quarta-feira, junho 28, 2006

Do que um Homem é capaz



Jose Mário Branco





DO QUE UM HOMEM É CAPAZ
AS COISAS QUE ELE FAZ
PARA CHEGAR AONDE QUER

É CAPAZ DE DAR A VIDA
PARA LEVAR DE VENCIDA
UMA RAZÃO DE VIVER

A VIDA É COMO UMA ESTRADA
QUE VAI SENDO TRAÇADA
SEM NUNCA ARREPIAR CAMINHO

E QUEM PENSA ESTAR PARADO
VAI NO SENTIDO ERRADO
A CAMINHAR SOZINHO

VEJO GENTE CUJA VIDA
VAI SENDO CONSUMIDA
POR MIRAGENS DE PODER

AGARRADOS A ALGUNS OSSOS
NO MEIO DOS DESTROÇOS
DO QUE NUNCA HÃO-DE FAZER

VÃO POLUINDO O PERCURSO
COM AS SOBRAS DO DISCURSO
QUE LHES SERVIU PARA ABRIR CAMINHO

À CUSTA DAS NOSSAS UTOPIAS
USURPAM REGALIAS
PARA CONSUMIR SÓZINHO

COM POLITICAS CONCRETAS
IMPÕEM ESSAS METAS
QUE NOS ENTRAM CASA DENTRO

COMO A TRILATERAL
COMO A TRETA LIBERAL
E AS VIRTUDES DO CENTRO

NO LUGAR DA CONSCIÊNCIA
A LEI DA CONCORRÊNCIA
PISANDO TUDO PELO CAMINHO

PARA CASTRAR A JUVENTUDE
MASCARAM DE VIRTUDE
O QUERER VENCER SÓZINHO

FICAM CINICOS, BRUTAIS
DESCENDO CADA VEZ MAIS
PARA SUBIR CADA VEZ MENOS

QUANTO MAIS O MAL SE EXPANDE
MAIS ACHAM QUE SER GRANDE
É LIXAR OS MAIS PEQUENOS

QUEM ESCOLHE SER ASSIM,
QUANDO CHEGAR AO FIM
VAI VER QUE ERROU O SEU CAMINHO

QUANDO A VIDA É HIPOTECADA
NO FIM NÃO SOBRA NADA
E ACABA-SE SOZINHO

MESMO SENDO OS PODEROSOS
TÃO FRACOS E GULOSOS
QUE PRECISAM DO PODER

MESMO HAVENDO TANTA GENTE
PARA QUEM É INDIFERENTE
PASSAR A VIDA A MORRER

HÁ PRINCIPIOS E VALORES
HÁ SONHOS E HÁ AMORES
QUE SEMPRE IRÃO ABRIR CAMINHO

E QUEM VIVER ABRAÇADO
À VIDA QUE HÁ AO LADO
NÃO VAI MORRER SOZINHO

José Mário Branco, in Resistir é Vencer, 2004

segunda-feira, junho 26, 2006

Os Telhados de Lisboa





Lisboa vista do Castelo



Os Telhados de Lisboa
por Norberto de Araújo


Os cenários da cidade, tomados do alto, poder-se-iam chamar os telhados de Lisboa.

Há os miradouros de panorama extensivo, que abarcam todas as distâncias. E há os miradouros suspensos sobre a cobertura confusa do casario: só se distinguem empenas, mansardas, telhados, campanários pequeninos, a ramagem tímida de um quintal.

E tudo se amalgama na intimidade dos planos. Perdem-se as linhas do trânsito, os portais fidalgos, as belas varandas de renda, as bocas sombrias dos casebres.

Destes cenários desgrenhados a poesia ascende, sem ritmo, num pitoresco desconcertante de acaso.

Põe-se de poleiro o galo alfacinha!

Do alto suspenso do Carmo ou das lombas de S Cristovão, de S Pedro de Alcântara ou do Monte de S. Gens, Lisboa parece um castelo de cartas, numa das quais há sempre uma nesga do Castelo. Lisboa é, assim, uma estampa aberta em xilogravura, traço aqui, traço ali, sem nenhum «talhe de foice». Mas nem bárbara nem atropelada. Nem monótona nem hostil.

Ao pé de Santa Luzia aninha-se a Alfama - com os telhados em pérgula contínua: aqui um fragmento de água-forte, além um pedaço de aguarela. Deste cenário alfamista, cinzento, salpicado de rosa e verde-ervilha, ascende a frontaria branca de Santo Estêvão, como que a abençoar aquela mediania urbanista, delirante de labirintos.

Nada mais estranho e mais deslumbrante do que os planos sobrepostos e indecifráveis de Lisboa. Não há que ver: há que sonhar. Por muito que se saiba de bairros, e de ruas, e de palácios, e de eirados - tudo quanto se sabe por adivinhação. As definições pairam como um mistério ondulante, tostado pelo sol das idades.

À tardinha o ocaso esbrasa numa vidraça: será a minha casa que está a arder?
À noite uma luzinha tremula numa janela: será o meu amor que está a costurar?
De madrugada a alva espreguiça-se e levanta-se num telhado: será o sol que ali dormiu esta noite?



Norberto de Araújo, in Legendas de Lisboa, pp.212-213

quinta-feira, junho 15, 2006

Os poetas nunca morrem



Eugenio de Andrade (1923-2005) 






O Comum da Terra
(a Vasco Gonçalves)

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

14 de Maio de 1976

Eugénio de Andrade



Obrigada, Vasco Gonçalves

 
Vasco Gonçalves (1922-2005) - Foto de Eduardo Gageiro



Morreste há um ano (11 Junho).
Recordo-te como o homem mais sério que
governou Portugal.
Aquele que falava a nossa linguagem
Aquele que nos devolveu
- a capacidade de sonhar.
- a capacidade de transformar.
- a capacidade de acreditar.
- a capacidade de viver.

Obrigada, Vasco Gonçalves !


julia coutinho



terça-feira, junho 13, 2006

Até Sempre, Álvaro Cunhal



Há um ano desaparecia Álvaro Cunhal. Um Homem e um Político excepcionais.

Assinalando este dia, deixo-vos uma carta, inédita, que descobri nos arquivos da PIDE/DGS, escrita para sua irmã, Maria Eugénia, em 1966, aquando das mortes do cunhado, o médico Fernando Medina, e do pai, o advogado Avelino Cunhal.

Apreendida pela Pide, a carta nunca chegaria ao destino. Ela revela-nos um homem amargurado e preocupado com a irmã e os sobrinhos e com a mãe, cega. Com a sua família. Que adorava.

Uma faceta praticamente desconhecida de Alvaro Cunhal. Mas que existia. E aqui se revela.

Júlia Coutinho


____________________________________________________________________

«Moscovo, 1 de Março de 1966*

Minha muito querida irmã:

Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando, a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias. Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho.

A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.

Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamento amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã.

À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdõem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão amargas situações.

Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!

Peço-te, querida irmã, que procures escrever-me algumas palavras, se não do que se passou (por te ser demasiado penoso) ao menos do que se passa. Eu não sei se esta carta te chegará às mãos, dada a pessoa que a escreve, dado o país de onde vai e dado que nem certo estou dos endereços para onde a envio (que em tempos me disseram ser o teu e o do Pai). Tenho porém uma certa esperança em que a venhas a receber. E, se a receberes, tenta escrever-me. A direcção é simples:


URSS - Moscovo 132
Hotel
Álvaro Cunhal

É o bastante e, tratando-se como se trata, de questões familiares e questões desta natureza, pode ser que a tua carta me chegue.

Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.

Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.

Com a imensa ternura do teu irmão

Álvaro»


*Arquivos da PIDE/DGS - ANTT, processo E/GT 2673 - NT 1479, doc. 4.



segunda-feira, junho 05, 2006

VOZ DO SILÊNCIO - PRISÕES POLITICAS PORTUGUESAS

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA

"VOZ DO SILÊNCIO - PRISÕES POLITICAS PORTUGUESAS"

de PEDRO MEDEIROS

Na Associação 25 de Abril
R da Misericórdia, 95 - Lisboa

Entre 2 e 30 de Junho de 2006
de 3ªfeira a Sábado, das 12 às 23 horas, e 2ª feira das 12 às 20 horas.
Encerra ao Domingo.




"Constituir um itinerário da repressão, assinalando o percurso negro da ditadura fascista, é um passo vital para a compreensão da história recente do nosso país.

A resistência dos Presos Políticos Portugueses, o seu contributo decisivo para a criação de uma sociedade livre, é acima de tudo um exemplo humano de convicção e entrega absolutas. O esquecimento ou tentativa de branquear esta determinação e luta é, por um lado, a completa adulteração do sentido da história, por outro, um enorme entrave à procura dos nossos ideais e convicções.

Sendo a fotografia construção de memória, o exercício desta escrita e a necessidade de alcance de um espaço de reflexão e de identificação colectiva são vectores essenciais do campo de acção deste trabalho.

Este é um projecto dedicado a todos os que sofreram a brutal e injusta privação da liberdade, aos que sobreviveram e à memória dos que faleceram no cárcere. Aos Presos Políticos Portugueses, às suas famílias e amigos, a todos os que os apoiaram na sua luta, ao trabalho desenvolvido pela
Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos."

Pedro Medeiros

quinta-feira, junho 01, 2006

Dia Mundial da Criança


Assinalando o Dia Mundial da Criança, deixo aqui a mensagem da FERLAP - Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais, que subscrevo inteiramente.

"Aproveitemos o dia para acompanhar e mimar os nossos pequenos, sem esquecer que educar é autonomizar. Ajudá-los a crescer integralmente e a tornarem-se Mulheres e Homens do Futuro. Autónomos, Conscientes e Solidários." (Antonio Castela)





Clique na imagem para ler o poema

domingo, maio 28, 2006

Testamento de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1993)



 Maria Helena Vieira da Silva (1908-1993) - retratada pelo marido
 
 
«TESTAMENTO» 

Eu lego aos meus amigos

Um azul cerúleo para voar alto.
Um azul cobalto para a felicidade.
Um azul ultramarino para estimular o espírito.
Um vermelhão para o sangue circular alegremente.
Um verde musgo para apaziguar os nervos.
Um amarelo ouro: riqueza.
Um violeta cobalto para o sonho.
Um garança para deixar ouvir o violoncelo.
Um amarelo barife: ficção científica e brilho; resplendor.
Um ocre amarelo para aceitar a terra.
Um verde veronese para a memória da primavera.
Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.
Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.
Um amarelo limão para o encanto.
Um branco puro: pureza.
Terra de siena natural: a transmutação do ouro.
Um preto sumptuoso para ver Ticiano.
Um terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra.
Um terra de siena queimada para o sentimento de duração.


(texto encontrado nos papéis de M Helena Vieira da Silva após a sua morte,
onde nos transmite a convicção de que as cores, simples matéria pigmentada, contêm afinal todo o arco-iris de que a vida é composta)

quarta-feira, maio 24, 2006

Braçadas de cravos vermelhos para ti, Fernando.

Fernando Bizarro



 
O Fernando partiu
Sem dizer adeus.
Foi embora,
simplesmente.

Revelou-me a blogosfera.
Abriu-me as portas.
Convidou-me.
Desafiou-me.
Empurrou-me.
Obrigou-me a entrar.

Fiz-lhe a vontade.
E fiquei a dever-lhe:

Blogstícios
Blognócios
Desafios
Sensações
Discussões
e Amizades

que... valeram a pena.
Que vão ficar.
Para sempre.

Obrigada, Fernando.
 
 
julia coutinho
 
 
 

terça-feira, abril 25, 2006

Viva o 25 de Abril!

Vivam os militares que no-lo deram!
. Em 25 de Abril de 1974 os militares do MFA
cumpriram a sua missão patriótica, a utopia...
tornava-se realidade e o povo português celebrava
em festa a sua liberdade resgatada!

Vasco Lourenço, fotografado por Dionísio Leitão, a ler

a Mensagem dos Capitães de Abril de 1974 aos Jovens de Hoje:

SINTAM a Liberdade,
como condição essencial da dignidade humana.
VIVAM em Liberdade para a paz, a solidariedade,
a justiça e o bem estar individual e social.
LUTEM pela Liberdade sem medo,
mas com respeito pela liberdade dos outros.

(in 32 Anos de Vida. 30 Anos de Poder Local Democrático, A25A, 2006)

--
Associação 25 de Abril

sábado, abril 15, 2006

Estávamos em 1939...

Na Europa, as guerras sucediam-se. À primeira Grande Guerra (14-18) sucedera-se a de Espanha (36-39) e depois a Segunda Mundial (39-45). Em Portugal viviam-se tempos conturbados e repressivos: perseguições, prisões, torturas, mortes. A Polícia Política e a Censura eram os principais bastiões da Ditadura. Os seus sustentáculos.

Mas houve, sempre, homens que resistiram. Pelas mais diversas formas.


Este poema foi escrito por José Gomes Ferreira.
Para ser cantado por Edmundo Bettencourt.
A revista Seara Nova quis publicá-lo.
A Censura não deixou. A Resistência deu-lhe vida.



Serenata Cínica


Menino que vais na rua
não cantes nem chores: berra.
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.

Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.

Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.

Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.

Pisa a lua sem remorsos
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.

Pisa-a, frio, com coragem
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.

Menino que vais na rua
não chores, nem cantes: berra
ou então salta p'rá lua
e mija de lá na terra.



José Gomes Ferreira
o poeta que se recusava a ter mais de 20 anos

in Poeta Militante, 1º volume, pub. D. Quixote, p. 237

segunda-feira, março 27, 2006

Inaugurado Museu da Língua Portuguesa

...em São Paulo, Brasil


 
"O mesmo estudo aponta o português como a sexta língua mais falada no planeta e como língua oficial de oito países, dos quatro continentes. O que mostra como a língua portuguesa é cada vez mais importante no mundo."



Discurso do ministro da Cultura, Gilberto Gil

Bom dia, amigos e amigas de São Paulo!
Bom dia, amigos e falantes da língua portuguesa!
A Estação da Luz transforma-se na estação da língua e da palavra. E afinal, de que são feitas as palavras, se não da luz do som, da luz dos olhos e das mãos? Os versos de Cecília Meireles nos inspiram: Ai, palavras, ai, palavras, / Que estranha potência a vossa! / Ai, palavras, ai, palavras, / Sois de vento, ides no vento, / No vento que não retorna, / E, em tão rápida existência, / Tudo se forma e transforma! LÍNGUA é uma palavra da língua portuguesa que a língua gosta de falar. Que paixão falar palavras em língua portuguesa. Que paixão é essa que prende e liberta aquele que faz da palavra o seu ofício! “Há pessoas”, como diz Manoel de Barros, “que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras”.
No prazer de saborear palavras com a língua portuguesa poderíamos passar aqui muitas horas a conversar, mas aqui estamos para inaugurar o Museu da Língua Portuguesa, um museu que une tradição e tecnologia para apresentar aos cidadãos a importância da comunicação, que, afinal de contas, é o ponto de encontro dos seres humanos.
A nossa linguagem é falada por uma voz muito própria, de modo gestualizado e corporalmente falante, uma performance de corpo vital em nosso sistema de comunicação. Monteiro Lobato foi um dos que observaram muito bem essa nossa figuração da língua sob a imagem do Jeca Tatu. O cinema brasileiro bebeu nessa fonte em momentos de grande popularidade através dos memoráveis mestres dessa língua corporal brasileira como Masarope, Oscarito e Grande Otelo.
Curiosamente nos reunimos aqui hoje nessa estação da Luz que surge nos contos novos de Mário de Andrade e é o lugar itinerante de um operário que vagueia num primeiro de maio. Nessas vizinhanças nas quais se abriam as tantas portas de entrada para a São Paulo. Uma cidade que começava a crescer com sua indústria e trazia para dentro de si, através da máquina a vapor, os muitos sotaques e as muitas populações que se fundem nesse idioma. Quantas línguas somos capazes de falar ao mesmo tempo e quantos Brasis existem num só território. Língua é identidade nacional em processo.
A inauguração do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo evoca espacialmente essa passagem de Mário de Andrade. Mas para além de suas andanças pela Paulicéia Desvairada, foi ele, Mário de Andrade, que idealizou a criação do Museu da Palavra. Nesse Museu, vinculado à Divisão de Expansão Cultural do Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo, estariam reunidos registros das diferentes modalidades, ritmos, entonações e expressões dos falares brasileiros, eruditos e populares.
Foi ainda Mário de Andrade que organizou o 1º Congresso da Língua Nacional Cantada, em julho de 1939. De algum modo, ali, em Mário de Andrade, encontram-se algumas sementes do Museu que hoje inauguramos.
Oswald de Andrade é outro que devemos evocar com as memórias sentimentais de seu alter ego que perambula nessa região central da cidade fazendo o caminho encantado dos bondes elétricos - outra face dessa mesma São Paulo e de nossa língua desde sempre experimental. Oswald, que foi um precursor da poesia concreta, captou tão bem a língua urbana e sua espacialidade impressa. Assim como Haroldo de Campos que, em seus poemas, traduziu uma língua quase gráfica.
O Museu da Língua Portuguesa hoje inaugurado, ao contar a história da língua, oferece, com arte e tecnologia, uma viagem pelo tempo e pela cultura brasileira. Além disso, com a exposição temporária sobre Guimarães Rosa, comemora os 50 anos de Grande sertão: veredas.
Este Museu, desde o início, contou com o apoio do Governo Federal e do Ministério da Cultura que contribuíram na sua concepção, na restauração desse belo edifício e no seu financiamento, que se viabilizou por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
São investimentos notáveis, mas é preciso avançar e investir ainda mais nas ações de educação, na acessibilidade, nas exposições, na conservação e na segurança dos museus. Nesse sentido, a criação do Instituto Brasileiro de Museus, sobre a qual tenho me manifestado insistentemente, é urgente. Precisamos de um Instituto que cuide dos museus com atenção e carinho especiais.
A instalação do Museu da Língua Portuguesa nesta antiga estação ferroviária, parte de uma rede de caminhos de ferro que se espalham pelo Brasil, deve servir para inspirar a sua vocação. Que esse museu seja um ponto de intensa articulação de uma rede de valorização da língua portuguesa; que ele seja uma estação de idas e vindas, de chegadas e partidas, local de troca e irradiação dos movimentos da língua viva, que nos muda e é continuamente por nós modificada. 

Um dos desafios desse Museu é tratar a língua portuguesa não apenas como patrimônio que se transmite de uma geração para outra, mas também como Mátria e Matriz que une e irmana, no mundo, todos os cidadãos que falam a língua portuguesa. Um povo é considerado extinto quando sua língua morre. Manter a língua viva é, portanto, manter uma cultura viva. 

Segundo pesquisa da Unesco, metade das seis mil línguas do mundo estão em risco de extinção e, a cada duas semanas, uma língua desaparece. O mesmo estudo aponta o português como a sexta língua mais falada no planeta e como língua oficial de oito países, dos quatro continentes. O que mostra como a língua portuguesa é cada vez mais importante no mundo. A vitalidade de uma língua é a vitalidade de um povo. Se os atos de fala e os atos de palavra podem ser ações, gerar movimentos e criar realidades, então faço aqui da minha palavra um voto: que este Museu amplifique e ressoe a voz da Língua Portuguesa no mundo.

São Paulo, 20 de março de 2006


sábado, março 18, 2006

Procura-se um Amigo



Por que não sou poeta, recorro às palavras de quem sabe tecê-las para dizer o que sentimos.
JC


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das
canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 
Vinicius de Moraes

segunda-feira, março 13, 2006

Visita ao Forte e Museu de Peniche

O Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!" realiza no dia 1 de Abril (sábado), uma visita ao Forte e Museu de Peniche, seguida de almoço-convívio num restaurante local.


O almoço-convívio será associado a uma reflexão sobre a preservação e divulgação da memória histórica da ditadura e da resistência.

Teremos como convidados o historiador António Borges Coelho e o artista plástico Rogério Ribeiro.



O programa previsto desta iniciativa é:

Partida às 9 horas da manhã, em camioneta, da Praça de Espanha
(junto das antigas instalações do Teatro Aberto);
Visita ao Forte e Museu de Peniche a partir das 11 horas;
Almoço-convívio (caldeirada) às 13.30 horas;
Regresso a Lisboa às 17 horas.


As inscrições devem ser efectuadas até
27 de Março, com o pagamento de 25 € (transporte e almoço)

pessoalmente junto de membros do Movimento Cívico,
na Sede do SPGL (Rua Fialho de Almeida, 3 – Lisboa)
ou na Sede do Movimento (Rua da Misericórdia, 95 – Lisboa).


Contactos telefónicos
21 4116813 e 21 3143649

Mais informações aqui

terça-feira, março 07, 2006

Dia Internacional da Mulher

Comemorações dia 8 de Março, Quarta-feira


A Ferlap* estará presente nos Seminários “Estereótipos de género: olhares sobre a igualdade a diferença” a realizar na Assembleia da República e “Género em Agenda. Boas Práticas de trabalho com Jovens” a realizar no Auditório do Conselho Nacional da Juventude. Para além disso adere ao cordão humano, pela igualdade de direitos e pelo combate às discriminações, organizado pela Comissão para a Igualdade entre Mulheres e Homens da CGTP, que se vai realizar a partir das 15H30, entre o Rossio e a residência do Primeiro Ministro.

DIA 11 (Sábado)
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Na Sede da Ferlap
10H30 -
Abertura dos trabalhos - Saudação do Presidente do CE da Ferlap, António Castela
10H45 -
Colóquio “A mulher e o Associativismo”
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Oradoras:
Maria de Jesus Barroso (Presidente da Fundação Pro Dignitate)
Maria João Boléu Tomé (Primeira Presidente da Ferlap e primeira Presidente da Confap)
Moderadora: Helena Dias (Presidente da Mesa da AG da Ferlap)

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12H30 - Interrupção dos trabalhos para almoço no Restaurante "O Mercado"
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No Salão da Junta de Freguesia de Alcântara
15H30 - Mesa de Debate, "A mulher na família, na profissão e na intervenção social”
Coordenação: Universina Coutinho (Associada Benemérita da Ferlap)
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Participantes:
Elsa Sertório (Escritora, autora do livro "Mulheres Imigrantes")
Luísa Ortigoso (Actriz)
Maria de Fátima Campos (Autarca, Presidente da JF de Monte Abraão)
Maria Helena Gonçalves (Sindicalista)
Maria José Maurício (Mestre em Assuntos da Mulher, Consultora/Formadora para as questões de género).
Maria José Nogueira Pinto (Autarca, Vereadora da Habitação Social da CML).
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Relato dos trabalhos e notas finais: Helena Dias e António Castela (Presidentes da MAG e do CE da Ferlap)
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18H30 - 3 MULHERES com o espectáculo
de poesia dramatizada “EU NÃO SOU EU”
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Estará disponível durante a tarde uma contadora de estórias para crianças (Liliana Lima).
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Com o apoio:
Câmara Municipal de Lisboa
Junta de Freguesia de Alcântara
Restaurante "O Mercado"

Inscrições: Tel. 21 855 03 86 / Tlm. 91 870 99 02 / Fax 21 855 13 71 até ao dia 08/03.
Almoço: 12,50 Euros, no Restaurante “O Mercado”, ao lado da Junta de Freguesia de Alcântara. Asseguramos actividades para as crianças durante a realização dos trabalhos, mediante inscrição prévia.
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*FERLAP
FEDERAÇÃO REGIONAL DE LISBOA DAS ASSOCIAÇÕES DE PAIS
RUA DAS COURELAS, LOTE 3, 1800-154 LISBOA
TEL: 218 550 386 - FAX: 218 551 371
Página: www.ferlap.com

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Aos Meus Amigos

Não sei ser alegre
com hora marcada
em data específica.
Perversas e doridas
as palavras escasseiam.
Sabem a sal.

A cada momento
invento a coragem.
Para amar
para continuar
para ser.

Deixo-vos as palavras do poeta.
(que não sou ... nem sei)

Júlia



Canção da Coragem

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue
deixaria a minha casa
como se fosse um culpado.

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue.

Nem que a morte me dissesse:
"-- Virás, de noite, comigo...",
eu trairia um amigo.
Nem que a morte me levasse.

Nem que a morte me dissesse.
Nem que a vida me fugisse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
deixaria de cantar.
Nem que a morte me calasse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho.

Nem que a morte acontecesse
bem por dentro dos meus olhos
eu deixaria de ver
todo o amor de joelhos.

Nem que a morte acontecesse
ou, meu amor, eu cegasse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza
eu me dava por vencido.
Nem que a morte me doesse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza.

E se a morte violentasse
as paredes do meu peito
meu coração lá estaria
como uma rosa de esperança.

Como um pássaro de sangue
poisado nas tuas mãos.

(Joaquim Pessoa in Amor Combate)

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

SOMOS TODOS ARGUIDOS !



logo de João Tito Basto







No dia 5 de Outubro de 2005 um conjunto de cidadãos concentrou-se frente à antiga sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, protestando contra a intenção de apagar da memória dos portugueses aquele espaço onde tanto mal foi infligido a milhares de homens e mulheres resistentes antifascistas.
 
Protestávamos contra a transformação do edifício num condomínio de luxo fechado.

Protestávamos pela história do edifício que se pretende apagada, silenciada.

Protestávamos porque as vozes das inúmeras vítimas assim nos exigiam e exigem.

Protestávamos, porque em vez da sede da polícia política e palco de torturas, aquele edifício passou a ser um antigo palácio da nobreza, palco de faustosos eventos, cujo historial termina, gloriosamente, com a conspiração de 1640. Tal a versão apregoada no site da imobiliária PAÇO DO DUQUE.

Como se a partir de 1640 o edifício da Antonio Maria Cardoso não tivesse uma História tenebrosa!

Para lutar por esta causa foi constituído o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

Há dias dois membros do nosso movimento - o "Capitão de Abril" Duran Clemente e João de Almeida -, foram convocados pela PSP para prestar declarações sobre a sua participação naquela concentração do dia 5 de Outubro, tendo sido ouvidos no início da semana e constituidos arguidos.

Mas não foram apenas dois os elementos do NAM que estiveram frente à ex-sede da PIDE/DGS no dia 5 Outubro 2005. Não são apenas dois os arguidos. Somos Todos Arguidos!

Por estas razões os membros deste movimento decidiram convocar uma conferência de imprensa a fim de denunciarem esta manobra claramente persecutória e intimidatória para com os cidadãos que integram este movimento que cresce dia após dia.

Abaixo segue a nota enviada à imprensa.




Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!" Convoca Conferência de Imprensa:

Convidamos os Órgãos de Comunicação Social para participarem na Conferência de Imprensa a realizar sexta-feira, dia 24 de Fevereiro 2006, às 18 horas, na Sede da Associação 25 de Abril - Rua da Misericórdia, 95, Lisboa - tendo como finalidade denunciar a inqualificável atitude persecutória das autoridades policiais sobre dois membros do Movimento Cívico "Não apaguem a Memória!" (o "capitão de Abril" Duran Clemente e João Almeida) e informar sobre os princípios orientadores e actividades deste Movimento. Os cidadãos referidos estarão presentes nesta Conferência de Imprensa.












terça-feira, fevereiro 14, 2006

Amor e Liberdade

14 de Fevereiro - Dia dos Namorados.
Como se fosse necessário um dia específico
para nos lembrar que o AMOR é urgente.
Necessário. Saudável.
... É o consumismo ditatorial a determinar
os "dias" mais convenientes
para a sua própria sobrevivência...

A verdade é que depois do 25 de Abril TODOS podem namorar.
Publicamente. Sem constrangimentos.
Novos e velhos.
Sem falsos pudores.
Pode-se andar de mão-na-mão livremente.
Beijar livremente.
Acariciar.
Mostrar que o amor é (tem que ser) uma prática diária.

......
Mas nem sempre foi assim.
Aqui fica um documento a atestá-lo.
Trata-se de uma Postura da Câmara Municipal de Lisboa
(e quantas outras não existiriam por esse país fora...)
a coberto dos "bons costumes" ...
Por que Salazar zelava.
Através da Polícia de Costumes.
Era a repressão nua e crua.
Estávamos em 1953.

Para Memória Futura.


CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

Aditamento à Postura Municipal nº 69.035, de? De 1953

«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins, e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guardas Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes.

Assim, e em aditamento àquela Postura 69.035, estabelece-se e determina-se que o Artº 48º tenha o cumprimento seguinte:

1º - Mão na mão.................................. (2$50);
2º - Mão naquilo.................................. (15$00);
3º - Aquilo na mão.............................. (30$00);
4º - Aquilo naquilo.............................. (50$00);
5º - Aquilo atrás daquilo...................... (100$00);

Parágrafo Único - Com a língua naquilo ... 150$00 de multa, preso e fotografado.»

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

José Dias Coelho (1923-1961)





José Dias Coelho (1923-1961), foto de Hernâni Gandra


José Dias Coelho nasceu em Pinhel, distrito da Guarda, a 19 Junho de 1923.

Foi morto pela PIDE em Lisboa, na Rua da Creche, no dia 19 Dezembro de 1961.

Escultor. Militante comunista. Vivia na clandestinidade.

Tinha 38 anos.

Tinha duas filhas.

Após o 25 de Abril, um grupo de amigos decidiu homenageá-lo na SNBA.

Entre eles, o escritor José Cardoso Pires.

É da sua autoria o texto que se segue, e que leu na altura.

Publicá-lo-ia mais tarde em «E Agora, José?».

Aqui fica. Para Memória Futura.



Prá Frente Meu Coração

Quando revivemos um Amigo como José Dias Coelho, cada um de nós traz dele uma imagem sentida, quase privada. Vemo-lo -- eu, por exemplo -- como companheiro de juventude; sonhamo-lo – alguns poderão até recordá-lo – na pátria da clandestinidade; repetimo-lo através dos versos e dos desenhos que nos deixou, traços da sua voz mais privada. E todos, falando dele, pensamos na cruel, na terrível mancha de luto, que marca a sua ausência neste início de liberdade. Estaria aqui e mais além, no comício ou no atelier, não importa: mas connosco. Trabalhando à luz do dia o país que desponta.

Sabemos que é um capítulo do ódio ou do medo, a morte imposta aos militantes da liberdade. Mas sabemos igualmente que é dela que o fascismo faz moeda própria e alimento essencial; que onde haja exploração do homem está ela, a morte, disfarçada de comum e natural, e que, irmã traidora da fome, tem na guerra, em todas as guerras, a sua razão mercenária. Que, desde os berros falangistas do «Viva la Muerte!» às chacinas do Chile, é a Morte, Morte e sempre a Morte, que aparece como exibição imperialista de orgulho e de poder.

Por isso é que os verdadeiros revolucionários amaram e defenderam a Vida com o risco do último sacrifício -- e entre esses, Dias Coelho, o meu amigo de longe e para sempre. Poucos como ele tiveram tão saudável e empenhado gosto de viver, e raros, raríssimos, usaram de tão serena tolerância no desejo de compreender e lutar.
Uma simplicidade imediata fazia com que tudo nele, ideias, gestos, convívio, fosse um comunicar espontâneo -- ou uma entrega confiante, se quiserem. Revejo-o em 1945 numa concentração na Faculdade de Ciências; ou em certas tardes à mesa do velho Chiado (o café e a «Pomba de Picasso» em cima do tampo de mármore); nos passeios do MUD Juvenil (outro roteiro de politização) – percorro, em suma, todo um passado activo de iniciação, de prisões e de alegrias, e encontro sempre aquele sorriso, tão dele, a perdurar sobre o eco e a recordação.

Jornadas estudantis, domingos sobre o Tejo, onde isso vai. Mas tudo tão nítido neste momento, é curioso, tudo tão identificado com ele, Dias Coelho, que é a sua figura que permanece e se transforma em meridiano natural da nossa geração. Assim: como uma vertical sobre o horizonte.

(Nesse tempo, lembro-me bem, cantava-se Lopes Graça em versos de poetas vivos. «Vozes ao alto / vozes ao alto / unidos como os dedos na mão...». Fazia-se teatro com Manuela Porto e pintura militante: novos e velhos no mesmo salão das Gerais de Artes Plásticas. «Desatávamos os nós do silêncio», como diria Eugénio de Andrade, na Memória a José Dias Coelho, escrita em pleno fascismo.

Um espaço, uma reticência da memória, e retomo Dias Coelho, agora no Movimento da Paz: execução dos Rosenberg, milhões de assinaturas a dizer não à morte, Ehrenburg e Éluard, tanta coisa. Aqui, no país muralhado com juízes do Plenário sentados em torres sinistras, também a Paz era difícil. Contudo, triunfava, e era nossa. Na grande leva de obreiros que a erguiam lá estava Dias Coelho: desenhando cartazes, presente em reuniões, angariando fundos, e sempre com aquele sorriso de camponês citadino que lhe iluminava a voz e o olhar.

Assim fazíamos, ele, eu, toda uma geração, a aprendizagem da vida. Procurávamos, quer isto dizer, saboreá-la no mais simples e no mais denso que ela oferecia, e talvez por isso é que, muitos anos mais tarde, ao ler: «Em toda a parte / há um pedaço de mim / que se quer dar» eu tenha reconhecido subitamente a assinatura do homem que fez esses versos: o José Coelho, o companheiro que se repartia e estava inteiro no bom e no difícil, no prazer e na coragem.

Esta capacidade de abranger o mundo e de tudo partilhar foi, tenho a certeza, a poderosa força de José Dias Coelho, aquilo que o impeliu para a tarefa de modificar e construir contra o errado e o desumano. A morte de um camponês ou um aceno de criança levantavam prontamente nele a indignação ou o amor, e, logo, o tal «pedaço de si que se quer dar». Respondia então com o desenho aberto e tranquilo, o traço limpo, urgente, uma necessidade de comunicar e de fazer testemunho. Ou lançava-se ao barro e esculpia, com aquelas suas mãos sólidas de terra-a-terra, o protesto vincado ou o instante de um amigo na sua expressão mais íntima, pessoalíssima. Aconteceu isso nas peças de escultura que nos deixou em desencontrados períodos de trabalho – na cabeça agreste de Redol, por exemplo, ou no busto de Margarida Tengarrinha, tão repassado de serenidade e de melancolia.

Não sou eu quem melhor pode falar dos capítulos interrompidos da biografia de Dias Coelho, artista e militante. Discutimos, horas e serões, os mil enredos da viabilidade da arte numa sociedade repressiva, a propósito dos desenhos que ele fazia na altura para a revista Vértice sobre textos meus, mas não acho que possa reproduzir agora com fidelidade o essencial dessas conversações. Do que me recordo é que me ficou a palavra Comunidade como tema geral de todos os seus trabalhos de então e daquele que viria depois a produzir. Comunidade. Amor. Na realidade, toda a poesia, toda a arte, toda a vida de José Dias Coelho têm essa constante lírica que não é mais do que a exaltação do amor e do entendimento. As tais coisas partilhadas, torno a dizer.

Penso que um homem assim, que se procura através de todas as formas de comunicar ao seu alcance – a arte, a militância comunista – penso que um homem destes só pede da vida (e com que entusiasmo!) a parte mais árdua e mais justa. Sabemos das prioridades que se lhe põem em certas encruzilhadas decisivas, e como escritores da grandeza de Soeiro Pereira Gomes sacrificaram com dor o sonho de comunicar à luz do dia para se entregarem a uma outra tarefa, mais urgente e perigosa: a de arrancarem a pátria à servidão capitalista, restituindo-lhe a palavra livre, a mão e o olhar livres com que ele e todos pudessem descrever e amar.

Com isto não me refiro apenas aos intelectuais, escritores ou artistas que se jogaram na luta total, no tudo ou nada, sobrepondo a acção político ao talento natural. Penso neles, de facto, pensando em Dias Coelho; sei que fizeram tal opção para libertar o Homem e também a Arte que tanto amavam, e para que outros a seguir, mais felizes, a pudessem retomar. Mas penso também que, a par deles, dezenas e dezenas de operários e camponeses dotados para contar em verso ou em imagem as vidas que experimentaram foram para sempre calados pela fome ou pela exploração cultural.

A luta política, aquela que vai às raízes, entenda-se, é uma técnica de construir a felicidade. O livro e a arte enriquecem o homem, é certo; mas não é menos certo que não se pode escrever ou desenhar a palavra Amor, indiferente às vítimas do ódio que nos rodeiam ou ignorando as desigualdades e os pavores. Se hoje o meu, o nosso orgulho de cidadãos é o de, pela primeira vez, podermos adormecer com a consciência de que ninguém neste país está a ser torturado, isso só exige que defendamos esse privilégio com vigilância dobrada e que escrevamos a tal palavra Amor com maior beleza e imaginação.

Foi exactamente para lutar por um momento assim -- essa paz sem remorso, esse direito -- que José Dias Coelho, há muitos, muitos anos, desabafou comigo num fim de tarde: «Zé, eu não suporto mais isto!»

Escolheu, soube-o depois, a via definitiva, a do comunista que se lança, inteiro e definitivo, contra um mundo velho e feroz. Ia, no fundo, em busca de uma outra expressão do homem e levava dentro de si um verso que um dia iria escrever: «Vai prá frente, meu coração...»

Foi. Para a frente e de cara voltada para a luz. E ele, que tanto adorava a cidade e o ar livre, caiu em plena rua, assassinado. Mesmo assim, quando o recordamos e o temos orgulhosamente connosco, é à frente de nós que o sentimos – à frente, como o seu nobre coração.


José Cardoso Pires, in E Agora, José? Publicações Dom Quixote, pp. 96-101

terça-feira, janeiro 31, 2006

Assinalando o 31 de Janeiro de 1891

Como forma de assinalar, neste dia 31 de Janeiro que hoje estamos a viver, os 115 anos decorridos sobre a revolução republicana de 1891, deixo-vos aqui uma imagem (gravura publicada na revista Ilustração) onde se documenta a proclamação do novo regime feita a partir da varanda da Câmara Municipal do Porto, bem como o modo como então se saudou e festejou aquela vitória da liberdade ainda que efémera, como dolorosamente se viu logo depois... com chapéus e bengalas ao alto...



Mas, a 31 de Janeiro de 1908, há que recordá-lo aqui também, em plena ditadura de João Franco, depois de esmagada a reacção revolucionário republicana de 28 de Janeiro, o rei Carlos I assinou um decreto que conferia ao ditador poderes de excepção, permitindo-lhe perseguir, prender e deportar, sumariamente (ie: sem processo judicial), qualquer pessoa suspeita de republicanismo activo ou de mera insubmissão ao regime e ao governo, decreto esse que terá motivado o atentado regicida levado a cabo no dia seguinte...

Fonte: Associação República e Laicidade