quinta-feira, abril 13, 2017

Mercedes Blasco (1867-1961): o Fado da sua Vida ou «Os Fados da Mercedes»


Em 2013 fui convidada a colaborar no catálogo da exposição O Fado e o Teatro, uma organização conjunta dos Museu do Fado /Museu do Teatro, tendo escrito um artigo sobre Mercedes Blasco (1867-1961), uma artista multifacetada que, também na área do fado foi pioneira e completamente silenciada.

Na verdade Mercedes Blasco foi, como penso que ficou demonstrado, uma pioneira nos palcos e na vida, uma mulher que esteve sempre à frente do seu tempo e abriu caminhos até então inóspitos.

No próximo mês de Setembro completam-se 150 anos do seu nascimento. Soube, no entretanto, que se prepara um colóquio internacional. Nada mais justo. Mas como este artigo não teve grande divulgação e pode, de alguma forma, vir a dar uma contribuição útil, aqui o deixo tal como saíu no referido catálogo.  No final vão os dados técnicos do mesmo.

Mercedes Blasco foi uma grande Mulher e bem merece ser conhecida e divulgada.

julia coutinho






















 














 ASSENTO DE BAPTISMO DE MERCEDES BLASCO





Nota: nesta página existem dois erros graves:  

- o pai chamava-se José Marques; José Maria Marques era o irmão.
- Mercedes Blasco nasceu em 1867, como pode ser confirmado pela certidão de nascimento.







  Nota: na Bibliografia acima falta a consulta à imprensa da época: O Século / O Mundo / Diário de  
  Lisboa / Ilustração Portuguesa etc.






CATÁLOGO O FADO E O TEATRO, EGEAC - Museu do Fado / Museu do Teatro, 2013
 






terça-feira, abril 11, 2017

Mulheres Pioneiras em Engenharia Civil



Ainda a propósito da morte da decana das engenheiras, Maria Amélia Chaves, deixo aqui a investigação que desenvolvi em 2011 para determinar quais as primeiras engenheiras civis portuguesas e que veio a ser publicada na revista Faces de Eva nº 27, 2012.

Com ela desfizeram-se mitos e repôs-se a verdade dos factos.

As Cartas de Curso, como se chamavam então os actuais Diplomas, estão no final.

Trata-se de um trabalho mais desenvolvido de uma comunicação apresentada ao colóquio «Amanhã, as Mulheres» no Dia Internacional da Mulher, 8 Março 2011, no Santiago Alquimista.

Aqui fica, para memória futura.




UMA MULHER ENTRE HOMENS... EM 1937




























segunda-feira, abril 10, 2017

Maria Amelia Chaves (1911-2017)





Maria Amélia Chaves, a primeira mulher engenheira civil portuguesa, formada no Instituto Superior Técnico (1931-1937), faleceu no passado dia 5 de Abril com a bonita idade de 106 anos celebrados a 28 de Janeiro último.

Aquando do centenário do seu nascimento, em 2011, deu-me o privilégio de uma grande conversa que transformei numa entrevista de vida e foi publicada na revista Faces de Eva nº 25.

É essa entrevista que vos deixo aqui. Leiam-na e conheçam uma Mulher que teve a coragem de traçar o seu percurso de vida e nunca se resignou à vida que lhe estaria destinada.

Curvo-me perante a sua Memória. Até sempre, Maria Amélia Chaves.
















quinta-feira, março 30, 2017

O Ensino Artístico e a Reforma da Escola de Belas Artes de Lisboa


Sempre me perguntei o porquê da não existência de uma História do Ensino Artístico entre nós. É uma lacuna incompreensível. Mas a verdade é que está por fazer. É certo que até há poucos anos não existia sequer uma História do Ensino em Portugal, mas isso foi possível fundamentalmente graças aos trabalhos de Rui Grácio, Rogério Fernandes e Rómulo de Carvalho. Hoje podemos dizer que temos uma História do Ensino ao nível primário, técnico, liceal, universitário, mas ... falta o artístico. É área onde os investigadores parecem ter dificuldades em abalançar-se. Ou então não sentem qualquer atracção por ela. O que não admira pois nem o Estado a valorizava.
 

Bem, para sermos verdadeiros hoje já temos uma meia História do Ensino Artístico. Isto porque houve uma mulher extraordinária, a Maria Helena Lisboa, professora da Escola António Arroio, que sentiu de tal forma essa lacuna que estudou e publicou em 2007 a sua tese de doutoramento, «As Academias de Belas Artes e o Ensino Artístico (1836-1910)»; lamentavelmente faleceu cedo de mais, em 2009, e o projecto de avançar pelo século XX, entre a implantação da República e o 25 de Abril, ficou pelo caminho.

Se verificarmos qualquer levantamento cronológico das Escolas de Belas Artes, quer na de Lisboa ou na do Porto, ou mesmo na Academia Nacional das Belas Artes, (1932), constatamos que existe um período longo, entre 1911 e os anos cinquenta, em que parece nada se ter passado. E esse vazio torna-se gritante.

Porque é precisamente no século XX que têm lugar algumas reformas que, não sendo as exigíveis para um ensino de qualidade, alteraram algumas normas de acesso e os curricula dos cursos tornando o ensino um pouco mais exigente. Nos anos vinte, por exemplo, criou-se a Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas-Artes, que passou a tutelar o ensino artístico, sob a alçada do Ministério da Educação. E houve a grande reforma de 1932 (Dec 21662, Set 1932, DG 214) que, no essencial, deu corpo ao ensino praticado até Abril. A reforma de 1952 que pretendia aproximar o ensino pouco mais que técnico ao superior ficou suspensa até 1957 quando, por fim, a lei foi regulamentada e a escola passou a designar-se por ESBAL. Escola superior apenas na designação pois continuava fora da Universidade o que só se concretizou depois de Abril.

Aliás, quando as escolas foram autonomizadas e regulamentadas em 1911, não havia obrigatoriedade de quaisquer habilitações académicas, bastando, para entrar ter jeito para o desenho. Uma nota positiva na reforma de 1932 foi a introdução do Exame de Aptidão, mas o mesmo cingia-se a uma prova do chamado «Desenho do Antigo», bastando ao candidato uma cópia sofrível do real sem dar oportunidade às suas capacidades criadoras.

Também para a admissão dos alunos de arquitectura passou-se a exigir a «alínea H do 3º ciclo dos Liceus», enquanto aos de pintura e escultura bastava o 9º ano de escolaridade, ou seja, o antigo 5º ano liceal. Mas continuavam a ser ressalvados os casos de «pessoas que revelassem vocação artística excepcional e nível cultural adequado» poderem ser admitidas sem as habilitações exigidas, mediante autorização do Ministério da Educação.

Na verdade os alunos de Belas Artes sempre foram menosprezados pelo poder político que nem sequer considerava os homens capazes para integrar a escola de oficiais milicianos quando chamados para o serviço militar, o que era um factor de enorme desinteresse. As coisas começaram a mudar quando alguns filhos de gente grada do regime entraram para a escola e as queixas começaram a chegar a Salazar que foi obrigado a prestar alguma atenção a este ramo do ensino. Foi essa situação que levou à reforma de 1951/52 que só foi incrementada em 57, como já referi.

E chegámos ao 25 de Abril nestas condições.

Na Escola de Belas Artes de Lisboa praticava-se um ensino obsoleto e academizante que desconhecia quaisquer rasgos inovadores e onde grande parte dos alunos esteticamente mais atrevidos eram perseguidos. Muitos mudaram de curso e outros não chegaram sequer a completá-lo. Alguns, com mais possibilidades económicas, pediam transferência para a escola do Porto onde o ensino era menos académico e o director, Arqtº Carlos Ramos, de maior abertura democrática, ou, então, iam ali fazer uma ou duas cadeiras que em Lisboa estavam sob a alçada do arqt Luis Alexandre da Cunha (1893-1971), o homem que passou à posteridade como o «Cunha Bruto» e dirigiu repressivamente a escola nos anos trinta e quarenta, mas que o regime foi obrigado a demitir do cargo por problemas com colegas e alunos, ficando apenas como professor, e vindo, inclusivamente a ser impedido de dar notas aos seus alunos, em 1952, quando foi objecto de um processo da tutela, mercê de uma acção concertada de alunos, ex-alunos e pais de alunos contra as suas arbitrariedades pedagógicas.

Quando um dia se fizer a história do ensino artístico ou apenas a história da Escola de Belas Artes de Lisboa, ver-se-á que houve sempre alunos que se rebelaram ao longo dos tempos e lutaram para mudar este estado de coisas. Mas foram sempre bloqueados: pela direcção, pelo corpo docente, pelas autoridades ministeriais, pela censura ou tão só pela indiferença dos colegas. Tal como nunca abdicaram da luta por uma Associação de Estudantes eleita democraticamente, que existiu e foi reconhecida nos anos trinta mas que, posteriormente, a Mocidade Portuguesa com os seus pareceres à tutela nunca deixou que ali se implantasse.

Nos arquivos encontrei a entrevista abaixo, do Jornal República, que foi totalmente cortada pela Censura e, de seguida, os censores enviaram para a tutela que aprovou e agradeceu o zelo demonstrado.

Foi em Novembro de 1957 e falava-se da aplicação da Reforma.

Os corajosos alunos que falaram ao jornal foram: José Santa-Bárbara, de escultura, José de Almada, Manuel Vicente e Francisco Pires Keil do Amaral, de arquitectura.

O jornalista que foi ouvi-los era o Alfredo Noales, também ele um resistente à ditadura e que faleceu prematuramente em 1965.










Após ter impedido a publicação da entrevista, o director dos Serviços de Censura, Armando Larcher, apressa-se a informar o Ministério da Educação enviando-a ao Secretário de Estado com a seguinte nota, que transcrevemos:  

«Meu Prezado Amigo:

A "República" decidiu ouvir os estudantes oposicionistas sobre a reforma das "Belas Artes", o que me não parece bem, pelo que opto pelo corte.

A mentalidade política desta gente não lhe permite apreciar com a necessária independência de espírito nem esta Reforma nem qualquer outra, que não seja feita por democratas puros, ortodoxos.

Agradecia-lhe consultasse o nosso Ministro.

Uns resquícios gripais têm-me impedido de ir ao Ministério apresentar os meus cumprimentos ao nosso querido Ministro. Peço que o faça em meu nome, enquanto aí não vou.

Abraça-o cordialmente
o amigo e admirador»







Resposta do Gabinete do Ministro:

«Acho que o Sr. Director da Censura viu lucidamente o problema.
Das duas, uma - ou há censura ou não há. Se há é para se escrever e escrever com grande independência: a crítica é tendenciosa, injusta, incompetente.

Os alunos não sabem o que querem no campo pedagógico - esta tese em voga está errada. Sujeitos da educação, não são educadores nem juízes.

Quanto à Reforma - ela foi discutida ao tempo, por todos e finalmente aprovada pela Assembleia Nacional.

O corte está certo.»




E assim se decidiu da Reforma das Escolas de Belas Artes, em 1957, apesar de muito ter sido discutida, fora dos recintos escolares, obviamente, por alunos e ex-alunos que mais uma vez viam adiados os problemas com que sempre se haviam debatido, sobretudo na Escola de Lisboa.  

Julia Coutinho




terça-feira, janeiro 03, 2012

Parabéns, Maria Teresa Horta!



Maria Teresa Horta viu atribuído o Prémio D. Dinis 2011 ao seu romance "As Luzes de Leonor". Parabéns à minha querida amiga Teresa pelo seu grande trabalho de investigação histórica e pela forma como soube conciliá-la com a tecitura dos sentimentos numa autêntica filigrana da palavra!!! Parabéns à Dom Quixote e sobretudo à sua editora Cecilia Andrade! Um Prémio merecidíssimo!!!

Perdoem-me, mas depois de ver a vergonhosa campanha feita para a divulgação de um outro livro saído sob o mesmo tema, que misturava vinho com literatura oferecendo uma garrafa por cada livro comprado, livro ainda por cima editado sob a chancela do mesmo Grupo Editorial, não posso deixar de afirmar: FEZ-SE JUSTIÇA!

Maria Teresa Horta tem sido uma escritora muito maltratada pelas chamadas elites culturais da nossa praça. A incansável luta que ao longo da vida tem mantido em prol da Mulher e do Feminismo, as suas posições políticas e partidárias, a força e ousadia nos temas que aborda na poesia e na prosa suscitaram demasiados anticorpos que dificilmente são debelados.

Mas isso que importa? A prova-lo está este Prémio que, como todos sabemos,premeia trabalhos na área da investigação histórica e científica, ter recaído este ano sobre o seu trabalho As Luzes de Leonor, uma biografia romanceada sobre a sua tetra-avó, a Marquesa de Alorna.

Maria Teresa Horta não escreve, apenas, poesia ou prosa eróticas. Maria Teresa Horta é uma Grande ESCRITORA e uma Grande MULHER de bases muito Sólidas!!!

Parabéns, Teresa! Parabéns por TUDO quanto nos tens dado!

domingo, janeiro 01, 2012

Para 2012 eu desejo...

Pintura de Teresa Dias Coelho



Eu desejo!

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de Ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente. ...

Para vocês, desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
Para vocês desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.
Para vocês, neste Ano Novo, desejo que os amigos sejam cúmplices.
Que sua família esteja mais unida.
Que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de desejar tantas coisas!
Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a vocês.
Então, desejo apenas que vocês tenham muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam movê-los a cada minuto, rumo à felicidade.

Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, dezembro 01, 2011

Hoje é o meu aniversário

(desenho de Alvaro Cunhal)




AMIZADE
para a Júlia Coutinho



Se tu não existisses
tinhas de ser
inventada

Pelos amigos mais
íntimos

A começar no sorriso
e depois no coração
na palavra solidária

Na insistência
com a teima
de bandeira libertária

Por isso Júlia,
eu digo:
se agora nos fugisses


Tinhas de ser
recriada

Nessa tua resistência
de vontade
passionária.


Maria Teresa Horta
Lisboa, 1 de Dezembro de 2011





Nota: a Amizade e a generosidade da Maria Teresa Horta deixam-me sem palavras. Obrigada, querida Teresa!

terça-feira, outubro 25, 2011

Maria da Piedade Almeida (1916-2011)

Maria da Piedade Almeida (23-03-1916 - 14-10-2011)


No passado dia 14 deixou-nos para sempre, Maria da Piedade Almeida. Tinha 95 anos. Curvo-me perante a figura desta mulher de grande carácter e firmeza a quem a PIDE matou o marido em Janeiro de 1949, ficando sem quaisquer meios de subsistência e com uma filhinha para criar, e que lutou incansavelmente, antes e depois do 25 de Abril, para que se fizesse justiça e a morte do marido, António Lopes de Almeida, não ficasse esquecida.


A morte atroz de António Lopes de Almeida, operário da Marinha Grande, às mãos da sinistra polícia política, a PIDE, quando se encontrava detido no Aljube, já por mim tinha sido evocada neste blogue. Mas gostaria de vos deixar o testemunho oral de Maria da Piedade Almeida aqui assinalado e que expressa bem toda a dor e sofrimento por que passou esta família.


As minhas sinceras condolências à família.

Honra à sua Memória!