sábado, junho 21, 2008

M Teresa Horta: a minha solidariedade

No caderno Inimigo Público de 6 de Junho, leio:
"De 26 a 28 de Junho vai realizar-se um Congresso Feminista na Fundação Gulbenkian, organizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), cujas organizadoras prometem não queimar soutiens, para contrariar o estereótipo. "Nós somos mulheres modernas. Vamos destruir o novo símbolo da sujeição da mulher à vontade masculina: os implantes de silicone. Mas como eles são resistentes ao calor, vamos explodir duas tetas falsas, como os taliban fizeram aos dois budas Bamyan", explicou Maria Teresa Horta, uma das feministas envolvidas no congresso. "E aconselhamos vivamente todas as mulheres a verem o filme 'Sexo e a Cidade' e a não comerem pipocas, mas testículos de porco salteados, como forma de mostrar o desprezo pela pseudo- superioridade masculina", concluiu."
Acho inadmissível que um jornal sério, como o Público, se esconda atrás de um suposto caderno humorístico para ridicularizar um acontecimento tão relevante como o próximo Congresso Feminista. Execrável ainda que, para atingir esses fins, salte por cima de toda a ética e vá buscar o nome de uma feminista de primeira linha como a Maria Teresa Horta, colocando na sua boca palavras que nunca proferiu. Como pode um orgão de comunicação social, que deveria informar, permitir-se achincalhar um acontecimento como o que vai ocorrer no proximo fim de semana? E como pode insultar Maria Teresa Horta, uma mulher a quem todas as mulheres portuguesas devem alguma coisa? Pode não se concordar com as suas posições, pode não se ter qualquer simpatia pelas suas ideias, mas o que não pode deixar de existir é a ética no trabalho jornalístico e o respeito que se deve a todas as pessoas. Como mulher, sinto-me igualmente insultada. Aqui deixo a minha solidariedade à Teresa.

sexta-feira, junho 20, 2008

Venham ao Restaurante Baía, no Seixal

A Lurdes e o Vitor Sarmento tomaram conta do Restaurante Baía (na magnífica baía do Seixal) e imprimiram-lhe os traços da sua personalidade. Quem lá fôr almoçar ou jantar encontrará no Baía uma comida excelente que fez com que já antes obtivesse alguns prémios gastronómicos, mas também almoços a preços mais económicos para quem por ali trabalha, a par de um ambiente óptimo para quem, à noite, gosta de jantar num ambiente de amigos e ao som da música popular portuguesa.
A cultura e a gastronomia de mãos dadas, com exposições temporárias dos nossos artistas plásticos. No momento encontra-se patente uma mostra do excelente fotógrafo Dionisio Leitão. Apareçam por lá.

quinta-feira, junho 19, 2008

Jose Dias Coelho (1923-1961)



Se fosse vivo, o escultor José Dias Coelho, faria hoje 85 anos.
Nasceu em Pinhel, em 19 de Junho de 1923 e foi morto por uma brigada da PIDE na antiga Rua da Creche (actual Rua Jose Dias Coelho) no dia 19 de Dezembro de 1961. Tinha 38 anos. 
Artista plástico, estudou na Escola de Belas-Artes de Lisboa, de onde foi expulso por um ano (daquela e de todas as escolas do país) em 1952, num processo escolar que envolveu 81 alunos por se terem solidarizado com o colega Antonio Alfredo, acusado de ter inscrito a palavra PAZ nas paredes da escola. 
Expôs nas EGAPs, Exposições Gerais de Artes Plásticas (1946-1956), na SNBA, e pertenceu, com muitos outros, à sua equipa organizadora. 
Grande activista do MUD Juvenil liderou a Comissão de Escola de Belas Artes e integrou a sua direcção universitária em 1947 quando o processo de luta estava ao rubro com a prisão consecutiva de todos os principais dirigentes. 
Militante do PCP desde 1942, ligado inicialmente às Juventudes Comunistas, passou à clandestinidade em 1955. 
Quando o mataram era o responsável pelo Sector Intelectual na Direcção do Comité Local de Lisboa.
 
João Abel Manta, um amigo de sempre, lembrou-o assim em 1974.
















quarta-feira, junho 18, 2008

Hoje, 18h30, Livraria Círculo das Letras

cristal da pele
poemas por dentro das mãos
de José Manuel Carreira Marques
com desenhos inéditos de Jorge Vieira
apresentação da obra por José Manuel Mendes
18.Junho, 18h30, Livraria Círculo das Letras
Rua Augusto Gil, 15 B

terça-feira, junho 17, 2008

Caldas da Rainha está quase de luto ...

Leio na Gazeta das Caldas e nem acredito. A Secla, essa fábrica mítica da minha infância, pioneira na inovação artística do design cerâmico e que deu emprego ao grosso dos homens e mulheres da minha terra, está condenada a fechar no final de Junho. Leio, mas recuso-me a crer. Não é possível que as entidades locais assistam a este descalabro e nada façam. Que o governo central igualmente lave as mãos. Que se deixe destruir um património cultural de referência local e nacional. E que se atire para o desemprego as inúmeras pessoas que ali trabalham, famílias inteiras em alguns casos, a maioria apenas conheceu aquele emprego.
Da Gazeta das Caldas de 13 Junho último:
«(...) um dos aspectos inovadores e mesmo revolucionários foi a existência [na Secla] de um atelier de criação, institucionalizado por um dos fundadores, Pinto Ribeiro (...) Por este atelier passaram algumas das figuras mais importantes da arte portuguesa, como Hansi Stael, Júlio Pomar, José Aurélio, Alice Jorge, António Quadros, Ian Hird, Ferreira da Silva, José Santa Bárbara e Miriam Câmara Leme.»

segunda-feira, junho 16, 2008

Convite

Para além da escrita . uma escrita feminina?
Dia 18 de Junho, 4ª feira, às 18H00,
no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,
Avenida de Berna, 26-C, Torre B – em Lisboa

Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher convidou os escritores, Prof. Doutores Teresa Rita Lopes, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral e Maria Lúcia Lepecki a participar numa sessão a propósito do tema:
Para além da escrita.uma escrita feminina?
Os quatro nomes referidos são os de grandes poetas, ensaístas e críticos literários. Qualquer dos oradores representa todo um universo capaz de nos mobilizar pela palavra, pela poesia que conferem à escrita. Escutar o que pensam sobre a escrita feminina, se a escrita tem género, contrariar o mainstream … tanto ainda a questionar. Perfis muito distintos, da pluralidade dos seus trabalhos e da força das suas convicções surgirá porventura a âncora para a discussão a ter lugar.

domingo, junho 15, 2008

Belas-Artes e Segredos Conventuais, um livro de Rocha de Sousa

João Rocha de Sousa (n, 1938)





Belas-Artes e Segredos Conventuais é o livro que tardava e que em boa hora Rocha de Sousa acaba de lançar. Não é ainda o livro da história do ensino artístico que precisamos, mas vem dar um contributo fundamental para que essa História, finalmente, se comece a fazer. Este é o livro que faltava sobre a realidade da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa a partir da reforma de 57. Diz-nos dos contornos de um ensino obsoleto e desfasado, dominado por docentes no auge do anacronismo e onde não se vislumbrava sequer esboço de modernidade.

Foi escrito por quem sentiu a opressão como aluno e professor na velha escola de Lisboa e assistiu a reformas que nada reformaram. Que ali viveu o antes e o depois do 25 de Abril. Alguém que ama a Arte e o ensino artístico, e sabe que a Memória é a principal aliada da História.


livro editado pela Tartaruga, 2008



Palavras do autor ao JL de 4 do corrente:

«Desde os anos 50 à actualidade, o livro aborda os aspectos históricos concretos das várias reformas que houve na Belas-Artes, mas não com um carácter histórico ou de memorando. (...) é um romance que vai mostrando a vida do universo escolar numa altura particularmente estreita e amordaçada - o que era imposto pela própria direcção. É, sobretudo, uma memória, uma denúncia, e também uma nostalgia de certas coisas que se perderam no meio dos cercos feitos a cada um dos alunos. (...)»
(...)
«Fiz toda a minha carreira a partir de uma escola extremamente antiga e desactualizada para a época - que nos traumatizava por isso. Tínhamos que desempenhar os nossos talentos fora, em ateliers. (...) Enquanto professor, fui perseguido pelo director, numa altura em que tentei furar esse cerco da escola. (...) foi uma luta alucinante contra governos absolutamente autistas, para fazer ver que as artes são indispensáveis à formação e desenvolvimento do país.» (...)

Como apresenta Belas-Artes e Segredos Conventuais?

«Diria que o livro se refere, em parte, à realidade do ensino artístico português, que foi sendo transformado por algumas reformas, sempre atrasadas cerca de trinta anos. É preciso ter consciência dessa realidade, mesmo tendo já passado. Especialmente porque a maior parte dessas coisas se mantiveram e continuam a ser parte da natureza do país.»

Obrigada, prof. Rocha de Sousa.


julia coutinho









NOTA: O livro foi editado pela Tartaruga, e encontra-se à venda nos seguintes locais: Livraria Sá da Costa (Chiado), Livraria Ler (Campo de Ourique), Livraria da Faculdade de Belas-Artes, Galeria Valbom (av Conde Valbom 89-A) e em breve na Buchholz.
Mas basta ligarmos para a editora através do 919228593, fornecer os dados, e o livro chegará no dia seguinte, à cobrança, via CTT. Foi o que fiz.

sábado, junho 14, 2008

A minha homenagem a Mirita Casimiro (1914-1970)

Vasco Santana (1898-13.6.1958) faleceu quando Lisboa festejava o seu santo padroeiro e o país era atravessado pelo "furacão Humberto Delgado". Jorge Leitão Ramos evoca agora, passados 50 anos, o actor que reinou na comédia portuguesa sem contudo esquecer Mirita Casimiro (1914-1970) a actriz com quem formou, durante anos, uma dupla imbatível, e depois perseguiu. Aqui fica uma faceta menos conhecida e pouco agradável do grande actor português.

"O homem das mulheres
A faceta de conquistador de Vasco Santana ficou lendária. Lendários ficaram também os amores mais duradouros, como os que teve com as actrizes Arminda Martins (com quem teria o futuro actor Henrique Santana), Aldina de Sousa (que viria a morrer em pleno sucesso de «O Meu Menino», em 1930, e foi mãe do segundo filho de Vasco, José Manuel) e, sobretudo, Mirita Casimiro.
No pequeno meio teatral lisboeta, Vasco terá conhecido a azougada beirã que descera de Viseu a Lisboa para se tornar uma das mais amadas actrizes do seu tempo, logo em 1934, quando se estreou na revista «Viva a Folia!». Em Maio de 1936 pisam pela primeira vez o palco, numa festa artística de Lucília Simões, fazem mais alguns trabalhos e, em 1937, estão juntos à cabeça do cartaz da revista «Olaré Quem Brinca». Entre os dois gerara-se uma paixão tumultuosa que toda a Lisboa havia de saber e seguir. Chegariam a casar (em 14 de Agosto de 1941), mas o mais importante foi a dupla que encabeçou êxito atrás de êxito, nessa primeira metade dos anos 40 em que a Europa estava em guerra, por aqui se vivia a neutralidade que Salazar assegurara e Lisboa, por uma vez, se tornava cidade cosmopolita, com o seu corrupio de refugiados, alguns deles célebres - e com direito, até, a figurar como miragem da liberdade no célebre «Casablanca».
Mirita Casimiro e Vasco Santana estiveram no Olimpo do teatro até 1946 - a grande girândola foi a revista «Alto Lá com o Charuto», meses e meses em cartaz no Variedades. Mas a paixão feneceu, o casamento desmoronou-se com escândalo, e Mirita iria penar em produções de segunda linha, já que o poder de Vasco Santana no teatro português era então suficiente para praticamente a banir da ribalta. E foi o que fez - uma faceta menos divertida do actor bonacheirão. 
Mirita Casimiro partiria para o Brasil no final da década, e a sua carreira nunca mais se recompôs." 
(Jorge Leitão Ramos in Actual, Expresso 13.6.2008)



Mirita Casimiro em Maria Papoila, o filme de Leitão de Barros, de 1937

no livro ‘Quando os Vascos eram Santanas’, Beatriz Costa traçou-lhe o retrato numa frase lapidar: "Mirita foi a maior de todas nós, embora a menos feliz

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/sem_saudades_na_lembranca_disse_adeus
Mirita Casimiro, de seu nome Maria Zulmira Casimiro de Almeida, nasceu em Espinho quando a familia ali passava férias, em 10 Outubro 1914, mas sempre se considerou viseense já que de Viseu era toda a família e em Viseu foi criada. Era neta do grande cavaleiro tauromáquico Manuel Casimiro de Almeida, sendo também o pai e os irmãos ligados à chamada festa brava.

Cansada de ser discriminada e boicotada em Portugal pelos principais empresários de revista, Mirita Casimiro parte para o Brasil em 1956 já com o segundo marido, o jornalista João Jacinto, e uma filha de ambos. Regressou apenas em 1964, seis anos após Vasco Santana ter falecido.

A partir de 65 trabalhou com o TEC, Teatro Experimental de Cascais, vila onde residia, e com eles fez peças como A Casa de Bernarda Alba, de Garcia Lorca,  Mar, de Miguel Torga, sendo de destacar o êxito de A Maluquinha de Arroios de André Brun que esteve um ano em cena.

Porém, em 1968 sofreu um grande desastre de viação com a actriz a ter de ser desencarcerada com graves traumatismos que a deixaram desfigurada e impossibilitada de voltar aos palcos. Entrou, então, numa espiral depressiva. Doente e cada vez mais isolada, sem o acolhimento ou reconhecimento esperados, acabou por suicidar-se com ingestão de comprimidos em 25 de Março de 1970. Foi sepultada em Viseu. Tinha 55 anos.

Beatriz Costa, que a conheceu bem, dedicou-lhe as seguintes palavras no livro de memórias Quando os Vascos eram Santanas:  «Mirita foi a maior de todas nós, embora a menos feliz».

no livro ‘Quando os Vascos eram Santanas’, Beatriz Costa traçou-lhe o retrato numa frase lapidar: "Mirita foi a maior de todas nós, embora a menos feliz."

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/sem_saudades_na_lembranca_disse_adeus
no livro ‘Quando os Vascos eram Santanas’, Beatriz Costa traçou-lhe o retrato numa frase lapidar: "Mirita foi a maior de todas nós, embora a menos feliz."

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/sem_saudades_na_lembranca_disse_adeus
no livro ‘Quando os Vascos eram Santanas’, Beatriz Costa traçou-lhe o retrato numa frase lapidar: "Mirita foi a maior de todas nós, embora a menos feliz."

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/sem_saudades_na_lembranca_disse_adeus
Julia Coutinho

sexta-feira, junho 13, 2008

Façamos da Memória uma bandeira

Hoje é sexta-feira 13. Não, não sou supersticiosa. Tal como sou ateia, sou avessa a superstições. Gosto do 13 e era preto o meu primeiro gato. À parte o facto de hoje ser feriado municipal em Lisboa, por via do santo casamenteiro, quem eu quero mesmo aqui lembrar são dois homens singulares que no mesmo dia, em 2005, um em Lisboa e outro no Porto, nos deixaram fisicamente: Álvaro Cunhal (1913-2005) e Eugénio de Andrade (1923-2005). Um político e outro poeta, com percursos de vida diferenciados, mas ambos amantes da arte e admirando-se mutuamente, entregaram-se aos valores em que acreditavam, tendo-nos legado um património político, cívico e cultural sem paralelo. Todos os portugueses são subsidiários da sua obra e do seu exemplo. Que a nossa Memória colectiva saiba merecê-los.
Rotina
Passamos pelas coisas sem as ver, //
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,//se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,//vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugenio de Andrade

quarta-feira, junho 11, 2008

Vasco Gonçalves, o militar que o povo mais amou

General Vasco Gonçalves (1922-2005)



Foi no dia 11 de Junho de 2005 que faleceu o general Vasco Gonçalves.

"Não morreu mais um de nós, morreu o militar que o povo mais amou, pois orientou sempre a sua vida na luta pelos mais desfavorecidos, pelos soldados e pelo seu povo, como dizia"
- palavras do militar de Abril, coronel Nuno Pinto Soares.

O povo simples e mais desprotegido amou-o. Para todos nós ele era o "Companheiro Vasco". Muitos portugueses tiveram férias pela primeira vez, outros, habitação e assim sucessivamente.

Jovem que era, também eu lhe sou devedora por ter podido concretizar o desejo de alugar casa própria, mercê da Lei do Arrendamento que promulgou e que, entre outras medidas, congelou as rendas até à reorganização do sector e proibiu a especulação do sub-arrendamento, um procedimento corrente. Desde 73 que pagava balúrdios por um pequeno apartamento sub-alugado. Graças a estas medidas pude negociar directamente com a senhoria e passar o contrato para meu nome, ficando a pagar um terço da renda que pagava à senhoria fictícia. Aos pobres estava a ser devolvida a dignidade.

Foi perseguido. Foi caluniado. Foi apelidado de louco.

Acredito que a História um dia lhe fará, finalmente, Justiça.

julia coutinho




terça-feira, junho 10, 2008

Parabéns, Vitor Serrão

Hoje, 10 de Junho de 2008, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, foi agraciado com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada, Vítor Manuel Guimarães Veríssimo Serrão, professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Um grande Investigador a quem a História da Arte Portuguesa, em especial dos séc. XV a XVIII, muito deve.

Pioneiro das questões do Património, ao seu esforço metódico e militante se deve muito ou quase tudo do que existe estudado e inventariado neste campo. Um grande Mestre que tive a honra de ainda ter como professor no meu último ano de faculdade. Um grande Humanista para quem os valores da amizade e da solidariedade são práticas de vida. Homem discreto e avesso aos holofotes das lisonjas públicas, porventura mais reconhecido lá fora do que cá dentro, sempre a mim me pareceu que aos nossos governantes lhes era indiferente o trabalho realizado nesta área. Como se a Arte fosse o parente pobre da cultura. E, no entanto, desde que o Prof. Vitor Serrão tomou conta do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, assistiu-se a uma dinâmica qualitativa que ninguém hoje pode ignorar. A ele se deve, entre outras iniciativas relevantes, o lançamento da revista ARTIS e a criação do Mestrado em Estudos do Património.

Sempre me perguntei como era possível agraciarem-se anualmente as mais diversas personalidades de todos os quadrantes sócio-politicos, da cultura e até do entretenimento e desvalorizar-se a nossa História da Arte. Como podem os nossos governantes da cultura ignorar a forma séria, disciplinada, honesta e persistente como a arte vem sendo estudada, inventariada, sistematizada, ensinada e reflectida por Vitor Serrão?

Com esta distinção da parte do Estado começa a fazer-se justiça. “A arte é tão importante que pode legitimar as mais horríveis ideologias”, diz ele numa entrevista recente. Sugiro que a leiam.

quinta-feira, junho 05, 2008

A lucidez da distância

Da entrevista de Maria de Medeiros ao JL de 4 de Junho:

Como se vê Portugal aí de fora?

"Encheu-me de orgulho a adaptação do Ensaio sobre a Cegueira, por Fernando Meirelles. (...) É importante que o mundo se aproprie dos nossos artistas, que os trate e os interprete. O filme de Saura, sobre os fados, emocionou-me muitíssimo. O Portugal que vale é o que está aberto ao mundo, se deixa apropriar. Não aquele fechado sobre si mesmo, com nostalgias absurdas. Como se pode ter nostalgia de tempos negros e opressivos? Quando vou a Portugal choca-me a catadupa de livros, séries e produtos à volta de Salazar. Parece-me um absurdo. Nos outros países não há uma nostalgia assim de um ditador. Romantiza-se um período, ocultando o horror da tortura e da guerra."

Absurdo e pouco ético, dizemos nós. As editoras descobriram a galinha dos ovos de oiro. Quem escreve, também. E os leitores vão sendo intoxicados.

terça-feira, junho 03, 2008

O cravanço das maquinas encravadas

Ainda me lembro da pesada máquina de escrever mecânica onde me iniciei na escrita e da alegria quando comprei uma portátil. No início dos anos setenta troquei-a por uma eléctrica e sentia-me voar. Os toques nas teclas seguiam ao ritmo do pensamento. Hoje a electrónica invadiu as nossos vidas e já não prescindimos das milhentas máquinas e maquinetas automatizadas que nos impingem. Dos PC´s e da parafernália de acessórios. Dos telemóveis de várias gerações e afins. Consumistas compulsivos, trocamos estes objectos pelos modelos actualizados ou com design mais vistoso que o mercado nos oferece. Tornámo-nos electro-dependentes.
Também na via pública hoje dispomos de alguns serviços automáticos. Junto da minha casa tenho um posto dos CTT que me vende as franquias postais. Uma maquina para venda de preservativos à entrada da farmácia do meu prédio. Para já não falar nas caixas do multibanco.
Acontece que há dias meti cinco euros na maquina dos CTT e fiquei sem o dinheiro e sem os selos. Encravou, simplesmente. Telefonei. Fiz queixa. Recebi, passados dias, uma carta com um pedido de desculpas e... cinco euros em selos do correio! Pasmei. Afinal a burocracia já não é o que era. Há coisas que funcionam, e o serviço de Apoio aos Clientes dos CTT, funciona mesmo.
Poderei dizer o mesmo da CP ? Hoje precisei de viajar na linha de Cascais e tive que servir-me das máquinas automáticas para compra dos bilhetes. Com a pressa marquei para o fim da linha, Cascais (queria Parede). Tinha a pagar 1,65 euros. Coloquei 2 euros na ranhura. Recebi o bilhete e, em vez do troco, a mensagem "esta caixa está momentaneamente impedida de dar trocos" !
No regresso comprei bilhete nas máquinas de São Pedro. Marquei para o Cais do Sodré e constatei, estupefacta, que o valor pedido era o mesmo: 1,65 euros, correspondente ao transporte desde o início ao final da linha! Senti-me roubada. Tamanha desfaçatez no assalto ao bolso dos utentes causa indignação. Bem pode chamar-se o "cravanço" das máquinas encravadas.

MENSAGEM de Fernando Pessoa

Hoje - 3 de Junho - 18:30 H
Casa Fernando Pessoa

(clicar na foto)

sexta-feira, maio 30, 2008

Cartas a uma Ditadura

Se ainda não viu ... Não Perca !
"Documentário de Inês Medeiros que revisita a memória dos anos do salazarismo através do olhar e testemunho de várias mulheres, de diversos extractos sociais, que, em 1958, foram convidadas a manifestar o seu apoio a Salazar, em cartas laudatórias (...) aquando da campanha do General Humberto Delgado. Desde as mais fervorosas defensoras do ditador até às mais comedidas ou simples, em quem a propaganda surtia outro tipo de efeito, "Cartas a uma Ditadura" desmonta o regime e as suas estratégias de perpetuação."
Cinema Londres
Sessões: 14h15, 16h, 18h, 20h, 22h, 00h15

quinta-feira, maio 29, 2008

Quem se lembra do poeta?

Pedro Oom (1926-1974)
Foi pintor e poeta neo-realista, ligou-se depois aos surrealistas Cesariny, Mário Henrique Leiria e António Maria Lisboa.
A sua obra ficou dispersa, sendo reunida postumamente em livro. Morreu em Lisboa, em Abril de 1974. De emoção.


Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom
Actuação Escrita
Lisboa, & Etc., 1980

assunto encerrado

Recebi ontem um telefonema muito correcto da parte do provedor da sonae, a quem apresentara queixa da Clix. Hoje escreveram. Lamentam. Apresentam desculpas. Facilitam a cedência da linha à nova operadora. Não vou pagar nada.
Gostei da atitude. Da frontalidade da resposta. Aqui fica o aviso: dirijam-se ao provedor sempre que vos acontecerem fenomenos idênticos. Eu só lamento não o ter feito mais cedo. Teria evitado um mês de conflitos e arrelias com os inevitáveis transtornos para a minha vida pessoal e profissional. Mas a verdade é que também não estava informada. Devo essa dica a minha amiga Tereza Afonso. Obrigada, amiga!

quarta-feira, maio 28, 2008

Centenário de Ian Fleming - Hoje no Estoril

Ian Fleming nasceu há 100 anos.
O acontecimento vai ser comemorado hoje, dia 28 de Maio, pelas 21 horas, no Estoril, no Espaço Memória dos Exílios (Marginal - 1º andar da antiga Estação dos CTT), com uma conferência sobre a vida e a obra do criador de James Bond, o mítico Agente 007, proferida por José António Barreiros, que também está a ultimar um livro sobre o mesmo assunto, a sair muito em breve.

terça-feira, maio 27, 2008

Ainda a mudança de operadora

A questão da mudança de operadora adsl ainda não terminou e quase roça a rasqueirice.
Faz amanhã um mês que a Clix me deixou silenciada à força. Dia 12 desisti. Desde o dia 14 tenho net e telefone de outra operadora.
Pois há dias recebi uma carta atenciosissima da Clix dando-me as boas-vindas e informando que desde o dia 16 sou sua cliente, com todos os direitos e deveres. Imagino que isto queira dizer que estão a facturar-me.
E hoje, dia 27, via ctt, chegou o kit com o modem para a linha adsl!
Um mês depois de me terem desviado a linha e deixado muda...
Foi comigo. De contrário teria dificuldade em acreditar.

violência doméstica é crime

Passam hoje oito anos que a Lei consagrou a violência doméstica como um crime público. E eu quero lembrar aqui, a minha mãe - Maria Helena Coutinho -, vítima paradigmática da mais atroz violência, numa curtíssima vida.
  • Nasceu de uma mãe-criança e foi estigmatizada por um "pai incógnito".
  • Casou por obrigação porque "eu" vinha a caminho.
  • Sofreu violências físicas e psicológicas de um marido que não quis.
  • Morreu de um aborto clandestino.
Foi no dia 1 de Maio de 1952. Em Caldas da Rainha. Tinha 24 anos. Deixou três crianças, a mais velha com 4 anos, eu.
Jurei que a minha vida seria diferente. Que lutaria por ela e por todas as Mulheres que, como ela, foram imoladas neste longo caminho pela emancipação e instauração dos Direitos Humanos. Por todas as Mulheres que, com a aprovação da Lei da Violência Doméstica e, depois, com a Lei do Aborto começaram, finalmente, a ser justiçadas no nosso país.
Através da minha mãe aqui fica a minha homenagem às "Mulheres do Meu País" (como diria Maria Lamas) num momento em que se prepara um Congresso Feminista, 80 anos depois do primeiro, organizado em 1928 pelas corajosas Mulheres da I República.

domingo, maio 25, 2008

Resgatar a Memória

Há tempos numa palestra ouvi que os astros influenciam a nossa vida e muitos dos nossos empreendimentos estão potenciados desde que nascemos. Alguns seres transportam mesmo uma espécie de missão para a qual frequentemente se sentem compelidos e que abraçam ou não. Sinto-me tentada a acreditar.
O meu amigo João Manuel Firmino lançou agora O Crime dos Velhos da Camarra, onde resgata a memória do bisavô, João Baptista Firmino, um livre-pensador, republicano, maçon e carbonário que, na transicção do século XIX para o século XX é acusado, injustamente, de um crime, no Barreiro, e acaba por morrer na Cadeia do Limoeiro, precisamente quando a análise das provas o ilibavam. Um crime sinistro, num tempo de grandes convulsões politico-sociais e que ficou impune.
Para escrever este livro, o João passou os ultimos anos retirado do mundo. Tirou licença sabática e prejudicou a carreira. Deixou de ter tempos livres. Afastou-se dos amigos. A família teve que aceitar a sua ausência. Passou a viver entre arquivos, bibliotecas, livros e documentos. Só descansou quando finalmente o livro foi editado e posto em circulação. Fui ouvi-lo no dia 18. Fazia anos que morrera, de vergonha e sofrimento, 0 bisavô, esse homem que agora resgatara finalmente do silêncio de mais de um século. Missão cumprida.

sábado, maio 24, 2008

O nóvel Museu do Oriente

Inaugurou no passado dia 8 de Maio, por iniciativa da Fundação Oriente. Fica em Alcântara, no enfiamento do viaduto que vem da Infante Santo e atravessa a marginal. Aproveitou um edifício típico da arquitectura estadonovista dos anos quarenta, concebido pelo Arq. João Simões em 1939, com belíssimos painéis fronteiros em baixo-relevo do escultor Barata Feyo. Concebido para armazém-frigorífico portuário, estava há muito abandonado. Foi agora recuperado, modernizado e adaptado para Museu pelos Arqts. João Luis Carrilho da Graça e Rui Francisco, tendo estes respeitado o essencial da traça primitiva.
Excelentes instalações. Com grande amplitude e cinco pisos, três são dedicados às exposições (2 permanentes e 1 temporárias). Dispõe de restaurante no último piso, um excelente auditório e uma zona de reuniões, enquanto nos inferiores funcionam a loja e livraria, o centro de cocumentação e uma cafetaria.
Só não gostei da decoração e iluminação das exposições. Salas muito escuras (predomínio do negro) e com pouquíssima visibilidade. Talvez tenham enveredado pelo que tecnicamente melhor serve os objectivos de conservação mas, esteticamente, não resulta. Também a temperatura estava baixa em demasia. Desagradável. E por que não gravam as letras nas portas em vez do papel autocolante que evidenciam?
Quanto aos conteúdos nada temos a dizer. São francamente bons. De repente somos transportados para o meio de culturas e ambiências longínquas e estranhas mas que se vão interpenetrando até nos chegarem a soar familiares. Sobretudo se iniciarmos a visita pelo segundo piso em sentido descendente.
Sugiro que vão até lá. Vale a pena.

quarta-feira, maio 21, 2008

Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008)

Faleceu hoje. Em Londres, cidade onde viveu a partir de 1961, convidado que foi para ensinar na Slade School of Fine Arts, precisamente onde antes (1956-58) se especializara em Gravura com Anthony Gross.
Tive o privilégio de conhecê-lo em 2001 por intermédio de Sá Nogueira tendo-me recebido algumas vezes no atelier da casa que tinha na zona histórica de Sintra. Um atelier repleto de obras de arte e livros e com gavetas atulhadas de gravuras, esquissos e fotografias, sempre com música clássica por fundo, e onde me foi dizendo do tempo de estudante da Escola de Belas Artes de Lisboa, nos inicios de cinquenta, dos colegas e amigos e das lutas que empreenderam pela dignificação do ensino e pela legalização da Associação de Estudantes. Do MUD Juvenil e das reuniões e convívios que promoveu no enorme casarão onde residia, na António Augusto de Aguiar, na ausência dos pais. Das lutas politicas aquando da reunião da NATO em Lisboa, em 1952, e como na sequência disso foi instaurado um inquérito a 81 alunos da ESBAL, onde se incluía, terminando com a expulsão de alguns deles. Das gravuras que criavam para venda e angariação de fundos. Dos bailes e convívios culturais na SNBA com o mesmo fim. De como se discutia arte e política e se odiava Salazar. Das tertúlias que se fomentavam nos cafés com destaque para o Café Chiado onde as Belas-Artes assentava arraiais. Dos espectáculos vistos do galinheiro do São Carlos. Dos bailados da Margarida de Abreu. Do Coro do Lopes Graça, da Sonata e dos recitais de poesia na Academia dos Amadores de Música e na SNBA. Das Gerais de Artes Plásticas, na SNBA. De como a velha Casa dos Artistas passou a ser o ponto de encontro para todos os artistas oposicionistas. E também de como se abrigavam clandestinos e se fomentavam cadeias de apoios vários naqueles tempos sombrios. Das amizades, das cumplicidades, das solidariedades e de como em conjunto aprendiam a Vida.
Ofereceu-me o catálogo autografado daquela que foi a sua primeira exposição individual, em 1959, na SNBA, quando ainda assinava Bartolomeu Cid.
A ele devo a revelação e a discussão do artigo de António Vale (pseudónimo de Alvaro Cunhal) sobre Forma e Conteúdo, publicado na Vértice em 1954.
Um dia levou-me ao primeiro andar da casa de Sintra, abriu uma das enormes gavetas atulhadas e tirou de lá dois linólios, duas pequenas relíquias editadas pelo MUD Juvenil de Belas-Artes, em 1952. Comprara-as então. Não estão assinadas, por precaução conspirativa, e nenhum de nós conseguiu descortinar a autoria. Sugeri que as doasse ao Museu do Neo-Realismo. Anuiu de imediato. Mas, que ia primeiro mandar restaurá-las. Mais tarde haveria de escrever-me e repetir sempre que nos encontravamos: "já lá tenho as gravuras para dar ao Museu do Neo-Realismo!" Creio que ainda lá continuam... em Sintra.
Congratulou-se com o catálogo que escrevi sobre José Dias Coelho, editado pela CM de Pinhel em 2003, o camarada e amigo que o iniciou nas lutas politicas. Escreveu-me: "que eu saiba, esta é a primeira achega à obra do Zé Coelho. Parece-me no entanto (...) que a escolha das obras podia ter sido melhor. Também o design deveria ser melhor, muito melhor...". Tinha inteira razão.
Vi-o pela última vez em Maio do ano passado quando inaugurou uma exposição na Galeria Ratton, à Academia das Ciências. Uma exposição lindíssima onde explorava o sagrado (laico) e o profano. Achei-o muito cansado. Mas feliz, rodeado de amigos, alguns seus colegas quando estudantes no velho convento de São Francisco: Leonor Sena da Silva, Júlio Moreira, Augusto Sobral, José de Almada, Vasco Croft de Moura, João Vieira e outros.
Falámo-nos pelo 25 de Abril. Não podia ir ao jantar "Em Abril Esperanças Mil". Ia a guiar, como sempre dividido entre a casa de Sintra e a de Tavira, essa terra onde tinha o espaço privilegiado de trabalho e onde planeava terminar os dias, abrindo à comunidade um Atelier de Desenho!
Morreu em Londres. Mas vai regressar aqui e as cinzas serão lançadas no rio que banha a amada Tavira. Que saudades eu sinto desta ínclita geração que o tempo, inexorável, teima em fazer desaparecer. E como fazem falta pessoas como o Bartolomeu!

domingo, maio 18, 2008

Guerrilha das operadoras ADSL

Juro que não foi intencional esta minha ausência.
Explico-me. Vi-me obrigada a mudar de operadora arrependida já de ter aderido à Tele2 que, a troco de mensalidade menos onerosa, me deixara enredada em problemas técnicos e sem serviços de apoio ao cliente.
Firmei contrato com a Clix em Janeiro passado. Na altura tiveram o cuidado de enviar um estafeta a minha casa para recolherem a minha assinatura no contrato. Apesar de prometerem uma mudança rápida, um silêncio absoluto manteve-se durante quatro meses.
Subitamente, no dia 29 de Abril, sem quaisquer explicações, cortam-me a linha adsl e deixam-me sem net! Vésperas de feriado... fim de semana prolongado. Reclamo e dizem que mandaram por correio o kit da Clix com o modem... quando chegar é só meter o cd e configurar ... Passam dias, volto a reclamar e dizem que afinal não mandaram mas que tenho duas opções: ou espero que enviem por correio e demora uns 5 dias úteis, ou posso ir comprar a qualquer loja da especialidade !! Exijo que mo coloquem em casa.
E as desculpas repetem-se, sempre diferenciadas. Nunca consegui falar com o responsavel dos serviços de Apoio ao Cliente, ou sequer com a secretária.
Até que no dia 12 desisto e decido apresentar queixa à Anacom.
No mesmo dia adiro aos serviços da Sapo que, como sabem, pertence à rede PT. A 14 tinha um tecnico cá em casa para mudar a linha telefonica. Nesse mesmo dia passei a ter telefone e net.
Entretanto, no dia 16 recebi uma sms da Clix felicitando-me por ter aderido aos seus serviços !!!
Quanto ao kit com o respectivo modem nunca apareceu.

segunda-feira, abril 28, 2008

Vale a pena ver

Do João Callixto, um amigo do tempo em que ambos fizemos parte de uma lista para a direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, a célebre Lista E, que nos anos noventa venceu por três vezes consecutivas as eleições para aquele orgão associativo (um dia escreverei sobre isso) recebi o link para um filme extraordinário que merece a maior reflexão e divulgação possíveis.
Sugiro que percam uns minutinhos e vejam o como e o porquê das coisas, como tudo acontece e, ainda, como nada se deve ao acaso.

http://video.google.com/videoplay?docid=-3412294239230716755&hl=en

Reflexões em torno de María Zambrano

30 Abril - 4ª feira - 18,30 horas

Casa Fernando Pessoa

R Coelho Rocha, 16


Zília Osório de Castro (presidente do grupo Faces de Eva - Estudos Sobre a Mulher ), António Cabrita, a quem cabe a apresentação, Isabel Lousada e Maria João Cabrita também responsáveis pela edição, são os nomes presentes na mesa que assinala, no próximo dia 30 de Abril, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa, a publicação do mais recente número da revista Faces de Eva, dedicado à filósofa espanhola Maria Zambrano.
Reflexões em torno de María Zambrano reúne uma dezena de textos que, a montante, cresceram sobre a realização de um Encontro Ibérico, de título homónimo, realizado no Instituto Cervantes, a 22 de Novembro de 2007, e que com o apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa vieram à luz. No seu todo incide sobre o universo de ideias zambraniano, cobrindo a pluralidade de sujeitos enfatizados pela filósofa – da estética à poética, passando pela fenomenologia; da mística à ética e à política – dando-nos conta de uma história que se encontra por fazer ou por contar.

domingo, abril 27, 2008

Dia (noite) de sorte


Sabem os que me conhecem o lugar primordial que os livros assumem na minha vida. Como ocupam praticamente todo o espaço da minha casa. Como as livrarias e os alfarrabistas são os locais que mais visito. Quão confortável me é a sua companhia. E como não saberia viver sem eles.
Este amor pelos livros vem-me de miúda. Ainda não sabia ler e já ficava fascinada por quaisquer letras impressas. Pode parecer genético ou fruto do ambiente em que me criei, mas a verdade é que nasci numa casa sem livros e no seio de uma família onde apenas os homens tiveram direito a instrução. Livros, apenas aqueles onde o meu avô assentava o deve e o haver dos pinhais negociados ou das horticolas vendidas.
Acontece que ontem, inesperadamente, tive um encontro feliz com uma livraria recheada de livros raros e de onde trouxe duas preciosidades.
Fui com uma amiga ouvir jazz a um espaço lúdico-cultural lindíssimo, a Fábrica Braço de Prata, onde no antigo regime funcionou uma fábrica de material de guerra. Não foi a primeira vez que frequentei este local, mas foi a primeira vez que me detive mais atentamente na livraria que ali funciona. E foi uma surpreza perceber que a mesma se chama Livraria de Fundos, SA, precisamente porque se compõe de inúmeros fundos de editoras e distribuidoras desaparecidas, alguns já não em muito bom estado, é verdade, mas onde se podem encontrar preciosidades para os amantes dos livros.
Encontrei então duas obras belíssimas: uma História de Angola, publicada inicialmente pelo MPLA, em Argel, em Julho de 1965 e reeditada pela Afrontamento em 1975, e um exemplar de MFA, Dinamização Cultural e Acção Cívica, editada pela Ulmeiro e com as assinaturas de todos (ou grande parte) dos intervenientes nas mesmas iniciativas cívicas, como a de Carlos Paredes, Moniz Pereira, José Viana ou a de Vespeira, o autor do símbolo do MFA.
Ontem foi o meu dia (noite) de sorte.

sábado, abril 26, 2008

Eu também estive lá

I Encontro da Cançao Portuguesa, 29 Março 1974
Quem ontem assistiu na RTP1 ao espectáculo Vozes de Abril, essa homenagem que a A25A decidiu prestar (dia 4) a todos os que com a sua Arte e o seu Canto ajudaram a surgir e a consolidar Abril, percebeu que o mesmo evocava um outro espectáculo ocorrido na mesma sala (Coliseu dos Recreios), há 34 anos, pouco antes do dia "inicial inteiro e limpo" de onde "emergimos da noite e do silêncio" como escreveu Sofia.
Eu posso dizer que sou uma privilegiada porque participei nesses dois momentos histórico-culturais: 29 de Março de 1974 e 4 de Abril de 2008.
Jovem que era há 34 anos, aluguei com um grupo de amigos um camarote, do lado direito do palco, de onde assistimos a tudo que ocorreu naquela noite memorável e pudemos vaiar os pides quando um deles saltou para o palco (nem sei porquê) e gritar "tirem esse careca daí!"...
Pela primeira vez os artistas oposicionistas conseguiram reunir-se, o espectáculo até foi autorizado (organizado pela Casa da Imprensa) mas as cantigas foram censuradas de tal forma que os cantores só dispunham de algumas, inócuas para os censores do regime... mas estes também se enganavam (ou eram enganados) porque ao Zeca Afonso, a quem só deixaram cantar duas: Milho Verde e Grândola, repetiu esta tantas vezes, em coro com a assistência, que nasceu ali, tenho a certeza, naquele momento, a SENHA do 25 de Abril!
Lembro-me que o Tordo cantou a sua "Tourada" entrando e saindo pela porta dos fundos, como ele proprio recordou. Que a Maria do Amparo (agora a dar-nos um momento emocionante ao cantar com a filha Lucia Moniz) e o Carlos Alberto Moniz (agora como maestro) entoaram coisas do cancioneiro açoreano.
Lembro o Manuel Freite e o Zé Jorge Letria a virem ao microfone dizer que "tinham perdido as letras das canções" por isso não poderiam cantar o que a malta lhes pedia incessantemente .... e que, perante isto, a sala inteira pateou ensurdecedoramente e gritou "Fascistas! Fascistas!" durante minutos largos. E creio que foi aí que um pide, careca, saltou para o palco, motivando ainda mais a nossa indignação.
À saída foi um silêncio absoluto, pesado, impressionante, só se ouvindo os nossos passos na calçada, enquanto a Pide e a PSP nos observavam com as carrinhas a postos. Na sequência foram movidos autos e importunados artistas. Mas o dia da Liberdade estava muito perto, a menos de um mês.
Foi portanto com uma dupla emoção que pude assistir a este espectáculo no dia 4 de Abril, onde todos os intervenientes de há 34 anos estiveram presentes, agora sim, dando-nos o seu verdadeiro Canto Livre. Claro que faltaram alguns como o Adriano, o Ary ou o Zeca. Mas esses estarão sempre ao nosso lado.
Aquele, de 29 de Março, foi o espectáculo premonitório do radioso 25 de Abril ! Este, no dia 4, o da certeza de que os valores que Abril nos trouxe continuam vivos e de que a Memória não se apagará.

sexta-feira, abril 25, 2008

Não deixaremos morrer Abril

Pag. da revista Flama, Abril 1974

Confesso: há 34 anos ocorreu o dia mais feliz da minha vida. Embora a noção dessa felicidade me tenha sido revelada apenas no primeiro 1º de Maio quando percebi que, tal como no nosso país, também comigo passaria a existir um antes e um depois de 25 de Abril de 1974.
E tudo ganhou consistência e sentido no reaprender dos dias, das palavras, relações interpessoais, dos sentimentos, da vida. A coisa pública a irromper no nosso quotidiano. Conceitos novos, palavras novas, vivências novas.
O Sonho a comandar a vida, como nos ensinara o poeta. Todos os Ideais e Utopias a afigurarem-se-nos exequíveis. Peito aberto, generoso, como generosos foram os nossos "Militares de Abril".
Hoje, passados 34 anos, constatamos que muitos dos valores que aprendemos e vivemos nos foram subvertidos. E muitos dos direitos adquiridos, retirados.
Em nome da vida democrática foram-nos desvirtuando a Democracia.
Em troca, um conceito novo, a Precariedade, a invadir as nossas vidas.
Hoje tudo é precário e não só o trabalho e os contratos. Também a Liberdade e a Cidadania, a Família e os Afectos. Vivemos precariamente.
Bem nos avisara o Zeca de que "se alguém se engana (...) e lhes franqueia as portas à chegada, eles comem tudo e não deixam nada"
Mas sem hesitações, afirmo: valeu a pena o 25 de Abril, sim!
Apesar das desigualdades (nada precárias) que se têem acentuado, o 25 de Abril constituiu um virar de página e por muito que hoje nos queiram rasgar essa página, nós NÃO permitiremos.
O nosso cravo continua vivo. Muito obrigada, "Militares de Abril"!

terça-feira, abril 22, 2008

Faleceu o Chico Martins Rodrigues (1927-2008)


Sabiamo-lo mal. Mesmo assim a sua partida definitiva surpreendeu-nos. Foi esta madrugada, pelas 2 horas. O seu corpo será cremado amanhã, dia 23 de Abril, pelas 13,30 horas, no Alto de São João.
Dele guardo a lembrança de um homem solidário, sempre pronto a abraçar as causas em que acreditava. Morreu como viveu: lúcido e apenas com aqueles que ele próprio escolheu para o acompanharem. Foi um dos que mais sofreu às mãos da Pide. E não só sofreu como viu a sua família perseguida e destruida.
Há dois anos deu-me uma entrevista. Admirava-o como Resistente e homem de acção, mas cheguei a ele por caminhos ínvios. Ou seja, o Chico provinha de uma família numerosa e era irmão de dois artistas plásticos: o João Rodrigues e o José Leonel Martins Rodrigues.
O João Rodrigues, irmão mais novo, surrealista, matou-se em 1967 e dele ficaram desenhos dispersos que o amigo Mário Cesariny de Vasconcelos juntou num livro há muito esgotado.
A minha curiosidade ia para o José Leonel do qual ninguém mais ouvira falar, e alguns afiançavam ter falecido já. Mas não. O José Leonel ainda vive. Disse-me o Chico Martins Rodrigues, no decurso dessa tarde em que conversámos no seu velho escritório ali à Rua dos Açores, no Arco Cego.
Artista talentoso, José Leonel frequentou a António Arroio no inicio dos anos 40 (pertencia ao grupo do Café Herminius) e, quando se preparava para entrar na Escola de Belas Artes, foi apanhado pela Pide numa noite em Campo de Ourique onde, com outro, fazia pichagens nas paredes em vésperas do 1º de Maio de 1946.
O companheiro foi solto quase de imediato, ele ficou encarcerado. E porquê? Porque escrevera: "Morte a Salazar" e isso era um crime gravíssimo. Indiciava-o como muito capaz de matar o chefe do Estado ! A Pide tirou mesmo uma fotografia daqueles dizeres como prova do grave delito.
Foi muito maltratado pelos esbirros da Pide. De tal forma que endoideceu e recolheu ao Julio de Matos. Saíu mais tarde, mediante caução, mas nunca mais foi o mesmo. Nunca mais se dedicou à arte. Nunca mais conseguiu conviver com ninguém. Sempre assustado, sempre com medo, vendo polícias por todo o lado, desconfiando da propria sombra. Isolou-se e fechou-se num mutismo de que nunca mais se libertou.
Um dia desapareceu. Fugiu da própria família. Nunca ninguém o conseguiu encontrar. Já após a morte dos pais e de praticamente todos os irmãos, apareceu. Sem mais palavras. Creio que o irmão o foi buscar. E vivia com o Chico que tratou dele até ao fim.
Foi o António Domingues, que fora seu colega na Antonio Arroio, quem me alertou para o drama do José Leonel. Uma vítima da Pide de quem ninguém fala. Que ninguém conhece. De que não ficaram sequer registos gráficos. Apenas um eventual processo nos arquivos da Pide, como tantos outros.
Tal como existe um Monumento ao Soldado Desconhecido pela impossibilidade de se identificarem todos os que morreram nas frentes da guerra, dever-se-ia fazer um Memorial às Vitimas da Pide, tantas elas foram e, na sua maioria, desconhecidas.
Aqui fica a minha homenagem no dia em que partiu mais um guerreiro.

segunda-feira, abril 21, 2008

Jantar de Abril, a 18

jantar 18 Abril 2008 (minha mesa)

Tinha decidido afastar-me por uns tempos. Passaram meses, quase um ano, e senti que talvez estivesse na hora de reaparecer. Algumas pessoas se me dirigiram nesse sentido. Cá estou.
Na sexta feira, dia 18, chuva imensa (!) realizou-se a 5ª edição do jantar «Em Abril Esperanças Mil», desta vez na Fil - Expo. Confesso, o local não ajudou à festa. A chuva e o vento muito menos. Algumas pessoas menos jovens optaram por ficar em casa. Outras houve que não atinaram com a entrada. Mas, no cômputo geral, podemos dizer que foi uma grande jornada de confraternização.
Pessoalmente revi amigos mas o mais gratificante mesmo, aquilo que maior prazer me deu, foi ter conseguido juntar pessoas que nunca se tinham visto, todas «bonitas» e interessantes, e cujo único ponto de referência era eu, a conviverem e a sentirem prazer em se descobrirem. Como aconteceu na minha mesa, por exemplo.
O convivio e o calor humano valem sempre a pena.

domingo, julho 29, 2007

A todos que passem por aqui

Contrariamente ao que sempre defendi, vi-me obrigada a cancelar os comentários neste blog.
Ficam assim fechadas as portas aos comentários provocatórios, maldosos, insidiosos e ... anónimos.
Claro que isto não impede um outro crime mais grave ainda: a utilização do meu nome para deixarem comentários em alguns blogs, em meu nome, fomentando a confusão e a maledicência.
Quem me conhece sabe que não sou pessoa para esse tipo de coisas. Sempre dei a cara pelos meus actos (e palavras) e se nos vossos blogs aparecer algum comentário assinado por uma Julia Coutinho que não venha dar a este blog, NÃO É MEU.
E agora, meus amigos, vou de férias !
Até Sempre !
PS - Quem quiser entrar em contacto comigo, tem aqui ao lado o meu email.

quarta-feira, julho 04, 2007

Venham ouvir o Pedro


Pedro Branco
No jantar comemorativo dos 33 anos de Liberdade
Mercado da Ribeira, 20 Abril 2007




Um Amigo


O Pedro é um ser muito especial.

Pertence àquela espécie rara

que privilegia os afectos

e vai tecendo amizades.


Não lhe basta ter talento

Sensibilidade

e sentido estético.


Ele pensa nos Outros.


E porque pensa nos outros

idealizou um espectáculo

para os Amigos.

(Um conceito que continua a alargar...)


Vale a pena conhecer o Pedro.

Ouvir o Pedro.

Sentir o Pedro.

e
através da sua Música e Poesia

alcançar ... o Outro Lado ...
o seu ... e o nosso...


Na Soc Guilherme Cussoul (Santos)
dias 5, 6, 12, 13 e 14 de Julho
22 horas
(5 euros)


visitem-no !


e escolham o melhor dia para o verem e ouvirem !













terça-feira, junho 19, 2007

No dia dos teus anos ... a minha homenagem

Escultor Jose Dias Coelho 
(Pinhel, 19 Junho 1923 - Lisboa, 19 Dezembro 1961)


a Jose Dias Coelho


Seja minha a tua força, irmão
seja meu o teu braço, camarada
Sejam estes muros não um paredão
sejam uma ponte ou mesmo uma estrada.

Seja nela meu o teu anseio, irmão
seja minha a luta que na tua terra travas
seja ela o fruto das coisas que amavas.

Sejam essas coisas, as mesmas, irmão
sejam as que amo aqui nesta cela
seja para sempre a minha na tua mão
seja para todos uma vida bela
seja nela o trigo com a sua cor dourada
sejam as papoilas vermelhas de querer
seja sempre o dia que sucede à madrugada
seja outro o sentido da palavra morrer.

Sejam os mortos aqui ao nosso lado
sejam os seus também os nossos passos
seja em luta o ódio acumulado
sejam retesados nossos membros lassos.

Sejam as colinas de vontade erguidas
seja a sua força a que do amado vem
sejam nossas as tuas palavras queridas
seja minha a tua vontade também.

E não há muros, bombas ou insultos
que detenham as árvores ao nascer da terra
nem façam brotar flores de pensamentos estultos
nem parar o sol. E não será a guerra
com que os lobos sonham em noites de orgia
que impedirão que nasçam.

Das auroras por nascer
das estruturas por erguer
dos caminhos por andar
das flores por brotar
estendem-se as mãos do futuro
que envolvem teu corpo de bandeira.


Maria Alda Nogueira
Prisão de Caxias, 1963


Nota: poema inédito de Maria Alda Nogueira, que nos foi oferecido por Alexandre Castanheira.

segunda-feira, junho 18, 2007

As Incongruências do Vaticano

O Vaticano apelou aos católicos para que retirem o apoio financeiro à Amnistia Internacional (AI), devido a esta organização defender a despenalização do aborto.
"A Igreja Católica deixará de financiar a Amnistia Internacional devido à mudança de posição decidida", anunciou oficialmente o Cardeal Renato Marino, presidente do Conselho Pontifical Justiça e Paz.
"Jamais recebemos fundos do Vaticano, ou de entidades que dependem da Igreja Católica. Isso garante-nos a independência da organização como previsto nos nossos estatutos", desmentiu Riccardo Noury, porta-voz da secção italiana da AI.
Por sua vez, Kate Gilmore, subsecretária-geral da AI, afirmou em entrevista à Reuters: "Defendemos o direito da Igreja tratar de crenças morais. Mas um projecto de direitos humanos é para tratar do Estado, do estado de direito, e para criar um ambiente no qual as pessoas possam fazer escolhas morais como indivíduos".
O cardeal Renato Marino afirma em comunicado que "a suspensão de todos os financiamentos à Amnistia Internacional da parte, tanto das organizações como dos indivíduos católicos", é a "consequência inevitável", do "volte-face" da ONG quanto ao aborto.
"A Igreja Católica, por meio de um relato mal representado da nossa posição sobre aspectos selectivos do aborto, está a colocar em perigo o trabalho com os direitos humanos", respondeu Kate Gilmore. "Não se trata do aborto como um direito, trata-se do direito das mulheres a serem livres do medo, da ameaça e da coação ao gerirem as consequências do estupro e de violações aos direitos humanos", afirmou ainda.
"Se o cardeal fosse a Darfur e se colocasse entre [vítimas de estupro] e as pedras atiradas contra elas, aí ele poderia falar outra vez sobre se a Amnistia tem ou não integridade para se manter firme pelos direitos humanos", acrescentou Kate Gilmore que acusou o Vaticano de tentar injustamente "excomungar" a AI, sublinhando que a ONG vai "continuar a fazer campanha pela protecção da Igreja Católica" nas áreas onde houver discriminação religiosa.
Já em 1996, o Vaticano anunciou a suspensão da ajuda financeira à UNICEF, o fundo das Nações Unidas para a infância, que também acusou de promover o aborto.
A UNICEF difundia nos campos de refugiados de todo o mundo uma informação sobre um espermicida pós-coito destinado a jovens mulheres ou adolescentes vítimas de violação.
O financiamento do Vaticano à UNICEF elevava-se na altura a cerca de 2.000 dólares por ano.

sexta-feira, junho 08, 2007

Pessoas magras podem ser gordas por dentro

Fernando Botero, Pic-nic


Ser magro não significa que se esteja «imune à diabetes nem a outros factores de risco para doenças cardíacas», pois a «gordura interna pode ser tão perigosa quanto a externa», alertaram investigadores
E o inverso também será verdade? - perguntamos nós ....


Um grupo de investigadores alertou ontem que pessoas magras, com um peso dentro dos parâmetros normais, podem ser gordas por dentro devido à gordura que armazenam em redor dos órgãos vitais, como o coração, pâncreas ou fígado.

«Ser magro não significa automaticamente que não se é gordo», indicou Jimmy Bell, professor de imagiologia molecular no Imperial College em Londres que, desde 1994, e juntamente com a sua equipa examinou perto de 800 pessoas através de ressonâncias magnéticas de forma a descobrir onde armazenam a sua gordura.

Segundo os dados recolhidos, as pessoas que mantêm o seu peso através de dieta em vez de exercício parecem ter maiores depósitos de gordura interna, mesmo que outrora tenham sido magros.

Esta gordura interna que circunda os órgãos vitais, como o coração, fígado ou pêncreas, pode ser tão perigosa quanto a gordura externa que se aloja por baixo da pele, consideraram os investigadores.

Segundo a equipa de Bell, 45% das mulheres examinadas que tinham indicadores normais de massa corporal têm na realidade níveis excessivos de gordura interna.

Em relação aos homens, a percentagem de homens com excesso de gordura num corpo com indicadores normais ronda os 60%.


in Notícias da Manhã, 11 de Maio de 2007


sexta-feira, junho 01, 2007

No Aljube

Cadeia da Aljube de Lisboa




Num poço de treva te fecharam

mas as nascentes correm pelos teus cabelos



Tantas coisas no silêncio:

duas mãos que se apertam

com a noite em choro no asfalto

um cigarro que arde na penumbra

dum rosto um rolo preto

borrado de tinta preta

que rola torna a rolar.

- Terça-feira ninguém pega nos teares!



Nunca te sentiste tão perto dos homens

nem tanto amaste a vida sem temer a morte.



O respirar da cidade

faz vibrar as paredes do teu poço.

Mas em lugar de entranhas

não sentes amendoeiras floridas?

Tua mãe

leva-te de novo à escola pela mão...



A coragem-tesouro da Ilha Maravilhosa onde estava?



Foi a vida que o foi juntando

e o enterrou nas praias do Mar Mediterrâneo

que há dentro de cada um de nós.





António Borges Coelho, in Fortaleza, seara nova, 1974





quinta-feira, maio 31, 2007

Um Decreto-Lei vergonhoso

Em 1961, após o início da guerrilha colonial, com o assalto às prisões de Luanda em 4 de Fevereiro, Salazar não só proclama a célebre frase: "Para Angola e em força!" como emite um decreto-lei vergonhoso que, estamos em crer, precipitou os acontecimentos em África e na Índia Portuguesa que, como sabemos, foi anexada no final desse mesmo ano.
Aqui fica o Decreto-Lei. Sem mais comentários.
Dec.-Lei 43.568 de 28.3.1961
Cria em cada uma das províncias ultramarinas um corpo de voluntários constituído por cidadãos portugueses ali residentes e em condições de cooperarem na manutenção da ordem e na defesa da integridade da soberania nacional no respectivo território.
Art. 24º
Considerar-se-ão realizados em legítima defesa os actos praticados por um voluntário para prevenir ou fazer cessar uma agressão ilícita contra a pessoa ou dignidade próprias ou de outro voluntário, ou contra o armamento, equipamento e quaisquer outros artigos destinados ao corpo a que pertence ou contra o prestígio deste ou de quaisquer outras instituições ou pessoas que o voluntário defender, sempre que os meios empregados sejam aqueles que os deveres dos voluntários e as circunstâncias razoavelmente aconselhem, salvo se o voluntário tiver provocado a agressão por uma atitude contrária aos princípios do referido corpo.
§ único.
Quando os meios de defesa empregados forem excessivos, ou se tiver havido provocação por parte do voluntário que se defende, mas insuficiente para razoavelmente justificar a agressão, ou se a defesa se realizar depois da agressão consumada, ainda que não haja receio de nova agressão, poderá o voluntário ser isento de pena, se proceder num estado de exaltação desculpável.

domingo, maio 27, 2007

Foi o Salazarismo um Fascismo? por Nuno Teotonio Pereira

O que diz a Arquitectura.

por Nuno Teotonio Pereira (1922-2016)

À medida que se distancia no tempo tem a ditadura de Salazar sido objecto de cada vez mais estudos e depoimentos, ao mesmo tempo que o período que lhe corresponde, generalizadamente designado por fascismo a seguir ao 25 de Abril, é crescentemente apelidado mais inocuamente de Estado Novo, epíteto com que o ditador o baptizara. E muitos dos tais estudos e depoimentos, aparecidos em colóquios, biografias ou artigos de jornal, tendem a classificar o salazarismo como um regime autoritário de direita, distinguindo-o claramente do fascismo.

Em minha opinião estas últimas análises relevam mais da personalidade do ditador do que propriamente das características do regime, onde existiram abundantes manifestações de tipo fascista, suscitadas por uma ala de direita radical com grande influência no aparelho de Estado e benevolamente tolerada por Salazar. Este, na verdade, nunca envergou uma farda das milícias militarizadas e apenas raramente, e porventura a contragosto, fez a saudação fascista. Foram-no, sim, e com influência real, a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa, criadas no apogeu dos fascismos europeus, como expressão directa daquela ala radical, que apelidava o ditador de Chefe. Isto a exemplo de outros epítetos que então grassavam pela Europa: fuehrer, duce, caudilho - sintomaticamente paralelos às designações que ficaram dadas mais tarde a outros líderes de sinal contrário, como “grande timoneiro” (Mau-Tse-Tung) ou “conducator” (Causescu).

Na verdade, ao lado destas realidades, houve também entre nós grandes manifestações de massas, que enchiam o Terreiro do Paço à custa de comboios especiais que vinham de todo o país, e desfiles aparatosos da Mocidade Portuguesa e da Legião Avenida abaixo. E não se pode esquecer nesta enumeração a toda poderosa polícia política, que foi conhecendo vários nomes, e cujos chefes despachavam directamente com o Presidente do Conselho. Não eram todas estas manifestações típicas de um regime fascista?

Às considerações que têm sido aduzidas pretendo juntar agora outras que à Arquitectura dizem respeito, e que julgo serem uma prova a acrescentar no sentido de que o regime salazarista, se não foi um fascismo clássico, teve, pelo menos numa dada fase, uma fortíssima componente fascista que de forma alguma o pode permitir classificar como autoritário de direita. É que a Arquitectura foi fortemente manipulada, por forma a fazer dela também um instrumento de inculcação ideológica, o que não se verificou por exemplo noutros regimes da época, esses efectivamente autoritários, como foram os de Horthy na Hungria e de Pilsudski na Polónia. Nestes países o curso da Arquitectura poude seguir livremente as correntes mundiais lideradas pelo chamado Movimento Moderno. São baseadas estas considerações em duas comunicações que apresentei em tempos, a primeira em colaboração com o arquitecto José Manuel Fernandes ao Colóquio sobre o Fascismo em 1980 (A Regra do Jogo) e a segunda a outro já chamado significativamente sobre o Estado Novo alguns anos mais tarde (editorial Fragmentos, 1987).

O que sucedeu então com a Arquitectura? Curiosamente, nos anos a seguir ao golpe militar de 28 de Maio de 26, e mesmo logo após a Constituição de 33, a corrente modernista afirmou-se em Portugal com uma enorme pujança. Cottinelli Telmo (estação do Sul e Sueste), Cristino da Silva (cinema Capitólio e Liceu de Beja), Carlos Ramos (Instituto de Oncologia e Liceu de Coimbra), Rogério de Azevedo (Garagem do Comércio do Porto), Pardal Monteiro (Instituto Superior Técnico e Estatística), Cassiano Branco (Éden-Teatro e prédios em Lisboa) e Jorge Segurado (Casa da Moeda e Liceu Filipa de Lencastre), fizeram parte ds vanguardas europeias da Arquitectura, já sob o impulso dado às Obras Públicas por Salazar e Duarte Pacheco. Pode dizer-se que durante este período o novo regime teve uma atitude de indiferença ou de neutralidade em relação à Arquitectura, não procurando interferir num domínio que pertencia naturalmente aos seus criadores.

Entretanto, para os finais da década de 30, com a consolidação do regime e o ascenso das correntes radicais animadas pelos fascismos europeus, começaram a ouvir-se vozes propugnando uma arquitectura “nacional”, por oposição à que era designada por internacional ou esmo de inspiração comunista. Raul Lino, com a teorização feita à “casa portuguesa” e António Ferro, com a sua política cultural nacionalista, forneceram a base ideológica para a concretização desta ideia. É já neste quadro que em 1938 surge o projecto da Praça do Areeiro, inspirada em motivos setecentistas e de monumentalidade nazista, da autoria de Cristino da Silva, um dos homens da vanguarda modernista. Com raras excepções, todos os outros lhe seguiram na peugada. E não deixa assim de espantar que os arquitectos modernos da primeira geração tenham abdicado dos seus ideais de vanguarda, levados por uma atitude voluntária de seguidismo em relação às directivas oficiais. A Arquitectura Moderna em Portugal aparecia decapitada por renúncia os seus próprios protagonistas.

Abre-se então um período em que os dogmas do portuguesismo na Arquitectura e de uma monumentalidade retórica são assumidos autoritariamente pelo regime Arquitectos mais conscientes, como Adelino Nunes (edifício dos CTT na Praça Dom Luís I) ou Paulo Cunha (estação ferroviária de Cascais) vêem reprovados os seus projectos modernistas e são obrigados a refazê-los de acordo com os cânones oficiais. A arquitectura dita portuguesa passa a ser imposta nas encomendas do Estado. Tal estado de coisas tinha paralelo na época com as práticas do nazismo alemã, do fascismo italiano (este apesar de tudo mais tolerante), do franquismo e do estalinismo. Foi uma década negra para a Arquitectura em Portugal, em que o pastiche era a norma. E não deixa de ser curioso que dessas pretensas arquitecturas nacionais tivessem saído produtos formalmente muito semelhantes, formando portanto, à revelia do que apregoavam os seus mentores, uma verdadeira internacional.

É assim que aparecem por todo o País palácios de Justiça, edifícios dos CTT, liceus, escolas primaras (o célebre Plano dos Centenários) e outros edifícios públicos ostentando condimentos em diversas combinações, que iam desde elementos do barroco joanino, aos telhados com beirados múltiplos e a uma monumentalidade retórica de uma clara inspiração nazi, e portanto estrangeira.

Nem os prédios de rendimento que se construíram em Lisboa escapam a isto, como os blocos de edifícios das avenidas Sidónio Pais e António Augusto de Aguiar, com os seus andares “nobre” guarnecidos de varandas, as suas cimalhas e pilastras de cantaria e os torreões ponteagudos. É que a Câmara Municipal, querendo dar o exemplo em lotes que vendia com o projecto feito, recomendava aos arquitectos que se inspirassem nos modelos do edifício da EPAL na Avenida, da Casa das Varandas (ao lado da Casa dos Bicos) e do Palácio Ludovice, ao cimo do elevador da Glória. São construções paradigmáticas deste período a tribuna do Estádio Nacional e os prédios em frente do Avenida Palace em Lisboa, todos de clara inspiração germânica dos anos 30. A cidade do Porto, onde na encomenda de projectos predominava a iniciativa privada, e mais longe do Terreiro do Paço, escapou em parte a esta onda. Aí, com maior ou menor dificuldade, a Arquitectura Moderna poude seguir o seu curso

Entretanto, com a derrota do nazi-fascismo, o regime de Salazar ia sendo obrigado fazer concessões. É assim que no I Congresso Nacional de Arquitectura em 1948, liderado por correntes oposicionistas em que predominava uma nova fornada de jovens arquitectos, estas imposições são abertamente denunciadas e adoptadas conclusões no sentido de a elas os projectistas não se dobrarem. O Congresso fora organizado pelo Governo, juntamente com uma aparatosa Exposição de Obras Públicas, para enaltecer os benefícios do regime. O tiro saiu-lhe pela culatra. É a partir deste momento que correspondeu a um autêntico ponto de viragem, que a censura oficial começa a enfraquecer, sem que tenha deixado de vigorar durante ainda bastantes anos em alguns organismos estatais. São as entidades dotadas de alguma autonomia administrativa, como as Caixas de Previdência, as empresas hidro-eléctricas, ou as Câmaras Municipais, que vão criar condições para que a Arquitectura Moderna retome o seu curso em Portugal, agora com o protagonismo de arquitectos mais jovens, em que sobressaem Keil do Amaral em Lisboa e Januário Godinho no Porto.

Hoje, passado que vai meio século,
[1] pode e deve fazer-se uma reavaliação do que foi a Arquitectura do Estado Novo, ressaltando daí alguns aspectos positivos, como a solidez dos processos construtivos, com largo emprego de alvenarias de pedra e cantarias, materiais que resistem bem ao tempo, por oposição ao betão armado, bandeira dos modernistas, que se julgava então perene e que hoje apresenta com frequência preocupantes patologias de envelhecimento. Mas do que não pode haver dúvidas é de que a instrumentalização da Arquitectura, através de métodos administrativos limitando a liberdade de expressão dos projectistas, revela uma faceta claramente totalitária, prova de que existiu uma componente fascista hegemónica, pelo menos num largo período, no regime de Salazar.





[1] - De notar que este artigo foi publicado no jornal Público em 18.7.1993