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segunda-feira, maio 08, 2017

Soneto imperfeito da caminhada perfeita



Sidónio Muralha (1920-1982) por Fernando Lemos



Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar
Ninguém teme as mordaças ou algemas

- o braço que bater há-de cansar
e os Poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.

- Eu já não me pertenço: sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas
.

Sidónio Muralha, in Passagem de Nível, «Novo Cancioneiro», Coimbra, 1942, pp.22-23

segunda-feira, julho 24, 2006

O menino e a paleta



No hotel, o único hotel daquela cidade, tão pequena que parecia ser a primeira cidade construída no mundo, o meu amigo, meu único amigo naquele momento único, contou-me a história de um menino que desenhava tudo, as flores, as nuvens, os peixes e as estrelas, em cinzento, um cinzento uniforme e triste.

As paredes da sala estavam cheias de quadros dos alunos, numa generosidade, num esbanjamento de cores que fazia sorrir os olhos da gente. Mas, no meio de toda aquela paleta, um desenho cinzento contrastava, doia, fazia pensar. E os professores, convencidos que o menino era daltónico, resolveram mandá-lo ao médico para obterem confirmação do que pensavam.

O médico observou e interrogou o menino, que gostava de cores, saboreava as cores, punha tanta força no que dizia que o verde dos insectos tinha reflexos metálicos, o arco-íris dos pássaros voava, cantava, tão feliz e evidente que só um louco poderia falar de daltonismo. Aquele menino era normal, captava todas as cores, remexia nelas como quem mergulha numa piscina, atirava ao ar o amarelo, o azul, o laranja, o lilás, num jogo malabar, exacto, impressionante, sem hesitações.

Voltou o menino à escola e a curiosidade, quase inquietação, voltou ao cérebro dos professores. E disseram ao menino que passasse o fim-de-semana desenhando e trouxesse de casa cinco trabalhos diferentes que ele próprio deveria escolher. Vieram os desenhos: uma zebra correndo, uma girafa fugindo de um leão com seu pescoço longo, longo, longo, um cacho de bananas no chão congolês, as montanhas pardas do Ruanda Urundi, o sol vermelho mergulhando no rio, tudo cinzento, implacavelmente cinzento, inexoravelmente cinzento. Foi então que os professores chamaram burro ao médico, olharam o aluno com olhos assustados e resolveram visitar os pais do menino nesse mesmo dia.

E lá foram, em comitiva, o mais velho levando a criança pela mão como quem ajuda um enfermo e os outros seguindo, com caras fechadas, graves e ridiculamente solenes. A ladeira era íngreme, o bairro carcomido, e a casa tinha frinchas, buracos, marcas e socos do tempo. Os pais do menino, com gestos amedrontados, pediram desculpa de só terem três cadeiras e os professores falaram dos desenhos do aluno avançando lentamente, preparando terreno, como quem vai anunciar uma desgraça. E afinal tudo era tão simples quanto cruel. O menino não tinha, nem nunca tivera, lápis de cores.

Saímos do hotel curvados pelo peso daquela história. O tempo mudara e tudo era chumbo e cinza è nossa volta. Como nos desenhos do menino pobre.



(Sidónio Muralha, in O Andarilho, Prelo, 1975, pp.19-21)