quarta-feira, dezembro 10, 2008

Nos 60 anos dos Direitos Humanos


10.Dezembro.1948
as Nações Unidas aprovam
a
Declaração Universal
dos Direitos Humanos
No final da Segunda Grande Guerra as nações empenhadas no processo da pacificação aprovaram a Declaração Universal dos Directos Humanos, como um Ideal a atingir por todos os povos e todas as nações, no sentido de que jamais se repetisse o Horror do Holocausto e das vítimas indefesas da perfídia dos homens. Lamentavelmente, os homens e as nações ainda se não humanizaram. Aqui fica o texto integral. Para que a Memória registe e perdure.

Preâmbulo:
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos humanos conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração humanos; Considerando que é essencial a protecção dos direitos humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão; Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais humanos, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla; Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais; Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso: A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo 1° Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2° Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3° Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4° Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5° Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Artigo 6° Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica.
Artigo 7° Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8° Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo 9° Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo 10° Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
Artigo 11° Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
Artigo 12° Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
Artigo 13° Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14° Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15° Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16° A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado. Artigo 17° Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18° Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19° Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
Artigo 20° Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios, públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22° Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.
Artigo 23° Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24° Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.
Artigo 25° Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma protecção social.
Artigo 26° Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz. Aos pais pertence a prioridade do direito de escholher o género de educação a dar aos filhos.
Artigo 27° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28° Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
Artigo 29° O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade. No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30° Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.
texto retirado daqui
imagem retirada daqui

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Pintura e Desenho de Graça Marto

Hoje, 3 Dez. - a partir das 18 h
Dias úteis, das 10 - 19 H
até 19 Dezembro
Espaço PT - R Andrade Corvo 8 - Lisboa
Poemas por
José Jorge Letria e Jorge Castro
Graça Marto é licenciada em pintura pela Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto. Nasceu em Cambarinho, Vouzela, e fez o liceu no Rio de Janeiro onde viveu dos 14 aos 22 anos. A par do ensino, tem feito inúmeras exposições individuais e colectivas em Portugal Continental, Açores e Madeira. No estrangeiro, está representada em diversas colecções, principalmente na Bélgica e no Luxemburgo, tendo participado, também, em exposições em Espanha, Brasil, Moçambique, Macau e Estados Unidos.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Hoje é o meu dia

Esta a primeira foto que conheço minha.
Tinha quatro anos e acabava de perder a minha mãe.
Assustadoramente assustada
com o súbito vazio que me atingira.
foi demasiado cedo
essa solidão sozinha
esse frio agreste
... para sempre
em mim

quarta-feira, novembro 26, 2008

Casa da Achada - Centro Mário Dionísio

EXPOSIÇÃO 28 Novembro das 15h - 20h
LEILÃO d'ARTE, 29 Novembro, a partir das 15h
Todo o produto do leilão reverterá para o arranque do
Centro Mário Dionísio

A Casa da Achada já foi adquirida pela família.
O projecto é do Arqtº Hestnes Ferreira.
Os artistas plásticos doaram as suas obras.

Se todos fizermos um pequeno esforço em breve teremos o espólio de Mário Dionísio à disposição dos amantes da arte e da cultura!

domingo, novembro 23, 2008

1º Colóquio sobre Francisco de Paula Oliveira/"Pavel"/Antonio Rodríguez no seu Centenário (1908-2008)

Francisco de Paula Oliveira / Pavel / António Rodriguez (1908-1993)

Quando perfazem cem anos do seu nascimento (1908-2008) e com a presença da filha, Zínia Rodríguez, realizou-se ontem um colóquio de homenagem a Francisco de Paula Oliveira / "Pavel" /António Rodríguez, na Biblioteca-Museu República e Resistência.  Ao mesmo tempo foi inaugurada uma pequena exposição com os livros do autor que conseguimos reunir.
Deixo-vos a comunicação por mim apresentada focando o Homem de Cultura; sobre o Resistente Antifascista falou o investigador Luis Carvalho, que comigo organizou o evento.


"PAVEL"/ANTONIO RODRIGUEZ, O HOMEM DE CULTURA

«Lisboa, a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido. (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho»  (carta a Stella Piteira Santos, 28.12.1988)

Em Outubro de 1976 a Fundação Calouste Gulbenkian acolheu a exposição "Máscaras Mexicanas" e a Secretaria de Estado da Cultura patrocinou a vinda de Antonio Rodríguez a Lisboa para proferir três conferências sobre arte mexicana, de que era especialista. Sabia-se que António Rodríguez e Pavel eram a mesma pessoa desde o verão de 74 quando a revelação foi feita por Francisco Ferreira, o Chico da CUF, à revista do Expresso. Sabia-se que o mítico dirigente comunista dos anos trinta se refugiara no México, adoptara uma nova identidade e ascendera às elites culturais daquele país, sendo considerado o maior especialista em Muralismo Mexicano. Conhecia-se ainda a alegria com que recebera a notícia da revolução do 25 de Abril e como desejava voltar ao seu país.

Quando a 3 de Novembro proferiu a primeira das conferências na Fundação Gulbenkian dissertando brilhantemente sobre a estética muralista, essa arte que os pintores mexicanos criaram com o povo e para o povo, se por um lado ficou provada a inteligência superior deste antigo arsenalista, por outro, sobressaiu a dificuldade que tinha já em lidar com a língua materna.

Antonio Rodríguez teria oportunidade de apresentar desculpas pelo facto — aliás, mal recebido por alguns que facilmente se distraem do essencial — de se expressar em castelhano na sua pátria, afirmando, emocionado, mas com elegância e lucidez, num jantar em sua honra: «pode-se falar mal uma língua estrangeira, mas não se pode falar mal a nossa própria língua»[i].

A verdade é que Francisco de Paula Oliveira, nascido cidadão português, viveu em Portugal até aos 30 anos, sendo os últimos 10 já na clandestinidade, como Pavel. O restante mais de meio século deste homem excepcional, que viria a falecer em 1993, aos 84 anos, foram vividos enquanto António Rodríguez, cidadão mexicano, com família constituída nesta sua segunda pátria e perfeitamente inserido na sociedade do país que o acolheu, como confessa ao Jornal Novo em 76: «após a perturbação dos primeiros tempos, liguei-me imediatamente ao povo mexicano: estudando a sua história, a sua cultura, a sua arte e fazendo meus os seus problemas.» [ii]

Entre a data da chegada ao Mexico (1939) e a data da primeira vinda a Portugal (1976) mediaram praticamente 40 anos durante os quais pouco ou nada falou português - apenas o fazia com o amigo Augusto, o enfermeiro que o ajudou a fugir do Aljube e com quem estabeleceu uma amizade que só a morte quebrou -,  enquanto o castelhano se tornou na língua adoptada quotidianamente e sobretudo na ferramenta de trabalho imprescindível para a profissão da escrita, que escolhera.

Mas o que importa salientar é que a cultura portuguesa esteve sempre presente na vida de António Rodríguez; nos seus hábitos pessoais (em casa comia-se bacalhau e cozinhavam-se receitas portuguesas, como portuguesas eram as canções que ensinava aos filhos), tal como nas referências  lusas e ibéricas que encontramos em livros seus como em «El Quijote, mensaje oportuno» ou em «Saudade», opúsculo escrito após a primeira viagem a Lisboa.

Profundamente reconhecido ao país que o acolheu, dirá então, na entrevista referida: «cheguei [ao México] com 31 anos, pronto a renascer e estou muito contente por ter encontrado um país difícil, cheio de problemas, que me deu a possibilidade de realização como homem e, dentro das minhas limitações, de o servir também» porque, afirma mais adiante, «o que interessa é lutar, não importa o sítio».[iii]

Estivera duas semanas em Lisboa. Tinha cerca de 70 anos e na altura escrevia em vários periódicos, era professor de jornalismo na Universidade Nacional Autónoma, fundara e dirigia uma revista cultural de grande prestígio editada pelo Museu Tecnológico da Cidade do México, (do qual fora director durante 11 anos) tinha vários ensaios entre mãos e recebera já vários prémios literários dentro e fora do país. Era ainda promotor e consultor da prestigiada e internacionalmente conhecida Galeria de Arte Estela Shapiro.

Ao assinalarmos os cem anos do seu nascimento (29.10.1908) uma pergunta se nos impõe: como foi possível a alguém que nasceu numa família humilde, começou a trabalhar aos 11 anos, foi operário arsenalista, autodidacta, sem quaisquer estudos académicos, tornar-se na grande referência cultural que todos reconhecem, mercê apenas do esforço individual? Quais as motivações e as influências que moldaram o seu carácter e o seu percurso de homem e de esteta?

Em 1988, ao evocar a sua cidade natal que há pouco visitara pela segunda e última vez,  Pavel refere-se-lhe assim:  «Lisboa a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho»[iv], fornecendo-nos, desta forma, a chave para a compreensão do fenómeno Pavel/António Rodríguez.

Se, como ensina Bento de Jesus Caraça, «a vida de todo o homem é uma construção permanente, feita das acções recíprocas que entre ele e o meio se desenvolvem»[v], podemos então dizer que os primeiros 30 anos de vida de Francisco de Paula Oliveira/Pavel foram determinantes para a formação cultural e cívica do futuro Antonio Rodríguez, tal como o «renascimento» mexicano a que se dispôs, e que não é mais que a integração e a sintonia com os homens, a arte e a sociedade daquele tempo e lugar, forjaram o Homem de Acção e de Cultura em que se transformou: uma vida em dois tempos cruzada de múltiplas vivências.

Para os jovens da geração de Pavel, nascidos com a República e envolvidos socialmente, a Educação e a Cultura eram causas dominantes e objectivos de vida. A educação e a cultura como formas de realização pessoal e factores de progresso da sociedade impunham-se-lhes como aquisição paralela à da consciencialização política.

Quando Pavel afirma que «o Alfeite era uma autêntica universidade»[vi], está a dizer-nos que os jovens arsenalistas, de uma maneira geral, sentiam a cultura como um dever de classe e tudo faziam para se cultivarem, nomeadamente apostando no convívio, na camaradagem e na solidariedade, e na troca de conhecimentos comuns, o que era, e é também uma forma rica e generosa de aprendizagem. Atentemos nas palavras de Pavel: «no Arsenal da Marinha fui, aliás como quase todos os meus colegas, um estudioso. O Arsenal funcionava um pouco como uma elite operária e foi aí que tive contacto com a literatura, com a filosofia e com os grandes problemas do nosso tempo. Os idiomas russo e francês foi lá que os aprendi e também foram esses contactos que me levaram a frequentar, à noite, escolas industriais e comerciais apenas para receber as aulas de literatura».[vii]

É fácil perceber que a estes jovens não interessava uma cultura enciclopédica mas sim uma cultura universalista, que passava por conhecer e assimilar o pensamento daqueles a quem Bento de Jesus Caraça chamou as «grandes figuras morais contemporâneas» como Romain Rolland, Maximo Gorki, Malatesta, Guerra Junqueiro, Émile Zola, Dostoievsky, Victor Hugo, Anatole France, Pasteur, Einstein, Tolstoi,[viii] mas também Durer, Camões, Cervantes e muitos outros que a Universidade Popular Portuguesa, sob o lema «A ciência e a Cultura ao alcance de todos» tanto se empenhou em divulgar nos anos 20/30, em acções concertadas com os sindicatos (entre os quais o dos arsenalistas) e outras agremiações populares, até se ver cerceada pela censura e ficar restringida às próprias instalações.

É muito provável que Pavel e Caraça tenham contactado em diversas ocasiões, nomeadamente no Sindicato dos Arsenalistas. Mas quando em 1937 Pavel regressa da União Soviética e dirige o Partido vai obrigatoriamente ter contactos com Caraça, directamente, ou através de Alberto Emílio de Araújo, membro do Secretariado. Vai sobretudo contactar com o seu pensamento cívico-político-cultural, assimilando essa «nova cultura política»[ix], como lhe chamou Tengarrinha, ou seja, a política de unidade então amplamente ensaiada com a Frente Popular Portuguesa, constituida em Outubro de 35 e extinta em 38, e para a qual o contributo do Prof. Caraça foi decisivo.

Ainda no âmbito do movimento frentista Pavel contacta com diversos intelectuais fora do país, a acreditar numa intervenção que faz na reunião da IC em Abril de 36, onde refere: «em Paris... falei com um intelectual que é considerado o maior matemático que temos em Portugal. Ele propôs-se aderir ao Partido Comunista porque diz que é a única força que luta contra o fascismo».[x] Tudo indica tratar-se de Aniceto Monteiro o matemático que em 1936 se doutorou em Paris, no Instituto Henri Poincaré, com o estudo "Sur l'Activité des Noyaux de Freedholm”.

Conforme conta nas notas autobiograficas, foi nas enfermarias da prisão e nos sanatórios por onde passou, sobretudo no Caramulo onde permaneceu um ano, devido a problemas pulmonares que só curou na União Soviética, que Pavel estudou os teóricos marxistas e aprendeu a língua russa.

Na célebre conferência «A Cultura Integral do Indivíduo», de 1933, Bento de Jesus Caraça enunciara a noção de Homem Culto, e passamos a citar:

"O que é o homem culto? É aquele que: 1º — Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence; 2º — Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano; 3º — Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida" [xi]

Este enunciado veio a tornar-se no paradigma de sucessivas gerações. Pavel, para além de um jovem muito estudioso e de grande curiosidade intelectual, era um leitor compulsivo e amante das artes. Maria Nogueira Soares, sua primeira companheira e com quem tem um filho em 1928, revelou à revista Cambio16, que já nessa altura «todo o dinheiro que apanhava era para comprar livros»[xii]. Por sua vez, Pedro Rocha, um jovem camarada com quem partilha a direcção e organização das Juventudes Comunistas, refere nas suas memórias: "às vezes, nas horas vagas [da actividade política], líamos algumas páginas de bons autores. Anatole France era um dos autores predilectos de Pavel que conhecia bastante bem o francês e lia, em voz alta, passagens de Thaïs e da Ilha dos Pinguins, no original. Eram horas de distracção para os nossos espíritos bem atribulados"[xiii]. Também Edmundo Pedro, que o conheceu ainda muito jovem, dá o seguinte testemunho: «interessava-se pela história, pela literatura, pela pintura, pela música. Ele, como outros operários do Arsenal, assistia naquele tempo, regularmente, às temporadas de ópera do Coliseu dos Recreios (…) era dotado não só de uma brilhante inteligência como de uma desmedida vontade de se cultivar»[xiv] Carolina Loff, que com ele conviveu na União Soviética refere-se-lhe como «um autodidacta de raras capacidades. Um homem extremamente culto» que «passava o tempo a estudar e a ler». [xv]

A influência da literatura em Pavel projecta-se na própria vida. A admiração por Emile Zola fá-lo dar ao primeiro filho, nascido em 1928, o nome Germinal, título de um dos livros do escritor francês; enquanto a que nutre por Anatole France não pode desinserir-se da atitude digna e corajosa que este tomou no caso Dreyfus, colocando-se ao lado de Zola e devolvendo ao governo francês a sua Legião de Honra, quando a mesma foi publicamente retirada àquele escritor. Por sua vez, é ao protagonista de A Mãe, de Máximo Gorki, que vai buscar o pseudónimo «Pavel», que adopta para a vida clandestina.

«Sempre utilizei o meu tempo livre para visitar museus, para tomar contacto com outras culturas e outros interesses»[xvi], diz em 1976. Os dois anos que passou na União Soviética tiveram uma importância grande para o seu desenvolvimento cultural, pois, segundo palavras suas, foi-lhe dado «conhecer a literatura, a pintura e a cultura russas» e, como «dedicava grande parte do seu tempo ao estudo, em particular de obras de arte» e frequentemente encontrava interlocutores cultos com quem podia conversar, fácil é perceber como se lhe foram desvendando horizontes até aí interditos, como, aliás, estavam interditos à generalidade dos portugueses pelo grande atraso das nossas artes.

Se somarmos a isso as idas ao Prado quando visitou Madrid em 1932, e os meses que passou em Paris, em 1936, com Álvaro Cunhal, e que aproveita para — e, mais uma vez, o citamos — «ir ao Louvre, esse verdadeiro templo do conhecimento»[xvii] e aprofundar esta área de interesse que se lhe impõe cada vez com maior acuidade, podemos concluir que, no regresso a Portugal em 1937, Pavel estava já a caminho do Homem de Cultura que mais tarde veio a ser. Muito próximo já, sem o saber, do futuro Antonio Rodríguez.

«Escritor, jornalista, combatente social, professor e crítico de arte» — assim é referido Antonio Rodríguez (Portugal 1908, México 1993) no Dicionário dos Escritores do México, um cidadão português naturalizado mexicano. Ele não ficou para a História como o cidadão espanhol do qual se viu obrigado a tomar o nome em 39. Rodríguez nunca deixou de ser português, o jovem revolucionário que chegou ao México com vontade de «renascer» mas sem abdicar de si. Esta postura reflecte a verticalidade de um homem que confessa ter-se mantido «fiel aos princípios da juventude» que nunca esqueceu as suas raízes e que «voltaria a fazer tudo igual»[xviii].

Do conjunto de obras que o dicionário enuncia, apenas uma nos foi dado ler: «El Quijote, mensaje oportuno», um pequeno/grande livro editado em 1947, que recebeu o primeiro prémio de Ensaio e teve, desde então, inúmeras edições. Trata-se de um livro essencialmente didáctico, imbuído dos mais nobres ideais de paz e concórdia entre os homens e que, por isso mesmo, o México fez editar em livro de bolso, na Biblioteca Jovem, uma colecção patrocinada pelo Fundo de Cultura e destinado à juventude daquele país. Nele, o autor mostra a mensagem profunda que se oculta sob a aparência superficial e galhofeira do livro. A esperança numa sociedade nova que os protagonistas colocam no passado mas que só o futuro pode concretizar. Uma sociedade anticapitalista de nobres ideais e onde os Homens se aceitem e solidarizem. Uma sociedade justa.

Aqui, no seu país, Antonio Rodríguez é desconhecido. As fontes de que dispomos são nulas. Apenas existe na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian a Historia da Pintura Mural no México — El Hombre en Llamas — uma oferta sua àquela instituição, em 76. Trata-se de uma obra monumental, de excepcional fôlego e que a Gulbenkian teve a amabilidade de nos emprestar para constar da exposição que fizemos sobre o autor. Uma preciosidade para os investigadores que se interessam pela arte do muralismo, uma expressão que entre nós não tem sido valorizada.

Os restantes livros, alguns também aqui expostos, estão nas mãos de particulares, inacessíveis, portanto, a quem pretenda conhecer o pensamento e a arte de Antonio Rodríguez. Seria de extrema importância para a cultura portuguesa que na Biblioteca Nacional de Portugal existissem os seus livros. E daqui faço um apelo à família Rodríguez, a sua filha Zinia, para que, em conjunto com aquela instituição portuguesa tudo faça para trazer alguns desses livros para o nosso país. Um apelo igualmente ao Ministro da Cultura: o pensamento de Antonio Rodriguez tem que ser dado a conhecer aos portugueses. Há que investir nele. É uma questão de cultura e de justiça.

De justiça seria também que os editores portugueses apostassem na tradução e edição dos seus livros. À nossa historiografia artística fazem falta os estudos de Rodríguez na área. Como fazem falta os seus ensaios, os seus estudos históricos e antropológicos, o pensamento universalista que sempre o animou e fez ombrear com os que sofrem e lutam numa inequívoca opção social. E por que não as crónicas e artigos anti-salazaristas que enquanto jornalista não deixou de escrever e que o levou a figurar no index da embaixada de Portugal no México?

Neste colóquio iremos ouvir o próprio Pavel/A. Rodríguez numa gravação feita em 1988 quando pela segunda e última vez esteve em Portugal. Iremos escutar uma autêntica lição sobre a Arte Mural mexicana. Dir-nos-á da forma como esta se lhe revelou. Como se surpreendeu ao encontrar nas paredes dos edifícios oficiais de um país capitalista as lutas, as dores e as alegrias dos operários e camponeses mexicanos. E de como o seu sentido estético e humanista se solidarizou de imediato com essa expressão artística. Até então, a arte popular mexicana era ignorada. Os historiadores locais não a valorizavam. Foi Pavel, um ser humano de rara sensibilidade e com uma base ideológica que o predispunha a isso, quem primeiro a entendeu. Ele foi o teorizador e o arauto de uma estética que exaltava o povo. Valorizou-a e divulgou-a. Fez com que os mexicanos se orgulhassem dela. Mas, melhor que eu, disto vos falará o Mestre Antonio Rodríguez. *(cassete emprestada por Julio Pomar quando os dois se encontraram para serem entrevistados e falarem de Arte)

Ainda na sua primeira vinda a Portugal, em 76, quando uma jornalista lhe perguntou se não tinha por vezes "saudades do Pavel", respondeu: «Não. Porque o que interessa é lutar, não importa o sítio. E sempre há algo para defender e tempo para militar. Você sabe que escrever implica isso».[xix]

Mas sentia saudades, sim. Não fora impunemente que Antonio Rodriguez se reencontrara com Francisco de Paula Oliveira/Pavel. A saudade, esse sentimento tão genuinamente português que, agora mais que nunca se lhe impunha, leva-o a reflectir sobre a fenomenologia saudosista e a escrever um pequeno livro – Saudade – , que oferece aos amigos no Natal de 1978 «como uma mensagem de esperança». Essa mesma «esperança da qual a Saudade tanto se alimenta»[xx], numa dualidade simultaneamente amarga e doce como dual e agridoce foi a vida e a pessoa de Pavel/Antonio Rodriguez.

Portugal, o país deste Homem notável, desconhece-o. É obrigatório conhecê-lo.

Julia Coutinho

Convite para o 1º Colóquio sobre Pavel: o resistente antifascista e o homem de cultura





















[i] O Jornal 26.11.76
[ii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[iii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[iv] AR, carta a Stela Piteira Santos, 28.12.1988
[v] BJC, carta a Carlos Amaro, 3 Set 1939
[vi] AR, Sábado 19.11.1988, p.36
[vii] AR, Sábado 19.11.1988, p.36
[viii] BJC, entrevista a Republica 24.3.1933
[ix] JM Tengarrinha, centenário de Bento de Jesus Caraça, 2001
[x] ICS – F. 495, OP.18, D.1099 / AHS. DOC. 110, MAÇO 30, CAIXA 2
[xi] BJC, Conferências e Outros Escritos, 1978, p.51
[xii] Revista Cambio16, de 4.10.1993
[xiii] Pedro Rocha, Escrito com Paixão, 1991, Caminho, p. 39
[xiv] Edmundo Pedro, Memorias, I volume, Âncora, p.99
[xv] Revista Cambio16, de 4.10.1993
[xvi] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[xvii] AR, Sábado, 19.11.1988
[xviii] AR, Sábado, 19.11.1988
[xix] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[xx] AR, Saudade, Cidade do Mexico, edição de autor, 1977/78.







sexta-feira, novembro 21, 2008

No centenário de Francisco de Paula Oliveira / «Pavel» / Antonio Rodríguez




Amanhã, 22 de Novembro, às 16 horas, no Museu Republica e Resistência (cimo Rua da Beneficência), vai ser homenageado este lutador antifascista, vítima da ditadura de Salazar que, no México onde se exilou, veio a ser um prestigiado professor, escritor e critico de arte, especialista em Muralismo.
Através de gravação áudio, ele próprio nos dirá desse percurso

Apresentarei uma comunicação que versará o Homem de Cultura que foi Antonio Rodríguez.

 

domingo, novembro 16, 2008

João Abel Manta: Caprichos e Desastres

É tão raro podermos ver as obras deste artista, que podemos considerar um autêntico privilégio esta Exposição, precisamente no ano em que Mestre João Abel Manta completa 80 anos de vida e 60 que foi preso pela PIDE.

18 Nov, 3ª feira, 19 horas

domingo, novembro 02, 2008

A tanto chegava a abjecção!

(uma visita aos arquivos da PIDE/DGS)
Ali estava ele na ampla sala de leitura da nova Torre do Tombo, à espera que lhe trouxessem os documentos requisitados. Consultava, finalmente, o seu processo nos arquivos da PIDE/DGS. (...)
Pessoalmente não tinha nenhum prazer em regressar a esse mundo da PIDE/DG, que só muito palidamente aflora nos seus arquivos.
Sim, lá não estão: o suplicio da tortura, as dores dos espancamentos, as alucinações da privaçao do sono, a angústia da incomunicabilidade sem fim, o medo dos interrogatórios feitos por uma roda de esbirros, o pesadelo dos longos anos de prisão, a permanente incerteza do dia de amanhã para quem caia nas garras dos torcionários e para os que viviam permanentemente perseguidos por eles, como acontecia com os clandestinos.
Bastou-lhe, no entanto, o propósito de consultar os arquivos, as formalidades para proceder à consulta e o período de espera que estava agora a viver, para que tudo isto lhe viesse a pouco e pouco à memória. Nunca tivera pressa de saber o que se dizia lá a seu respeito, ao contrário de outros que correram à Antonio Maria Cardoso «para consultar a ficha» (...) talvez por que tinha a consciência absolutamente tranquila quanto ao seu comportamento sempre que enfrentara aquela máquina de terror e de desonra e, além disso, não tinha a menos espécie de vocação masoquista. Ou seria antes por que se entregou de alma e coração à revolução, muito mais virado para o futuro que se queria construir, do que para o passado que se devia soterrar para sempre?
(...)
A primeira peça que o interessou foi um volume que constituia o auto das apreensões feitas pela Pide de uma das vezes que lhe assaltara a casa. Lá estavam alguns raros jornais e folhetos clandestinos, pois tinha o cuidado de não os guardar depois de lidos, mas muitos manifestos, declarações, apelos, tarjetas, selos dos movimentos oposicioistas, legais e semi-legais, rascunhos de artigos da sua autoria, versando matéria mais ou menos política. Achou óbvias estas apreensões. A sua indignação começou quando deparou com um diploma de curso, cuja falta lhe causara os maiores transtornos profissionais. Procurara-o por toda a parte, inclusivamente em casa dos pais e dos avós, nunca pensando que pudesse ter sido objecto de apreensão pela PIDE.
- Com que direito! - interrogou-se interiormente, mas era tanta a veemência da sua pergunta que deve ter produzido alguns sons, pois vários rostos se viraram, com expressa reprovação, na sua direcção.
O espanto indignado que começara a possui-lo não cessava de aumentar à medida que ia encontrando cartas pessoais da mulher, da mãe, dos amigos tratando questões familiares, as mais pessoais e íntimas, mesmo sobre doenças, partilhas, situações afectivas - tudo o que a devassa pidesca abocanhava.
- Com que direito? - Era a pergunta que lhe vinha das entranhas e que tinha de sufocar para não perturbar os restantes leitores.
Não conseguiu ficar sentado, quando, entre muitas outras fotografias, apreendidas, deparou com vários retratos do irmão, já então falecido, dispostos numa fila, com vistas de vários ângulos, como a indicar que se tratava de um elemento suspeito.
(...)
Veio-lhe então às mãos uma peça que continha um conjunto de cartas de «bufos» com denúncias sobre uma viagem que em certa altura fizera ao Algarve, para visitar os pais e outros familiares. Davam informações precisas das terras onde tinha estado, o que fizera, pessoas com quem se tinha encontrado.
Um das cartas informava da descida do Guadiana que tinha feito num barco de carreira - o «gasolina» - que então estabelecia ligação entre Mértola e Vila Real de Sto Antonio, acostando a Alcoutim e parando ao largo de outras povoações ribeirinhas. Referia, velhacamente, como «contactos», as conversas que tivera a bordo com diferentes pessoas, indo ao ponto de identificar algumas delas. Nunca podia ter imaginado que fosse seguido com esta minúcia pelas forças policiais. Os «bufos» algarvias deviam ter sido alertados por ordens de Lisboa.
- Caramba, como o nosso país estava minado! - Comentou para si.
Viu então a última carta do conjunto. Era um «bufo» que o denunciava como tendo participado e dirigido uma reunião em Aljezur. Tratava-se de uma rematada mentira, não estivera em Aljezur, nem de lá se aproximara, nessa viagem.
Ali estava a confirmação de como os «bufos» ao serviço da PIDE, além de denunciarem o que escutavam, observavam ou que de qualquer forma conheciam, faziam também denúncias que sabiam ser falsas, chegando a enganar os comandos repressivos, por razões de pura vingança contra os denunciados ou para mostrarem serviço, os que recebiam subsidios regulares, ou ainda para ganharem mais algum, os que eram pagos à peça, por denúncia apresentada.
- A tanto chegava a abjecção! (...)


Carlos Brito, águas do meu contar, campo das letras, 2002




quarta-feira, outubro 29, 2008

No centenário de Francisco de Paula Oliveira, «Pavel» (1908-2008)




Francisco de Paula Oliveira Junior nasceu em Lisboa, freguesia de Santa Catarina, em 29 de Outubro de 1908. Do pai herda o nome e os ideais anarquistas que o levam a ingressar na Federação das Juventudes Sindicalistas, que abandona após a revolta de 7 de Fevereiro de 1927, conforme nos refere Emidio Santana nas suas Memórias. Tudo leva a crer que se tenha de imediato aproximado do Partido Comunista Português onde, nos anos subsequentes, vai liderar e organizar as Juventudes Comunistas, tendo fundado "O Jovem" e o "Juventude Vermelha". Também sua mãe, Maria Adelaide, vem a ser uma dedicada militante comunista. Ao personagem central de A Mãe, de Gorki, irá buscar o pseudónimo que adopta: "Pavel".

Operário no Arsenal de Marinha desde os 11 anos, onde trabalha com Bento Gonçalves, a polícia política acreditava que a Pavel se devia muito do impulso organizativo dos arsenalistas no seu Sindicato, um dos raros de então a fugir à orbita anarquista. Simultaneamente, como todos os operários navais, estuda à noite.

Breve passa à clandestinidade, vindo a ser um dos principais dirigentes das Juventudes e, depois, do PCP, a cujo Secretariado vai pertencer com José de Sousa e Bento Gonçalves tendo, após a prisão e deportação destes para o Tarrafal, ascendido a principal dirigente. Fez várias viagens à URSS tendo aí permanecido como delegado do PCP junto da Internacional Comunista (IC) sob o nome de Fernando Queiroz.

Era um homem de formação humanista, de grande inteligência e cultura e com grande facilidade de aprendizagem, conforme testemunhos coevos. Quando foi preso pela primeira vez, em 1932, e devido às lesões pulmonares de que sofria, colocaram-no num sanatório. Aí, sabendo que em breve seguiria para representante do partido junto da IC, na URSS, aproveitou para estudar, sozinho, a língua russa. E conseguiu-o. Falava fluentemente russo, espanhol e francês. Em 1935 interveio, com Bento Gonçalves, como delegados do PCP ao VII Congresso da IC realizado na Casa dos Sindicatos em Moscovo. Bento Gonçalves falou em português enquanto Pavel proferiu o seu discurso em francês, durante 24 minutos (JPP,vol.II,p.125). Na URSS tratou finalmente dos problemas pulmonares, refez a vida e teve um filho a quem chamou Pavel Queiroz, os dois pseudonimos que adoptara.

No regresso a Portugal e após um ano de intensa actividade partidária é preso em 10 de Janeiro de 1938 na sua casa clandestina - Rua da Beneficência 180-2º/3º - pelo tenebroso José Gonçalves, na altura ainda Agente de Terceira, da Secção de Defesa Política e Social, da PVDE. Resiste à polícia com troca de tiros, e também aos bombeiros que acorreram devido ao incêndio que propagara aos armários da casa, no último andar, na tentativa de ganhar tempo e destruir o máximo de documentação comprometedora, uma vez que ali funcionava a redacção do Avante!, o que conseguiu.

Encerrado no Aljube consegue passar para a enfermaria. Alicia então um jovem enfermeiro - Augusto Rodrigues Pinto - que havia pertencido às Juventudes Comunistas e o ajuda num plano de fuga na condição de com ele seguir para a União Soviética. Apoiada pelo partido, a espectacular evasão da enfermaria do Aljube ocorre no dia 23 de Maio de 1938 e nela estão envolvidos Stella e Fernando Piteira Santos a quem ficará grato para sempre. Leva consigo o enfermeiro e um outro jovem comunista preso, em estado de tuberculose extrema, António Gomes Pereira, o "Casanova".

Lamentavelmente viviam-se momentos turbulentos no xadrez político internacional com a Guerra Civil de Espanha, com o nazismo e o fascismo em ascensão e com as purgas estalinistas. Também entre nós o ambiente era de guerrilha conspirativa intensa; culminando um longo processo de desconfianças e intrigas, os comunistas portugueses acabariam por ser expulsos da IC ficando desligados da mesma até finais dos anos quarenta. Pavel sabe que só junto da IC a situação terá alguma reversibilidade e segue com os dois companheiros para Paris, no intuito de conseguir regressar a Moscovo onde o aguardavam mulher e filho. Foi mal acolhido. A IC desconfiou da sua fuga e os camaradas portugueses abandonaram-no. Hoje sabe-se que as dúvidas sobre si foram forjadas por Armando Magalhães, o homem com aspirações na hierarquia partidária e autor do relatório que fez chegar a Vittorio Codovilla (1894-1970).   Os processos estalinistas na IC haviam feito mais uma vítima.

Depois de meses miseráveis em Paris, durante os quais o jovem António Gomes Pereira piora, é internado e vem a falecer, Pavel, com o apoio do PCE assume a identidade de António Rodriguez Diaz, um revolucionário morto na Guerra Civil de Espanha e segue para o México com o amigo Augusto. Ambos constituirão família mexicana e conservar-se-ão amigos até à morte.



Francisco de Paula Oliveira / Pavel / Antonio Rodriguez com a mulher, Toinette, María Antonieta Fernández


No México e após as naturais dificuldades dos primeiros tempos durante os quais trabalha como torneiro-mecânico - a sua profissão arsenalista -, vai colaborar nos periódicos locais e conviver com as elites progressistas e artísticas que o acolhem e com ele colaboram. Lança-se no estudo da sua mais recente paixão - a Arte -, e vem a tornar-se num grande jornalista, repórter internacional, escritor e crítico de arte, mais tarde professor e, sobretudo, no maior especialista mundial do Muralismo Mexicano. Ficara seduzido por essa forma de arte que os próprios mexicanos pareciam não valorizar. O seu livro «El Hombre en Llamas», editado primeiro na Alemanha Democrática (RDA) e só depois no México, recebeu o prémio do melhor livro de arte na Feira do Livro de Francfort, em 1968.

Após o 25 de Abril António Rodriguez foi convidado, através da Secretaria de Estado da Cultura, (David Mourão-Ferreira) a visitar Portugal, tendo realizado três conferências na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito da exposição sobre Máscaras Mexicanas que ali decorria. Voltou ainda nos anos oitenta mas, para além de alguns apontamentos jornalisticos, a sua passagem foi mais discreta.

Teve quatro filhos do casamento com a mexicana «Toinette», Maria Antonieta Fernandez.

Manteve-se fiel aos ideais e valores humanistas da juventude.
Morreu em 15 de Agosto de 1993.
Portugal desconhece-o.


Julia Coutinho 


Nota: já depois de escrever esta biografia, escrevi uma intervenção sobre Pavel aqui.




domingo, outubro 19, 2008

Parabéns, amiga!






A Angela fez 40 anos no dia 17 de Outubro. Nasceu em 1968. Faz parte dessa excelente safra














Dissertação acerca do tema
“Comemorar ou não comemorar os 40 anos ...”
Quando recentemente anunciei publicamente a minha intenção de comemorar esta data, um amigo meu quase ficou incrédulo chegando mesmo a afirmar “que era preciso ter muita coragem”. Ora, o que ele queria dizer verdadeiramente era que este tipo de comemorações são realmente disparatadas não havendo mesmo razão nenhuma para andarmos neste estado tonto de contentamento precisamente na altura da vida que marca oficialmente o início da n/ decadência... seria até melhor ficar “escondidinha” à espera que isto passesse, na vã esperança de que ninguém note nada! (isto é que é de amigo, sim senhor!)
Ora, tenho para mim que em situações desta natureza só há 2 hipóteses. A hipótese a) entrar num estado de angustia depressiva, desaparecer temporariamente para parte incerta e só regressar quando a neura passar. Ou, hipótese b) disfarçar a coisa através de um processo de auto convencimento: ir acreditando que isto de fazer 40 ano é muito bom, exercitar um estado de alegria natural, juntar a “cambada” e fazer festa rija num saudável ambiente de maluqueira colectiva: cantar, dançar e rir à parva, comer à fartazana e quiçá apanhar uma “ganda buba”.
Pois sempre me inclinei mais para esta última hipótese até porque não fui talhada nem tenho perfil para a “deprimivite”. Para além do que, nestas ocasiões, sempre massajamos razoavelmente o n/ ego com tradicional fiada de piropos da praxe do tipo “Dava-te menos 10 anos”, ou “Tás muito bem: nem cabelos brancos nem pé-de-galinha”, ou ainda (e espero realmente ouvir esta) “Tás muita BOA!”. Por outro lado, também já me disseram que é aos 40 atingimos o auge de... de muitas coisas... da nossa maturidade e assim... Portanto, deposito hoje grande confiança no meu futuro (não sei se por seu turno, o futuro deposita em mim alguma coisa de jeito ...) e até acalento grandes esperanças de... qualquer coisa boa!
Ora, volvidos 40 anos, já deu para perceber que a vida é feita de muitos altos e baixos e que o melhor é mesmo aproveitar os altos, de preferência com bom humor e em boa companhia! Agora ficava bem dizer que vocês são a melhor companhia do mundo e que vos tenho a todos no coração mas depois isto ficava um bocado piroso. Digo-vos simplesmente, e isto agora é muito a sério, que tenho um pouco de cada um de vós na pessoa que sou hoje... e julgo que o recíproco também é verdadeiro.
Bem hajam a todos (especialmente aos quarentões) . Divirtam-se e façam o favor de serem muito felizes!
(A quarentona)

terça-feira, outubro 14, 2008

Antonio Gancho (1940-2006)

Nasceu em Évora em 1940. Morreu no Telhal, onde esteve "encarcerado" os últimos 38 anos de vida.
Deixou poemas que dizem da sua lucidez e da sua liberdade.






SOBRE UMA MANHÃ QUALQUER

Manhã de ouro lhe poderíamos chamar
se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado,
e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho
e a cena desenrolar-se-á com maçãs de estanho,
aves de estanho, rios de estanho...
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz,
a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que material
fora a primeira manhã!
Evidentemente que
(e aqui já cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc. e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje,
e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã,
Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal.

Antonio Gancho, in o ar da manhã, assírio & alvim, 1995

terça-feira, outubro 07, 2008

Antonio Borges Coelho: 80 anos

Transmontano, nasceu em Murça a 7 de Outubro de 1928. Ingressou no Seminário mas bem cedo perdeu a Fé. A mesma fora substituida por uma crença maior: a crença no Homem, nas "gentes de Boa-Fé".
 

A sua vida é um exemplo, uma referência. Lutador antifascista, desde jovem militou e foi dirigente do MUD Juvenil, tendo sido funcionário do Partido Comunista Português. Preso no Aljube e em Peniche, passou anos nas prisões e sofreu as represálias infligidas pela PIDE aos que ficaram, após a fuga de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960. Foi ainda em Peniche que casou com a Isaura, também ela uma lutadora pelos direitos cívicos das Enfermeiras, e por isso presa, julgada e condenada. Pai e avô babadíssimo da Sónia e do Francisco.

Historiador e investigador incansável, ao seu labor honesto e meticuloso se devem os primeiros trabalhos que abriram caminhos e desfizeram mitos da História de Portugal, como bem recordou Cláudio Torres. Após o 25 de Abril ensinou na Faculdade de Letras de Lisboa (FLUL). Conheço ex-alunos que o recordam não só como Mestre e Pedagogo mas, sobretudo, como Humanista. Com um imenso respeito. O mesmo respeito com que o Professor Borges Coelho os tratava, mesmo quando as divergências ocorriam.

Perseguidor da utopia universalista, acredita que os Homens podem transformar o mundo e torná-lo melhor. Acredita no diálogo, nos consensos mínimos, no poder da(s) palavra(s) e na aproximação dos contrários se com boas-vontades. Como se todos pudessemos ser "crianças crescidas" e ter o dom da inocência dos primeiros olhares. Acreditar. Confiar. Perseguir. Lutar.

Amante da poesia, escreveu em Janeiro de 1957:


LIBERDADE
... amo-te de menino
Encontrei-te
Num mundo de operários
Na prisão

É TEMPO ! É TEMPO!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!



Foi este o poema escolhido para decorar o enorme bolo comemorativo dos 80 anos do professor António Borges Coelho. Um festa da iniciativa da equipa do Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, que Borges Coelho fundou e dirigiu entre 1999 e 2005.

Eu estive lá e foi emocionante ver e sentir aquela imensidão de pessoas dos mais variados quadrantes políticos e culturais irmanados num objectivo comum: homenagear um Homem e um Amigo de excepção. A mostrar que não existem barreiras que resistam, se os Homens quiserem. Pessoalmente sinto-me uma privilegiada pela sua amizade.

Assinalando a data, a Caminho reeditou Portugal na Espanha Árabe, uma obra pioneira, que foi apresentada por Cláudio Torres.