segunda-feira, junho 05, 2017

A Linguagem dos afectos ou a Liberdade de ser Livre**

Isabel Fraga


Permitam-me que comece por invocar os meus rudimentares conhecimentos literários, estéticos e poéticos para avaliar condignamente o livro da Isabel. Essa tarefa foi muito bem entregue à minha querida Maria João Cantinho, que prefaciou o livro.

Também não sou poeta nem tenho esse atrevimento desde que um dia Mário Castrim, do saudoso Juvenil do Diário de Lisboa, me aconselhou a não escrever nos momentos de ócio; ou seja, que um poema não é uma inspiração momentânea mas um trabalho aturado e persistente. Fiquei vacinada. Mas sou, isso sim, uma incondicional amante de poesia e de toda a literatura.

A minha formação é em História (arte) e por isso estou mais habituada a investigar e a trabalhar os dados ou imagens, relacionando-os e interpretando-os. Digamos que a leitura que fiz deste livro segue um pouco essa linha. Ou seja, tentei por um lado, apreender não só a linguagem dos poemas mas também as vivências da autora porque toda a obra de arte, - e a poesia é uma das artes -, está indissoluvelmente ligada ao autor e à sua vida, a si e à «sua circunstância», como dizia Ortega y Gasset; e, por outro lado, aderir à noção de «abertura e infinitude» para onde Umberto Eco nos remete, com as condicionantes inevitáveis da minha própria circunstância. Portanto, a minha leitura é muito pessoal, e desde já peço desculpa à Isabel pela vertente um tanto intimista e afectiva da mesma.

Comecemos então.


Filha dos escritores Urbano Tavares Rodrigues e Maria Judite de Carvalho, Isabel Fraga (1950) passou os primeiros sete anos de vida com os avós paternos num monte alentejano. Sete anos que marcaram a sua vida e a sua alma de criança sensível. Plasmados pelo presença e afecto do avô.

Urbano da Palma Rodrigues, assim se chamava o avô, foi escritor, jornalista, republicano e ateu convicto. Contemporâneo de Teófilo Braga na Faculdade de Letras, pertenceu à geração a quem devemos a implantação da República e dos seus valores democráticos, tendo chegado a ser Secretário e Chefe de Gabinete de Afonso Costa, esse homem corajoso que esteve na base da implantação de um estado laico em Portugal com a Lei da Separação da Igreja e do Estado. Urbano Rodrigues veio a sofrer as agruras da prisão política no consulado de Sidónio Pais. Já com Salazar no poder, o Jornalista e homem de letras não consegue conviver com o regime e a censura fascistas. Deixa o jornalismo, desfaz-se de tudo na capital e vai fixar-se no seu Alentejo, perto de Serpa, escrevendo livros e vivendo da agricultura.

Foi este avô, o avô Urbano, que chorou emocionado em 10 de Agosto de 1950, - num tempo em que «os homens não choravam» -, com a vinda de uma menina à família, - a Isabel -, sentindo concretizar-se um sonho antigo.

Esse avô cúmplice, que «nunca a reprimia», e com ela mantinha conversas que só ambos sabiam: «eu fazia perguntas, ele contava-me histórias do passado e a minha mão cabia dentro da mão dele, grande e quente, meiga e protectora» recorda Isabel.

Esse avô cuja morte em 1971 lhe foi tão dolorosa que perdeu por completo o olfacto recuperado apenas doze anos mais tarde, quando lhe nasceu a primeira filha, a Inês. Doze anos sem distinguir uma rosa de uma sardinheira, logo ela que em miúda tanto gostava de saborear, literalmente, as pétalas das rosas do quintal, uma a uma, sob o olhar complacente do avô, que dizia: «não contes à tua avó que gostas de comer flores se não ela vai já a correr contigo ao médico».

Figura tutelar da sua infância, foi com o avô Urbano que Isabel aprendeu a «amar de alma para alma» como assinala no livro que lhe dedicou.

Com a mãe, Maria Judite, falecida em 1998, Isabel manteve (e quase me atrevo a dizer que mantém) uma relação intensa «de cumplicidade, quase telepática».

A mãe que nunca publicava um livro sem primeiro lho ler, como que esperando a sua aprovação.

A mãe com quem partilhava, e partilha, o mesmo modo de «sentir o mundo e as pessoas».

A mãe que sempre lhe ensinou que «mais importante que a educação das atitudes é a educação dos sentimentos». Essa a essência da vida.

A mãe com quem aprendeu a busca da harmonia, da paz de espírito e a delicadeza do tacto. O amor pelos mais desfavorecidos. A solidariedade, sobretudo com as mulheres, esses seres maltratados ao longo dos tempos e que Judite tão bem retratou nos livros que escreveu.

Essa mãe que lhe recitava poesia, muita poesia, e que sempre soube dar-lhe os livros certos na idade certa. Ao contrário do pai, Urbano, que sempre lhe passou os livros errados na idade errada, como ele próprio reconhece. Um pai que adora e a quem sempre viu como um irmão mais velho; e a quem deve o gosto pelas artes, fundamentalmente pelo cinema e pelo teatro.

O pai que lhe ensinou a tolerância, a aceitação das diferenças, o nunca deitar abaixo os que começam, a escrever, por exemplo, tendo sempre em atenção que todos merecem uma oportunidade e podem sempre melhorar. E os valores da verticalidade e da solidariedade.

E com ambos, pai e mãe, Isabel aprendeu: a consciência do Ser Social e a paixão pela Literatura.

Isabel Fraga começou por escrever poesia e deve a primeira publicação à iniciativa de Fiama Hasse Pais Brandão, em 84. Apenas ousou aventurar-se na prosa após a morte da mãe, tendo publicado três romances e um livro de contos. Claro que os seus livros estão esgotadíssimos não se encontram nas livrarias nem, penso eu, nas editoras que, entretanto, faliram. A «Música das Esperas» é o seu terceiro livro de poemas.

Naturalmente discreta e avessa a vedetismos, Isabel insiste em manter-se longe da ribalta, tendo chegado a recusar ser entrevistada na televisão. Não gosta de se expor. Não sente a mínima apetência pela fama. Mas não censura quem segue outros caminhos. Esta atitude pode parecer estranha e não falta quem a critique, mesmo alguns amigos, até porque todos lhe reconhecem o enorme talento. Mas também aqui encontramos reminiscências genéticas.

Vejamos as palavras de M Judite de Carvalho quando recebeu o Prémio Camilo Castelo Branco, pelo livro «As Palavras Poupadas», em 1962:

«Não sei a que escola pertenço nem de tal me ocupo. Creio que sou, por natureza humana e por formação, anti-romântica. Nada pretendo derrubar no mundo das edificações estéticas, nada pretendo, tão pouco, erigir de novo. Isto não significa, entretanto, que admire menos aqueles que deliberadamente fazem obra de comunicação actuante, nem creio de modo algum que tal caminho seja contrário à perfeita realização de um escritor. O que me parece condição indispensável de toda a obra literária é a íntima liberdade do autor, de maneira que não se amolde a preconceitos, a receios de qualquer ordem, a tabus. Esse é, pelo menos, um ponto de partida e continua a ser o meu, porque me sinto, de toda a maneira, no princípio, mesmo sem ser fadada para longas rotas.»

Tal como a mãe, Isabel não pretende fazer escola. Interferir ou colidir com as elites literárias. Não escreve para uma carreira literária. Escreve para se encontrar e ir ao encontro dos outros. Entender-se e entender os outros. Ou, muito simplesmente, para resgatar a liberdade de ser livre.

Mas uma característica diferencia, quanto a mim, toda a produção de Isabel Fraga: os afectos. É esse o leitmotiv para a sua escrita. De uma maneira geral um escritor inventa, cria ou recria as histórias que lhe servem de argumento à escrita. Mesmo que tenham como ponto de partida experiências pessoais ou de outros. A Isabel, que escreve muito bem, só o faz sob um forte impulso afectivo. Quando as emoções lhe impõem, ao espírito, essa necessidade, - ou esse direito -, na senda do que Torga defende nos seus diários (IX) que «a Arte é um direito do espírito».

O primeiro livro de prosa, - Seres Sentidos -, um pequeno mas precioso volume, é constituído por diversas estórias contadas com rara sensibilidade, e, como não podia deixar de ser, dedicado ao avô, Urbano Rodrigues, que a «ensinou a amar de alma para alma».

O segundo, – A Preço de Ocasião -, é dedicado aos homens da sua vida: o marido, Luís, e o pai, Urbano, «que tanto insistiram para que escrevesse este livro», lembra. Na badana, lê-se: «romance, aparentemente leve e irónico, analisa com muito amor e sagacidade, tal como o título sugere, o ambiente de uma pequena agência de publicidade onde a mediocridade está na ordem do dia» e o livro é, quanto a mim, um acerto de contas com o exaustivo tempo em que foi copywritter e que abandonou, deliberadamente, para enveredar pela tradução, trabalho que melhor a preenche. Como sabemos, Isabel Fraga foi a tradutora, entre muitos títulos, dos primeiros cinco volumes da saga do Harry Potter.

Seguiu-se-lhe o romance – Mulheres em Contraluz -, cuja génese e enredo estão inteiramente contidos na significativa e afectiva dedicatória: «às amigas que ao longo dos anos valeu a pena reencontrar».

Finalmente, em 2007, sai o romance – A Desenhadora de Malvas -, que dedica a três mulheres: a mãe, Maria Judite, a avó, Maria da Conceição, e à amiga, Maria da Glória, três seres que partiram mas, diz Isabel, «continuam a acompanhar-me». Um livro «onde o rigor histórico, político e social se mescla com a música e com a poesia através da delicada linguagem do invisível» lê-se na contracapa. Uma obra que põe à prova toda a sensibilidade da autora e resgata, uma vez mais, os seres que ama.

Depois, disse-nos que não mais iria escrever. Que tinha sido o último livro. Mas, decorridos seis anos, oferece-nos «A Música das Esperas» que aqui estamos a celebrar. Ainda bem, digo eu. Dizemos nós.


Musica das Esperas, editora Lua de Marfim, 2013


 
Passo agora à minha brevíssima e pessoalíssima leitura do mesmo.

Trata-se de um livro muito bonito, que a capa da Inês Ramos valoriza e o prefácio da Maria João Cantinho enriquece, descodificando uma linguagem que não é simples, nem linear, nem inocente, como pode aparentar.

A chave encontra-se, desde logo, no título – A Música das Esperas - que nos remete para a mítica «Música das Esferas» dos pitagóricos, a música que exprime a harmonia central do mundo. Acredita-se que quem ouvir «a música das esferas» atinge a plena harmonização do mundo interior com o mundo divino. Mas para atingir essa plenitude terá de percorrer um caminho iniciático de purificação pessoal, moral e espiritual que harmonize o seu mundo interior com o exterior.

Acreditamos que este livro da Isabel é o testemunho ou o corolário, se quisermos, de um percurso iniciado pela autora há alguns anos, através das crenças teosóficas que abraçou e aqui podem descortinar-se. Uma longa viagem em busca do melhor em si e do melhor nos outros. Nas vivências do passado e do presente. Vencendo as inevitáveis dores. Sarando as inevitáveis feridas. Mas insistindo na separação do trigo e do joio. Tendo como pano de fundo a essencialidade da vida.

Os poemas de «A Música das Esperas» correspondem, assim, a um itinerário catártico que a autora vai fazendo pelos subterrâneos das suas vivências e das suas memórias. Uma viagem ao mais fundo de si. Em busca da luz plena. E de que «A Música das Esperas» se faz voz. Uma voz por dentro das vozes. Próximas e recônditas. Vozes e memórias plasmadas na demanda da plenitude e do apaziguamento que se desejam. Consigo e com os outros.


Não é por acaso que «A Música das Esperas» não tem qualquer dedicatória.

Ele é um Testemunho pessoal.

Um Manifesto de vida.

Um Testamento para o Futuro.

A sua forma de Amar: «de alma para alma».


Júlia Coutinho


** Texto de Julia Coutinho lido na apresentação do livro Música das Esperas, de Isabel Fraga, em 5 de Junho 2013, com a presença do pai da autora - Urbano Tavares Rodrigues -, e do tio - Miguel Urbano Rodrigues -, entretanto falecidos.























terça-feira, maio 09, 2017

João Abel Manta: o artista resistente






«Foram dois indivíduos extremamente importantes para a minha formação mental, o Zé [Dias] Coelho e o João Abel [Manta]; dois líderes naturais (...) um pela consciência política, o outro pela grande cultura»
Rolando Sá Nogueira





Falar de João Abel Manta é recordar uma geração que, no período após a Segunda Guerra, forjou um combate militante ao «Estado Novo» e aprendeu a resistência dos actos, das palavras e do silêncio. Num tempo em que a cultura subvertia e incomodava.

Fixemo-nos em 1945, ano em que finda a Segunda Guerra Mundial e surge o movimento oposicionista MUD - Movimento de Unidade Democrática, e também o ano lectivo (45-46) em que o futuro arquitecto ingressa na escola de Belas-Artes de Lisboa no velho casarão de São Francisco, onde o jovem de 17 anos vai encontrar um ensino obsoleto e um ambiente asfixiante, que desprezará, mas onde vai iniciar um ciclo de encontros, partilhas, lutas e emoções que irão consolidar o homem e o cidadão João Abel Manta.

Um curriculum idêntico ao primeiro ano de pintura, escultura e arquitectura aproxima-o de colegas com cadeiras em atraso[i] como Jorge Vieira, Francisco Castro Rodrigues, Duarte Castel-Branco, Rolando Sá Nogueira e José Dias Coelho, criando um grupo de amigos que dará origem a “uma verdadeira tertúlia (...) onde cada indivíduo contribuía com a sua curiosidade e com o seu saber para o conhecimento do grupo inteiro”.[ii]

João Abel já então detinha, pelo berço e pelo convívio[iii], uma enorme cultura nas áreas das artes plásticas, música, cinema e literatura, pelo que a sua preponderância no grupo surge naturalmente. Nas palavras de Sá Nogueira, um dos seus grandes amigos:   “eu costumo dizer que li o Eça de Queirós por causa do João Abel Manta (...) Em miúdo não lia, mas com os meus amigos, nas nossas tertúlias, li o Eça e muitos outros autores porque eu próprio concluí ser necessário, e passei a ter prazer na leitura (...) O mesmo com a música.
Outra particularidade o distingue: as viagens anuais que com os pais faz a Paris e outras cidades europeias de onde regressa carregado de livros e revistas que aqui não existem, e que passam de mão em mão entre os amigos. Será, pois, nestas tertúlias que se vão fomentando gostos e criando hábitos culturais e de convívio, que suprirão, em parte, as lacunas escolares e até familiares de muitos deles.

No grupo, enquanto João Abel prevalecia pela cultura, José Dias Coelho impunha-se pela acção cívica e política e teve, conforme Sá Nogueira, “uma importância muito grande na formação cívica do grupo, porque estava sempre a espicaçar” assumindo a “função de alertar os outros” e levá-los a agir enquanto cidadãos.

J Abel Manta com J Dias Coelho e R Sá Nogueira


O MUD Juvenil é formado em Julho de 46 e a sua organização em Comissões nos diversos estabelecimentos de ensino estendeu-se também a Belas-Artes[iv], tendo-se iniciado aí os maiores esforços  para revitalizar a associação académica que estava inactiva desde os anos trinta. Foi eleita uma pró-comissão abrangente que trabalhou com empenho na discussão e aprovação dos respectivos Estatutos que, lamentavelmente, a tutela nunca homologou. Criou-se no entanto uma dinâmica que jamais se apagaria, tendo Belas-Artes integrado nesse mesmo ano a primeira Festa da Queima das Fitas comum a toda a academia de Lisboa quebrando o velho hábito dos festejos isolados.



Alunos de Belas Artes no final do ano lectivo 1945-46 (JAM é o 3º da 1ª fila a contar da direita)






Belas-Artes no final do Cortejo da Queima das Fitas em 1946 (JAM está na última fila só aparecendo a cabeça)




O ano de 1947 será paradigmático da resistência dos jovens ao regime de Salazar e para a História ficam as violentas repressões ocorridas na Semana da Juventude (Março) e no assalto pelas polícias à Faculdade de Medicina[v] (Abril), onde os estudantes se reuniam em protesto e solidariedade com os camaradas do MUD Juvenil perseguidos e encarcerados. É neste contexto que João Abel concebe o desenho “Natal de 1947” assinado apenas JA (João Abel) para angariação de fundos que revertessem em apoio aos valentes jovens mudistas.



O original foi oferecido pelo autor ao amigo Dias Coelho e este, ao entrar para a clandestinidade, em 1955, ofereceu-o a uma amiga, Lia Fernandes, que ainda o conserva



Ainda nesse ano, participa na II Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP), assistindo à violência da PIDE que invade a SNBA e apreende onze obras de dez neo-realistas, só as devolvendo com a exigência de não mais voltarem a ser mostradas em público.[vi] 
Virá a participar em todas as EGAPs (1946-56) tal como pertencerá aos corpos directivos da SNBA e aos do seu Sindicato (Arquitectos). Igualmente será um dos fundadores e membro activo da cooperativa GRAVURA formada em 1956.
Hoje as EGAPs estão esquecidas. E, no entanto, não subsistem dúvidas de que as mesmas configuraram “o primeiro combate organizado pela oposição ao Salazarismo”[vii] precisamente pela “consciência que trouxeram aos artistas da recusa de expor no SNI”[viii] e ainda pela frente cívica que constituíram e as sensibilidades que juntaram.
À distância, tendo presentes as discussões que se seguiram entre neo-realistas e surrealistas e o desespero aqui evidenciado pelo regime, é legítimo concluir que, por mais ingénua que haja sido a sua formulação, o neo-realismo foi a linguagem certa para o momento certo, a mais incomodativa e aquela que, pelo seu sentido pragmático, na feliz expressão de Ernesto de Sousa, melhor atingiu os objectivos da oposição. Como dissera Álvaro Cunhal num escrito elaborado na Penitenciária e publicado na revista Vértice, sob o pseudónimo de António Vale, o conteúdo haveria de dominar a forma.

 
Jantar de alguns artistas participantes na II EGAP, Maio 1947


Num período propício à formação de movimentos cívicos e culturais como o campismo e o cineclubismo, por exemplo, é criado em Lisboa por iniciativa de José Ernesto de Sousa e outros jovens, o Círculo de Cinema que, entre outras actividades, editava um Boletim. Pelo seu imenso activismo o clube torna-se suspeito e, quando a PIDE assalta a sede e prende alguns membros, apreende também um Boletim em fase de composição no qual se noticia o nome de todos os dirigentes, incluindo João Abel Manta que co-dirigia essa publicação[ix].
Acresce ainda que a sua morada já andava a ser vigiada por servir de recepção de correspondência (que entregava a Dias Coelho) e o seu quarto, “que até tinha uma porta que dava directamente para o patim da entrada” era utilizado para reuniões clandestinas, a pedido do amigo Zé Coelho.

E foi assim que pelas 00:30 da madrugada do dia 1 de Fevereiro de 1948, João Abel é preso pela PIDE na casa dos pais — Rua Tenente Valadim (actual Infante Santo) 362-2º Esq. — e levado para a prisão de Caxias por “fazer parte de uma organização clandestina”.[x]  Tinha 20 anos, acabados de fazer no dia anterior, 29 de Janeiro.


Ficha da PIDE de João Abel Manta (apesar do mau estado é um documento importante)


Em Caxias, começa por ser colocado em companhia dos cineclubistas mas “eles acabaram por sair primeiro e eu fiquei lá sozinho na cela”. Os interrogatórios na sede da PIDE são de extrema violência psicológica com o famigerado Fernando Gouveia a exigir nomes. Para não colocar em perigo gente ainda não assinalada pela polícia, como Dias Coelho, cita alguns membros do Juvenil que estiveram ou ainda se encontravam presos. Fisicamente não foi torturado: os agentes tratariam com alguma deferência uns tantos que consideravam serem filhos-família.

A Direcção [Universitária] Provisória do MUD Juvenil emite um comunicado apelando à unidade e ao protesto, afirmando que “a defesa dos nossos amigos presos é a própria defesa do Movimento”, ao mesmo tempo que um abaixo-assinado de solidariedade para com João Abel é posto a circular na Escola de que era aluno mas sem grande êxito porque “entre os colegas do meu curso [arquitectura] houve uma série de gente que recusou assinar com medo do «Cunha Bruto»”, o professor que tutelava duas cadeiras fundamentais do curso e que todos os alunos temiam. No entanto houve um número restrito que não se deixou intimidar e corajosamente protestou junto da PIDE pela prisão do colega: José Dias Coelho, Rolando Sá Nogueira e Nuno Craveiro Lopes

 
Nuno Craveiro Lopes, colega e amigo de JAM, que fará toda a vida profissional em Lourenço Marques (Maputo) e faleceu antes de Abril 74


É solto a 14 de Fevereiro de 1948. Sobre a reacção familiar, recorda que o pai Manta, apesar de oposicionista, “não gostou que eu tivesse sido preso, achava um bocado inútil essas coisas (...) mas a minha mãe reagiu extraordinariamente e deu-me todo o apoio” - ou não fosse Clementina Carneiro de Moura uma digna subsidiária da ética republicana.[xi]

A polícia política não mais o largaria. Mas João Abel Manta nunca deixará de intervir socialmente, sobretudo quando estão em jogo as causas da cultura.

Quando em 1959 morre Diogo de Macedo e o regime nomeia o pintor Eduardo Malta para o substituir na direcção do Museu de Arte Contemporânea, João Abel afirma publicamente: “Com Diogo de Macedo sempre trilhámos os caminhos da arte do nosso tempo, mas agora teremos certamente de lutar contra todos os preconceitos e ameaças que nos vão tolher os passos”[xii]. Essa luta contra o conhecido academismo de Malta ficou expressa numa das várias representações então dirigidas ao ministro da Educação Nacional, discordando da nomeação e sugerindo/exigindo que fosse substituído.[xiii]

Várias obras de João Abel foram censuradas e o auge acontece já na época marcelista com a acusação de ridicularizar a bandeira portuguesa num cartoon publicado no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa de 11.11.1972 e, por isso mesmo, levado à barra do Tribunal. O desenho apresentava uma bandeira nacional sem a totalidade dos atributos e, no centro, por sob a esfera armilar, uma cabeça de mulher, supostamente a cantar. Era óbvia a crítica aos habituais festivais da canção de onde os artistas de maior qualidade estavam arredados. 


O cartoon que irritou Marcelo



Viu-se obrigado a pagar uma fiança para aguardar julgamento em liberdade e em Junho de 73 quando o processo finalmente foi concluido, com a sua absolvição, foi afirmado pelo advogado de defesa, José Carlos de Vasconcelos:
“Este não foi o processo de João Abel Manta – mas o processo dos seus próprios denunciantes, da censura, do fascismo (...) É portanto um processo político, que leva ao extremo do ridículo a farsa da pseudoliberalização marcelista (...) e é também um processo que felizmente chegou até este tribunal (...) cuja única sentença condenatória será, na consciência de nós todos, homens livres, para o regime que trouxe para este banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Manta.” [xiv]

O 25 de Abril de 1974 chegaria a tempo de João Abel Manta não voltar a ser incomodado pela polícia política, desta feita pelos desenhos do livro Dinossauro Excelentíssimo que produziu com o amigo José Cardoso Pires, e que ficaria para a posteridade, a par com as suas Caricaturas Portuguesas do Tempo de Salazar, como a mais lúcida e feroz denúncia dos cinquenta anos de obscurantismo vividos no nosso país.




Julia Coutinho

Nota:  este artigo, com ligeiras alterações, foi publicado no catálogo de uma Exposição realizada pela CM Amadora, em 2008, pelos 80 anos de vida de João Abel Manta.
 


[i] João Abel Manta foi dos raríssimos alunos (se não o único) a fazer o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, sem atrasos. As razias eram em Geometria Descritiva ou em Desenho Arquitectónico (1º ano) e Construções (4º ano) de Luís Alexandre da Cunha, o “Cunha Bruto”, que também foi director da escola. Ficaram célebres as debandadas para a Escola de Belas-Artes do Porto, para fazer as cadeiras deste professor.
[ii] Rolando Sá Nogueira, entrevista à autora, em Março.2001. Todas as citações de RSN são desta fonte.
[iii] A Família Manta convivia com Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Dordio Gomes, Keil do Amaral, Gualdino Gomes, Lopes-Graça, Bernardo Marques, Bento Jesus Caraça, Pulido Valente, e muitos outros.
[iv] Pertenceram à Comissão do MUD Juvenil da Escola de Belas-Artes de Lisboa, entre 1946-1952, J.Dias Coelho, J.Abel Manta, R.Sá Nogueira, Jorge Vieira, Lima de Freitas, Nuno Craveiro Lopes, Alice Jorge, F. Castro Rodrigues, M.Emília Cabrita, Raul Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, António Alfredo, M.Cecília Ferreira Alves, Bartolomeu Cid, A. Sena da Silva, Lia Fernandes, Tomás Xavier de Figueiredo,  etc.
[v] Em 29.04.1947 com prisões e agressões indiscriminadas. Na sequência, Salazar demitiu grande número de professores do ensino superior, nomeadamente o director da Faculdade de Medicina.
[vi] Foram 10 as EGAP´s, entre 1946-1956. A invasão da Pide deu-se a 13.05.1947 pelas 13 horas, e as obras apreendidas de Júlio Pomar, Avelino Cunhal, Viana Dionísio (José Viana) José Chaves (Mário Dionísio), Maria Keil, A.Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares e Rui Pimentel (Arco).
[vii] António Valdemar, “SNBA: continuidade e ruptura”, DN 18.03.2001
[viii] João Abel Manta, entrevista à autora em 22.08.2002. Todas as citações de JAM são desta fonte.
[ix] A sede funcionava na Rua B às Amoreiras 4-1º Dto – Lisboa, das 21.30 às 24 horas, em casa alugada para o efeito e inaugurada em 10.11.1947. O assalto da PIDE deu-se em 31.01.1948.
[x] Conforme Registo Geral de Presos e Processo  ANTT/ PIDE/DGS 214/48 – NT 4956
[xi] Abel Manta (pai) foi muito maltratado pelo regime. Em 1932, concorre à Escola de Belas Artes de Lisboa para professor de Pintura, sendo preterido por Henrique Franco, num processo muito pouco claro, de que recorreu. Um ano depois, Henrique Franco demite-se e, em vez de ser chamado o segundo classificado no concurso, o regime nomeia Varela Aldemira que fora discípulo de Columbano.  Já em 1939 Abel Manta e Dordio Gomes haviam sido chamados para decorar a escadaria principal do Palácio de S. Bento. Por questões estéticas, são dispensados quando as obras se encontram quase prontas, sendo as mesmas destruídas e ambos substituídos por Lino António, numa humilhação sem precedentes apesar de terem sido indemnizados.
[xii] Lista da PIDE com declarações públicas dos artistas plásticos e assinalando, de entre eles, quais os que se encontravam representados no Museu de Arte Contemporânea.
[xiii] A acção de Eduardo Malta (1900-1967) à frente do Museu de Arte Contemporânea revelar-se-ia catastrófica, a todos os níveis, como já foi publicamente admitido. Após o incêndio do Chiado seria o edifício objecto de requalificação profunda, reabrindo em 1994 como Museu do Chiado.
[xiv] J. Carlos Vasconcelos, «Cartoons» que abalaram o fascismo  e fizeram sorrir a revolução», in O Jornal de 19.12.75, pp. 20-21.



Joaquim Pessoa: o amor-combate







Joaquim Pessoa (Barreiro, 1948) é um poeta há muito arredado do nosso convívio.  Não se edita, não se lê, não se escuta. Das gerações mais novas, quem o conhece? Mas ficará na História como um dos autores mais interventivos de Abril. Pouco importa que alguns eruditos o considerem «poeta menor». Para mim e para muitos outros Joaquim Pessoa será sempre a voz do Amor-Combate dos tempos do PREC.


AS PALAVRAS DO MEU CANTO

Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
porque são a razão de quem as sente.

Palavras. Todas elas do meu povo.
Amigas. Companheiras. Namoradas.
E são o canto antigo. O canto novo
de quem não as quer ver amordaçadas.

Palavras que são vento. E tempestade.
Palavras que são sol. E são abrigo.
Verdade. Amor. Poema. Liberdade.
E a palavra maior: palavra Amigo.

Palavras que são arcos. E são setas.
Com elas se defende uma canção.
As palavras são as armas que os poetas
devem fazer passar de mão em mão.

Camões lutou com elas. E por elas.
Junqueiro perfilou-as. E Cesário
abriu todas as portas e janelas
e veio à rua escrever como um operário.

As palavras do sangue. Essas palavras
que são a tua foice. O meu poema.
Palavras de suor quando tu lavras.
De alegria se escrevo e vale a pena.

Palavras que te dizem: estou aqui.
Palavras que me doem. E que eu canto.
Palavras com raiz no meu país
e que já me doeram. Nas não tanto.

Palavras que não gosto de dizê-las
assim feridas. E tu amor não digas!
Palavras encarnadas. Estou a vê-las
em Maio que é o mês das raparigas.

São palavras de fogo. Mas não ardem.
Palavras simples. Do meu cantar de agora.
São palavras. Amigas que não partem.
E ficando resistem à demora.

Palavras que não morrem. Nunca morrem.
E são a minha voz. A minha gente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.


Joaquim Pessoa, in Amor Combate, p.107