domingo, fevereiro 14, 2010

Autobiografia de Rosa Lobato de Faria

Rosa Lobato Faria, morreu, dia 2 de Fevereiro de 2010, aos 77 anos.
Deixamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL há dois anos.


Autobiografia.

Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.

Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom. Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.

E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).
Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.

Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.

Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.

Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves. Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).

Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.

Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.

Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).

Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.

Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.

Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.

Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Decisão Histórica na AML

A causa dos Animais está de parabéns! Hoje, fez-se História!

Os partidos com assento na Assembleia Municipal de Lisboa aprovaram, por maioria e sem nenhum voto contra, todas as propostas do Grupo de Lisboa relativas à implementação da Campanha de Esterilização na cidade e também a suspensão das capturas dos gatos das colónias da cidade pelo Canil até à entrada em funcionamento do novo gatil.

A Assembleia Municipal de Lisboa tomou hoje uma decisão inovadora e decisiva que vai alterar a triste história da protecção dos direitos dos animais em Lisboa, tornando-se num exemplo para todo o país. O nosso aplauso e a nossa gratidão.


Eu estive lá.


Acompanhem aqui:

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Na morte de Rosa Lobato de Faria (1923-2010)


Se eu morrer de manhã
Abre a janela devagar
E olha com rigor o dia que não tenho

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
Ter tido a noite é mais do que mereço
Se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
E um pedaço de céu
O único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
Que não saber voar
Foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que não tenho
E do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
Pois não estar é da morte quanto sei.

Rosa Lobato de Faria
(20.4.1932 - 2.2.2010)

segunda-feira, janeiro 25, 2010

António Lopes de Almeida: A coragem e o medo

Antonio Lopes de Almeida, Maria da Piedade (mulher) e Suzete (filha)
No início do ano passado homenageei aqui António Lopes de Almeida, assassinado pela PIDE, no Aljube, em 1949. Na altura baseei-me nos arquivos da PIDE/DGS e nos jornais da época. Só mais tarde tomei conhecimento de um livro de 2008, - Mulheres da Marinha Grande, histórias de luta e de coragem -, da autoria de Júlia Guarda Ribeiro, com uma excelente recolha de testemunhos, entre os quais o de Maria da Piedade Almeida, viúva daquele malogrado operário vidreiro da Marinha Grande.
É esse testemunho que vos deixo aqui, nos 61 anos da morte de António Lopes de Almeida.



É com lágrimas na voz, pois as lágrimas dos olhos já secaram há muitos anos, que Maria da Piedade Almeida fala do dia 16 de Janeiro de 1949.

- O meu marido foi preso nesse dia. Era um Domingo, de manhã. Ele ainda estava a dormir, porque nessa noite tocara no grupo “Os Pinantes” até de madrugada. É que o meu António, para além de bom operário vidreiro, era um grande músico. Aos 14 anos já tocava clarinete. Depois aprendeu a tocar saxofone, trompete, trombone de varas e acordeão. Tocava muito bem. E compunha.Na banda era o único que escrevia músicas. A “Marcha dos Pinantes” , que ele compôs , foi muito aplaudida. E tantas outras músicas... Os olhos de Maria da Piedade ainda brilham com o amor dos 20 anos, quando fala do seu Toni.
- Era um grande músico e um grande homem. Não imaginam o prazer que tinha em ensinar os miúdos a ler. Porque eram ainda muito miúdos quando começavam a trabalhar no vidro. Alguns nem tinham tempo para ir à escola.

-Mas estava eu a falar do dia em que o meu António foi preso.
Ouvi bater à porta, fui abrir e lá estavam dois homens desconhecidos que me perguntaram: “É aqui que mora o Sr. António Lopes de Almeida?”
Pela má catadura deles, percebi logo que eram pides e até um calafrio me subiu pela espinha. A custo, perguntei: “Que lhe querem?” . “Não é da sua conta. Vá chamá-lo, que temos pressa”.
Fui acordá-lo e ele, ainda ensonado, veio à porta.
“Apronte-se, que tem de nos acompanhar à esquadra?” . “À esquadra? Para quê?” . “Precisamos de ter uma longa conversa”. “Tenho de me lavar, barbear e…” “Vá, rápido. Não temos o dia todo”

-Eu tinha o coração mais apertado que um nó cego. Fui ver a menina. Ainda dormia naquela paz e doçura que só uma criança tem enquanto dorme. Dei-lhe um beijo e as lágrimas correram-me desatadas. Foi aí que o meu medo começou. Medo pelo que se estava a passar e medo pelo que poderia vir a acontecer. Mas estava longe de adivinhar todo o horror que se passou. Saí do quartinho da minha filha e fui ter com o meu marido. Tentei aparentar coragem, mas o pavor crescia dentro de mim. Pôs-me o braço sobre os ombros, como se me quisesse dar forças e disse baixinho:”Não vai ser nada. É tempo de eleições e a pide quer meter medo às pessoas. Amanhã estou de volta, vais ver”.

A menina acordou entretanto e veio ter connosco. O pai pegou-a ao colo e voltámos os três à salinha onde os pides esperavam.Um deles disse-lhe: “Olhe, diga à patroa que lhe leve o almoço, que isto vai durar”. Foi assim, como se eu não estivesse presente, como se eu não contasse para nada.
E levaram-no. A menina, com 5 anitos, assistiu à prisão do pai e também nos seus olhos se espelhava o medo. Perguntou: “Para onde vai o pai’” “Teve de sair”. “Para onde foi?” “Foi com uns senhores, mas não demora.” “Foi com uns senhores, mas não demora”. Daí a minutos perguntava outra vez: “Quando vem o pai?” “Olha, minha querida, vamos fazer o almoço e levamos-lho, está bem?”
E levei-lhe o almoço ao quartel da GNR, junto do Mercado Velho, a Resinagem. Ele então pediu-me :”Traz-me roupas, Piedade. Vão levar-me para Lisboa, para interrogatório”. Fiquei sem fala. O pavor parece que se tornou uma vaga enorme que me estava a submergir. Custava-me a respirar. De boca aberta, parecia um peixe fora da água. “Vamos no comboio da tarde, Piedade. Vá, calma, não há-de ser nada. Eu não fiz nada. São umas perguntas para amedrontar ”. Lá consegui respirar e vim para casa, porque não queria que ele me visse chorar mais. Preparei uma maleta e aprontei a minha Suzete para nos irmos despedir dele à estação. A menina, ainda tão pequenina, mas parecia que percebia o que se estava a passar. Muito abraçada ao pai, a chorar, não o queria largar. Era de cortar o coração. E eu, ao abraçá-lo, disse-lhe ao ouvido “Oh, Toni, eles vão fazer-te mal. Vão torturar-te, mas tem coragem. Não dês o nome de ninguém”. E ele respondeu ao meu ouvido: “Tu conheces-me, Piedade. Sabes que eu nunca seria capaz de trair um amigo ou um camarada”.

- Depois arrependi-me muitas vezes de lhe ter dito tal coisa. E pensava cá para comigo : “ Quem sabe se ele tivesse dado um nome ou dois, daqueles que até já tinham sido presos, ele e os outros não seriam soltos mais dia menos dia?”
Mas também sei que mesmo que eu não lhe tivesse dito nada, o meu António não denunciaria ninguém.

Porém, ele... ele foi denunciado... Havia sempre bufos, mesmo onde não era de esperar.
Fez uma longa pausa, pois a ferida antiga fora reaberta. Perpassa funda amargura nas palavras que profere.
- Se houver contas a ajustar... Olhe, já lá estão os dois.

E continuou com voz mais sumida:
- O que o meu marido sofreu! Esteve 48 horas seguidas de estátua. Se escorregava para o chão, era logo “Levanta-te, cabrão” e pontapés por onde calhava: nas costas, na barriga, nos testículos. Se fechava os olhos de exaustão, eram pontapés na cara e na cabeça. Partiram-lhe o nariz, os óculos, escorria sangue por todo o lado. (Soubemos destas coisas por outros presos e porque o homem da funerária contou como estava o corpo: todo pisado. Todo ele era uma nódoa roxa. Disse que mais parecia o pano da Paixão.) . Tudo isto se passou na António Maria Cardoso e no Aljube. A prisão, a tortura e a morte : tudo isto em 3 dias ou 4.

Todavia há orgulho na voz sofrida desta mulher de 92 anos quando afirma:
- Mas nunca denunciou ninguém!

Regressa à sua memória e os seus olhos mostram que a lembrança lhe dói profundamente.
Quanto sofreste, meu Toni. Quanto eu sofri, nesses dias e em todos os outros dias da minha vida. Sentindo sempre aquele medo imenso, que me gelava o sangue. Não conseguia dormir e se caía no sono, tinha pesadelos infernais. Acordava aos gritos. Punha uma almofada na boca e mordia-a com força para não acordar a minha filhinha. De manhã tinha de tratar dela, sem choro nem lágrimas. E a menina continuava a perguntar: “Quando vem o pai?” “Não tarda aí, meu amor”. Que difícil compor um sorriso quando o coração geme e sangra. “Quero o pai”. E eu tinha de me virar de costas para ela não me ver chorar.

- Quando o meu marido foi torturado, estava no Aljube um estudante de Coimbra, preso nas lides da campanha de Norton de Matos. No corredor passavam um pelo outro. O meu António, com o rosto todo maltratado, os olhos muito negros e inchados, segredou-lhe: “Estive dois dias de estátua. Não me arrancaram nada nem arrancarão”. Na volta seguinte mais umas palavras: “Sou Lopes de Almeida, Marinha Grande. Estão a matar-me de pancada”. O estudante foi solto daí a um ou dois dias e viu a notícia da morte de António Lopes de Almeida, que se enforcara no Aljube. Mas não dizia que era da Marinha Grande. Cheio de fúria, correu ao jornal “República”, explicou tudo o que viu, e então a notícia saiu correcta.

- Mas como podia ele ter-se enforcado, se não tinha corda, nem cinto, nem atacadores dos sapatos. Realmente, segundo me contaram os meus primos Bajancas (isto é uma alcunha, que o apelido deles é Neto, e foi a eles que eu pedi que arranjassem uma funerária para tratar do corpo e do funeral), o meu marido tinha um vergão roxo à volta do pescoço. Mas a pide é que o dependurou já morto ou moribundo, para fazer crer que ele se tinha enforcado. Aliás, isso era prática muito frequente na pide.

Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, os meus primos levaram-me à funerária, mas o caixão já não se encontrava lá. O proprietário contou-me que, ao preparar o corpo, um dos empregados havia encontrado num bolso do pijama um papelinho escrito com sangue “Avisem minha mulher, Mª Grande”. “ Dê-me esse papelinho, por favor”. “Não o temos. A pide veio cá hoje mesmo buscá-lo”. “Mas como é que a pide soube?” “Minha senhora, a pide tem olhos e ouvidos em todo o lado. Até na casa dos mortos”.

- Eu percebi então que o meu António, à beira da morte, teve medo que a pide destruísse o seu corpo.

- Um agente da pide, de nome Fernando Gouveia, muito chegado a uma vizinha da minha cunhada Maria João, falou um dia sobre a tortura e morte do meu marido e disse: “O António Lopes de Almeida era um Homem. Um vidreiro, mas não um operário comum. Muito culto. Só que nunca quis dizer a verdade. A culpa foi dele. Porque é que nunca disse o que devia? Portanto, ele é que se enforcou”.

-Repare que todas estas coisas se foram sabendo com o tempo. Desculpe contar assim, sem jeito nenhum. Vou voltar atrás, ao Domingo seguinte à prisão. Era dia 23 de Janeiro e o grupo “Os Pinantes” estava a tocar num baile na Nazaré, quando alguém chegou com o jornal “República” e disse: “Mataram o António Lopes de Almeida”. Eram 4 horas da manhã quando ouvi duas pancadas na janela do meu quarto. O meu coração parou. Senti uma dor... sei lá … a dor da morte. Sabia, tinha a certeza, que o meu António morrera antes mesmo de ouvir dizer “Não tenha medo, Piedade. Sou eu, o Mário”. Era o Mário Macatrão. Abri a janela. “Venho dizer-lhe o que se passou com o seu marido”. Contou-me o que o meu coração já tinha adivinhado.
De manhã, fui chamada à Câmara e o Presidente disse-me: “Vá já para Lisboa tratar de assuntos referentes ao seu marido”. Eu já estava vestida de luto.

Avisei os meus primos e fui logo para Lisboa. Dirigi-me à António Maria Cardoso, pois era lá, pensava eu, que deveria reclamar o corpo, a fim de lhe dar um funeral digno na Marinha Grande. Veio um pide e, com falinha mansa, disse-me: “O corpo não pode ser entregue já. Só daqui a três meses é que o pode levar”. Pensei que enlouquecia. Desatei a gritar: “Quero o corpo do meu marido. Que lhe fizeram? Que lhe fizeram depois de o matar?”. “Ouça, não grite. O seu marido terá um funeral. O Governo Civil está a tratar disso”. Empurraram-me. Obrigaram-me a sair. Já no meio da rua continuei a gritar “Assassinos! Assassinos! Mataram o meu marido. Já que não mo dão vivo, dêem-mo morto”. O pide que me agarrara por um braço, ameaçou : “Cale-se, mulher, se não o corpo ainda vai parar à vala comum e você nunca mais saberá dele”. Eu não consegui parar de gritar. Foi o único momento em que não tive medo, talvez porque devo ter pensado que já não tinha mais nada a perder. Os meus gritos fizeram assomar muitos rostos assustados às janelas apenas entreabertas. “Assassinos! Assassinos!” . Gritei até a voz me doer. Gritei para lá da dor. Ali fiquei derrubada , no meu desespero e no meu soluço.

Quando consegui pensar, percebi que o que a pide queria era deixar passar o tempo, para que o caso caísse no esquecimento, porque era período de eleições e para que as marcas da tortura desaparecessem.

- O corpo de meu António ficou no gavetão nº 59 no cemitério de Benfica. Mais tarde soubemos que esse gavetão fora pago pelo Governo civil de Lisboa não por 3 meses, mas por 50 anos.E assim teria acontecido, se não fosse o 25 de Abril.

Quando íamos ao cemitério de Benfica pôr flores, por vezes interrogava-me se a pide não teria ido lá retirar o corpo. Até esse medo eu tive.
Um coveiro chegou a dizer-nos: “Preparem tudo na Marinha Grande e venham cá uma noite e levam o caixão.” Mas, obviamente, isso não se podia fazer assim.

Na Marinha Grande, logo que se soube da morte do meu marido, as fábricas pararam, os trabalhadores vieram para a rua e, em frente do Sindicato dos Vidreiros e no Largo da Câmara gritavam em altas vozes: “Queremos o Homem” “Queremos o Homem”. Foi um pide que chegou à varanda e disse: “Calma, que o Homem vem”. E veio. Mas passados 30 anos.
Mas já estou outra vez a adiantar-me aos acontecimentos.
Mais uma pausa no relato. Mais um reavivar da dor.

-Vou tentar retomar o fio da meada. O meu António não sobreviveu à tortura. Eu nem sei como sobrevivi a tanta dor, porque sofrer na alma é sofrer mil mortes. O que me prendeu à vida foi a minha filha, que eu, tão cedo viúva, ia ter de criar sozinha. Por isso, havia que secar as lágrimas eenfrentar a dura realidade. A morte do meu António não podia ter sido em vão. Tudo o que eu sentia: desespero, raiva, angústia, uniam-se num sentimento que me tolhia: o medo. Eu era vigiada. Fui vigiada anos e anos. E o medo entranha-se em nós até ao tutano. Tinha medo que me destruíssem também e eu tinha de viver e trabalhar para a minha filha.

- Quando havia qualquer movimento dos trabalhadores, para pedir aumento, ou melhores condições de trabalho, toda a gente, colegas e dirigentes sindicais me recomendavam que eu não me mostrasse, não saísse da fábrica, pois estava muito marcada. Na verdade, estava marcada pelo medo na alma e no coração. Mas aprendi que o medo também nos pode dar coragem. Coragem e força para lutar pelo que é nosso, pela nossa família, pelos nossos direitos.

- Já contei que trabalhava numa fábrica, na “Catita e Barros”, mas não disse o que fazia. Fui empalhadeira quase 20 anos. Era um trabalho muito duro. As costas ficavam derreadas e, a certa altura, comecei a ter dores muito fortes na barriga. Já quase nem podia encostar nela o garrafão, porque as dores se tornavam insuportáveis. Fui operada a um tumor e reformada por invalidez com 170 escudos mensais. Foi em 1961. Claro que isto não dava para viver e eu trabalhava em casa, empalhando coisas pequenas como garrafõezinhos e cantis-miniatura que a Elisa Bizarro vendia em Fátima. Era um trabalho menos duro, mas que exigia arte e paciência, porque a empalhação tinha de ficar como uma renda.

- No meio de tanta desgraça gostaria de dizer uma coisa muito linda sobre um patrão que tive e que era a excepção à regra: o Dr. Artur Barros. Grande amigo do meu marido, tinha pena de mim e da minha filha. Um dia perguntou-me: “Então a miúda vai bem nos estudos?”. “Vai, sim. Fez a 4ª classe e agora vai trabalhar”. “Trabalhar? Tão pequenina? Seria o que o pai queria?” . “ Não, não era. Mas o que eu ganho não dá para mais estudos” . “Escuta o que te digo, Piedade. Olha que sem estudos não se vai a lado nenhum”. “Sei que o senhor tem razão, mas…” “Eu tomo a meu cargo os estudos da pequena”. Foi assim que a minha Suzete continuou a estudar. E foi assim que pôde arranjar um emprego melhor do que ser empalhadeira.

- Hoje ajudo a minha filha a criar os filhos: os meus netos que, felizmente, não tiveram de viver num regime de opressão e de medo.

- Para terminar, só vou falar de um dos momentos mais importantes da minha vida: a trasladação dos restos mortais do meu marido para a terra que era a sua e que ele tanto amava.
Claro que teve de se dar o 25 de Abril. Teve de chegar a liberdade, tão duramente conquistada por mulheres e homens corajosos. A liberdade pela qual alguns, como o meu António, sacrificaram a própria vida.
Após 30 anos teve o funeral que lhe era devido. Foi no dia 13 de Março de 1979 que os seus restos mortais desceram à campa nº 1648, no cemitério da sua querida vila. Os trabalhadores da Marinha Grande, em peso, estavam lá.
Após 30 anos o Homem regressou, finalmente, à sua terra.


Maria da Piedade Almeida, in Júlia Guarda Ribeiro, Mulheres da Marinha Grande - histórias de luta e de coragem, Folheto Edições & Design, Leiria, 2008, pg. 39-53

quinta-feira, janeiro 21, 2010

No bicentenário de Chopin (1810-2010)




CHOPIN, 1831

Estás em Viena, inclinado sobre a primavera
com dedos brandos a tactear saudades. Folheias
um álbum com recordações de Varsóvia e sabes
que a solidão é uma ave sufocante e implacável,
um ofício que verte nas teclas todo o seu desespero.

Escreves, tu que foste feito para cantar,
breves, sincopadas notas íntimas onde cabe,
totalidade de insónia e fogo, o coração
que teimas em adiar. Que mal existe em estar
saudoso, em sentir que a cidade amada se escapa
pelo vazio dos dedos, a latejar de sofrimento?

É como se enlouquecesses. Notícias chegam
de que a cidade continua a padecer de uma dor
que mora nas casas, nos quartos, nos livros
na alegria contida das mazurkas. 1831, não
crês que seja possível resistir por mais tempo
e é mais um pedaço de ti que morre na clave
de sal de um estudo menor, patriótico até
à profundidade sem música das lágrimas.

Escrever para onde, eu que te amo na carne
trágica de um prelúdio universal? Dou por mim
a cantar-te em timbre de carta sem remetente,
sem endereço, sem data possível. Separa-nos,
impiedoso, um tempo na tortura das lembranças
esquecidas a um canto do piano neste quarto.

Falavas de nostalgias e inquietação e eu não sei
de outras palavras que melhor pudessem dizer
a substância de cinza e ouro de que a tua música
é feita. Queres voltar pela vertente mais agreste,
pelo caminho de treva que a lugar algum conduz
e eu estou à tua espera no arco nocturno
da cidade amada para te dizer que ninguém
é estrangeiro quando tu tocas, que ninguém
de si mesmo se divide no círculo de âmbar
do teu mágico, lírico, desesperado canto.


José Jorge Letria in Carta de Afectos, Livros Horizonte, 1989

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Helena Pato: O primeiro Réveillon no exílio



O meu primeiro réveillon triste

A década de 60 mal começara e, em Paris, eram ainda poucos os exilados políticos – uma dezena, se tanto.

Eu e o Alfredo Noales tínhamos acabado de chegar e o Inverno deixava-nos infelizes, de ossos tão gelados quanto a alma, porque as nossas roupas não eram adequadas ao frio daquelas temperaturas negativas. Entrámos no “Café du Luxembourg”, sacudimos a neve dos casacos, consolados pelo quentinho do interior, e abraçámos os amigos com quem íamos jantar. Uma ceia simples de fim de ano. As vidraças do café – pintadas com dizeres da época, palavras muito coloridas, sinos e azevinho – lembravam-nos que agora os natais e as festas Bonnes Fêtes! iriam ser assim, em francês. Comovíamo-nos e disfarçávamos. Todos. Era melhor que me fosse habituando: de futuro, a nossa família no dia-a-dia seriam aquelas pessoas que estavam ali – a Maria Padez e o Jacques Kotzky, o António José Saraiva e a Maria Lamas. A Stella e o Fernando Piteira Santos ficavam pouco tempo, estavam de passagem, a caminho de Argel. O Lopes Cardoso e a Fernanda também não ficariam em Paris. Companheiros da luta anti-fascista em Portugal, cuja idade rondava os quarenta, cinquenta anos, pareciam-me, no entanto, gente idosa (Espantoso!)…

Estávamos todos muito aperaltados, fiéis à solenidade da noite – nós, mulheres, elegantes mas simples, eles de fato e gravata – e conversávamos sérios (ou tristes) acerca de acontecimentos negros do mundo. Nos meus vinte e poucos anos, quase criança, eu chorava para dentro – de saudades. Só António José Saraiva tinha um aspecto leve – estava de camisola, palrava contente, parecendo já adaptado ao exílio. Fazia anos nesse dia 31, eu tinha-lhe oferecido um cachecol amarelo e ele agradecia-mo com uma narrativa colorida, marcante, que desembocara na “Comuna de Paris”. Como depois, no futuro, ensinava-me História sem o saber, ou sem parecer que o fazia. Hoje, é a Serge Reggiani que roubo as palavras com que o recordo nesse jantar.

“Et voilà qu´il fit un rude hiver / Cent congestions en fait-divers / Volets clos, on claquait des dents / même dans les beaux arrondissements / Et personne n´osait plus, le soir, / affronter la neige des boulevards! /
Alors…
Cent loups
Ouh! Ouh! Ouh!
Cent loups sont entrés dans Paris…”


Falávamos agora de França, para não falarmos de Portugal nessa noite.
Na minha frente, o Alfredo não me perdia de vista, companheiro protector, amante. E eu devolvia-lhe os olhares, feliz por instantes. Como nos versos da canção de Juliette Greco:

“ J´arrive, j´arrive /Mais qu´est-ce que j´aurais bien aimé / encore une fois remplir d´étoiles un corps qui tremble et tomber morte/ brulé d´amour, le coeur en cendres / J´arrive, j´arrive”.

O exílio começava ali.

Helena Pato
Dez.2009




Notas Biográficas:

Helena Pato e Alfredo Noales conheceram-se na Faculdade de Ciências de Lisboa, onde ambos estudavam, no final dos anos 50. Casaram em 1960. Noales, então jornalista da República, foi obrigado a fugir em Outubro de 62, na sequência das prisões que ocorreram após as greves estudantis e o 1º de Maio de 62. Helena juntou-se-lhe mais tarde.
Noales adoeceu com cancro, em 1964, e só foi autorizado pela PIDE a regressar «quando os médicos que o tratavam declarassem por escrito que tinha apenas um mês de vida». Assim foi: chegaram a 3 de Novembro de 65, a PIDE estava à espera dele no aeroporto, foi buscá-lo às escadas do avião e levou-o para interrogatório em cadeira de rodas. Sem qualquer respeito. Morreu a 2 de Dezembro de 65. Helena prosseguiu na luta clandestina até à Revolução de Abril e conheceu os calabouços da PIDE. Professora de Matemática, muito a ela se deve a fundação do Sindicato dos Professores, bem como o MDM - Movimento Democrático de Mulheres, uma velha ambição de Maria Lamas com quem conviveu no exílio.

Helena Pato recordou tudo isto em «Saudações, Flausinas, Moedas e Simones», um livro editado pela Campo das Letras, em 2006.
Estas e outras histórias da luta e da resistência antifascistas têm sido por si testemunhadas no blog
Caminhos da Memória. 
Aqui fica a minha homenagem.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Fim de Ano na BARRACA

http://www.abarraca.com/online/main.html

ESPECTÁCULO DE FIM DE ANO

Preço único: 30€ - Espectáculo + Tango pela noite dentro no Bar A Barraca

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Venha divertir-se com A BARRACA

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Cronica de Natal e Presepio em 2009


Crónica de Natal e Presépio em 2009


quem sabe o que é o Natal?
dos anjos? dos passarinhos? dos sinos? dos azevinhos?
ou de um et coetera e tal
que vem por bem ou por mal em festa do eterno início?

desse início-recomeço festa ao rés do precipício
das passadas que não meço nem se me dá de ser vício
mas que não seja só prendas
daquelas com que pretendas dar sustento ao artifício

eu gosto dela quentinho
com boa mesa – bom vinho – amizades e carinho
e ter no fundo a certeza de que o universo todo
no desconcerto é certinho

muito lamento entretanto que o Homem-do-saco
o tal
sendeiro – bruxo – macaco
que me atormentava tanto em pequeno – vejam lá
ao crescer é o Pai Natal
hipotecando-me em prendas o dia que lá virá

no presépio o burro afoito de tanto correr no emprego
está com as pernas num oito
arfando desassossego

e sorte tem ele
vereis
pois que a ovelha – coitada – sem emprego nem dez reis
deixou no prego os aneis p’ra dar aos filhos consoada
depois de tanto mungida
depois de tão tosquiada

talvez com usurpação
de nome que se daria ao cordeiro do Senhor
um dos tais filhos da dita
que no meio da desdita lá chegou a ser doutor
com Bolonha de permeio
bacharel – licenciado – pós-graduado – mestrado
é hoje uma mais-valia por elevada função
de caixa em supermercado

a vaca palhas rumina e teme a avaliação
que penalize auto-estima
ou que lhe apouque a pensão

mais ao fundo os três reis magos
aos camelos dão afagos aprestando-se à viagem
pois os camelos – coitados – com dois dedos de forragem
cobrem caminhos sem fim sem gasóleo nem portagem


São José
Virgem Maria
trocando olhares entendidos da miséria dia-a-dia
em que se encontram perdidos na busca do que não há
pensarão porque se adia a ida pr’ò Canadá
ou para a Austrália quiçá
na ânsia de um novo dia
que lhes traga a alegria de viver que não há cá

já o Menino Jesus
antevendo milagreiro essa desgraça de truz
de vir a morrer na cruz por ser ele o agnus dei
ou só por ser carpinteiro
pensa com as suas palhinhas na play-station brincando
na perdição das alminhas que se deixam ir tentando
compradas por sucateiro que faz das prendinhas lei

brilhante só a estrela
que brilha e brilha e rebrilha como se o mundo fosse ela

aparece na tv essa magna maravilha
dando o corpo aventureiro em fugaz telenovela
consta até que tem prevista
uma carreira de artista e romance com banqueiro
esse nem está neste enredo
tem um consórcio com o medo – outro com a alta finança
vende presépios a eito – compra armamento sem jeito
sempre em favor da criança (tem lá por casa dois netos…)
importa fatos de treino – carros – pessoas – faiança
negoceia sentimentos – dá de barato os afectos
para cumprir o preceito: «venha a nós o vosso reino»
que mais dia menos dia salvará a economia

que fazer? bradar aos céus?
renas por cá? ora adeus
frango capão – bacalhau – polvo – peru do Natal
estes sim são cá dos meus

rabanadas – aletria – se calhar uma filhó
bem regadas de alegria
em memória de uma avó que sem ela eu nem seria

com um abraço aos amigos que hão-de ficar contentes
e um outro aos inimigos mesmo com ranger de dentes
que bem visto é como os figos
mesmo sem flor dão sementes

quanto ao mais – concidadãos
aprendei a dar as mãos contra o que der e vier
que p’lo Natal sois irmãos
e o Natal sempre vem – disse-o um poeta tão bem
quando algum homem quiser.

Boas Festas e Feliz Natal!


Jorge Castro
Dez.2009

Feliz Natal

sábado, dezembro 19, 2009

Feliz Natal


Tempo de Luzes


É um tempo coado
de azevinho.
Com odores de doce

e de memória

O colo da mãe
em desalinho.
A cor da ternura

na demora

É um tempo de luzes
e de linho.
Com sussurros

de cristal e de romã

Lonjura que nos traz
o som de um sino.
Onde o sonho se mistura

com a manhã


Maria Teresa Horta
Natal 2009



PS - obrigada, querida Teresa.

Não esquecemos: 19 Dezembro 1961

Na Morte do Zé

Para quê cantar-te, Amigo, se o meu canto
não pode dar-te a vida, estremecida?
Para quê chorar-te, Amigo, se o meu pranto
é gota de uma dor tão sem medida?

Não choro nem canto. Apenas grito
como uma fera ferida em pleno peito.
Vingança, negro alento e pão maldito,
não são sustento nem leito.

Teu corpo ensanguentado jaz no solo,
a mágoa de perder-te é sem consolo.
E mais não posso, Irmão, que a voz se embarga.
É noite. O tempo é frio. A esperança amarga.


Carlos Aboim Inglez


Nota:
- José Dias Coelho, artista plástico e membro do PCP, foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961. Carlos Aboim Inglez, seu camarada e amigo, casado com uma irmã do artista (Maria Adelaide), encontrava-se preso, em Peniche. Foi aí que soube da notícia e escreveu este poema, que veio a ser publicado no livro póstumo, Soma Pouca, edições Avante, 2003.
- Retrato da autoria de João Abel Manta, outro amigo íntimo de José Dias Coelho.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Tributo a Zeca Afonso

Jantar/Tertúlia de homenagem a Zeca Afonso, organizada pela Associação Abril.
Dia 18 de Dezembro, 6ª feira, às 20 horas
Eu vou lá estar.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

A crise da República e a Ditadura Militar

Da autoria de Luis Bigotte Chorão, será apresentado dia 15 de Dezembro, pelas 18h30,
na Sala do antigo Tribunal Militar de Santa Clara.
Encontramo-nos por lá.

Não se brinca com facas

Primeiro romance do meu amigo José António Barreiros, que será apresentado amanhã,
dia 15 Dezembro, pelas 18H30, no Espaço Chiado, em Lisboa.
Porque conheço a sua escrita, sei que vai ser um êxito.
Merecido.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Agenda Feminista 2010


A Agenda Feminista 2010, As Mulheres e a República, será lançada amanhã, dia 9 de Dezembro, pelas 17h, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa (Paços do Concelho).
Eu vou lá estar.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Ary dos Santos faria hoje 72 anos.

Jose Carlos Ary dos Santos (7.12.1937 - 18.1.1984)



Meu Camarada e Amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
sem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguem
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e Amigo.

Sei bem das mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal

- mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e saejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:

Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

José Carlos Ary dos Santos, in «Resumo»

Nota:
este poema foi-me dedicado e lido publicamente no dia dos meus anos, 1 Dezembro, pela minha amiga e ex-camarada do PCP, Carla Patrício.

terça-feira, dezembro 01, 2009

Hoje é o meu dia


AMIZADE

Para a Júlia Coutinho

És a minha amiga
fogo e água

A luta e a ternura
a dar um laço

Cuidando solidária
em nó de afecto

És a minha amiga
força e frágil



Maria Teresa Horta
Nota: Um presente muito especial no dia em que assinalo a passagem do meu 62º anivesário e que me deixou sensibilizadíssima. Obrigada minha querida Teresa.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Parabéns, Nuno Ramos !


Nuno Ramos, escritor e artista plástico (n. 1960)

 

O escritor e artista plástico Nuno Ramos acaba de ganhar o prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, com o livro "Ó". E eu, orgulhosa de o ter como amigo, daqui lhe envio um enorme abraço.

Como artista plástico, tivemo-lo em Lisboa o ano passado (meu post de 25/6/2008), onde apresentou, pela primeira vez, uma excelente exposição individual na Galeria Bernardo Marques, depois de há anos ter integrado uma colectiva na Fundação Calouste Gulbenkian, exposição que Rocha de Sousa distinguiu no Jornal de Letras.
Luso-descendente, Nuno Ramos é filho do português Vitor Ramos, que daqui fugiu à ditadura no início dos anos cinquenta e no Brasil casou, fez carreira académica brilhante, tendo sido fundador e dirigente do jornal Portugal Democrático, em São Paulo, e figura-chave da comunidade oposicionista. Vitor Ramos manteve uma constante militância antifascista e foi com enorme júbilo que assistiu à queda da ditadura no dia 25 de Abril (curiosamente o dia do seu 54º aniversário) mas um AVC fulminou-o quando se preparava para dar um salto a Lisboa e mostrar o seu país aos filhos, falecendo repentinamente de emoção (ou de felicidade, como diz o Nuno) no dia 3 de Maio de 1974. Não chegou a saborear o seu país libertado.

"A herança cultural mais preciosa é o próprio acto de ler. Vivemos tempos extraordinários e não podemos intimidar-nos com as mudanças" disse, quando ontem recebeu o prémio literário disputado entre brasileiros e portugueses, onde se contavam nomes como António Lobo Antunes, Inês Pedrosa, José Luis Peixoto e Gonçalo M. Tavares.



edição brasileira

edição portuguesa, pela Cotovia
























Formado em Filosofia, Nuno Ramos tem sido distinguido sobretudo como artista plástico, mas a sua enorme sensibilidade leva-o para outras formas de arte, passando pela pintura, desenho, escultura, cenografia e ensaio, sendo este o seu quarto livro. Antes publicara "Cujo", em 1993, "Balada", em 1995 e "O Pão do Corvo" em 2002. Considera-se um não alinhado, ou, como diz, um anti-artista de massas.

"111" foi a sua primeira exposição individual, em 1992, dedicada ao massacre dos presos políticos na Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru.

Em 2000 vence o concurso internacional para a construção de um monumento à Memória dos Desaparecidos durante a ditadura militar chilena.

Como pessoa, o Nuno Ramos é um ser humano extraordinário. Por mim, considero que este prémio que agora o distingue é um bocadinho português também.

Parabéns ao Nuno, à Sandra (mulher), à Dulce Helena (mãe) e a toda a família Ramos!


julia coutinho