segunda-feira, julho 20, 2009

Parabéns, Fernando Vieira de Sá

Nasceu
em Lisboa
no dia
20 Julho
1914




O meu amigo Fernando faz hoje 95 anos !

Como ele recorda... «num tempo em que ainda não existiam maternidades e as crianças nasciam em casa, pelas 3 horas da madrugada do dia 20 de Julho de 1914, nasci eu. Segundo dizia o meu pai, fazia imenso calor e, pelas janelas abertas da nossa casa, no Largo do Calvário, esquina com a Rua da Creche, (actual Rua José Dias Coelho), podia observar-se os salões animados da Promotora, em frente, onde se dançava a morna, dança muito em voga naquele tempo e que veio a ser exportada para Cabo Verde.»
Parabéns, Fernando!
Que continues a ser o Homem e o Amigo que és, por muitos e bons anos!

quarta-feira, junho 10, 2009

Oradour-sur-Glane, «aldeia-mártir»

Foi há 65 anos, na manhã de 10 de junho de 1944.

Os tanques de soldados alemães (Divisão SS Das Reich, do general Lammerding) chegam a Oradour-sur-Glane, perto de Limoges, uma aldeia pacífica com 1200 habitantes.

Separam mulheres e crianças e metem estas na igreja, incendiando-a. Apenas uma mulher, Margarite Rouffanche, consegue escapar deste inferno, atirando-se de uma janela partida e refugiando-se no campo.
Os homens são divididos e levados para diversos palheiros que são incendiados também. No final pilharam a aldeia, incendiaram-na e chacinaram quem encontraram.
Em Oradour-sur-Glane foram massacradas 664 pessoas nesse dia, tendo a barbárie atingido o apogeu.
Depois da guerra, o general de Gaulle decidiu que a aldeia não fosse reconstruída, mas que se tornasse num memorial à dôr da França durante a ocupação. A reconstrução do novo burgo da comunidade de Oradour-sur-Glane foi prevista noutro local desde julho 1944.
Em 1999, a aldeia foi considerada «aldeia mártir» pelo presidente Jacques Chirac. Desde então o «Centro de memória» une as ruínas ao novo burgo, graças a uma exposição permanente cobrindo todo o contexto.
Oradour-sur-Glane tornou-se, na Europa Ocidental, o símbolo da barbárie nazi.





quinta-feira, maio 21, 2009

... nunca mais

nunca mais
deixes sangrar no coração
esse violino de punhais
a que chamam solidão.

transforma-o noutro violino de astro fundo
-- para que a tua canção
chegue à nossa pele
e aqueça o mundo...
(embora te gele)

José Gomes Ferreira in Poeta Militante

sexta-feira, maio 01, 2009

minha mãe

Nome: Maria Helena.
Idade: 19 anos.
Única foto que possuo.
Era o dia do casamento.
Nasceria eu,
dois meses depois.
Seguir-se-iam
trabalhos, maus-tratos,
privações, torturas,
abusos.
Pelo caminho
três filhos
e alguns abortos.
Clandestinos.
Foi um deles que a levou
no dia 1 de Maio de 1952
Tinha 23 anos.
ausência que me dói.
ainda.

1º de Maio

gravura de José Dias Coelho, 1961

1ª DE MAIO

Tanto vermelho
e fulgor
tanta avidez desarmada

Tanta bandeira de amor
tanta esperança
desatada

Tanto sonho
e tanto ardor
dando nós na esperança alada

Tanta luta
sem rancor
com a liberdade emboscada


Maria Teresa Horta


Lisboa, 1º de Maio de 2009

Note: poema inédito


quinta-feira, abril 30, 2009

foi assim ...

«No tempo que antecedeu a revolução, olhando as coisas pela superfície, a sociedade parecia imóvel, a gente amorfa e amedrontada. Éramos um povo triste, marcado pelas necessidades, sem direitos políticos, humilhados e excluídos em boa parte do usufruto dos bens materiais e culturais.
E nos treze anos do fim começaram a chegar os caixões e os mutilados da guerra enquanto milhão e meio de
portugueses, na flor da idade, desertava e fugia.
Mas mesmo nos tempos mais sombrios, nunca faltou a esperança aos que mais se expuseram no combate, mesmo quando ingenuamente acreditavam, nas palavras de Engels, evocadas por Gramsci, que traziam no bolso, sem grande esforço das meninges, toda a história e toda a sabedoria filosófica e política, concentradas em fórmulas breves.

Não se pode viver plenamente sem projecto, sem esperança, sem solidariedade. E aquela confiança, mesmo ingénua, que mais não fosse a ideia tirada da natureza, de que à noite se seguiria naturalmente a manhã, fazia milagres, temperava o aço, usando uma expressão do tempo.

Na madrugada de 25 de Abril de 1974 a liberdade bateu-nos bruscamente na cara despertando uma força e uma alegria irreprimíveis. Capitães, soldados e povo atingiam mortalmente a ditadura. A emoção atingiu o auge no Terreiro do Paço, no Largo do Carmo, depois em Caxias, na Rua António Maria Cardoso. E no dia primeiro de Maio um milhão de portugueses em festa sufragava a aliança revolucionária Povo-MFA. As liberdades mais espantosas inundavam sem licença as ruas e as praças.

Na resposta ao golpe do 11 de Março, a revolução avançou para a Reforma Agrária e a estatização dos bancos, dos seguros e outras empresas.

No dia 25 de Novembro as armas travaram a radicalização do sonho. Multidões choravam nas ruas.»

(António Borges Coelho, nos 31 anos do 25 de Abril)


Nota: cartaz do designer Alexandre Castro


terça-feira, abril 28, 2009

Ciclo de Conferências: as Mulheres e a 1ª República


4ª feira, 29 de Abril, pelas 18H30
«Vivências e Sobrevivências: A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas»
por
João Esteves e Isabel Lousada

segunda-feira, abril 27, 2009

sexta-feira, abril 24, 2009

25 de ABRIL














gravura de Cipriano Dourado


É a festa a força
a liberdade
o riso aberto à flor da face

Sentir o coração
que se rutila
continuar ainda a apressar-se

É o dia onde fomos
para a rua
e este de pegar na sua haste

A fazer-nos lembrar
que ainda hoje
está por construir a igualdade


Maria Teresa Horta


PS. Obrigada à MTH por mais uma vez ter dado voz à minha/nossa voz.


quinta-feira, abril 23, 2009

LIBERDADE, monumento à Revolução de Abril

inaugura no dia 25 de Abril, às 14 h
no Jardim Amália, cruzamento da Av Marquês Fronteira com a R Castilho (cimo do Parq Eduardo VII)

Este monumento assinala os 25 anos da Associação 25 de Abril. Foi concebido por um grupo de jovens escultores do Curso de Escultura da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Os seus autores procuram deste modo evocar e reafirmar de forma permanente os valores fundamentais da Revolução de Abril, trazendo à sua defesa e preservação as gerações nascidas depois de 1974.

O envolvimento de um grupo de artistas plásticos, nascidos depois de 1974, num projecto colectivo de intervenção artística no espaço urbano, aparece-nos como uma das formas mais singulares de assinalar esta data. Para o sucesso desta empresa, importa destacar que, no cerne deste projecto esteve a partilha de experiências de vida entre a geração de artistas e militares que fizeram nascer a Revolução e um grupo de jovens artistas que se propõem evocá-la. Realizaram-se mesas redondas na Sede da A25A como preparação dos encontros de discussão colectiva na preparação da proposta de monumento.

Com este projecto procuramos: reafirmar de forma permanente e evocativa os valores nos quais se alicerça a existência da Associação 25 Abril; desenvolver novos processos de envolvimento dos artistas na construção do objecto comemorativo; chamar ao exercício da comemoração gerações que nasceram depois de 74, e encontrar os meios adequados para a transmissão do depositário de memórias necessário ao acto evocativo; implementar novas abordagens criativas ao exercício da escultura evocativa.

Esta intervenção define-se pelo seu carácter público. É pensado e construído a partir das relações que se estabelecem entre o objecto, o espaço que o envolve e as pessoas que o usam. Deste modo, a escultura não é pensada como um elemento imposto ao lugar, mas como criação de um lugar pelo usufruto da obra. Pensar o “monumento” desta perspectiva, é trabalhar com as memórias que nascem do passado e que se reforçam no presente. A Liberdade é reconstruída todos os dias, e os lugares de forte carácter evocativos são espaços de reflexão.

A palavra LIBERDADE é gravada pelas formas geométricas do seu vazio, no solo da cidade. No plano de proximidade da obra no lugar a palavra não é percebida. É necessário afastarmo-nos do solo para entender o significado da grafia que se estende no chão; estas marcas são elementos em betão branco sobrelevados do solo. São plataformas de usos diversos, à escala do corpo humano. Na sua envolvente plantam-se amendoeiras que provoquem sombras sobre o conjunto.

Participam os seguintes artistas: Direcção de Projecto Sérgio Vicente, Coordenação José Aurélio, com Ana Moreira, Bruno Cidra, Edgar Pires, Nuno Esteves, Ricardo Mendonça e Sara Padrão.

Promotores: Associação 25 Abril, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.

Apoio: SECIL

Localização: Jardim Amália Rodrigues, cruzamento entre a Rua Marquês de Fronteira e Rua Castilho, em Lisboa.

Inauguração: dia 25 de Abril de 2009, pelas 14 horas

a) direcção da Associação 25 de Abril

segunda-feira, abril 20, 2009

Jantar 35º aniversário do 25 de Abril


ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL

O jantar convívio do 35.º aniversário do 25 de Abril, organizado pela Associação A25A, será nas instalações da antiga Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, local de onde sairam as tropas de Salgueiro Maia

Dia: 24 de Abril de 2009 pa
Hora: 19h30 (convém chegar um pouco antes…)
Preço: € 5,00
Autocarros, a partir de Lisboa, ao preço de € 10,00, viagem de ida e volta.
com partidas da porta principal do Jardim Zoológico (1º às 17h, último às 18 h)
A partir das 23h00, realizar-se-á um espectáculo evocativo do 25 de Abril, que se espera seja grandioso, realizado pelos mesmos responsáveis dos espectáculos feitos na Expo98, em Lisboa.

INSCRIÇÕES: a25a.sec@25abril.org
ou telf. 21 324 14 20
referindo se precisam de transporte

Vai ser um jantar memorável, num local histórico!

terça-feira, abril 14, 2009

Convergência de Esquerda para Lisboa


Foi ontem lançado no Palácio Galveias, o Apelo para que haja uma Convergência da Esquerda para as eleições à CM Lisboa.
Aqui fica o texto do Apelo que desde ontem se encontra online e pode ser assinado por todos que amam Lisboa e a querem bem governada.
Para assinar, cliquem na imagem aqui ao lado.

Texto do Apelo:

A recente passagem de executivos liderados por forças de direita, na Câmara de Lisboa representou um sério retrocesso na governação da autarquia, cujas consequências foram sofridas pelos lisboetas e que delas guardam uma memória bem presente culminada pela realização de eleições intercalares em Junho de 2007.
A constante prevalência dos interesses particulares sobre os interesses gerais, o clima de suspeição que isso gerou, o endividamento sistemático das finanças municipais, a sucessão de projectos desajustados e megalómanos, antevistos para a cidade durante os mandatos anteriores, irão obrigar a autarquia, no imediato, a um esforço financeiro, a uma reestruturação mais racional e à reconversão de um planeamento urbanístico em moldes mais equilibrados e participativos, que não desrespeite nem o carácter da cidade, a sua memória histórica, ou tampouco ponha em risco o seu equilíbrio ambiental, concebido à margem de finalidades meramente especulativas e, merecedor, por via disso, de um amplo apoio dos cidadãos ao governo da sua cidade.

Por essa razão, para as eleições que este ano se vão realizar na autarquia de Lisboa, os abaixo-assinados reclamam de todas as organizações de esquerda – partidos, movimentos, associações – uma convergência de esforços e de programa que permita a eleição de uma equipa que dê garantias de rigor, transparência, responsabilidade e empenho no desenvolvimento equilibrado da cidade.

terça-feira, março 10, 2009

Poesia Reunida de M Teresa Horta


Foi
hoje
às 18,30
na
Casa
Fernando
Pessoa


Foi pelo final da tarde de hoje que nos encontrámos todos/as na «casa do poeta» (que a Inês, outra mulher de excelência dirige) para estarmos com a Teresa e a sua poesia, agora reunida e editada num único volume de 850 páginas, pela Dom Quixote, com prefácio de Maria João Reynaud e apresentada por Fernando J.B. Martinho.
Casa a abarrotar de amigos/as e admiradores/as da poetisa (um termo que muitos não gostam vá lá saber-se porquê) mas onde predominavam as mulheres que sabem bem o quanto devem à autora e à sua obra.
Maria Teresa Horta começou a publicar em 1960 e a sua poesia foi, desde sempre, como muitos testemunharam hoje, um «facho a arder» na vida de muitas mulheres portuguesas. Ela foi a voz das vozes silenciadas que não podiam, ou não sabiam, como gritar a revolta asfixiada e a sexualidade reprimida. Foi a arauta de uma revolução sexual feminina que tardava a chegar a este país pardacento.
Hoje ouvimos falar da originalidade da sua poesia, do seu erotismo e feminismo assumidos e nunca traídos, mas também do seu pioneirismo como dirigente cineclubista e até jornalistica, tendo desenvolvido um trabalho de extrema importância em a página cultural de A Capital, como bem salientou Fernando J. B. Martinho.
Ouvimos por fim alguns poemas ditos por si. Sempre precisos, essenciais. Tecidos pela palavra burilada e sensível da Teresa.
Poesia Reunida, como a autora defende, é um testemunho da sua vida para os outros. Uma dávida generosa cobrindo uma lacuna há muito sentida. Os seus livros encontram-se esgotados. As novas gerações precisam ler e conhecer Maria Teresa Horta. A sua poesia é necessária. Ainda e sempre.
Parabéns à Dom Quixote.
Obrigada, Teresa.

segunda-feira, março 09, 2009

Amazonas





(Sem Título,
de
Fernando
José
Francisco)






Onde estão as amazonas
as feiticeiras perdidas
Deana no ardor da caça?

Dentro de si dividida

As lobas nos seus covis
as raposas sorrateiras
as gazelas as leoas

Na vigilância matreira

Contra o silêncio da selva
ou a queixa sofredora
o sangue, a seita, ou a seiva

No trajecto da cerviz

Onde estão as guerrilheiras
as sílfides no voo fechado
Théroigne de Méricour?

De punhal embainhado

A querer desdobrar a Luz
da revolução o começo
com o seu passo alado

E o seu desassossego

Entre o sonho e a voz alva
tão forte e destemida
que é calada sem apreço

Entre a quimera e o esteio

Onde estão as poetisas
bravias em devaneio
pelo avesso da rima

Onde se entorna o poema?

Dançando no fio das letras
no gume da faca ou sino
a preverem o futuro

E a tecerem o destino

Buscando no veio dos versos
os recessos e os limites
os lumes e as lianas

E no desejo arbitrário

A mulher a querer ser chama
em busca do feminino
no masculino contrário



M Teresa Horta

(inédito)

domingo, março 08, 2009

Albina Fernandes e todas as Mulheres

(Soissous, 5.1.1928 - Lisboa, 5.10.1970)
«são as mulheres como tu / que podem transformar o mundo» Joaquim Pessoa

Presa em 15.12.1961 com o companheiro Octávio Pato, recolheu à cadeia de Caxias com os pequeninos Isabel e Rui, tendo desencadeado uma luta com os agentes da Pide para que as crianças fossem entregues, na sua presença, aos avós paternos. Ameaçada de lhe tirarem os filhos para serem entregues numa instituição, dado os pais não serem casados e os registos estarem irregulares devido à situação de clandestinidade que viviam, Albina Fernandes deitava as crianças na única cama da cela enquanto se estendia no chão frio, sem qualquer agasalho, segurando nas suas as mãos dos meninos. Só a 10.1.1962 lhe foi autorizada a entrega das crianças aos avós.
A foto testemunha o insólito de uma presa política que, mesmo para a fotografia da praxe, recusa largar o seu bébé.
Albina e Octávio viriam a casar na cadeia em 1963. Saida em liberdade condicional em 1969, veria a pena do companheiro ser indefinidamente prorrogada. E o seu sistema nervoso, extremamente debilitado por oito anos de prisão e muitos mais de clandestinidade não resistiu à angústia de uma vida constantemente adiada. Simbolicamente ou não, enforcou-se no dia 5 de Outubro de 1970.
Neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, a minha homenagem a todas as Mulheres do meu país, sobretudo àquelas que, como Albina Fernandes, foram injustamente ficando pelo caminho, não chegando a viver os alvores da Liberdade por que tanto lutaram.



quarta-feira, março 04, 2009

Crianças abusadas: realidade que vem de longe


Foto de D. Sharon Pruitt


8 de Setembro [1911]

Um médico conta-me hoje este facto horrível: quase todas as crianças pobres, de dez anos para cima, que dão entrada nos hospitais ou hospícios de Lisboa, vão desfloradas.

Raúl Brandão, Memórias, vol. II, p.126

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Arte Resistente: Júlio Pomar


























O Almoço do Trolha, 1947



Évora [Gadanheiro, Missão Estéticas de Férias, 1945] antecede o meu engagement político activo. De regresso ao Porto onde havia conhecido Guilherme de Carvalho, antes da sua passagem à clandestinidade, entro numa fase intensa de actividade quer como membro das Juventudes Comunistas, quer nas actividades estudantis legais - que se terminaram por um processo disciplinar que me interditava temporariamente a frequência da escola [Belas-Artes do Porto], e aonde nunca mais voltei. Pouco tempo me sobrava para pintar ou desenhar, mas lá fiz como pude. Acrescente-se que entretanto me viera parar às mãos a orientação de uma página semanal de arte no diário do Porto, A Tarde, onde escrevi artigos sobre artigos em que a intervenção política da (e na) Arte alinhava segundo o neo-realismo no topo da vaga.

Quando se formou o MUD Juvenil, [Julho, 1946] eu fiz parte da primeira comissão central, onde estavam entre outros, Mário Soares e Octávio Pato, que assinava Octávio Rodrigues...

Em 1946-47 pintei um fresco com mais de 100 m2 no Cinema Batalha, do Porto, encomenda particular que haviam tido a audácia de me confiar e eu a audácia assim destemperada em propor-se e aceitar. Tinha vinte anos. Casara-me. E no intervalo dos andaimes, num quarto minusculo onde dormia, pintei o «Almoço do Trolha» que anda para a frente e para trás quando se trata de evocar o neo-realismo. A PIDE prendeu-me antes do mural estar pronto. Como utilizava a técnica tradicional do fresco, em que cada fragmento tem de ser pintado de uma só vez antes da secagem da parede, o canto inferior direito (cerca de 4 m2) ficara nú. Assim abriu o cinema e o público acorreu e indagou e soube porquê. Quando saí da prisão acabei o fresco rapidamente, nas horas em que o cinema não funcionava. Depois a PIDE mandou que ele desaparecesse e ele foi tapado. O «Almoço do Trolha» não teve destas desgraçadas honras. Mas quando o expus, o quadro que lhe estava ao lado e se chamava «Resistência» foi apreendido no assalto da PIDE à Sociedade Nacional de Belas-Artes durante a segunda Exposição Geral de Artes Plásticas, [Maio, 1947] estava eu preso.

Júlio Pomar, in Helena Vaz da Silva com Julio Pomar, Afinidades Electivas, 1979



quarta-feira, fevereiro 11, 2009

António Lopes de Almeida (1913-1949)


  (22.2.1913 - 21.1.1949)
 
A sua morte ocorreu a 21 de Janeiro de 1949. Em plena campanha eleitoral para as presidenciais com o candidato da oposição Norton de Matos. Por isso passou quase despercebida. A censura impediu que à sua morte se fizesse qualquer referência nas sessões públicas oposicionistas.
António Lopes de Almeida tinha 36 anos, era casado e tinha uma filha de 6 anos. Operário vidreiro, era também músico, e elemento muito considerado na região. Militante do Partido Comunista, era um activo dirigente local e regional. Denunciado, foi preso na Marinha Grande a 16 de Janeiro e entregue à PIDE, em Lisboa, no dia seguinte. Na António Maria Cardoso foi torturado durante dois dias. O então muito jovem Carlos Aboim Inglez cruza-se com ele, por breves momentos, numa sala, antes de serem conduzidos ao Aljube. Fica impressionado. Na sua frente está um homem com a cara «num bolo» de sangue e equimoses, que lhe murmura: «estou há 40 horas a levar pancada». A sua memória jamais apagará o horror daquela imagem, como refere a Miguel Medina (Esboços I). 
No dia 21 é, segundo a polícia política, «encontrado morto», por enforcamento, na cadeia do Aljube. O nome do seu verdugo: Fernando Gouveia.PI
Desde logo todo o processo é altamente suspeito. Levam-no para a Morgue e tentam apressar o funeral. Porém, o jornal República do dia 22 torna o caso público ao anunciar ter dado «entrada na Morgue o cadáver de António Lopes de Almeida». Sabe-se hoje, através da viúva do médico Custódio Maldonado Freitas, na altura em serviço em São José, que foi alertado por um funcionário seu conhecido do Instituto de Medicina Legal. A PIDE não detectara, mas um minúsculo bilhete, escrito a sangue, foi encontrado no bolso do pijama, dizendo: «sou António Lopes de Almeida, da Marinha Grande, avisem a minha mulher». A partir daí não mais foi possível silenciar o caso.
A família desloca-se a Lisboa, faz vários requerimentos, mas nunca lhes é permitido verem o cadáver. Na Marinha Grande os operários paralizam e mobilizam-se para lhe fazerem o funeral. No diz 24, pode ler-se: «Como o Republica noticiou ante-ontem, morreu em Lisboa o operário da Marinha Grande, Antonio Lopes de Almeida. Os seus colegas marinhenses resolveram prestar-lhe, neste momento, o seu último tributo de homenagem, fazendo, a seu cargo, o funeral para a Marinha Grande. Em sinal de sentimento, suspenderam o trabalho os operários vidreiros da Fábrica Marquês de Pombal, sendo grande a consternação em toda a população.» (Republica, 24.1.49) Mas a PIDE consegue os seus intentos e realiza o funeral, para o cemitério de Benfica, em Lisboa, a 29 de Janeiro.
Nunca se saberá se António Lopes de Almeida morreu às mãos da PIDE ou se suicidou, por enforcamento, como alegaram. A PIDE afirma que se suicidou, após ter denunciado a organização do PCP de que era dirigente.*  No entanto, do seu processo não consta qualquer auto de perguntas que lhe tenha sido levantado, como a própria polícia política (Fernando Gouveia) refere à Policia Judiciária, dada a necessidade de que esta «comprove o suicídio». Pedem que seja apensado o relatório da autópsia e afirmam que não houve quaisquer testemunhas do ocorrido. O processo ficaria encerrado com o aval de José Catela, em 19 de Maio de 49.
É possível que não tenha aguentado as torturas. É possível que, perante isso, tenha optado pelo suicídio. Nem todos são heróis. E nem por isso deixam de ser homens de carácter. Mas também é muito provável que tenham sido outros os denunciantes e, perante o sucedido, tenha sido fácil atribuir culpas a quem já não podia defender-se.**
Maria da Piedade Almeida, a viúva, nunca deixou de fazer esforços para levar o corpo do marido para a Marinha Grande. Numa petição dirigida ao Ministro do Interior, em Abril, dizia:
«É já pela segunda vez que me dirijo por escrito a V.Exa., fazendo esta mesma petição, não só em meu nome, mas também da mãe e irmã, que desta vez não puderam vir, por falta de recursos.
Foi-nos dito então pelo Ministério de V.Exa., e após a primeira petição em papel selado, que já tinha sido deferido e enviado para o Governo Civil, juntando-se ao requerimento que lá se encontrava da agência funerária que tratou do funeral.
Informaram-me nessa altura, no Governo Civil, e a PIDE já nos tinha dito antes também, que seguiria sim, mas só daí por trinta dias.
São vencidos mais de sessenta dias e ainda o corpo nesta cidade se encontra, e como no dia 5 do corrente, nos disseram no Governo Civil, da parte do próprio Governador, que este requerimento estava a despacho no Ministério de V.Exa., fico confusa sem saber que pensar, voltando por isso a rogar-lhe encarecidamente pronta decisão para este caso.
É tão pouco o que peço a V.Exa, e para mim, apesar de triste e desoladora consolação, era grande alívio e um bem íntimo, chorar junto da sua sepultura, sempre que me sentisses sem forças para criar uma filhinha que me deixou com 6 anos.»
Despacho do Ministro A Cancella de Abreu em 7 de Abril de 49: «Não considero ainda oportuna a solicitada transferência, o que deve se comunicar à interessada.»
Desconheço se o corpo de António Lopes de Almeida alguma vez chegou a regressar à sua terra. Talvez depois de Abril, quando a Câmara Municipal atribuiu o seu nome a uma rua da Marinha Grande. ***
Esta morte violenta e injusta raramente é referida e o seu nome não faz parte da habitual galeria dos «heróis da resistência» apresentada pelo seu partido, o PCP. Por isso lhe presto as minhas homenagens, no momento em que passam 60 anos sobre o ocorrido.
Carlos Aboim Inglez, porém, nunca esqueceu o homem com quem se cruzou na sua primeira prisão, em 18 de Janeiro de 1949. Aqui fica o poema que lhe dedicou, inserido no livro póstumo, Soma Pouca.
 
A António Lopes de Almeida

Caíste por terra amigo na terra negra e dura
das pragas e das lágrimas e do suor não cumprido.
Caíste por terra amigo. E a terra toda abriu-se
como não se abrira ainda aos rogos da tua esperança.

Caíste por terra amigo caíste por terra amigo
E a terra será toda de luto até ao dia claro e largo
Porque lutaste porque viveste porque morreste
Até ao dia
Em que floriremos teu sangue na terra onde caíste. 

Julia Coutinho


NOTAS:

Já depois de ter escrito este artigo encontrei nos arquivos da PIDE/DGS o documento interno do PCP- «ALGUMAS NOTAS INFORMATIVAS A RESPEITO DA PROVOCAÇÃO INIMIGA» - sem data mas que tudo leva a crer  ser de 1952/53 e que, na sequência da discussão sobre a traição de um outro militante, acaba por lançar luz sobre a nebulosa que sempre pairou acerca da morte de António Lopes de Almeida (ALA) esclarecendo quem foi o denunciante não só de ALA como de toda a organização do concelho da  Marinha Grande.



transcrição: «Utilizando mais ou menos o mesmo sistema fez também referências elogiosas, aos Pinantes, Adrianos, Magalhães, um irmão seu, etc, pessoas estas que trairam de maneira miserável a classe operária, o nosso Partido e o povo em geral.
Contra toda a orientação do Partido e não dando conhecimento disso, estabeleceu contacto com o Pinante quando este saíu da prisão e era abertamente sabido da sua traição que entre o mais originou o assassinato de Antonio Lopes de Almeida da Marinha Grande. Não contente com isto ainda foi apresentar por último um bom camarada a Pinante com a finalidade duma ligação regular.»
 


* - à PIDE interessava salvaguardar o seu informador e o suposto suicídio de ALA foi a forma encontrada para fazer recair sobre este o odioso da denúncia e entrega de toda a organização.

** - segundo este documento do PCP, o denunciante foi o Pinante, alcunha de um camarada com quem o ALA tocava numa troupe - Os Pinantes - e que foi o primeiro da organização local do PCP a ser preso e também o primeiro a ser solto, e de quem a família e amigos próximos sempre desconfiaram mas nunca tiveram provas.  A verdade é que, pouco depois, ele e a familia deixaram a Marinha Grande.  A PIDE arregimentara mais um informador. O seu nome: Joaquim da Silva Couceiro (1908-1989).

*** - o corpo de ALA voltou à Marinha Grande depois do 25 de Abril, por iniciativa e a expensas da família. A trasladação fez-se do Gavetão 59 do cemitério de Benfica que a PIDE comprara por 50 anos, para o cemitério da Marinha Grande, no dia 13 Março 1979.

Julia Coutinho



Bibliografia:
- Arq. PIDE/DGS - ANTT - Proc- SC-PC 428/49 - 5007
- Arquivo MAI-GM-GBT-15/1949 -
- Presos Políticos no Regime Fascista V - 1949-1951, Presidência do Conselho de Ministros, Maio 1987


sábado, janeiro 24, 2009

No adeus a Stella Piteira Santos (1917-2009)

(1 Jun 1917 - 22 Jan 2009)
Foi hoje o funeral. Dissemos adeus a uma mulher de excepção, uma lutadora consequente, uma resistente a todas as formas de opressão. A sua vida é um exemplo. Por direito próprio, Stella Piteira Santos vai ficar na História das Mulheres Portuguesas do século XX. Alimentou afectos. Abriu caminhos e furjou futuros.
Uma mulher que contactei quando em 2005 fundámos o movimento cívico Não Apaguem a Memória e que foi das primeiras a assinar o nosso Manifesto. Interventiva e actuante até ao fim.
Aqui ficam as palavras de sua filha, M Antónia Fiadeiro, aquando dos seus 90 anos e publicadas no Referencial, boletim da Associação 25 de Abril, em Junho de 2007.


Stella Piteira Santos, uma vida de 90 anos

Este é o dia do aniversário dos teus 90 anos. Nasceste no princípio do século passado, em 1917, o ano das grandes utopias socialistas na Europa, utopias a que aderiste, aos dezassete anos, eras uma menina, quando te casaste com o nosso pai, Inácio Fiadeiro. O teu pai médico militar estava na Flandres, em França, fazendo a 1ª Grande Guerra e foi ele que telegrafou para a tua mãe o nome que viria a ser o teu: Stella. A tua mãe, Maria do Carmo Bicker fora de Lagoa para Portimão para poder dar-te à luz nas melhores condições de saúde e de apoio familiar. O Algarve é a tua terra, como sempre dizes, com veemente alegria. O Algarve outrora das amendoeiras em flor, hoje dos longos aloendros floridos.
Casaste uma segunda vez, em 1948, com Fernando Piteira Santos, um amigo e companheiro de lutas estudantis políticas, que fora padrinho de tua filha (eu própria, nascida em 1942) que viera, uns tempos antes, da cadeia Forte de Peniche. Foste então viver para a Amadora, a sua cidade natal, então uma vila. Viveste com o Fernando durante 44 anos, como tantas vezes sublinhas, para salientar o teu marido-companheiro-de-uma-vida, que sempre acompanhaste corajosamente, nos seus escritos e nas suas lutas políticas, até à sua morte inesperada, em 1992, aos 74 anos. Foste uma esposa dedicada, abnegada, que respeitou e ajudou com coragem e determinação as actividades pela liberdade e contra a ditadura em Portugal, que durou tantos anos, tantos anos, quase 50 anos. Sempre fiz tudo para que ele pudesse fazer a sua vida política. A minha, fazia-a com ele. Tudo era mesmo tudo. Fazias de motorista, de secretária, de telefonista, passavas à máquina os manuscritos, fazias pesquisas na Biblioteca Nacional, além de assegurares a gestão e a contabilidade domésticas. Duplas e triplas tarefas. Estiveste presa, foste refém, quase dois meses, em Caxias. Acompanhaste-o no longo exílio de quase 13 anos, onde sempre exerceste a profissão que já tinhas em Portugal, a de secretária bilingue executiva, em grandes empresas, como a Siemens, por exemplo. Foste funcionária do Ministério de Turismo da Argélia de Bem Bella. Ocupaste, pois, como profissional, cá e lá, cargos de confiança e de responsabilidade, onde sempre te reconheceram a lealdade e a competência.

Foste, desde jovem, uma nova mulher moderna. Completaste o 7º ano já com dois filhos pequenos, tinhas carta de condução desde os 40 e guiaste até ao novo milénio. Trabalhavas fora de casa, fumavas (tens um enfisema pulmonar), vestias calças compridas sempre que te apetecia e também escrevias à máquina em casa (uma portátil que pesa «toneladas»), quase sempre à noite, durante 44 anos, praticamente.

Participaste em 1938, grávida de teu primeiro filho, com 21 anos, na fuga do Aljube do António, o mítico Pável, então do Comité Central do Partido Comunista Português, uma fuga histórica, muito pouco falada, mas muito bem sucedida. Foi por causa dele que deram o nome de António ao vosso filho (nascido em Setembro de 1938) cujo padrinho foi o Cunhal, então vosso companheiro e amigo. É por isso que o meu irmão se chama António e é por causa do meu irmão que eu me chamo Maria… Antónia… Éramos, somos, fomos «os Toninhos». A história da nossa família funde-se intimamente com a história política antifascista de Portugal, ou, se preferires, cruza-se perigosamente. Dois anos antes, em 1936, no ano da Guerra Civil de Espanha – houve grandes e devastadoras guerras na Europa do Século XX – foste sócia fundadora da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Foste uma jovem cidadã interveniente, uma adolescente emancipada. Mais tarde, em meados dos anos 40, aderiste ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, era então presidente Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas, a mítica Maria Lamas, tua amiga. Foste uma nova mulher, uma mulher moderna. Ainda és uma avó moderna e uma bisavó moderna.

Completares, hoje, dia 1 de Junho de 2007, 90 anos, de uma forma lúcida, afável e tão comunicativa, é também uma grande prova de resistência moral e física. O exercício da tua livre vontade em vires para aqui, onde já «moras» há um ano, e largares a tua casa com jardim, em frente à Gulbenkian, as tuas mobílias, os teus objectos, as tuas jóias, os teus papéis, as tuas panelas, as tuas coisas, enfim, foi uma surpresa para nós todos, filhos, netos e amigos e, porventura, foi também uma grande surpresa para ti. Foi uma grande coragem. Com a mesma coragem com que enfrentavas a polícia, recusaste o isolamento. Presa à vida e agarrada ao telemóvel, soubeste desprender-te. Não te bastava viver, querias conviver. A sobrevivência à repressão, à censura e ao medo, face à banalidade da ditadura, tinha sido diária e muito, muito longa.

Aqui, tens um quarto que é teu e para onde pediste que te trouxesse, uma cómoda que era da tua mãe; duas cadeiras de braços em esquina, que pertenceram à casa dos teus bisavós; uma pequena aguarela com uma chaminé e uma buganvília do Algarve cheio de sol; uma pequena pintura, muito escura do Cunhal pai, uma família amiga da família dos teus pais; a foto de casamento de teus pais; uma foto do teu marido, Fernando Piteira Santos, na antiquíssima moldura que já fora de sua mãe Leonilde; fotos dos filhos, dos netos e dos bisnetos, uma foto do teu neto, João, artista coreógrafo e bailarino, em palco; uma carta com uma aguarela da tua neta, Isabel, artista pintora na Mauritânia; uma foto do casamento do teu neto Pedro; a reprodução do brasão da tua família do lado Bicker e uma fotografia oficial, em que recebes das mãos do Presidente Jorge Sampaio, no início deste milénio, a insígnia da Ordem da Liberdade. Ah! E é claro, as tuas toilletes, o teu guarda-roupa. E, claro, as tuas bijutarias, as tuas fantasias e as tuas bugigangas.

Com estes poucos pertences e os muitos cuidados que aqui tens, manténs a tua proverbial elegância e o teu sorriso radioso, uma cara laroca, às vezes, de uma exigência extrema, com modos de muito mando, em legítima defesa, como comentas sibilinamente. Experiências de autoritarismo adquiridas na dura luta dos antigamentes, como insinuas, mais ou menos com estas palavras. Pequenos e plenos poderes perversos.
És uma senhora educada e conversadora, muito convivial, com quem se gosta de conversar e de rir, todos sabemos. Os amigos que reunimos hoje à tua volta e muitos outros, admiram-te e apreciam-te e têm-te dado bastas provas disso. Sempre foste uma senhora inteligente e elegante, embora insistas, muito frequentemente, nos cabelos sem pente, sinal de rebeldia intrínseca.
Stella Piteira Santos. Conquistaste o direito à tua improvável biografia, contra ventos e marés preconceitos e estereótipo, um feito que te dá lugar, por mérito préprio, na História das Mulheres deste país, no século XX.
Tens aqui, comigo, hoje, amigos e amigas de longa duração. Amigas e amigos sem prazo de validade, de antes e depois de Abril, amizades que ainda cultivas e que também resistem ao tempo e aos tempos. A tua agenda de telefones, que dá nas vistas, bem grande, bem organizada e bem cheia (vestígios perenes do exercício da tua profissão?), tão cobiçada e tão útil, que trazes sempre contigo, na tua mala de senhora, junto com o telemóvel sempre activo, é uma enorme prova da tua ânsia de comunicação e de convívio. A democracia assim deve ser entendida: participativa, participante, comunicativa, tolerante. A democracia, quando nasce, é para todos.

Sempre foste uma resistente, em muitos sentidos, mãe, mas essa época acabou, com o século XX, o século assassino das grandes guerras e das pequenas e grandes ditaduras, na Europa. O futuro tem pressa e vem aí a alta velocidade digital. Há novos mundos na Europa do Ocidente e do Oriente. Já não há só novas mulheres. Há novos homens, novos jovens e novos pais, novas famílias que crescem. O tempo das pioneiras acabou no ocidente. Há países novos na Europa do século XXI. E em todo o mundo, novos países livres surgem. Há, também, muita pobreza, muita miséria, muita ignorância. Ainda não soubemos, nós os humanos, acabar com esse flagelo social. Intenso, tenso, embora para qualquer pessoa de bom senso a resolução da fome no mundo, seja um simples problema de aritmética.
Agora, tu que nunca te deitavas de dia na cama, já não resistes às sestas com oxigénio, mas ainda resistes dificilmente, heroicamente aos molhos e aos doces, tu que foste uma doceira e uma cozinheira de gabarito, embora nunca tivesses sabido fazer bifes… Porque é eu nunca me deste a receita da sopa de amêijoas brancas? Também, é verdade, que não resistes aos múltiplos mimos que te prodigalizam. És uma mimocas, dizem-me.
Estás dentro da razão, mãe. A verdadeira democravia promove e autoriza a liberdade das ideias e do pensamento, tal como a liberdade das emoções e dos sentimentos, e muitas, muitas outras liberdades vitais, como sabemos.
Mãe: estamos muito contentes com os teus 90 anos e com a presença dos teus amigos, entre os quais nós, os teus filhos, os Toninhos, se sentem incluídos. São as forças vivas do teu coração.

Esta festinha de aniversário dos teus 90 anos é uma homenagem à tua vida, Mãe. Muitos parabéns.
Maria Antónia Fiadeiro