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quarta-feira, dezembro 23, 2009

Cronica de Natal e Presepio em 2009


Crónica de Natal e Presépio em 2009


quem sabe o que é o Natal?
dos anjos? dos passarinhos? dos sinos? dos azevinhos?
ou de um et coetera e tal
que vem por bem ou por mal em festa do eterno início?

desse início-recomeço festa ao rés do precipício
das passadas que não meço nem se me dá de ser vício
mas que não seja só prendas
daquelas com que pretendas dar sustento ao artifício

eu gosto dela quentinho
com boa mesa – bom vinho – amizades e carinho
e ter no fundo a certeza de que o universo todo
no desconcerto é certinho

muito lamento entretanto que o Homem-do-saco
o tal
sendeiro – bruxo – macaco
que me atormentava tanto em pequeno – vejam lá
ao crescer é o Pai Natal
hipotecando-me em prendas o dia que lá virá

no presépio o burro afoito de tanto correr no emprego
está com as pernas num oito
arfando desassossego

e sorte tem ele
vereis
pois que a ovelha – coitada – sem emprego nem dez reis
deixou no prego os aneis p’ra dar aos filhos consoada
depois de tanto mungida
depois de tão tosquiada

talvez com usurpação
de nome que se daria ao cordeiro do Senhor
um dos tais filhos da dita
que no meio da desdita lá chegou a ser doutor
com Bolonha de permeio
bacharel – licenciado – pós-graduado – mestrado
é hoje uma mais-valia por elevada função
de caixa em supermercado

a vaca palhas rumina e teme a avaliação
que penalize auto-estima
ou que lhe apouque a pensão

mais ao fundo os três reis magos
aos camelos dão afagos aprestando-se à viagem
pois os camelos – coitados – com dois dedos de forragem
cobrem caminhos sem fim sem gasóleo nem portagem


São José
Virgem Maria
trocando olhares entendidos da miséria dia-a-dia
em que se encontram perdidos na busca do que não há
pensarão porque se adia a ida pr’ò Canadá
ou para a Austrália quiçá
na ânsia de um novo dia
que lhes traga a alegria de viver que não há cá

já o Menino Jesus
antevendo milagreiro essa desgraça de truz
de vir a morrer na cruz por ser ele o agnus dei
ou só por ser carpinteiro
pensa com as suas palhinhas na play-station brincando
na perdição das alminhas que se deixam ir tentando
compradas por sucateiro que faz das prendinhas lei

brilhante só a estrela
que brilha e brilha e rebrilha como se o mundo fosse ela

aparece na tv essa magna maravilha
dando o corpo aventureiro em fugaz telenovela
consta até que tem prevista
uma carreira de artista e romance com banqueiro
esse nem está neste enredo
tem um consórcio com o medo – outro com a alta finança
vende presépios a eito – compra armamento sem jeito
sempre em favor da criança (tem lá por casa dois netos…)
importa fatos de treino – carros – pessoas – faiança
negoceia sentimentos – dá de barato os afectos
para cumprir o preceito: «venha a nós o vosso reino»
que mais dia menos dia salvará a economia

que fazer? bradar aos céus?
renas por cá? ora adeus
frango capão – bacalhau – polvo – peru do Natal
estes sim são cá dos meus

rabanadas – aletria – se calhar uma filhó
bem regadas de alegria
em memória de uma avó que sem ela eu nem seria

com um abraço aos amigos que hão-de ficar contentes
e um outro aos inimigos mesmo com ranger de dentes
que bem visto é como os figos
mesmo sem flor dão sementes

quanto ao mais – concidadãos
aprendei a dar as mãos contra o que der e vier
que p’lo Natal sois irmãos
e o Natal sempre vem – disse-o um poeta tão bem
quando algum homem quiser.

Boas Festas e Feliz Natal!


Jorge Castro
Dez.2009

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Carta do Aljube no Natal 1962

Em Dezembro de 1962 o Capitão João Varela Gomes estava detido na cadeia do Aljube, às ordens da PIDE, por ter participado no Golpe de Beja. Também sua mulher, Maria Eugénia, se encontrava na prisão de Caxias, acusada de cumplicidade.
Era o primeiro Natal que passavam separados e longe dos filhos, o Paulo, o João António, a Maria Eugénia e a Maria da Luz, de 10, 9, 7 e 5 anos, respectivamente.
A carta que se segue foi escrita por um pai dilacerado (por vezes nem lhes era permitido um abraço) mas apostado em incutir nos filhos os valores da coragem, da responsabilidade, do respeito, da liberdade e da solidariedade. Um esforço para que, apesar de tudo, as crianças sentissem a «presença e o amor dos pais» numa época particularmente difícil e sensível. Um documento comovente.
«... Acabei de escrever aos filhos a carta de Natal. É mais a festa das crianças que dos papás. Que continuem felizes. Calculo que vais ter uns momentos, ou dias, de angústia e tristeza. Há que reagir, paciência» (carta para a mulher)

Lisboa, 21 de Dezembro de 1962 

Meus queridos filhos,
O pai não queria, nesta altura do Natal, deixar de vos dizer quanto pensa nos seus quatro filhos e quanto deseja que decorram com alegria estes dias de festa. São festas para os meninos pequenos, Boas Festas para todas as crianças deste mundo, mesmo para aquelas, pobrezinhas e infelizes, que são esquecidas durante todo o resto do ano. Não é o vosso caso, meus filhos, que têm o Avô e os Tios para cuidarem de vocês, e o Pai e a Mãe Gena para vos acompanharem em pensamento, dia por dia, dos 365 que conta o ano.
Conhecem a história do nascimento do Menino Jesus, num curral de gado, porque o Pai e a Mãe (José e Maria) estavam a ser perseguidos, por um rei mau - Herodes - que era quem mandava na terra deles.
Pois José e Maria tiveram que fugir para outro país - o Egipto - e foi no caminho que nasceu o filho deles. Nasceu numa ocasião de desgraça, de tristeza para a família, para todos os amigos e para todo o povo judeu. Quando tudo parecia perdido, nasce um menino, nasce com ele a esperança de melhores dias, de felicidade futura, de regresso a casa, duma nova Pátria sem nenhum Herodes. E, conta a história, que apareceram estrelas a brilhar e anjos a cantar e que desde os mais pobres - os pastores - até aos mais ricos - os reis Magos - todos se alegraram e confiaram. Até mesmo os animais - o burro e as vacas - olhavam para o menino como alguma coisa de precioso.
Ora bem, filhos, isto que sucedeu há 1962 anos, ensinou os homens a nunca desesperarem, a nunca se afundarem na tristeza, enquanto houver crianças, enquanto nascerem meninos que cresçam bons e valentes como vocês e de quem os mais velhos possam dizer, como diz daqui o Pai João e da outra cadeia a Mãe Gena: «os nossos filhos são o nosso orgulho; eles são a garantia que não vivemos em vão e que um mundo melhor se está a construir.»
 
Muito tempo se passou depois do nascimento do Menino Jesus; ele próprio, já homem, teve que morrer pelas suas ideias. Muita gente, como vocês sabem, toma-o ainda agora por Deus (na altura foram muito poucos: estava tudo com medo dos soldados romanos). A família lá de casa também acredita que foi Deus que nasceu quando nasceu o Menino Jesus. O Pai João e a Mãe Gena, como os meninos devem saber, apenas acreditam que nasceu com ele a esperança, morta e novamente renascida sempre que nasce um menino de bondade, um menino de coragem.
Para o Pai e para a Mãe Gena, os seus quatro filhos, são quatro Meninos Jesus; e, creio bem, que todos os pais pensam da mesma maneira em relação aos seus filhos.
 
Tinha imaginado acabar a carta com uns conselhos, mas vou desistir. Eram pequenas recomendações sobre um ou outro ponto que me parece, daqui, precisarem de correcção. Os tios e as tias se encarregarão de vos dizer o que eu penso sober os estudos, as companhias, as birras e as fúrias, os cuidados com as vossas coisas, a necessidade de fazer poucos pedidos aí em casa e de darem pouco trabalho.
Sois muito pequenos e as vossas responsabilidades já são grandes; mas eu, que conheço os meus filhos, confio em todos vocês. Neste Natal, ao redor do presépio, pensai num menino que nasceu quase no meio da rua, cresceu pobre e fugido e se fez Homem tão superior aos outros, que o chamaram de Deus; e, à volta da árvore dos brinquedos, pensai em todos os outros meninos que precisam de ajuda para sairem da miséria e da ignorância.
 
Beijos de Feliz Natal para toda a miudagem aí de casa e saudades para os adultos do
Pai João»

João Varela Gomes, Tempo de Resistência, Ler Editora, 1980, pp. 167-169 

NOTA: Na foto acima, Maria Eugenia Varela Gomes com os quatro filhos, no final dos anos cinquenta. Foto retirada daqui.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Palavras de Azevinho

 












PALAVRAS DE AZEVINHO
 
Natal de malva
e linho
de ternura mosqueada
Onde no peito
faz ninho
e no coração se alaga

Na entrega e no refúgio
de memória deslumbrada
entre o sonhado e o lume
Natal no seu aprisco
perfumes
de seda e cassa
Pela calada do tempo
da infância
sendo imagem
Com palavras
de azevinho
e nas costas duas asas

Natal de 2008
Maria Teresa Horta




Agradeço à minha querida Teresa Horta este seu poema lindíssimo, inédito, feito expressamente para a quadra que atravessamos, e a generosidade em aceder que aqui o partilhe.
Obrigada, Teresa!