sábado, julho 05, 2008

Manuela Porto desapareceu há 58 anos

Manuela Porto (1908-1950) nasceu há 100 anos (24.4) e seria da maior justiça lembrá-la quando ocorreu há pouco um Congresso Feminista. Ela que foi uma paladina dos direitos das mulheres e abriu caminhos inóspitos, tendo traduzido e divulgado autoras até então desconhecidas como Louisa May Alcott, Anne Bronte, Elizabeth Gaskell, Hazel Goodwin, Katherine Mansfield e sobretudo Virginia Woolf, sobre quem fez uma palestra em 6 de Janeiro de 1947, aquando da Exposição de Livros Escritos por Mulheres, na SNBA, na sequência da qual Maria Lamas seria demitida do jornal O Século e o Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas encerrado em 28 de Junho desse ano.
Curiosamente, é neste ano do seu centenário que o nome de Manuela Porto é finalmente resgatado do silêncio em que se encontrava através de um trabalho académico notável (que em breve será editado) de Diana Dionísio, neta de Mário Dionísio, um dos poetas que Manuela divulgou. Não deixa de ser sintomático que isso aconteça pela mão de uma jovem que, tal como MP, (filha do republicano, escritor e pedagogo César Porto) é herdeira de um património político e cultural que forçosamente lhe moldariam o carácter. Neste trabalho é analisada sobretudo a vertente teatral em Manuela Porto, o que não é pouco, se considerarmos que a mesma foi actriz e, tendo-se afastado dos palcos, nunca deixou de ao teatro estar ligada. Outros caminhos ficam em aberto mas, a partir de agora, tudo será mais fácil. Duro mesmo, foi começar do zero absoluto, como a Diana Dionísio começou. E eu sei do que falo.
Casada com o artista plástico Roberto de Araújo Pereira, MP foi escritora, crítica, encenadora, actriz, declamadora, oposicionista e feminista. Teve um papel importantíssimo na divulgação dos nossos poetas, desde os da Presença aos do Novo Cancioneiro, e foi graças a si que os portugueses conheceram Fernando Pessoa ainda na década de trinta. Mulher extraordinária, muito para além do seu tempo, ela foi a "recriadora dos poetas", a que dizia poesia como quem respira.
Manuela Porto viveu apenas 42 anos. Suicidou-se em 7 de Julho de 1950. Faz hoje 58 anos. Os jornais noticiaram que "morrera em casa", mas não, os amigos ainda a levaram para o Hospital de São José, onde o poeta e médico Armindo Rodrigues assistiu à sua morte, na sequência de uma overdose de barbitúricos. Para a censura não existiam suicídios, nem mortes violentas. Era o país do faz de conta.
«Nada, -- ouviram? -- nada conseguirá salvar do esquecimento de cova cheia a outra Manuela, a verdadeira Manuela do nosso convívio (...) que, no fim de contas, tudo valia para nós: a Manuela de todos os dias no Chiado, da Brasileira, às 6 horas da tarde, dos ensaios pacientes na Academia dos Amadores de Música, das reuniões aos domingos em volta do chocolate do João José Cochofel, dos jantares aconchegados na sua salinha defronte do Enterro de Mário Eloy; a Manuela do sorriso forçadamente quente (às vezes com tantos punhais nos recantos de sofrer); a Manuela que, como todas as mulheres superiores, possuia o segredo daquela intimidade misteriosa que, ao mesmo tempo, aproxima e afasta (e assim quem lhe descobria os defeitos?); a Manuela a ocultar, sob a leve afectação de uma máscara exageradamente feminina, o seu coração de jacobina varonil; a Manuela, amiga e Anjo da Fama dos poetas -- de todos! de todos! -- desde o Fernando Pessoa aos últimos escorraçados do neo-realismo... (pedras de todos os cantos! Insultos de todos os céus! ódios de todos os negrumes! E é por isso que estou com eles. A poesia é escândalo! A poesia é perigo!); a Manuela, ídolo insubstituível dessas trezentas pessoas heróicas que andam, de um lado para o outro, em Lisboa, a fingir cultura: -- a correr das dissonâncias da Sonata para o pescoço torcido da geral do São Carlos; da Exposição das Artes Plásticas para o último concerto de canções do Lopes Graça; da estreia do Auto da Índia no teatrinho do Grupo Dramático Lisbonense para o recital poético na Associação Feminina para a Paz... A Manuela que, quando me encontrava, pedia-me sempre, em cadência de súplica: «ó Zé Gomes: escreva-me uma peça!»
José Gomes Ferreira
(parte de um texto publicado na Vértice, vol X, nº 86, Outubro de 1950)

8 comentários:

João Videira Santos disse...

Carissima Júlia:

O que aqui se lê,divulga e até aprende, é um autêntico agitar de memórias que torna presentes aqueles que alguns (infelizmente muitos!) teimam em "fazer" esquecer.
Muito bom vir até à sua enciclopédia de memórias e lembranças. Por tudo isso: Obrigado!

Duarte disse...

Quantos livros vendi da Virgínia Woolf, não só pela qualidade dos seus textos, mas também pelos seus princípios.
Não conhecia a Manuela Porto e agradeço-te que a tragas aqui, pois mulheres como ela devem ser divulgadas.
Parabéns a todos os que fizeram possível este excelente trabalho.
Abraços

Sonja disse...

Olá Júlia,

Que maravilha de texto.
Sou sobrinha-neta de Roberto de Araújo Pereira e, por afinidade, de Manuela Porto, e, embora tenha nascido 2 décadas e meia após a sua morte, o meu pai sempre me falou dela (num contexto mais íntimo) e sabe sempre bem ler belas e justas palavras sobre a família.
Obrigada.

Sónia Araújo Pereira

Júlia Coutinho disse...

Obrigada Sónia.
Fico muito sensibilizada com as suas palavras.
se quiser entrar em contacto comigo pode ser de grande utilidade qualquer informação sobre a Manuela e também sobre o Roberto de Araujo, porque, infelizmente, quase nada existe e os investigadores têm imensas dificuldades.
juliacoutinho@gmail.com
um abraço

Pibideco disse...

Júlia: Faço minhas as palavras da Sónia... Já tinah achado este blog há alg tempo numa pesquisa à Manuela Porto, mas não tinha lido os comentários abaixo...de facto, sou filho do Roberto Araújo Pereira, mas eu próprio tenho pouquíssima informação aparte uma ou duas fotos e desenhos... cresci em Inglaterra e nunca conheci esse lado da família, gostava muito de contactar a Sónia se pfp lhe fizesse forward disto de alg modo o meu e-mail é pauloroberto.araujo1@gmail.com Obrigado

Diana disse...

Também gostava de entrar em contacto convosco!
Fiz uma tese sobre a Manuela Porto.
O meu e-mail é liberdadenaoedada [arroba] yahoo.com
Obrigada!

Maria joão Cantinho disse...

Querida Júlia,

Que texto tão bom! Obrigada por dares a conhecer o trabalho e a vida desta Mulher. O teu trabalho deveria ser muito mais valorizado. Beijinhos.

Júlia Coutinho disse...

Obrigada, João. Eu acho que devia dar continuidade a este blogue...