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quinta-feira, abril 13, 2017

Mercedes Blasco (1867-1961): o Fado da sua Vida ou «Os Fados da Mercedes»


Em 2013 fui convidada a colaborar no catálogo da exposição O Fado e o Teatro, uma organização conjunta dos Museu do Fado /Museu do Teatro, tendo escrito um artigo sobre Mercedes Blasco (1867-1961), uma artista multifacetada que, também na área do fado foi pioneira e completamente silenciada.

Na verdade Mercedes Blasco foi, como penso que ficou demonstrado, uma pioneira nos palcos e na vida, uma mulher que esteve sempre à frente do seu tempo e abriu caminhos até então inóspitos.

No próximo mês de Setembro completam-se 150 anos do seu nascimento. Soube, no entretanto, que se prepara um colóquio internacional. Nada mais justo. Mas como este artigo não teve grande divulgação e pode, de alguma forma, vir a dar uma contribuição útil, aqui o deixo tal como saíu no referido catálogo.  No final vão os dados técnicos do mesmo.

Mercedes Blasco foi uma grande Mulher e bem merece ser conhecida e divulgada.

julia coutinho






















 














 ASSENTO DE BAPTISMO DE MERCEDES BLASCO





Nota: nesta página existem dois erros graves:  

- o pai chamava-se José Marques; José Maria Marques era o irmão.
- Mercedes Blasco nasceu em 1867, como pode ser confirmado pela certidão de nascimento.







  Nota: na Bibliografia acima falta a consulta à imprensa da época: O Século / O Mundo / Diário de  
  Lisboa / Ilustração Portuguesa etc.






CATÁLOGO O FADO E O TEATRO, EGEAC - Museu do Fado / Museu do Teatro, 2013
 






terça-feira, dezembro 30, 2008

Na morte de Arnaldo Louro de Almeida (1926-2008)

Arnaldo Louro de Almeida
(1926 -2008)
Tinha 82 anos e faleceu no dia 28, pelas 11 horas. Serena e discretamente, tal qual foi a sua vida. O funeral realiza-se hoje, dia 30 de Dezembro, pelas 15,30h, a partir da igreja de Loures para o cemitério local.
Oriundo da Escola António Arroio, tal como seu irmão Fernando, ambos se viriam a formar na Escola de Belas-Artes de Lisboa, o Fernando em Escultura e o Arnaldo em Pintura.
Começou a expor colectivamente logo na 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1946-1956), a cuja comissão organizativa deu apoio, com outros colegas estudantes de Belas-Artes.
Foi um dos 11 artistas que viu um dos seus quadros apreendidos pela PIDE na 2ª EGAP em 1947. Tinha apenas 20 anos e era o mais novo dos expositores. A foto que se publica data dessa altura.
Fez a primeira exposição individual na SNBA em Janeiro de 1949.
Pertenceu aos corpos directivos da SNBA e era seu Secretário quando em 1952 a PIDE fechou aquela instituição na sequência das provocações de Eduardo Malta, um pintor afecto ao regime. Foi a sua direcção quem geriu a crise então instalada e que durou até finais desse ano.
Foi professor e, mais tarde, director da Escola de Artes Decorativas António Arroio, cargo que ocupava quando se deu o 25 de Abril.
Viveu vários anos na Madeira onde exerceu grande actividade pedagógica, tendo ficado ligado à fundação da Academia de Belas-Artes da Madeira de que foi o primeiro director. Devem-se-lhe ainda muitas das traduções de livros técnicos, fundamentais para o ensino artístico.
Arnaldo Louro de Almeida nasceu em Lisboa, freguesia de Arroios, no dia 1 de Agosto de 1926 no seio de uma família com grandes tradições antifascistas. Seu pai, Manuel Guilherme de Almeida, foi um dos fundadores do PCP em 1921, tendo sido várias vezes preso pela polícia política e chegando a estar desterrado. Constituiu e dirigiu o Sindicato dos Alfaiates e fundou, em 4 de Março de 1934, a Academia de Corte Sistema Maguidal, (Maguidal, um acrónimo do seu nome), com um sistema de ensino inventado por si, cuja sede, ainda hoje existente na Rua da Palma, bem pode considerar-se um baluarte da resistência a Salazar, tal o trabalho conspirativo ali desenvolvido e os muitos clandestinos que acolheu.
Sua mãe, Alice Marques Louro, foi uma corajosa mulher que sempre desenvolveu um constante trabalho legal e clandestino no apoio aos presos políticos e a suas famílias, em conjunto com militantes antifascistas como Manuel Alpedrinha e Maria Machado, entre outros. Nos anos 50 a PIDE assaltou a casa da família, numa altura que ali estava recolhida Maria Machado e todos os seus membros, incluindo o Arnaldo, foram presos.
Pessoalmente devo a Mestre Arnaldo Louro de Almeida uma ajuda preciosa no deslindar da história da sua geração, uma «ínclita geração» (digo eu) da Escola de Belas-Artes de Lisboa, dos anos 40/50, fundamental na historiografia artística portuguesa, mas cuja História ainda está por fazer.
Insisti várias vezes para que doasse o seu espólio ao Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira onde seria tratado e preservado. Dizia-me sempre que sim mas, antes, queria fazer uma exposição retrospectiva da sua obra, em Lisboa. Cidade que amava. Onde se estreou como artista e onde queria terminar. Ainda em Agosto me dizia que, com esse objectivo, tinha ido tentar falar à CML, ao pelouro da Cultura, mas entretanto tinham-se mudado para a Casa dos Bicos, o vereador da cultura era outro... mas sim, voltaria a tentar logo que possível. Não queria desistir do seu sonho. Porque o Arnaldo era um sonhador, essa categoria de homens cada vez mais rara.
Viúvo há vários anos, a grande preocupação eram os filhos para os quais vivia inteiramente.
Um quadro seu, inédito, datado de 1947, quando tinha 20 anos, foi doado ao Museu do Fado e faz parte da exposição permanente daquele museu. 
Ainda em vida teve a alegria de ver o seu nome dado a uma escola de Lisboa, a ex- Escola Primária nº 44, ao Bairro Santos (ao Rego), numa homenagem ao Mestre que nos anos 50 fez os painéis de azulejos que decoram aquele estabelecimento de ensino.
Vi-o pela última vez no jantar comemorativo do 25 de Abril deste ano, no Parque das Nações. Estava já muito debilitado e era visível o esforço que fazia para conseguir estar presente.
Falei-lhe por telefone na véspera de Natal quando já estava internado em Santa Maria. Faleceu três dias depois um tanto inesperadamente, apesar da gravidade da sua doença. Perdi um grande amigo. Portugal perdeu um homem e um artista que praticamente desconhece. Portugal não merece homens como o Arnaldo Louro de Almeida.

Julia Coutinho



NOTA: Passados 10 anos é lamentável que nem o espólio tenha sido entregue a uma instituição que cuide dele e o dê a conhecer, nem se tenha realizado a exposição retrospectiva que Louro de Almeida desejava e merecia. Um dia nem sequer os alunos que frequentam a «sua» escola saberão quem foi Arnaldo Louro de Almeida. 

JC