A questão da mudança de operadora adsl ainda não terminou e quase roça a rasqueirice.
Faz amanhã um mês que a Clix me deixou silenciada à força. Dia 12 desisti. Desde o dia 14 tenho net e telefone de outra operadora.
Pois há dias recebi uma carta atenciosissima da Clix dando-me as boas-vindas e informando que desde o dia 16 sou sua cliente, com todos os direitos e deveres. Imagino que isto queira dizer que estão a facturar-me.
E hoje, dia 27, via ctt, chegou o kit com o modem para a linha adsl!
Um mês depois de me terem desviado a linha e deixado muda...
Foi comigo. De contrário teria dificuldade em acreditar.
terça-feira, maio 27, 2008
violência doméstica é crime
Passam hoje oito anos que a Lei consagrou a violência doméstica como um crime público. E eu quero lembrar aqui, a minha mãe - Maria Helena Coutinho -, vítima paradigmática da mais atroz violência, numa curtíssima vida.
- Nasceu de uma mãe-criança e foi estigmatizada por um "pai incógnito".
- Casou por obrigação porque "eu" vinha a caminho.
- Sofreu violências físicas e psicológicas de um marido que não quis.
- Morreu de um aborto clandestino.
Foi no dia 1 de Maio de 1952. Em Caldas da Rainha. Tinha 24 anos. Deixou três crianças, a mais velha com 4 anos, eu.
Jurei que a minha vida seria diferente. Que lutaria por ela e por todas as Mulheres que, como ela, foram imoladas neste longo caminho pela emancipação e instauração dos Direitos Humanos. Por todas as Mulheres que, com a aprovação da Lei da Violência Doméstica e, depois, com a Lei do Aborto começaram, finalmente, a ser justiçadas no nosso país.
Através da minha mãe aqui fica a minha homenagem às "Mulheres do Meu País" (como diria Maria Lamas) num momento em que se prepara um Congresso Feminista, 80 anos depois do primeiro, organizado em 1928 pelas corajosas Mulheres da I República.
domingo, maio 25, 2008
Resgatar a Memória
Há tempos numa palestra ouvi que os astros influenciam a nossa vida e muitos dos nossos empreendimentos estão potenciados desde que nascemos. Alguns seres transportam mesmo uma espécie de missão para a qual frequentemente se sentem compelidos e que abraçam ou não. Sinto-me tentada a acreditar.
O meu amigo João Manuel Firmino lançou agora O Crime dos Velhos da Camarra, onde resgata a memória do bisavô, João Baptista Firmino, um livre-pensador, republicano, maçon e carbonário que, na transicção do século XIX para o século XX é acusado, injustamente, de um crime, no Barreiro, e acaba por morrer na Cadeia do Limoeiro, precisamente quando a análise das provas o ilibavam. Um crime sinistro, num tempo de grandes convulsões politico-sociais e que ficou impune.
Para escrever este livro, o João passou os ultimos anos retirado do mundo. Tirou licença sabática e prejudicou a carreira. Deixou de ter tempos livres. Afastou-se dos amigos. A família teve que aceitar a sua ausência. Passou a viver entre arquivos, bibliotecas, livros e documentos. Só descansou quando finalmente o livro foi editado e posto em circulação. Fui ouvi-lo no dia 18. Fazia anos que morrera, de vergonha e sofrimento, 0 bisavô, esse homem que agora resgatara finalmente do silêncio de mais de um século. Missão cumprida.
sábado, maio 24, 2008
O nóvel Museu do Oriente
Inaugurou no passado dia 8 de Maio, por iniciativa da Fundação Oriente. Fica em Alcântara, no enfiamento do viaduto que vem da Infante Santo e atravessa a marginal. Aproveitou um edifício típico da arquitectura estadonovista dos anos quarenta, concebido pelo Arq. João Simões em 1939, com belíssimos painéis fronteiros em baixo-relevo do escultor Barata Feyo. Concebido para armazém-frigorífico portuário, estava há muito abandonado. Foi agora recuperado, modernizado e adaptado para Museu pelos Arqts. João Luis Carrilho da Graça e Rui Francisco, tendo estes respeitado o essencial da traça primitiva.Excelentes instalações. Com grande amplitude e cinco pisos, três são dedicados às exposições (2 permanentes e 1 temporárias). Dispõe de restaurante no último piso, um excelente auditório e uma zona de reuniões, enquanto nos inferiores funcionam a loja e livraria, o centro de cocumentação e uma cafetaria.
Só não gostei da decoração e iluminação das exposições. Salas muito escuras (predomínio do negro) e com pouquíssima visibilidade. Talvez tenham enveredado pelo que tecnicamente melhor serve os objectivos de conservação mas, esteticamente, não resulta. Também a temperatura estava baixa em demasia. Desagradável. E por que não gravam as letras nas portas em vez do papel autocolante que evidenciam?
Quanto aos conteúdos nada temos a dizer. São francamente bons. De repente somos transportados para o meio de culturas e ambiências longínquas e estranhas mas que se vão interpenetrando até nos chegarem a soar familiares. Sobretudo se iniciarmos a visita pelo segundo piso em sentido descendente.
Sugiro que vão até lá. Vale a pena.
quarta-feira, maio 21, 2008
Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008)
Faleceu hoje. Em Londres, cidade onde viveu a partir de 1961, convidado que foi para ensinar na Slade School of Fine Arts, precisamente onde antes (1956-58) se especializara em Gravura com Anthony Gross.
Tive o privilégio de conhecê-lo em 2001 por intermédio de Sá Nogueira tendo-me recebido algumas vezes no atelier da casa que tinha na zona histórica de Sintra. Um atelier repleto de obras de arte e livros e com gavetas atulhadas de gravuras, esquissos e fotografias, sempre com música clássica por fundo, e onde me foi dizendo do tempo de estudante da Escola de Belas Artes de Lisboa, nos inicios de cinquenta, dos colegas e amigos e das lutas que empreenderam pela dignificação do ensino e pela legalização da Associação de Estudantes. Do MUD Juvenil e das reuniões e convívios que promoveu no enorme casarão onde residia, na António Augusto de Aguiar, na ausência dos pais. Das lutas politicas aquando da reunião da NATO em Lisboa, em 1952, e como na sequência disso foi instaurado um inquérito a 81 alunos da ESBAL, onde se incluía, terminando com a expulsão de alguns deles. Das gravuras que criavam para venda e angariação de fundos. Dos bailes e convívios culturais na SNBA com o mesmo fim. De como se discutia arte e política e se odiava Salazar. Das tertúlias que se fomentavam nos cafés com destaque para o Café Chiado onde as Belas-Artes assentava arraiais. Dos espectáculos vistos do galinheiro do São Carlos. Dos bailados da Margarida de Abreu. Do Coro do Lopes Graça, da Sonata e dos recitais de poesia na Academia dos Amadores de Música e na SNBA. Das Gerais de Artes Plásticas, na SNBA. De como a velha Casa dos Artistas passou a ser o ponto de encontro para todos os artistas oposicionistas. E também de como se abrigavam clandestinos e se fomentavam cadeias de apoios vários naqueles tempos sombrios. Das amizades, das cumplicidades, das solidariedades e de como em conjunto aprendiam a Vida.
Ofereceu-me o catálogo autografado daquela que foi a sua primeira exposição individual, em 1959, na SNBA, quando ainda assinava Bartolomeu Cid.
A ele devo a revelação e a discussão do artigo de António Vale (pseudónimo de Alvaro Cunhal) sobre Forma e Conteúdo, publicado na Vértice em 1954.
Um dia levou-me ao primeiro andar da casa de Sintra, abriu uma das enormes gavetas atulhadas e tirou de lá dois linólios, duas pequenas relíquias editadas pelo MUD Juvenil de Belas-Artes, em 1952. Comprara-as então. Não estão assinadas, por precaução conspirativa, e nenhum de nós conseguiu descortinar a autoria. Sugeri que as doasse ao Museu do Neo-Realismo. Anuiu de imediato. Mas, que ia primeiro mandar restaurá-las. Mais tarde haveria de escrever-me e repetir sempre que nos encontravamos: "já lá tenho as gravuras para dar ao Museu do Neo-Realismo!" Creio que ainda lá continuam... em Sintra.
Congratulou-se com o catálogo que escrevi sobre José Dias Coelho, editado pela CM de Pinhel em 2003, o camarada e amigo que o iniciou nas lutas politicas. Escreveu-me: "que eu saiba, esta é a primeira achega à obra do Zé Coelho. Parece-me no entanto (...) que a escolha das obras podia ter sido melhor. Também o design deveria ser melhor, muito melhor...". Tinha inteira razão.
Vi-o pela última vez em Maio do ano passado quando inaugurou uma exposição na Galeria Ratton, à Academia das Ciências. Uma exposição lindíssima onde explorava o sagrado (laico) e o profano. Achei-o muito cansado. Mas feliz, rodeado de amigos, alguns seus colegas quando estudantes no velho convento de São Francisco: Leonor Sena da Silva, Júlio Moreira, Augusto Sobral, José de Almada, Vasco Croft de Moura, João Vieira e outros.
Falámo-nos pelo 25 de Abril. Não podia ir ao jantar "Em Abril Esperanças Mil". Ia a guiar, como sempre dividido entre a casa de Sintra e a de Tavira, essa terra onde tinha o espaço privilegiado de trabalho e onde planeava terminar os dias, abrindo à comunidade um Atelier de Desenho!
Morreu em Londres. Mas vai regressar aqui e as cinzas serão lançadas no rio que banha a amada Tavira. Que saudades eu sinto desta ínclita geração que o tempo, inexorável, teima em fazer desaparecer. E como fazem falta pessoas como o Bartolomeu!
domingo, maio 18, 2008
Guerrilha das operadoras ADSL
Juro que não foi intencional esta minha ausência.
Explico-me. Vi-me obrigada a mudar de operadora arrependida já de ter aderido à Tele2 que, a troco de mensalidade menos onerosa, me deixara enredada em problemas técnicos e sem serviços de apoio ao cliente.
Firmei contrato com a Clix em Janeiro passado. Na altura tiveram o cuidado de enviar um estafeta a minha casa para recolherem a minha assinatura no contrato. Apesar de prometerem uma mudança rápida, um silêncio absoluto manteve-se durante quatro meses.
Subitamente, no dia 29 de Abril, sem quaisquer explicações, cortam-me a linha adsl e deixam-me sem net! Vésperas de feriado... fim de semana prolongado. Reclamo e dizem que mandaram por correio o kit da Clix com o modem... quando chegar é só meter o cd e configurar ... Passam dias, volto a reclamar e dizem que afinal não mandaram mas que tenho duas opções: ou espero que enviem por correio e demora uns 5 dias úteis, ou posso ir comprar a qualquer loja da especialidade !! Exijo que mo coloquem em casa.
E as desculpas repetem-se, sempre diferenciadas. Nunca consegui falar com o responsavel dos serviços de Apoio ao Cliente, ou sequer com a secretária.
Até que no dia 12 desisto e decido apresentar queixa à Anacom.
No mesmo dia adiro aos serviços da Sapo que, como sabem, pertence à rede PT. A 14 tinha um tecnico cá em casa para mudar a linha telefonica. Nesse mesmo dia passei a ter telefone e net.
Entretanto, no dia 16 recebi uma sms da Clix felicitando-me por ter aderido aos seus serviços !!!
Quanto ao kit com o respectivo modem nunca apareceu.
segunda-feira, abril 28, 2008
Vale a pena ver
Do João Callixto, um amigo do tempo em que ambos fizemos parte de uma lista para a direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, a célebre Lista E, que nos anos noventa venceu por três vezes consecutivas as eleições para aquele orgão associativo (um dia escreverei sobre isso) recebi o link para um filme extraordinário que merece a maior reflexão e divulgação possíveis.
Sugiro que percam uns minutinhos e vejam o como e o porquê das coisas, como tudo acontece e, ainda, como nada se deve ao acaso.
http://video.google.com/videoplay?docid=-3412294239230716755&hl=en
Sugiro que percam uns minutinhos e vejam o como e o porquê das coisas, como tudo acontece e, ainda, como nada se deve ao acaso.
http://video.google.com/videoplay?docid=-3412294239230716755&hl=en
Reflexões em torno de María Zambrano
30 Abril - 4ª feira - 18,30 horas Casa Fernando Pessoa
R Coelho Rocha, 16
Zília Osório de Castro (presidente do grupo Faces de Eva - Estudos Sobre a Mulher ), António Cabrita, a quem cabe a apresentação, Isabel Lousada e Maria João Cabrita também responsáveis pela edição, são os nomes presentes na mesa que assinala, no próximo dia 30 de Abril, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa, a publicação do mais recente número da revista Faces de Eva, dedicado à filósofa espanhola Maria Zambrano.
Reflexões em torno de María Zambrano reúne uma dezena de textos que, a montante, cresceram sobre a realização de um Encontro Ibérico, de título homónimo, realizado no Instituto Cervantes, a 22 de Novembro de 2007, e que com o apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa vieram à luz. No seu todo incide sobre o universo de ideias zambraniano, cobrindo a pluralidade de sujeitos enfatizados pela filósofa – da estética à poética, passando pela fenomenologia; da mística à ética e à política – dando-nos conta de uma história que se encontra por fazer ou por contar.
domingo, abril 27, 2008
Dia (noite) de sorte
Sabem os que me conhecem o lugar primordial que os livros assumem na minha vida. Como ocupam praticamente todo o espaço da minha casa. Como as livrarias e os alfarrabistas são os locais que mais visito. Quão confortável me é a sua companhia. E como não saberia viver sem eles.
Este amor pelos livros vem-me de miúda. Ainda não sabia ler e já ficava fascinada por quaisquer letras impressas. Pode parecer genético ou fruto do ambiente em que me criei, mas a verdade é que nasci numa casa sem livros e no seio de uma família onde apenas os homens tiveram direito a instrução. Livros, apenas aqueles onde o meu avô assentava o deve e o haver dos pinhais negociados ou das horticolas vendidas.
Acontece que ontem, inesperadamente, tive um encontro feliz com uma livraria recheada de livros raros e de onde trouxe duas preciosidades.
Fui com uma amiga ouvir jazz a um espaço lúdico-cultural lindíssimo, a Fábrica Braço de Prata, onde no antigo regime funcionou uma fábrica de material de guerra. Não foi a primeira vez que frequentei este local, mas foi a primeira vez que me detive mais atentamente na livraria que ali funciona. E foi uma surpreza perceber que a mesma se chama Livraria de Fundos, SA, precisamente porque se compõe de inúmeros fundos de editoras e distribuidoras desaparecidas, alguns já não em muito bom estado, é verdade, mas onde se podem encontrar preciosidades para os amantes dos livros.
Encontrei então duas obras belíssimas: uma História de Angola, publicada inicialmente pelo MPLA, em Argel, em Julho de 1965 e reeditada pela Afrontamento em 1975, e um exemplar de MFA, Dinamização Cultural e Acção Cívica, editada pela Ulmeiro e com as assinaturas de todos (ou grande parte) dos intervenientes nas mesmas iniciativas cívicas, como a de Carlos Paredes, Moniz Pereira, José Viana ou a de Vespeira, o autor do símbolo do MFA.
Ontem foi o meu dia (noite) de sorte.
sábado, abril 26, 2008
Eu também estive lá
Quem ontem assistiu na RTP1 ao espectáculo Vozes de Abril, essa homenagem que a A25A decidiu prestar (dia 4) a todos os que com a sua Arte e o seu Canto ajudaram a surgir e a consolidar Abril, percebeu que o mesmo evocava um outro espectáculo ocorrido na mesma sala (Coliseu dos Recreios), há 34 anos, pouco antes do dia "inicial inteiro e limpo" de onde "emergimos da noite e do silêncio" como escreveu Sofia.
Eu posso dizer que sou uma privilegiada porque participei nesses dois momentos histórico-culturais: 29 de Março de 1974 e 4 de Abril de 2008.
Jovem que era há 34 anos, aluguei com um grupo de amigos um camarote, do lado direito do palco, de onde assistimos a tudo que ocorreu naquela noite memorável e pudemos vaiar os pides quando um deles saltou para o palco (nem sei porquê) e gritar "tirem esse careca daí!"...
Pela primeira vez os artistas oposicionistas conseguiram reunir-se, o espectáculo até foi autorizado (organizado pela Casa da Imprensa) mas as cantigas foram censuradas de tal forma que os cantores só dispunham de algumas, inócuas para os censores do regime... mas estes também se enganavam (ou eram enganados) porque ao Zeca Afonso, a quem só deixaram cantar duas: Milho Verde e Grândola, repetiu esta tantas vezes, em coro com a assistência, que nasceu ali, tenho a certeza, naquele momento, a SENHA do 25 de Abril!
Lembro-me que o Tordo cantou a sua "Tourada" entrando e saindo pela porta dos fundos, como ele proprio recordou. Que a Maria do Amparo (agora a dar-nos um momento emocionante ao cantar com a filha Lucia Moniz) e o Carlos Alberto Moniz (agora como maestro) entoaram coisas do cancioneiro açoreano.
Lembro o Manuel Freite e o Zé Jorge Letria a virem ao microfone dizer que "tinham perdido as letras das canções" por isso não poderiam cantar o que a malta lhes pedia incessantemente .... e que, perante isto, a sala inteira pateou ensurdecedoramente e gritou "Fascistas! Fascistas!" durante minutos largos. E creio que foi aí que um pide, careca, saltou para o palco, motivando ainda mais a nossa indignação.
À saída foi um silêncio absoluto, pesado, impressionante, só se ouvindo os nossos passos na calçada, enquanto a Pide e a PSP nos observavam com as carrinhas a postos. Na sequência foram movidos autos e importunados artistas. Mas o dia da Liberdade estava muito perto, a menos de um mês.
Foi portanto com uma dupla emoção que pude assistir a este espectáculo no dia 4 de Abril, onde todos os intervenientes de há 34 anos estiveram presentes, agora sim, dando-nos o seu verdadeiro Canto Livre. Claro que faltaram alguns como o Adriano, o Ary ou o Zeca. Mas esses estarão sempre ao nosso lado.
Aquele, de 29 de Março, foi o espectáculo premonitório do radioso 25 de Abril ! Este, no dia 4, o da certeza de que os valores que Abril nos trouxe continuam vivos e de que a Memória não se apagará.
sexta-feira, abril 25, 2008
Não deixaremos morrer Abril
Pag. da revista Flama, Abril 1974Confesso: há 34 anos ocorreu o dia mais feliz da minha vida. Embora a noção dessa felicidade me tenha sido revelada apenas no primeiro 1º de Maio quando percebi que, tal como no nosso país, também comigo passaria a existir um antes e um depois de 25 de Abril de 1974.
E tudo ganhou consistência e sentido no reaprender dos dias, das palavras, relações interpessoais, dos sentimentos, da vida. A coisa pública a irromper no nosso quotidiano. Conceitos novos, palavras novas, vivências novas.O Sonho a comandar a vida, como nos ensinara o poeta. Todos os Ideais e Utopias a afigurarem-se-nos exequíveis. Peito aberto, generoso, como generosos foram os nossos "Militares de Abril".
Hoje, passados 34 anos, constatamos que muitos dos valores que aprendemos e vivemos nos foram subvertidos. E muitos dos direitos adquiridos, retirados.
Em nome da vida democrática foram-nos desvirtuando a Democracia.
Em troca, um conceito novo, a Precariedade, a invadir as nossas vidas.
Hoje tudo é precário e não só o trabalho e os contratos. Também a Liberdade e a Cidadania, a Família e os Afectos. Vivemos precariamente.
Hoje tudo é precário e não só o trabalho e os contratos. Também a Liberdade e a Cidadania, a Família e os Afectos. Vivemos precariamente.
Bem nos avisara o Zeca de que "se alguém se engana (...) e lhes franqueia as portas à chegada, eles comem tudo e não deixam nada"
Mas sem hesitações, afirmo: valeu a pena o 25 de Abril, sim!
Apesar das desigualdades (nada precárias) que se têem acentuado, o 25 de Abril constituiu um virar de página e por muito que hoje nos queiram rasgar essa página, nós NÃO permitiremos.
O nosso cravo continua vivo. Muito obrigada, "Militares de Abril"!

terça-feira, abril 22, 2008
Faleceu o Chico Martins Rodrigues (1927-2008)

Sabiamo-lo mal. Mesmo assim a sua partida definitiva surpreendeu-nos. Foi esta madrugada, pelas 2 horas. O seu corpo será cremado amanhã, dia 23 de Abril, pelas 13,30 horas, no Alto de São João.
Dele guardo a lembrança de um homem solidário, sempre pronto a abraçar as causas em que acreditava. Morreu como viveu: lúcido e apenas com aqueles que ele próprio escolheu para o acompanharem. Foi um dos que mais sofreu às mãos da Pide. E não só sofreu como viu a sua família perseguida e destruida.
Há dois anos deu-me uma entrevista. Admirava-o como Resistente e homem de acção, mas cheguei a ele por caminhos ínvios. Ou seja, o Chico provinha de uma família numerosa e era irmão de dois artistas plásticos: o João Rodrigues e o José Leonel Martins Rodrigues.
O João Rodrigues, irmão mais novo, surrealista, matou-se em 1967 e dele ficaram desenhos dispersos que o amigo Mário Cesariny de Vasconcelos juntou num livro há muito esgotado.
A minha curiosidade ia para o José Leonel do qual ninguém mais ouvira falar, e alguns afiançavam ter falecido já. Mas não. O José Leonel ainda vive. Disse-me o Chico Martins Rodrigues, no decurso dessa tarde em que conversámos no seu velho escritório ali à Rua dos Açores, no Arco Cego.
Artista talentoso, José Leonel frequentou a António Arroio no inicio dos anos 40 (pertencia ao grupo do Café Herminius) e, quando se preparava para entrar na Escola de Belas Artes, foi apanhado pela Pide numa noite em Campo de Ourique onde, com outro, fazia pichagens nas paredes em vésperas do 1º de Maio de 1946.
O companheiro foi solto quase de imediato, ele ficou encarcerado. E porquê? Porque escrevera: "Morte a Salazar" e isso era um crime gravíssimo. Indiciava-o como muito capaz de matar o chefe do Estado ! A Pide tirou mesmo uma fotografia daqueles dizeres como prova do grave delito.
Foi muito maltratado pelos esbirros da Pide. De tal forma que endoideceu e recolheu ao Julio de Matos. Saíu mais tarde, mediante caução, mas nunca mais foi o mesmo. Nunca mais se dedicou à arte. Nunca mais conseguiu conviver com ninguém. Sempre assustado, sempre com medo, vendo polícias por todo o lado, desconfiando da propria sombra. Isolou-se e fechou-se num mutismo de que nunca mais se libertou.
Um dia desapareceu. Fugiu da própria família. Nunca ninguém o conseguiu encontrar. Já após a morte dos pais e de praticamente todos os irmãos, apareceu. Sem mais palavras. Creio que o irmão o foi buscar. E vivia com o Chico que tratou dele até ao fim.
Foi o António Domingues, que fora seu colega na Antonio Arroio, quem me alertou para o drama do José Leonel. Uma vítima da Pide de quem ninguém fala. Que ninguém conhece. De que não ficaram sequer registos gráficos. Apenas um eventual processo nos arquivos da Pide, como tantos outros.
Tal como existe um Monumento ao Soldado Desconhecido pela impossibilidade de se identificarem todos os que morreram nas frentes da guerra, dever-se-ia fazer um Memorial às Vitimas da Pide, tantas elas foram e, na sua maioria, desconhecidas.
Aqui fica a minha homenagem no dia em que partiu mais um guerreiro.
segunda-feira, abril 21, 2008
Jantar de Abril, a 18
Tinha decidido afastar-me por uns tempos. Passaram meses, quase um ano, e senti que talvez estivesse na hora de reaparecer. Algumas pessoas se me dirigiram nesse sentido. Cá estou.
Na sexta feira, dia 18, chuva imensa (!) realizou-se a 5ª edição do jantar «Em Abril Esperanças Mil», desta vez na Fil - Expo. Confesso, o local não ajudou à festa. A chuva e o vento muito menos. Algumas pessoas menos jovens optaram por ficar em casa. Outras houve que não atinaram com a entrada. Mas, no cômputo geral, podemos dizer que foi uma grande jornada de confraternização.
Pessoalmente revi amigos mas o mais gratificante mesmo, aquilo que maior prazer me deu, foi ter conseguido juntar pessoas que nunca se tinham visto, todas «bonitas» e interessantes, e cujo único ponto de referência era eu, a conviverem e a sentirem prazer em se descobrirem. Como aconteceu na minha mesa, por exemplo.
O convivio e o calor humano valem sempre a pena.
quinta-feira, abril 10, 2008
domingo, julho 29, 2007
A todos que passem por aqui
Contrariamente ao que sempre defendi, vi-me obrigada a cancelar os comentários neste blog.
Ficam assim fechadas as portas aos comentários provocatórios, maldosos, insidiosos e ... anónimos.
Claro que isto não impede um outro crime mais grave ainda: a utilização do meu nome para deixarem comentários em alguns blogs, em meu nome, fomentando a confusão e a maledicência.
Quem me conhece sabe que não sou pessoa para esse tipo de coisas. Sempre dei a cara pelos meus actos (e palavras) e se nos vossos blogs aparecer algum comentário assinado por uma Julia Coutinho que não venha dar a este blog, NÃO É MEU.
E agora, meus amigos, vou de férias !
Até Sempre !
PS - Quem quiser entrar em contacto comigo, tem aqui ao lado o meu email.
quarta-feira, julho 04, 2007
Venham ouvir o Pedro
Pedro Branco
No jantar comemorativo dos 33 anos de Liberdade
Mercado da Ribeira, 20 Abril 2007
O Pedro é um ser muito especial.
Pertence àquela espécie rara
que privilegia os afectos
e vai tecendo amizades.
Não lhe basta ter talento
Sensibilidade
e sentido estético.
Ele pensa nos Outros.
E porque pensa nos outros
idealizou um espectáculo
para os Amigos.
(Um conceito que continua a alargar...)
Vale a pena conhecer o Pedro.
Ouvir o Pedro.
Sentir o Pedro.
e
alcançar ... o Outro Lado ...
o seu ... e o nosso...
Na Soc Guilherme Cussoul (Santos)
dias 5, 6, 12, 13 e 14 de Julho
22 horas
(5 euros)
visitem-no !
e escolham o melhor dia para o verem e ouvirem !
terça-feira, junho 19, 2007
No dia dos teus anos ... a minha homenagem
(Pinhel, 19 Junho 1923 - Lisboa, 19 Dezembro 1961)
a Jose Dias Coelho
Seja minha a tua força, irmão
seja meu o teu braço, camarada
Sejam estes muros não um paredão
sejam uma ponte ou mesmo uma estrada.
Seja nela meu o teu anseio, irmão
seja minha a luta que na tua terra travas
seja ela o fruto das coisas que amavas.
Sejam essas coisas, as mesmas, irmão
sejam as que amo aqui nesta cela
seja para sempre a minha na tua mão
seja para todos uma vida bela
seja nela o trigo com a sua cor dourada
sejam as papoilas vermelhas de querer
seja sempre o dia que sucede à madrugada
seja outro o sentido da palavra morrer.
Sejam os mortos aqui ao nosso lado
sejam os seus também os nossos passos
seja em luta o ódio acumulado
sejam retesados nossos membros lassos.
Sejam as colinas de vontade erguidas
seja a sua força a que do amado vem
sejam nossas as tuas palavras queridas
seja minha a tua vontade também.
E não há muros, bombas ou insultos
que detenham as árvores ao nascer da terra
nem façam brotar flores de pensamentos estultos
nem parar o sol. E não será a guerra
com que os lobos sonham em noites de orgia
que impedirão que nasçam.
Das auroras por nascer
das estruturas por erguer
dos caminhos por andar
das flores por brotar
estendem-se as mãos do futuro
que envolvem teu corpo de bandeira.
Maria Alda Nogueira
Prisão de Caxias, 1963
Nota: poema inédito de Maria Alda Nogueira, que nos foi oferecido por Alexandre Castanheira.
segunda-feira, junho 18, 2007
As Incongruências do Vaticano
O Vaticano apelou aos católicos para que retirem o apoio financeiro à Amnistia Internacional (AI), devido a esta organização defender a despenalização do aborto.
"A Igreja Católica deixará de financiar a Amnistia Internacional devido à mudança de posição decidida", anunciou oficialmente o Cardeal Renato Marino, presidente do Conselho Pontifical Justiça e Paz.
"Jamais recebemos fundos do Vaticano, ou de entidades que dependem da Igreja Católica. Isso garante-nos a independência da organização como previsto nos nossos estatutos", desmentiu Riccardo Noury, porta-voz da secção italiana da AI.
Por sua vez, Kate Gilmore, subsecretária-geral da AI, afirmou em entrevista à Reuters: "Defendemos o direito da Igreja tratar de crenças morais. Mas um projecto de direitos humanos é para tratar do Estado, do estado de direito, e para criar um ambiente no qual as pessoas possam fazer escolhas morais como indivíduos".
O cardeal Renato Marino afirma em comunicado que "a suspensão de todos os financiamentos à Amnistia Internacional da parte, tanto das organizações como dos indivíduos católicos", é a "consequência inevitável", do "volte-face" da ONG quanto ao aborto.
"A Igreja Católica, por meio de um relato mal representado da nossa posição sobre aspectos selectivos do aborto, está a colocar em perigo o trabalho com os direitos humanos", respondeu Kate Gilmore. "Não se trata do aborto como um direito, trata-se do direito das mulheres a serem livres do medo, da ameaça e da coação ao gerirem as consequências do estupro e de violações aos direitos humanos", afirmou ainda.
"Se o cardeal fosse a Darfur e se colocasse entre [vítimas de estupro] e as pedras atiradas contra elas, aí ele poderia falar outra vez sobre se a Amnistia tem ou não integridade para se manter firme pelos direitos humanos", acrescentou Kate Gilmore que acusou o Vaticano de tentar injustamente "excomungar" a AI, sublinhando que a ONG vai "continuar a fazer campanha pela protecção da Igreja Católica" nas áreas onde houver discriminação religiosa.
Já em 1996, o Vaticano anunciou a suspensão da ajuda financeira à UNICEF, o fundo das Nações Unidas para a infância, que também acusou de promover o aborto.
A UNICEF difundia nos campos de refugiados de todo o mundo uma informação sobre um espermicida pós-coito destinado a jovens mulheres ou adolescentes vítimas de violação.
O financiamento do Vaticano à UNICEF elevava-se na altura a cerca de 2.000 dólares por ano.
sexta-feira, junho 08, 2007
Pessoas magras podem ser gordas por dentro
Ser magro não significa que se esteja «imune à diabetes nem a outros factores de risco para doenças cardíacas», pois a «gordura interna pode ser tão perigosa quanto a externa», alertaram investigadores
E o inverso também será verdade? - perguntamos nós ....
Um grupo de investigadores alertou ontem que pessoas magras, com um peso dentro dos parâmetros normais, podem ser gordas por dentro devido à gordura que armazenam em redor dos órgãos vitais, como o coração, pâncreas ou fígado.
«Ser magro não significa automaticamente que não se é gordo», indicou Jimmy Bell, professor de imagiologia molecular no Imperial College em Londres que, desde 1994, e juntamente com a sua equipa examinou perto de 800 pessoas através de ressonâncias magnéticas de forma a descobrir onde armazenam a sua gordura.
Segundo os dados recolhidos, as pessoas que mantêm o seu peso através de dieta em vez de exercício parecem ter maiores depósitos de gordura interna, mesmo que outrora tenham sido magros.
Esta gordura interna que circunda os órgãos vitais, como o coração, fígado ou pêncreas, pode ser tão perigosa quanto a gordura externa que se aloja por baixo da pele, consideraram os investigadores.
Segundo a equipa de Bell, 45% das mulheres examinadas que tinham indicadores normais de massa corporal têm na realidade níveis excessivos de gordura interna.
Em relação aos homens, a percentagem de homens com excesso de gordura num corpo com indicadores normais ronda os 60%.
in Notícias da Manhã, 11 de Maio de 2007
sexta-feira, junho 01, 2007
No Aljube
Num poço de treva te fecharam
mas as nascentes correm pelos teus cabelos
Tantas coisas no silêncio:
duas mãos que se apertam
com a noite em choro no asfalto
um cigarro que arde na penumbra
dum rosto um rolo preto
borrado de tinta preta
que rola torna a rolar.
- Terça-feira ninguém pega nos teares!
Nunca te sentiste tão perto dos homens
nem tanto amaste a vida sem temer a morte.
O respirar da cidade
faz vibrar as paredes do teu poço.
Mas em lugar de entranhas
não sentes amendoeiras floridas?
Tua mãe
leva-te de novo à escola pela mão...
A coragem-tesouro da Ilha Maravilhosa onde estava?
Foi a vida que o foi juntando
e o enterrou nas praias do Mar Mediterrâneo
que há dentro de cada um de nós.
António Borges Coelho, in Fortaleza, seara nova, 1974
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