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domingo, junho 27, 2010

Carlos Pato: Resgatado do silêncio

Decorreu no sábado, dia 26 de Junho, uma sessão de homenagem a Carlos Pato (1920-1950) promovida pelo Partido Comunista Português, o seu partido de sempre.

A cerimónia realizou-se no salão do Clube Vilafranquense, na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, numa sala a abarrotar de amigos, camaradas e familiares com especial destaque para os filhos, Maria Clara e João Carlos, genro, nora, e os netos, Rita, Gonçalo e Nuno.

Presentes ainda dois amigos especiais: a Luisa Duarte Santos que o viu pela última vez com vida em Caxias e seu marido Arquimedes da Silva Santos que com Carlos Pato esteve na génese do Movimento Neorealista e que também se encontrava preso na mesma ocasião. (ver relatos abaixo)


Pela voz de Armindo Miranda, responsável do PCP, foram lembrados os tempos duros e repressivos dos anos trinta e quarenta do século passado com a Guerra Civil de Espanha, a Segunda Grande Guerra, as lutas operárias ribeirinhas que envolveram homens como Soeiro Pereira Gomes e Alfredo Dinis - Alex (igualmente morto pela PIDE), a emergência do Movimento Neorealista de V F Xira, a relativa abertura do regime com o final da II Guerra que permitiu criar o MUD (Movimento de Unidade Democrática) e o MUD Juvenil, e a unidade oposicionista em torno da candidatura do General Norton de Matos em Janeiro de 1949.
Carlos Pato, que desde cedo se envolveu nas lutas político-sociais e culturais do seu tempo, bem como em todas as movimentações oposicionistas do após-guerra, para além de ser dirigente local do PCP pertenceu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), à Comissão Eleitoral da candidatura de Norton de Matos e à direcção do Ginásio Artístico Vilafranquense, tendo exercido o cargo de presidente desde 1945 até ser preso em 1949.

No final houve uma romagem ao cemitério de Vila Franca de Xira no qual se incorporaram grande parte dos presentes.

Muitos cravos vermelhos para Carlos Pato. Cravos vermelhos aos molhos para um homem generoso e solidário que a repressão de Salazar e da PIDE não deixaram que pudesse viver para criar os filhos, conhecer os netos e chegar à Libertação do 25 de Abril!

A homenagem, convenhamos, pecou por tardia. É que, no entretanto, passaram 36 anos sobre a Revolução de Abril... Mas, como diz o povo: «mais vale tarde que nunca».

Fez-se justiça.


quarta-feira, abril 28, 2010

In Memoriam de Sofia Ferreira (1922-2010)

(1 Maio 1922 - 22 Abril 2010)

Conheci pessoalmente Sofia Ferreira em Fevereiro de 2001 quando acedeu a conversar comigo sobre Jose Dias Coelho, a experiência desse convívio na clandestinidade e, no geral, sobre os tempos sombrios que conheceu como ninguém. Fiquei deslumbrada com a sua doçura e humanidade. Nunca me regateou uma conversa mesmo sabendo que eu era uma ex-pcp. Muitos dos seus camaradas não conseguem ter essa abertura própria de almas superiores. Habituei-me a amá-la e respeitá-la. Guardo o livro de Giovanni Ricciardi sobre Soeiro Pereira Gomes que me ofereceu com a dedicatória: «Para a amiga Júlia como uma boa recordação da nossa conversa sobre a História do PCP e do camarada Dias Coelho». Foi com grande mágoa que a vi partir no passado dia 22 uns dias antes de completar 88 anos. Deixou-nos para sempre uma grande Mulher. Viva Sofia Ferreira!

Deixo-vos com um texto da jornalista São José Almeida inserido no Público de 24 de Abril.


A sua vida e a luta sobressaem como referências maiores de alguém que conhecia o sentido da justiça e da solidariedade

A última vez que falei com Sofia Ferreira foi em 2004, na sede do PCP na Rua Soeiro Pereira Gomes, em Lisboa. O motivo foi um trabalho que realizei então sobre um conjunto de cartas escritas por algumas das mulheres que estavam presas na cela das mulheres em Caxias, em 1961. As cartas destinadas à publicação numa revista política internacional, mais não eram do que denúncias da violência exercida sobre os antifascistas nas cadeias da PIDE. E neste caso com a particularidade raríssima de serem denúncias escritas por mulheres.

Sofia Ferreira não assinava nenhuma dessas cartas, mas aceitou falar comigo assumindo-se como a dirigente do PCP que era à época, em conjunto com Maria Alda Nogueira, responsável pela célula do PCP na cadeia de Caxias. Esta conversa veio-me à memória, quando há uns dias me disseram que Sofia Ferreira estava mal, pois tinha sofrido um AVC. A notícia da sua morte veio dias depois, na quinta-feira.

Faleceu a poucos dias de completar 88 anos (nasceu a 10 de Maio de 1922) uma das mais importantes mulheres que se dedicaram à vida política em Portugal no século XX e uma das mais marcantes e importantes mulheres que conseguiram atingir o topo da hierarquia do centralismo democrático do PCP e integrar a sua direcção máxima, o comité central desde o V Congresso em 1957, no local da Galiza, na freguesia do Estoril, até ao XII Congresso, no Porto, em 1988.

A memória dessa conversa que mantivemos numa das salas do rés-do-chão da Soeiro (a primeira à esquerda, logo ao pé da escada) é a força do seu olhar, bem como a tranquilidade e a certeza que dela emanava de quem não duvida um minuto da bondade e da verdade das convicções pelas quais fez o sacrifício da sua vida dedicada aos outros. Nunca falando de si, tratou de certificar que as cartas eram verdadeiras e de contar a forma como a organização clandestina do PCP cumpriu esta tarefa política de denunciar o que se passava nas cadeias fascistas.

Nunca falou de si. E de pessoal durante toda a conversa só uma discreta pergunta, com um sorriso e alguma ternura nos olhos: "Foi você que fez a biografia da Maria Alda, não foi? Um dia havemos de falar..." E respondi que sim, que Maria Alda Nogueira tinha sido a minha primeira biografada, e ficámos de conversar um dia. A voragem da actualidade e a obsessão da notícia, mais as voltas da vida, acabaram por nunca possibilitar essa conversa.

Irmã de Mercedes Ferreira e de Georgete Ferreira, Sofia Ferreira, que é hoje em Portugal uma personalidade quase desconhecida e uma referência apenas para algumas gerações mais velhas, é uma das figuras que marcam o século XX português, pela sua capacidade de entrega e de abnegação em beneficio da comunidade, desde que em 1946 mergulhou na clandestinidade como militante do PCP. Valores que à luz dos dias de hoje parecem estranhos numa sociedade que cedeu ao individualismo e aos egoísmo mais cruel e desumano.

Sofia Ferreira foi uma das mulheres que mais anos de prisão cumpriu, mais de 13 anos nas cadeias da PIDE (de 25 de Março de 1949 a 4 de Fevereiro de 1953 e de 28 de Maio de 1959 a 6 de Agosto de 1968). Presa a primeira vez com Álvaro Cunhal e com Militão Ribeiro no Luso, é presa a segunda vez em conjunto com o seu marido, António Santo, na rua, em Lisboa. Em 1969, passa algum tempo na União Soviética e assume depois responsabilidades de topo na hierarquia do PCP, antes e depois do 25 de Abril.

A importância real de Sofia Ferreira no aparelho e na história do PCP é conhecida e faz parte da história de Portugal. Teve, de acordo com a sua biografia oficial, responsabilidades diversas e de peso ao longo de décadas. Da imprensa clandestina ao apoio ao secretariado, passando pela responsabilidade de várias organização regionais.

O momento da sua biografia política mais conhecido é o facto de ter sido presa com Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro na casa clandestina do Luso em 1949. Sobre a qual fez, aliás, um impressionante depoimento, logo após o 25 de Abril a Rose Nery Nobre de Melo que mostra como de facto Sofia Ferreira sabia exactamente o peso e a importância do seu percurso (Mulheres Portuguesas na Resistência, Seara Nova, 1975).

Senhora de uma segurança imensa, Sofia Ferreira tinha atrás de si a lenda de ter sido presa no Luso com Cunhal e Militão, onde era a companheira da casa clandestina. Era olhada por muitos como uma das namoradas de Cunhal. Mas o seu prestígio e a sua autoridade vinham do que foi o seu percurso e a sua magnífica capacidade de entrega.

Estranhamente ou não, esta mulher discreta e dura, mas afável, era mencionada muitas vezes como a "terrível Sofia". Uma forma de tratamento curiosa, que não era exclusivo seu - havia também a "terrível Alda" e a "terrível Georgete", por exemplo. O que diz muito sobre o PCP, mas sobretudo sobre o Portugal, quer de antes, quer depois do 25 de Abril. O país machista, em que a autoridade de uma mulher não é vista com respeito e por mérito próprio, mas sim como algo que é fruto de um carácter diferente do que é ser mulher, como algo antinatural numa mulher, logo terrível.

Sofia Ferreira foi das poucas mulheres a mostrarem o que era capacidade de luta, de liderança, de sacrifício em nome dos outros, da política e de um projecto. Foi das poucas mulheres na sua época e da sua geração a mostrarem que as mulheres podem ser iguais aos homens. E nesse sentido também uma pioneira. E, por mais que nos distanciemos do seu projecto e o recusemos, não podemos rejeitar o mérito e a grandeza de uma mulher que dedicou a sua vida à luta em que acreditava e sobre a qual estava convencida de que com ela melhoraria a condição dos seres humanos e lhes daria dignidade.

Num país retrógrado e conservador como Portugal em que ainda hoje as mulheres - mesmo trabalhando ao lado do homem ou mais que este e recebendo menos -, são consideradas em função do que é o espaço do lar e o espaço da família, a vida e a luta de Sofia Ferreira sobressaem como referências maiores de alguém que conhecia o sentido da justiça e da solidariedade.

Obrigada Sofia Ferreira por tudo o que deu sempre aos outros e por eles. E desculpe ter-me deixado atropelar pela voragem dos dias e nunca termos tido a oportunidade de ter aquela conversa. Jornalista (
sao.jose.almeida@publico.pt)


http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=35682

domingo, março 08, 2009

Albina Fernandes e todas as Mulheres

(Soissous, 5.1.1928 - Lisboa, 5.10.1970)
«são as mulheres como tu / que podem transformar o mundo» Joaquim Pessoa

Presa em 15.12.1961 com o companheiro Octávio Pato, recolheu à cadeia de Caxias com os pequeninos Isabel e Rui, tendo desencadeado uma luta com os agentes da Pide para que as crianças fossem entregues, na sua presença, aos avós paternos. Ameaçada de lhe tirarem os filhos para serem entregues numa instituição, dado os pais não serem casados e os registos estarem irregulares devido à situação de clandestinidade que viviam, Albina Fernandes deitava as crianças na única cama da cela enquanto se estendia no chão frio, sem qualquer agasalho, segurando nas suas as mãos dos meninos. Só a 10.1.1962 lhe foi autorizada a entrega das crianças aos avós.
A foto testemunha o insólito de uma presa política que, mesmo para a fotografia da praxe, recusa largar o seu bébé.
Albina e Octávio viriam a casar na cadeia em 1963. Saida em liberdade condicional em 1969, veria a pena do companheiro ser indefinidamente prorrogada. E o seu sistema nervoso, extremamente debilitado por oito anos de prisão e muitos mais de clandestinidade não resistiu à angústia de uma vida constantemente adiada. Simbolicamente ou não, enforcou-se no dia 5 de Outubro de 1970.
Neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, a minha homenagem a todas as Mulheres do meu país, sobretudo àquelas que, como Albina Fernandes, foram injustamente ficando pelo caminho, não chegando a viver os alvores da Liberdade por que tanto lutaram.



domingo, janeiro 18, 2009

Bento Gonçalves e o 18 de Janeiro de 1934

Bento Gonçalves (1902-1942)


Muito se tem especulado sobre o posicionamento de Bento Gonçalves, então Secretário-Geral do Partido Comunista Português, acerca do 18 de Janeiro de 1934, que veio a designar de «anarqueirada».

Quando passam 75 anos sobre esse acontecimento, aqui deixo ficar as suas declarações à PVDE quando, em 1935, foi preso com os restantes membros do Secretariado: Julio Fogaça e Jose de Sousa.


Auto de Declarações de 25.Nov.35


P - Desde quando faz parte do Secretariado do PCP?

R - Desde 21 de Abril de 1929; porém, deixei de estar na actividade do Secretariado durante o tempo da prisão e deportação, ou seja, desde 28.Set.1930 até 10.Março.1933, tendo reassumido o cargo algum tempo depois da chegada ao Continente. No Secretariado do PCP sempre exerceu a tarefa de Secretário-Geral e nesta qualidade continuou até à data da sua prisão.

P - Participou no 18 de Janeiro de 1934?

R - Tomou parte activa no movimento de 18 de Janeiro de 1934 dirigido contra a série de decretos promulgados em Setembro de 1933 que dissolviam os Sindicatos Independentes da classe operária; porém, não perfilha a afirmação segundo a qual esse movimento deveria ser caracterizado por uma Greve Geral Revolucionária, mas sim, por um Movimento de Greves Parciais e Manifestações de Massas e a manutenção da liberdade de organização democrática dos Sindicatos Operários. No entanto, assume a responsabilidade de toda a Agitação e Propaganda e Actuação Antifascista conduzida pelo Comité Central do PCP, desde que é Secretário Geral.
(...)

Auto de Declarações de 6.Dez.1935


P - Desde quando estava na ilegalidade?

R - Desde o mês de Agosto de 1933, não mais tendo trabalhado na sua profissão, mantendo-se à custa do financiamento que lhe era feito pelo PCP.
(...)

P - Assume a responsabilidade da agitação, propaganda e actuação antifascista conduzida pelo Comité Executivo do PCP?

R - Assume essa responsabilidade. Quer dizer: o combate do PCP contra o actual Governo e contra as suas leis anti-democráticas, excluindo quaisquer actos isolados de terrorismo contra os quais tem conduzido campanhas na imprensa clandestina do Partido.

(Arq. da PIDE/DGS, proc. SPS 1664 - 4318)



NOTAS BIOGRÁFICAS:

Bento António Gonçalves nasceu a 2 de Março de 1902, em Fiães do Rio, Portalegre. Filho de Francisco Gonçalves e de Germana Gonçalves, cedo vem para Lisboa mas fica orfão e é criado pela mãe adoptiva, Guilhermina dos Santos. Reside na Rua do Ferragial de Baixo 11-4º Dto, em Lisboa, na mesmo rua onde também mora Francisco de Paula Oliveira convivendo ambos desde crianças e tendo-se tornado grandes amigos. Ambos virão a ser operários arsenalistas e irão apoiar-se na reorganização do PCP de 1929, sendo Pavel o responsavel pelas Juventudes Comunistas.

Após a prisão de 1935, Bento Gonçalves embarca no dia 8 Janeiro 1936 para Angra do Heroismo e, em 19 de Outubro desse mesmo ano vai inaugurar o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde vem a falecer em 11 de Setembro de 1942.

«... o recluso Bento António Gonçalves faleceu no dia 11 do corrente [Setembro, 1942], pelas 19H35 vitimado por febre biliosa hemoglobimirica»

(carta do Director da Colónial Penal de Cabo Verde, Tarrafal, nº 75/42 para Director da PVDE, datada de 12-9-1942, doc. 36 Proc. ref)


quinta-feira, janeiro 01, 2009

Lembrando Maria Helena Magro (1923-1956)

Maria Helena Alves Tavares Magro
(1 Janeiro 1923 - Dez 1956)
Começo o ano recordando uma mulher. Nada me seria mais grato. Uma mulher cujo nome raramente é referido e, quando o é, apenas engrossa o número dos anónimos que na clandestinidade viveram e sossobraram. Um nome, nada mais. A que nunca se associa um rosto, um feito, uma ideia, um sentimento. Se fosse viva, completaria hoje 86 anos.
Maria Helena Alves Tavares Magro nasceu no primeiro dia de Janeiro de 1923, em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho. Filha de Francisco Félix Tavares Magro e de Flora Carlota Alves, era irmã e cunhada dos dirigentes comunistas José Magro e Aida Magro, respectivamente.
Emancipada pelo pai aos 18 anos, desde muito cedo se envolveu na luta social e política, primeiro no bairro de Alcântara, onde viveu até aos 22 anos e, ao entrar para a Faculdade de Direito no ano lectivo 1940/41, nas lutas académicas que então ocorreram contra o aumento das propinas.
Aluna aplicada, Maria Helena Magro sempre «alcançou nas escolas altas classificações que lhe permitiram ganhar a isenção de matriculas e vários outros prémios», como refere uma sua biografia resumida que se encontra nos arquivos da PIDE/DGS.
Com o irmão José e a cunhada Aida, a que se juntam outros jovens da zona como «Mário Castrim» e Alda Nogueira desenvolvem intensa actividade na freguesia de Alcântara e arredores: pedem livros e fundam uma biblioteca, organizam bailes e quermesses para realização de fundos, angariam roupas e medicamentos para apoio aos presos políticos e famílias. Conta-nos Aida Magro a estratégia utilizada para conseguirem o apoio do padre da freguesia: a cedência do espaço em troca de uma parte dos lucros para a paróquia. Ousados, chegam a convidar a mulher de Carmona para inaugurar uma das quermesses; a senhora não comparece mas contribui com uma nota de 100 escudos, o que para a época era uma fortuna.
Em finais de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, aceita o convite para funcionária clandestina do PCP. Segue, com meses de intervalo, o irmão e a cunhada. O curso de Direito fica incompleto. Tem apenas 22 anos.
Sabe-se que foi simultaneamente um quadro técnico e político. Clara (o nome que dará à filha) é o pseudónimo que adopta para escrever em O Militante, enquanto que em o 3 Páginas e A Voz das Camaradas, de que é uma entusiasta impulsionadora e activa colaboradora, será Manuela.
Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, incluindo no seio partidário, foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres do partido no trabalho político como forma de emancipação.
Assim, em Maio de 1948 escrevia no boletim 3 Páginas (que antecedeu A Voz das Camaradas), dando-se como exemplo, na tentativa de incutir nas funcionárias comunistas o gosto pelo trabalho político, para além da principal tarefa da guarda das casas clandestinas:
«Tenho a meu cargo, entre outras tarefas, a do recorte dos jornais: recorto os artigos sobre a vida nacional e internacional que têm maior interesse, e vou-os catalogando conforme os assuntos: Assembleia Nacional, Organização Corporativa, etc. Colo depois estes artigos, com indicação da data e nome do jornal, em folhas que entram nas secções respectivas. Assim, os camaradas podem encontrar facilmente as noticias e dados concretos de que precisem para o seu trabalho. Esta leitura cuidada do jornal, que todas nós deviamos fazer diariamente, tomando-a como uma tarefa partidária, é muito útil porque alarga o nosso conhecimento sobre as condições de vida do povo, política salazarista, política internacional, etc.»
e, lembrando que nem todas sabem ler e escrever, diz ainda: «Acho que este trabalho podia ser feito por todas as amigas que leiam facilmente. (...) A nossa instrução politica é uma tarefa que não devemos esquecer.» (...) As amigas que não sabem ainda ler ou lêem com dificuldade, devem colocar aos camaradas da casa, muito seriamente, a tarefa de auxiliá-las, porque saber ler faz muita falta, camaradas.»
Fora das fileiras partidárias, Helena Magro recorda as palavras de Lenine: «esquecendo as mulheres, é impossível interessar as massas pela política» para defender, num documento da sua autoria,(1) que a «palavra de ordem que mobilizará as mais amplas massas femininas é a luta pela Paz» porque «a luta pela Paz é comum a todas as camadas, a todas as classes, une as pessoas de todas as ideologias e crenças.» Reconhecendo que em todos os campos - económico, social, político e jurídico - as mulheres têm reivindicações específicas a apresentar e advogando a criação de «uma organização feminina nacional, legal, que defenda as justas reivindicações da mulher em todos os campos», Helena Magro salienta, por outro lado, a necessidade de homens e mulheres se manterem lado a lado na luta por interesses comuns.
Através do referido 3 Páginas, de Maio de 1948, ficamos a saber como foi o início da sua vida na clandestinidade. «Quando eu vim, nos primeiros meses senti-me deslocada: não conhecia o camarada, a vida era muito diferente da que eu tivera, e também daquela que eu julgara vir encontrar e, principalmente, tinha um medo muito grande de não acertar, de não conseguir ser útil ao Partido. Mas tudo isso passou já e não esqueço o que o nosso jornal contribuiu para isso». O camarada a que alude é Joaquim Pires Jorge, que, pensamos, foi o seu único companheiro de vida.
O último artigo que escreveu, «A Importância da Cultura Geral», foi publicado em A Voz das Camaradas de Novembro de 1956. Nele faz um apelo ao estudo abrangente e metodológico de forma a que os comunistas assimilem os conhecimentos humanos acumulados ao longo dos anos, enriquecendo a memória e desenvolvendo o sentido crítico, concluindo:
«O dia virá em que outras tarefas nos serão confiadas e nessa altura todos os conhecimentos que agora vamos adquirindo nos serão preciosos. Por isso não podemos deixar passar os anos, uns após outros, sem aproveitar utilmente o tempo que não volta. (...) O estudo auxiliar-nos-á a assimilar o marxismo, tal como o marxismo nos ajuda a fazer um estudo sério e útil das outras ciências.»
Faleceu em finais de 1956. Tinha 34 anos. A sua saúde débil não resistiu aos rigores da clandestinidade. Nem aos abortos a que se viu constrangida, também eles, clandestinos. Deixou uma filha com quatro anos, a Clarinha.

(1) - «As Mulheres são uma força decisiva na luta pela Paz, pelo Pão, pela Terra, pela Democracia e pela Independência Nacional», in ANTT- Arq PIDE/DGS, Procº SC 173-GT, NT 1395
Nota: Retrato de M Helena Magro feito por Margarida Tengarrinha e publicado no boletim A Voz das Camaradas das Casas do Partido, nº 18, de Abril de 1961.

quinta-feira, junho 19, 2008

Jose Dias Coelho (1923-1961)



Se fosse vivo, o escultor José Dias Coelho, faria hoje 85 anos.
Nasceu em Pinhel, em 19 de Junho de 1923 e foi morto por uma brigada da PIDE na antiga Rua da Creche (actual Rua Jose Dias Coelho) no dia 19 de Dezembro de 1961. Tinha 38 anos. 
Artista plástico, estudou na Escola de Belas-Artes de Lisboa, de onde foi expulso por um ano (daquela e de todas as escolas do país) em 1952, num processo escolar que envolveu 81 alunos por se terem solidarizado com o colega Antonio Alfredo, acusado de ter inscrito a palavra PAZ nas paredes da escola. 
Expôs nas EGAPs, Exposições Gerais de Artes Plásticas (1946-1956), na SNBA, e pertenceu, com muitos outros, à sua equipa organizadora. 
Grande activista do MUD Juvenil liderou a Comissão de Escola de Belas Artes e integrou a sua direcção universitária em 1947 quando o processo de luta estava ao rubro com a prisão consecutiva de todos os principais dirigentes. 
Militante do PCP desde 1942, ligado inicialmente às Juventudes Comunistas, passou à clandestinidade em 1955. 
Quando o mataram era o responsável pelo Sector Intelectual na Direcção do Comité Local de Lisboa.
 
João Abel Manta, um amigo de sempre, lembrou-o assim em 1974.
















sexta-feira, maio 25, 2007

Há 50 Anos: Fuga Audaciosa do Aljube [1]

Carlos Brito  (n 1933)


Há 50 anos, precisamente na noite de 25 para 26 de Maio de 1957, tinha lugar uma fuga da cadeia do Aljube de Lisboa protagonizada por Carlos Brito, Rolando Verdial e Américo de Sousa todos dirigentes do Partido Comunista Português, sendo o último membro destacado do Comité Central.
Carlos Brito, na altura com 24 anos, é hoje o único sobrevivente dessa proeza espectacular mas ainda praticamente desconhecida sobretudo nos seus pormenores. Nas notas memorialistas que publicou nos anos noventa[2] conta-nos como conseguiram ludibriar as forças repressivas e evadir-se daquele presídio.
Aqui ficam os principais excertos desse texto.

Os antecedentes
Nos princípios de 1957, a PIDE concentrou um grande número de presos políticos na cadeia do Aljube de Lisboa, o que não era habitual, visto ser a cadeia usada sobretudo para manter os presos no período mais intenso de interrogatórios e torturas.
A cadeia do Forte de Caxias, que funcionava como depósito de presos, tinha, entretanto, entrado em obras, mas a repressão e a prisão de oposicionistas à ditadura, especialmente de comunistas, não tinha parado. (...)
A anormal população do Aljube (...) deu força aos presos para iniciarem um processo de luta por melhores condições prisionais, em relação ao regime de visitas, à alimentação, à higiene e outras.
A PIDE tentou conter este movimento com a sua táctica habitual de «isolar os cabecilhas» e assim transferiu das diferentes salas para o último andar da cadeia - uma enfermaria desactivada - os presos considerados mais perigosos. Éramos oito no início, depois ficámos dez, quase todos funcionários do PCP e três membros do Comité Central - Francisco Miguel, Blanqui Teixeira e Américo de Sousa - todos eles grandes obreiros da fuga. 

Os preparativos
Mal assentámos arraiais nas novas instalações, começámos a avaliar as possibilidades de fuga. Ao cabo de uma semana, não mais, de cogitações individuais e reflexões colectivas a resposta foi afirmativa: havia condições de fuga.
Pretendíamos explorar a circunstância de nos encontrarmos num andar recuado e de um pouco abaixo das janelas gradeadas correr um estreito algeroz, que concebido para a remoção das águas nos podia conduzir à liberdade.
Seria sempre um plano arrojado, pela altura, correspondente a um quinto andar, e o desamparo do percurso.
Colocava-se, entretanto, um grande número de interrogações: - Qual a consistência do algeroz? Onde ia dar? A que distância ficava do prédio vizinho? Como passar dos telhados para a rua?
Também pressupunha grandes dificuldades: para aceder ao algeroz era preciso serrar as grades de uma das janelas. Mais interrogações: - Onde arranjar a serra? Como fazê-la entrar na cadeia?
Ainda outras: - Qual o comportamento dos guardas durante a noite? E especialmente, como faziam a vigilância das grades?
Só reunindo respostas para todos estas interrogações se podia pensar em elaborar um plano de fuga minimamente consistente.
Então o colectivo decidiu: toda a prioridade à fuga. E a partir daí a vida da sala ficou subordinada a este objectivo fundamental.
Fez-se chegar ao Partido por meios ultra-clandestinos, naturalmente, o nossos propósitos e as nossas necessidades.[3] Tomaram-se variadas medidas para a recolha de informações.
Montámos a nossa própria vigilância à actividade nocturna da prisão. Durante toda a noite ficavam dois presos acordados, em turnos de duas horas, que registavam tudo o que viam e ouviam, especialmente o comportamento dos guardas de serviço à sala.
Para grande alegria nossa registámos que (...) as rondas nocturnas faziam uma observação muito superficial às grades, limitando-se a examiná-las com um foco de lanterna.
Um belo dia chegou-nos a resposta do Partido aprovando a fuga e prometendo os apoios pedidos. Pouco depois chegou-nos a serra dissimulada na prenda de anos para um de nós.[4]
Podíamos iniciar a tarefa decisiva de serrar as grades. Quando passámos à prática (...) logo se verificou que esta fase iria arrastar-se por muito tempo.
O grande problema era aquele ruído inconfundível: um guincho penetrante que se ouvia longe e repercutia pelas paredes.
Só nos momentos em que se sabia que o guarda de serviço estava ocupado com outras preocupações é que se podia trabalhar com relativa segurança. As sessões de corte eram, por isso, bastante curtas. E era preciso serrar quatro grades relativamente grossas, em cruz, para se poder passar.
Em compensação, o disfarce da zona cortada, feito com miolo de pão pintado com aguarela da cor das grades, resultava em cheio. Os guardas miravam, miravam e parecia-lhes tudo bem.



O plano
Chegou-nos uma outra boa notícia: estava devoluto o último andar de um prédio vizinho, não o encostado à cadeia, mas o que se lhe segue naquela ala da Rua Augusto Rosa, exactamente o edifício onde viveu o actor e que está assinalado por uma lápide. Era uma informação da maior importância, pois podia resolver o problema de passar dos telhados para um andar que nos dava acesso à rua.
Nesta altura já tínhamos amadurecido o plano da fuga que compreendia as seguintes fases:

1ª - passar a grade para o algeroz;
2ª - caminhar no algeroz uns dez metros;
3ª - descer por corda, a pulso, uma altura de seis metros, entre o algeroz e o telhado do primeiro prédio;
4ª - atravessar o telhado do primeiro prédio e passar ao telhado do segundo;
5ª - tentar passar do telhado do segundo prédio para o andar devoluto e daqui procurar saída para a rua.
Era preciso fazer cordas para vencer os diferentes desníveis, os que conhecíamos e outros que podiam surgir. Os lençóis e os cobertores ofereceram bastante matéria prima.
Houve finalmente que escolher quem fugia. Não podíamos ir todos e a natureza da fuga exigia certas aptidões físicas. Levaram-se em consideração as características acrobáticas do plano (completamente desaconselhado para quem, por exemplo, sofresse de vertigens) [5], a situação jurídica (possibilidade de libertação, a mais ou menos, curto prazo) e a vontade de cada um.
Ponderadas todas estas razões foram seleccionados: o Américo de Sousa [6] (...) eu próprio que era funcionário do Partido (...) e Rolando Verdial [7] (...)
O dia da fuga foi marcado em função do guarda de serviço, o que se mostrou menos relevante do que julgávamos, pois tinha havido uma mudança na escala que não teve consequências.

A fachada do Aljube vendo-se ao cimo o andar recuado e o algeroz por onde se fez a fuga.
Em baixo no edifício à esquerda a porta mais alta por onde acederam à rua.



A fuga


Antes de iniciarmos a partida, depois da ronda das duas da madruga, ainda havia algumas tarefas de grande melindre, como o último puxão para arrancar a cruz cortada nas grades. Tinha sido totalmente serrada em três hastes, ficando a quarta com uma espessura residual suficiente para manter no sítio a peça toda.

Feito isto, começámos. O primeiro a sair foi o Américo. Eu estava especialmente ansioso. Depois chegou a minha vez. Deitei-me de costas na mesa que tínhamos encostado à janela, para facilitar a saída. Fiquei então absolutamente calmo e totalmente concentrado em cada gesto. Passei os braços e depois a cabeça pelo espaço aberto nas grades. Trepei por estas até ficar totalmente de fora. Desci para o algeroz, reparei de relance na respeitável altura a que me encontrava e lá em baixo, ao fundo, no guarda da GNR. Caminhei de lado, inclinado para a frente e apoiado na parede, que era recoberta de telhas como nas águas-furtadas. Fui juntar-me ao Américo e ajudá-lo a amarrar a corda de lençóis numa janela que havia mais à frente, numa sala que nos servia de refeitório. Feita esta operação, continuámos, no mesmo jeito de caminhar, até à extremidade do algeroz que contornava a frontaria do edifício e acabava um meio metro depois, na parede lateral. Tinha uma sensação de completo desamparo, como se boiasse no ar sobre uma Lisboa nocturna, magnífica nas suas pistas iluminadas, até à mancha negra do rio. Lançámos a corda, que eu fixei no baixo parapeito do algeroz enquanto o meu companheiro da frente a descia a pulso. A corda era curta. A distância excedia os seis metros calculados. O Américo teve dificuldade em firmar os pés no telhado. Fez-se barulho. Entretanto, o terceiro da fuga chegou junto de mim. Agora fixava ele a corda, enquanto eu descia a pulso. Em baixo o Américo amparou-me, o que ambos fizemos a seguir ao Verdial, tornando a chegada ao telhado mais suave.

Atravessámos o primeiro edifício, procurando a cumeeira do telhado onde as telhas ofereciam maior consistência. Passámos para o segundo edifício. O desnível ainda era grande mas não foi preciso corda. Avançámos até ao beiral. Estávamos sobre o andar devoluto. Sabíamos que era possível saltar para uma varanda e sabíamos que nesta alguém tinha deixado uma janela aberta para nos dar passagem. Tinha sido a camarada Deolinda Franco [8], que visitara a casa na véspera, como se a quisesse alugar, e que, além disso, desempenhou um importante papel em todo o apoio exterior à fuga. Saltámos para a varanda com alguma dificuldade e algum ruído que ecoou pelas muralhas marmóreas da Sé.

A janela estava realmente aberta, entrámos na casa, fomos à porta da escada, puxámos os trincos, podíamos sair. Foi, então, o momento de calçarmos os sapatos e vestir os casacos que trazíamos amarrados à cintura e também de compor o cabelo. Depois descemos as escadas como quaisquer cidadãos regressados de uma paródia nocturna. Chegámos à porta da rua que estava a uma distância de cinquenta metros da sentinela da Guarda Republicana de serviço à entrada do Aljube. O guarda fazia um pequeno passeio, para lá e para cá da porta da prisão.

Aproveitámos o trajecto em que ia de costas para nos esgueirarmos até à esquina que era próxima, onde está hoje a Tasca da Sé. Depois caminhámos rápido. Seguimos uma rua onde devia estar um carro à nossa espera. Mas não estava. Foi o maior contratempo de todo o plano. [9]

Para grandes males grandes remédios, fizemos um galope até ao Largo da Graça onde apanhámos um táxi. Em breve estávamos a salvo.[10]
(...)

Assim se faziam as vitórias da luta clandestina.







[1] - Assim intitulava o Avante! da primeira quinzena de Junho de 1957 a notícia da evasão. 
[2] - Carlos Brito, Tempo de Subversão, páginas vividas da resistência, Editorial Avante, 1998, pp.45-55 
[3] - As mensagens codificadas eram passadas em papel de mortalha para fumar bem dissimuladas na roupa suja, para o exterior e, de forma inversa, na roupa lavada. 
[4] - Como prenda de aniversário, Américo de Sousa recebeu uma caixa com um par de sapatos novos. Nestes, disfarçada na sola (feita propositadamente) encontrava-se o material necessário. 
[5] - Era o caso de Blanqui Teixeira que assim ficou impossibilitado de fugir
 [6] - Américo de Sousa viria a falecer em Março de 1993
 [7] -Rolando Verdial chegou a ter tarefas de responsabilidade partidária, mas mais tarde veio a trair na polícia. Morreu antes de 25 de Abril de 1974
 [8] - Deolinda Franco era casada na altura com Carlos Brito.
 [9] - O automóvel falhou por uma troca de datas resultante da cifra em que foi indicada.
 [10] - Refugiaram-se na casa de Arnaldo Aboim, na zona da Escola Politécnica onde ao fim de dois dias Carlos Brito e Américo de Sousa, já disfarçados, passaram para uma outra casa que era então um ponto de apoio da Direcção de Lisboa do PCP, à Calçada dos Barbadinhos.