segunda-feira, janeiro 05, 2009

Contra o genocidio do povo palestiniano

Hoje, 5 de Jan. a partir das 18h Largo de S. Domingos
junto ao memorial às vítimas da intolerância

Solidariedade para com a população de Gaza



Cinco irmãs palestinianas de 4 a 17 anos mortas no
bombardeamento nocturno israelita a uma mesquita
do campo de refugiados de Yabalia
Agencia France Press, El País de 27-12-2008

«Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar» (Sofia M-B)
Deixo-vos com dois apontamentos de José Saramago.

1) Gaza (22.Dez.2008)
A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registadas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os camiões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado.
2) Israel (31.Dez.2008)
Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.
Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.
Textos retirados do Blog O Caderno de Jose Saramago
Para mais informação actualizada, ler aqui.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Lembrando Maria Helena Magro (1923-1956)

Maria Helena Alves Tavares Magro
(1 Janeiro 1923 - Dez 1956)
Começo o ano recordando uma mulher. Nada me seria mais grato. Uma mulher cujo nome raramente é referido e, quando o é, apenas engrossa o número dos anónimos que na clandestinidade viveram e sossobraram. Um nome, nada mais. A que nunca se associa um rosto, um feito, uma ideia, um sentimento. Se fosse viva, completaria hoje 86 anos.
Maria Helena Alves Tavares Magro nasceu no primeiro dia de Janeiro de 1923, em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho. Filha de Francisco Félix Tavares Magro e de Flora Carlota Alves, era irmã e cunhada dos dirigentes comunistas José Magro e Aida Magro, respectivamente.
Emancipada pelo pai aos 18 anos, desde muito cedo se envolveu na luta social e política, primeiro no bairro de Alcântara, onde viveu até aos 22 anos e, ao entrar para a Faculdade de Direito no ano lectivo 1940/41, nas lutas académicas que então ocorreram contra o aumento das propinas.
Aluna aplicada, Maria Helena Magro sempre «alcançou nas escolas altas classificações que lhe permitiram ganhar a isenção de matriculas e vários outros prémios», como refere uma sua biografia resumida que se encontra nos arquivos da PIDE/DGS.
Com o irmão José e a cunhada Aida, a que se juntam outros jovens da zona como «Mário Castrim» e Alda Nogueira desenvolvem intensa actividade na freguesia de Alcântara e arredores: pedem livros e fundam uma biblioteca, organizam bailes e quermesses para realização de fundos, angariam roupas e medicamentos para apoio aos presos políticos e famílias. Conta-nos Aida Magro a estratégia utilizada para conseguirem o apoio do padre da freguesia: a cedência do espaço em troca de uma parte dos lucros para a paróquia. Ousados, chegam a convidar a mulher de Carmona para inaugurar uma das quermesses; a senhora não comparece mas contribui com uma nota de 100 escudos, o que para a época era uma fortuna.
Em finais de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, aceita o convite para funcionária clandestina do PCP. Segue, com meses de intervalo, o irmão e a cunhada. O curso de Direito fica incompleto. Tem apenas 22 anos.
Sabe-se que foi simultaneamente um quadro técnico e político. Clara (o nome que dará à filha) é o pseudónimo que adopta para escrever em O Militante, enquanto que em o 3 Páginas e A Voz das Camaradas, de que é uma entusiasta impulsionadora e activa colaboradora, será Manuela.
Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, incluindo no seio partidário, foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres do partido no trabalho político como forma de emancipação.
Assim, em Maio de 1948 escrevia no boletim 3 Páginas (que antecedeu A Voz das Camaradas), dando-se como exemplo, na tentativa de incutir nas funcionárias comunistas o gosto pelo trabalho político, para além da principal tarefa da guarda das casas clandestinas:
«Tenho a meu cargo, entre outras tarefas, a do recorte dos jornais: recorto os artigos sobre a vida nacional e internacional que têm maior interesse, e vou-os catalogando conforme os assuntos: Assembleia Nacional, Organização Corporativa, etc. Colo depois estes artigos, com indicação da data e nome do jornal, em folhas que entram nas secções respectivas. Assim, os camaradas podem encontrar facilmente as noticias e dados concretos de que precisem para o seu trabalho. Esta leitura cuidada do jornal, que todas nós deviamos fazer diariamente, tomando-a como uma tarefa partidária, é muito útil porque alarga o nosso conhecimento sobre as condições de vida do povo, política salazarista, política internacional, etc.»
e, lembrando que nem todas sabem ler e escrever, diz ainda: «Acho que este trabalho podia ser feito por todas as amigas que leiam facilmente. (...) A nossa instrução politica é uma tarefa que não devemos esquecer.» (...) As amigas que não sabem ainda ler ou lêem com dificuldade, devem colocar aos camaradas da casa, muito seriamente, a tarefa de auxiliá-las, porque saber ler faz muita falta, camaradas.»
Fora das fileiras partidárias, Helena Magro recorda as palavras de Lenine: «esquecendo as mulheres, é impossível interessar as massas pela política» para defender, num documento da sua autoria,(1) que a «palavra de ordem que mobilizará as mais amplas massas femininas é a luta pela Paz» porque «a luta pela Paz é comum a todas as camadas, a todas as classes, une as pessoas de todas as ideologias e crenças.» Reconhecendo que em todos os campos - económico, social, político e jurídico - as mulheres têm reivindicações específicas a apresentar e advogando a criação de «uma organização feminina nacional, legal, que defenda as justas reivindicações da mulher em todos os campos», Helena Magro salienta, por outro lado, a necessidade de homens e mulheres se manterem lado a lado na luta por interesses comuns.
Através do referido 3 Páginas, de Maio de 1948, ficamos a saber como foi o início da sua vida na clandestinidade. «Quando eu vim, nos primeiros meses senti-me deslocada: não conhecia o camarada, a vida era muito diferente da que eu tivera, e também daquela que eu julgara vir encontrar e, principalmente, tinha um medo muito grande de não acertar, de não conseguir ser útil ao Partido. Mas tudo isso passou já e não esqueço o que o nosso jornal contribuiu para isso». O camarada a que alude é Joaquim Pires Jorge, que, pensamos, foi o seu único companheiro de vida.
O último artigo que escreveu, «A Importância da Cultura Geral», foi publicado em A Voz das Camaradas de Novembro de 1956. Nele faz um apelo ao estudo abrangente e metodológico de forma a que os comunistas assimilem os conhecimentos humanos acumulados ao longo dos anos, enriquecendo a memória e desenvolvendo o sentido crítico, concluindo:
«O dia virá em que outras tarefas nos serão confiadas e nessa altura todos os conhecimentos que agora vamos adquirindo nos serão preciosos. Por isso não podemos deixar passar os anos, uns após outros, sem aproveitar utilmente o tempo que não volta. (...) O estudo auxiliar-nos-á a assimilar o marxismo, tal como o marxismo nos ajuda a fazer um estudo sério e útil das outras ciências.»
Faleceu em finais de 1956. Tinha 34 anos. A sua saúde débil não resistiu aos rigores da clandestinidade. Nem aos abortos a que se viu constrangida, também eles, clandestinos. Deixou uma filha, a Clarinha.

(1) - «As Mulheres são uma força decisiva na luta pela Paz, pelo Pão, pela Terra, pela Democracia e pela Independência Nacional», in ANTT- Arq PIDE/DGS, Procº SC 173-GT, NT 1395
Nota: Retrato de M Helena Magro feito por Margarida Tengarrinha e publicado no boletim A Voz das Camaradas das Casas do Partido, nº 18, de Abril de 1961.

Uma charge pós-natalícia

«aqui vos deixo e vos dedico a minha última produção burlesca, brejeira, post-natalícia, suscitada por essa urticária consumista que nos assola...» disse o meu amigo Jorge Castro e, por que concordo com ele, venho partilhá-la convosco.
...
e lá se foi o Natal – essa quadra tão magana
enchendo a todos de gana de querer ser solidário
ao fundo um retardatário bate co' as botas no fundo
das costas ou cu se gostas de chamar p'lo nome os bois
a ver se logo se aconchega ao borralho
que está de arrebimba-ò-malho o tempinho cá na rua
e farto de ver a Lua anda o velhote da história
que tem seu mês de glória um só e em cada ano
triste e só anda este mano quem sabe vive de esmola
que a cena da Coca-Cola acabou já faz uns tempos
agora ele é só lamentos pela roupa vermelhusca
pela criançada cusca e aquela barbaça hirsuta
que seria coisa bruta não fosse ela alva de linho
corre pois ele para o ninho farto de prendas e renas
como se penasse penas por tanto a todos pesar
que com ele é só comprar – comprar – comprar – e comprar
não tem nada que enganar mas não há já quem o ature
e não sabe ele como fure este destino aziago
de do consumo ser mago e coisa de meter dó
ouvir-se-lhe o oh-oh-oh no espaço sideral
no centro comercial ou no écran de plasma
e a malta toda pasma de viver tanto o velhote
sem haver quem o enxote pois graça não tem nenhuma
a não ser aquela uma de favorecer as compras
ah não se ouvirem as trompas de alguma divina orquestra
dando ao Natal que nos resta personagens mais catitas
e acabar com as fitas de um pai natal que coitado
viverá desconsolado nos quintos do pólo norte
maldizendo a triste sorte de ter só com ele as renas
dores nas cruzes e as tais penas de vaguear tão sozinho
melhor muito melhorzinho ficaria o Nicolau
se em vez do banco de pau que o espera em seu ermo
a tal multinacional ao ermo pusesse um termo
e lhe desse companheira
roliça – doce – matreira – brincalhona – prazenteira
também de rubro vestida mas sem barba tão comprida
de precária situação ou com termo de contrato
mas que desvie o ancião do destino caricato
e lhe dê prendas a ele que tão farto está das penas
e das cenas com as renas e com razão afinal
e nos deixe no Natal o presépio cultivar
sem ter que comprar – comprar – oh-oh-oh
tão só comprar…

Jorge Castro

Nota: O Jorge Castro é um grande ser humano e um grande poeta. Pessoalmente sou uma privilegiada por tê-lo como amigo. Todos ficaríamos mais enriquecidos se conhecessemos melhor a sua obra.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Neste final de 2008















Quando um ano chega ao fim e outro se perfila no horizonte deixo-vos com mais um poema inédito de Maria Tereza Horta e um desenho de Maria Keil, duas mulheres que muito admiro e que honram as artes portuguesas.
Feliz 2009!

FIM DE ANO
São os meses
São os dias
as horas todas as vezes

Quantas depois
se iniciam
retornando ao seu alpendre

São os anseios
São os sonhos
a esperança e o devaneio

Quando o ano
no seu fim
torna ao começo em seu veio

Maria Teresa Horta

Lisboa, 30 de Dezembro de 2008

terça-feira, dezembro 30, 2008

Na morte de Arnaldo Louro de Almeida (1926-2008)

Arnaldo Louro de Almeida
(1926 -2008)
Tinha 82 anos e faleceu no dia 28, pelas 11 horas. Serena e discretamente, tal qual foi a sua vida. O funeral realiza-se hoje, dia 30 de Dezembro, pelas 15,30h, a partir da igreja de Loures para o cemitério local.
Oriundo da Escola António Arroio, tal como seu irmão Fernando, ambos se viriam a formar na Escola de Belas-Artes de Lisboa, o Fernando em Escultura e o Arnaldo em Pintura.
Começou a expor colectivamente logo na 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1946-1956), a cuja comissão organizativa deu apoio, com outros colegas estudantes de Belas-Artes.
Foi um dos 11 artistas que viu um dos seus quadros apreendidos pela PIDE na 2ª EGAP em 1947. Tinha apenas 20 anos e era o mais novo dos expositores. A foto que se publica data dessa altura.
Fez a primeira exposição individual na SNBA em Janeiro de 1949.
Pertenceu aos corpos directivos da SNBA e era seu Secretário quando em 1952 a PIDE fechou aquela instituição na sequência das provocações de Eduardo Malta, um pintor afecto ao regime. Foi a sua direcção quem geriu a crise então instalada e que durou até finais desse ano.
Foi professor e, mais tarde, director da Escola de Artes Decorativas António Arroio, cargo que ocupava quando se deu o 25 de Abril.
Viveu vários anos na Madeira onde exerceu grande actividade pedagógica, tendo ficado ligado à fundação da Academia de Belas-Artes da Madeira de que foi o primeiro director. Devem-se-lhe ainda muitas das traduções de livros técnicos, fundamentais para o ensino artístico.
Arnaldo Louro de Almeida nasceu em Lisboa, freguesia de Arroios, no dia 1 de Agosto de 1926 no seio de uma família com grandes tradições antifascistas. Seu pai, Manuel Guilherme de Almeida, foi um dos fundadores do PCP em 1921, tendo sido várias vezes preso pela polícia política e chegando a estar desterrado. Constituiu e dirigiu o Sindicato dos Alfaiates e fundou, em 4 de Março de 1934, a Academia de Corte Sistema Maguidal, (Maguidal, um acrónimo do seu nome), com um sistema de ensino inventado por si, cuja sede, ainda hoje existente na Rua da Palma, bem pode considerar-se um baluarte da resistência a Salazar, tal o trabalho conspirativo ali desenvolvido e os muitos clandestinos que acolheu.
Sua mãe, Alice Marques Louro, foi uma corajosa mulher que sempre desenvolveu um constante trabalho legal e clandestino no apoio aos presos políticos e a suas famílias, em conjunto com militantes antifascistas como Manuel Alpedrinha e Maria Machado, entre outros. Nos anos 50 a PIDE assaltou a casa da família, numa altura que ali estava recolhida Maria Machado e todos os seus membros, incluindo o Arnaldo, foram presos.
Pessoalmente devo a Mestre Arnaldo Louro de Almeida uma ajuda preciosa no deslindar da história da sua geração, uma «ínclita geração» (digo eu) da Escola de Belas-Artes de Lisboa, dos anos 40/50, fundamental na historiografia artística portuguesa, mas cuja História ainda está por fazer.
Insisti várias vezes para que doasse o seu espólio ao Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira onde seria tratado e preservado. Dizia-me sempre que sim mas, antes, queria fazer uma exposição retrospectiva da sua obra, em Lisboa. Cidade que amava. Onde se estreou como artista e onde queria terminar. Ainda em Agosto me dizia que, com esse objectivo, tinha ido tentar falar à CML, ao pelouro da Cultura, mas entretanto tinham-se mudado para a Casa dos Bicos, o vereador da cultura era outro... mas sim, voltaria a tentar logo que possível. Não queria desistir do seu sonho. Porque o Arnaldo era um sonhador, essa categoria de homens cada vez mais rara.
Viúvo há vários anos, a grande preocupação eram os filhos para os quais vivia inteiramente.
Um quadro seu, inédito, datado de 1947, quando tinha 20 anos, foi doado ao Museu do Fado e faz parte da exposição permanente daquele museu. 
Ainda em vida teve a alegria de ver o seu nome dado a uma escola de Lisboa, a ex- Escola Primária nº 44, ao Bairro Azul, numa homenagem ao Mestre que nos anos 50 fez os paineis de azulejos que decoram aquele estabelecimento de ensino.
Vi-o pela última vez no jantar comemorativo do 25 de Abril deste ano, no Parque das Nações. Estava já muito debilitado e era visível o esforço que fazia para conseguir estar presente.
Falei-lhe por telefone na véspera de Natal quando já estava internado em Santa Maria. Faleceu três dias depois um tanto inesperadamente, apesar da gravidade da sua doença. Perdi um grande amigo. Portugal perdeu um homem e um artista que praticamente desconhece. Portugal não merece homens como o Arnaldo Louro de Almeida.

Julia Coutinho



NOTA: Passados 10 anos é lamentável que nem o espólio tenha sido entregue a uma instituição que cuide dele e o dê a conhecer, nem se tenha realizado a exposição retrospectiva que Louro de Almeida desejava e merecia. Um dia nem sequer os alunos que frequentam a «sua» escola saberão quem foi Arnaldo Louro de Almeida. 

JC





quarta-feira, dezembro 24, 2008

Carta do Aljube no Natal 1962

Em Dezembro de 1962 o Capitão João Varela Gomes estava detido na cadeia do Aljube, às ordens da PIDE, por ter participado no Golpe de Beja. Também sua mulher, Maria Eugénia, se encontrava na prisão de Caxias, acusada de cumplicidade.
Era o primeiro Natal que passavam separados e longe dos filhos, o Paulo, o João António, a Maria Eugénia e a Maria da Luz, de 10, 9, 7 e 5 anos, respectivamente.
A carta que se segue foi escrita por um pai dilacerado (por vezes nem lhes era permitido um abraço) mas apostado em incutir nos filhos os valores da coragem, da responsabilidade, do respeito, da liberdade e da solidariedade. Um esforço para que, apesar de tudo, as crianças sentissem a «presença e o amor dos pais» numa época particularmente difícil e sensível. Um documento comovente.
«... Acabei de escrever aos filhos a carta de Natal. É mais a festa das crianças que dos papás. Que continuem felizes. Calculo que vais ter uns momentos, ou dias, de angústia e tristeza. Há que reagir, paciência» (carta para a mulher)

Lisboa, 21 de Dezembro de 1962 

Meus queridos filhos,
O pai não queria, nesta altura do Natal, deixar de vos dizer quanto pensa nos seus quatro filhos e quanto deseja que decorram com alegria estes dias de festa. São festas para os meninos pequenos, Boas Festas para todas as crianças deste mundo, mesmo para aquelas, pobrezinhas e infelizes, que são esquecidas durante todo o resto do ano. Não é o vosso caso, meus filhos, que têm o Avô e os Tios para cuidarem de vocês, e o Pai e a Mãe Gena para vos acompanharem em pensamento, dia por dia, dos 365 que conta o ano.
Conhecem a história do nascimento do Menino Jesus, num curral de gado, porque o Pai e a Mãe (José e Maria) estavam a ser perseguidos, por um rei mau - Herodes - que era quem mandava na terra deles.
Pois José e Maria tiveram que fugir para outro país - o Egipto - e foi no caminho que nasceu o filho deles. Nasceu numa ocasião de desgraça, de tristeza para a família, para todos os amigos e para todo o povo judeu. Quando tudo parecia perdido, nasce um menino, nasce com ele a esperança de melhores dias, de felicidade futura, de regresso a casa, duma nova Pátria sem nenhum Herodes. E, conta a história, que apareceram estrelas a brilhar e anjos a cantar e que desde os mais pobres - os pastores - até aos mais ricos - os reis Magos - todos se alegraram e confiaram. Até mesmo os animais - o burro e as vacas - olhavam para o menino como alguma coisa de precioso.
Ora bem, filhos, isto que sucedeu há 1962 anos, ensinou os homens a nunca desesperarem, a nunca se afundarem na tristeza, enquanto houver crianças, enquanto nascerem meninos que cresçam bons e valentes como vocês e de quem os mais velhos possam dizer, como diz daqui o Pai João e da outra cadeia a Mãe Gena: «os nossos filhos são o nosso orgulho; eles são a garantia que não vivemos em vão e que um mundo melhor se está a construir.»
 
Muito tempo se passou depois do nascimento do Menino Jesus; ele próprio, já homem, teve que morrer pelas suas ideias. Muita gente, como vocês sabem, toma-o ainda agora por Deus (na altura foram muito poucos: estava tudo com medo dos soldados romanos). A família lá de casa também acredita que foi Deus que nasceu quando nasceu o Menino Jesus. O Pai João e a Mãe Gena, como os meninos devem saber, apenas acreditam que nasceu com ele a esperança, morta e novamente renascida sempre que nasce um menino de bondade, um menino de coragem.
Para o Pai e para a Mãe Gena, os seus quatro filhos, são quatro Meninos Jesus; e, creio bem, que todos os pais pensam da mesma maneira em relação aos seus filhos.
 
Tinha imaginado acabar a carta com uns conselhos, mas vou desistir. Eram pequenas recomendações sobre um ou outro ponto que me parece, daqui, precisarem de correcção. Os tios e as tias se encarregarão de vos dizer o que eu penso sober os estudos, as companhias, as birras e as fúrias, os cuidados com as vossas coisas, a necessidade de fazer poucos pedidos aí em casa e de darem pouco trabalho.
Sois muito pequenos e as vossas responsabilidades já são grandes; mas eu, que conheço os meus filhos, confio em todos vocês. Neste Natal, ao redor do presépio, pensai num menino que nasceu quase no meio da rua, cresceu pobre e fugido e se fez Homem tão superior aos outros, que o chamaram de Deus; e, à volta da árvore dos brinquedos, pensai em todos os outros meninos que precisam de ajuda para sairem da miséria e da ignorância.
 
Beijos de Feliz Natal para toda a miudagem aí de casa e saudades para os adultos do
Pai João»

João Varela Gomes, Tempo de Resistência, Ler Editora, 1980, pp. 167-169 

NOTA: Na foto acima, Maria Eugenia Varela Gomes com os quatro filhos, no final dos anos cinquenta. Foto retirada daqui.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Palavras de Azevinho

 












PALAVRAS DE AZEVINHO
 
Natal de malva
e linho
de ternura mosqueada
Onde no peito
faz ninho
e no coração se alaga

Na entrega e no refúgio
de memória deslumbrada
entre o sonhado e o lume
Natal no seu aprisco
perfumes
de seda e cassa
Pela calada do tempo
da infância
sendo imagem
Com palavras
de azevinho
e nas costas duas asas

Natal de 2008
Maria Teresa Horta




Agradeço à minha querida Teresa Horta este seu poema lindíssimo, inédito, feito expressamente para a quadra que atravessamos, e a generosidade em aceder que aqui o partilhe.
Obrigada, Teresa!

domingo, dezembro 21, 2008

Carta ao Pai Natal










Olá Pai Natal

É a primeira vez que escrevo para ti
Venho de Lisboa e o pessoal chama-me AC
Desculpa o atrevimento mas tenho alguns pedidos
Espero que não fiquem nalguma prateleira esquecidos
Como nunca te pedi nada
Peço tudo duma vez e fica a conversa despachada
Talvez aches os pedidos meio extravagantes
Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes
Tira-lhes as armas e a vontade da guerra
É que se não acabamos a pedir-te uma nova Terra
Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente
E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente
E ao pobre coitado, e ao desempregado
Arranja-lhe um emprego em que ele não se sinta explorado
E ao soldado, manda-o de volta para junto da mulher
Acredita que é isso que ele quer
Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais
Dá de comer ás crianças ergue escolas e hospitais
Cura as doenças e distribui vacinas
Dá carrinhos aos meninos e bonecas ás meninas
E dá-lhes paz e alegria
Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia
Já sei que só ofereces aos meninos bem comportados
Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados
Jactos privados, carros topo de gama importados
Grandes ordenados, apagas pecados a culpados
Desculpa o pouco entusiasmo, não me leves a mal
Não percebo como é que isto se tornou um feriado comercial
Parece que é desculpa para um ano de costas voltadas
E a única coisa que interessa é se as prendas estão compradas
E quando passa o Natal, dás á sola?
Há quem diga que tu não existes, quem te inventou foi a Coca-Cola
Não te preocupes, que eu não digo a ninguém
Se és Pai Natal é porque és pai de alguém
Para mim Natal é a qualquer hora, basta querer
Gosto de dar e não preciso de pretextos para oferecer
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos Paz e Amor e nem é preciso embrulhar
Muita Felicidade, saúde acima de tudo
Se puderes dá-nos boas notas com pouco estudo
Desculpa o incómodo e continua com as tuas prendas
Feliz Natal para ti e já agora baixa as rendas.

Boss AC, álbum Ritmo Amor e Paz

Passar a(s) palavra(s)

palavras não existem
fora da nossa voz as
palavras não assistem
palavras somos nós
(Gastão Cruz)

sábado, dezembro 20, 2008

Jorge Vieira: «cada desenho um amigo»

Jorge Vieira
(1922-1998)

O Município de Alvito associando-se à Homenagem a Jorge Vieira, inaugura hoje, dia 20 de Dezembro, pelas 16 horas, na Sala Polivalente do Centro Cultural de Alvito, a exposição «Cada Desenho um Amigo».

Não fora a Noémia, companheira de vida e paladina incansável na divulgação da sua vida e da sua obra, e Jorge Vieira estaria hoje, muito possivelmente, completamente silenciado pela indiferença e pelo olvido dos portugueses, tal como já está pelas instituições culturais do seu país. País que lhe deve não só o renovo da escultura portuguesa no após Segunda Guerra Mundial como a formação de uma pleiade de jovens artistas plásticos que, sob a sua influência, continuam ainda hoje a honrar a nossa escultura dentro e fora do país. Um Mestre que fez escola e deixou discípulos.

Quando se perfazem 10 anos da sua morte (23 Dez 1998) esta é a homenagem da Noémia e dos Amigos. A única homenagem pública que se conhece. Uma homenagem dos afectos que são a seiva e a raíz deste projecto. Por isso, parafraseando Zeca Afonso, chamou-se-lhe «Cada Desenho um Amigo». Por que todos os amigos trouxeram para a festa os desenhos que, generosamente, ao longo da vida o Jorge lhes ofereceu.

Depois da Artecontempo e do Museu Municipal Prof Joaquim Vermelho, em Estremoz, é agora a vez de Alvito receber esta exposição itinerante. O Alentejo a fazer juz ao amor e dedicação que Vieira sempre lhe dedicou.

Não temos dúvidas: esta é a homenagem que o Jorge gostaria de ter. Por ser feita por quem o ama. Não são necessárias outras. Um dia a História da Arte Portuguesa dar-lhe-á o valor e o destaque que a sua Obra merece.

Em Beja encontra-se o Museu Jorge Vieira que contém grande parte da sua obra. Será que se esqueceram de assinalar esta data?!

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Jose Dias Coelho (1923-1961) uma vítima da PIDE





No dia em que se assinalam 47 anos da sua morte queremos lembrar José Dias Coelho, o escultor e militante comunista que em 1961 foi brutalmente assassinado a tiro, pela PIDE, na Rua da Creche, em Alcântara. Tinha apenas 38 anos. Deixou duas filhas: a Teresa e a Margarida.
O artigo aqui exposto foi publicado no Público de 18 de Dezembro de 2005, da autoria de São José Almeida, com base em entrevista minha.
Para que a Memória se não dilua no tempo.


NOTA: o artigo contém dois erros que pretendo corrigir. 1 - Onde se refere a Ordem dos Arquitectos, trata-se da Ordem dos Engenheiros. 2 - Onde se refere que a Associação de Estudantes de Belas-Artes foi eleita em 1946, na verdade tratou-se da eleição de uma pró-Comissão Académica, mas em 1949; tinha por objectivo tratar dos estatutos e do processo de legalização da Associação de Estudantes. Os estatutos foram amplamente discutidos em reuniões de alunos e até sancionados pela direcção da escola mas, lamentavelmente, nunca se conseguiu que fossem aprovados pela Direcção-Geral do Ensino Superior e das Belas-Artes que tutelava aquele estabelecimento de ensino.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Antonio Simões Abreu: lembrando um bom amigo



Antonio Horacio Simões de Abreu
(2.Maio.1923 - 14.Dez.2005)

Morreu em Dezembro de 2005, no Hospital de Curry Cabral, escassos dias após o presidente Jorge Sampaio o ter distinguido com a Ordem da Liberdade. E passados oito meses, em Agosto de 2006, morria a querida Regina, a companheira que não soube nem quis viver sem ele.
Tive a sorte de me terem distinguido com a sua amizade e de com eles conviver nos tempos finais das suas vidas. A privilegiada fui eu. Com eles convivi cinco anos que valeram por uma vida inteira. Dois seres superiores, de extraordinária humanidade e um repositório vivo de memórias e vivências de luta contra o fascismo. Uma família de afectos que sempre souberam transmitir. Por mim, adorava ir àquela casa na Av São João de Deus, tocar à campainha do nº 31 e ouvir a Luna a ladrar como sempre fazia, fosse com quem fosse, até entrarmos e lhe darmos miminhos para depois se enroscar no aconchego do sofá junto da dona. Adoravam-se, o casal Abreu. Mesmo quando rezingavam. Fora toda uma vida de grande companheirismo, de grandes dificuldades, de grandes lutas, mas de muito amor e cumplicidade.
O António muito discreto, sempre entretido nas suas leituras ou palavras cruzadas, sempre atento às notícias da televisão, frequentemente a mandar-nos falar mais baixo para não perder pitada. Era ele quem diariamente fazia as compras e levava a Luna a passear. A Regina, mais faladora, adorava conversar sobre os filhos, os netos, as histórias com a PIDE quando lhes invadiam a casa, a vida. Vida que ela transpirava por todos os poros. Mesmo depois de ter sido sujeita a uma operação delicadíssima a um tumor no cérebro. Mas a força vital era de tal ordem que se recompôs e, praticamente até à morte do António, nunca quis ninguém permanentemente lá em casa para ajudá-la. Com um sentido de humor notável, adorava uma boa partida, uma boa gargalhada e eu própria cheguei a ser uma das «vítimas» dos imprevisíveis telefonemas que fazia disfarçando a voz. Tinha uma mão para a comida como nunca vi igual e adorava cozinhar, tanto como que gostassem dos seus cozinhados.
A família era a prioridade maior dos Abreus. Quando conseguiam reunir os três filhos e as respectivas proles sentiam-se abençoados e felizes. Habituei-me aos seus afectos. Senti-me orfã quando partiram. Não há vez nenhuma que passe pela avenida de Roma que me não lembre deles e  sinta desejos de ir bater-lhes à porta na ilusão de que me respondam e deixem entrar.
António Simões Abreu foi um firme militante comunista desde os 18 anos. Um homem íntegro que cedo ficou orfão, terminou o curso de engenharia com muitas dificuldades, e pelas suas ideias foi impedido de ensinar no Instituto Superior Técnico, onde chegou a ser assistente, ou em qualquer outra escola pública.
Dirigente do MUD Juvenil, pertenceu à sua Comissão Central (com Areosa Feio, Maria Fernanda Silva, Júlio Pomar, Mário Soares, Octávio Pato, Óscar dos Reis, Rui Grácio e Salgado Zenha). Foi preso pela PIDE várias vezes e, no serviço militar, sofreu a humilhação de ser despromovido e enviado para Penamacor como soldado. Casou em Caxias, em 1947 quando estava preso. O primeiro filho nasceu-lhe tempos depois e só muito a custo foi autorizado a visitá-lo na maternidade, sempre escoltado pelos agentes da PIDE e obrigado a pagar do seu bolso os transportes, como fazia questão de sublinhar.
O casal teve três filhos, o António, o Luis e o Rui, e a família atravessou momentos difíceis sob o regime de Salazar, vivendo das explicações particulares que Abreu dava em casa. Brilhante matemático, só foi reintegrado no ensino universitário, como merecia, pouco antes do 25 de Abril.
A sua acção política na Oposição Democrática foi especialmente importante aquando das eleições presidenciais de 1958. A ele se devem as diligências com vista a uma candidatura abrangente, primeiro junto de Cunha Leal e, na recusa deste, de Arlindo Vicente. Foi o homem-chave das negociações que levaram à unificação da candidatura oposicionista em Humberto Delgado, com quem estabeleceu uma relação política e pessoal de grande respeito e proximidade.
Acreditou sempre que, não tivesse Humberto Delgado tomado a decisão errada de se exilar, o 25 de Abril teria sido antecipado de alguns anos.

JC

terça-feira, dezembro 16, 2008

Pavel não esteve envolvido no assassinato de Trotsky

O jornal Público de hoje, na rubrica Cartas ao Director, publica um esclarecimento de Zínia Rodriguez, filha de Francisco de Paula Oliveira / Pavel / Antonio Rodriguez, sobre as insinuações ultimamente vindas a público acerca do possivel envolvimento do pai no assassinato de Trotsky. Por se tratar de um documento da máxima importância para a clarificação do percurso político-social de Pavel, aqui o transcrevemos.

Em relação ao artigo "O 'olhar triste" de um antigo herói do comunismo", de 21 de Novembro, envio, em nome da família de Pavel, a seguinte resposta para reposição da verdade.

Pavel não esteve envolvido em qualquer tentativa ou acção para assassinar Trotsky no México. Qualquer insinuação a esse respeito é completamente especulativa e infundada.

A História faz-se com factos, documentos claros e investigação da verdade directamente nas fontes. As pessoas que tiverem dúvidas podem consultar no México a informação existente no Museu Trotsky.

O assassinato de Trotsky está perfeitamente esclarecido. Os nomes dos seus autores são conhecidos.

Pavel chegou ao México em meados de 1939. Trotsky foi assassinado em 1940. Nessa época Pavel já tinha sido afastado pela Internacional Comunista e não tinha qualquer relação com Moscovo. Trabalhava no seu ofício de serralheiro mecânico para poder sobreviver, ao mesmo tempo que ia escrevendo em jornais. Só posteriormente conheceu e se aproximou de intelectuais mexicanos como David Alfaro Siqueiros.

O seu trabalho como jornalista era essencialmente de repórter sobre a situação dos indígenas, para os ajudar a obter melhores condições de vida. E começou a escrever sobre arte anos depois.

Não mais retomou uma actividade partidária, mas continuou a lutar a nível social e cultural, para dar voz às pessoas que não a tinham e ajudar à construção de uma sociedade mais justa.

A vida de Pavel no México é clara e transparente. Para os que quiserem saber a verdade.

Por último, aproveito para informar que, no próximo ano, o Museu Trotsky, na Cidade de México, vai promover uma homenagem à memória de Pavel. Aliás, o director do Museu Trotsky foi aluno e grande amigo de Pavel.

Como representante de minha mãe e meus irmãos,


Zinia Rodriguez 

(filha de Pavel)

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Anulado Debate de Hoje

Devido a indisponibilidade do Dr Jorge Sampaio, que alegou compromissos em Coimbra, foi anulado o debate programado para hoje, dia 15 de Dezembro, pelas 21 horas, no Hotel Zurique.
Sendo embora uma figura de peso, a ausência de Jorge Sampaio não deveria invalidar a presença de todos os outros intervenientes.
Lamentamos que a organização se tenha decidido pela anulação do evento.
Aos leitores deste blog pedimos desculpa.
Adenda em 16.Dez.: A Comissão Organizadora informou-nos que o colóquio apenas foi adiado para data a confirmar.

domingo, dezembro 14, 2008

Crise, oportunidade de viragem. Para onde queremos ir?

Segunda, 15 Dez. - 21 H
Hotel Zurique

Rua Ivone Silva (trazeiras Hosp. Curry Cabral)

Participação de
António José Seguro, Florival Lança, Jorge Sampaio e Ricardo Pais Mamede

Debate animado por
Ulisses Garrido



De extensão e profundidade ainda não totalmente conhecidas, a presente crise foi já descrita como a “mais grave desde a grande depressão”. Uma das suas novidades é, não só a de se situar bem no centro do capitalismo financeiro mundial, os EUA, mas também a de se ter já estendido àEuropa e ameaçar contagiar o resto do mundo.
A crise põe em evidência os problemas ligados à desregulação dos mercados, imagem de marca do capitalismo neoliberal em que vivemos desde os anos 1980. Todavia, seria um erro grosseiro reduzir os problemas do capitalismo neoliberal ao mau desempenho e má regulação do sector financeiro. A crise tem e terá ainda mais consequências económicas e sociais.
Por exemplo, o aumento das desigualdades à escala mundial; o crescente número de pessoas desempregadas a sobreviver com o apoio de subsídios; o crescente aumento do número de pessoas que, apesar de trabalharem, têm que ser apoiadas por prestações sociais.
Desejam alguns que a crise seja amortecida com uma socialização dos prejuízos pela via da intervenção do Estado que deixa tudo o resto na mesma. Mas esta crise pode ser também uma oportunidade de viragem no sentido de um outro sistema mais justo, ou (pelo menos) um capitalismo mais regulado, com uma maior e melhor distribuição dos rendimentos, em suma, no sentido de políticas mais alinhadas à esquerda. Muitos, como nós, consideram porém que o sentido das mudanças que se perspectivam dependerá sempre das respostas políticas das forças de esquerda e da capacidade de se encontrarem pontos de contacto entre elas.
Daí a ideia de promovermos este debate.

Promotores:
Almerinda Teixeira, Ana Santos, André Freire, António Avelãs, António Pinto Pereira, Carlos Brito, Carlos Galiza, Cláudio Teixeira, Elísio Estanque, Henrique de Sousa, Isabel do Carmo, João Bau, João Lourenço, João Rodrigues, José Castro Caldas, Miguel Graça, Nuno David, Orlando Almeida, Paulo Fidalgo, Paulo Jacinto, Ricardo Pais Mamede, Silva Alves, Ulisses Garrido, Vitor Sarmento, Viriato Jordão

sábado, dezembro 13, 2008

Por um novo ciclo da esquerda

Fórum 14 de Dezembro
Faculdade de Letras / Aula Magna

Apelo da
Democracia e serviços públicosAula Magna, Lisboa, 14 de Dezembro
A crise financeira e as graves dificuldades económicas sentidas no mundo inteiro dão uma medida da irresponsabilidade da especulação e das políticas que têm conduzido ao desemprego, à precariedade e à perda dos salários.
Os signatários consideram que essas políticas devem ser discutidas e combatidas, porque constituem ataques à democracia.
A defesa dos valores democráticos da justiça social é uma ponte de união entre muitos homens e mulheres que, a partir de visões distintas, se comprometem com a política da solidariedade.

Assim, para criar um espaço de pluralidade e de discussão livre das respostas concretas a esta crise de civilização, os signatários organizam no dia 14 de Dezembro um fórum aberto sobre Democracia e Serviços Públicos.
Estão convidados todas e todos quantos queiram participar na análise de alternativas para a educação, os direitos do trabalho, a saúde e as cidades.
Perante a emergência social e como referiu Manuel Alegre na sua intervenção no Teatro da Trindade em Junho deste ano, "é preciso quebrar tabus".
O fórum da Aula Magna será esse espaço de reflexão aberta de quem entende que a defesa de serviços públicos modernos e de qualidade é um valor essencial da responsabilidade da República.
A Comissão Promotora
Painéis de debate (11.00 e 14.30)- Faculdade de letras
11.00 Economia - Moderador: José Maria Castro Caldas
Oradores: João Rodrigues, André Freire, Alexandre Azevedo Pinto, Jorge Bateira
Educação - Moderador: Paulo Sucena
Oradores: Cecília Honório, Nuno David, José Reis, Jorge Martins
14.30 Cidades - Moderador: Helena Roseta
Oradores: Manuel Correia Fernandes, Pedro Soares, Pedro Bingre, Fernando Nunes da Silva
Trabalho - Moderador: Manuel Carvalho da Silva
Oradores: Jorge Leite, Elísio Estanque, Mariana Aiveca
Saúde - Coordenador: António Nunes Diogo
Oradores: Cipriano Justo, João Semedo, Mário Jorge, Manuel Correia da Cunha
Sessão final (17.00) - Aula Magna
Oradores: Ana Drago, Maria do Rosário Gama, Manuel Alegre

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Nos 60 anos dos Direitos Humanos


10.Dezembro.1948
as Nações Unidas aprovam
a
Declaração Universal
dos Direitos Humanos
No final da Segunda Grande Guerra as nações empenhadas no processo da pacificação aprovaram a Declaração Universal dos Directos Humanos, como um Ideal a atingir por todos os povos e todas as nações, no sentido de que jamais se repetisse o Horror do Holocausto e das vítimas indefesas da perfídia dos homens. Lamentavelmente, os homens e as nações ainda se não humanizaram. Aqui fica o texto integral. Para que a Memória registe e perdure.

Preâmbulo:
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos humanos conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração humanos; Considerando que é essencial a protecção dos direitos humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão; Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais humanos, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla; Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais; Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso: A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo 1° Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2° Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3° Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4° Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5° Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Artigo 6° Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica.
Artigo 7° Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8° Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo 9° Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo 10° Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
Artigo 11° Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
Artigo 12° Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
Artigo 13° Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14° Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15° Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16° A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado. Artigo 17° Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18° Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19° Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
Artigo 20° Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios, públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22° Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.
Artigo 23° Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24° Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.
Artigo 25° Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma protecção social.
Artigo 26° Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz. Aos pais pertence a prioridade do direito de escholher o género de educação a dar aos filhos.
Artigo 27° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28° Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
Artigo 29° O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade. No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30° Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.
texto retirado daqui
imagem retirada daqui

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Pintura e Desenho de Graça Marto

Hoje, 3 Dez. - a partir das 18 h
Dias úteis, das 10 - 19 H
até 19 Dezembro
Espaço PT - R Andrade Corvo 8 - Lisboa
Poemas por
José Jorge Letria e Jorge Castro
Graça Marto é licenciada em pintura pela Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto. Nasceu em Cambarinho, Vouzela, e fez o liceu no Rio de Janeiro onde viveu dos 14 aos 22 anos. A par do ensino, tem feito inúmeras exposições individuais e colectivas em Portugal Continental, Açores e Madeira. No estrangeiro, está representada em diversas colecções, principalmente na Bélgica e no Luxemburgo, tendo participado, também, em exposições em Espanha, Brasil, Moçambique, Macau e Estados Unidos.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Hoje é o meu dia

Esta a primeira foto que conheço minha.
Tinha quatro anos e acabava de perder a minha mãe.
Assustadoramente assustada
com o súbito vazio que me atingira.
foi demasiado cedo
essa solidão sozinha
esse frio agreste
... para sempre
em mim