Se eu morrer de manhã
Abre a janela devagar
E olha com rigor o dia que não tenho
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
Ter tido a noite é mais do que mereço
Se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
E um pedaço de céu
O único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
Que não saber voar
Foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que não tenho
E do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
Pois não estar é da morte quanto sei.
Rosa Lobato de Faria
(20.4.1932 - 2.2.2010)
2 comentários:
Amiga Júlia
Um belo e comovedor poema, numa justa homenagem.
Rosa Lobato Faria parecia-me ser uma daquelas pessoas raras que marcaram a nossa época.
Sei que um dia todos teremos que partir, mas estão já a ser demais as referências do meu tempo que vão desaparecendo.
A sua morte, tal como a de outras ilustres figuras que recentemente nos deixaram, fazem-me sentir viver hoje em dia num mundo cada vez mais estranho e mais pobre. Um mundo que nos conduz à solidão.
Lembro-me dela, ainda muito jovem, declamando poesia nos programas de David Mourão Ferreira.
Era uma mulher belíssima, raramente bela! É assim que a quero recordar!
Obrigado por esta bela homenagem!
Descobri-a "por acaso". A escritora, que a actriz, sim, já admirava.
Porque, como costumo dizer, as coisas e as pessoas, chegam sempre à minha vida quando é tempo certo. Porque a força gravítica nos atraiu... Descobria-a "por acaso" e, de Pássaros de Seda em mãos, fui incapaz de parar de ler. Num fim de semana devorei o livro. E, rendida, declarei-me sua fã.
Neste Natal tive visitas. E, porque meu hábito, coloquei livros nos quartos ... Como uma rosa, a Rosa...
Em sua homenagem. Sentida homenagem, a quem soube elevar a palavra e o gesto.
Obrigada Rosa. Por tudo e por muito mais.
Mel
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