quinta-feira, outubro 15, 2009

In Memoriam de Ramiro Correia

Ramiro Correia e Martins Guerreiro, «capitães de Abril»

No dia em que faria 72 anos, gostaria de recordar este generoso «capitão de Abril», uma das peças fundamentais no xadrez da Revolução de 25 de Abril.
Membro da Comissão Coordenadora do Programa do MFA da Marinha, fez parte da Junta de Salvação Nacional a partir de 3 de Maio 74; membro da 5ª Divisão do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que dirigiu, coordenador principal da Comissão Dinamizadora Central (Codice) e membro do Conselho da Revolução, a Ramiro Correia se deve essa grande iniciativa do MFA depois do 25 de Abril: a dinamização cultural junto do povo português, através das Campanhas de Dinamização Cultural e Esclarecimento Cívico do MFA por si idealizadas e postas em prática.

Participa na elaboração do Documento-Guia do Projecto da Aliança Povo-MFA, aprovado pela Assembleia do MFA em 8 de Julho de 1975. É autor ainda de «MFA-Dinamização Cultural e Acção Cívica», testemunho vivo da experiência das diversas campanhas, de como se procuraram adaptar aos condicionamentos locais, às populações e aos seus problemas. De como os artistas da nossa praça (cantores, pintores, musicos, actores) conseguiram levar a cultura a locais e populações que nunca antes tinham tido qualquer contacto a esse nível.

Depois de ter sido «expulso» do Conselho da Revolução por «redução de efectivos» e de lhe ter sido retirada a direcção da 5ª Divisão, foi desgraduado do posto de capitão-de-mar-e-guerra por uma portaria do Conselho da Revolução em 21 de Outubro. Cerca de um mês depois dá-se o 25 de Novembro e logo a seguir a Codice é extinta juntamente com as últimas campanhas de dinamização.

Perseguido pelo poder emergente do 25 de Novembro, e depois de uns meses durante os quais escreveu «MFA e Luta de Classes», Ramiro e a familia seguem para Maputo onde são colocados (ele e mulher, médicos) no Hospital Central. Como ele próprio disse na altura: «Moçambique aparece-me no horizonte como experiência de solidariedade internacional».

E foi ali, no dia 16 de Agosto de 1977, quando toda a família passeava na Baía do Bilene, que o barco se virou e todos morreram, excepto o filho mais velho, Ramiro Bernardino, que conseguiu nadar para terra.

No dia 12 de Outubro de 1977 os corpos de Ramiro, Isabel e Nuno chegam a Lisboa e ficam em câmara ardente na capela de S. Roque, no Ministério da Marinha, no antigo Arsenal. Em recolhimento, ladeando as urnas, entre os avós e restantes familiares e amigos, o pequeno Ramiro Bernardino, de 9 anos, recordava incrédulo «... a minha mãe pode ser que esteja aí, porque a vi a boiar, mas o meu pai e o meu irmão não estão... Quando o meu pai me mandou embora para terra ele vinha a nadar com o meu irmão às costas. Às vezes olhava para trás e via o meu irmão agarrado ao pescoço do meu pai...»
No dia 13 de Outubro, cerca das 17,30 horas, o cortejo fúnebre seguiu a pé direito ao Alto de São João, parando em Alfama que o viu nasceu, e por entre uma multidão que engrossava e fundia no mesmo pesar militares e civis, cantava-se «Grândola Vila Morena», «A Portuguesa» e gritava-se «MFA». «MFA», «MFA».

Mário Soares, então primeiro-ministro do I Governo Constitucional, não compareceu nem se fez representar. Portugal, a nível institucional, esteve ausente nas cerimónias fúnebres desde militar de Abril. O que levou Manuel de Azevedo a escrever no Diário de Lisboa, em 15 de Outubro:

«Caro amigo: eu estive no funeral de Ramiro Correia e vi as lágrimas correr. Eu vi as lágrimas correr dos olhos do povo. Eu vi as lágrimas. Caro amigo: eu estive no funeral do capitão de Abril morto num acidente nos mares de Moçambique (...)
Caro amigo; eu estive no funeral do ex-conselheiro da Revolução e não o vi a si. E dói-me, dói-nos a todos os antifascistas que continuam a sê-lo, que você lá não estivesse. E contudo Ramiro Correia era um homem dos homens de Abril a quem você deve poder ter sido primeiro-ministro do primeiro Governo Constitucional. E contudo você esteve no funeral do cardeal Cerejeira, o companheiro e mentor de Salazar.
Não basta, no dia 5 de Outubro, dar vivas à República, e ao 25 de Abril. É preciso viver-se no dia a dia a Revolução de Abril.»


Manuel Begonha, no elogio fúnebre:
«Era um homem que desprezava a vaidade. Tolerante, era ao mesmo tempo, implacável para quem, responsavelmente, tentasse perpetuar o estado de aviltação do povo português. Era, aliás, um homem simples e cativante, de uma estatura intelectual e humana invulgares. Ramiro Correia morreu, mas o seu espírito, o seu exemplo, a sua obra, continuarão a iluminar as noites do nosso desencanto»

Fernando Piteira Santos:

«Homens como Ramiro Correia são sementes do Futuro»

João Varela Gomes:

«No retrato que nos fica de Ramiro Correia não há a mais pequena mancha de traiçoeira ambiguidade, o mais ligeiro tremor de vacilação. Fita-nos de frente, com um olhar cristalino de água, o sorrir prevenido e levemente amargurado do revolucionário lúcido e experimentado. Despedimo-nos do nosso companheiro, irmão tão breve que foi.
(...) O teu exemplo, esse permanecerá herança do Povo Português, dos Povos do Mundo, legado precioso e fecundo de um HERÓI DO NOSSO TEMPO. E nós nomearemos o tempo, como tu nos exortas a fechar o teu livro.»


Martins Guerreiro:
«Ramiro Correia deixou-nos uma proposta e uma experiência. Cabe-nos agora extrair os ensinamentos dessa experiência e aceitar essa proposta: contribuir para a transformação da qualidade de vida do povo português, afirmando a sua cultura e capacidade. No seu legado contam-se as sementes bastantes para que a Revolução Cultural e a das mentalidades se tornem uma realidade. Algumas dessas sementes estão já a germinar, e novas plantas crescem no terreno fértil do Povo. Depende de todos nós fazê-las florir.»


Dados Biográficos:
Ramiro Pedroso Correia nasceu a 15 de Outubro de 1937 na Rua do Salvador 18-1º, em Alfama, mas cedo os pais, Bernardino Correia e Fernanda Rosa Pedroso Correia, mudaram para a Rua Sousa Viterbo, 23-2º Dto, ao Alto de São João, onde decorreram a infância e a adolescência do jovem Ramiro.

Faz o 7º ano no Liceu Gil Vicente, sendo um grande activista desportivo. Frequenta o 1º ano de Medicina em Lisboa, passa depois para Coimbra, e termina o curso em Lisboa, em 1966, já depois de casado com a também médica Isabel Lacximy, de que vem a ter dois filhos: Ramiro Bernardino e Nuno Ramiro.

Em finais de 1966, já depois de formado, ingressa na Marinha com o posto de segundo-tenente na classe dos médicos navais, tendo estagiado na Escola Naval e no Hospital de Marinha. Mais tarde parte para Moçambique a bordo da fragata Álvares Cabral. É promovido a primeiro-tenente em Janeiro de 1970. Desembarca em Angola, em Março de 19771, e presta serviço como médico em Santo António do Zaire.
Publicou, em 1973, um livro de poesia «Na Clivagem do Tempo».

«A ponte é estreita
rapazinho negro
Mas dá bem para nós dois
lado a lado.
(...)
A ponte não é estreita
E há-de ligar-nos no Futuro»


Aderiu ao Movimento dos Capitães no inicio de 1974.

Bibliografia:
Ramiro Correia, Soldado de Abril, por Eduardo Miragaia, Joaquim Vieira e Manuel Vieira, editado por FRASE - Cooperativa Editora, SCRL, s/d

3 comentários:

Paula Raposo disse...

Não conheci Ramiro Correia, mas pelo que aqui li esta parece-me uma excelente homenagem a um Homem que muitos não se recordam. Beijinhos.

Conceição disse...

K bom vires e dizeres coisas que na lembrança se esvaiem.
Bj
Luz e paz em teu redor e k a saúde esteja bem

Valdemar disse...

Apesar da tentativa para que os militares não estivessem presentes "sabendo-se mesmo de ameças intimidatórias", e muito menos fardados e tudo fizeram para evitar que seguissemos a pé.
Em todo a minha vida e já lá vão quase sete décadas foi onde senti uma dor terrivel pelas perdas, mas uma enorme felicidade da resposta que naquele dia demos a todos os contra-revolucionários.
Se o seu filho continuar a viver pode sentir-se honrado pelo dotes humanos de seu Pai.
Tenho na memória porque segui junto ao carro fúnebre.
Onde todos quizemos prestar a nossa justissima e não última homenagem, porque essa fazemo-la eternamernte.