
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Arte Resistente: Júlio Pomar

quarta-feira, fevereiro 11, 2009
António Lopes de Almeida (1913-1949)
(22.2.1913 - 21.1.1949)
Caíste por terra amigo na terra negra e dura
Julia Coutinho
NOTAS:
Já depois de ter escrito este artigo encontrei nos arquivos da PIDE/DGS o documento interno do PCP- «ALGUMAS NOTAS INFORMATIVAS A RESPEITO DA PROVOCAÇÃO INIMIGA» - sem data mas que tudo leva a crer ser de 1952/53 e que, na sequência da discussão sobre a traição de um outro militante, acaba por lançar luz sobre a nebulosa que sempre pairou acerca da morte de António Lopes de Almeida (ALA) esclarecendo quem foi o denunciante não só de ALA como de toda a organização do concelho da Marinha Grande.
transcrição: «Utilizando mais ou menos o mesmo sistema fez também referências elogiosas, aos Pinantes, Adrianos, Magalhães, um irmão seu, etc, pessoas estas que trairam de maneira miserável a classe operária, o nosso Partido e o povo em geral.
Contra toda a orientação do Partido e não dando conhecimento disso, estabeleceu contacto com o Pinante quando este saíu da prisão e era abertamente sabido da sua traição que entre o mais originou o assassinato de Antonio Lopes de Almeida da Marinha Grande. Não contente com isto ainda foi apresentar por último um bom camarada a Pinante com a finalidade duma ligação regular.»
* - à PIDE interessava salvaguardar o seu informador e o suposto suicídio de ALA foi a forma encontrada para fazer recair sobre este o odioso da denúncia e entrega de toda a organização.
** - segundo este documento do PCP, o denunciante foi o Pinante, alcunha de um camarada com quem o ALA tocava numa troupe - Os Pinantes - e que foi o primeiro da organização local do PCP a ser preso e também o primeiro a ser solto, e de quem a família e amigos próximos sempre desconfiaram mas nunca tiveram provas. A verdade é que, pouco depois, ele e a familia deixaram a Marinha Grande. A PIDE arregimentara mais um informador. O seu nome: Joaquim da Silva Couceiro (1908-1989).
*** - o corpo de ALA voltou à Marinha Grande depois do 25 de Abril, por iniciativa e a expensas da família. A trasladação fez-se do Gavetão 59 do cemitério de Benfica que a PIDE comprara por 50 anos, para o cemitério da Marinha Grande, no dia 13 Março 1979.
Julia Coutinho
sábado, janeiro 24, 2009
No adeus a Stella Piteira Santos (1917-2009)
Stella Piteira Santos, uma vida de 90 anos
Este é o dia do aniversário dos teus 90 anos. Nasceste no princípio do século passado, em 1917, o ano das grandes utopias socialistas na Europa, utopias a que aderiste, aos dezassete anos, eras uma menina, quando te casaste com o nosso pai, Inácio Fiadeiro. O teu pai médico militar estava na Flandres, em França, fazendo a 1ª Grande Guerra e foi ele que telegrafou para a tua mãe o nome que viria a ser o teu: Stella. A tua mãe, Maria do Carmo Bicker fora de Lagoa para Portimão para poder dar-te à luz nas melhores condições de saúde e de apoio familiar. O Algarve é a tua terra, como sempre dizes, com veemente alegria. O Algarve outrora das amendoeiras em flor, hoje dos longos aloendros floridos.
Foste, desde jovem, uma nova mulher moderna. Completaste o 7º ano já com dois filhos pequenos, tinhas carta de condução desde os 40 e guiaste até ao novo milénio. Trabalhavas fora de casa, fumavas (tens um enfisema pulmonar), vestias calças compridas sempre que te apetecia e também escrevias à máquina em casa (uma portátil que pesa «toneladas»), quase sempre à noite, durante 44 anos, praticamente.
Participaste em 1938, grávida de teu primeiro filho, com 21 anos, na fuga do Aljube do António, o mítico Pável, então do Comité Central do Partido Comunista Português, uma fuga histórica, muito pouco falada, mas muito bem sucedida. Foi por causa dele que deram o nome de António ao vosso filho (nascido em Setembro de 1938) cujo padrinho foi o Cunhal, então vosso companheiro e amigo. É por isso que o meu irmão se chama António e é por causa do meu irmão que eu me chamo Maria… Antónia… Éramos, somos, fomos «os Toninhos». A história da nossa família funde-se intimamente com a história política antifascista de Portugal, ou, se preferires, cruza-se perigosamente. Dois anos antes, em 1936, no ano da Guerra Civil de Espanha – houve grandes e devastadoras guerras na Europa do Século XX – foste sócia fundadora da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Foste uma jovem cidadã interveniente, uma adolescente emancipada. Mais tarde, em meados dos anos 40, aderiste ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, era então presidente Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas, a mítica Maria Lamas, tua amiga. Foste uma nova mulher, uma mulher moderna. Ainda és uma avó moderna e uma bisavó moderna.
Completares, hoje, dia 1 de Junho de 2007, 90 anos, de uma forma lúcida, afável e tão comunicativa, é também uma grande prova de resistência moral e física. O exercício da tua livre vontade em vires para aqui, onde já «moras» há um ano, e largares a tua casa com jardim, em frente à Gulbenkian, as tuas mobílias, os teus objectos, as tuas jóias, os teus papéis, as tuas panelas, as tuas coisas, enfim, foi uma surpresa para nós todos, filhos, netos e amigos e, porventura, foi também uma grande surpresa para ti. Foi uma grande coragem. Com a mesma coragem com que enfrentavas a polícia, recusaste o isolamento. Presa à vida e agarrada ao telemóvel, soubeste desprender-te. Não te bastava viver, querias conviver. A sobrevivência à repressão, à censura e ao medo, face à banalidade da ditadura, tinha sido diária e muito, muito longa.
Aqui, tens um quarto que é teu e para onde pediste que te trouxesse, uma cómoda que era da tua mãe; duas cadeiras de braços em esquina, que pertenceram à casa dos teus bisavós; uma pequena aguarela com uma chaminé e uma buganvília do Algarve cheio de sol; uma pequena pintura, muito escura do Cunhal pai, uma família amiga da família dos teus pais; a foto de casamento de teus pais; uma foto do teu marido, Fernando Piteira Santos, na antiquíssima moldura que já fora de sua mãe Leonilde; fotos dos filhos, dos netos e dos bisnetos, uma foto do teu neto, João, artista coreógrafo e bailarino, em palco; uma carta com uma aguarela da tua neta, Isabel, artista pintora na Mauritânia; uma foto do casamento do teu neto Pedro; a reprodução do brasão da tua família do lado Bicker e uma fotografia oficial, em que recebes das mãos do Presidente Jorge Sampaio, no início deste milénio, a insígnia da Ordem da Liberdade. Ah! E é claro, as tuas toilletes, o teu guarda-roupa. E, claro, as tuas bijutarias, as tuas fantasias e as tuas bugigangas.
Com estes poucos pertences e os muitos cuidados que aqui tens, manténs a tua proverbial elegância e o teu sorriso radioso, uma cara laroca, às vezes, de uma exigência extrema, com modos de muito mando, em legítima defesa, como comentas sibilinamente. Experiências de autoritarismo adquiridas na dura luta dos antigamentes, como insinuas, mais ou menos com estas palavras. Pequenos e plenos poderes perversos.
Sempre foste uma resistente, em muitos sentidos, mãe, mas essa época acabou, com o século XX, o século assassino das grandes guerras e das pequenas e grandes ditaduras, na Europa. O futuro tem pressa e vem aí a alta velocidade digital. Há novos mundos na Europa do Ocidente e do Oriente. Já não há só novas mulheres. Há novos homens, novos jovens e novos pais, novas famílias que crescem. O tempo das pioneiras acabou no ocidente. Há países novos na Europa do século XXI. E em todo o mundo, novos países livres surgem. Há, também, muita pobreza, muita miséria, muita ignorância. Ainda não soubemos, nós os humanos, acabar com esse flagelo social. Intenso, tenso, embora para qualquer pessoa de bom senso a resolução da fome no mundo, seja um simples problema de aritmética.
Mãe: estamos muito contentes com os teus 90 anos e com a presença dos teus amigos, entre os quais nós, os teus filhos, os Toninhos, se sentem incluídos. São as forças vivas do teu coração.
Esta festinha de aniversário dos teus 90 anos é uma homenagem à tua vida, Mãe. Muitos parabéns.
domingo, janeiro 18, 2009
Bento Gonçalves e o 18 de Janeiro de 1934
![]() | ||||
| Bento Gonçalves (1902-1942) |
Muito se tem especulado sobre o posicionamento de Bento Gonçalves, então Secretário-Geral do Partido Comunista Português, acerca do 18 de Janeiro de 1934, que veio a designar de «anarqueirada».
Quando passam 75 anos sobre esse acontecimento, aqui deixo ficar as suas declarações à PVDE quando, em 1935, foi preso com os restantes membros do Secretariado: Julio Fogaça e Jose de Sousa.
Auto de Declarações de 25.Nov.35
P - Desde quando faz parte do Secretariado do PCP?
R - Desde 21 de Abril de 1929; porém, deixei de estar na actividade do Secretariado durante o tempo da prisão e deportação, ou seja, desde 28.Set.1930 até 10.Março.1933, tendo reassumido o cargo algum tempo depois da chegada ao Continente. No Secretariado do PCP sempre exerceu a tarefa de Secretário-Geral e nesta qualidade continuou até à data da sua prisão.
P - Participou no 18 de Janeiro de 1934?
R - Tomou parte activa no movimento de 18 de Janeiro de 1934 dirigido contra a série de decretos promulgados em Setembro de 1933 que dissolviam os Sindicatos Independentes da classe operária; porém, não perfilha a afirmação segundo a qual esse movimento deveria ser caracterizado por uma Greve Geral Revolucionária, mas sim, por um Movimento de Greves Parciais e Manifestações de Massas e a manutenção da liberdade de organização democrática dos Sindicatos Operários. No entanto, assume a responsabilidade de toda a Agitação e Propaganda e Actuação Antifascista conduzida pelo Comité Central do PCP, desde que é Secretário Geral.
(...)
Auto de Declarações de 6.Dez.1935
P - Desde quando estava na ilegalidade?
R - Desde o mês de Agosto de 1933, não mais tendo trabalhado na sua profissão, mantendo-se à custa do financiamento que lhe era feito pelo PCP.
(...)
P - Assume a responsabilidade da agitação, propaganda e actuação antifascista conduzida pelo Comité Executivo do PCP?
R - Assume essa responsabilidade. Quer dizer: o combate do PCP contra o actual Governo e contra as suas leis anti-democráticas, excluindo quaisquer actos isolados de terrorismo contra os quais tem conduzido campanhas na imprensa clandestina do Partido.
(Arq. da PIDE/DGS, proc. SPS 1664 - 4318)
NOTAS BIOGRÁFICAS:
Bento António Gonçalves nasceu a 2 de Março de 1902, em Fiães do Rio, Portalegre. Filho de Francisco Gonçalves e de Germana Gonçalves, cedo vem para Lisboa mas fica orfão e é criado pela mãe adoptiva, Guilhermina dos Santos. Reside na Rua do Ferragial de Baixo 11-4º Dto, em Lisboa, na mesmo rua onde também mora Francisco de Paula Oliveira convivendo ambos desde crianças e tendo-se tornado grandes amigos. Ambos virão a ser operários arsenalistas e irão apoiar-se na reorganização do PCP de 1929, sendo Pavel o responsavel pelas Juventudes Comunistas.
Após a prisão de 1935, Bento Gonçalves embarca no dia 8 Janeiro 1936 para Angra do Heroismo e, em 19 de Outubro desse mesmo ano vai inaugurar o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde vem a falecer em 11 de Setembro de 1942.
«... o recluso Bento António Gonçalves faleceu no dia 11 do corrente [Setembro, 1942], pelas 19H35 vitimado por febre biliosa hemoglobimirica»
(carta do Director da Colónial Penal de Cabo Verde, Tarrafal, nº 75/42 para Director da PVDE, datada de 12-9-1942, doc. 36 Proc. ref)
quinta-feira, janeiro 08, 2009
terça-feira, janeiro 06, 2009
«Grito e choro por Gaza e por Israel»
Por que o considero dos textos mais lúcidos e veementes que li sobre o assunto, escrito por quem conhece de perto aqueles dois povos e os seus conflitos, aqui o transcrevo para os leitores do meu blog. Não deixem de visitar Fernando Nobre.
É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Contra o genocidio do povo palestiniano
Cinco irmãs palestinianas de 4 a 17 anos mortas no
do campo de refugiados de Yabalia
Agencia France Press, El País de 27-12-2008
A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registadas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os camiões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado.
Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.
Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.
Textos retirados do Blog O Caderno de Jose Saramago
quinta-feira, janeiro 01, 2009
Lembrando Maria Helena Magro (1923-1956)
e, lembrando que nem todas sabem ler e escrever, diz ainda: «Acho que este trabalho podia ser feito por todas as amigas que leiam facilmente. (...) A nossa instrução politica é uma tarefa que não devemos esquecer.» (...) As amigas que não sabem ainda ler ou lêem com dificuldade, devem colocar aos camaradas da casa, muito seriamente, a tarefa de auxiliá-las, porque saber ler faz muita falta, camaradas.»
«O dia virá em que outras tarefas nos serão confiadas e nessa altura todos os conhecimentos que agora vamos adquirindo nos serão preciosos. Por isso não podemos deixar passar os anos, uns após outros, sem aproveitar utilmente o tempo que não volta. (...) O estudo auxiliar-nos-á a assimilar o marxismo, tal como o marxismo nos ajuda a fazer um estudo sério e útil das outras ciências.»
Uma charge pós-natalícia
«aqui vos deixo e vos dedico a minha última produção burlesca, brejeira, post-natalícia, suscitada por essa urticária consumista que nos assola...» disse o meu amigo Jorge Castro e, por que concordo com ele, venho partilhá-la convosco.enchendo a todos de gana de querer ser solidário
ao fundo um retardatário bate co' as botas no fundo
das costas ou cu se gostas de chamar p'lo nome os bois
a ver se logo se aconchega ao borralho
que está de arrebimba-ò-malho o tempinho cá na rua
e farto de ver a Lua anda o velhote da história
que tem seu mês de glória um só e em cada ano
triste e só anda este mano quem sabe vive de esmola
que a cena da Coca-Cola acabou já faz uns tempos
agora ele é só lamentos pela roupa vermelhusca
pela criançada cusca e aquela barbaça hirsuta
que seria coisa bruta não fosse ela alva de linho
corre pois ele para o ninho farto de prendas e renas
como se penasse penas por tanto a todos pesar
que com ele é só comprar – comprar – comprar – e comprar
não tem nada que enganar mas não há já quem o ature
e não sabe ele como fure este destino aziago
de do consumo ser mago e coisa de meter dó
ouvir-se-lhe o oh-oh-oh no espaço sideral
no centro comercial ou no écran de plasma
e a malta toda pasma de viver tanto o velhote
sem haver quem o enxote pois graça não tem nenhuma
a não ser aquela uma de favorecer as compras
ah não se ouvirem as trompas de alguma divina orquestra
dando ao Natal que nos resta personagens mais catitas
e acabar com as fitas de um pai natal que coitado
viverá desconsolado nos quintos do pólo norte
maldizendo a triste sorte de ter só com ele as renas
dores nas cruzes e as tais penas de vaguear tão sozinho
melhor muito melhorzinho ficaria o Nicolau
se em vez do banco de pau que o espera em seu ermo
a tal multinacional ao ermo pusesse um termo
e lhe desse companheira
roliça – doce – matreira – brincalhona – prazenteira
também de rubro vestida mas sem barba tão comprida
de precária situação ou com termo de contrato
mas que desvie o ancião do destino caricato
e lhe dê prendas a ele que tão farto está das penas
e das cenas com as renas e com razão afinal
e nos deixe no Natal o presépio cultivar
sem ter que comprar – comprar – oh-oh-oh
tão só comprar…
Jorge Castro
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Neste final de 2008
Quando um ano chega ao fim e outro se perfila no horizonte deixo-vos com mais um poema inédito de Maria Tereza Horta e um desenho de Maria Keil, duas mulheres que muito admiro e que honram as artes portuguesas.
FIM DE ANO
São os dias
as horas todas as vezes
Quantas depois
se iniciam
retornando ao seu alpendre
São os anseios
São os sonhos
a esperança e o devaneio
Quando o ano
no seu fim
torna ao começo em seu veio
Maria Teresa Horta
Lisboa, 30 de Dezembro de 2008
terça-feira, dezembro 30, 2008
Na morte de Arnaldo Louro de Almeida (1926-2008)
Viúvo há vários anos, a grande preocupação eram os filhos para os quais vivia inteiramente.
Falei-lhe por telefone na véspera de Natal quando já estava internado em Santa Maria. Faleceu três dias depois um tanto inesperadamente, apesar da gravidade da sua doença. Perdi um grande amigo. Portugal perdeu um homem e um artista que praticamente desconhece. Portugal não merece homens como o Arnaldo Louro de Almeida.
Julia Coutinho
NOTA: Passados 10 anos é lamentável que nem o espólio tenha sido entregue a uma instituição que cuide dele e o dê a conhecer, nem se tenha realizado a exposição retrospectiva que Louro de Almeida desejava e merecia. Um dia nem sequer os alunos que frequentam a «sua» escola saberão quem foi Arnaldo Louro de Almeida.
JC
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Carta do Aljube no Natal 1962
Em Dezembro de 1962 o Capitão João Varela Gomes estava detido na cadeia do Aljube, às ordens da PIDE, por ter participado no Golpe de Beja. Também sua mulher, Maria Eugénia, se encontrava na prisão de Caxias, acusada de cumplicidade.Lisboa, 21 de Dezembro de 1962
Meus queridos filhos,
Para o Pai e para a Mãe Gena, os seus quatro filhos, são quatro Meninos Jesus; e, creio bem, que todos os pais pensam da mesma maneira em relação aos seus filhos.
Pai João»
João Varela Gomes, Tempo de Resistência, Ler Editora, 1980, pp. 167-169
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Palavras de Azevinho
e linho
de ternura mosqueada
faz ninho
e no coração se alaga
Na entrega e no refúgio
de memória deslumbrada
entre o sonhado e o lume
perfumes
de seda e cassa
da infância
sendo imagem
de azevinho
e nas costas duas asas
Natal de 2008
Agradeço à minha querida Teresa Horta este seu poema lindíssimo, inédito, feito expressamente para a quadra que atravessamos, e a generosidade em aceder que aqui o partilhe.
Obrigada, Teresa!
domingo, dezembro 21, 2008
Carta ao Pai Natal

É a primeira vez que escrevo para ti
Venho de Lisboa e o pessoal chama-me AC
Desculpa o atrevimento mas tenho alguns pedidos
Espero que não fiquem nalguma prateleira esquecidos
Como nunca te pedi nada
Peço tudo duma vez e fica a conversa despachada
Talvez aches os pedidos meio extravagantes
Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes
Tira-lhes as armas e a vontade da guerra
É que se não acabamos a pedir-te uma nova Terra
Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente
E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente
E ao pobre coitado, e ao desempregado
Arranja-lhe um emprego em que ele não se sinta explorado
E ao soldado, manda-o de volta para junto da mulher
Acredita que é isso que ele quer
Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais
Dá de comer ás crianças ergue escolas e hospitais
Cura as doenças e distribui vacinas
Dá carrinhos aos meninos e bonecas ás meninas
E dá-lhes paz e alegria
Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia
Já sei que só ofereces aos meninos bem comportados
Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados
Jactos privados, carros topo de gama importados
Grandes ordenados, apagas pecados a culpados
Desculpa o pouco entusiasmo, não me leves a mal
Não percebo como é que isto se tornou um feriado comercial
Parece que é desculpa para um ano de costas voltadas
E a única coisa que interessa é se as prendas estão compradas
E quando passa o Natal, dás á sola?
Há quem diga que tu não existes, quem te inventou foi a Coca-Cola
Não te preocupes, que eu não digo a ninguém
Se és Pai Natal é porque és pai de alguém
Para mim Natal é a qualquer hora, basta querer
Gosto de dar e não preciso de pretextos para oferecer
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos Paz e Amor e nem é preciso embrulhar
Muita Felicidade, saúde acima de tudo
Se puderes dá-nos boas notas com pouco estudo
Desculpa o incómodo e continua com as tuas prendas
Feliz Natal para ti e já agora baixa as rendas.
Boss AC, álbum Ritmo Amor e Paz
sábado, dezembro 20, 2008
Jorge Vieira: «cada desenho um amigo»
(1922-1998)
Não fora a Noémia, companheira de vida e paladina incansável na divulgação da sua vida e da sua obra, e Jorge Vieira estaria hoje, muito possivelmente, completamente silenciado pela indiferença e pelo olvido dos portugueses, tal como já está pelas instituições culturais do seu país. País que lhe deve não só o renovo da escultura portuguesa no após Segunda Guerra Mundial como a formação de uma pleiade de jovens artistas plásticos que, sob a sua influência, continuam ainda hoje a honrar a nossa escultura dentro e fora do país. Um Mestre que fez escola e deixou discípulos.
Quando se perfazem 10 anos da sua morte (23 Dez 1998) esta é a homenagem da Noémia e dos Amigos. A única homenagem pública que se conhece. Uma homenagem dos afectos que são a seiva e a raíz deste projecto. Por isso, parafraseando Zeca Afonso, chamou-se-lhe «Cada Desenho um Amigo». Por que todos os amigos trouxeram para a festa os desenhos que, generosamente, ao longo da vida o Jorge lhes ofereceu.
Depois da Artecontempo e do Museu Municipal Prof Joaquim Vermelho, em Estremoz, é agora a vez de Alvito receber esta exposição itinerante. O Alentejo a fazer juz ao amor e dedicação que Vieira sempre lhe dedicou.
Não temos dúvidas: esta é a homenagem que o Jorge gostaria de ter. Por ser feita por quem o ama. Não são necessárias outras. Um dia a História da Arte Portuguesa dar-lhe-á o valor e o destaque que a sua Obra merece.
Em Beja encontra-se o Museu Jorge Vieira que contém grande parte da sua obra. Será que se esqueceram de assinalar esta data?!
sexta-feira, dezembro 19, 2008
Jose Dias Coelho (1923-1961) uma vítima da PIDE


No dia em que se assinalam 47 anos da sua morte queremos lembrar José Dias Coelho, o escultor e militante comunista que em 1961 foi brutalmente assassinado a tiro, pela PIDE, na Rua da Creche, em Alcântara. Tinha apenas 38 anos. Deixou duas filhas: a Teresa e a Margarida.
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Antonio Simões Abreu: lembrando um bom amigo
JC
terça-feira, dezembro 16, 2008
Pavel não esteve envolvido no assassinato de Trotsky
O jornal Público de hoje, na rubrica Cartas ao Director, publica um esclarecimento de Zínia Rodriguez, filha de Francisco de Paula Oliveira / Pavel / Antonio Rodriguez, sobre as insinuações ultimamente vindas a público acerca do possivel envolvimento do pai no assassinato de Trotsky. Por se tratar de um documento da máxima importância para a clarificação do percurso político-social de Pavel, aqui o transcrevemos.Pavel não esteve envolvido em qualquer tentativa ou acção para assassinar Trotsky no México. Qualquer insinuação a esse respeito é completamente especulativa e infundada.
A História faz-se com factos, documentos claros e investigação da verdade directamente nas fontes. As pessoas que tiverem dúvidas podem consultar no México a informação existente no Museu Trotsky.
O assassinato de Trotsky está perfeitamente esclarecido. Os nomes dos seus autores são conhecidos.
Pavel chegou ao México em meados de 1939. Trotsky foi assassinado em 1940. Nessa época Pavel já tinha sido afastado pela Internacional Comunista e não tinha qualquer relação com Moscovo. Trabalhava no seu ofício de serralheiro mecânico para poder sobreviver, ao mesmo tempo que ia escrevendo em jornais. Só posteriormente conheceu e se aproximou de intelectuais mexicanos como David Alfaro Siqueiros.
O seu trabalho como jornalista era essencialmente de repórter sobre a situação dos indígenas, para os ajudar a obter melhores condições de vida. E começou a escrever sobre arte anos depois.
Não mais retomou uma actividade partidária, mas continuou a lutar a nível social e cultural, para dar voz às pessoas que não a tinham e ajudar à construção de uma sociedade mais justa.
A vida de Pavel no México é clara e transparente. Para os que quiserem saber a verdade.
Por último, aproveito para informar que, no próximo ano, o Museu Trotsky, na Cidade de México, vai promover uma homenagem à memória de Pavel. Aliás, o director do Museu Trotsky foi aluno e grande amigo de Pavel.
Como representante de minha mãe e meus irmãos,
Zinia Rodriguez
(filha de Pavel)












