segunda-feira, março 09, 2009

Amazonas





(Sem Título,
de
Fernando
José
Francisco)






Onde estão as amazonas
as feiticeiras perdidas
Deana no ardor da caça?

Dentro de si dividida

As lobas nos seus covis
as raposas sorrateiras
as gazelas as leoas

Na vigilância matreira

Contra o silêncio da selva
ou a queixa sofredora
o sangue, a seita, ou a seiva

No trajecto da cerviz

Onde estão as guerrilheiras
as sílfides no voo fechado
Théroigne de Méricour?

De punhal embainhado

A querer desdobrar a Luz
da revolução o começo
com o seu passo alado

E o seu desassossego

Entre o sonho e a voz alva
tão forte e destemida
que é calada sem apreço

Entre a quimera e o esteio

Onde estão as poetisas
bravias em devaneio
pelo avesso da rima

Onde se entorna o poema?

Dançando no fio das letras
no gume da faca ou sino
a preverem o futuro

E a tecerem o destino

Buscando no veio dos versos
os recessos e os limites
os lumes e as lianas

E no desejo arbitrário

A mulher a querer ser chama
em busca do feminino
no masculino contrário



M Teresa Horta

(inédito)

domingo, março 08, 2009

Albina Fernandes e todas as Mulheres

(Soissous, 5.1.1928 - Lisboa, 5.10.1970)
«são as mulheres como tu / que podem transformar o mundo» Joaquim Pessoa

Presa em 15.12.1961 com o companheiro Octávio Pato, recolheu à cadeia de Caxias com os pequeninos Isabel e Rui, tendo desencadeado uma luta com os agentes da Pide para que as crianças fossem entregues, na sua presença, aos avós paternos. Ameaçada de lhe tirarem os filhos para serem entregues numa instituição, dado os pais não serem casados e os registos estarem irregulares devido à situação de clandestinidade que viviam, Albina Fernandes deitava as crianças na única cama da cela enquanto se estendia no chão frio, sem qualquer agasalho, segurando nas suas as mãos dos meninos. Só a 10.1.1962 lhe foi autorizada a entrega das crianças aos avós.
A foto testemunha o insólito de uma presa política que, mesmo para a fotografia da praxe, recusa largar o seu bébé.
Albina e Octávio viriam a casar na cadeia em 1963. Saida em liberdade condicional em 1969, veria a pena do companheiro ser indefinidamente prorrogada. E o seu sistema nervoso, extremamente debilitado por oito anos de prisão e muitos mais de clandestinidade não resistiu à angústia de uma vida constantemente adiada. Simbolicamente ou não, enforcou-se no dia 5 de Outubro de 1970.
Neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, a minha homenagem a todas as Mulheres do meu país, sobretudo àquelas que, como Albina Fernandes, foram injustamente ficando pelo caminho, não chegando a viver os alvores da Liberdade por que tanto lutaram.



quarta-feira, março 04, 2009

Crianças abusadas: realidade que vem de longe


Foto de D. Sharon Pruitt


8 de Setembro [1911]

Um médico conta-me hoje este facto horrível: quase todas as crianças pobres, de dez anos para cima, que dão entrada nos hospitais ou hospícios de Lisboa, vão desfloradas.

Raúl Brandão, Memórias, vol. II, p.126

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Arte Resistente: Júlio Pomar


























O Almoço do Trolha, 1947



Évora [Gadanheiro, Missão Estéticas de Férias, 1945] antecede o meu engagement político activo. De regresso ao Porto onde havia conhecido Guilherme de Carvalho, antes da sua passagem à clandestinidade, entro numa fase intensa de actividade quer como membro das Juventudes Comunistas, quer nas actividades estudantis legais - que se terminaram por um processo disciplinar que me interditava temporariamente a frequência da escola [Belas-Artes do Porto], e aonde nunca mais voltei. Pouco tempo me sobrava para pintar ou desenhar, mas lá fiz como pude. Acrescente-se que entretanto me viera parar às mãos a orientação de uma página semanal de arte no diário do Porto, A Tarde, onde escrevi artigos sobre artigos em que a intervenção política da (e na) Arte alinhava segundo o neo-realismo no topo da vaga.

Quando se formou o MUD Juvenil, [Julho, 1946] eu fiz parte da primeira comissão central, onde estavam entre outros, Mário Soares e Octávio Pato, que assinava Octávio Rodrigues...

Em 1946-47 pintei um fresco com mais de 100 m2 no Cinema Batalha, do Porto, encomenda particular que haviam tido a audácia de me confiar e eu a audácia assim destemperada em propor-se e aceitar. Tinha vinte anos. Casara-me. E no intervalo dos andaimes, num quarto minusculo onde dormia, pintei o «Almoço do Trolha» que anda para a frente e para trás quando se trata de evocar o neo-realismo. A PIDE prendeu-me antes do mural estar pronto. Como utilizava a técnica tradicional do fresco, em que cada fragmento tem de ser pintado de uma só vez antes da secagem da parede, o canto inferior direito (cerca de 4 m2) ficara nú. Assim abriu o cinema e o público acorreu e indagou e soube porquê. Quando saí da prisão acabei o fresco rapidamente, nas horas em que o cinema não funcionava. Depois a PIDE mandou que ele desaparecesse e ele foi tapado. O «Almoço do Trolha» não teve destas desgraçadas honras. Mas quando o expus, o quadro que lhe estava ao lado e se chamava «Resistência» foi apreendido no assalto da PIDE à Sociedade Nacional de Belas-Artes durante a segunda Exposição Geral de Artes Plásticas, [Maio, 1947] estava eu preso.

Júlio Pomar, in Helena Vaz da Silva com Julio Pomar, Afinidades Electivas, 1979



quarta-feira, fevereiro 11, 2009

António Lopes de Almeida (1913-1949)


  (22.2.1913 - 21.1.1949)
 
A sua morte ocorreu a 21 de Janeiro de 1949. Em plena campanha eleitoral para as presidenciais com o candidato da oposição Norton de Matos. Por isso passou quase despercebida. A censura impediu que à sua morte se fizesse qualquer referência nas sessões públicas oposicionistas.
António Lopes de Almeida tinha 36 anos, era casado e tinha uma filha de 6 anos. Operário vidreiro, era também músico, e elemento muito considerado na região. Militante do Partido Comunista, era um activo dirigente local e regional. Denunciado, foi preso na Marinha Grande a 16 de Janeiro e entregue à PIDE, em Lisboa, no dia seguinte. Na António Maria Cardoso foi torturado durante dois dias. O então muito jovem Carlos Aboim Inglez cruza-se com ele, por breves momentos, numa sala, antes de serem conduzidos ao Aljube. Fica impressionado. Na sua frente está um homem com a cara «num bolo» de sangue e equimoses, que lhe murmura: «estou há 40 horas a levar pancada». A sua memória jamais apagará o horror daquela imagem, como refere a Miguel Medina (Esboços I). 
No dia 21 é, segundo a polícia política, «encontrado morto», por enforcamento, na cadeia do Aljube. O nome do seu verdugo: Fernando Gouveia.PI
Desde logo todo o processo é altamente suspeito. Levam-no para a Morgue e tentam apressar o funeral. Porém, o jornal República do dia 22 torna o caso público ao anunciar ter dado «entrada na Morgue o cadáver de António Lopes de Almeida». Sabe-se hoje, através da viúva do médico Custódio Maldonado Freitas, na altura em serviço em São José, que foi alertado por um funcionário seu conhecido do Instituto de Medicina Legal. A PIDE não detectara, mas um minúsculo bilhete, escrito a sangue, foi encontrado no bolso do pijama, dizendo: «sou António Lopes de Almeida, da Marinha Grande, avisem a minha mulher». A partir daí não mais foi possível silenciar o caso.
A família desloca-se a Lisboa, faz vários requerimentos, mas nunca lhes é permitido verem o cadáver. Na Marinha Grande os operários paralizam e mobilizam-se para lhe fazerem o funeral. No diz 24, pode ler-se: «Como o Republica noticiou ante-ontem, morreu em Lisboa o operário da Marinha Grande, Antonio Lopes de Almeida. Os seus colegas marinhenses resolveram prestar-lhe, neste momento, o seu último tributo de homenagem, fazendo, a seu cargo, o funeral para a Marinha Grande. Em sinal de sentimento, suspenderam o trabalho os operários vidreiros da Fábrica Marquês de Pombal, sendo grande a consternação em toda a população.» (Republica, 24.1.49) Mas a PIDE consegue os seus intentos e realiza o funeral, para o cemitério de Benfica, em Lisboa, a 29 de Janeiro.
Nunca se saberá se António Lopes de Almeida morreu às mãos da PIDE ou se suicidou, por enforcamento, como alegaram. A PIDE afirma que se suicidou, após ter denunciado a organização do PCP de que era dirigente. *  No entanto, do seu processo não consta qualquer auto de perguntas que lhe tenha sido levantado, como a própria polícia política (Fernando Gouveia) refere à Policia Judiciária, dada a necessidade de que esta «comprove o suicídio». Pedem que seja apensado o relatório da autópsia e afirmam que não houve quaisquer testemunhas do ocorrido. O processo ficaria encerrado com o aval de José Catela, em 19 de Maio de 49.
É possível que não tenha aguentado as torturas. É possível que, perante isso, tenha optado pelo suicídio. Nem todos são heróis. E nem por isso deixam de ser homens de carácter. Mas também é muito provável que tenham sido outros os denunciantes e, perante o sucedido, tenha sido fácil atribuir culpas a quem já não podia defender-se.**
Maria da Piedade Almeida, a viúva, nunca deixou de fazer esforços para levar o corpo do marido para a Marinha Grande. Numa petição dirigida ao Ministro do Interior, em Abril, dizia:
«É já pela segunda vez que me dirijo por escrito a V.Exa., fazendo esta mesma petição, não só em meu nome, mas também da mãe e irmã, que desta vez não puderam vir, por falta de recursos.
Foi-nos dito então pelo Ministério de V.Exa., e após a primeira petição em papel selado, que já tinha sido deferido e enviado para o Governo Civil, juntando-se ao requerimento que lá se encontrava da agência funerária que tratou do funeral.
Informaram-me nessa altura, no Governo Civil, e a PIDE já nos tinha dito antes também, que seguiria sim, mas só daí por trinta dias.
São vencidos mais de sessenta dias e ainda o corpo nesta cidade se encontra, e como no dia 5 do corrente, nos disseram no Governo Civil, da parte do próprio Governador, que este requerimento estava a despacho no Ministério de V.Exa., fico confusa sem saber que pensar, voltando por isso a rogar-lhe encarecidamente pronta decisão para este caso.
É tão pouco o que peço a V.Exa, e para mim, apesar de triste e desoladora consolação, era grande alívio e um bem íntimo, chorar junto da sua sepultura, sempre que me sentisses sem forças para criar uma filhinha que me deixou com 6 anos.»
Despacho do Ministro A Cancella de Abreu em 7 de Abril de 49: «Não considero ainda oportuna a solicitada transferência, o que deve se comunicar à interessada.»
Desconheço se o corpo de António Lopes de Almeida alguma vez chegou a regressar à sua terra. Talvez depois de Abril, quando a Câmara Municipal atribuiu o seu nome a uma rua da Marinha Grande. ***
Esta morte violenta e injusta raramente é referida e o seu nome não faz parte da habitual galeria dos «heróis da resistência» apresentada pelo seu partido, o PCP. Por isso lhe presto as minhas homenagens, no momento em que passam 60 anos sobre o ocorrido.
Carlos Aboim Inglez, porém, nunca esqueceu o homem com quem se cruzou na sua primeira prisão, em 18 de Janeiro de 1949. Aqui fica o poema que lhe dedicou, inserido no livro póstumo, Soma Pouca.
 
A António Lopes de Almeida

Caíste por terra amigo na terra negra e dura
das pragas e das lágrimas e do suor não cumprido.
Caíste por terra amigo. E a terra toda abriu-se
como não se abrira ainda aos rogos da tua esperança.

Caíste por terra amigo caíste por terra amigo
E a terra será toda de luto até ao dia claro e largo
Porque lutaste porque viveste porque morreste
Até ao dia
Em que floriremos teu sangue na terra onde caíste. 

JC


NOTAS:

Já depois de ter escrito este artigo encontrei nos arquivos da PIDE/DGS o documento interno do PCP- «ALGUMAS NOTAS INFORMATIVAS A RESPEITO DA PROVOCAÇÃO INIMIGA» - sem data mas que tudo leva a crer  ser de 1952/53 e que, na sequência da discussão sobre a traição de um outro militante, acaba por lançar luz sobre a nebulosa que sempre pairou acerca da morte de António Lopes de Almeida (ALA) esclarecendo quem foi o denunciante não só do ALA como de toda a organização do concelho da  Marinha Grande.




* - à PIDE interessava salvaguardar o seu informador e o suposto suicídio de ALA foi a forma encontrada para fazer recair sobre este o odioso da denúncia e entrega de toda a organização.

** - segundo este documento do PCP, o denunciante foi o Pinante, um camarada com quem o ALA tocava numa troupe - Os Pinantes - e que foi o primeiro a ser preso e também o primeiro a ser solto, e de quem a família e amigos próximos sempre desconfiaram mas nunca tiveram provas.  a verdade é que, logo depois, ele e a familia deixaram a Marinha Grande e foram viver para a Figueira da Foz. a PIDE arregimentara mais um informador.

*** - o corpo de ALA voltou à Marinha Grande depois do 25 de Abril, em 1979, por iniciativa e a expensas da família.

Julia Coutinho

Bibliografia:
- Arq. PIDE/DGS - ANTT - Proc- SC-PC 428/49 - 5007
- Arquivo MAI-GM-GBT-15/1949 -
- Presos Políticos no Regime Fascista V - 1949-1951, Presidência do Conselho de Ministros, Maio 1987


sábado, janeiro 24, 2009

No adeus a Stella Piteira Santos (1917-2009)

(1 Jun 1917 - 22 Jan 2009)
Foi hoje o funeral. Dissemos adeus a uma mulher de excepção, uma lutadora consequente, uma resistente a todas as formas de opressão. A sua vida é um exemplo. Por direito próprio, Stella Piteira Santos vai ficar na História das Mulheres Portuguesas do século XX. Alimentou afectos. Abriu caminhos e furjou futuros.
Uma mulher que contactei quando em 2005 fundámos o movimento cívico Não Apaguem a Memória e que foi das primeiras a assinar o nosso Manifesto. Interventiva e actuante até ao fim.
Aqui ficam as palavras de sua filha, M Antónia Fiadeiro, aquando dos seus 90 anos e publicadas no Referencial, boletim da Associação 25 de Abril, em Junho de 2007.


Stella Piteira Santos, uma vida de 90 anos

Este é o dia do aniversário dos teus 90 anos. Nasceste no princípio do século passado, em 1917, o ano das grandes utopias socialistas na Europa, utopias a que aderiste, aos dezassete anos, eras uma menina, quando te casaste com o nosso pai, Inácio Fiadeiro. O teu pai médico militar estava na Flandres, em França, fazendo a 1ª Grande Guerra e foi ele que telegrafou para a tua mãe o nome que viria a ser o teu: Stella. A tua mãe, Maria do Carmo Bicker fora de Lagoa para Portimão para poder dar-te à luz nas melhores condições de saúde e de apoio familiar. O Algarve é a tua terra, como sempre dizes, com veemente alegria. O Algarve outrora das amendoeiras em flor, hoje dos longos aloendros floridos.
Casaste uma segunda vez, em 1948, com Fernando Piteira Santos, um amigo e companheiro de lutas estudantis políticas, que fora padrinho de tua filha (eu própria, nascida em 1942) que viera, uns tempos antes, da cadeia Forte de Peniche. Foste então viver para a Amadora, a sua cidade natal, então uma vila. Viveste com o Fernando durante 44 anos, como tantas vezes sublinhas, para salientar o teu marido-companheiro-de-uma-vida, que sempre acompanhaste corajosamente, nos seus escritos e nas suas lutas políticas, até à sua morte inesperada, em 1992, aos 74 anos. Foste uma esposa dedicada, abnegada, que respeitou e ajudou com coragem e determinação as actividades pela liberdade e contra a ditadura em Portugal, que durou tantos anos, tantos anos, quase 50 anos. Sempre fiz tudo para que ele pudesse fazer a sua vida política. A minha, fazia-a com ele. Tudo era mesmo tudo. Fazias de motorista, de secretária, de telefonista, passavas à máquina os manuscritos, fazias pesquisas na Biblioteca Nacional, além de assegurares a gestão e a contabilidade domésticas. Duplas e triplas tarefas. Estiveste presa, foste refém, quase dois meses, em Caxias. Acompanhaste-o no longo exílio de quase 13 anos, onde sempre exerceste a profissão que já tinhas em Portugal, a de secretária bilingue executiva, em grandes empresas, como a Siemens, por exemplo. Foste funcionária do Ministério de Turismo da Argélia de Bem Bella. Ocupaste, pois, como profissional, cá e lá, cargos de confiança e de responsabilidade, onde sempre te reconheceram a lealdade e a competência.

Foste, desde jovem, uma nova mulher moderna. Completaste o 7º ano já com dois filhos pequenos, tinhas carta de condução desde os 40 e guiaste até ao novo milénio. Trabalhavas fora de casa, fumavas (tens um enfisema pulmonar), vestias calças compridas sempre que te apetecia e também escrevias à máquina em casa (uma portátil que pesa «toneladas»), quase sempre à noite, durante 44 anos, praticamente.

Participaste em 1938, grávida de teu primeiro filho, com 21 anos, na fuga do Aljube do António, o mítico Pável, então do Comité Central do Partido Comunista Português, uma fuga histórica, muito pouco falada, mas muito bem sucedida. Foi por causa dele que deram o nome de António ao vosso filho (nascido em Setembro de 1938) cujo padrinho foi o Cunhal, então vosso companheiro e amigo. É por isso que o meu irmão se chama António e é por causa do meu irmão que eu me chamo Maria… Antónia… Éramos, somos, fomos «os Toninhos». A história da nossa família funde-se intimamente com a história política antifascista de Portugal, ou, se preferires, cruza-se perigosamente. Dois anos antes, em 1936, no ano da Guerra Civil de Espanha – houve grandes e devastadoras guerras na Europa do Século XX – foste sócia fundadora da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Foste uma jovem cidadã interveniente, uma adolescente emancipada. Mais tarde, em meados dos anos 40, aderiste ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, era então presidente Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas, a mítica Maria Lamas, tua amiga. Foste uma nova mulher, uma mulher moderna. Ainda és uma avó moderna e uma bisavó moderna.

Completares, hoje, dia 1 de Junho de 2007, 90 anos, de uma forma lúcida, afável e tão comunicativa, é também uma grande prova de resistência moral e física. O exercício da tua livre vontade em vires para aqui, onde já «moras» há um ano, e largares a tua casa com jardim, em frente à Gulbenkian, as tuas mobílias, os teus objectos, as tuas jóias, os teus papéis, as tuas panelas, as tuas coisas, enfim, foi uma surpresa para nós todos, filhos, netos e amigos e, porventura, foi também uma grande surpresa para ti. Foi uma grande coragem. Com a mesma coragem com que enfrentavas a polícia, recusaste o isolamento. Presa à vida e agarrada ao telemóvel, soubeste desprender-te. Não te bastava viver, querias conviver. A sobrevivência à repressão, à censura e ao medo, face à banalidade da ditadura, tinha sido diária e muito, muito longa.

Aqui, tens um quarto que é teu e para onde pediste que te trouxesse, uma cómoda que era da tua mãe; duas cadeiras de braços em esquina, que pertenceram à casa dos teus bisavós; uma pequena aguarela com uma chaminé e uma buganvília do Algarve cheio de sol; uma pequena pintura, muito escura do Cunhal pai, uma família amiga da família dos teus pais; a foto de casamento de teus pais; uma foto do teu marido, Fernando Piteira Santos, na antiquíssima moldura que já fora de sua mãe Leonilde; fotos dos filhos, dos netos e dos bisnetos, uma foto do teu neto, João, artista coreógrafo e bailarino, em palco; uma carta com uma aguarela da tua neta, Isabel, artista pintora na Mauritânia; uma foto do casamento do teu neto Pedro; a reprodução do brasão da tua família do lado Bicker e uma fotografia oficial, em que recebes das mãos do Presidente Jorge Sampaio, no início deste milénio, a insígnia da Ordem da Liberdade. Ah! E é claro, as tuas toilletes, o teu guarda-roupa. E, claro, as tuas bijutarias, as tuas fantasias e as tuas bugigangas.

Com estes poucos pertences e os muitos cuidados que aqui tens, manténs a tua proverbial elegância e o teu sorriso radioso, uma cara laroca, às vezes, de uma exigência extrema, com modos de muito mando, em legítima defesa, como comentas sibilinamente. Experiências de autoritarismo adquiridas na dura luta dos antigamentes, como insinuas, mais ou menos com estas palavras. Pequenos e plenos poderes perversos.
És uma senhora educada e conversadora, muito convivial, com quem se gosta de conversar e de rir, todos sabemos. Os amigos que reunimos hoje à tua volta e muitos outros, admiram-te e apreciam-te e têm-te dado bastas provas disso. Sempre foste uma senhora inteligente e elegante, embora insistas, muito frequentemente, nos cabelos sem pente, sinal de rebeldia intrínseca.
Stella Piteira Santos. Conquistaste o direito à tua improvável biografia, contra ventos e marés preconceitos e estereótipo, um feito que te dá lugar, por mérito préprio, na História das Mulheres deste país, no século XX.
Tens aqui, comigo, hoje, amigos e amigas de longa duração. Amigas e amigos sem prazo de validade, de antes e depois de Abril, amizades que ainda cultivas e que também resistem ao tempo e aos tempos. A tua agenda de telefones, que dá nas vistas, bem grande, bem organizada e bem cheia (vestígios perenes do exercício da tua profissão?), tão cobiçada e tão útil, que trazes sempre contigo, na tua mala de senhora, junto com o telemóvel sempre activo, é uma enorme prova da tua ânsia de comunicação e de convívio. A democracia assim deve ser entendida: participativa, participante, comunicativa, tolerante. A democracia, quando nasce, é para todos.

Sempre foste uma resistente, em muitos sentidos, mãe, mas essa época acabou, com o século XX, o século assassino das grandes guerras e das pequenas e grandes ditaduras, na Europa. O futuro tem pressa e vem aí a alta velocidade digital. Há novos mundos na Europa do Ocidente e do Oriente. Já não há só novas mulheres. Há novos homens, novos jovens e novos pais, novas famílias que crescem. O tempo das pioneiras acabou no ocidente. Há países novos na Europa do século XXI. E em todo o mundo, novos países livres surgem. Há, também, muita pobreza, muita miséria, muita ignorância. Ainda não soubemos, nós os humanos, acabar com esse flagelo social. Intenso, tenso, embora para qualquer pessoa de bom senso a resolução da fome no mundo, seja um simples problema de aritmética.
Agora, tu que nunca te deitavas de dia na cama, já não resistes às sestas com oxigénio, mas ainda resistes dificilmente, heroicamente aos molhos e aos doces, tu que foste uma doceira e uma cozinheira de gabarito, embora nunca tivesses sabido fazer bifes… Porque é eu nunca me deste a receita da sopa de amêijoas brancas? Também, é verdade, que não resistes aos múltiplos mimos que te prodigalizam. És uma mimocas, dizem-me.
Estás dentro da razão, mãe. A verdadeira democravia promove e autoriza a liberdade das ideias e do pensamento, tal como a liberdade das emoções e dos sentimentos, e muitas, muitas outras liberdades vitais, como sabemos.
Mãe: estamos muito contentes com os teus 90 anos e com a presença dos teus amigos, entre os quais nós, os teus filhos, os Toninhos, se sentem incluídos. São as forças vivas do teu coração.

Esta festinha de aniversário dos teus 90 anos é uma homenagem à tua vida, Mãe. Muitos parabéns.
Maria Antónia Fiadeiro

domingo, janeiro 18, 2009

Bento Gonçalves e o 18 de Janeiro de 1934

Bento Gonçalves (1902-1942)


Muito se tem especulado sobre o posicionamento de Bento Gonçalves, então Secretário-Geral do Partido Comunista Português, acerca do 18 de Janeiro de 1934, que veio a designar de «anarqueirada».

Quando passam 75 anos sobre esse acontecimento, aqui deixo ficar as suas declarações à PVDE quando, em 1935, foi preso com os restantes membros do Secretariado: Julio Fogaça e Jose de Sousa.


Auto de Declarações de 25.Nov.35


P - Desde quando faz parte do Secretariado do PCP?

R - Desde 21 de Abril de 1929; porém, deixei de estar na actividade do Secretariado durante o tempo da prisão e deportação, ou seja, desde 28.Set.1930 até 10.Março.1933, tendo reassumido o cargo algum tempo depois da chegada ao Continente. No Secretariado do PCP sempre exerceu a tarefa de Secretário-Geral e nesta qualidade continuou até à data da sua prisão.

P - Participou no 18 de Janeiro de 1934?

R - Tomou parte activa no movimento de 18 de Janeiro de 1934 dirigido contra a série de decretos promulgados em Setembro de 1933 que dissolviam os Sindicatos Independentes da classe operária; porém, não perfilha a afirmação segundo a qual esse movimento deveria ser caracterizado por uma Greve Geral Revolucionária, mas sim, por um Movimento de Greves Parciais e Manifestações de Massas e a manutenção da liberdade de organização democrática dos Sindicatos Operários. No entanto, assume a responsabilidade de toda a Agitação e Propaganda e Actuação Antifascista conduzida pelo Comité Central do PCP, desde que é Secretário Geral.
(...)

Auto de Declarações de 6.Dez.1935


P - Desde quando estava na ilegalidade?

R - Desde o mês de Agosto de 1933, não mais tendo trabalhado na sua profissão, mantendo-se à custa do financiamento que lhe era feito pelo PCP.
(...)

P - Assume a responsabilidade da agitação, propaganda e actuação antifascista conduzida pelo Comité Executivo do PCP?

R - Assume essa responsabilidade. Quer dizer: o combate do PCP contra o actual Governo e contra as suas leis anti-democráticas, excluindo quaisquer actos isolados de terrorismo contra os quais tem conduzido campanhas na imprensa clandestina do Partido.

(Arq. da PIDE/DGS, proc. SPS 1664 - 4318)



NOTAS BIOGRÁFICAS:

Bento António Gonçalves nasceu a 2 de Março de 1902, em Fiães do Rio, Portalegre. Filho de Francisco Gonçalves e de Germana Gonçalves, cedo vem para Lisboa mas fica orfão e é criado pela mãe adoptiva, Guilhermina dos Santos. Reside na Rua do Ferragial de Baixo 11-4º Dto, em Lisboa, na mesmo rua onde também mora Francisco de Paula Oliveira convivendo ambos desde crianças e tendo-se tornado grandes amigos. Ambos virão a ser operários arsenalistas e irão apoiar-se na reorganização do PCP de 1929, sendo Pavel o responsavel pelas Juventudes Comunistas.

Após a prisão de 1935, Bento Gonçalves embarca no dia 8 Janeiro 1936 para Angra do Heroismo e, em 19 de Outubro desse mesmo ano vai inaugurar o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde vem a falecer em 11 de Setembro de 1942.

«... o recluso Bento António Gonçalves faleceu no dia 11 do corrente [Setembro, 1942], pelas 19H35 vitimado por febre biliosa hemoglobimirica»

(carta do Director da Colónial Penal de Cabo Verde, Tarrafal, nº 75/42 para Director da PVDE, datada de 12-9-1942, doc. 36 Proc. ref)


terça-feira, janeiro 06, 2009

«Grito e choro por Gaza e por Israel»

Prosseguindo na luta intransigente contra a indiferença e o acriticismo sociais, Fernando Nobre publicou no seu excelente blog um texto fortíssimo de denúncia da situação vivida entre Gaza e Israel.

Por que o considero dos textos mais lúcidos e veementes que li sobre o assunto, escrito por quem conhece de perto aqueles dois povos e os seus conflitos, aqui o transcrevo para os leitores do meu blog. Não deixem de visitar Fernando Nobre.
Há momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia.
O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes (“terroristas”) do movimento Hamas.
Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:
- Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento “terrorista” Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel.
- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamisaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas “terrorista” que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?
- Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.
- Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica!).
- Estranha guerra esta em que o “agressor”, os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os “agredidos”. Nunca antes visto nos anais militares!
- Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos “heróis” que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!
- Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!
- Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca!
- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!
- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!
Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos!

É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.
É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.

Forum pela Paz

Hoje, 6 Janeiro - 18h30 - na A25A - Rua Misericordia 95

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Contra o genocidio do povo palestiniano

Hoje, 5 de Jan. a partir das 18h Largo de S. Domingos
junto ao memorial às vítimas da intolerância

Solidariedade para com a população de Gaza



Cinco irmãs palestinianas de 4 a 17 anos mortas no
bombardeamento nocturno israelita a uma mesquita
do campo de refugiados de Yabalia
Agencia France Press, El País de 27-12-2008

«Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar» (Sofia M-B)
Deixo-vos com dois apontamentos de José Saramago.

1) Gaza (22.Dez.2008)
A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registadas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os camiões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado.
2) Israel (31.Dez.2008)
Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.
Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.
Textos retirados do Blog O Caderno de Jose Saramago
Para mais informação actualizada, ler aqui.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Lembrando Maria Helena Magro (1923-1956)

Maria Helena Alves Tavares Magro
(1 Janeiro 1923 - Dez 1956)
Começo o ano recordando uma mulher. Nada me seria mais grato. Uma mulher cujo nome raramente é referido e, quando o é, apenas engrossa o número dos anónimos que na clandestinidade viveram e sossobraram. Um nome, nada mais. A que nunca se associa um rosto, um feito, uma ideia, um sentimento. Se fosse viva, completaria hoje 86 anos.
Maria Helena Alves Tavares Magro nasceu no primeiro dia de Janeiro de 1923, em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho. Filha de Francisco Félix Tavares Magro e de Flora Carlota Alves, era irmã e cunhada dos dirigentes comunistas José Magro e Aida Magro, respectivamente.
Emancipada pelo pai aos 18 anos, desde muito cedo se envolveu na luta social e política, primeiro no bairro de Alcântara, onde viveu até aos 22 anos e, ao entrar para a Faculdade de Direito no ano lectivo 1940/41, nas lutas académicas que então ocorreram contra o aumento das propinas.
Aluna aplicada, Maria Helena Magro sempre «alcançou nas escolas altas classificações que lhe permitiram ganhar a isenção de matriculas e vários outros prémios», como refere uma sua biografia resumida que se encontra nos arquivos da PIDE/DGS.
Com o irmão José e a cunhada Aida, a que se juntam outros jovens da zona como «Mário Castrim» e Alda Nogueira desenvolvem intensa actividade na freguesia de Alcântara e arredores: pedem livros e fundam uma biblioteca, organizam bailes e quermesses para realização de fundos, angariam roupas e medicamentos para apoio aos presos políticos e famílias. Conta-nos Aida Magro a estratégia utilizada para conseguirem o apoio do padre da freguesia: a cedência do espaço em troca de uma parte dos lucros para a paróquia. Ousados, chegam a convidar a mulher de Carmona para inaugurar uma das quermesses; a senhora não comparece mas contribui com uma nota de 100 escudos, o que para a época era uma fortuna.
Em finais de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, aceita o convite para funcionária clandestina do PCP. Segue, com meses de intervalo, o irmão e a cunhada. O curso de Direito fica incompleto. Tem apenas 22 anos.
Sabe-se que foi simultaneamente um quadro técnico e político. Clara (o nome que dará à filha) é o pseudónimo que adopta para escrever em O Militante, enquanto que em o 3 Páginas e A Voz das Camaradas, de que é uma entusiasta impulsionadora e activa colaboradora, será Manuela.
Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, incluindo no seio partidário, foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres do partido no trabalho político como forma de emancipação.
Assim, em Maio de 1948 escrevia no boletim 3 Páginas (que antecedeu A Voz das Camaradas), dando-se como exemplo, na tentativa de incutir nas funcionárias comunistas o gosto pelo trabalho político, para além da principal tarefa da guarda das casas clandestinas:
«Tenho a meu cargo, entre outras tarefas, a do recorte dos jornais: recorto os artigos sobre a vida nacional e internacional que têm maior interesse, e vou-os catalogando conforme os assuntos: Assembleia Nacional, Organização Corporativa, etc. Colo depois estes artigos, com indicação da data e nome do jornal, em folhas que entram nas secções respectivas. Assim, os camaradas podem encontrar facilmente as noticias e dados concretos de que precisem para o seu trabalho. Esta leitura cuidada do jornal, que todas nós deviamos fazer diariamente, tomando-a como uma tarefa partidária, é muito útil porque alarga o nosso conhecimento sobre as condições de vida do povo, política salazarista, política internacional, etc.»
e, lembrando que nem todas sabem ler e escrever, diz ainda: «Acho que este trabalho podia ser feito por todas as amigas que leiam facilmente. (...) A nossa instrução politica é uma tarefa que não devemos esquecer.» (...) As amigas que não sabem ainda ler ou lêem com dificuldade, devem colocar aos camaradas da casa, muito seriamente, a tarefa de auxiliá-las, porque saber ler faz muita falta, camaradas.»
Fora das fileiras partidárias, Helena Magro recorda as palavras de Lenine: «esquecendo as mulheres, é impossível interessar as massas pela política» para defender, num documento da sua autoria,(1) que a «palavra de ordem que mobilizará as mais amplas massas femininas é a luta pela Paz» porque «a luta pela Paz é comum a todas as camadas, a todas as classes, une as pessoas de todas as ideologias e crenças.» Reconhecendo que em todos os campos - económico, social, político e jurídico - as mulheres têm reivindicações específicas a apresentar e advogando a criação de «uma organização feminina nacional, legal, que defenda as justas reivindicações da mulher em todos os campos», Helena Magro salienta, por outro lado, a necessidade de homens e mulheres se manterem lado a lado na luta por interesses comuns.
Através do referido 3 Páginas, de Maio de 1948, ficamos a saber como foi o início da sua vida na clandestinidade. «Quando eu vim, nos primeiros meses senti-me deslocada: não conhecia o camarada, a vida era muito diferente da que eu tivera, e também daquela que eu julgara vir encontrar e, principalmente, tinha um medo muito grande de não acertar, de não conseguir ser útil ao Partido. Mas tudo isso passou já e não esqueço o que o nosso jornal contribuiu para isso». O camarada a que alude é Joaquim Pires Jorge, que, pensamos, foi o seu único companheiro de vida.
O último artigo que escreveu, «A Importância da Cultura Geral», foi publicado em A Voz das Camaradas de Novembro de 1956. Nele faz um apelo ao estudo abrangente e metodológico de forma a que os comunistas assimilem os conhecimentos humanos acumulados ao longo dos anos, enriquecendo a memória e desenvolvendo o sentido crítico, concluindo:
«O dia virá em que outras tarefas nos serão confiadas e nessa altura todos os conhecimentos que agora vamos adquirindo nos serão preciosos. Por isso não podemos deixar passar os anos, uns após outros, sem aproveitar utilmente o tempo que não volta. (...) O estudo auxiliar-nos-á a assimilar o marxismo, tal como o marxismo nos ajuda a fazer um estudo sério e útil das outras ciências.»
Faleceu em finais de 1956. Tinha 34 anos. A sua saúde débil não resistiu aos rigores da clandestinidade. Nem aos abortos a que se viu constrangida, também eles, clandestinos. Deixou uma filha, a Clarinha.

(1) - «As Mulheres são uma força decisiva na luta pela Paz, pelo Pão, pela Terra, pela Democracia e pela Independência Nacional», in ANTT- Arq PIDE/DGS, Procº SC 173-GT, NT 1395
Nota: Retrato de M Helena Magro feito por Margarida Tengarrinha e publicado no boletim A Voz das Camaradas das Casas do Partido, nº 18, de Abril de 1961.

Uma charge pós-natalícia

«aqui vos deixo e vos dedico a minha última produção burlesca, brejeira, post-natalícia, suscitada por essa urticária consumista que nos assola...» disse o meu amigo Jorge Castro e, por que concordo com ele, venho partilhá-la convosco.
...
e lá se foi o Natal – essa quadra tão magana
enchendo a todos de gana de querer ser solidário
ao fundo um retardatário bate co' as botas no fundo
das costas ou cu se gostas de chamar p'lo nome os bois
a ver se logo se aconchega ao borralho
que está de arrebimba-ò-malho o tempinho cá na rua
e farto de ver a Lua anda o velhote da história
que tem seu mês de glória um só e em cada ano
triste e só anda este mano quem sabe vive de esmola
que a cena da Coca-Cola acabou já faz uns tempos
agora ele é só lamentos pela roupa vermelhusca
pela criançada cusca e aquela barbaça hirsuta
que seria coisa bruta não fosse ela alva de linho
corre pois ele para o ninho farto de prendas e renas
como se penasse penas por tanto a todos pesar
que com ele é só comprar – comprar – comprar – e comprar
não tem nada que enganar mas não há já quem o ature
e não sabe ele como fure este destino aziago
de do consumo ser mago e coisa de meter dó
ouvir-se-lhe o oh-oh-oh no espaço sideral
no centro comercial ou no écran de plasma
e a malta toda pasma de viver tanto o velhote
sem haver quem o enxote pois graça não tem nenhuma
a não ser aquela uma de favorecer as compras
ah não se ouvirem as trompas de alguma divina orquestra
dando ao Natal que nos resta personagens mais catitas
e acabar com as fitas de um pai natal que coitado
viverá desconsolado nos quintos do pólo norte
maldizendo a triste sorte de ter só com ele as renas
dores nas cruzes e as tais penas de vaguear tão sozinho
melhor muito melhorzinho ficaria o Nicolau
se em vez do banco de pau que o espera em seu ermo
a tal multinacional ao ermo pusesse um termo
e lhe desse companheira
roliça – doce – matreira – brincalhona – prazenteira
também de rubro vestida mas sem barba tão comprida
de precária situação ou com termo de contrato
mas que desvie o ancião do destino caricato
e lhe dê prendas a ele que tão farto está das penas
e das cenas com as renas e com razão afinal
e nos deixe no Natal o presépio cultivar
sem ter que comprar – comprar – oh-oh-oh
tão só comprar…

Jorge Castro

Nota: O Jorge Castro é um grande ser humano e um grande poeta. Pessoalmente sou uma privilegiada por tê-lo como amigo. Todos ficaríamos mais enriquecidos se conhecessemos melhor a sua obra.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Neste final de 2008















Quando um ano chega ao fim e outro se perfila no horizonte deixo-vos com mais um poema inédito de Maria Tereza Horta e um desenho de Maria Keil, duas mulheres que muito admiro e que honram as artes portuguesas.
Feliz 2009!

FIM DE ANO
São os meses
São os dias
as horas todas as vezes

Quantas depois
se iniciam
retornando ao seu alpendre

São os anseios
São os sonhos
a esperança e o devaneio

Quando o ano
no seu fim
torna ao começo em seu veio

Maria Teresa Horta

Lisboa, 30 de Dezembro de 2008

terça-feira, dezembro 30, 2008

Na morte de Arnaldo Louro de Almeida (1926-2008)

Arnaldo Louro de Almeida
(1926 -2008)
Tinha 82 anos e faleceu no dia 28, pelas 11 horas. Serena e discretamente, tal qual foi a sua vida. O funeral realiza-se hoje, dia 30 de Dezembro, pelas 15,30h, a partir da igreja de Loures para o cemitério local.
Oriundo da Escola António Arroio, tal como seu irmão Fernando, ambos se viriam a formar na Escola de Belas-Artes de Lisboa, o Fernando em Escultura e o Arnaldo em Pintura.
Começou a expor colectivamente logo na 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1946-1956), a cuja comissão organizativa deu apoio, com outros colegas estudantes de Belas-Artes.
Foi um dos 11 artistas que viu um dos seus quadros apreendidos pela PIDE na 2ª EGAP em 1947. Tinha apenas 20 anos e era o mais novo dos expositores. A foto que se publica data dessa altura.
Fez a primeira exposição individual na SNBA em Janeiro de 1949.
Pertenceu aos corpos directivos da SNBA e era seu Secretário quando em 1952 a PIDE fechou aquela instituição na sequência das provocações de Eduardo Malta, um pintor afecto ao regime. Foi a sua direcção quem geriu a crise então instalada e que durou até finais desse ano.
Foi professor e, mais tarde, director da Escola de Artes Decorativas António Arroio, cargo que ocupava quando se deu o 25 de Abril.
Viveu vários anos na Madeira onde exerceu grande actividade pedagógica, tendo ficado ligado à fundação da Academia de Belas-Artes da Madeira de que foi o primeiro director. Devem-se-lhe ainda muitas das traduções de livros técnicos, fundamentais para o ensino artístico.
Arnaldo Louro de Almeida nasceu em Lisboa, freguesia de Arroios, no dia 1 de Agosto de 1926 no seio de uma família com grandes tradições antifascistas. Seu pai, Manuel Guilherme de Almeida, foi um dos fundadores do PCP em 1921, tendo sido várias vezes preso pela polícia política e chegando a estar desterrado. Constituiu e dirigiu o Sindicato dos Alfaiates e fundou, em 4 de Março de 1934, a Academia de Corte Sistema Maguidal, (Maguidal, um acrónimo do seu nome), com um sistema de ensino inventado por si, cuja sede, ainda hoje existente na Rua da Palma, bem pode considerar-se um baluarte da resistência a Salazar, tal o trabalho conspirativo ali desenvolvido e os muitos clandestinos que acolheu.
Sua mãe, Alice Marques Louro, foi uma corajosa mulher que sempre desenvolveu um constante trabalho legal e clandestino no apoio aos presos políticos e a suas famílias, em conjunto com militantes antifascistas como Manuel Alpedrinha e Maria Machado, entre outros. Nos anos 50 a PIDE assaltou a casa da família, numa altura que ali estava recolhida Maria Machado e todos os seus membros, incluindo o Arnaldo, foram presos.
Pessoalmente devo a Mestre Arnaldo Louro de Almeida uma ajuda preciosa no deslindar da história da sua geração, uma «ínclita geração» (digo eu) da Escola de Belas-Artes de Lisboa, dos anos 40/50, fundamental na historiografia artística portuguesa, mas cuja História ainda está por fazer.
Insisti várias vezes para que doasse o seu espólio ao Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira onde seria tratado e preservado. Dizia-me sempre que sim mas, antes, queria fazer uma exposição retrospectiva da sua obra, em Lisboa. Cidade que amava. Onde se estreou como artista e onde queria terminar. Ainda em Agosto me dizia que, com esse objectivo, tinha ido tentar falar à CML, ao pelouro da Cultura, mas entretanto tinham-se mudado para a Casa dos Bicos, o vereador da cultura era outro... mas sim, voltaria a tentar logo que possível. Não queria desistir do seu sonho. Porque o Arnaldo era um sonhador, essa categoria de homens cada vez mais rara.
Viúvo há vários anos, a grande preocupação eram os filhos para os quais vivia inteiramente.
Um quadro seu, inédito, datado de 1947, quando tinha 20 anos, foi doado ao Museu do Fado e faz parte da exposição permanente daquele museu. 
Ainda em vida teve a alegria de ver o seu nome dado a uma escola de Lisboa, a ex- Escola Primária nº 44, ao Bairro Azul, numa homenagem ao Mestre que nos anos 50 fez os paineis de azulejos que decoram aquele estabelecimento de ensino.
Vi-o pela última vez no jantar comemorativo do 25 de Abril deste ano, no Parque das Nações. Estava já muito debilitado e era visível o esforço que fazia para conseguir estar presente.
Falei-lhe por telefone na véspera de Natal quando já estava internado em Santa Maria. Faleceu três dias depois um tanto inesperadamente, apesar da gravidade da sua doença. Perdi um grande amigo. Portugal perdeu um homem e um artista que praticamente desconhece. Portugal não merece homens como o Arnaldo Louro de Almeida.

Julia Coutinho



NOTA: Passados 10 anos é lamentável que nem o espólio tenha sido entregue a uma instituição que cuide dele e o dê a conhecer, nem se tenha realizado a exposição retrospectiva que Louro de Almeida desejava e merecia. Um dia nem sequer os alunos que frequentam a «sua» escola saberão quem foi Arnaldo Louro de Almeida. 

JC





quarta-feira, dezembro 24, 2008

Carta do Aljube no Natal 1962

Em Dezembro de 1962 o Capitão João Varela Gomes estava detido na cadeia do Aljube, às ordens da PIDE, por ter participado no Golpe de Beja. Também sua mulher, Maria Eugénia, se encontrava na prisão de Caxias, acusada de cumplicidade.
Era o primeiro Natal que passavam separados e longe dos filhos, o Paulo, o João António, a Maria Eugénia e a Maria da Luz, de 10, 9, 7 e 5 anos, respectivamente.
A carta que se segue foi escrita por um pai dilacerado (por vezes nem lhes era permitido um abraço) mas apostado em incutir nos filhos os valores da coragem, da responsabilidade, do respeito, da liberdade e da solidariedade. Um esforço para que, apesar de tudo, as crianças sentissem a «presença e o amor dos pais» numa época particularmente difícil e sensível. Um documento comovente.
«... Acabei de escrever aos filhos a carta de Natal. É mais a festa das crianças que dos papás. Que continuem felizes. Calculo que vais ter uns momentos, ou dias, de angústia e tristeza. Há que reagir, paciência» (carta para a mulher)

Lisboa, 21 de Dezembro de 1962 

Meus queridos filhos,
O pai não queria, nesta altura do Natal, deixar de vos dizer quanto pensa nos seus quatro filhos e quanto deseja que decorram com alegria estes dias de festa. São festas para os meninos pequenos, Boas Festas para todas as crianças deste mundo, mesmo para aquelas, pobrezinhas e infelizes, que são esquecidas durante todo o resto do ano. Não é o vosso caso, meus filhos, que têm o Avô e os Tios para cuidarem de vocês, e o Pai e a Mãe Gena para vos acompanharem em pensamento, dia por dia, dos 365 que conta o ano.
Conhecem a história do nascimento do Menino Jesus, num curral de gado, porque o Pai e a Mãe (José e Maria) estavam a ser perseguidos, por um rei mau - Herodes - que era quem mandava na terra deles.
Pois José e Maria tiveram que fugir para outro país - o Egipto - e foi no caminho que nasceu o filho deles. Nasceu numa ocasião de desgraça, de tristeza para a família, para todos os amigos e para todo o povo judeu. Quando tudo parecia perdido, nasce um menino, nasce com ele a esperança de melhores dias, de felicidade futura, de regresso a casa, duma nova Pátria sem nenhum Herodes. E, conta a história, que apareceram estrelas a brilhar e anjos a cantar e que desde os mais pobres - os pastores - até aos mais ricos - os reis Magos - todos se alegraram e confiaram. Até mesmo os animais - o burro e as vacas - olhavam para o menino como alguma coisa de precioso.
Ora bem, filhos, isto que sucedeu há 1962 anos, ensinou os homens a nunca desesperarem, a nunca se afundarem na tristeza, enquanto houver crianças, enquanto nascerem meninos que cresçam bons e valentes como vocês e de quem os mais velhos possam dizer, como diz daqui o Pai João e da outra cadeia a Mãe Gena: «os nossos filhos são o nosso orgulho; eles são a garantia que não vivemos em vão e que um mundo melhor se está a construir.»
 
Muito tempo se passou depois do nascimento do Menino Jesus; ele próprio, já homem, teve que morrer pelas suas ideias. Muita gente, como vocês sabem, toma-o ainda agora por Deus (na altura foram muito poucos: estava tudo com medo dos soldados romanos). A família lá de casa também acredita que foi Deus que nasceu quando nasceu o Menino Jesus. O Pai João e a Mãe Gena, como os meninos devem saber, apenas acreditam que nasceu com ele a esperança, morta e novamente renascida sempre que nasce um menino de bondade, um menino de coragem.
Para o Pai e para a Mãe Gena, os seus quatro filhos, são quatro Meninos Jesus; e, creio bem, que todos os pais pensam da mesma maneira em relação aos seus filhos.
 
Tinha imaginado acabar a carta com uns conselhos, mas vou desistir. Eram pequenas recomendações sobre um ou outro ponto que me parece, daqui, precisarem de correcção. Os tios e as tias se encarregarão de vos dizer o que eu penso sober os estudos, as companhias, as birras e as fúrias, os cuidados com as vossas coisas, a necessidade de fazer poucos pedidos aí em casa e de darem pouco trabalho.
Sois muito pequenos e as vossas responsabilidades já são grandes; mas eu, que conheço os meus filhos, confio em todos vocês. Neste Natal, ao redor do presépio, pensai num menino que nasceu quase no meio da rua, cresceu pobre e fugido e se fez Homem tão superior aos outros, que o chamaram de Deus; e, à volta da árvore dos brinquedos, pensai em todos os outros meninos que precisam de ajuda para sairem da miséria e da ignorância.
 
Beijos de Feliz Natal para toda a miudagem aí de casa e saudades para os adultos do
Pai João»

João Varela Gomes, Tempo de Resistência, Ler Editora, 1980, pp. 167-169 

NOTA: Na foto acima, Maria Eugenia Varela Gomes com os quatro filhos, no final dos anos cinquenta. Foto retirada daqui.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Palavras de Azevinho

PALAVRAS DE AZEVINHO
Natal de malva
e linho
de ternura mosqueada
Onde no peito
faz ninho
e no coração se alaga

Na entrega e no refúgio
de memória deslumbrada
entre o sonhado e o lume
Natal no seu aprisco
perfumes
de seda e cassa
Pela calada do tempo
da infância
sendo imagem
Com palavras
de azevinho
e nas costas duas asas

Natal de 2008
Maria Teresa Horta




Agradeço à minha querida amiga Teresa Horta este seu poema lindíssimo, inédito, feito expressamente para a quadra que atravessamos, e a generosidade em aceder que aqui o partilhe com os meus leitores.
Obrigada, Teresa!

domingo, dezembro 21, 2008

Carta ao Pai Natal










Olá Pai Natal

É a primeira vez que escrevo para ti
Venho de Lisboa e o pessoal chama-me AC
Desculpa o atrevimento mas tenho alguns pedidos
Espero que não fiquem nalguma prateleira esquecidos
Como nunca te pedi nada
Peço tudo duma vez e fica a conversa despachada
Talvez aches os pedidos meio extravagantes
Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes
Tira-lhes as armas e a vontade da guerra
É que se não acabamos a pedir-te uma nova Terra
Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente
E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente
E ao pobre coitado, e ao desempregado
Arranja-lhe um emprego em que ele não se sinta explorado
E ao soldado, manda-o de volta para junto da mulher
Acredita que é isso que ele quer
Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais
Dá de comer ás crianças ergue escolas e hospitais
Cura as doenças e distribui vacinas
Dá carrinhos aos meninos e bonecas ás meninas
E dá-lhes paz e alegria
Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia
Já sei que só ofereces aos meninos bem comportados
Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados
Jactos privados, carros topo de gama importados
Grandes ordenados, apagas pecados a culpados
Desculpa o pouco entusiasmo, não me leves a mal
Não percebo como é que isto se tornou um feriado comercial
Parece que é desculpa para um ano de costas voltadas
E a única coisa que interessa é se as prendas estão compradas
E quando passa o Natal, dás á sola?
Há quem diga que tu não existes, quem te inventou foi a Coca-Cola
Não te preocupes, que eu não digo a ninguém
Se és Pai Natal é porque és pai de alguém
Para mim Natal é a qualquer hora, basta querer
Gosto de dar e não preciso de pretextos para oferecer
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos Paz e Amor e nem é preciso embrulhar
Muita Felicidade, saúde acima de tudo
Se puderes dá-nos boas notas com pouco estudo
Desculpa o incómodo e continua com as tuas prendas
Feliz Natal para ti e já agora baixa as rendas.

Boss AC, álbum Ritmo Amor e Paz

Passar a(s) palavra(s)

palavras não existem
fora da nossa voz as
palavras não assistem
palavras somos nós
(Gastão Cruz)

sábado, dezembro 20, 2008

Jorge Vieira: «cada desenho um amigo»

Jorge Vieira
(1922-1998)

O Município de Alvito associando-se à Homenagem a Jorge Vieira, inaugura hoje, dia 20 de Dezembro, pelas 16 horas, na Sala Polivalente do Centro Cultural de Alvito, a exposição «Cada Desenho um Amigo».

Não fora a Noémia, companheira de vida e paladina incansável na divulgação da sua vida e da sua obra, e Jorge Vieira estaria hoje, muito possivelmente, completamente silenciado pela indiferença e pelo olvido dos portugueses, tal como já está pelas instituições culturais do seu país. País que lhe deve não só o renovo da escultura portuguesa no após Segunda Guerra Mundial como a formação de uma pleiade de jovens artistas plásticos que, sob a sua influência, continuam ainda hoje a honrar a nossa escultura dentro e fora do país. Um Mestre que fez escola e deixou discípulos.

Quando se perfazem 10 anos da sua morte (23 Dez 1998) esta é a homenagem da Noémia e dos Amigos. A única homenagem pública que se conhece. Uma homenagem dos afectos que são a seiva e a raíz deste projecto. Por isso, parafraseando Zeca Afonso, chamou-se-lhe «Cada Desenho um Amigo». Por que todos os amigos trouxeram para a festa os desenhos que, generosamente, ao longo da vida o Jorge lhes ofereceu.

Depois da Artecontempo e do Museu Municipal Prof Joaquim Vermelho, em Estremoz, é agora a vez de Alvito receber esta exposição itinerante. O Alentejo a fazer juz ao amor e dedicação que Vieira sempre lhe dedicou.

Não temos dúvidas: esta é a homenagem que o Jorge gostaria de ter. Por ser feita por quem o ama. Não são necessárias outras. Um dia a História da Arte Portuguesa dar-lhe-á o valor e o destaque que a sua Obra merece.

Em Beja encontra-se o Museu Jorge Vieira que contém grande parte da sua obra. Será que se esqueceram de assinalar esta data?!