destruídos e mandar executar, à empresa que produziu (a Viúva Lamego) novos painéis.”
Pelo meio ficam prosas para todos os gostos, umas a pedirem que o Ministro da Cultura se retrate, outras a pedirem explicações à administração do Metro, todas a dizerem mal do actual Governo e/ou da Câmara Municipal. Até Manuel António Pina embarcou na onda e escreveu uma crónica, com a qualidade irrepreensível que o caracteriza, clamando contra os “responsáveis”.
Tudo isto porque alguém tresleu as minhas palavras e catapultou para a ribalta, eventualmente com boa intenção, uma guerra que não existe – mas que, naturalmente, está a incomodar profundamente a Maria Keil. Porque é óbvio que nem o actual governo nem a administração em exercício do Metropolitano têm qualquer coisa a ver com o assunto (as obras em causa têm mais de dez anos!) e em parte alguma do texto que, involuntariamente, originou esta “tempestade” se diz que “no Metropolitano de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra”. Essa foi, precisamente, uma leitura (extemporânea) do Samuel, e que acabou por funcionar como o fósforo que ateou a fogueira – acabando o fogo por se estender à imensa floresta dos blogs!
Há com certeza muitos motivos para discordar das políticas do governo e criticar o primeiro-ministro José Sócrates. Mas este não é, em definitivo, um deles. E só por desatenção, má fé ou desonestidade intelectual poderemos continuar a alimentar esta guerra sem sentido. Daí o meu apelo a que, de uma vez por todas, se ponha cobro a este lamentável episódio. De que, pela parte que me toca, desde já me penitencio. Mas que pode ter, pelo menos, a vantagem de nos levar a reflectir sobre o peso das palavras mal interpretadas e sobre as consequências de uma leitura apressada ou negligente daquilo que nos aparece no espaço virtual.
Desde já, as minhas desculpas públicas a Maria Keil.
Chamo a atenção para uma entrevista recente da autora, sobre o assunto:
http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=ABCC6D5A-AA02-4079-A051-ED74082C129C&channelid=00000013-0000-0000-0000-000000000013
segunda-feira, setembro 08, 2008
tempo das palavras ausentes
Acreditava,porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos. Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.Era no tempo em que os meus olhos eram os tais peixes verdes.Hoje são apenas os meus olhos.É pouco, mas é verdade:uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
Eugénio de Andrade
domingo, agosto 24, 2008
Antonio Charrua (1925-2008)
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| Antonio Charrua (Lisboa 6 Maio 1925 - Évora 21 Agosto 2008), foto de Frederico Mira George, 2002 |
O pintor morreu ... e foi ontem a enterrar, em Évora.
Talvez agora lhe (re) conheçam a Obra. É verdade que existem pessoas discretas sem apetência para se colocarem em bicos dos pés e António Charrua pertencia a essa rara estirpe. Cônscio do silenciamento a que o Homem e a Obra haviam sido votados, fez questão de referir em 2001: "paira sobre toda a minha obra uma ideia de morte, mas também a sua recusa".
António Charrua frequentou Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, não tendo terminado o curso. Começa por expôr no Porto, em 1953, e nesse mesmo ano participa na VII Exposição Geral de Artes Plásticas, na SNBA, em Lisboa. Esteve ligado aos "artistas resistentes" e foi sócio fundador da Cooperativa dos Gravadores Portugueses, GRAVURA, em 1956. Foi um dos 50 Independentes que expuseram em 1959 na SNBA. Em 1960 foi galardoado pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde está representado. Dedicou-se à pintura, à escultura, gravura e cerâmica.
Nascido em Lisboa em 6 de Maio de 1925, há muito que se recolhera à casa da família, na velha Rua da Mouraria, em Évora. E foi esta cidade alentejana que em 2005 lhe prestou homenagem instalando-lhe a escultura, - "Diálogo de Ícaro com o Sol" -, numa das rotundas da cidade.
Por sua vez, também o Museu Municipal de Évora havia organizado uma retrospectiva da sua obra, com a edição de um excelente catálogo, em 2001.
A revista Arquitectura e Vida entrevistou-o nessa altura. Invocando André Malraux para afirmar a "livre forma das Vozes do Silêncio", Antonio Charrua confessa:
"(...) o gesto é para mim decorrente da emergência da própria força do acaso que deverá ser assumida, embora nem sempre ele faça lei. Encontro-o tão exacto e irrepetível quanto a própria vida... como quando encontramos alguém no decorrer da existência. Há sempre uma timidez, uma supressão no humano. Nunca dizemos suficientemente as coisas essenciais às pessoas importantes, como por exemplo isto: amo-te."
Por sua vez, também o Museu Municipal de Évora havia organizado uma retrospectiva da sua obra, com a edição de um excelente catálogo, em 2001.
A revista Arquitectura e Vida entrevistou-o nessa altura. Invocando André Malraux para afirmar a "livre forma das Vozes do Silêncio", Antonio Charrua confessa:
"(...) o gesto é para mim decorrente da emergência da própria força do acaso que deverá ser assumida, embora nem sempre ele faça lei. Encontro-o tão exacto e irrepetível quanto a própria vida... como quando encontramos alguém no decorrer da existência. Há sempre uma timidez, uma supressão no humano. Nunca dizemos suficientemente as coisas essenciais às pessoas importantes, como por exemplo isto: amo-te."
Desapareceu um Homem e um Artista singulares. Que sabia não ser amado no seu país.
terça-feira, agosto 12, 2008
Apresento-vos a Elis Regina
Já conhecem o Miró. Hoje apresento-vos a Elis Regina, na foto tentando desalojar o Miró do cesto onde dormia calmamente. É o estilo dela: quando ele está muito sossegadinho no seu canto, ela, ladina e marota, salta para o seu lado e aninha-se à força, usurpando-lhe o espaço e deixando-o incomodado a ponto de o obrigar a mudar de poiso.A Elis tem cinco anos e foi a minha amiga Ana Rebelo quem a foi buscar à "maternidade" e ma trouxe pequenininha e indefesa. Tive a surpresa de a encontrar quando cheguei a casa após uma cirurgia no Hospital dos Capuchos.
Lembro-me de chegar combalida e observar o Miró a um canto, a olhar curioso o novo membro da família, mas sem se aproximar, sem lhe dar confiança; enquanto ela, pequenina, retirada nesse dia à "família" mais parecia um passarinho assustado mas curioso, a cheirar todos os cantos da casa e a passear destemida mesmo nas "barbas" do Miró.
O nome surgiu-me naturalmente: a coragem desta menina acabadinha de chegar a um lugar desconhecido e a forma como se passeava imponente (apesar de cair imenso) frente ao gato da casa, desafiando-o, levaram-me a dar-lhe o nome da Elis Regina, a corajosa cantora-pimentinha que sempre admirei e que fez da sua vida um constante desafio que só a morte travou.
A Elis é uma sobrevivente e enfrenta todos os desafios. Ao contrário do Miró, mete tudo na boca e engole se lhe agrada. Por esse péssimo hábito já me pregou um grande susto. No seu primeiro Natal, e sem que eu desse por isso, engoliu uma fita natalícia. Começou a vomitar apesar do apetite que sempre a animava. Foi operada in extremis quando a fita já se enrolara nos intestinos e os estrangulava. Sobreviveu, felizmente.
Hoje, a Elis e o Miró são grandes amigos e não passam um sem o outro. Foi o melhor que fiz: ter dois meninos para fazerem companhia um ao outro.
E agora, meus amigos, vou de férias!
Até sempre!
sábado, agosto 09, 2008
Parabéns, Maria Keil !

Acreditam que a Maria Keil faz 94 anos? ! Pois é. Vendo-a, ouvindo-a, ninguém acredita. Mas a Maria (como gosta de ser tratada) nasceu a 9 de Agosto de 1914 em Silves cidade que este ano a homenageou com uma sala na nova Biblioteca que perpetuará o seu nome. Uma mulher simples e franzina que se mantém atenta e activa e que até há pouco se deslocava sozinha pela cidade tendo, aos 84 anos, só e de mochila às costas, visitado e calcorreado a Expo98.
Veio aos 15 anos para a Escola de Belas-Artes de Lisboa e em 1933 casou com o jovem arquitecto Francisco Keil do Amaral, de quem teve um filho, o Pitum. Oposicionista desde cedo militou no MUD e nas organizações de Mulheres. Participou nas Exposições Gerais de Artes Plásticas e teve um quadro apreendido pela PIDE, na II EGAP, em 1947. Foi presa em Dezembro de 1953 no aeroporto de Lisboa, com outras pessoas que esperavam Maria Lamas vinda do Congresso dos Povos pela Paz, em Viena, tendo permanecido dois meses em Caxias.
No final dos anos 50 reinventou e relançou a azulejaria portuguesa: decorou as primeiras 19 estações do Metropolitano, gratuitamente. E apenas porque era proibido o figurativo recorreu aos padrões geométricos quebrando a simetria através da cor. Não a incomoda ser conhecida como "a mulher dos azulejos" mas ficou deveras magoada com a forma como as obras de renovação do Metro, há dez anos, lhe destruiram o seu trabalho. Sem contemplações. E porque foi um trabalho não pago viu-se impossibilitada de accionar um protesto legal.
«Não havia meios [financeiros]. Não me pagaram nada. Absolutamente nada. Ofereci as 19 estações que fiz. Tudo aquilo foi um trabalho que fiz no atelier do meu marido, para alegrar as estações que ele estava a desenhar e eram muito pobrezinhas. Ele queria qualquer coisa alegre lá dentro, para não ficar cimento armado e tudo cinzento. Agora não posso refilar por me andarem a picar as paredes porque, de facto, eu dei tudo.» confessa em 1999 a António Melo.
«Houve um arquitecto que veio aqui [a casa] falar sobre o que fizeram na estação dos Restauradores e me disse: "Pois é... Eu percebo que isto seja um grande desgosto para a senhora". Disse-lhe: "Não é um desgosto para mim. Para vocês é que é uma vergonha. Por isso é que veio falar comigo. Vergonha de picar uma parede sem dizer nada. Vergonha e ignorância". (...) «Infelizmente [a destruição] nem foi contra mim. Foi para ser diferente. Para fazer novo, moderno. Isto é que é grave, eles destroem o azulejo porque não lhe dão valor. É um padrão que se repete, logo é artesanato.» (...) «Mas a crítica que faço muito a sério é que o azulejo é uma coisa importante que os modernistas não apreenderam. Mesmo hoje muitos não conseguiram aderir à simplicidade do azulejo, porque aquilo é difícil demais para eles. Transformam-no em papel de embrulho»
Questionada sobre o tempo da resistência ou da democracia, responde:
«A guerra é um mal que é preciso evitar a todo o custo. (...) Há um quadro do Picasso que tem por título "A Guerra". Tem uma força de denúncia, que uma pessoa ao vê-lo sente que guerra, não! Mas "A Paz", que é um outro quadro dele, com meninas a fazer rodinhas e um sol a nascer, também não é vida. Sinto que é preciso procurar aqui uma alternativa a este manso, mole. Na vida é preciso alguma vibração. Ainda temos que encontrar essa vida.»
É um privilégio termos a Maria Keil connosco. Conheçam-na melhor aqui em 2000 e aqui em 2004
quarta-feira, agosto 06, 2008
Hiroshima, nunca mais
Pelas 8:15h do dia 6 de Agosto de 1945, Hiroshima foi arrasada pela primeira bomba atómica lançada pelos Estados Unidos. Paul Tibbets que comandava o B-29, "Enola Gay" (nome de sua mãe) fê-la detonar a 576m acima da cidade, prvocando um clarão que logo se transformou num gigantesco cogumelo de 9.000 m de altura provocando ventos de 640 a 970 km/h eque espalharam material radioativo numa espessa nuvem de poeira. A explosão provocou um calor de cerca de 5,5 milhões de graus centígrados, similar à temperatura do Sol. Foi até hoje a arma que mais mortes provocou num curto espaço de tempo; 221.893 mortos é o total das vítimas reconhecidas oficialmente. Num raio de 2 km, a partir do centro da explosão, a destruição foi total. A grande maioria das vítimas eram civis que nada tinham a ver com a guerra. Todos os sobreviventes ficaram afectados. Milhares de pessoas foram desintegradas e, na falta de cadáver, as mortes nunca foram confirmadas.O comandante Paul Tibbets, falecido recentemente, jamais se arrependeu. Verdade seja dita que Truman também não.
Uma série de fotografias inéditas estão agora a ser divulgadas. Foram encontradas por Robert L. Capp, um militar norte-americano, nos arredores da cidade. Capp doou as fotos em 1998 na condição de apenas serem divulgadas em 2008. Caso tenhas nervos de aço, veja aqui toda a série.
Se não conseguirem aceder acima, visitem este site.
Testemunho dos Jovens de Hiroxima é um livro que reune testemunhos de crianças na altura, com prefácio de Bertrand Russel. Deixo-vos com o depoimento de Masayuki Hayashide, um menino que em 1945 andava na 4ª classe.
Quando a guerra redobrava de violência, o meu irmãozinho e eu fomos evacuados para Kaway no distrito de Takada. O meu pai, a minha mãe e a minha irmã mais pequena ficaram em Senda, Hiroshima. Nessa altura o meu irmão tinha seis anos e eu onze. A minha mãe enviou-nos, a mim e ao meu irmãozinho, muitas cartas.
Todas as vezes que eu lia as cartas, o meu irmãozinho perguntava: «In-chan (mano grande), quando voltamos para Hiroshima?» Fazia com tanta frequência esta pergunta que me feria os nervos, e por vezes, repreendia-o. Relembrando isto, compreendo que era uma coisa pouco razoável da minha parte e lamento-o agora. Ele desejava tanto ir para casa que o meu avô por fim cedeu e uma semana antes do lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima ele levou-o aos meus pais. Ao vê-lo partir, invejei-o. Agora, sinto pena de mim mesmo, pois era o irmão mais velho.
Depois disto, no dia 6 de Agosto, no momento em que iam começar as aulas e a campainha tocava para a entrada, um relâmpago e Bum!! ouviu-se um estrondo terrível. As janelas de vidro da escola estilhaçaram com violência e no céu para leste uma nuvem de fumo branco inflamou. Fiquei assustado e escondi-me no abrigo da escola. Momentos depois, como não ouvisse mais ruídos, saímos cuidadosamente de rastos para observar. Começou a dizer-se que fora atacado o aeródromo de Kamine.
Uma manhã bem cedo, quatro ou cinco dias depois, o meu avô arranjou lugar num camião e partiu para Hiroshima. A avó e eu tínhamos acabado de cear e ido para a cama quando ouvimos, já meio adormecidos, bater à porta. Quando a avó abriu o meu avô entrou. Segundo a sua história, Hiroshima estava completamente em ruínas. Quando foi a Senda, encontrou o meu pai apenas com uma beliscadura no braço, mas a mãe tinha o corpo todo queimado, bem como o meu irmão e a minha irmã; mas estes estavam já mortos.
Na manhã seguinte, a avó e eu fomos de autocarro a Kabe e dali partimos a pé para Yokogowa. Quando lá chegámos, não quis acreditar que o que os meus olhos viam fora Hiroshima. Mal conseguíamos perceber onde nos encontrávamos. Por fim, seguindo as linhas dos eléctricos chegámos a Senda. A casa estava totalmente destruída. Uma pessoa que vivera perto de nó aproximou-se e disse-nos onde se refugiara a mãe e dirigimo-nos para o parque de Yamanaka.
A mãe estava completamente prostrada. O seu cabelo caíra quase todo. Tinha o peito em chaga e de um buraco nas costas saiam e entravam vermes. O local encontrava-se cheio de moscas e mosquitos e um odor nauseabundo empestava tudo. Para onde quer que olhasse só via pessoas imóveis. A partir da noite em que chegámos, a mãe piorou e parecia que a víamos enfraquecer diante dos nossos olhos. Como durante toda a noite tivera dificuldade em respirar, fizemos tudo o que pudemos para a aliviar. Na manhã seguinte eu e a minha avó cozinhámos a açorda. Quando a levámos à mãezinha ela soltava o último suspiro. Quando pensámos que deixara de viver, ela respirou profundamente ainda uma vez e não voltou mais a respirar. Eram 9 horas da manhã de 19 de Agosto. No local do Hospital da Cruz Vermelha Japonesa, o odor dos corpos que cremavam era intenso. A dor demasiada fez-me parecer um estranho a mim mesmo, e a despeito da minha dor não consegui chorar. Era como se o meu irmãozinho tivesse vindo para Hiroshima de propósito para morrer. Por que não o retive uma semana mais? A minha pena é maior do que a posso suportar. O meu irmãozinho e a minha irmã já estavam ambos mortos antes de eu voltar.
Depois o meu pai e eu levámos uma vida difícil. Sentimo-nos sós sem a mãe e os pequenos. Mesmo agora, quando penso neles, parece-me ouvir o meu irmãozinho chamando «In-chan!» (mano grande) e a minha irmã «Ah-chan!» (mamã).
Podem imaginar que vida tão dura o pai e eu temos levado? E quantas pessoas foram ainda mais infelizes do que nós? Eu, que conheço os malefícios da bomba atómica, acredito que devemos fazer o possível para que não haja mais guerras.
Rezo para que toda a gente recorde o dia 6 de Agosto, de maneira que haja paz eterna.
Todas as vezes que eu lia as cartas, o meu irmãozinho perguntava: «In-chan (mano grande), quando voltamos para Hiroshima?» Fazia com tanta frequência esta pergunta que me feria os nervos, e por vezes, repreendia-o. Relembrando isto, compreendo que era uma coisa pouco razoável da minha parte e lamento-o agora. Ele desejava tanto ir para casa que o meu avô por fim cedeu e uma semana antes do lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima ele levou-o aos meus pais. Ao vê-lo partir, invejei-o. Agora, sinto pena de mim mesmo, pois era o irmão mais velho.
Depois disto, no dia 6 de Agosto, no momento em que iam começar as aulas e a campainha tocava para a entrada, um relâmpago e Bum!! ouviu-se um estrondo terrível. As janelas de vidro da escola estilhaçaram com violência e no céu para leste uma nuvem de fumo branco inflamou. Fiquei assustado e escondi-me no abrigo da escola. Momentos depois, como não ouvisse mais ruídos, saímos cuidadosamente de rastos para observar. Começou a dizer-se que fora atacado o aeródromo de Kamine.
Uma manhã bem cedo, quatro ou cinco dias depois, o meu avô arranjou lugar num camião e partiu para Hiroshima. A avó e eu tínhamos acabado de cear e ido para a cama quando ouvimos, já meio adormecidos, bater à porta. Quando a avó abriu o meu avô entrou. Segundo a sua história, Hiroshima estava completamente em ruínas. Quando foi a Senda, encontrou o meu pai apenas com uma beliscadura no braço, mas a mãe tinha o corpo todo queimado, bem como o meu irmão e a minha irmã; mas estes estavam já mortos.
Na manhã seguinte, a avó e eu fomos de autocarro a Kabe e dali partimos a pé para Yokogowa. Quando lá chegámos, não quis acreditar que o que os meus olhos viam fora Hiroshima. Mal conseguíamos perceber onde nos encontrávamos. Por fim, seguindo as linhas dos eléctricos chegámos a Senda. A casa estava totalmente destruída. Uma pessoa que vivera perto de nó aproximou-se e disse-nos onde se refugiara a mãe e dirigimo-nos para o parque de Yamanaka.
A mãe estava completamente prostrada. O seu cabelo caíra quase todo. Tinha o peito em chaga e de um buraco nas costas saiam e entravam vermes. O local encontrava-se cheio de moscas e mosquitos e um odor nauseabundo empestava tudo. Para onde quer que olhasse só via pessoas imóveis. A partir da noite em que chegámos, a mãe piorou e parecia que a víamos enfraquecer diante dos nossos olhos. Como durante toda a noite tivera dificuldade em respirar, fizemos tudo o que pudemos para a aliviar. Na manhã seguinte eu e a minha avó cozinhámos a açorda. Quando a levámos à mãezinha ela soltava o último suspiro. Quando pensámos que deixara de viver, ela respirou profundamente ainda uma vez e não voltou mais a respirar. Eram 9 horas da manhã de 19 de Agosto. No local do Hospital da Cruz Vermelha Japonesa, o odor dos corpos que cremavam era intenso. A dor demasiada fez-me parecer um estranho a mim mesmo, e a despeito da minha dor não consegui chorar. Era como se o meu irmãozinho tivesse vindo para Hiroshima de propósito para morrer. Por que não o retive uma semana mais? A minha pena é maior do que a posso suportar. O meu irmãozinho e a minha irmã já estavam ambos mortos antes de eu voltar.
Depois o meu pai e eu levámos uma vida difícil. Sentimo-nos sós sem a mãe e os pequenos. Mesmo agora, quando penso neles, parece-me ouvir o meu irmãozinho chamando «In-chan!» (mano grande) e a minha irmã «Ah-chan!» (mamã).
Podem imaginar que vida tão dura o pai e eu temos levado? E quantas pessoas foram ainda mais infelizes do que nós? Eu, que conheço os malefícios da bomba atómica, acredito que devemos fazer o possível para que não haja mais guerras.
Rezo para que toda a gente recorde o dia 6 de Agosto, de maneira que haja paz eterna.
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