quarta-feira, novembro 26, 2008

Casa da Achada - Centro Mário Dionísio

EXPOSIÇÃO 28 Novembro das 15h - 20h
LEILÃO d'ARTE, 29 Novembro, a partir das 15h
Todo o produto do leilão reverterá para o arranque do
Centro Mário Dionísio

A Casa da Achada já foi adquirida pela família.
O projecto é do Arqtº Hestnes Ferreira.
Os artistas plásticos doaram as suas obras.

Se todos fizermos um pequeno esforço em breve teremos o espólio de Mário Dionísio à disposição dos amantes da arte e da cultura!

domingo, novembro 23, 2008

1º Colóquio sobre Francisco de Paula Oliveira/"Pavel"/Antonio Rodríguez no seu Centenário (1908-2008)

Francisco de Paula Oliveira / Pavel / António Rodriguez (1908-1993)

Quando perfazem cem anos do seu nascimento (1908-2008) e com a presença da filha, Zínia Rodríguez, realizou-se ontem um colóquio de homenagem a Francisco de Paula Oliveira / "Pavel" /António Rodríguez, na Biblioteca-Museu República e Resistência.  Ao mesmo tempo foi inaugurada uma pequena exposição com os livros do autor que conseguimos reunir.
Deixo-vos a comunicação por mim apresentada focando o Homem de Cultura; sobre o Resistente Antifascista falou o investigador Luis Carvalho, que comigo organizou o evento.


"PAVEL"/ANTONIO RODRIGUEZ, O HOMEM DE CULTURA

«Lisboa, a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido. (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho»  (carta a Stella Piteira Santos, 28.12.1988)

Em Outubro de 1976 a Fundação Calouste Gulbenkian acolheu a exposição "Máscaras Mexicanas" e a Secretaria de Estado da Cultura patrocinou a vinda de Antonio Rodríguez a Lisboa para proferir três conferências sobre arte mexicana, de que era especialista. Sabia-se que António Rodríguez e Pavel eram a mesma pessoa desde o verão de 74 quando a revelação foi feita por Francisco Ferreira, o Chico da CUF, à revista do Expresso. Sabia-se que o mítico dirigente comunista dos anos trinta se refugiara no México, adoptara uma nova identidade e ascendera às elites culturais daquele país, sendo considerado o maior especialista em Muralismo Mexicano. Conhecia-se ainda a alegria com que recebera a notícia da revolução do 25 de Abril e como desejava voltar ao seu país.

Quando a 3 de Novembro proferiu a primeira das conferências na Fundação Gulbenkian dissertando brilhantemente sobre a estética muralista, essa arte que os pintores mexicanos criaram com o povo e para o povo, se por um lado ficou provada a inteligência superior deste antigo arsenalista, por outro, sobressaiu a dificuldade que tinha já em lidar com a língua materna.

Antonio Rodríguez teria oportunidade de apresentar desculpas pelo facto — aliás, mal recebido por alguns que facilmente se distraem do essencial — de se expressar em castelhano na sua pátria, afirmando, emocionado, mas com elegância e lucidez, num jantar em sua honra: «pode-se falar mal uma língua estrangeira, mas não se pode falar mal a nossa própria língua»[i].

A verdade é que Francisco de Paula Oliveira, nascido cidadão português, viveu em Portugal até aos 30 anos, sendo os últimos 10 já na clandestinidade, como Pavel. O restante mais de meio século deste homem excepcional, que viria a falecer em 1993, aos 84 anos, foram vividos enquanto António Rodríguez, cidadão mexicano, com família constituída nesta sua segunda pátria e perfeitamente inserido na sociedade do país que o acolheu, como confessa ao Jornal Novo em 76: «após a perturbação dos primeiros tempos, liguei-me imediatamente ao povo mexicano: estudando a sua história, a sua cultura, a sua arte e fazendo meus os seus problemas.» [ii]

Entre a data da chegada ao Mexico (1939) e a data da primeira vinda a Portugal (1976) mediaram praticamente 40 anos durante os quais pouco ou nada falou português - apenas o fazia com o amigo Augusto, o enfermeiro que o ajudou a fugir do Aljube e com quem estabeleceu uma amizade que só a morte quebrou -,  enquanto o castelhano se tornou na língua adoptada quotidianamente e sobretudo na ferramenta de trabalho imprescindível para a profissão da escrita, que escolhera.

Mas o que importa salientar é que a cultura portuguesa esteve sempre presente na vida de António Rodríguez; nos seus hábitos pessoais (em casa comia-se bacalhau e cozinhavam-se receitas portuguesas, como portuguesas eram as canções que ensinava aos filhos), tal como nas referências  lusas e ibéricas que encontramos em livros seus como em «El Quijote, mensaje oportuno» ou em «Saudade», opúsculo escrito após a primeira viagem a Lisboa.

Profundamente reconhecido ao país que o acolheu, dirá então, na entrevista referida: «cheguei [ao México] com 31 anos, pronto a renascer e estou muito contente por ter encontrado um país difícil, cheio de problemas, que me deu a possibilidade de realização como homem e, dentro das minhas limitações, de o servir também» porque, afirma mais adiante, «o que interessa é lutar, não importa o sítio».[iii]

Estivera duas semanas em Lisboa. Tinha cerca de 70 anos e na altura escrevia em vários periódicos, era professor de jornalismo na Universidade Nacional Autónoma, fundara e dirigia uma revista cultural de grande prestígio editada pelo Museu Tecnológico da Cidade do México, (do qual fora director durante 11 anos) tinha vários ensaios entre mãos e recebera já vários prémios literários dentro e fora do país. Era ainda promotor e consultor da prestigiada e internacionalmente conhecida Galeria de Arte Estela Shapiro.

Ao assinalarmos os cem anos do seu nascimento (29.10.1908) uma pergunta se nos impõe: como foi possível a alguém que nasceu numa família humilde, começou a trabalhar aos 11 anos, foi operário arsenalista, autodidacta, sem quaisquer estudos académicos, tornar-se na grande referência cultural que todos reconhecem, mercê apenas do esforço individual? Quais as motivações e as influências que moldaram o seu carácter e o seu percurso de homem e de esteta?

Em 1988, ao evocar a sua cidade natal que há pouco visitara pela segunda e última vez,  Pavel refere-se-lhe assim:  «Lisboa a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho»[iv], fornecendo-nos, desta forma, a chave para a compreensão do fenómeno Pavel/António Rodríguez.

Se, como ensina Bento de Jesus Caraça, «a vida de todo o homem é uma construção permanente, feita das acções recíprocas que entre ele e o meio se desenvolvem»[v], podemos então dizer que os primeiros 30 anos de vida de Francisco de Paula Oliveira/Pavel foram determinantes para a formação cultural e cívica do futuro Antonio Rodríguez, tal como o «renascimento» mexicano a que se dispôs, e que não é mais que a integração e a sintonia com os homens, a arte e a sociedade daquele tempo e lugar, forjaram o Homem de Acção e de Cultura em que se transformou: uma vida em dois tempos cruzada de múltiplas vivências.

Para os jovens da geração de Pavel, nascidos com a República e envolvidos socialmente, a Educação e a Cultura eram causas dominantes e objectivos de vida. A educação e a cultura como formas de realização pessoal e factores de progresso da sociedade impunham-se-lhes como aquisição paralela à da consciencialização política.

Quando Pavel afirma que «o Alfeite era uma autêntica universidade»[vi], está a dizer-nos que os jovens arsenalistas, de uma maneira geral, sentiam a cultura como um dever de classe e tudo faziam para se cultivarem, nomeadamente apostando no convívio, na camaradagem e na solidariedade, e na troca de conhecimentos comuns, o que era, e é também uma forma rica e generosa de aprendizagem. Atentemos nas palavras de Pavel: «no Arsenal da Marinha fui, aliás como quase todos os meus colegas, um estudioso. O Arsenal funcionava um pouco como uma elite operária e foi aí que tive contacto com a literatura, com a filosofia e com os grandes problemas do nosso tempo. Os idiomas russo e francês foi lá que os aprendi e também foram esses contactos que me levaram a frequentar, à noite, escolas industriais e comerciais apenas para receber as aulas de literatura».[vii]

É fácil perceber que a estes jovens não interessava uma cultura enciclopédica mas sim uma cultura universalista, que passava por conhecer e assimilar o pensamento daqueles a quem Bento de Jesus Caraça chamou as «grandes figuras morais contemporâneas» como Romain Rolland, Maximo Gorki, Malatesta, Guerra Junqueiro, Émile Zola, Dostoievsky, Victor Hugo, Anatole France, Pasteur, Einstein, Tolstoi,[viii] mas também Durer, Camões, Cervantes e muitos outros que a Universidade Popular Portuguesa, sob o lema «A ciência e a Cultura ao alcance de todos» tanto se empenhou em divulgar nos anos 20/30, em acções concertadas com os sindicatos (entre os quais o dos arsenalistas) e outras agremiações populares, até se ver cerceada pela censura e ficar restringida às próprias instalações.

É muito provável que Pavel e Caraça tenham contactado em diversas ocasiões, nomeadamente no Sindicato dos Arsenalistas. Mas quando em 1937 Pavel regressa da União Soviética e dirige o Partido vai obrigatoriamente ter contactos com Caraça, directamente, ou através de Alberto Emílio de Araújo, membro do Secretariado. Vai sobretudo contactar com o seu pensamento cívico-político-cultural, assimilando essa «nova cultura política»[ix], como lhe chamou Tengarrinha, ou seja, a política de unidade então amplamente ensaiada com a Frente Popular Portuguesa, constituida em Outubro de 35 e extinta em 38, e para a qual o contributo do Prof. Caraça foi decisivo.

Ainda no âmbito do movimento frentista Pavel contacta com diversos intelectuais fora do país, a acreditar numa intervenção que faz na reunião da IC em Abril de 36, onde refere: «em Paris... falei com um intelectual que é considerado o maior matemático que temos em Portugal. Ele propôs-se aderir ao Partido Comunista porque diz que é a única força que luta contra o fascismo».[x] Tudo indica tratar-se de Aniceto Monteiro o matemático que em 1936 se doutorou em Paris, no Instituto Henri Poincaré, com o estudo "Sur l'Activité des Noyaux de Freedholm”.

Conforme conta nas notas autobiograficas, foi nas enfermarias da prisão e nos sanatórios por onde passou, sobretudo no Caramulo onde permaneceu um ano, devido a problemas pulmonares que só curou na União Soviética, que Pavel estudou os teóricos marxistas e aprendeu a língua russa.

Na célebre conferência «A Cultura Integral do Indivíduo», de 1933, Bento de Jesus Caraça enunciara a noção de Homem Culto, e passamos a citar:

"O que é o homem culto? É aquele que: 1º — Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence; 2º — Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano; 3º — Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida" [xi]

Este enunciado veio a tornar-se no paradigma de sucessivas gerações. Pavel, para além de um jovem muito estudioso e de grande curiosidade intelectual, era um leitor compulsivo e amante das artes. Maria Nogueira Soares, sua primeira companheira e com quem tem um filho em 1928, revelou à revista Cambio16, que já nessa altura «todo o dinheiro que apanhava era para comprar livros»[xii]. Por sua vez, Pedro Rocha, um jovem camarada com quem partilha a direcção e organização das Juventudes Comunistas, refere nas suas memórias: "às vezes, nas horas vagas [da actividade política], líamos algumas páginas de bons autores. Anatole France era um dos autores predilectos de Pavel que conhecia bastante bem o francês e lia, em voz alta, passagens de Thaïs e da Ilha dos Pinguins, no original. Eram horas de distracção para os nossos espíritos bem atribulados"[xiii]. Também Edmundo Pedro, que o conheceu ainda muito jovem, dá o seguinte testemunho: «interessava-se pela história, pela literatura, pela pintura, pela música. Ele, como outros operários do Arsenal, assistia naquele tempo, regularmente, às temporadas de ópera do Coliseu dos Recreios (…) era dotado não só de uma brilhante inteligência como de uma desmedida vontade de se cultivar»[xiv] Carolina Loff, que com ele conviveu na União Soviética refere-se-lhe como «um autodidacta de raras capacidades. Um homem extremamente culto» que «passava o tempo a estudar e a ler». [xv]

A influência da literatura em Pavel projecta-se na própria vida. A admiração por Emile Zola fá-lo dar ao primeiro filho, nascido em 1928, o nome Germinal, título de um dos livros do escritor francês; enquanto a que nutre por Anatole France não pode desinserir-se da atitude digna e corajosa que este tomou no caso Dreyfus, colocando-se ao lado de Zola e devolvendo ao governo francês a sua Legião de Honra, quando a mesma foi publicamente retirada àquele escritor. Por sua vez, é ao protagonista de A Mãe, de Máximo Gorki, que vai buscar o pseudónimo «Pavel», que adopta para a vida clandestina.

«Sempre utilizei o meu tempo livre para visitar museus, para tomar contacto com outras culturas e outros interesses»[xvi], diz em 1976. Os dois anos que passou na União Soviética tiveram uma importância grande para o seu desenvolvimento cultural, pois, segundo palavras suas, foi-lhe dado «conhecer a literatura, a pintura e a cultura russas» e, como «dedicava grande parte do seu tempo ao estudo, em particular de obras de arte» e frequentemente encontrava interlocutores cultos com quem podia conversar, fácil é perceber como se lhe foram desvendando horizontes até aí interditos, como, aliás, estavam interditos à generalidade dos portugueses pelo grande atraso das nossas artes.

Se somarmos a isso as idas ao Prado quando visitou Madrid em 1932, e os meses que passou em Paris, em 1936, com Álvaro Cunhal, e que aproveita para — e, mais uma vez, o citamos — «ir ao Louvre, esse verdadeiro templo do conhecimento»[xvii] e aprofundar esta área de interesse que se lhe impõe cada vez com maior acuidade, podemos concluir que, no regresso a Portugal em 1937, Pavel estava já a caminho do Homem de Cultura que mais tarde veio a ser. Muito próximo já, sem o saber, do futuro Antonio Rodríguez.

«Escritor, jornalista, combatente social, professor e crítico de arte» — assim é referido Antonio Rodríguez (Portugal 1908, México 1993) no Dicionário dos Escritores do México, um cidadão português naturalizado mexicano. Ele não ficou para a História como o cidadão espanhol do qual se viu obrigado a tomar o nome em 39. Rodríguez nunca deixou de ser português, o jovem revolucionário que chegou ao México com vontade de «renascer» mas sem abdicar de si. Esta postura reflecte a verticalidade de um homem que confessa ter-se mantido «fiel aos princípios da juventude» que nunca esqueceu as suas raízes e que «voltaria a fazer tudo igual»[xviii].

Do conjunto de obras que o dicionário enuncia, apenas uma nos foi dado ler: «El Quijote, mensaje oportuno», um pequeno/grande livro editado em 1947, que recebeu o primeiro prémio de Ensaio e teve, desde então, inúmeras edições. Trata-se de um livro essencialmente didáctico, imbuído dos mais nobres ideais de paz e concórdia entre os homens e que, por isso mesmo, o México fez editar em livro de bolso, na Biblioteca Jovem, uma colecção patrocinada pelo Fundo de Cultura e destinado à juventude daquele país. Nele, o autor mostra a mensagem profunda que se oculta sob a aparência superficial e galhofeira do livro. A esperança numa sociedade nova que os protagonistas colocam no passado mas que só o futuro pode concretizar. Uma sociedade anticapitalista de nobres ideais e onde os Homens se aceitem e solidarizem. Uma sociedade justa.

Aqui, no seu país, Antonio Rodríguez é desconhecido. As fontes de que dispomos são nulas. Apenas existe na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian a Historia da Pintura Mural no México — El Hombre en Llamas — uma oferta sua àquela instituição, em 76. Trata-se de uma obra monumental, de excepcional fôlego e que a Gulbenkian teve a amabilidade de nos emprestar para constar da exposição que fizemos sobre o autor. Uma preciosidade para os investigadores que se interessam pela arte do muralismo, uma expressão que entre nós não tem sido valorizada.

Os restantes livros, alguns também aqui expostos, estão nas mãos de particulares, inacessíveis, portanto, a quem pretenda conhecer o pensamento e a arte de Antonio Rodríguez. Seria de extrema importância para a cultura portuguesa que na Biblioteca Nacional de Portugal existissem os seus livros. E daqui faço um apelo à família Rodríguez, a sua filha Zinia, para que, em conjunto com aquela instituição portuguesa tudo faça para trazer alguns desses livros para o nosso país. Um apelo igualmente ao Ministro da Cultura: o pensamento de Antonio Rodriguez tem que ser dado a conhecer aos portugueses. Há que investir nele. É uma questão de cultura e de justiça.

De justiça seria também que os editores portugueses apostassem na tradução e edição dos seus livros. À nossa historiografia artística fazem falta os estudos de Rodríguez na área. Como fazem falta os seus ensaios, os seus estudos históricos e antropológicos, o pensamento universalista que sempre o animou e fez ombrear com os que sofrem e lutam numa inequívoca opção social. E por que não as crónicas e artigos anti-salazaristas que enquanto jornalista não deixou de escrever e que o levou a figurar no index da embaixada de Portugal no México?

Neste colóquio iremos ouvir o próprio Pavel/A. Rodríguez numa gravação feita em 1988 quando pela segunda e última vez esteve em Portugal. Iremos escutar uma autêntica lição sobre a Arte Mural mexicana. Dir-nos-á da forma como esta se lhe revelou. Como se surpreendeu ao encontrar nas paredes dos edifícios oficiais de um país capitalista as lutas, as dores e as alegrias dos operários e camponeses mexicanos. E de como o seu sentido estético e humanista se solidarizou de imediato com essa expressão artística. Até então, a arte popular mexicana era ignorada. Os historiadores locais não a valorizavam. Foi Pavel, um ser humano de rara sensibilidade e com uma base ideológica que o predispunha a isso, quem primeiro a entendeu. Ele foi o teorizador e o arauto de uma estética que exaltava o povo. Valorizou-a e divulgou-a. Fez com que os mexicanos se orgulhassem dela. Mas, melhor que eu, disto vos falará o Mestre Antonio Rodríguez. *(cassete emprestada por Julio Pomar quando os dois se encontraram para serem entrevistados e falarem de Arte)

Ainda na sua primeira vinda a Portugal, em 76, quando uma jornalista lhe perguntou se não tinha por vezes "saudades do Pavel", respondeu: «Não. Porque o que interessa é lutar, não importa o sítio. E sempre há algo para defender e tempo para militar. Você sabe que escrever implica isso».[xix]

Mas sentia saudades, sim. Não fora impunemente que Antonio Rodriguez se reencontrara com Francisco de Paula Oliveira/Pavel. A saudade, esse sentimento tão genuinamente português que, agora mais que nunca se lhe impunha, leva-o a reflectir sobre a fenomenologia saudosista e a escrever um pequeno livro – Saudade – , que oferece aos amigos no Natal de 1978 «como uma mensagem de esperança». Essa mesma «esperança da qual a Saudade tanto se alimenta»[xx], numa dualidade simultaneamente amarga e doce como dual e agridoce foi a vida e a pessoa de Pavel/Antonio Rodriguez.

Portugal, o país deste Homem notável, desconhece-o. É obrigatório conhecê-lo.

Julia Coutinho

Convite para o 1º Colóquio sobre Pavel: o resistente antifascista e o homem de cultura





















[i] O Jornal 26.11.76
[ii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[iii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[iv] AR, carta a Stela Piteira Santos, 28.12.1988
[v] BJC, carta a Carlos Amaro, 3 Set 1939
[vi] AR, Sábado 19.11.1988, p.36
[vii] AR, Sábado 19.11.1988, p.36
[viii] BJC, entrevista a Republica 24.3.1933
[ix] JM Tengarrinha, centenário de Bento de Jesus Caraça, 2001
[x] ICS – F. 495, OP.18, D.1099 / AHS. DOC. 110, MAÇO 30, CAIXA 2
[xi] BJC, Conferências e Outros Escritos, 1978, p.51
[xii] Revista Cambio16, de 4.10.1993
[xiii] Pedro Rocha, Escrito com Paixão, 1991, Caminho, p. 39
[xiv] Edmundo Pedro, Memorias, I volume, Âncora, p.99
[xv] Revista Cambio16, de 4.10.1993
[xvi] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[xvii] AR, Sábado, 19.11.1988
[xviii] AR, Sábado, 19.11.1988
[xix] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[xx] AR, Saudade, Cidade do Mexico, edição de autor, 1977/78.







sexta-feira, novembro 21, 2008

No centenário de Francisco de Paula Oliveira / «Pavel» / Antonio Rodríguez




Amanhã, 22 de Novembro, às 16 horas, no Museu Republica e Resistência (cimo Rua da Beneficência), vai ser homenageado este lutador antifascista, vítima da ditadura de Salazar que, no México onde se exilou, veio a ser um prestigiado professor, escritor e critico de arte, especialista em Muralismo.
Através de gravação áudio, ele próprio nos dirá desse percurso

Apresentarei uma comunicação que versará o Homem de Cultura que foi Antonio Rodríguez.

 

domingo, novembro 16, 2008

João Abel Manta: Caprichos e Desastres

É tão raro podermos ver as obras deste artista, que podemos considerar um autêntico privilégio esta Exposição, precisamente no ano em que Mestre João Abel Manta completa 80 anos de vida e 60 que foi preso pela PIDE.

18 Nov, 3ª feira, 19 horas

domingo, novembro 02, 2008

A tanto chegava a abjecção!

(uma visita aos arquivos da PIDE/DGS)
Ali estava ele na ampla sala de leitura da nova Torre do Tombo, à espera que lhe trouxessem os documentos requisitados. Consultava, finalmente, o seu processo nos arquivos da PIDE/DGS. (...)
Pessoalmente não tinha nenhum prazer em regressar a esse mundo da PIDE/DG, que só muito palidamente aflora nos seus arquivos.
Sim, lá não estão: o suplicio da tortura, as dores dos espancamentos, as alucinações da privaçao do sono, a angústia da incomunicabilidade sem fim, o medo dos interrogatórios feitos por uma roda de esbirros, o pesadelo dos longos anos de prisão, a permanente incerteza do dia de amanhã para quem caia nas garras dos torcionários e para os que viviam permanentemente perseguidos por eles, como acontecia com os clandestinos.
Bastou-lhe, no entanto, o propósito de consultar os arquivos, as formalidades para proceder à consulta e o período de espera que estava agora a viver, para que tudo isto lhe viesse a pouco e pouco à memória. Nunca tivera pressa de saber o que se dizia lá a seu respeito, ao contrário de outros que correram à Antonio Maria Cardoso «para consultar a ficha» (...) talvez por que tinha a consciência absolutamente tranquila quanto ao seu comportamento sempre que enfrentara aquela máquina de terror e de desonra e, além disso, não tinha a menos espécie de vocação masoquista. Ou seria antes por que se entregou de alma e coração à revolução, muito mais virado para o futuro que se queria construir, do que para o passado que se devia soterrar para sempre?
(...)
A primeira peça que o interessou foi um volume que constituia o auto das apreensões feitas pela Pide de uma das vezes que lhe assaltara a casa. Lá estavam alguns raros jornais e folhetos clandestinos, pois tinha o cuidado de não os guardar depois de lidos, mas muitos manifestos, declarações, apelos, tarjetas, selos dos movimentos oposicioistas, legais e semi-legais, rascunhos de artigos da sua autoria, versando matéria mais ou menos política. Achou óbvias estas apreensões. A sua indignação começou quando deparou com um diploma de curso, cuja falta lhe causara os maiores transtornos profissionais. Procurara-o por toda a parte, inclusivamente em casa dos pais e dos avós, nunca pensando que pudesse ter sido objecto de apreensão pela PIDE.
- Com que direito! - interrogou-se interiormente, mas era tanta a veemência da sua pergunta que deve ter produzido alguns sons, pois vários rostos se viraram, com expressa reprovação, na sua direcção.
O espanto indignado que começara a possui-lo não cessava de aumentar à medida que ia encontrando cartas pessoais da mulher, da mãe, dos amigos tratando questões familiares, as mais pessoais e íntimas, mesmo sobre doenças, partilhas, situações afectivas - tudo o que a devassa pidesca abocanhava.
- Com que direito? - Era a pergunta que lhe vinha das entranhas e que tinha de sufocar para não perturbar os restantes leitores.
Não conseguiu ficar sentado, quando, entre muitas outras fotografias, apreendidas, deparou com vários retratos do irmão, já então falecido, dispostos numa fila, com vistas de vários ângulos, como a indicar que se tratava de um elemento suspeito.
(...)
Veio-lhe então às mãos uma peça que continha um conjunto de cartas de «bufos» com denúncias sobre uma viagem que em certa altura fizera ao Algarve, para visitar os pais e outros familiares. Davam informações precisas das terras onde tinha estado, o que fizera, pessoas com quem se tinha encontrado.
Um das cartas informava da descida do Guadiana que tinha feito num barco de carreira - o «gasolina» - que então estabelecia ligação entre Mértola e Vila Real de Sto Antonio, acostando a Alcoutim e parando ao largo de outras povoações ribeirinhas. Referia, velhacamente, como «contactos», as conversas que tivera a bordo com diferentes pessoas, indo ao ponto de identificar algumas delas. Nunca podia ter imaginado que fosse seguido com esta minúcia pelas forças policiais. Os «bufos» algarvias deviam ter sido alertados por ordens de Lisboa.
- Caramba, como o nosso país estava minado! - Comentou para si.
Viu então a última carta do conjunto. Era um «bufo» que o denunciava como tendo participado e dirigido uma reunião em Aljezur. Tratava-se de uma rematada mentira, não estivera em Aljezur, nem de lá se aproximara, nessa viagem.
Ali estava a confirmação de como os «bufos» ao serviço da PIDE, além de denunciarem o que escutavam, observavam ou que de qualquer forma conheciam, faziam também denúncias que sabiam ser falsas, chegando a enganar os comandos repressivos, por razões de pura vingança contra os denunciados ou para mostrarem serviço, os que recebiam subsidios regulares, ou ainda para ganharem mais algum, os que eram pagos à peça, por denúncia apresentada.
- A tanto chegava a abjecção! (...)


Carlos Brito, águas do meu contar, campo das letras, 2002




quarta-feira, outubro 29, 2008

No centenário de Francisco de Paula Oliveira, «Pavel» (1908-2008)




Francisco de Paula Oliveira Junior nasceu em Lisboa, freguesia de Santa Catarina, em 29 de Outubro de 1908. Do pai herda o nome e os ideais anarquistas que o levam a ingressar na Federação das Juventudes Sindicalistas, que abandona após a revolta de 7 de Fevereiro de 1927, conforme nos refere Emidio Santana nas suas Memórias. Tudo leva a crer que se tenha de imediato aproximado do Partido Comunista Português onde, nos anos subsequentes, vai liderar e organizar as Juventudes Comunistas, tendo fundado "O Jovem" e o "Juventude Vermelha". Também sua mãe, Maria Adelaide, vem a ser uma dedicada militante comunista. Ao personagem central de A Mãe, de Gorki, irá buscar o pseudónimo que adopta: "Pavel".

Operário no Arsenal de Marinha desde os 11 anos, onde trabalha com Bento Gonçalves, a polícia política acreditava que a Pavel se devia muito do impulso organizativo dos arsenalistas no seu Sindicato, um dos raros de então a fugir à orbita anarquista. Simultaneamente, como todos os operários navais, estuda à noite.

Breve passa à clandestinidade, vindo a ser um dos principais dirigentes das Juventudes e, depois, do PCP, a cujo Secretariado vai pertencer com José de Sousa e Bento Gonçalves tendo, após a prisão e deportação destes para o Tarrafal, ascendido a principal dirigente. Fez várias viagens à URSS tendo aí permanecido como delegado do PCP junto da Internacional Comunista (IC) sob o nome de Fernando Queiroz.

Era um homem de formação humanista, de grande inteligência e cultura e com grande facilidade de aprendizagem, conforme testemunhos coevos. Quando foi preso pela primeira vez, em 1932, e devido às lesões pulmonares de que sofria, colocaram-no num sanatório. Aí, sabendo que em breve seguiria para representante do partido junto da IC, na URSS, aproveitou para estudar, sozinho, a língua russa. E conseguiu-o. Falava fluentemente russo, espanhol e francês. Em 1935 interveio, com Bento Gonçalves, como delegados do PCP ao VII Congresso da IC realizado na Casa dos Sindicatos em Moscovo. Bento Gonçalves falou em português enquanto Pavel proferiu o seu discurso em francês, durante 24 minutos (JPP,vol.II,p.125). Na URSS tratou finalmente dos problemas pulmonares, refez a vida e teve um filho a quem chamou Pavel Queiroz, os dois pseudonimos que adoptara.

No regresso a Portugal e após um ano de intensa actividade partidária é preso em 10 de Janeiro de 1938 na sua casa clandestina - Rua da Beneficência 180-2º/3º - pelo tenebroso José Gonçalves, na altura ainda Agente de Terceira, da Secção de Defesa Política e Social, da PVDE. Resiste à polícia com troca de tiros, e também aos bombeiros que acorreram devido ao incêndio que propagara aos armários da casa, no último andar, na tentativa de ganhar tempo e destruir o máximo de documentação comprometedora, uma vez que ali funcionava a redacção do Avante!, o que conseguiu.

Encerrado no Aljube consegue passar para a enfermaria. Alicia então um jovem enfermeiro - Augusto Rodrigues Pinto - que havia pertencido às Juventudes Comunistas e o ajuda num plano de fuga na condição de com ele seguir para a União Soviética. Apoiada pelo partido, a espectacular evasão da enfermaria do Aljube ocorre no dia 23 de Maio de 1938 e nela estão envolvidos Stella e Fernando Piteira Santos a quem ficará grato para sempre. Leva consigo o enfermeiro e um outro jovem comunista preso, em estado de tuberculose extrema, António Gomes Pereira, o "Casanova".

Lamentavelmente viviam-se momentos turbulentos no xadrez político internacional com a Guerra Civil de Espanha, com o nazismo e o fascismo em ascensão e com as purgas estalinistas. Também entre nós o ambiente era de guerrilha conspirativa intensa; culminando um longo processo de desconfianças e intrigas, os comunistas portugueses acabariam por ser expulsos da IC ficando desligados da mesma até finais dos anos quarenta. Pavel sabe que só junto da IC a situação terá alguma reversibilidade e segue com os dois companheiros para Paris, no intuito de conseguir regressar a Moscovo onde o aguardavam mulher e filho. Foi mal acolhido. A IC desconfiou da sua fuga e os camaradas portugueses abandonaram-no. Hoje sabe-se que as dúvidas sobre si foram forjadas por Armando Magalhães, o homem com aspirações na hierarquia partidária e autor do relatório que fez chegar a Vittorio Codovilla (1894-1970).   Os processos estalinistas na IC haviam feito mais uma vítima.

Depois de meses miseráveis em Paris, durante os quais o jovem António Gomes Pereira piora, é internado e vem a falecer, Pavel, com o apoio do PCE assume a identidade de António Rodriguez Diaz, um revolucionário morto na Guerra Civil de Espanha e segue para o México com o amigo Augusto. Ambos constituirão família mexicana e conservar-se-ão amigos até à morte.



Francisco de Paula Oliveira / Pavel / Antonio Rodriguez com a mulher, Toinette, María Antonieta Fernández


No México e após as naturais dificuldades dos primeiros tempos durante os quais trabalha como torneiro-mecânico - a sua profissão arsenalista -, vai colaborar nos periódicos locais e conviver com as elites progressistas e artísticas que o acolhem e com ele colaboram. Lança-se no estudo da sua mais recente paixão - a Arte -, e vem a tornar-se num grande jornalista, repórter internacional, escritor e crítico de arte, mais tarde professor e, sobretudo, no maior especialista mundial do Muralismo Mexicano. Ficara seduzido por essa forma de arte que os próprios mexicanos pareciam não valorizar. O seu livro «El Hombre en Llamas», editado primeiro na Alemanha Democrática (RDA) e só depois no México, recebeu o prémio do melhor livro de arte na Feira do Livro de Francfort, em 1968.

Após o 25 de Abril António Rodriguez foi convidado, através da Secretaria de Estado da Cultura, (David Mourão-Ferreira) a visitar Portugal, tendo realizado três conferências na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito da exposição sobre Máscaras Mexicanas que ali decorria. Voltou ainda nos anos oitenta mas, para além de alguns apontamentos jornalisticos, a sua passagem foi mais discreta.

Teve quatro filhos do casamento com a mexicana «Toinette», Maria Antonieta Fernandez.

Manteve-se fiel aos ideais e valores humanistas da juventude.
Morreu em 15 de Agosto de 1993.
Portugal desconhece-o.


Julia Coutinho 


Nota: já depois de escrever esta biografia, escrevi uma intervenção sobre Pavel aqui.




domingo, outubro 19, 2008

Parabéns, amiga!






A Angela fez 40 anos no dia 17 de Outubro. Nasceu em 1968. Faz parte dessa excelente safra














Dissertação acerca do tema
“Comemorar ou não comemorar os 40 anos ...”
Quando recentemente anunciei publicamente a minha intenção de comemorar esta data, um amigo meu quase ficou incrédulo chegando mesmo a afirmar “que era preciso ter muita coragem”. Ora, o que ele queria dizer verdadeiramente era que este tipo de comemorações são realmente disparatadas não havendo mesmo razão nenhuma para andarmos neste estado tonto de contentamento precisamente na altura da vida que marca oficialmente o início da n/ decadência... seria até melhor ficar “escondidinha” à espera que isto passesse, na vã esperança de que ninguém note nada! (isto é que é de amigo, sim senhor!)
Ora, tenho para mim que em situações desta natureza só há 2 hipóteses. A hipótese a) entrar num estado de angustia depressiva, desaparecer temporariamente para parte incerta e só regressar quando a neura passar. Ou, hipótese b) disfarçar a coisa através de um processo de auto convencimento: ir acreditando que isto de fazer 40 ano é muito bom, exercitar um estado de alegria natural, juntar a “cambada” e fazer festa rija num saudável ambiente de maluqueira colectiva: cantar, dançar e rir à parva, comer à fartazana e quiçá apanhar uma “ganda buba”.
Pois sempre me inclinei mais para esta última hipótese até porque não fui talhada nem tenho perfil para a “deprimivite”. Para além do que, nestas ocasiões, sempre massajamos razoavelmente o n/ ego com tradicional fiada de piropos da praxe do tipo “Dava-te menos 10 anos”, ou “Tás muito bem: nem cabelos brancos nem pé-de-galinha”, ou ainda (e espero realmente ouvir esta) “Tás muita BOA!”. Por outro lado, também já me disseram que é aos 40 atingimos o auge de... de muitas coisas... da nossa maturidade e assim... Portanto, deposito hoje grande confiança no meu futuro (não sei se por seu turno, o futuro deposita em mim alguma coisa de jeito ...) e até acalento grandes esperanças de... qualquer coisa boa!
Ora, volvidos 40 anos, já deu para perceber que a vida é feita de muitos altos e baixos e que o melhor é mesmo aproveitar os altos, de preferência com bom humor e em boa companhia! Agora ficava bem dizer que vocês são a melhor companhia do mundo e que vos tenho a todos no coração mas depois isto ficava um bocado piroso. Digo-vos simplesmente, e isto agora é muito a sério, que tenho um pouco de cada um de vós na pessoa que sou hoje... e julgo que o recíproco também é verdadeiro.
Bem hajam a todos (especialmente aos quarentões) . Divirtam-se e façam o favor de serem muito felizes!
(A quarentona)

terça-feira, outubro 14, 2008

Antonio Gancho (1940-2006)

Nasceu em Évora em 1940. Morreu no Telhal, onde esteve "encarcerado" os últimos 38 anos de vida.
Deixou poemas que dizem da sua lucidez e da sua liberdade.






SOBRE UMA MANHÃ QUALQUER

Manhã de ouro lhe poderíamos chamar
se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado,
e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho
e a cena desenrolar-se-á com maçãs de estanho,
aves de estanho, rios de estanho...
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz,
a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que material
fora a primeira manhã!
Evidentemente que
(e aqui já cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc. e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje,
e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã,
Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal.

Antonio Gancho, in o ar da manhã, assírio & alvim, 1995

terça-feira, outubro 07, 2008

Antonio Borges Coelho: 80 anos

Transmontano, nasceu em Murça a 7 de Outubro de 1928. Ingressou no Seminário mas bem cedo perdeu a Fé. A mesma fora substituida por uma crença maior: a crença no Homem, nas "gentes de Boa-Fé".
 

A sua vida é um exemplo, uma referência. Lutador antifascista, desde jovem militou e foi dirigente do MUD Juvenil, tendo sido funcionário do Partido Comunista Português. Preso no Aljube e em Peniche, passou anos nas prisões e sofreu as represálias infligidas pela PIDE aos que ficaram, após a fuga de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960. Foi ainda em Peniche que casou com a Isaura, também ela uma lutadora pelos direitos cívicos das Enfermeiras, e por isso presa, julgada e condenada. Pai e avô babadíssimo da Sónia e do Francisco.

Historiador e investigador incansável, ao seu labor honesto e meticuloso se devem os primeiros trabalhos que abriram caminhos e desfizeram mitos da História de Portugal, como bem recordou Cláudio Torres. Após o 25 de Abril ensinou na Faculdade de Letras de Lisboa (FLUL). Conheço ex-alunos que o recordam não só como Mestre e Pedagogo mas, sobretudo, como Humanista. Com um imenso respeito. O mesmo respeito com que o Professor Borges Coelho os tratava, mesmo quando as divergências ocorriam.

Perseguidor da utopia universalista, acredita que os Homens podem transformar o mundo e torná-lo melhor. Acredita no diálogo, nos consensos mínimos, no poder da(s) palavra(s) e na aproximação dos contrários se com boas-vontades. Como se todos pudessemos ser "crianças crescidas" e ter o dom da inocência dos primeiros olhares. Acreditar. Confiar. Perseguir. Lutar.

Amante da poesia, escreveu em Janeiro de 1957:


LIBERDADE
... amo-te de menino
Encontrei-te
Num mundo de operários
Na prisão

É TEMPO ! É TEMPO!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!



Foi este o poema escolhido para decorar o enorme bolo comemorativo dos 80 anos do professor António Borges Coelho. Um festa da iniciativa da equipa do Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, que Borges Coelho fundou e dirigiu entre 1999 e 2005.

Eu estive lá e foi emocionante ver e sentir aquela imensidão de pessoas dos mais variados quadrantes políticos e culturais irmanados num objectivo comum: homenagear um Homem e um Amigo de excepção. A mostrar que não existem barreiras que resistam, se os Homens quiserem. Pessoalmente sinto-me uma privilegiada pela sua amizade.

Assinalando a data, a Caminho reeditou Portugal na Espanha Árabe, uma obra pioneira, que foi apresentada por Cláudio Torres.

sábado, outubro 04, 2008

Morreu há cinquenta anos

Maria dos Santos Machado
"Rubina"
(25.2.1890 - 4.10.1958)
Morreu na véspera do dia comemorativo da implantação da República, no rescaldo das eleições fraudulentas de Humberto Delgado e em plena rua, na Amadora, quando tentava alugar um quarto para viver. O coração traíu-a. Não aguentou. Parou para sempre.
Oriunda de uma família burguesa, Maria Machado nasceu na Calheta, nos Açores. Professora Primária, veio para o Continente exercer o Magistério e aqui militou no Socorro Vermelho Internacional, tendo sido uma das fundadoras da Comissão Feminina Portuguesa para a Paz em 1936. Assinalada pela polícia política sofreu as habituais perseguições da PVDE/PIDE tendo sido expulsa do ensino e impedida de ensinar mesmo gratuitamente, aos mais necessitados. Militante do Partido Comunista foi presa várias vezes, a última das quais no próprio ano em que faleceu.
Por razõs de saúde teve de deixar a clandestinidade mas continuou sempre activa no apoio, a todos os níveis, aos presos políticos e suas famílias. Fez testamento a favor do seu Partido.
Maria Machado foi uma mulher que fez da sua vida uma jornada de luta contra Salazar. Lembrá-la é alimentar a Memória de um tempo que desejamos não mais se repita.

terça-feira, setembro 30, 2008

A minha memória de José Cardoso Pires

2 de Outubro
5ª feira
18h00
Casa Fernando Pessoa
R Coelho da Rocha 16 - Lisboa
No dia do seu nascimento
os amigos recordam

Com António Lobo Antunes

e Júlio Pomar




"Nenhum escritor gosta de falar do que escreveu a não ser em ocasiões muito, mas mesmo muito, especiais. Nenhum -- friso bem -- faz livros para complicar a vida."
José Cardoso

segunda-feira, setembro 29, 2008

Ainda... lamentavelmente

Disse o Samuel de sua justiça sobre a questão dos painéis. Não vou comentar este seu último post sobre o assunto. Só lamento que, apesar das inúmeras citações que nele faz de palavras minhas, tenha omitido a mensagem por mim deixada no dia 23 do corrente no seu post inicial sobre a Maria Keil, ou seja, no dia 14 de Agosto de 2008. Para memória futura, aqui fica esse meu comentário. Leiam-no com atenção.

Meus caros,
Não subscrevo a petição que anda a circular e que transcreve o texto do Samuel. Penso que a indignação é uma atitude saudável e que nos dignifica, mas tem que basear-se em causas sérias e justas. A verdade é que as minhas palavras primeiro e depois as do Samuel foram sendo empoladas e aproveitadas para objectivos que transcendem os objectivos iniciais.
Podemo-nos indignar, não temos é o direito de interferir com as decisões tomadas pela Maria. Temos que a respeitar. Ela chegou a acordo com o Metropolitano. Os acontecimentos têm mais de 10 anos! Os problemas estão sanados e ultrapassados. Já pensaram como aquela senhora de 94 anos se sentirá ao saber de toda esta celeuma pública, AGORA, para um problema que ela propria resolveu, sózinha, na altura própria? Pensem um bocadinho e não alimentem mais esta cadeia de indignação extemporânea, por muito que vos custe.
Convido-vos a visitar o meu blog www.ascausasdajulia.blogspot.com e lerem o que lá escrevi. Eu nunca desejei (e penso que o Samuel também) que chegássemos a esta situação incendiária. Conheço pessoalmente a Maria Keil, merece-me o maior respeito, e sinto-me particularmente culpada. Por isso lhe peço publicamente desculpas.

23 de Setembro de 2008 22:51



A petição vai ser retirada

Apenas para informar que o blog http://faceocultaterra.blogspot.com/ autor da petição online sobre os painéis de Maria Keil, acaba de publicitar naquele blog a intenção de retirar o documento da net.
Saudamos a iniciativa.

domingo, setembro 28, 2008

Maria Keil no Expresso de 27 Set 2008



A história dos azulejos que não querem ser defendidos
por Alexandre Costa - Expresso

Maria Keil não compreende como anda a circular uma petição para a reposição dos seus azulejos no Metro.

"Em que mundo é que vivemos, que põem coisas assim na Internet sem falar com ninguém?", interroga Maria Keil, a pintora, ilustradora e ceramista, actualmente com 94 anos.
Mais de três mil pessoas já subscreveram na Internet uma petição que a apresenta como vítima do Metropolitano de Lisboa, por este ter destruído alguns dos seus painéis de azulejos. Só que ninguém falou com a artista, que há muito chegou a acordo com a empresa. "A petição é um perfeito disparate", comenta, abismada com a história, "foram pegar nisto agora para quê? Quem querem atingir? É horrível".

O documento apresenta como recente um caso com mais de uma década. A sua criação é um autêntico fenómeno de 'bola de neve' típico da Net e dos blogues. Um pequeno comentário dá origem a um texto inflamado que deturpa os factos e cuja informação todos dão como certa. Em causa está a destruição de alguns dos painéis de azulejos de Maria Keil durante as obras de alargamento e remodelação de estações de Metro ocorridas nos anos 80 e 90. Especialmente em foco está a intervenção na estação dos Restauradores (em 1997), cujos azulejos foram irremediavelmente destruídos, enquanto que os da estação de São Sebastião serão repostos, mantendo o seu aspecto original, de acordo com o estabelecido entre a transportadora e a artista.

Os painéis de azulejos foram criados, a partir dos anos 50, por Maria Keil, que os ofereceu para as primeiras 19 estações do Metro, concebidas pelo seu falecido marido, o arquitecto Francisco Keil do Amaral. Em 1999 a artista criticara, em entrevista ao jornal 'Público', a destruição dos seus painéis dos Restauradores, sem que a empresa lhe tivesse comunicado sequer o que ia fazer. "Agora não posso refilar por me andarem a picar as paredes porque, de facto, dei tudo".

Foi uma referência a essa entrevista — a 9 de Agosto passado, por ocasião do 94º aniversário da artista —, no blogue de Júlia Coutinho ('As Causas de Júlia'), que veio a provocar uma cadeia de reacções.

Samuel Quedas leu o «post» e desenvolveu o assunto no blogue 'Cantigueiro', insurgindo-se por, "ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização". O bloguista acrescentou que no "Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra".

O atear da polémica

O texto não passou despercebido aos autores do blogue 'A Face Oculta da Terra', Carlos Alberto Augusto e Rui Mota, que, o transformaram numa petição.


Entre os signatários da petição — disponível em http://www.petitiononline.com/MK2008PT/petition.html — surgem nomes como o da médica Isabel do Carmo ou da coreógrafa Vera Mantero. Ambas referiram ao EXPRESSO não fazer ideia de que Keil se opõe à petição e que, caso soubessem, muito provavelmente não a teriam apoiado.

O número de signatários continua a crescer, assim como uma onda de críticas à administração do Metro ou à autarquia de Lisboa. Há mesmo um bloguer que já pediu a demissão do actual ministro da Cultura...


Contactado pelo EXPRESSO, Rui Mota diz que vão manter a petição tal como está, porque se trata de "um acto de cidadania" contra o "atentado ao património", independentemente da posição da ceramista sobre o assunto. Samuel Quedas afirma que não é responsável pela petição, que é inteiramente constituída pelo seu texto.
Alexandre Costa
acosta@expresso.pt

quinta-feira, setembro 25, 2008

Mensagem do Pitum Keil do Amaral, filho de Maria Keil



Cara Amiga,

Desculpe se lhe não respondi mais depressa mas estamos no início do ano lectivo, e ando atarefado com a abertura das aulas.

Esta história da petição, abaixo assinado ou o que quer que seja acerca dos azulejos da minha Mãe para o Metropolitano de Lisboa, não tem jeito nenhum.

Fiz o possível para que ela não tomasse conhecimento do que se ia passando, mas agora já são desconhecidos a telefonar-lhe directamente, pedindo para também assinar !!

Ela ficou muito incomodada, claro , pois trata-se de factos passados há quase vinte anos, e que ficaram esclarecidos entre ela e a Administração do Metro.

É natural que ela tenha ficado magoada e ressentida, mas a remoção dos azulejos não teve motivos estéticos, nem foi vandalismo, mas sim a necessidade de ampliar as estações. É evidente que a Administração da época não foi correcta ao agir sem uma prévia explicação.

Mas isto, como disse, foi há quase vinte anos, e a minha Mãe continuou em boa relação com o Metro, que lhe encomendou uma nova estação – agora devidamente remunerada (enquanto as outras 19, por mútuo acordo, não foram pagas pelo Metro, recebendo minha Mãe, apenas, uma percentagem modesta sobre os azulejos aplicados, paga pela Fábrica que os fez).

Era impensável repor os azulejos, pois as superfícies onde antes estiveram ou já não existem ou estão completamente alteradas. Não tinha cabimento.

Felizmente, tudo o que minha Mãe fez sobre azulejos, para o Metro e muito mais, está documentado, e guardado no Museu do Azulejo em Lisboa.

Seria bem mais interessante que se falasse no papel que Maria Keil e o seu marido, o Arquitecto Francisco Keil do Amaral, tiveram na reabilitação e modernização do nosso azulejo tradicional aplicado na construção, abrindo caminho para as intervenções de muitos outros artistas, e para a difusão desta forma de Arte por esse mundo fora, desde o Japão até não sei onde – embelezando várias estações de metropolitano e não só.

O que a Júlia escreveu no seu blog está muito bem. A volta que deram ao assunto é que não faz sentido.

Retenha-se a necessidade de legislação e de prática na defesa dos direitos de autor das obras de arte públicas, muitas vezes abusadas e destruídas. – sim senhor .

Mas quanto à Maria Keil, no final de uma vida longa de trabalho, merece que a não envolvam em polémicas que não desencadeou, nem vêm a propósito.


Um abraço do Pitum