terça-feira, maio 09, 2017

João Abel Manta: o artista resistente






«Foram dois indivíduos extremamente importantes para a minha formação mental, o Zé [Dias] Coelho e o João Abel [Manta]; dois líderes naturais (...) um pela consciência política, o outro pela grande cultura»
Rolando Sá Nogueira





Falar de João Abel Manta é recordar uma geração que, no período após a Segunda Guerra, forjou um combate militante ao «Estado Novo» e aprendeu a resistência dos actos, das palavras e do silêncio. Num tempo em que a cultura subvertia e incomodava.

Fixemo-nos em 1945, ano em que finda a Segunda Guerra Mundial e surge o movimento oposicionista MUD - Movimento de Unidade Democrática, e também o ano lectivo (45-46) em que o futuro arquitecto ingressa na escola de Belas-Artes de Lisboa no velho casarão de São Francisco, onde o jovem de 17 anos vai encontrar um ensino obsoleto e um ambiente asfixiante, que desprezará, mas onde vai iniciar um ciclo de encontros, partilhas, lutas e emoções que irão consolidar o homem e o cidadão João Abel Manta.

Um curriculum idêntico ao primeiro ano de pintura, escultura e arquitectura aproxima-o de colegas com cadeiras em atraso[i] como Jorge Vieira, Francisco Castro Rodrigues, Duarte Castel-Branco, Rolando Sá Nogueira e José Dias Coelho, criando um grupo de amigos que dará origem a “uma verdadeira tertúlia (...) onde cada indivíduo contribuía com a sua curiosidade e com o seu saber para o conhecimento do grupo inteiro”.[ii]

João Abel já então detinha, pelo berço e pelo convívio[iii], uma enorme cultura nas áreas das artes plásticas, música, cinema e literatura, pelo que a sua preponderância no grupo surge naturalmente. Nas palavras de Sá Nogueira, um dos seus grandes amigos:   “eu costumo dizer que li o Eça de Queirós por causa do João Abel Manta (...) Em miúdo não lia, mas com os meus amigos, nas nossas tertúlias, li o Eça e muitos outros autores porque eu próprio concluí ser necessário, e passei a ter prazer na leitura (...) O mesmo com a música.
Outra particularidade o distingue: as viagens anuais que com os pais faz a Paris e outras cidades europeias de onde regressa carregado de livros e revistas que aqui não existem, e que passam de mão em mão entre os amigos. Será, pois, nestas tertúlias que se vão fomentando gostos e criando hábitos culturais e de convívio, que suprirão, em parte, as lacunas escolares e até familiares de muitos deles.

No grupo, enquanto João Abel prevalecia pela cultura, José Dias Coelho impunha-se pela acção cívica e política e teve, conforme Sá Nogueira, “uma importância muito grande na formação cívica do grupo, porque estava sempre a espicaçar” assumindo a “função de alertar os outros” e levá-los a agir enquanto cidadãos.

J Abel Manta com J Dias Coelho e R Sá Nogueira


O MUD Juvenil é formado em Julho de 46 e a sua organização em Comissões nos diversos estabelecimentos de ensino estendeu-se também a Belas-Artes[iv], tendo-se iniciado aí os maiores esforços  para revitalizar a associação académica que estava inactiva desde os anos trinta. Foi eleita uma pró-comissão abrangente que trabalhou com empenho na discussão e aprovação dos respectivos Estatutos que, lamentavelmente, a tutela nunca homologou. Criou-se no entanto uma dinâmica que jamais se apagaria, tendo Belas-Artes integrado nesse mesmo ano a primeira Festa da Queima das Fitas comum a toda a academia de Lisboa quebrando o velho hábito dos festejos isolados.



Alunos de Belas Artes no final do ano lectivo 1945-46 (JAM é o 3º da 1ª fila a contar da direita)






Belas-Artes no final do Cortejo da Queima das Fitas em 1946 (JAM está na última fila só aparecendo a cabeça)




O ano de 1947 será paradigmático da resistência dos jovens ao regime de Salazar e para a História ficam as violentas repressões ocorridas na Semana da Juventude (Março) e no assalto pelas polícias à Faculdade de Medicina[v] (Abril), onde os estudantes se reuniam em protesto e solidariedade com os camaradas do MUD Juvenil perseguidos e encarcerados. É neste contexto que João Abel concebe o desenho “Natal de 1947” assinado apenas JA (João Abel) para angariação de fundos que revertessem em apoio aos valentes jovens mudistas.



O original foi oferecido pelo autor ao amigo Dias Coelho e este, ao entrar para a clandestinidade, em 1955, ofereceu-o a uma amiga, Lia Fernandes, que ainda o conserva



Ainda nesse ano, participa na II Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP), assistindo à violência da PIDE que invade a SNBA e apreende onze obras de dez neo-realistas, só as devolvendo com a exigência de não mais voltarem a ser mostradas em público.[vi] 
Virá a participar em todas as EGAPs (1946-56) tal como pertencerá aos corpos directivos da SNBA e aos do seu Sindicato (Arquitectos). Igualmente será um dos fundadores e membro activo da cooperativa GRAVURA formada em 1956.
Hoje as EGAPs estão esquecidas. E, no entanto, não subsistem dúvidas de que as mesmas configuraram “o primeiro combate organizado pela oposição ao Salazarismo”[vii] precisamente pela “consciência que trouxeram aos artistas da recusa de expor no SNI”[viii] e ainda pela frente cívica que constituíram e as sensibilidades que juntaram.
À distância, tendo presentes as discussões que se seguiram entre neo-realistas e surrealistas e o desespero aqui evidenciado pelo regime, é legítimo concluir que, por mais ingénua que haja sido a sua formulação, o neo-realismo foi a linguagem certa para o momento certo, a mais incomodativa e aquela que, pelo seu sentido pragmático, na feliz expressão de Ernesto de Sousa, melhor atingiu os objectivos da oposição. Como dissera Álvaro Cunhal num escrito elaborado na Penitenciária e publicado na revista Vértice, sob o pseudónimo de António Vale, o conteúdo haveria de dominar a forma.

 
Jantar de alguns artistas participantes na II EGAP, Maio 1947


Num período propício à formação de movimentos cívicos e culturais como o campismo e o cineclubismo, por exemplo, é criado em Lisboa por iniciativa de José Ernesto de Sousa e outros jovens, o Círculo de Cinema que, entre outras actividades, editava um Boletim. Pelo seu imenso activismo o clube torna-se suspeito e, quando a PIDE assalta a sede e prende alguns membros, apreende também um Boletim em fase de composição no qual se noticia o nome de todos os dirigentes, incluindo João Abel Manta que co-dirigia essa publicação[ix].
Acresce ainda que a sua morada já andava a ser vigiada por servir de recepção de correspondência (que entregava a Dias Coelho) e o seu quarto, “que até tinha uma porta que dava directamente para o patim da entrada” era utilizado para reuniões clandestinas, a pedido do amigo Zé Coelho.

E foi assim que pelas 00:30 da madrugada do dia 1 de Fevereiro de 1948, João Abel é preso pela PIDE na casa dos pais — Rua Tenente Valadim (actual Infante Santo) 362-2º Esq. — e levado para a prisão de Caxias por “fazer parte de uma organização clandestina”.[x]  Tinha 20 anos, acabados de fazer no dia anterior, 29 de Janeiro.


Ficha da PIDE de João Abel Manta (apesar do mau estado é um documento importante)


Em Caxias, começa por ser colocado em companhia dos cineclubistas mas “eles acabaram por sair primeiro e eu fiquei lá sozinho na cela”. Os interrogatórios na sede da PIDE são de extrema violência psicológica com o famigerado Fernando Gouveia a exigir nomes. Para não colocar em perigo gente ainda não assinalada pela polícia, como Dias Coelho, cita alguns membros do Juvenil que estiveram ou ainda se encontravam presos. Fisicamente não foi torturado: os agentes tratariam com alguma deferência uns tantos que consideravam serem filhos-família.

A Direcção [Universitária] Provisória do MUD Juvenil emite um comunicado apelando à unidade e ao protesto, afirmando que “a defesa dos nossos amigos presos é a própria defesa do Movimento”, ao mesmo tempo que um abaixo-assinado de solidariedade para com João Abel é posto a circular na Escola de que era aluno mas sem grande êxito porque “entre os colegas do meu curso [arquitectura] houve uma série de gente que recusou assinar com medo do «Cunha Bruto»”, o professor que tutelava duas cadeiras fundamentais do curso e que todos os alunos temiam. No entanto houve um número restrito que não se deixou intimidar e corajosamente protestou junto da PIDE pela prisão do colega: José Dias Coelho, Rolando Sá Nogueira e Nuno Craveiro Lopes

 
Nuno Craveiro Lopes, colega e amigo de JAM, que fará toda a vida profissional em Lourenço Marques (Maputo) e faleceu antes de Abril 74


É solto a 14 de Fevereiro de 1948. Sobre a reacção familiar, recorda que o pai Manta, apesar de oposicionista, “não gostou que eu tivesse sido preso, achava um bocado inútil essas coisas (...) mas a minha mãe reagiu extraordinariamente e deu-me todo o apoio” - ou não fosse Clementina Carneiro de Moura uma digna subsidiária da ética republicana.[xi]

A polícia política não mais o largaria. Mas João Abel Manta nunca deixará de intervir socialmente, sobretudo quando estão em jogo as causas da cultura.

Quando em 1959 morre Diogo de Macedo e o regime nomeia o pintor Eduardo Malta para o substituir na direcção do Museu de Arte Contemporânea, João Abel afirma publicamente: “Com Diogo de Macedo sempre trilhámos os caminhos da arte do nosso tempo, mas agora teremos certamente de lutar contra todos os preconceitos e ameaças que nos vão tolher os passos”[xii]. Essa luta contra o conhecido academismo de Malta ficou expressa numa das várias representações então dirigidas ao ministro da Educação Nacional, discordando da nomeação e sugerindo/exigindo que fosse substituído.[xiii]

Várias obras de João Abel foram censuradas e o auge acontece já na época marcelista com a acusação de ridicularizar a bandeira portuguesa num cartoon publicado no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa de 11.11.1972 e, por isso mesmo, levado à barra do Tribunal. O desenho apresentava uma bandeira nacional sem a totalidade dos atributos e, no centro, por sob a esfera armilar, uma cabeça de mulher, supostamente a cantar. Era óbvia a crítica aos habituais festivais da canção de onde os artistas de maior qualidade estavam arredados. 


O cartoon que irritou Marcelo



Viu-se obrigado a pagar uma fiança para aguardar julgamento em liberdade e em Junho de 73 quando o processo finalmente foi concluido, com a sua absolvição, foi afirmado pelo advogado de defesa, José Carlos de Vasconcelos:
“Este não foi o processo de João Abel Manta – mas o processo dos seus próprios denunciantes, da censura, do fascismo (...) É portanto um processo político, que leva ao extremo do ridículo a farsa da pseudoliberalização marcelista (...) e é também um processo que felizmente chegou até este tribunal (...) cuja única sentença condenatória será, na consciência de nós todos, homens livres, para o regime que trouxe para este banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Manta.” [xiv]

O 25 de Abril de 1974 chegaria a tempo de João Abel Manta não voltar a ser incomodado pela polícia política, desta feita pelos desenhos do livro Dinossauro Excelentíssimo que produziu com o amigo José Cardoso Pires, e que ficaria para a posteridade, a par com as suas Caricaturas Portuguesas do Tempo de Salazar, como a mais lúcida e feroz denúncia dos cinquenta anos de obscurantismo vividos no nosso país.




Julia Coutinho

Nota:  este artigo, com ligeiras alterações, foi publicado no catálogo de uma Exposição realizada pela CM Amadora, em 2008, pelos 80 anos de vida de João Abel Manta.
 


[i] João Abel Manta foi dos raríssimos alunos (se não o único) a fazer o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, sem atrasos. As razias eram em Geometria Descritiva ou em Desenho Arquitectónico (1º ano) e Construções (4º ano) de Luís Alexandre da Cunha, o “Cunha Bruto”, que também foi director da escola. Ficaram célebres as debandadas para a Escola de Belas-Artes do Porto, para fazer as cadeiras deste professor.
[ii] Rolando Sá Nogueira, entrevista à autora, em Março.2001. Todas as citações de RSN são desta fonte.
[iii] A Família Manta convivia com Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Dordio Gomes, Keil do Amaral, Gualdino Gomes, Lopes-Graça, Bernardo Marques, Bento Jesus Caraça, Pulido Valente, e muitos outros.
[iv] Pertenceram à Comissão do MUD Juvenil da Escola de Belas-Artes de Lisboa, entre 1946-1952, J.Dias Coelho, J.Abel Manta, R.Sá Nogueira, Jorge Vieira, Lima de Freitas, Nuno Craveiro Lopes, Alice Jorge, F. Castro Rodrigues, M.Emília Cabrita, Raul Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, António Alfredo, M.Cecília Ferreira Alves, Bartolomeu Cid, A. Sena da Silva, Lia Fernandes, Tomás Xavier de Figueiredo,  etc.
[v] Em 29.04.1947 com prisões e agressões indiscriminadas. Na sequência, Salazar demitiu grande número de professores do ensino superior, nomeadamente o director da Faculdade de Medicina.
[vi] Foram 10 as EGAP´s, entre 1946-1956. A invasão da Pide deu-se a 13.05.1947 pelas 13 horas, e as obras apreendidas de Júlio Pomar, Avelino Cunhal, Viana Dionísio (José Viana) José Chaves (Mário Dionísio), Maria Keil, A.Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares e Rui Pimentel (Arco).
[vii] António Valdemar, “SNBA: continuidade e ruptura”, DN 18.03.2001
[viii] João Abel Manta, entrevista à autora em 22.08.2002. Todas as citações de JAM são desta fonte.
[ix] A sede funcionava na Rua B às Amoreiras 4-1º Dto – Lisboa, das 21.30 às 24 horas, em casa alugada para o efeito e inaugurada em 10.11.1947. O assalto da PIDE deu-se em 31.01.1948.
[x] Conforme Registo Geral de Presos e Processo  ANTT/ PIDE/DGS 214/48 – NT 4956
[xi] Abel Manta (pai) foi muito maltratado pelo regime. Em 1932, concorre à Escola de Belas Artes de Lisboa para professor de Pintura, sendo preterido por Henrique Franco, num processo muito pouco claro, de que recorreu. Um ano depois, Henrique Franco demite-se e, em vez de ser chamado o segundo classificado no concurso, o regime nomeia Varela Aldemira que fora discípulo de Columbano.  Já em 1939 Abel Manta e Dordio Gomes haviam sido chamados para decorar a escadaria principal do Palácio de S. Bento. Por questões estéticas, são dispensados quando as obras se encontram quase prontas, sendo as mesmas destruídas e ambos substituídos por Lino António, numa humilhação sem precedentes apesar de terem sido indemnizados.
[xii] Lista da PIDE com declarações públicas dos artistas plásticos e assinalando, de entre eles, quais os que se encontravam representados no Museu de Arte Contemporânea.
[xiii] A acção de Eduardo Malta (1900-1967) à frente do Museu de Arte Contemporânea revelar-se-ia catastrófica, a todos os níveis, como já foi publicamente admitido. Após o incêndio do Chiado seria o edifício objecto de requalificação profunda, reabrindo em 1994 como Museu do Chiado.
[xiv] J. Carlos Vasconcelos, «Cartoons» que abalaram o fascismo  e fizeram sorrir a revolução», in O Jornal de 19.12.75, pp. 20-21.



Joaquim Pessoa: o amor-combate







Joaquim Pessoa (Barreiro, 1948) é um poeta há muito arredado do nosso convívio.  Não se edita, não se lê, não se escuta. Das gerações mais novas, quem o conhece? Mas ficará na História como um dos autores mais interventivos de Abril. Pouco importa que alguns eruditos o considerem «poeta menor». Para mim e para muitos outros Joaquim Pessoa será sempre a voz do Amor-Combate dos tempos do PREC.


AS PALAVRAS DO MEU CANTO

Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
porque são a razão de quem as sente.

Palavras. Todas elas do meu povo.
Amigas. Companheiras. Namoradas.
E são o canto antigo. O canto novo
de quem não as quer ver amordaçadas.

Palavras que são vento. E tempestade.
Palavras que são sol. E são abrigo.
Verdade. Amor. Poema. Liberdade.
E a palavra maior: palavra Amigo.

Palavras que são arcos. E são setas.
Com elas se defende uma canção.
As palavras são as armas que os poetas
devem fazer passar de mão em mão.

Camões lutou com elas. E por elas.
Junqueiro perfilou-as. E Cesário
abriu todas as portas e janelas
e veio à rua escrever como um operário.

As palavras do sangue. Essas palavras
que são a tua foice. O meu poema.
Palavras de suor quando tu lavras.
De alegria se escrevo e vale a pena.

Palavras que te dizem: estou aqui.
Palavras que me doem. E que eu canto.
Palavras com raiz no meu país
e que já me doeram. Nas não tanto.

Palavras que não gosto de dizê-las
assim feridas. E tu amor não digas!
Palavras encarnadas. Estou a vê-las
em Maio que é o mês das raparigas.

São palavras de fogo. Mas não ardem.
Palavras simples. Do meu cantar de agora.
São palavras. Amigas que não partem.
E ficando resistem à demora.

Palavras que não morrem. Nunca morrem.
E são a minha voz. A minha gente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.


Joaquim Pessoa, in Amor Combate, p.107

segunda-feira, maio 08, 2017

Soneto imperfeito da caminhada perfeita



Sidónio Muralha (1920-1982) por Fernando Lemos



Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar
Ninguém teme as mordaças ou algemas

- o braço que bater há-de cansar
e os Poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.

- Eu já não me pertenço: sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas
.

Sidónio Muralha, in Passagem de Nível, «Novo Cancioneiro», Coimbra, 1942, pp.22-23

quarta-feira, maio 03, 2017

José Viana (1922-2003) e a 2ª EGAP ou de como um quadro pode tornar-se «eficaz»


Força, de Viana Dionisio, apreendido PIDE na II EGAP, 1947
José Viana, «Força», 1947
(quadro apreendido pela PIDE na II EGAP [1] -Exposição Geral de Artes Plásticas, Maio 47)
 

Com o final da Guerra, em 45, os oposicionistas acreditaram na possibilidade de uma mudança democrática para o país. Não anunciara Salazar a organização de eleições livres, «como na livre Inglaterra»?  Esta declaração levou à génese do Movimento de Unidade Democrática (MUD) após uma reunião no Centro Republicano Almirante Reis, a 8 de Outubro, e ao lançamento de listas de aderentes, que rapidamente se encheram de assinaturas, por todo o país. Pediam-se «eleições livres», sim, mas também um adiamento das mesmas que permitisse a reorganização adversária e a constituição de uma lista para concorrer às eleições. Mas Salazar não estava interessado, obviamente, e não as adiou. Pelo contrário, obrigou à entrega das listas e perseguiu todos os que as assinaram, tendo sido demitidos os funcionários públicos por traição ao célebre decreto de 1935 [2] que obrigava a fidelidade ideológica ao regime.
A partir do MUD constituiu-se a Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos, (CEJAD), e foram esses artistas e homens de cultura  que levaram a efeito as dez EGAPs (Exposições Gerais de Artes Plásticas), realizadas entre 1946-1956, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA). Tarefa árdua que exigiu empenho e luta pela conquista desta instituição, dominada até então por direcções obsoletas e refractárias a tudo o que fosse novo.  A SNBA abria-se à modernidade, passando a constituir a Casa dos Artistas, de todos os artistas, conforme os objectivos da sua formação, em 1901.
As EGAPs excluíram os habituais júris de selecção. Todos os expositores eram bem-vindos. Novos e velhos. Antigos e modernos. Por isso se chamavam gerais. Por admitirem todos os géneros artísticos, independentemente dos conceitos estéticos de cada um. O objectivo era juntar a família artística numa frente que se opusesse aos salões oficiais estadonovistas.
«Não está em causa (…) o valor (…) das obras apresentadas. Aqui surgem nomes consagrados e nomes de estreantes, obras de certo fôlego e obras que não vão além dum simples esboço. A atenção deve antes voltar-se para as intenções da exposição, para a afirmação deste desejo de cooperação,  para esta necessidade de unidade que a Arte hoje exige em seu favor e aqui irmana artistas tão diferentes e tão afastados até agora.»[3]
 
Mário Dionísio virá a corroborar esta ideia central de unidade, em 1975: «À CEJAD [pertenceram] muitos artistas, de todas as idades e tendências estéticas e ideológicas. De um dia para o outro, esses artistas compreenderam que, por mais importantes que fossem as diferenças que os separavam, (…) algo de comum os unia. Que, além de impressionistas ou naturalistas, surrealistas ou neo-realistas, eram também anti-fascistas e que, sem prejuízo das suas posições próprias no campo da arte, (…) o seu lugar era ali, na grande frente enfim formada contra o inimigo (…) de nós todos.»[4]
Uma exigência se impunha como se um «pacto de honra» unisse a todos:
«a de não ter exposto nunca no SNI[5] ou de não voltar a lá expor a partir daquela data»[6]  
Aboliram-se também as tradicionais presenças do Presidente da República e seus acólitos, nas inaugurações. As portas da SNBA abriram-se, simplesmente, a todos que quisessem fruir das obras de arte e dos seus autores. Os objectivos eram claros e vinham consignados desde o primeiro certame, reafirmados no catálogo do segundo:
«aproximar a arte do povo. (…) trazer ao povo as várias linguagens das artes plásticas, lado a lado, para que ele aprecie e lhes descubra as mútuas relações; trazer ao povo uma mensagem de amizade e solidariedade».[7]
A primeira EGAP, em Julho de 46,  juntou 93 artistas e teve inusitada afluência de público. A segunda, em Maio de 1947, reuniu um número maior de expositores e de obras, mas, então, já o clima social estava ao rubro. Particularmente agitado, o ano de 47 foi palco de acesas lutas políticas, nas escolas e fora delas, por parte dos jovens do MUD juvenil [8], fortemente implantado entre os estudantes. Proibida a Semana da Juventude, que haviam programado para Março desse ano, todas as iniciativas culturais dos jovens mudistas viriam a ser impedidas, muitas delas por intervenção policial violenta. As prisões sucederam-se e, a pouco e pouco, todos os dirigentes daquele movimento juvenil foram parar ao  Aljube e a Caxias[9].
Ao MUD e ao MUD Juvenil, e, por conseguinte, à CEJAD (Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos), pertenciam os artistas reunidos nas EGAP’s. Muitos deles já haviam passado pelos calabouços da polícia política e outros estavam presos, como Júlio Pomar. Apesar das conjunturas política, cultural e social serem dificílimas,  apesar das perseguições e das cisões que foram ocorrendo, a verdade é que cada ano chegavam novos artistas militantes e, as Gerais, puderam realizar-se até meados da década seguinte, podendo afirmar-se que foi nelas que o Neo-Realismo se afirmou nas artes plásticas. Muitos nomes consagrados ali expuseram pela primeira vez. E novas abordagens estéticas e artísticas também ali foram iniciadas[10]. Era uma forma de Luta e de Resistência e, sem dúvidas, aquele foi, reconhecidamente, o «Salão da Oposição», entre 46-56.
Mas vejamos o que se passou nesta 2ª Exposição Geral de Artes Plásticas, inaugurada a 4 de Maio de 1947, um domingo,  «sem pompa e circunstância» mas com uma afluência de público nunca vista, até porque, segundo Mário Dionísio,  «ia-se à EGAP como se vai a uma manifestação. (…) era como um grande comício sem palavras».[11]
José Viana, na entrevista que concedeu a Lauro António e foi por este reproduzida no catálogo que organizou em 1997, deixou-nos o testemunho sobre a sua participação nesta 2ª EGAP ao mesmo tempo que nos situa no contexto e ambiência então vivida nas artes.
«Eu aderi ao neo-realismo e, em 1947, participo pela primeira vez numa exposição que é a Segunda Geral de Artes Plásticas, mas que é uma exposição marcadamente política. Tinha acabado a guerra, havia a esperança na democratização do regime português, pelo menos havia a esperança que houvesse possibilidades de luta, criou-se o MUD, Movimento de Unidade Democrática, do qual eu participo, e faço o meu primeiro quadro a óleo, quadro de composição, que teve honras muito grandes, que foi exposto nas Belas Artes e apreendido pela Pide[12]. Eu fiquei muito contente, era muito importante ter dado um contributo, ter atirado uma pedrada no charco.[13]

Viana tem razão. O contexto era de acesa luta política e os artistas, reunidos em torno das EGAP’s, ao perseguirem «um caminho único para a defesa da Arte (…) ameaçada (…) sob os mais diversos proteccionismos» pretendiam, fundamentalmente, atingir esse «soberano baluarte do SNI» e a sua famigerada «política do espírito» segundo Dionísio. E conseguiram-no.  Logo a 7 de Maio, o Diário da Manhã, orgão oficioso do regime, pela mão do crítico de artes plásticas, Fernando de Pamplona, na sua rubrica «Belas-Artes, Malas-Artes», denunciava: 

«Quem são os expositores? Todos ou quase todos marcados politicamente como serventuários das velhas facções fautosas da guerra civil, como inimigos declarados ou encapotados da Revolução Nacional, que salvou Portugal da desordem, da ruína e da vergonha».
E mais adiante, sobre as obras expostas:  
«sobrenadam, nesta verdadeira «salada russa», os mais característicos espécimes do anarquismo estético. Sobretudo entre os novos do grupinho, nota-se a tendência, não para a deformação expressiva, não para a audácia inovadora, mas para a disformidade, para o aleijão, para o aborto. São figuras teratológicas, são imagens de pesadelo, são rostos escaveirados de famintos e de loucos (..) um macabro cortejo de horrores, que, só por si, documenta todo um processo de perversão da sensibilidade e da inteligência.»
E depois de especificar alguns nomes, afirma:  
«sob a capa da inquietação, da ansiedade, [aqueles artistas] patenteiam a sua morbidez, a sua nevrose, o seu horror de toda e qualquer disciplina ordenadora, a sua irresistível fascinação ante o torvelinho e o negrume do caos.»[14]
Estava dado o sinal de alerta. O poder sentiu-se verdadeiramente ameaçado. No dia seguinte (8 Maio) o Presidente do Conselho «trabalhou com o ministro do Interior, Cancela de Abreu»[15] e, no dia 9, sexta-feira, na primeira página do Diário da Manhã, era lançada a grande investida contra a 2ª EGAP, com um título a sete colunas que era um primor de jornalismo:

«A Frente Popular» da Arte ou a «unidade» no pessimismo e na desordem manifesta-se numa exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes em que figuram verdadeiros burgueses e pseudo-revolucionários e em que aparecem as botas de elástico do sr. Falcão Trigoso e o modernismo de “tampa de caixa de amêndoas” fazendo fundo aos “revoltados sociais”!» 
1ª página do Diário da Manhã de 9 Maio 1947


O artigo de fundo era ilustrado por três reproduções de quadros expostos[16], sendo um deles, precisamente, a obra Composição, (mais tarde rebaptizada «Força»), de Viana Dionísio, nome por que era conhecido José Viana, acompanhada da seguinte legenda:
«Um molho de espargos e rabanetes ou tétrica imagem dos campos de concentração soviéticos? Nada, nada… são apenas revoltados sociais com muitos pés e muitos seios, pés metidos pelos seios, seios metidos pelos pés, tudo em estilo de noite de trovões pelo sr. José Maria (Viana Dionísio), que não pôs preço à sua “Composição” … talvez por o quadro ter sido feito de encomenda»
Diário da Manhã de 9 Maio 47 pg.1, quadro de José Viana


Aqui ficam alguns respigos desse longo artigo bem ao estilo «arruaceiro e grosseirão» que caracterizava aquele orgão da chamada «Revolução Nacional» salazarista:
«nunca se reuniu em Portugal tamanha colecção de monstruosidades, tão grande quantidade de atentados contra a verdadeira beleza, perpetrados na tela, no cartão ou no gesso!»

«Pergunta-se (…) qual o traço de união entre aquelas naturezas dispares, entre aquelas diferentes «concepções» de arte, (…) [próprias] dos malucos de Rilhafoles ou de espertalhões e de aventureiros que jogam no snobismo e na papalvice dos seus contemporâneos! (…) o que une – aqueles macróbios cujas telas parecem vir de além túmulo, aos jovens inexperientes que pintam em caves sem luz e certamente esgotaram a tinta vermelha no mercado (…) Gente que se considerava modernista,(…) de incrível sensibilidade acerca de «escolas» e de «épocas», aparece agora lado a lado com os «velhos» (…) em nome de uma «Unidade» que a gente não vê – mas de que não desconhece a suspeita origem!  Inimigos em arte – foi a política que os juntou! Foi o sectarismo que os uniu! Foi o ódio que os tornou irmãos!  (…) naquela babilónia de mostrengos, descobriu a «cerebração» que escreveu o prefácio do catálogo «o valor da cooperação e da unidade» – cooperação… política, unidade… na desordem[17]

E de novo se chamava a atenção para o quadro de José Viana (Viana Dionísio), entre outros:
«Nos pintores da «Exposição Geral» quando um homem (…) não foi apanhado à saída do Hospital do Rego, (…) está a quebrar cadeias de ferro (como no quadro do sr Viana Dionísio).»

E terminava:
«é esta a miséria máxima que se exibe, num insulto à verdadeira arte, na casa da Rua Barata Salgueiro!»
Estava lançado o anátema que iria, de certa forma, justificar o que veio a acontecer no dia 13 de Maio (terça-feira), pelas 13 horas, no salão da SNBA, na Barata Salgueiro.
«Ouçamos uma vez mais a voz de quem viveu os factos: 

«Pela calada da hora do almoço, quando não havia ninguém na exposição senão uma empregada, o ministro do Interior em pessoa (…) entrou pela sala dentro, na companhia de alguns amigos seus que, por natural coincidência, não eram exactamente críticos de artes mas vulgares agentes da PIDE. (…)E tanto lhe agradaram algumas das obras expostas que, sem pensar em preços ou noutras formalidades, as mandou logo levar e zelosamente arrecadar na Antonio Maria Cardoso.»[18]
 
José Viana virá a referir na entrevista que estamos a citar quando fala do quadro levado pela PIDE: «foram 13 quadros (…) [com] honras de apreensão».[19] Esta foi a versão que chegou aos nossos dias.  De facto a PIDE aproveitara a hora do almoço, sem público e com a presença apenas de uma vigilante da SNBA – Ester Branca Alvarez Lopes -, ou seja, sem testemunhas comprometedoras, para invadir a sala e retirar os quadros. Como «testemunhas legais», dois dos agentes da brigada policial – Rufina Luisa Ligo e José Ferreira.[20]
A tese de que seriam «13 os quadros apreendidos sob a acção directa do ministro do Interior» não pode ser corroborada por nós.  O processo que encontramos nos arquivos da PIDE/DGS, na Torre do Tombo, confirma terem sido 11 os quadros e 10 os seus autores:  Júlio Pomar, com Resistência; Lima de Freitas, com Guerra; Maria Keil, com Regresso à Terra; Arnaldo Louro de Almeida, com Aguarela; José Alfredo Chaves (Mário Dionísio) com Pintura; ARCO (Rui Pimentel Ferreira), com Pintura; Manuel Filipe, com Asilo; Avelino Cunhal, com O Menino da Bandeira Branca;  Nuno Tavares com duas obras: Ansiedade e Filho Morto; Viana Dionísio (José Viana) com Composição (que veio a ser denominada «Força»), e hoje pertence ao acervo do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian.
Quanto ao ter sido o ministro em pessoa a invadir a SNBA e apreender as obras, também não podemos confirmar. Não restam dúvidas que todas as operações foram desencadeadas «por ordem de Sua Excelência o Sr. Ministro do Interior», como afirmam no processo. Mas, a menos que tenha participado incógnito, o que os autos de busca e apreensão referem é que os trabalhos foram efectuados por uma brigada da polícia política chefiada por «Ferry Correia Gomes, Inspector da PIDE, [com] Mário Constâncio de Oliveira, agente da mesma polícia, servindo de escrivão».[21]
A versão propagada e, cremos, posta a circular pela empregada da SNBA, foi reforçada pela exposição que a Comissão Organizadora (CO)[22] da 2ª EGAP enviou logo no dia seguinte, (14 Maio), ao Ministro do Interior:


«Excelência,
1.       Os signatários, na qualidade de Comissão organizadora da Exposição Geral de Artes Plásticas vêm perante V Exa expor e requerer o seguinte:
2.       Chegou ao n/conhecimento que 13 (treze) trabalhos expostos nas salas da SNBA, – trabalhos que nos haviam sido confiados pelos seus autores e proprietários, para figurarem naquela exposição – foram dali retirados, ontem, cerca das 13 horas;
3.       Particularmente foi-nos comunicado que tal diligência foi levada a efeito por funcionários do Ministério do Interior;
4.       Acontece que esta Comissão é responsável pela detenção, conservação e devolução dos trabalhos ao fim do prazo da Exposição – esta encerra-se em 15 do corrente – ou pela entrega do capital correspondente ao seu preço de catálogo;
5.       Porém, e pelos factos expostos, estamos impossibilitados do cumprimento deste mandato – sem que saibamos a que atribuir tais factos ou vejamos que tal atitude seja de aceitar. Além de que:
6.       Não conhecemos fundamento ou determinante legal que permita ou justifique a apropriação, em tais condições, de obras de arte, produto e propriedade particular;
7.       Por isto, vimos perante v Exa, com o constrangimento que tal atitude impõe, requerer:
a)      que as referidas obras nos sejam entregues para que as possamos devolver aos seus proprietários;
b)      que V Exa nos queira comunicar a determinante que levou aqueles funcionários à referida apropriação, pela primeira vez verificada na História das Artes Plásticas deste país, para que,
c)       por nossa parte, possamos informar os seus Autores, das razões porque se viram privados de continuar nesta exposição.  a) Comissão de Organização»[23]
Trata-se do único documento que veicula essa versão.  Não existem no processo mais referências ao número de obras de arte levadas pela PIDE.

A direcção da SNBA, reunida no dia seguinte, é muito mais cautelosa e regista apenas:
«(…) discutiu-se o caso da apreensão pela polícia, dos trabalhos expostos no nosso salão, pela Comissão Organizadora das Exposições Gerais de Artes Plásticas, sendo por fim aprovada por unanimidade, a seguinte proposta apresentada pelo sr arq. Miguel Jacobetty:   «A Direcção da SNBA tomando conhecimento da saída, por ordem dos Poderes Públicos, de alguns quadros que se encontravam expostos na sala do rés-do-chão, da sua sede, e, portanto, confiados à sua guarda, acto este que não foi acompanhado de qualquer comunicado a esta Direcção, resolve consultar um advogado sobre a legalidade de tal apreensão, a fim de ser elucidada sobre se lhe compete tomar qualquer atitude de defesa das regalias, direitos ou interesses dos seus consócios.(…)»[24] 

Delegaram, ainda, para tratar de todas as questões, o dirigente Pedro de Aguiar, mas a PIDE exigiu, para intemediário, o presidente da SNBA, pintor Constâncio Silva.
O caso assumiu foros de ridículo com o anúncio aparecido no Diário de Notícias, de 14 de Maio:

 «Ao ladrão – Que no dia 13 roubou quadros Rua Barata Salgueiro, pede-se para enviar cautelas penhor»[25]  

 anuncio DN - 2


Tentou a PIDE  saber da autoria do mesmo junto daquele jornal mas tudo o que conseguiu foi um nome suposto,  obviamente:  «José Estêvão de Faria – Rua Barata Salgueiro 32 rc»[26]
Sabe-se, hoje, que os autores foram os então estudantes de arquitectura Joaquim Cadima e Nuno San Payo, ambos já falecidos, tendo sido o último quem redigiu o anúncio por ser ambidextro e, desta forma, poder ludibriar  as autoridades.


Enfurecida, a PIDE chamou todos os  autores dos quadros à Rua António Maria Cardoso e, um a um, obrigou-os a escrever numa folha em branco, o título do quadro apreendido, o seu nome completo e respectivo endereço, a data e a assinatura. Pretendiam comparar as caligrafias e saber se fora algum deles.

Graças a esses documentos individuais podemos saber, ao certo, quantos quadros foram levados pela polícia de Salazar e quais os seus autores. Aqui fica o correspondente documento manuscrito de José Maria Viana Dionísio, José Viana.[27]
autografo de José Viana Dionisio na PIDE - II EGAP, 47


Outro incidente preocupava a polícia: às suas mãos chegara uma cópia dum comunicado em língua francesa, assinado pelo MUD Juvenil e detalhando o caso, enviado à imprensa estrangeira; e mais uma vez o seu conteúdo serviu de mote para novo interrogatório a todos os autores.[28]  

Após o «assalto» da polícia política o público acorreu em força ao salão da SNBA. Todos queriam ver as paredes com os lugares vazios dos quadros «roubados». No entretanto, a exposição chegava ao fim sem que a devolução das obras ou qualquer informação das mesmas tivesse ocorrido. 

Recusando-se ostensivamente a reconhecer a CO (Comissão de Organização) da EGAP, o ministro despachou o requerimento enviado por esta, para a PIDE, com a seguinte informação “os quadros podem ser levantados pelos autores mas não podem voltar a ser expostos”.   

A decisão ministerial foi oficiada pela PIDE ao presidente da SNBA ignorando os membros da CO que, não se conformando, reincidiram em nova exposição a Cancela de Abreu:  

«Excelência
Os signatarios, na qualidade de Comissão Organizadora da Exposição Geral de Artes Plásticas requereram a V. Exa. em 14 de Maio de 1947, para que lhes fossem entregues os quadros retirados daquela Exposição por funcionários desse Ministério, e lhes fosse comunicada a determinante da apreensão.
Até hoje não obtiveram resposta.
Souberam porém, indirectamente, que a Polícia Internacional e de Defesa do Estado oficiara à Sociedade Nacional de Belas – a instância desta – comunicando-lhe que os quadros seriam entregues aos seus autores na Directoria da referida Polícia, não devendo voltar a ser expostos.
Muito embora continuassem aguardando a resposta ao seu requerimento apressaram-se os signatários a comunicar aos interessados a decisão da Polícia.
Sucede porém, que alguns dos autores dos quadros apreendidos não se podem deslocar à Directoria da PIDE – um por estar preso e outros por viverem longe de Lisboa e com afazeres que não lhes permitem a deslocação. Além disso e principalmente entendem que compete à Comissão Organizadora da Exposição – a quem confiaram os seus quadros – efectuar as diligências necessárias para os reaver e lhos entregar, ou pagar-lhes as importâncias correspondentes aos seus preços de catálogo.
Não pode nem quer esta Comissão eximir-se à responsabilidade da devolução dos quadros, que lhe é imputada. Julga, pelo contrário, que ela constitui um indeclinável dever, para o cumprimento do qual envidará todos os esforços.
E, porque assim o considera, vem novamente requerer a V. Exa. para que ponha termo a esta triste e lamentável ocorrência, satisfazendo o que se pedia no requerimento apresentado e aqui se repete:
1.       que as referidas obras nos sejam entregues para que as possamos devolver aos seus proprietários;
2.       que V. Exa. nos queira comunicar a determinante que levou aqueles funcionários à referida apropriação, pela primeira vez verificada na História das Artes Plásticas deste País, para que,
3.       por nossa parte, possamos informar os seus autores das razões porque se viram privados de continuar a exposição. a) Comissão Organizadora»[29]

Também esta exposição/requerimento da CO ficaria sem resposta do ministro que, no entanto, oficiaria à PIDE  com um muito elucidativo e arrogante despacho ministerial:

«Prefiro não tomar conhecimento da responsabilidade que os signatários se arrogam na organização da exposição em referência. Não lhes reconheço, portanto, qualquer direito a receberem os quadros, e muito menos a pedirem explicações.
Renovo a indicação já dada de os quadros serem entregues aos seus proprietários, com a proibição de voltarem a ser expostos.
Comunique-se-lhes novamente, marcando prazo curto para a retirada desses quadros, findo o qual lhes será dado o merecido destino.
a)      A. Cancella de Abreu – 17.6.47»[30]
Despacho do Ministro ao oficio da CO oficializado para a PIDE


Após um processo demorado em que se cruzaram vários ofícios entre as entidades envolvidas, as obras de arte acabariam por ser entregues, na rua António Maria Cardoso, não aos autores ou à CO mas ao chefe da Secretaria da SNBA – Domingos Álvares da Cunha –, depois de devidamente creditado pelo presidente da direcção:
«aos 23 dias do mês de Junho de 1947, nesta cidade e sede da Pide, onde se encontrava presente o sr. José Maria de Amaral Leitão Bernardino, chefe de brigada desta polícia, comigo João Prudêncio Gomes, dactilógrafo, servindo de escrivão»[31]

Só a 3 de Julho a CO da 2ª EGAP acusaria o recebimento dos quadros, à direcção da SNBA.

Para além dos autores dos quadros, também os membros da Comissão Organizadora voltariam mais uma vez a serem individualmente chamados à PIDE a fim de explicarem o que tinham querido dizer com o parágrafo: – «só lamentamos que a entrega dos quadros não tenha, realmente, constituído o termo desta humilhação inútil e sem sentido imposta aos artistas, pois os autores dos quadros apreendidos têm sido chamados a interrogatórios pela Pide»”  – que constava do ofício enviado à direcção da SNBA e pelo chefe da secretaria entregue à polícia politica.
Tudo lhes servia de pretexto para intimidar os artistas e os seus representantes. 

O processo teria o seu epílogo com o relatório final da PIDE, datado de 26 de Julho de 1947, onde se reconhecia que «não foi possível, segundo o parecer técnico dos serviços desta polícia, identificar (…) o autor da publicação do anúncio (…)  porquanto a espécie de letra usada tal não permite.»[32]
A contestação e a resistência também se faziam por pequenos-grandes gestos como este inusitado e provocatório anúncio num jornal diário que ridicularizou o regime e a polícia que o sustentava.

A 3ª EGAP realizar-se-ia em Maio do ano seguinte. Mas uma exigência de a mesma ser visitada oficialmente antes da inauguração provocou uma cisão por parte dos surrealistas que decidiram retirar os seus quadros já depois da exposição montada e do catálogo pronto abrindo a mesma com os correspondentes lugares vazios nas paredes.  Estava consumada a cisão desta frente oposicionista. Uma cisão feita em nome da liberdade de expressão mas que não deixou de ser bastante conveniente  para as «forças da ordem» salazaristas [33] que assim viram alcançado o grande objectivo de uma ruptura na frente democrática que desde o final da guerra se organizara e crescera em torno do MUD e da sua CEJAD (Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos). Fora grande o susto mas podiam respirar de alívio: os artistas plásticos não voltariam a juntar-se.

Apesar de todos os condicionalismos as EGAP’s resistiram até 1956 totalizando dez edições num trabalho colectivo a que todos os anos aderiam novos expositores com diferentes experiências estéticas e empenhamento cívico, sendo possível, no cômputo geral das mesmas, e segundo a voz insuspeita de Rui Mário Gonçalves, afirmar que foi possível «mostrar 2.764 obras de 282 artistas entre os quais se encontravam numerosos arquitectos, marcados pela funcionalidade corbusiana» artistas que não só «activaram a SNBA» que se encontrava inanimada como  «retiraram ao SNI o lugar central da cena artística».[34] 
Também José Ernesto de Sousa estudou as dez Exposições Gerais de Artes Plásticas.  Reconhecendo que a  de 1953 é a «última em que o pintores realistas se apresentam num esforço de originalidade e invenção»  a síntese que faz na 10ª, em 1956, permite-lhe avaliar da importância dos últimos passos da nossa pintura, levando-o a afirmar que «Não só os pintores neo-realistas tinham provocado as mais graves perguntas sobre a universalidade da arte portuguesa depois dos futuristas; como tinham dinamizado todos os artistas independentes deste país, dando-lhes confiança em si próprios, ajudando a opor a uma «apagada e vil tristeza» aquela outra fórmula de Almada: «a alegria é a coisa mais séria que há». (José Ernesto de Sousa, A Pintura Portuguesa Neo-Realista (1943-1953), col. Arte Contemporânea, vol. 15, ARTIS, 1965, p. 8).

José Viana ainda colaborou em 1948 na 3ª EGAP com três aguarelas: nº 194, Maria do Céu; nº 195, A Sra Joana; nº 196, o «Brooklin»,  ao preço de 200$00 cada[35].
Mas não voltaria a expor nas EGAPs. Não por corte ideológico, como o atesta todo o seu percurso de cidadão interveniente, mas, muito provavelmente, por ter optado pela carreira teatral, só voltando à pintura nos últimos anos de vida. Mas bem podia (pode) afirmar, orgulhoso, tal como o fez na entrevista a Lauro António, em 1997, que o seu  «primeiro quadro, (…) foi eficaz, (…) porque o que pretendia era chamar a atenção das pessoas para os problemas sociais e políticos e conseguiu».[36]

Julho de 2013
Júlia Coutinho
Investigadora

Nota:  este texto foi publicado por ocasião da exposição retrospectiva de José Viana na Casa da Cultura, em Cascais, Julho de 2013.

[1] Exposição Geral de Artes Plásticas. Num total de dez, realizaram-se entre 1946-1956, na Sociedade Nacional de Belas Artes,(SNBA), com interregno em 1952, devido a esta instituição ter sido encerrada pelas autoridades.
[2] Dec-Lei 27.003 (14 Set) obrigou à declaração de estar integrado na ordem social estabelecida pela Constituição de 1933, com «activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas», aos funcionário públicos ou nomeados para cargos públicos.
[3] Cf. prefácio do Catálogo da 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas, SNBA, Julho, 1946, p. 3-4
[4] Mário Dionísio, Para a História da Resistência em Portugal, in Diário de Notícias, 5 Março 1975, p. 7-8
[5] Ex- SPN (Secretariado de Propaganda Nacional) criado pelo Dec-Lei 23.054 (25 Set 1933).  Passou a SNI (Secretariado Nacional de Informação ) em 1944 (11 Abril). O seu director, António Ferro,  mereceu toda a confiança de Salazar entre 1933-1949.  Ali foi propagada  a «política do espírito»  com os Salões de Arte Moderna (1935-1951), única oportunidade de os artistas exporem, e a instituição de prémios diversos.  Arregimentavam-se as elites culturais. Contra isso se rebelaram os artistas nas EGAP’s.
[6] Mário Dionísio, op cit. Foi a quebra desta premissa que levou Mário Dionísio a abandonar as EGAP’s em 1953 por considerar o pacto quebrado quando alguns artistas aceitaram participar na II Bienal de S. Paulo, ainda que não directamente através do SNI.
[7] Cf. Prefácio do Catálogo da 2ª Exposição Geral de Artes Plásticas, Maio, 1947
[8] A partir do MUD, foi criado o MUD Juvenil em 28 Junho 1946. Só terminou com o processo da PIDE 5/57, no Porto.
[9] Foi o caso de Júlio Pomar, dirigente do MUD Juvenil. Um quadro que enviara – O Almoço do Trolha -,  estava inacabado. Como inacabados ficariam os murais que pintara no Cinema Batalha, no Porto, e seriam cobertos de cal pelas autoridades.  Não gostaram dos motivos de festejos do povo, nas ruas. Também estava preso Francisco Castro Rodrigues, finalista de arquitectura, membro do MUD Juvenil  e da direcção da SNBA (1º Secretário).
[10] Casos da Tapeçaria e da Gravura, por exemplo. Note-se que o núcleo duro das EGAP’s foi formar, após estas,  a GRAVURA, Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses, em 1956, que veio democratizar as artes plásticas.  
[11] Cf. Mário Dionísio, op. cit.
[12] PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) foi criada 1945 pelo Dec-Lei 35.046 (22 Set) sucedendo à  PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) criada em 1933 pelo Dec-Lei 22.992 (29 Agosto) resultante da fusão da Polícia de Defesa Política e Social e da Polícia Internacional num só organismo, directamente subordinado ao Ministério do Interior.
[13] Cf. Catálogo José Viana, 50 anos de Carreira, (org. de Lauro António),Câmara Municipal de Oeiras, 1997, p. 33-34
[14] Cf. Fernando de Pamplona, Belas-Artes,Malas-Artes,  in Diário da Manhã de 7.Maio.1947, p. 3-5
[15] Cf. Nota breve na 1ª pág., lado inferior esquerdo, do Diário da Manhã de 9.Maio.1947.
[16] Ansiedade, de Nuno Tavares, Pintura, de Mário Dionísio e Composição (Força), de Viana Dionísio.
[17] Cf. Diário da Manhã de 9.Maio.1947, p. 1
[18] Cf. Mário Dionísio, op. cit..  (dizer-se António Maria Cardoso era dizer-se PIDE, dado ser ali a sede daquela polícia política).
[19] Esta foi a versão mitificada que chegou aos nossos dias. O próprio Mário Dionísio a repete no artigo que estamos a citar, do DN de 1975. Era uma «bandeira»  dizer-se que  «às 13 horas do dia 13 de Maio, a PIDE levou 13 quadros neo-realistas», até porque na mesma exposição estavam os surrealistas e os naturalistas, cujas obras não incomodaram as autoridades.
[20] Cf. Auto de Busca e Apreensão do Processo ANTT-PIDE/DGS – SC-494/47-4925.
[21] Cf. processo ANTT-PIDE/DGS – SC-494/47-4925, doc. 1-2
[22] A Comissão Organizadora (CO) era formada pelos membros da CEJAD: Francisco Keil do Amaral, Arq; Roberto Araújo, Pintor; Arlindo Vicente, Pintor; e José de Almeida Segurado, Arqt.
[23] Cf. Processo  ANTT-PIDE/DGS – SC-494/47-4925, doc. 4 ft/v.
[24] Livro de Actas da Direcção da SNBA, Acta nº 32, de 14 de Maio de 1947
[25] Cf. Processo ANTT-PIDE/DGS – SC-494/47-4925,doc. 5
[26] Idem,  doc. 6
[27] Idem,  doc. 55
[28] Idem,  doc. 32
[29] Cf. Processo ANTT-PIDE/DGS – SC-494/47-4925,doc. 16, ft/v.
[30] Idem, ibidem
[31] Idem, doc. 13
[32] Idem,  doc. 57 ft/v.
[33] O pintor António Domingues compreendeu isso mesmo e regressou às EGAP’s  e ao Neo-Realismo. O mesmo aconteceu a Alexandre O'Neill.
[34] Cf. Rui Mário Gonçalves, De 1945 à Actualidade, in História da Arte em Portugal, Alfa, Lisboa, p.51-52
[35] Cf. Catálogo da 3ª Exposição Geral de Artes Plásticas, SNBA, Maio, 1948, p. 19
[36] Cf. Catálogo José Viana, 50 anos de Carreira, (org. de Lauro António),Câmara Municipal de Oeiras, 1997, p. 33-34