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terça-feira, maio 09, 2017

Joaquim Pessoa: o amor-combate







 Joaquim Pessoa: o amor-combate




Joaquim Pessoa (Barreiro, 1948) é um poeta há muito arredado do nosso convívio. Não se edita, não se lê, não se escuta. Das gerações mais novas, quem o conhece? Mas ficará na História como um dos autores mais interventivos de Abril. Pouco importa que alguns eruditos o considerem «poeta menor». Para mim e para muitos outros Joaquim Pessoa será sempre a voz do Amor-Combate dos tempos do PREC.




AS PALAVRAS DO MEU CANTO

Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
porque são a razão de quem as sente.

Palavras. Todas elas do meu povo.
Amigas. Companheiras. Namoradas.
E são o canto antigo. O canto novo
de quem não as quer ver amordaçadas.

Palavras que são vento. E tempestade.
Palavras que são sol. E são abrigo.
Verdade. Amor. Poema. Liberdade.
E a palavra maior: palavra Amigo.

Palavras que são arcos. E são setas.
Com elas se defende uma canção.
As palavras são as armas que os poetas
devem fazer passar de mão em mão.

Camões lutou com elas. E por elas.
Junqueiro perfilou-as. E Cesário
abriu todas as portas e janelas
e veio à rua escrever como um operário.

As palavras do sangue. Essas palavras
que são a tua foice. O meu poema.
Palavras de suor quando tu lavras.
De alegria se escrevo e vale a pena.

Palavras que te dizem: estou aqui.
Palavras que me doem. E que eu canto.
Palavras com raiz no meu país
e que já me doeram. Nas não tanto.

Palavras que não gosto de dizê-las
assim feridas. E tu amor não digas!
Palavras encarnadas. Estou a vê-las
em Maio que é o mês das raparigas.

São palavras de fogo. Mas não ardem.
Palavras simples. Do meu cantar de agora.
São palavras. Amigas que não partem.
E ficando resistem à demora.

Palavras que não morrem. Nunca morrem.
E são a minha voz. A minha gente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.


Joaquim Pessoa, in Amor Combate, p.107

domingo, abril 17, 2011

Não nos roubem a LIBERDADE






Joaquim Pessoa (Barreiro, 1948) é um poeta há muito arredado do nosso convívio. Não se edita, não se lê, não se escuta. Das gerações mais novas, quem o conhece? talvez quem o segue no Facebook. Mas ficará na História como um dos autores mais interventivos de Abril. Pouco importa que alguns eruditos o considerem «poeta menor». Para mim e para muitos outros Joaquim Pessoa será sempre a voz do Amor-Combate dos tempos do PREC.



AS PALAVRAS DO MEU CANTO

Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
porque são a razão de quem as sente.

Palavras. Todas elas do meu povo.
Amigas. Companheiras. Namoradas.
E são o canto antigo. O canto novo
de quem não as quer ver amordaçadas.

Palavras que são vento. E tempestade.
Palavras que são sol. E são abrigo.
Verdade. Amor. Poema. Liberdade.
E a palavra maior: palavra Amigo.

Palavras que são arcos. E são setas.
Com elas se defende uma canção.
As palavras são as armas que os poetas
devem fazer passar de mão em mão.

Camões lutou com elas. E por elas.
Junqueiro perfilou-as. E Cesário
abriu todas as portas e janelas
e veio à rua escrever como um operário.

As palavras do sangue. Essas palavras
que são a tua foice. O meu poema.
Palavras de suor quando tu lavras.
De alegria se escrevo e vale a pena.

Palavras que te dizem: estou aqui.
Palavras que me doem. E que eu canto.
Palavras com raiz no meu país
e que já me doeram. Nas não tanto.

Palavras que não gosto de dizê-las
assim feridas. E tu amor não digas!
Palavras encarnadas. Estou a vê-las
em Maio que é o mês das raparigas.

São palavras de fogo. Mas não ardem.
Palavras simples. Do meu cantar de agora.
São palavras. Amigas que não partem.
E ficando resistem à demora.

Palavras que não morrem. Nunca morrem.
E são a minha voz. A minha gente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.


Joaquim Pessoa, in Amor Combate, p.107

terça-feira, maio 01, 2007

Meu irmão de Maio

Mártires de Chicago

Irmão do mês de Maio. Irmão de medo.
Das lutas que travamos porta a porta.
Irmão desta razão deste segredo.
Esperança tão mais viva do que morta.
Irmão de Maio. Punho levantado
contra quem te quis sempre prisioneiro.
Pela força explorado. E deserdado.
Irmão de Maio. Irmão do ano inteiro.
Ai meu irmão de Maio é neste outono
das palavras mais duras mais avessas
que o medo vai soltar os cães do sono.
Irmão a quem não bastam as promessas.
És bem como as palavras. Não tens dono.
E eu canto a tua dor. Sem que mo peças.
(Joaquim Pessoa)



sexta-feira, abril 27, 2007

Amor Militante

primeiro 1º de Maio em Liberdade, 1974

Amor Militante


Regaço. Flor. Abraço. Movimento.
Lua de seiva. Vinho. Arco. Seta.
Palavra nua. Força. Forca. Vento.
Anel de lava. Passo. Início. Meta.

Retrato e acto. Cacto. Água. Poço.
Laço que eu faço. Braço que arremessa.
Nome de caça. Casa. Sangue e osso.
Amor que sempre acaba. E recomeça.

Amor que sempre faço. Porque é isso
que faz falta fazer. Amor amante.
Amor que é um compasso. Um compromisso.

Amor que é toda a vida ou um instante
em que se vive e morre de olhar fixo
e coração ao alto. Militante.

Joaquim Pessoa



terça-feira, fevereiro 28, 2006

Aos Meus Amigos

Não sei ser alegre
com hora marcada
em data específica.
Perversas e doridas
as palavras escasseiam.
Sabem a sal.

A cada momento
invento a coragem.
Para amar
para continuar
para ser.

Deixo-vos as palavras do poeta.
(que não sou ... nem sei)

Júlia



Canção da Coragem

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue
deixaria a minha casa
como se fosse um culpado.

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue.

Nem que a morte me dissesse:
"-- Virás, de noite, comigo...",
eu trairia um amigo.
Nem que a morte me levasse.

Nem que a morte me dissesse.
Nem que a vida me fugisse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
deixaria de cantar.
Nem que a morte me calasse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho.

Nem que a morte acontecesse
bem por dentro dos meus olhos
eu deixaria de ver
todo o amor de joelhos.

Nem que a morte acontecesse
ou, meu amor, eu cegasse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza
eu me dava por vencido.
Nem que a morte me doesse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza.

E se a morte violentasse
as paredes do meu peito
meu coração lá estaria
como uma rosa de esperança.

Como um pássaro de sangue
poisado nas tuas mãos.

(Joaquim Pessoa in Amor Combate)