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domingo, novembro 02, 2008

A tanto chegava a abjecção!

(uma visita aos arquivos da PIDE/DGS)
Ali estava ele na ampla sala de leitura da nova Torre do Tombo, à espera que lhe trouxessem os documentos requisitados. Consultava, finalmente, o seu processo nos arquivos da PIDE/DGS. (...)
Pessoalmente não tinha nenhum prazer em regressar a esse mundo da PIDE/DG, que só muito palidamente aflora nos seus arquivos.
Sim, lá não estão: o suplicio da tortura, as dores dos espancamentos, as alucinações da privaçao do sono, a angústia da incomunicabilidade sem fim, o medo dos interrogatórios feitos por uma roda de esbirros, o pesadelo dos longos anos de prisão, a permanente incerteza do dia de amanhã para quem caia nas garras dos torcionários e para os que viviam permanentemente perseguidos por eles, como acontecia com os clandestinos.
Bastou-lhe, no entanto, o propósito de consultar os arquivos, as formalidades para proceder à consulta e o período de espera que estava agora a viver, para que tudo isto lhe viesse a pouco e pouco à memória. Nunca tivera pressa de saber o que se dizia lá a seu respeito, ao contrário de outros que correram à Antonio Maria Cardoso «para consultar a ficha» (...) talvez por que tinha a consciência absolutamente tranquila quanto ao seu comportamento sempre que enfrentara aquela máquina de terror e de desonra e, além disso, não tinha a menos espécie de vocação masoquista. Ou seria antes por que se entregou de alma e coração à revolução, muito mais virado para o futuro que se queria construir, do que para o passado que se devia soterrar para sempre?
(...)
A primeira peça que o interessou foi um volume que constituia o auto das apreensões feitas pela Pide de uma das vezes que lhe assaltara a casa. Lá estavam alguns raros jornais e folhetos clandestinos, pois tinha o cuidado de não os guardar depois de lidos, mas muitos manifestos, declarações, apelos, tarjetas, selos dos movimentos oposicioistas, legais e semi-legais, rascunhos de artigos da sua autoria, versando matéria mais ou menos política. Achou óbvias estas apreensões. A sua indignação começou quando deparou com um diploma de curso, cuja falta lhe causara os maiores transtornos profissionais. Procurara-o por toda a parte, inclusivamente em casa dos pais e dos avós, nunca pensando que pudesse ter sido objecto de apreensão pela PIDE.
- Com que direito! - interrogou-se interiormente, mas era tanta a veemência da sua pergunta que deve ter produzido alguns sons, pois vários rostos se viraram, com expressa reprovação, na sua direcção.
O espanto indignado que começara a possui-lo não cessava de aumentar à medida que ia encontrando cartas pessoais da mulher, da mãe, dos amigos tratando questões familiares, as mais pessoais e íntimas, mesmo sobre doenças, partilhas, situações afectivas - tudo o que a devassa pidesca abocanhava.
- Com que direito? - Era a pergunta que lhe vinha das entranhas e que tinha de sufocar para não perturbar os restantes leitores.
Não conseguiu ficar sentado, quando, entre muitas outras fotografias, apreendidas, deparou com vários retratos do irmão, já então falecido, dispostos numa fila, com vistas de vários ângulos, como a indicar que se tratava de um elemento suspeito.
(...)
Veio-lhe então às mãos uma peça que continha um conjunto de cartas de «bufos» com denúncias sobre uma viagem que em certa altura fizera ao Algarve, para visitar os pais e outros familiares. Davam informações precisas das terras onde tinha estado, o que fizera, pessoas com quem se tinha encontrado.
Um das cartas informava da descida do Guadiana que tinha feito num barco de carreira - o «gasolina» - que então estabelecia ligação entre Mértola e Vila Real de Sto Antonio, acostando a Alcoutim e parando ao largo de outras povoações ribeirinhas. Referia, velhacamente, como «contactos», as conversas que tivera a bordo com diferentes pessoas, indo ao ponto de identificar algumas delas. Nunca podia ter imaginado que fosse seguido com esta minúcia pelas forças policiais. Os «bufos» algarvias deviam ter sido alertados por ordens de Lisboa.
- Caramba, como o nosso país estava minado! - Comentou para si.
Viu então a última carta do conjunto. Era um «bufo» que o denunciava como tendo participado e dirigido uma reunião em Aljezur. Tratava-se de uma rematada mentira, não estivera em Aljezur, nem de lá se aproximara, nessa viagem.
Ali estava a confirmação de como os «bufos» ao serviço da PIDE, além de denunciarem o que escutavam, observavam ou que de qualquer forma conheciam, faziam também denúncias que sabiam ser falsas, chegando a enganar os comandos repressivos, por razões de pura vingança contra os denunciados ou para mostrarem serviço, os que recebiam subsidios regulares, ou ainda para ganharem mais algum, os que eram pagos à peça, por denúncia apresentada.
- A tanto chegava a abjecção! (...)


Carlos Brito, águas do meu contar, campo das letras, 2002




sexta-feira, fevereiro 24, 2006

SOMOS TODOS ARGUIDOS !



logo de João Tito Basto







No dia 5 de Outubro de 2005 um conjunto de cidadãos concentrou-se frente à antiga sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, protestando contra a intenção de apagar da memória dos portugueses aquele espaço onde tanto mal foi infligido a milhares de homens e mulheres resistentes antifascistas.
 
Protestávamos contra a transformação do edifício num condomínio de luxo fechado.

Protestávamos pela história do edifício que se pretende apagada, silenciada.

Protestávamos porque as vozes das inúmeras vítimas assim nos exigiam e exigem.

Protestávamos, porque em vez da sede da polícia política e palco de torturas, aquele edifício passou a ser um antigo palácio da nobreza, palco de faustosos eventos, cujo historial termina, gloriosamente, com a conspiração de 1640. Tal a versão apregoada no site da imobiliária PAÇO DO DUQUE.

Como se a partir de 1640 o edifício da Antonio Maria Cardoso não tivesse uma História tenebrosa!

Para lutar por esta causa foi constituído o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

Há dias dois membros do nosso movimento - o "Capitão de Abril" Duran Clemente e João de Almeida -, foram convocados pela PSP para prestar declarações sobre a sua participação naquela concentração do dia 5 de Outubro, tendo sido ouvidos no início da semana e constituidos arguidos.

Mas não foram apenas dois os elementos do NAM que estiveram frente à ex-sede da PIDE/DGS no dia 5 Outubro 2005. Não são apenas dois os arguidos. Somos Todos Arguidos!

Por estas razões os membros deste movimento decidiram convocar uma conferência de imprensa a fim de denunciarem esta manobra claramente persecutória e intimidatória para com os cidadãos que integram este movimento que cresce dia após dia.

Abaixo segue a nota enviada à imprensa.




Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!" Convoca Conferência de Imprensa:

Convidamos os Órgãos de Comunicação Social para participarem na Conferência de Imprensa a realizar sexta-feira, dia 24 de Fevereiro 2006, às 18 horas, na Sede da Associação 25 de Abril - Rua da Misericórdia, 95, Lisboa - tendo como finalidade denunciar a inqualificável atitude persecutória das autoridades policiais sobre dois membros do Movimento Cívico "Não apaguem a Memória!" (o "capitão de Abril" Duran Clemente e João Almeida) e informar sobre os princípios orientadores e actividades deste Movimento. Os cidadãos referidos estarão presentes nesta Conferência de Imprensa.