quinta-feira, abril 13, 2017

Mercedes Blasco (1867-1961): o Fado da sua Vida ou «Os Fados da Mercedes»


Em 2013 fui convidada a colaborar no catálogo da exposição O Fado e o Teatro, uma organização conjunta dos Museu do Fado /Museu do Teatro, tendo escrito um artigo sobre Mercedes Blasco (1867-1961), uma artista multifacetada que, também na área do fado foi pioneira e completamente silenciada.

Na verdade Mercedes Blasco foi, como penso que ficou demonstrado, uma pioneira nos palcos e na vida, uma mulher que esteve sempre à frente do seu tempo e abriu caminhos até então inóspitos.

No próximo mês de Setembro completam-se 150 anos do seu nascimento. Soube, no entretanto, que se prepara um colóquio internacional. Nada mais justo. Mas como este artigo não teve grande divulgação e pode, de alguma forma, vir a dar uma contribuição útil, aqui o deixo tal como saíu no referido catálogo.  No final vão os dados técnicos do mesmo.

Mercedes Blasco foi uma grande Mulher e bem merece ser conhecida e divulgada.

julia coutinho






















 














 ASSENTO DE BAPTISMO DE MERCEDES BLASCO





Nota: nesta página existem dois erros graves:  

- o pai chamava-se José Marques; José Maria Marques era o irmão.
- Mercedes Blasco nasceu em 1867, como pode ser confirmado pela certidão de nascimento.







  Nota: na Bibliografia acima falta a consulta à imprensa da época: O Século / O Mundo / Diário de  
  Lisboa / Ilustração Portuguesa etc.






CATÁLOGO O FADO E O TEATRO, EGEAC - Museu do Fado / Museu do Teatro, 2013
 






terça-feira, abril 11, 2017

Mulheres Pioneiras em Engenharia Civil



Ainda a propósito da morte da decana das engenheiras, Maria Amélia Chaves, deixo aqui a investigação que desenvolvi em 2011 para determinar quais as primeiras engenheiras civis portuguesas e que veio a ser publicada na revista Faces de Eva nº 27, 2012.

Com ela desfizeram-se mitos e repôs-se a verdade dos factos.

As Cartas de Curso, como se chamavam então os actuais Diplomas, estão no final.

Trata-se de um trabalho mais desenvolvido de uma comunicação apresentada ao colóquio «Amanhã, as Mulheres» no Dia Internacional da Mulher, 8 Março 2011, no Santiago Alquimista.

Aqui fica, para memória futura.




UMA MULHER ENTRE HOMENS... EM 1937




























segunda-feira, abril 10, 2017

Maria Amelia Chaves (1911-2017)





Maria Amélia Chaves, a primeira mulher engenheira civil portuguesa, formada no Instituto Superior Técnico (1931-1937), faleceu no passado dia 5 de Abril com a bonita idade de 106 anos celebrados a 28 de Janeiro último.

Aquando do centenário do seu nascimento, em 2011, deu-me o privilégio de uma grande conversa que transformei numa entrevista de vida e foi publicada na revista Faces de Eva nº 25.

É essa entrevista que vos deixo aqui. Leiam-na e conheçam uma Mulher que teve a coragem de traçar o seu percurso de vida e nunca se resignou à vida que lhe estaria destinada.

Curvo-me perante a sua Memória. Até sempre, Maria Amélia Chaves.
















quinta-feira, março 30, 2017

O Ensino Artístico e a Reforma da Escola de Belas Artes de Lisboa


Sempre me perguntei o porquê da não existência de uma História do Ensino Artístico entre nós. É uma lacuna incompreensível. Mas a verdade é que está por fazer. É certo que até há poucos anos não existia sequer uma História do Ensino em Portugal, mas isso foi possível fundamentalmente graças aos trabalhos de Rui Grácio, Rogério Fernandes e Rómulo de Carvalho. Hoje podemos dizer que temos uma História do Ensino ao nível primário, técnico, liceal, universitário, mas ... falta o artístico. É área onde os investigadores parecem ter dificuldades em abalançar-se. Ou então não sentem qualquer atracção por ela. O que não admira pois nem o Estado a valorizava.
 

Bem, para sermos verdadeiros hoje já temos uma meia História do Ensino Artístico. Isto porque houve uma mulher extraordinária, a Maria Helena Lisboa, professora da Escola António Arroio, que sentiu de tal forma essa lacuna que estudou e publicou em 2007 a sua tese de doutoramento, «As Academias de Belas Artes e o Ensino Artístico (1836-1910)»; lamentavelmente faleceu cedo de mais, em 2009, e o projecto de avançar pelo século XX, entre a implantação da República e o 25 de Abril, ficou pelo caminho.

Se verificarmos qualquer levantamento cronológico das Escolas de Belas Artes, quer na de Lisboa ou na do Porto, ou mesmo na Academia Nacional das Belas Artes, (1932), constatamos que existe um período longo, entre 1911 e os anos cinquenta, em que parece nada se ter passado. E esse vazio torna-se gritante.

Porque é precisamente no século XX que têm lugar algumas reformas que, não sendo as exigíveis para um ensino de qualidade, alteraram algumas normas de acesso e os curricula dos cursos tornando o ensino um pouco mais exigente. Nos anos vinte, por exemplo, criou-se a Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas-Artes, que passou a tutelar o ensino artístico, sob a alçada do Ministério da Educação. E houve a grande reforma de 1932 (Dec 21662, Set 1932, DG 214) que, no essencial, deu corpo ao ensino praticado até Abril. A reforma de 1952 que pretendia aproximar o ensino pouco mais que técnico ao superior ficou suspensa até 1957 quando, por fim, a lei foi regulamentada e a escola passou a designar-se por ESBAL. Escola superior apenas na designação pois continuava fora da Universidade o que só se concretizou depois de Abril.

Aliás, quando as escolas foram autonomizadas e regulamentadas em 1911, não havia obrigatoriedade de quaisquer habilitações académicas, bastando, para entrar ter jeito para o desenho. Uma nota positiva na reforma de 1932 foi a introdução do Exame de Aptidão, mas o mesmo cingia-se a uma prova do chamado «Desenho do Antigo», bastando ao candidato uma cópia sofrível do real sem dar oportunidade às suas capacidades criadoras.

Também para a admissão dos alunos de arquitectura passou-se a exigir a «alínea H do 3º ciclo dos Liceus», enquanto aos de pintura e escultura bastava o 9º ano de escolaridade, ou seja, o antigo 5º ano liceal. Mas continuavam a ser ressalvados os casos de «pessoas que revelassem vocação artística excepcional e nível cultural adequado» poderem ser admitidas sem as habilitações exigidas, mediante autorização do Ministério da Educação.

Na verdade os alunos de Belas Artes sempre foram menosprezados pelo poder político que nem sequer considerava os homens capazes para integrar a escola de oficiais milicianos quando chamados para o serviço militar, o que era um factor de enorme desinteresse. As coisas começaram a mudar quando alguns filhos de gente grada do regime entraram para a escola e as queixas começaram a chegar a Salazar que foi obrigado a prestar alguma atenção a este ramo do ensino. Foi essa situação que levou à reforma de 1951/52 que só foi incrementada em 57, como já referi.

E chegámos ao 25 de Abril nestas condições.

Na Escola de Belas Artes de Lisboa praticava-se um ensino obsoleto e academizante que desconhecia quaisquer rasgos inovadores e onde grande parte dos alunos esteticamente mais atrevidos eram perseguidos. Muitos mudaram de curso e outros não chegaram sequer a completá-lo. Alguns, com mais possibilidades económicas, pediam transferência para a escola do Porto onde o ensino era menos académico e o director, Arqtº Carlos Ramos, de maior abertura democrática, ou, então, iam ali fazer uma ou duas cadeiras que em Lisboa estavam sob a alçada do arqt Luis Alexandre da Cunha (1893-1971), o homem que passou à posteridade como o «Cunha Bruto» e dirigiu repressivamente a escola nos anos trinta e quarenta, mas que o regime foi obrigado a demitir do cargo por problemas com colegas e alunos, ficando apenas como professor, e vindo, inclusivamente a ser impedido de dar notas aos seus alunos, em 1952, quando foi objecto de um processo da tutela, mercê de uma acção concertada de alunos, ex-alunos e pais de alunos contra as suas arbitrariedades pedagógicas.

Quando um dia se fizer a história do ensino artístico ou apenas a história da Escola de Belas Artes de Lisboa, ver-se-á que houve sempre alunos que se rebelaram ao longo dos tempos e lutaram para mudar este estado de coisas. Mas foram sempre bloqueados: pela direcção, pelo corpo docente, pelas autoridades ministeriais, pela censura ou tão só pela indiferença dos colegas. Tal como nunca abdicaram da luta por uma Associação de Estudantes eleita democraticamente, que existiu e foi reconhecida nos anos trinta mas que, posteriormente, a Mocidade Portuguesa com os seus pareceres à tutela nunca deixou que ali se implantasse.

Nos arquivos encontrei a entrevista abaixo, do Jornal República, que foi totalmente cortada pela Censura e, de seguida, os censores enviaram para a tutela que aprovou e agradeceu o zelo demonstrado.

Foi em Novembro de 1957 e falava-se da aplicação da Reforma.

Os corajosos alunos que falaram ao jornal foram: José Santa-Bárbara, de escultura, José de Almada, Manuel Vicente e Francisco Pires Keil do Amaral, de arquitectura.

O jornalista que foi ouvi-los era o Alfredo Noales, também ele um resistente à ditadura e que faleceu prematuramente em 1965.










Após ter impedido a publicação da entrevista, o director dos Serviços de Censura, Armando Larcher, apressa-se a informar o Ministério da Educação enviando-a ao Secretário de Estado com a seguinte nota, que transcrevemos:  

«Meu Prezado Amigo:

A "República" decidiu ouvir os estudantes oposicionistas sobre a reforma das "Belas Artes", o que me não parece bem, pelo que opto pelo corte.

A mentalidade política desta gente não lhe permite apreciar com a necessária independência de espírito nem esta Reforma nem qualquer outra, que não seja feita por democratas puros, ortodoxos.

Agradecia-lhe consultasse o nosso Ministro.

Uns resquícios gripais têm-me impedido de ir ao Ministério apresentar os meus cumprimentos ao nosso querido Ministro. Peço que o faça em meu nome, enquanto aí não vou.

Abraça-o cordialmente
o amigo e admirador»







Resposta do Gabinete do Ministro:

«Acho que o Sr. Director da Censura viu lucidamente o problema.
Das duas, uma - ou há censura ou não há. Se há é para se escrever e escrever com grande independência: a crítica é tendenciosa, injusta, incompetente.

Os alunos não sabem o que querem no campo pedagógico - esta tese em voga está errada. Sujeitos da educação, não são educadores nem juízes.

Quanto à Reforma - ela foi discutida ao tempo, por todos e finalmente aprovada pela Assembleia Nacional.

O corte está certo.»




E assim se decidiu da Reforma das Escolas de Belas Artes, em 1957, apesar de muito ter sido discutida, fora dos recintos escolares, obviamente, por alunos e ex-alunos que mais uma vez viam adiados os problemas com que sempre se haviam debatido, sobretudo na Escola de Lisboa.  

Julia Coutinho




terça-feira, janeiro 03, 2012

Parabéns, Maria Teresa Horta!



Maria Teresa Horta viu atribuído o Prémio D. Dinis 2011 ao seu romance "As Luzes de Leonor". Parabéns à minha querida amiga Teresa pelo seu grande trabalho de investigação histórica e pela forma como soube conciliá-la com a tecitura dos sentimentos numa autêntica filigrana da palavra!!! Parabéns à Dom Quixote e sobretudo à sua editora Cecilia Andrade! Um Prémio merecidíssimo!!!

Perdoem-me, mas depois de ver a vergonhosa campanha feita para a divulgação de um outro livro saído sob o mesmo tema, que misturava vinho com literatura oferecendo uma garrafa por cada livro comprado, livro ainda por cima editado sob a chancela do mesmo Grupo Editorial, não posso deixar de afirmar: FEZ-SE JUSTIÇA!

Maria Teresa Horta tem sido uma escritora muito maltratada pelas chamadas elites culturais da nossa praça. A incansável luta que ao longo da vida tem mantido em prol da Mulher e do Feminismo, as suas posições políticas e partidárias, a força e ousadia nos temas que aborda na poesia e na prosa suscitaram demasiados anticorpos que dificilmente são debelados.

Mas isso que importa? A prova-lo está este Prémio que, como todos sabemos,premeia trabalhos na área da investigação histórica e científica, ter recaído este ano sobre o seu trabalho As Luzes de Leonor, uma biografia romanceada sobre a sua tetra-avó, a Marquesa de Alorna.

Maria Teresa Horta não escreve, apenas, poesia ou prosa eróticas. Maria Teresa Horta é uma Grande ESCRITORA e uma Grande MULHER de bases muito Sólidas!!!

Parabéns, Teresa! Parabéns por TUDO quanto nos tens dado!

domingo, janeiro 01, 2012

Para 2012 eu desejo...

Pintura de Teresa Dias Coelho



Eu desejo!

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de Ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente. ...

Para vocês, desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
Para vocês desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.
Para vocês, neste Ano Novo, desejo que os amigos sejam cúmplices.
Que sua família esteja mais unida.
Que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de desejar tantas coisas!
Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a vocês.
Então, desejo apenas que vocês tenham muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam movê-los a cada minuto, rumo à felicidade.

Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, dezembro 01, 2011

Hoje é o meu aniversário

(desenho de Alvaro Cunhal)




AMIZADE
para a Júlia Coutinho



Se tu não existisses
tinhas de ser
inventada

Pelos amigos mais
íntimos

A começar no sorriso
e depois no coração
na palavra solidária

Na insistência
com a teima
de bandeira libertária

Por isso Júlia,
eu digo:
se agora nos fugisses


Tinhas de ser
recriada

Nessa tua resistência
de vontade
passionária.


Maria Teresa Horta
Lisboa, 1 de Dezembro de 2011





Nota: a Amizade e a generosidade da Maria Teresa Horta deixam-me sem palavras. Obrigada, querida Teresa!

terça-feira, outubro 25, 2011

Maria da Piedade Almeida (1916-2011)

Maria da Piedade Almeida (23-03-1916 - 14-10-2011)


No passado dia 14 deixou-nos para sempre, Maria da Piedade Almeida. Tinha 95 anos. Curvo-me perante a figura desta mulher de grande carácter e firmeza a quem a PIDE matou o marido em Janeiro de 1949, ficando sem quaisquer meios de subsistência e com uma filhinha para criar, e que lutou incansavelmente, antes e depois do 25 de Abril, para que se fizesse justiça e a morte do marido, António Lopes de Almeida, não ficasse esquecida.


A morte atroz de António Lopes de Almeida, operário da Marinha Grande, às mãos da sinistra polícia política, a PIDE, quando se encontrava detido no Aljube, já por mim tinha sido evocada neste blogue. Mas gostaria de vos deixar o testemunho oral de Maria da Piedade Almeida aqui assinalado e que expressa bem toda a dor e sofrimento por que passou esta família.


As minhas sinceras condolências à família.

Honra à sua Memória!





sexta-feira, julho 22, 2011

Fez-se História. Abril está vivo!

os «arguidos» Margarida Fonseca Santos, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira, ladeados pelos advogados Vitor Ferreira e o representante da SPA




«A crítica pública deve ser um direito e não um risco» - sentenciou o juíz ao absolver os «arguidos» do odiendo processo que hoje chegou ao fim. Mais: os queixosos foram condenados a pagar as custas do processo. 

Estão de parabéns Margarida Fonseca Santos autora da peça A Filha Rebelde, Carlos Fragateiro que dirigia o Teatro D. Maria II e que ousou leva-la à cena, e José Manuel Castanheira, também dirigente e co-autor da encenação.
Venceu a Liberdade de Expressão e de Criação artísticas. Venceu a Democracia. 

Iva Delgado, a filha do general Humberto Delgado - indirectamente visado no processo - escreveu, com toda a sua imensa sensibilidade e sentido cívico, o belíssimo texto que publico abaixo. Nada melhor para desfecho deste caso que nunca deveria ter existido.



A vitória dos rebeldes* 
por Iva Delgado


A sala do tribunal apinhada, os olhares que antes de se trocarem já se tocaram, o aperto no cotovelo, o beijo rápido, o sorriso escondido, o "vamos lá ver" sussurrado, a sensação de momento histórico, a presença inequívoca dos media, tudo isto se viveu no dia 22 de Julho de 2011, dia de leitura da sentença do caso " A Filha Rebelde".

A autora, serena e calma, era a imagem do equívoco gerado por este processo. A Margarida Fonseca Santos não cabe no papel de arguida, nem no de vítima, tampouco no de difamadora seja de quem for. Ela é a generosidade de alma, a criadora. Se alguma coisa se lhe pode atribuir de excessivo é a grandeza com que gere a sua arte, sem artifícios, genuinamente humana, centrada numa sensibilidade cândida.

A leitura da sentença durou uma eternidade, apesar da rapidez profissional do juiz. O esforço para captar o sentido das palavras, passada a floresta do emaranhado burocrático, a barreira das fórmulas processuais, o som não projectado da voz do juiz, o sorriso estéril da acusação não contribuíam para certezas prévias.

A meio da pilha de folhas lá se ia percebendo que a honra de uma pessoa só pode ser objecto de atentado se a pessoa for viva. Que a memória de alguém já falecido também tem questões normativas, que há prazos, limites, regras de jogo. Não é um qualquer familiar que por dá cá aquela palha se sente subitamente ofendido por palavras escritas em contexto ficcional, sobre um parente morto que é figura histórica. Tudo isso ia perpassando pelo que captámos da leitura do juiz. E muito mais, que quando um caso deixa dúvidas está em aberto para interpretações múltiplas, desde do ponto de vista histórico ao ficcional, passando pelo ensaístico, jornalístico e outros, que não se esgota no plano jurídico.

Uma frase, perfeitamente articulada, fixou-se como uma legenda iluminada: " A criação não é um risco, é um direito".

Nesse momento a Margarida estava ali, não porque escrevera uma peça sobre a filha do último director da PIDE, ofensiva para a memória e bom nome deste (dando a entender que fora o mandante do assassinato de Humberto Delgado) mas sim porque exercera o seu direito de expressar-se livremente através da ficção sobre uma figura histórica. Estas não pertencem aos seus familiares, nem são património exclusivo de ninguém. O juiz assim deliberou, assim absolveu, assim se retomou a rota democrática que cabe à justiça defender. Os cravos vermelhos trazidos por alguém foram uma efusiva confirmação da força do 25 de Abril que derrotou os Silva Pais deste país.


Lisboa, em 22.07.2011

*texto originalmente publicado no «GRUPO - Solidariedade com os réus do processo crime "A Filha Rebelde"» no Facebook. 


JC

sexta-feira, julho 08, 2011

No adeus a Antonio Jorge Branco (1937-2011)





Na hora da partida do António Jorge Branco faço minhas as palavras do Fernando Pinto.

Também eu fiz parte desta geração que ele tão bem descreve e que fez do After Height simultaneamente um refúgio e um local de liberdade. Tal como na «velha» Lontra... que nada tem a ver com a actual.
Lembro-me que quando o Adriano Correia de Oliveira morreu foi para o After Height que fui  carpir as mágoas e as lágrimas rolavam nos olhos e na voz de todos os presentes.
Obrigada, Fernando. Até sempre, António Jorge.




ANTONIO JORGE BRANCO
 
Estava hoje determinado em prosseguir a linha de textos que tenho vindo a elaborar, que se enquadram na tentativa de compreensão do nosso presente, na busca de sentido para o nosso futuro e nas formas de os conseguir. É uma reflexão que entendo todos devemos fazer para nos referenciarmos neste turbilhão de informações e contra-informações, de dúvidas e dívidas, de cupabilizações e descupabilizações e de contradições e confusões em que hoje nos vemos mergulhados. Contudo, esta época do ano é inclemente para quem está fisicamente debilitado e, talvez devido a esse facto, tenho perdido alguns amigos mais velhos e mais frágeis. E isso também me fez pensar na brevidade e no sentido desta nossa vida, e no exemplo que muitos constituem. Que eu tenha conhecimento, o último amigo que me deixou foi o António Jorge Branco. Jornalista de profissão, homem íntegro por opção, músico por paixão, o António era meu amigo há uma trintena de anos. No entanto, habituei-me a ouvir a sua voz bem timbrada há muito mais tempo quando, ainda puto, de férias em casa dos meus avós e obrigado a deitar cedo, metia o rádio dentro da cama (um “transístor” do tamanho de um tijolo…) e o ouvia a ele e á musica que passava, violando as directrizes grã-maternas de “fechar a luz e o rádio”. Isto passava-se, ainda a televisão era um luxo de poucos. Muitos anos depois, conheci um António Jorge que tocava piano num bar que eu frequentava. Tocava por prazer, de ouvido, mas como poucos. Disseram-me “É irmão do Zé Mário…”. Então associei, António Jorge… Branco! Quando finalmente lhe ouvi a voz, não duvidei: era a voz do “locutor” do Porto que fascinava as noites das minhas férias em criança, e perguntei-lhe. Que sim, que era jornalista e que o piano era só uma forma de escape. Contei-lhe da minha infância e assim começou uma amizade. Como gosto de cantar, ali se iniciou um duo ocasional, animando-nos a nós e aos nossos amigos, nessa Lisboa solta e que parecia não ter dia, porque de dia, cada um nas suas profissões, raramente nos cruzávamos. Recordo os irmãos Salomés, o Vitorino, o Janita e o Carlos, o António Victorino de Almeida e a Estrela Novais, o Luís Pignatelli e a Lia Gama e tantos, tantos outros actores, músicos, jornalistas, gente conhecida e gente como eu, anónima mas amante da noite. Para além da música, da noite e, porque não dizê-lo, dos copos, unia-nos uma grande esperança no futuro que então se começava a desenhar em liberdade, saídos que éramos da negra noite da ditadura. Fica-me a integridade, a coerência e a consistência da maioria dos boémios dessa Lisboa, unidos na liberdade daquele naco de noite sem obrigações. Obrigatória era só a conversa, a música, o convívio. Durante anos, aquele bar (para os anais, o “After Eight”, ali à Praça das Flores) foi o lugar geométrico de muitos de nós, a nossa sala de estar, o nosso clube de convívio. Ilusões e desilusões, sentimentos e ressentimentos, amores e desamores, tudo por ali passou. Como pano de fundo, o som do piano do António Jorge, do Rui Madeira, do Carlos Carlos, e de tantos outros, pianistas profissionais ou ocasionais insuspeitos. Hoje, seria um bar de “famosos”, então, era um retiro de gente desejosa que os holofotes se apagassem, que os microfones se desligassem, que fossem tratados como gente normal, que de facto eram e são. Com tanto jornalista por metro quadrado (os metros quadrados eram poucos, mas os jornalistas e os famosos, muitos), nunca nada do que ali se passou saltou para os jornais: o respeito pela privacidade era a regra e ali ninguém procurava cachas, notícias sensacionais ou escândalos. Mas tudo tem um tempo e aquele tempo acabou por acabar, acabando até com o tal bar. Muitos anos depois, ainda se tentou mudar de poiso e de novo se pediu ao António Jorge que reanimasse as noites moribundas. Debalde! O Tempo tem um tempo que só ele sabe e já nem mesmo o António Jorge, com toda a poesia que lhe saia das mãos quando as sobrepunha a um piano, conseguiu reanimar as noites da anunciada decadência. A Velha Guarda estava desmobilizada, dispersa, tratando dos netos, e a Nova, ainda em gestação, talvez em formação. E lá voltou ele prá sua TSF, tecendo com o amor e o saber que sempre pôs em tudo, as suas Lendas e Calendas dos seus Portugais Passados nos Dicionários da Rádio que tanto acarinhou. Hoje, ele, eu, os outros, encontramo-nos se calha, onde calha, e lá renovamos a cantoria, o convívio, a bebedoria (já menos, é certo) porque a amizade, essa, está fora de questão que algum dia sucumba. Mesmo que o António Jorge, como outros mais, tenha decidido que nunca mais voltaria a aparecer, continuaremos a celebrar e a celebrá-lo, embora saibamos que nada voltará a ser como dantes. Li nos jornais de segunda-feira: ”O jornalista António Jorge Branco, um dos fundadores da TSF, morreu hoje aos 74 anos de idade, disse fonte da estação de rádio à Lusa. António Jorge Branco, que actualmente não se encontrava no activo, foi responsável por programas como "Lendas e Calendas", "Portugal Passado" e "Dicionário da Rádio". O radialista foi também presidente do Conselho Deontológico do Sindicato de Jornalistas.” Para mim, para muitos de nós, não foi só o António Jorge Branco que se foi! Foi um símbolo de uma forma de estar na vida, de uma forma de ver e encarar o Mundo, foi mais uma teia que se nos rompeu na memória.
Fernando Pinto
CRÓNICAS AO CORRER DA PENA (504)
07 de Julho de 2011
PS - os sublinhados são meus. JC
 

sábado, julho 02, 2011

Jose Dias Coelho: a arte e a vida de mãos dadas

Imagem da sessão de 20-06-2011 com o organizador, prof José Fernando Vasco


No passado dia 20 fui à Escola Secundária Cacilhas-Tejo fazer uma conferencia sobre José Dias Coelho a que chamei «A arte e a vida de mãos dadas».

Fui muito bem recebida e tive uma plateia interessada e atenta.

Aqui vos deixo a notícia realizada pelos organizadores.
http://becre-esct.blogspot.com/2011/06/jose-dias-coelho-arte-solidariedade-e.html

E também a avaliação que a assistência fez da sessão:

http://becre-esct.blogspot.com/2011/06/o-prazer-de-ler-xii-jose-dias-coelho_22.html

Vale bem a pena a divulgação da vida e da obra do escultor José Dias Coelho, um homem morto pela PIDE aos 38 anos, quando muito havia a esperar dele como Homem e como Artista Plástico.


JC