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terça-feira, janeiro 18, 2011

Portugal e os cidadãos de primeira

Vitor Alves (30.09 .1935 - 9.01. 2011)

Crónica de António de Sousa Duarte publicada no Público de 12 de Janeiro 2011


PORTUGAL E OS CIDADÃOS DE PRIMEIRA

As mortes de Vítor Alves, capitão de Abril, e do cronista cor-de-rosa Carlos Castro mostram algumas evidências sobre o país.

Separadas por escassas horas, as mortes do coronel Vítor Alves, "capitão de Abril", e do cronista "cor-de-rosa" Carlos Castro tiveram o condão de fazer notar uma vez mais algumas evidências sobre Portugal e os portugueses que nunca será de mais destacar. Na verdade, mesmo admitindo as macabras circunstâncias em que Castro foi assassinado e os requintes de malvadez de que foi aparentemente vítima, não parece normal que tal facto tenha merecido tão esmagadoramente maior espaço mediático do que o desaparecimento de um dos principais símbolos da Revolução do 25 de Abril de 1974 e destacado operacional da construção do processo democrático.

Vítor Alves faleceu domingo, cerca de 36 horas depois da morte, em Nova Iorque, de um colunista social conhecido por se dedicar há décadas a analisar os factos da actualidade "cor-de-rosa" nacional. Considerado em muitas das biografias espontâneas que dele nos últimos dias chegaram ao nosso conhecimento como "um cidadão de primeira", Vítor Alves foi um homem probo, sério, rigoroso, sensível que contribuiu de forma decisiva - antes e depois do dia 25 de Abril de 74 - para o actual regime democrático em Portugal. Vítor Alves, que integrou, com Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de Carvalho, a comissão coordenadora e executiva do MFA (Movimento das Forças Armadas), foi o autor do primeiro comunicado dirigido à população no dia 25 de Abril e o militar que foi o porta-voz do Movimento. Mas as exéquias mediáticas de Vítor Alves foram curtas, muito curtas, se levarmos em conta a importância do seu legado e o impacte informativo que outros factos da actualidade suscitaram e de que é exemplo, sublinho, a vaga noticiosa relativa à morte de Carlos Castro.

O país trocou "um cidadão de primeira" por uma "história de segunda", mas o desiderato é positivo: chancela-se a morte do militar, político, ministro e conselheiro da Revolução em rodapés a correr e baixos de página e atribuem-se honras de Estado... mediático ao assassinato do cronista (não cronista social como alguns lhe chamam, como se Carlos Castro e Fernão Lopes fossem páginas do mesmo livro...) e às incidências macrotrágicas em que foi encontrado o seu corpo após alegada tortura, castração e assassinato. Mas a responsabilidade de todo este "estado a que - de novo e citando Salgueiro Maia - chegámos" não é do povo. Porque não é o povo que edita jornais, blocos noticiosos, telejornais ou sites.

Nem é o povo o responsável por Marcelo Rebelo de Sousa ter dedicado ontem, no Jornal da TVI, mais tempo de antena à morte de Carlos Castro do que ao desaparecimento de Vítor Alves.

António de Sousa Duarte
Ex-jornalista, consultor de comunicação, doutorando em Ciência Política

quinta-feira, outubro 15, 2009

In Memoriam de Ramiro Correia (1937-1977)

Ramiro Correia e Martins Guerreiro, «capitães de Abril»

No dia em que faria 72 anos, gostaria de recordar este generoso «capitão de Abril», uma das peças fundamentais no xadrez da Revolução de 25 de Abril.
Membro da Comissão Coordenadora do Programa do MFA da Marinha, fez parte da Junta de Salvação Nacional a partir de 3 de Maio 74; membro da 5ª Divisão do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que dirigiu, coordenador principal da Comissão Dinamizadora Central (Codice) e membro do Conselho da Revolução, a Ramiro Correia se deve essa grande iniciativa do MFA depois do 25 de Abril: a dinamização cultural junto do povo português, através das Campanhas de Dinamização Cultural e Esclarecimento Cívico do MFA por si idealizadas e postas em prática.

Participa na elaboração do Documento-Guia do Projecto da Aliança Povo-MFA, aprovado pela Assembleia do MFA em 8 de Julho de 1975. É autor ainda de «MFA-Dinamização Cultural e Acção Cívica», testemunho vivo da experiência das diversas campanhas, de como se procuraram adaptar aos condicionamentos locais, às populações e aos seus problemas. De como os artistas da nossa praça (cantores, pintores, musicos, actores) conseguiram levar a cultura a locais e populações que nunca antes tinham tido qualquer contacto a esse nível.

Depois de ter sido «expulso» do Conselho da Revolução por «redução de efectivos» e de lhe ter sido retirada a direcção da 5ª Divisão, foi desgraduado do posto de capitão-de-mar-e-guerra por uma portaria do Conselho da Revolução em 21 de Outubro. Cerca de um mês depois dá-se o 25 de Novembro e logo a seguir a Codice é extinta juntamente com as últimas campanhas de dinamização.

Perseguido pelo poder emergente do 25 de Novembro, e depois de uns meses durante os quais escreveu «MFA e Luta de Classes», Ramiro e a familia seguem para Maputo onde são colocados (ele e mulher, médicos) no Hospital Central. Como ele próprio disse na altura: «Moçambique aparece-me no horizonte como experiência de solidariedade internacional».
E foi ali, no dia 16 de Agosto de 1977, quando toda a família passeava na Baía do Bilene, que o barco se virou e todos morreram, excepto o filho mais velho, Ramiro Bernardino, que conseguiu nadar para terra.

No dia 12 de Outubro de 1977 os corpos de Ramiro, Isabel e Nuno chegam a Lisboa e ficam em câmara ardente na capela de S. Roque, no Ministério da Marinha, no antigo Arsenal. Em recolhimento, ladeando as urnas, entre os avós e restantes familiares e amigos, o pequeno Ramiro Bernardino, de 9 anos, recordava incrédulo «... a minha mãe pode ser que esteja aí, porque a vi a boiar, mas o meu pai e o meu irmão não estão... Quando o meu pai me mandou embora para terra ele vinha a nadar com o meu irmão às costas. Às vezes olhava para trás e via o meu irmão agarrado ao pescoço do meu pai...»

No dia 13 de Outubro, cerca das 17,30 horas, o cortejo fúnebre seguiu a pé direito ao Alto de São João, parando em Alfama que o viu nascer, e, por entre uma multidão que engrossava e fundia no mesmo pesar militares e civis, cantava-se «Grândola Vila Morena», «A Portuguesa» e gritava-se «MFA». «MFA», «MFA».

Mário Soares, então primeiro-ministro do I Governo Constitucional, não compareceu nem se fez representar. Portugal, a nível institucional, esteve ausente nas cerimónias fúnebres deste militar de Abril. O que levou Manuel de Azevedo a escrever no Diário de Lisboa de 15:

«Caro amigo: eu estive no funeral de Ramiro Correia e vi as lágrimas correr. Eu vi as lágrimas correr dos olhos do povo. Eu vi as lágrimas. Caro amigo: eu estive no funeral do capitão de Abril morto num acidente nos mares de Moçambique (...)
Caro amigo; eu estive no funeral do ex-conselheiro da Revolução e não o vi a si. E dói-me, dói-nos a todos os antifascistas que continuam a sê-lo, que você lá não estivesse. E contudo Ramiro Correia era um homem dos homens de Abril a quem você deve poder ter sido primeiro-ministro do primeiro Governo Constitucional. E contudo você esteve no funeral do cardeal Cerejeira, o companheiro e mentor de Salazar.
Não basta, no dia 5 de Outubro, dar vivas à República, e ao 25 de Abril. É preciso viver-se no dia a dia a Revolução de Abril.»


Manuel Begonha, no elogio fúnebre:
«Era um homem que desprezava a vaidade. Tolerante, era ao mesmo tempo, implacável para quem, responsavelmente, tentasse perpetuar o estado de aviltação do povo português. Era, aliás, um homem simples e cativante, de uma estatura intelectual e humana invulgares. Ramiro Correia morreu, mas o seu espírito, o seu exemplo, a sua obra, continuarão a iluminar as noites do nosso desencanto»

Fernando Piteira Santos:
«Homens como Ramiro Correia são sementes do Futuro»

João Varela Gomes:
«No retrato que nos fica de Ramiro Correia não há a mais pequena mancha de traiçoeira ambiguidade, o mais ligeiro tremor de vacilação. Fita-nos de frente, com um olhar cristalino de água, o sorrir prevenido e levemente amargurado do revolucionário lúcido e experimentado. Despedimo-nos do nosso companheiro, irmão tão breve que foi.
(...) O teu exemplo, esse permanecerá herança do Povo Português, dos Povos do Mundo, legado precioso e fecundo de um HERÓI DO NOSSO TEMPO. E nós nomearemos o tempo, como tu nos exortas a fechar o teu livro.»

Martins Guerreiro:
«Ramiro Correia deixou-nos uma proposta e uma experiência. Cabe-nos agora extrair os ensinamentos dessa experiência e aceitar essa proposta: contribuir para a transformação da qualidade de vida do povo português, afirmando a sua cultura e capacidade. No seu legado contam-se as sementes bastantes para que a Revolução Cultural e a das mentalidades se tornem uma realidade. Algumas dessas sementes estão já a germinar, e novas plantas crescem no terreno fértil do Povo. Depende de todos nós fazê-las florir.»


Ramiro Pedroso Correia nasceu a 15 de Outubro de 1937 na Rua do Salvador 18-1º, em Alfama, mas cedo os pais, Bernardino Correia e Fernanda Rosa Pedroso Correia, mudaram para a Rua Sousa Viterbo, 23-2º Dto, ao Alto de São João, onde decorreram a infância e a adolescência do jovem Ramiro.

Faz o 7º ano no Liceu Gil Vicente, sendo um grande activista desportivo. Frequenta o 1º ano de Medicina em Lisboa, passa depois para Coimbra, e termina o curso em Lisboa, em 1966, já depois de casado com a também médica Isabel Lacximy, com quem tem dois filhos: Ramiro Bernardino e Nuno Ramiro.

Em finais de 1966, já depois de formado, ingressa na Marinha com o posto de segundo-tenente na classe dos médicos navais, tendo estagiado na Escola Naval e no Hospital de Marinha. Mais tarde parte para Moçambique a bordo da fragata Álvares Cabral. É promovido a primeiro-tenente em Janeiro de 1970. Desembarca em Angola, em Março de 1971, e presta serviço como médico em Santo António do Zaire.
Publicou, em 1973, um livro de poesia «Na Clivagem do Tempo».

«A ponte é estreita
rapazinho negro
Mas dá bem para nós dois
lado a lado.
(...)
A ponte não é estreita
E há-de ligar-nos no Futuro»


Aderiu ao Movimento dos Capitães no inicio de 1974.

Julia Coutinho

Bibliografia:
Ramiro Correia, Soldado de Abril, por Eduardo Miragaia, Joaquim Vieira e Manuel Vieira, editado por FRASE - Cooperativa Editora, SCRL, s/d

 

segunda-feira, outubro 23, 2006

Vasco Gonçalves e as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA





Passados seis meses do 25 de Abril de 1974, na vigência do III Governo Provisório chefiado por Vasco Gonçalves, é apresentado no Palácio Foz em Lisboa, o Programa de Dinamização Cultural que iria ser coordenado pela Comissão Dinamizadora Central (CODICE), estrutura da 5ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, em colaboração com a Direcção-Geral da Cultura e Espectáculos.

Para o então Primeiro-Ministro, um dos principais objectivos desta iniciativa «era levar os militares, o MFA, às populações e apoiá-las no desenvolvimento, na tomadas de consciência dos problemas que elas tinham. [...] Pretendíamos, sobretudo, transformar as ideias de fundo dessas populações. Não pretendíamos transformar essas populações em socialistas ou em comunistas. Queríamos transformá-las em gente democrática, gente aberta a analisar as situações e arrancá-las de toda aquela carga de fascismo que durante 48 anos tinha pesado sobre elas».

A par destes objectivos, Vasco Gonçalves defendia, também, que as Campanhas tiveram um importante papel na democratização e dinamização das Forças Armadas, sublinhando o facto de os militares que as protagonizaram regressarem «mais politizados» devido ao contacto com as diferentes realidades que procuravam transformar. Nesse sentido, e numa perspectiva cara à Primeira República, Vasco Gonçalves evocou, numa sessão de esclarecimento realizada no Sabugo (Sintra) em Fevereiro de 1975, a figura do «militar-educador». Este deveria aprender com aqueles que procurava educar, com aqueles que procurava ensinar, com aqueles que procurava ajudar. Na sua óptica, a expressão que melhor caracterizava a Dinamização Cultural era o «trabalho quotidiano» porque as Campanhas constituíam uma aprendizagem mútua, um processo de conhecimento do país que a revolução surpreendeu.

Para Vasco Gonçalves o grande impulsionador das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA fora Ramiro Correia, o «comandante-médico que até fazia versos [...] um idealista no bom sentido do termo». Na génese desta iniciativa, salientava a importância da Acção Psico-social utilizada na guerra colonial, assegurando que «muitos militares vieram influenciados com isso e consideravam-se em condições de desenvolver uma acção desse nível dentro do nosso próprio país, com os seus compatriotas».

[...] a relação entre os militares e a população adquiriu novos contornos com a transição democrática e, para Vasco Gonçalves, as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA seriam uma ferramenta axial no fortalecimento desta relação, eternizada na expressão aliança Povo-MFA a qual condensava os ideais da facção progressista do MFA «que eram sobretudo os da libertação da nossa pátria, do nosso povo, da realização das aspirações básicas». Utilizava o termo «missão» para aludir às Campanhas, afirmando serem estas «um trabalho gigantesco para as nossas possibilidades», referindo-se à insuficiência de meios técnicos e humanos que dispuseram para a concretização desta proposta da agenda revolucionária. «Foi uma das nossas debilidades fundamentais» - afirmava.

Num dos muitos cartazes que desenhou [...] João Abel Manta pareceu representar a «esperança e a confiança» que Vasco Gonçalves depositava nesta iniciativa ao atribuir-lhe uma centralidade no célebre cartaz MFA-Vasco-Povo. Povo-Vasco-MFA (1975), onde surge ladeado por duas figuras híbridas meio soldado, meio povo, reforçadas pela frase «Força, Força Companheiro Vasco / Nós Seremos a Muralha de Aço». E foi da seguinte forma que Vasco Gonçalves se referiu a este cartaz: «O cartaz é muito terno, eu era o companheiro Vasco, mas para certo sector da população, não para o país».






Fonte: Texto de Sónia Vespeira de Almeida, com base em entrevista a Vasco Gonçalves (2002) no âmbito da sua tese de doutoramento em Antropologia; inserido no folheto comemorativo da homenagem a Vasco Gonçalves, realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 21 de Outubro de 2006.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Homenagem ao General Vasco Gonçalves (1922-2005)



Sábado, 21 de Outubro de 2006, às 15h30

Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa

Alameda da Universidade




Um grupo de cidadãs e cidadãos civis e militares, amantes da Liberdade e da Democracia, constituiu-se em Comissão Promotora de homenagem ao antigo Primeiro-Ministro de Portugal nos II, III, IV e V Governos Provisórios.

A passagem do primeiro aniversário da morte do General Vasco Gonçalves é o momento oportuno para reflectirmos sobre a sua figura ímpar, a sua dimensão ética, moral e política, o seu exemplo de dedicação ao País e aos portugueses, a sua simplicidade e transparência e sobretudo a sua luta por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Recordemos o homem íntegro, o cidadão excepcional, o militar corajoso e o político totalmente dedicado à causa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos.


Momento Cultural com:

Fausto Neves (pianista)


Manuel Freire

Maria do Céu Guerra

Coral dos Mineiros de Aljustrel

Coral Catarinas de Baleizão

Coro da Academia dos Amadores


Intervenções de:

Prof. Doutor Barata Moura

Coronel Vicente da Silva

Dr Vasco Gonçalves Laranjeira (neto do General)