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sexta-feira, outubro 23, 2009

Jose Saramago e as polemicas que suscita

Jose Saramago (1922-2010)

Gosto de José Saramago. Desde sempre. Desde que tomei contacto com a sua escrita, muito antes de ser conhecido como escritor, muito antes de ser Nobel da Literatura. Tenho todos os seus primeiros livros e apenas um assinado «Que farei com este livro?» e no qual ele simpaticamente colocou a dedicatória: «para a Julia Coutinho que sabe muito bem o que fazer com este livro». Foi numa Festa do Avante, em 1981, numa sessão de autógrafos onde estavam também o António Lobo Antunes, Fernando Lopes Graça, Alexandre Cabral, Armindo Rodrigues e Manuel da Fonseca, quase todos falecidos há muito. Lamentavelmente, não voltei a ter nova oportunidade. Agora é impossivel recolher autografos de Saramago, a não ser que se tenha muita sorte ou muita paciência para esperar horas infindáveis.

Admiro a sua escrita, tal como admiro a postura do cidadão José Saramago. Admiro a sua coragem por ter iniciado uma carreira aos 50 anos, em momento de desespero, quando estava desempregado. Admiro a sua perseverança, o seu trabalho árduo e contínuo. O assumir as origens humildes e o seu didactismo. Admiro a sua imensa cultura. Os seus credos e convicções e como se mantém fiel aos idearios de sempre. A lucidez que o leva a assumir posições que considera justas ainda que isso lhe custe dissabores. A coragem de seguir o seu próprio caminho. A independência que ainda agora o levou a apoiar publicamente António Costa para a Câmara Municipal de Lisboa, e que muitos não lhe perdoam. Tal como outros lhe não perdoam ter ganho o Nobel.

Indignei-me com as atitudes discriminatórias de que foi vítima no consulado de Cavaco Silva e envergonhei-me com a incultura dos «nossos» homens da cultura daquele governo. Aceito o seu iberismo e achei natural que tenha decidido viver em Espanha, até porque é casado com uma espanhola e aquele país o trata exemplarmente, como ainda recentemente se verificou com a exposição: A Consistência dos Sonhos.

Apenas uma coisa não entendo em Saramago: a forma como retirou dos seus livros a dedicatória à sua companheira de muitos anos, a escritora Isabel da Nóbrega. Eu ainda tenho os livros «dedicados à Isabel», mas as novas edições subtrairam essas dedicatórias. Apagou-as. Sei que a Pilar é a «mulher da sua vida». Mas, para quê reescrever a História?

A propósito do seu último livro, Caim, e da onda de protestos que as suas afirmações sobre a Bíblia estão a desencadear, acho-os patéticos, falsos e puritanos. José Saramago tem todo o direito em se expressar livremente. A arte não pode nem deve ter limitações e muito menos o direito à liberdade de expressão conquistada com a revolução de Abril. E quanto ao videirinho que advoga a sua purga da nacionalidade, um dia só será lembrado pelos piores motivos, pelo ridículo da situação, como acontece com Sousa Lara. Aliás todo este processo faz-me lembrar o que se passou há uns anos com Salman Rushdie e Os Versículos Satânicos. Lembram-se como então nos indignámos?

José Saramago é português. Nunca abdicou da sua nacionalidade. Tem aqui família. Tem casa em Lisboa, vem regularmente a Lisboa, é fiel à editora portuguesa que o lançou, a Caminho, (quando outras lhe viraram as costas), mantém actividades culturais regulares no nosso país e paga integralmente os impostos ao Estado Português, a que muitos «bons portugueses» frequentemente se esquivam. José Saramago só prestigia Portugal.

Pessoalmente, ateia como sou, sinto-me agradecida por Saramago ter exprimido publicamente o que penso acerca da Bíblia e das religiões em geral: são uma farsa.

 Julia Coutinho


Nota posterior: José Saramago faleceu em 18 de junho de 2010. As suas cinzas encontram-se divididas por Lanzarote, junto à casa onde viveu os últimos anos e por Lisboa, junto à Fundação José Saramago, que é dirigida pela viúva, Pilar del Rio. 
E sim, acabei por ter um outro autógrafo do nosso Nobel, precisamente no último livro que lançou, em vida, Caim. Assisti ao lançamento, na Culturgest, e devo a Pilar o privilégio de uma dedicatória quando o escritor apenas assinava para não ser demasiado violento. Foi um fim de tarde memorável.

sábado, julho 05, 2008

In Memoriam de Manuela Porto (1908-1950)


Manuela Cesarina Sena Porto (1908-1950)

Manuela Porto nasceu há cem anos, no dia 24 Abril de 1908, e teria sido da maior justiça lembrá-la no Congresso Feminista ocorrido há pouco*. Ela que foi uma paladina dos direitos das mulheres e abriu caminhos inóspitos tendo traduzido e divulgado autoras até então desconhecidas como Louisa May Alcott, Anne Bronte, Elizabeth Gaskell, Hazel Goodwin, Katherine Mansfield e sobretudo Virginia Woolf, sobre quem fez uma palestra em 6 de Janeiro de 1947, inserida na Exposição de Livros Escritos por Mulheres organizada pelo Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas (CNMP), no salão da SNBA, evento que teve grande repercussão e haveria de levar à demissão de Maria Lamas do jornal O Século, onde dirigia o suplemento Modas e Bordados, e ao encerramento do Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, em 28 de Junho desse ano.


Virginia Woolf, O Problema da Mulher nas Letras, conferência na SNBA em 6.Jan.1947 que a Seara Nova editou.

Curiosamente, é no ano do seu centenário que o nome de Manuela Porto é finalmente resgatado do silêncio através de um trabalho académico notável (que espero seja editado) de Diana Dionísio, neta de Mário Dionísio, um amigo de MP e um dos poetas do Novo Cancioneiro que divulgou. Não deixa de ser sintomático que isso aconteça pela mão de uma jovem que, tal como MP, (filha do republicano, escritor e pedagogo César Porto) é herdeira de um património humanista político-cultural que forçosamente lhes moldaram o carácter. Neste trabalho, Diana Dionisio analisa sobretudo a vertente teatral em Manuela Porto, o que não é pouco, se considerarmos que a mesma após se afastar dos palcos nunca deixou de aos palcos e ao teatro estar ligada tendo fundado e dinamizado o Corpo Cénico do Grupo Dramático Lisbonense,  onde se revelou a actriz Gina Santos que faria carreira no Nacional. Muitos outros caminhos ficam em aberto mas, a partir de agora, tudo será mais fácil. Duro mesmo foi começar do zero absoluto, como a Diana começou. E eu sei bem do que falo.

Edificio na Rua Marcos Portugal, 22-24, (actual 22-A) onde funcionava o Grupo Dramático Lisbonense (GDL). As instalações seriam destruidas por um fogo em 1949 e o GDL acolhido temporariamente na Academia dos Amadores de Música onde apresentou alguns espectáculos.

Casada com o artista plástico Roberto de Araújo Pereira, Manuela Porto foi escritora, tradutora, crítica teatral, actriz, encenadora, declamadora, oposicionista e feminista. Ligada ao MUNAF (Movimento de Unidade Anti-Fascista), ao MUD (Movimento de Unidade Democrática) e à CEJAD (Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos) teve um papel importantíssimo na divulgação dos nossos poetas desde os da Presença aos do Novo Cancioneiro, e foi graças a si que os portugueses conheceram Fernando Pessoa (1888-1935) pouco depois da sua morte, através de recitais  nos salões de O Século. Mulher extraordinária, muito para além do seu tempo, ela foi a arauta dos poetas, a que dizia poesia como quem vive e respira.



























Diário de Lisboa 15 Janeiro 1942 -  (uma das sessões no Salão de O Século)




Em entrevista a Diana Dionisio, em Janeiro de 2006, Luiz Francisco Rebello (1924-2011) recorda essas noites mágicas no salão de festas de O Século com Manuela Porto a dizer o longo poema Ode Marítima, de Alvaro de Campos, completamente de cor:

«coisa extraordinária - a declamação da Ode Marítima no salão de festas do Século. Ela era uma extraordinária declamadora de poesia (...) Parecia uma coisa impossível. Saber de cor a Ode Marítima... era uma hora, que diabo!... Dizer de cor a Ode marítima inteira parecia uma coisa extraordinária. Eu lembro-me no salão de festas do Século, fizeram-se uma série de coisas, uma série de conferências sobre teatro português. Ela dizia... era uma espécie de mímica com as mãos que esvoaçavam, era deslumbrante. Tinha um ar etéreo, o que contrastava até muito com a violência de certos passos da Ode Marítima. A ideia que eu tenho é de... uma noite de magia.»  


Manuela Porto viveu apenas 42 anos. Suicidou-se em 7 de Julho de 1950. Não era a primeira vez que o tentava mas foi desta que conseguiu. Os jornais noticiaram que "morrera em casa", mas não, os amigos ainda a levaram com vida para o Hospital de São José, acompanhada pelo médico e poeta Armindo Rodrigues que aí assistiu à sua morte na sequência de brutal overdose de barbitúricos. Mas para a censura não existiam suicídios, nem mortes violentas, nem doenças fatais. Era o país do "faz de conta". Na altura, exercia as funções de Secretária da Redacção da revista Eva. 

O poeta José Gomes Ferreira (1900-1985), seu companheiro de jornada, evoca-a na Vértice:

«Nada, ouviram? - nada conseguirá salvar do esquecimento de cova cheia a outra Manuela, a verdadeira Manuela do nosso convívio (...) que, no fim de contas, tudo valia para nós: a Manuela de todos os dias no Chiado, da Brasileira, às 6 horas da tarde, dos ensaios pacientes na Academia dos Amadores de Música, das reuniões aos domingos em volta do chocolate do João José Cochofel, dos jantares aconchegados na sua salinha defronte do Enterro de Mário Eloy; a Manuela do sorriso forçadamente quente (às vezes com tantos punhais nos recantos de sofrer); a Manuela que, como todas as mulheres superiores, possuia o segredo daquela intimidade misteriosa que, ao mesmo tempo, aproxima e afasta (e assim quem lhe descobria os defeitos?); a Manuela a ocultar, sob a leve afectação de uma máscara exageradamente feminina, o seu coração de jacobina varonil; a Manuela, amiga e Anjo da Fama dos poetas -  de todos! de todos! -  desde o Fernando Pessoa aos últimos escorraçados do neo-realismo... (pedras de todos os cantos! Insultos de todos os céus! ódios de todos os negrumes! E é por isso que estou com eles. A poesia é escândalo! A poesia é perigo!); a Manuela, ídolo insubstituível dessas trezentas pessoas heróicas que andam, de um lado para o outro, em Lisboa, a fingir cultura: -  a correr das dissonâncias da Sonata para o pescoço torcido da geral do São Carlos; da Exposição das Artes Plásticas para o último concerto de canções do Lopes Graça; da estreia do Auto da Índia no teatrinho do Grupo Dramático Lisbonense para o recital poético na Associação Feminina para a Paz... A Manuela que, quando me encontrava, pedia-me sempre, em cadência de súplica: "ó Zé Gomes: escreva-me uma peça!"»

(JGF, parte de um texto publicado na Vértice, vol X, nº 86, Outubro de 1950, numero inteiramente dedicado a MP)


Diario de Lisboa 5-06-1950
Muito provavelmente terá sido o sarau em conjunto com Maria Barroso aqui anunciado para 9 de Junho de 50 na Casa do Alentejo, a última participação pública de Manuela Porto. Com esta conferência de Maria Lamas, "A Paz e a Vida", no Museu João de  Deus, e mais tarde repetida no Porto, nos Fenianos, dava-se início à existência da Comissão Nacional de Paz com a eleição de uma comissão abrangente de personalidades que incluia, também, Manuela Porto.

José Gomes Ferreira, juntando-se a muitos outros poetas e escritores, vai dedicar-lhe este poema na Vértice, vol X, nº 86, Outubro de 1950, inteiramente dedicada a MP) .


Na morte de Manuela Porto

 

Devia morrer-se de outra maneira. 

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.

Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol

a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos

os amigos mais íntimos com um cartão de convite

para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica

a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje

às 9 horas.  Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos

escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir

a despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. 

"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,

numa lassidão de arrancar raízes...

(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis


(José Gomes Ferreira, 1900-1985)


Também amigos seus lançam um livro, inédito, em 1952 no segundo aniversário da sua morte:
  
Diario de Lisboa, 7 Julho 1952

Julia Coutinho

______________

Nota* - este texto foi escrito originalmente em 2008, ano em que se realizou o Congresso Feminista na Fundação Calouste Gulbenkian, organizado pela UMAR, e aqui referido. E veio a ser reescrito e acrescentado de documentos pela autora.
Julia Coutinho