sexta-feira, julho 25, 2008

A grande referência da minha juventude

Simone de Beauvoir (1908-1986) foi a mais importante referência da minha juventude e marcou decisivamente a minha vida. Li-lhe o primeiro livro, Os Mandarins, em edição brasileira, por acaso. Em 1968/69 eu vivia num quarto na Trav de Sta Quitéria e habituara-me a espreitar a biblioteca da minha senhoria. Descobri Simone de Beauvoir, apaixonei-me pela sua escrita e nunca mais dela prescindi. Procurei-lhe a obra, que consegui apenas no pós 25 de Abril quando foi editada pela Bertrand. A Liberdade a passar por aqui. E a sua relação com Sartre um modelo a perseguir, pese embora sem grande êxito, confesso.
Mais do que a ensaistica adoro a obra memorialista. Lê-la é iniciar um périplo vertiginoso pela História do Século XX, transversal a toda a Europa e não só a França, os principais conflictos que a dilaceraram, bem como as diversidades políticas, culturais e artísticas que nela coexistiram e de que foi, em muitos casos, protagonista privilegiada. Portugal recebeu-a em 1945 e o seu olhar é devastador para a nossa ditadura. Assinou as crónicas com pseudónimo para não importunar a irmã e o cunhado que aqui viviam.
Em Paris segui-lhe o rasto. Na Sorbone visitei o departamento de Filosofia e detive-me na biblioteca onde se refugiou para escrever O Segundo Sexo. No Flore perscrutei os cantos onde diariamente escrevia durante a ocupação, sobretudo no 1º andar. Procurei os livros que me faltavam e trouxe uma biografia póstuma com conversas ineditas. Visitei-lhe o tumulo, que divide com Sartre, em Montparnasse. Cúmplices na morte como na vida.
No ano do seu centenário estou a relê-la. Aqui fica um pouco das suas memórias quando, em 1929, a vida com Sartre começava a estruturar-se.
Sartre não tinha vocação para a monogamia; agradava-lhe a companhia das mulheres (...) não tencionava, com vinte e três anos, renunciar para sempre à sua sedutora diversidade. «Entre nós», explicava-me, servindo-se de um vocabulário a seu gosto, «trata-se de um amor necessário: é conveniente conhecermos também amores contingentes». Éramos da mesma natureza e o nosso entendimento duraria tanto como nós: mas não podia substituir as efémeras riquezas dos encontros com seres diferentes (...) Reflectimos longamente sobre isto.
(...) Foi nesse momento que Sartre propôs: «Façamos um contrato de dois anos.» Eu podia conseguir ficar em Paris durante aqueles dois anos e passá-lo-íamos na maior intimidade possível.(...) Ficaríamos separados dois ou três anos e encontrar-nos-íamos em qualquer parte do mundo, em Atenas, por exemplo, para recomeçarmos, durante um tempo mais ou menos longo, uma vida mais ou menos em comum. Nunca nos transformaríamos nuns estranhos um para o outro, nunca qualquer de nós faria em vão um apelo ao outro e nada prevaleceria contra esta aliança; mas era necessário que ela não degenerasse em obrigação ou em hábito: devíamos a todo o preço preservá-la desse apodrecimento. Concordei. A separação desejada por Sartre não deixava de me assustar; (...) o que me ajudava era o facto de já ter comprovado a solidez da palavra de Sartre. Com ele, um projecto não era conversa no ar, mas um verdadeiro momento de realidade. Se me dissesse: «Encontramo-nos exactamente daqui a vinte e dois meses, às dezassete horas, na Acrópole», eu tinha a certeza de o encontrar na Acrópole, exactamente às dezassete horas, vinte e dois meses mais tarde. (...)
Não estava em causa o usarmos das liberdades que nos tínhamos teoricamente concedido, durante o período deste «contrato»; tencionávamos entregar-nos sem reticências e sem reservas à novidade da nossa história. Concluímos outro pacto: não somente nenhum de nós nunca mentiria ao outro, como também não lhe esconderia nada.(....)Estava habituada ao silêncio e, no princípio, esta regra perturbou-me. Mas compreendi depressa as suas vantagens; não tinha de voltar a preocupar-me comigo própria: um olhar, sem dúvida benevolente, mas mais imparcial que o meu, devolvia de cada um dos meus movimentos uma imagem que eu considerava objectiva; este controle defendia-me do medo, das falsas esperanças, vãos escrúpulos, fantasmas dos pequenos delírios que tão facilmente se adquirem com a solidão. (...) Sartre era-me tão transparente como eu própria: que tranquilidade! Cheguei a exagerar: uma vez que ele não me escondia nada, julguei-me dispensada de lhe fazer a mínima pergunta (...) Mas se então me arrependi pela falta de vigilância, nem por isso incriminei o estatuto que tínhamos adoptado e de que nunca nos afastámos: era o único que nos convinha.
Isso não implica que a meus olhos a sinceridade seja, para toda a gente e para todas as situações, uma lei ou uma panaceia; tive seguidamente muitas ocasiões para reflectir sobre os seus bons e maus empregos. (...) A palavra, por vezes, representa apenas uma maneira de se calar, mais hábil do que o silêncio. (...)
A fraternidade que uniu as nossas vidas tornou supérflua e irrisória toda a ligação forçada que nos podíamos ter imposto. De que é que serviria por exemplo, habitar sob o mesmo tecto quando o mundo era a nossa propriedade comum? E para quê recear distâncias que nunca nos poderiam separar? Um só projecto nos animava: tudo abarcar e tudo testemunhar; ele obrigava-nos a seguir, por vezes, caminhos divergentes sem que escondêssemos um ao outro a menor das nossas descobertas (...) O que nos unia era o que nos separava; e através desta separação reencontrávamo-nos unidos no mais íntimo de nós próprios.
(...) éramos dois místicos. Sartre tinha uma fé incondicional na Beleza, que não distinguia da Arte, e eu atribuía à Vida um valor supremo. As nossas vocações não eram exactamente as mesmas. (...) Um dia anotei: «Tenho vontade de escrever; tenho desejo de frases no papel, de coisas da minha vida postas no papel» Mas, num outro dia, esclareci: «Nunca saberei apreciar a arte senão como salvaguarda da minha vida. Nunca serei, como Sartre, escritora acima de tudo.» (...) admirava o facto de ele conduzir o seu destino com as próprias mãos; longe de me sentir perturbada com isto, achava confortável estimá-lo mais do que a mim mesma.
Sentir um entendimento total com alguém, é, de qualquer maneira, um privilégio muito grande; a meus olhos, isto tinha um valor literalmente infinito. (...) Em 1929, acreditava na paz, no progresso, num futuro risonho. Era necessário que a minha própria história participasse na harmonia universal; se infeliz, ter-me-ia sentido como no exílio: a realidade ter-me-ia escapado.
(Simone de Beauvoir, in A Força da Idade, Livraria Bertrand, Amadora, pp 23-28)

5 comentários:

Raquel V. disse...

Gostei muito de ler... é interessante ler pessoas que pensam, que se interrogam, que expõem teorias, ideias, formas de crer.

Gosto de pessoas inteligentes e fui lendo...

Beijo

TMara disse...

Júlia, k bela evocação desta grande mulher e escrita de referência não só p/ as mulheres mas para quem se interrogue, logo esteja vivo e queira entender o mundo, em geral e as relações humanas, suas forças e fragilidades. Um belo testemunho e justa lembrança.
Bjs
Luz e paz

Teresa David disse...

Tinha 11 anos quando me foi dada a conhecer a personalidade e obra da Beauvoir pela mão do meu primo que viria a ser o fundador da Assirio e Alvim. Clandestinamente li a força da idade numa edição brasileira arranjada sabe-se lá onde. Claro que a precocidade da leitura me moldou permaturamente a forma de entender a vida e particularmente as relações amorosas.
Sabes que estive no hospital 2 meses, perdi 15 quilos e vi a morte de perto? Agora já estou a recuperar mas após 2 operações ainda em Setembro terei de ser novamente operada.
Bjs e bom Domingo
TD

Dad disse...

Também eu sempre admirei os escritos deste casal.

Bonita homenagem a Simone de Beuvoir e a Jean Paul Sartre.

Gostei muito do que li,

Um beijinho,

nanda disse...

Olá!

Obrigada pela visita ao ilhas do mar.
Estou espreitando os seus blogs e estou perdida nestas memórias... são as mamórias da minha juventude e da geração de 60, à qual pertenço com m muito orgulho.
bjs