sexta-feira, dezembro 22, 2006

Festas Felizes



Natal 2006


não te digo do natal coisa nenhuma
do natal enfeitado a sumaúma
que se arruma em cada ano nalgum canto

não te digo do natal em mar de espuma
esse efémero natal-coisa-nenhuma
quebradiço a ter-de-ser e sem encanto

não te digo do natal de coitadinhos
nem daquele de nós todos tão sozinhos
conformados sem ter sonhos nem espanto

não te digo do natal feito de prendas
num afecto leva-e-traz que me encomendas
e trocamos cada ano em qualquer canto

mas te digo um natal fio de seda
do casulo entretecido que te enreda
e te leva ao riso ao sonho em doce encanto

digo ainda do natal feito de enlaces
desfiando o casulo onde renasces
enlaçando cada ser por valer tanto

digo então um natal que desse fio
deslassado mundo fora como um rio
nos envolva a todos nós num acalanto

mais te digo do natal de um outro início
celebrando a nova esperança o solstício
recriado em nossa voz num novo canto.

Jorge Castro
Este poema é do meu amigo Jorge Castro (Orca) a quem agradeço a autorização concedida.
Ninguém melhor do que ele exprime toda a ternura desta data mas, ao mesmo tempo, a necessidade que muitos de nós sentem de (re) criar o Natal para que deixe de ser a época nataleira-consumista em que se tornou e se torne na Festa Fraterna e Solidária que deveria ser.

terça-feira, dezembro 05, 2006

A vida é efémera .... acreditem.

Entre os dias 7 de Novembro e 1 de Dezembro (dia dos meus anos...) estive internada no serviço de cirurgia do Hospital de S. José, em Lisboa.
Inicialmente o diagnóstico foi o de uma Pancreatite Aguda e ... pedra na vesícula, sendo que os médicos sempre valorizaram muito mais a infecção no pâncreas em detrimento da vesícula. E foi assim que me mantive semanas a dieta zero (sem poder ingerir água, sequer) apenas molhando os lábios. Quando as coisas pareceram melhorar enviaram-me para casa à espera de melhor oportunidade para a operaçáo à vesícula. Só que, passados 2 dias, eu estava de novo internada.
E agora com temperaturas altíssimas quase constantes e cólicas dolorosíssimas!!!
Confesso: vi a morte rondar-me, pensei que tinham chegado os meus últimos momentos.
Finalmente decidiram operar-me. E ainda bem que o fizeram porque a vesícula (um pequeno saco que temos na base do fígado) estava de tal forma infectada que uma peritonite seria inevitável e, obviamente, uma septicémia tomaria conta de mim. Aconteceu na madrugada de 25 para 26 de Novembro. Foi um corte enorme, transversal e na horizontal. E um dreno ...
O pós-operatório foi terrível. Temperaturas muito altas e dores constantes.
Apesar de tudo, no dia 1 de Dezembro quiseram mandar-me para casa e oferecer-me esse belo presente. Regressei com os pontos e com o buraço do dreno aberto.
De então para cá, vou sobrevivendo. Com imensas dores, com imenso mau-estar, uma grande depressão e muita tristeza.

Valem-me os AMIGOS que não me abandonam. Mas, entre estes, existem os imprescindíveis.

Obrigada ao meu amigo e vizinho Mário que cuidou (como sempre) com todo o carinho e toda a dedicação dos meus dois meninos de quatro patas: o Miró e a Elis Regina.

Obrigada, querida ANGELA. Tu és mais que minha irmã, mais que minha amiga... Tu és a IMPRESCINDÍDEL, aquela pessoa que, incondicionalmente, está SEMPRE PRESENTE! Aceitando-me como sou, amando-me como sou! E nunca me abandonando !
Não tenho palavras para dizer-te o quanto te amo!
Mas tu sabes.

Provavelmente vou agora descansar e recuperar para casa dos meus amigos Albergaria, a minha família de acolhimento, os AMIGOS com quem sempre posso contar.

Um beijo para TODOS !

segunda-feira, outubro 23, 2006

Vasco Gonçalves e as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA



Passados seis meses do 25 de Abril de 1974, na vigência do III Governo Provisório chefiado por Vasco Gonçalves, é apresentado ono Palácio Foz em Lisboa o Programa de Dinamização Cultural que iria ser coordenado pela Comissão Dinamizadora Central (CODICE), estrutura da 5ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, , em colaboração com a Direcção-Geral da Cultura e Espectáculos.

Para o então Primeiro-Ministro, um dos principais objectivos desta iniciativa «era levar os militares, o MFA, às populações e apoiá-las no desenvolvimento, na tomadas de consciência dos problemas que elas tinham. [...] Pretendíamos, sobretudo, transformar as ideias de fundo dessas populações. Não pretendíamos transformar essas populações em socialistas ou em comunistas. Queríamos transformá-las em gente democrática, gente aberta a analisar as situações e arrancá-las de toda aquela carga de fascismo que durante 48 anos tinha pesado sobre elas».
A par destes objectivos, Vasco Gonçalves defendia, também, que as Campanhas tiveram um importante papel na democratização e dinamização das Forças Armadas, sublinhando o facto de os militares que as protagonizaram regressarem «mais ppolitizados» devido ao contacto com as diferentes realidades que procuravam transformar. Nesse sentido, e numa perspectiva cara à Primeira República, Vasco Gonçalves evocou, numa sessão de esclarecimento realizada no Sabugo (Sintra) em Fevereiro de 1975, a figura do «militar-educador». Este deveria aprender com aqueles que procurava educar, com aqueles que procurava ensinar, com aqueles que procurava ajudar. Na sua óptica, a expressão que melhor caracterizava a Dinamização Cultural era o «trabalho quotidiano» porque as Campanhas constituíam uma aprendizagem mútua, um processo de conhecimento do país que a revolução surpreendeu.
Para Vasco Gonçalves o grande impulsionador das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA fora Ramiro Correia, o «comandante-médico que até fazia versos [...] um idealista no bom sentido do termo». Na génese desta iniciativa, salientava a importância da Acção Psico-social utilizada na guerra colonial, assegurando que «muitos militares vieram influenciados com isso e consideravam-se em condições de desenvolver uma acção desse nível dentro do nosso proprio país, com os seus compatriotas».
[...] a relação entre os militares e a população adquiriu novos contornos com a transição democrática e, para Vasco Gonçalves, as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA seriam uma ferramenta axial no fortalecimento desta relação, eternizada na expressão aliança Povo-MFA a qual condensava os ideais da facção progressista do MFA «que eram sobretudo os da libertação da nossa pátria, do nosso povo, da realização das aspirações básicas». Utilizava o termo «missão» para aludir às Campanhas, afirmando serem estas «um trabalho gigantesco para as nossas possibilidades», referindo-se à insuficiência de meios técnicos e humanos que dispuseram para a concretização desta proposta da agenda revolucionária. «Foi uma das nossas debilidades fundamentais» - afirmava.
Num dos muitos cartazes que desenhou [...] João Abel Manta pareceu representar a «esperança e a confiança» que Vasco Gonçalves depositava nesta iniciativa ao atribuir-lhe uma centralidade no célebre cartaz MFA-Vasco-Povo. Povo-Vasco-MFA (1975), onde surge ladeado por duas figuras híbridas meio soldado, meio povo, reforçadas pela frase «Força, Força Companheiro Vasco / Nós Seremos a Muralha de Aço». E foi da seguinte forma que Vasco Gonçalves se referiu a este cartaz: «O cartaz é muito terno, eu era o companheiro Vasco, mas para certo sector da população, não para o país».
(Texto de Sónia Vespeira de Almeida, com base em entrevista a Vasco Gonçalves (2002) no âmbito da sua tese de doutoramento em Antropologia.
Inserido no folheto comemorativo da homenagem a Vasco Gonçalves, realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 21 de Outubro de 2006)

quinta-feira, outubro 19, 2006

Homenagem ao General Vasco Gonçalves


Sábado, 21 de Outubro, às 15h30
Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade
Um grupo de cidadãs e cidadãos civis e militares, amantes da Liberdade e da Democracia, constituiui-se em Comissão Promotora de homenagem ao antigo Primeiro-Ministro de Portugal nos II, III, IV e V Governos Provisórios.
A passagem do primeiro aniversário da morte do General Vasco Gonçalves é o momento oportuno para reflectirmos sobre a sua figura ímpar, a sua dimensão ética, moral e política, o seu exemplo de dedicação ao País e aos portugueses, a sua simplicidade e transparência e sobretudo a sua luta por uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Recordemos o homem íntegro, o cidadão excepcional, o militar corajoso e o político totalmente dedicado à causa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos.
Momento Cultural com:
Fausto Neves (pianista)
Manuel Freire
Maria do Céu Guerra
Coral dos Mineiros de Aljustrel
Coral Catarinas de Baleizão
Coro da Academia dos Amadores
Intervenções de:
Prof. Doutor Barata Moura
Corornel Vicente da Silva
Dr Vasco Gonçalves Laranjeira (neto do General)

terça-feira, agosto 29, 2006

Amesterdão



"Uma só Anne Frank comove-nos mais que as inúmeras pessoas que sofreram como ela, mas cujas imagens permanecem ocultas. E assim terá que continuar: se pudessemos compartilhar os sofrimentos de todos, ser-nos-ía impossível continuar a viver" (Primo Levi, escritor e sobrevivente de Auschwitz)

Passei uns dias em Amesterdão e fiquei fascinada.
com a luminosidade e paisagem citadinas
o muito verde e as muitas flores
os canais e as alamedas circundantes
o predomínio da bicicleta como meio de transporte.
a animação nas ruas
a arte e a cultura ao nosso alcance
(os 400 anos de Reambrandt são lembrados por todo o lado...)
as pessoas
a sua alegria, tolerância e civismo.
a liberdade
mas também as regras para vivê-la
sem prejudicar o outro.
Os museus.
(a emoção de olhar Van Gogh,
Reambrandt, Vermeer...)
a preocupação para que o passado esteja presente
e a Memória prevaleça.

Deixo-vos com a Casa de Anne Frank que me comoveu profundamente

com o Van Gogh Museum

e com a pintura flamenga do Rijks Museum

quinta-feira, agosto 17, 2006

In Memoriam



Morreste-me
e o sol fugiu
de repente

Morreste-me
e a dor é um estilete
a retalhar

Morreste-me
e o frio invade
e gela

Morreste-me
e abriste um sulco
sem fim.


Para a minha amiga REGINA ABREU.

Uma grande LUTADORA ANTIFASCISTA.
Uma grande MULHER.
Uma grande AMIGA.

domingo, agosto 06, 2006

Para Memória Futura



Tomás Xavier de Figueiredo
(1930-1994)


Canção Cinco e Dez

Às cinco e dez da madrugada tudo é já claro.
À lucidez do escuro junta-se o Sol que nasce.
Não adianta ver quando ver é fazer
O fazer precisa que muitos vejam
E leva isso sempre o tempo que leva.
E diz-se então o mesmo muitas vezes
De modos cada vez mais próximos de coisas mais distantes
Pois se busca o nexo que tornará simples o que é claro.
Mas nada se adianta o tempo
Se é preciso esperar:
Só se pode ir rindo.
Mas Senhores, já agora,
Se desta loucura em que me afundo
Mas eu sei,
E que da vossa é feita,
Mas fingis não saber
Fingindo sempre que é doutros que se fala,
Alguma ideia vos der jeito,
Fazei favor de a usar
Sem pagar royalties nem direitos:
As ideias são livres e anónimas como a água e o ar.
E se vos desagradam
Usai o remédio do tempo
E fazei por esquecer,
Porque não quero dar conselhos a ninguém
E gostaria apenas que me pagassem em moeda igual.
Deixai-me sossegado
E ficai sossegados
Pois nenhum de nós dura muito tempo.
Os erros são o estrume da história
Mas a água e o ar são o lugar das flores e dos frutos
E o estrume só é útil na terra.
Perdoai aos que vos enganaram
Para que vos perdoem aqueles que vós próprios enganastes.
Os que se seguem nada têm a ver com os nossos enganos mútuos
E poderão voltar a usar as nossas palavras certas
Do tempo em que estavam exactas.
Mas só quando estivermos já esquecidos,
Pois é esse o preço da cegueira voluntária.


(in Rumo a Cacilhas, Sempre!, 1991, p. 123)

sábado, julho 29, 2006

Carta a Frank




Escrevo-te esta carta com o coração apertado. Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário politico ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas - como te costumas classificar, para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel são árabes - mais progressistas que conheço. Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramalah. Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso.

Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo que defendo para o povo palestiniano. Esqueço, com alguma má consciência, que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico. Esqueço também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700 mil palestianianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.

Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de facto, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de´água e de electricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os check points e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de facto, os meter num vasto campo de concentração). As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano. E agora tudo faz sentido.

A invasão e destruição do Líbano em 1982 ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações. Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?

Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis. Depois do Líbano, seguir-se-ão a Síria e o Irão. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.

Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lóbi comunicacional - que sufocantemente domina os jornais do meus país - com a benção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da UE. Sei que partilhas muito do que penso e espero compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país. Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz.

(Boaventura Sousa Santos, in Visão, 27 Julho 2006)

segunda-feira, julho 24, 2006

O menino e a paleta



No hotel, o único hotel daquela cidade, tão pequena que parecia ser a primeira cidade construída no mundo, o meu amigo, meu único amigo naquele momento único, contou-me a história de um menino que desenhava tudo, as flores, as nuvens, os peixes e as estrelas, em cinzento, um cinzento uniforme e triste.

As paredes da sala estavam cheias de quadros dos alunos, numa generosidade, num esbanjamento de cores que fazia sorrir os olhos da gente. Mas, no meio de toda aquela paleta, um desenho cinzento contrastava, doia, fazia pensar. E os professores, convencidos que o menino era daltónico, resolveram mandá-lo ao médico para obterem confirmação do que pensavam.

O médico observou e interrogou o menino, que gostava de cores, saboreava as cores, punha tanta força no que dizia que o verde dos insectos tinha reflexos metálicos, o arco-íris dos pássaros voava, cantava, tão feliz e evidente que só um louco poderia falar de daltonismo. Aquele menino era normal, captava todas as cores, remexia nelas como quem mergulha numa piscina, atirava ao ar o amarelo, o azul, o laranja, o lilás, num jogo malabar, exacto, impressionante, sem hesitações.

Voltou o menino à escola e a curiosidade, quase inquietação, voltou ao cérebro dos professores. E disseram ao menino que passasse o fim-de-semana desenhando e trouxesse de casa cinco trabalhos diferentes que ele próprio deveria escolher. Vieram os desenhos: uma zebra correndo, uma girafa fugindo de um leão com seu pescoço longo, longo, longo, um cacho de bananas no chão congolês, as montanhas pardas do Ruanda Urundi, o sol vermelho mergulhando no rio, tudo cinzento, implacavelmente cinzento, inexoravelmente cinzento. Foi então que os professores chamaram burro ao médico, olharam o aluno com olhos assustados e resolveram visitar os pais do menino nesse mesmo dia.

E lá foram, em comitiva, o mais velho levando a criança pela mão como quem ajuda um enfermo e os outros seguindo, com caras fechadas, graves e ridiculamente solenes. A ladeira era íngreme, o bairro carcomido, e a casa tinha frinchas, buracos, marcas e socos do tempo. Os pais do menino, com gestos amedrontados, pediram desculpa de só terem três cadeiras e os professores falaram dos desenhos do aluno avançando lentamente, preparando terreno, como quem vai anunciar uma desgraça. E afinal tudo era tão simples quanto cruel. O menino não tinha, nem nunca tivera, lápis de cores.

Saímos do hotel curvados pelo peso daquela história. O tempo mudara e tudo era chumbo e cinza è nossa volta. Como nos desenhos do menino pobre.



(Sidónio Muralha, in O Andarilho, Prelo, 1975, pp.19-21)

quinta-feira, julho 20, 2006

Parabéns, Raquel



A Páginas Tantas...

Feliz Aniversário

"Vai, semente,
cresce, germina,
rompe os prédios,
fura o telhado,
estoira o mundo,
rasga as núvens,
racha o céu,
enche a noite de novas estrelas
que riem, sofrem e choram
feitas de carne humana."

Amiga,

Acende o archote dos tempos
Para iluminar novos tempos
que outros tempos
tempos traz.

(sobre poema de J Gomes Ferreira)


sábado, julho 15, 2006

Notícias do bloqueio

Aproveito a tua neutralidade
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos em silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia como um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vais pois e conta nos jornais diarios
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

(Egito Gonçalves)


Publicado em 1953, este poema circulou semi-clandestinamente sendo grande a repercussão alcançada entre as hostes oposicionistas. Influenciando toda uma geração de jovens poetas, «Notícias do Bloqueio» foi o nome escolhido por alguns deles ao decidirem editar um fascículo de poesia,entre 1957-1962, a partir do Porto, publicação que constituíu um marco na resistência à ditadura de Salazar.

quinta-feira, julho 13, 2006

Para o meu amigo LR

Nenhuma viagem se compara à tua
Tu navegas numa ilha
E só nessa ilha podes viajar
Em qualquer viagem da tua vida

A tua ilha é sempre no ilhéu do coração
E com o teu olhar e os teus passos
Propagas-te e dilatas-te no espaço
Na surpresa de tudo ser o que é
E não ser
E assim te perdes sem te perderes
Como quem atravessa um muro
E respira com a sua sede
De respirar

Às vezes parece-te que a tua vida não é a tua vida
Mas foi a vida que te deu a vida
E nada se parece contigo
E em tudo viajas no assombro de navegares
Sem conheceres bem o teu rumo
Com a coragem de quereres vir ao encontro
Da verdadeira vida
Fora de ti longe de ti
Transformada em ti.

(Antonio Ramos Rosa, 21-02-04)

sábado, julho 08, 2006

Os Cafres da Europa - II

A 1 de Janeiro de 1949 iniciara-se a campanha eleitoral para a Presidência da República. Pela primeira vez aparecia um candidato oposicionista, o General Norton de Matos. Iam ser postas à prova as "eleições livres e democráticas" prometidas por Salazar.
A imprensa trazia para a ribalta a voz da oposição.

Segue-se a entrevista ao Prof. Manuel Rodrigues Lapa, publicada no Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1949.
Como se sabe, o Prof. Manuel Rodrigues Lapa seria preso no dia seguinte e encarcerado no Aljube.
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Entrevista

Com a abertura do período eleitoral, logo se anunciou que se iam fazer criticas severas à obra da actual situação, e o próprio Governo declarou que esperava essas criticas e não se oporia a que fossem apresentadas, com perfeita liberdade de expressão. Um dos aspectos que mais têm sido focados pelos que se opõem ao regime vigente é o que se refere ao ensino. Aproveitámos um encontro com um dos mais categorizados professores universitários da oposição, para abordar, precisamente, este problema.

O nosso entrevistado é o professor dr Manuel Rodrigues Lapa, erudito a quem se deve uma obra valiosa de investigação e vulgarização literária. Depois de completar os seus estudos em Paris, o prof Rodrigues Lapa entrou na Faculdade de Letras de Lisboa, onde regeu a cadeira de Filologia e Literatura Portuguesas até Maio de 1935, em que foi demitido por motivos políticos, incluído na primeira lista dos funcionários afastados conhecida sob a designação de «Lista dos 33». (…) Foi director do semanário O Diabo de 1935 a 1937. Actualmente (…) trabalha numa reedição das suas «Lições da Liteatura Portuguesa, das Obras de Tomas António Gonzaga, que publicou no Brasil, e da Estilística da Língua Portuguesa. Dirige, alem disso, a colecção de Textos Literários da «Seara Nova».

Considerado uma das nossas maiores autoridades em assuntos de literatura portuguesa, o professor Rodrigues Lapa é geralmente conhecido como um dos mais firmes adversários da actual situação politica. Eis a razão por que, neste momento, a sua opinião se reveste de particular interesse.

P – Que pensa, como professor, sobre os problemas do ensino durante este regime?

R – Se nos vários departamentos da governação e administração muito há a criticar, os erros, quase diria os crimes em matéria de educação são de tal ordem, que excedem o que de pior se pode imaginar a tal respeito.

P – Diga então…

R – Não é agora a altura de entrar em pormenores, que terão cabimento em outro lugar e poderão esconder, tal a sua espessura, a verdadeira face do problema. As criticas serão feitas por entidades competentes e especializadas.

P – Mas o doutor …


A Situação do Ensino

R – Eu não me escusarei a fazer também essas criticas concretas e indispensáveis. Na próxima reunião de sábado, na Voz do Operário, tenciono mesmo apresentar um trabalho de critica ao ensino universitário – aquele, naturalmente, com o qual mais tenho contactado.

Por agora, o que já lhe posso dizer é esta cruel realidade: retrocedemos mais de um século nos princípios e nos métodos educativos. Tudo o que a Republica criou, logo após o seu advento, inspirada nas concepções do progresso e da liberdade, com uma franqueza por vezes ingénua, mas simpaticamente generosa, foi suprimido ou abastardado pelos pedagogos da Ditadura. E vê-se bem porquê. A principal preocupação dum regime despótico é deformar a alma simples e generosa da mocidade, porque tem a convicção, bem fundada, de que, se ela lhe foge, não encontra condições de sobrevivência. Por isso, lança mão da escola, logo a seguir aos quartéis. E que faz então? Com atropelo dos mais sagrados princípios da ciência da educação, procura levar para a escola a disciplina imposta dos quartéis, a sua férrea hierarquia, o sentido da obediência passiva. Nem por um momento lhe acode, nem pode acudir, que a alma da criança é como a flor, que precisa de ar e luz para viver; e que só com os estímulos da liberdade a criança se conhece e se revela.

Entramos então no capitulo da «pedagogia heróica», que é o contraposto da verdadeira pedagogia: rufos de tambor, marchas pelas ruas da cidade, braços ao alto e a algazarra das canções agressivas. Os pais e as mães contemplam tristemente os seus filhos, desviados dos seus deveres de estudantes pacíficos para esta mascarada bélica e ruidosa. É a isto que se chama nacionalismo, uma coisa que parece ter sido inventada pela Ditadura … Este espectáculo, que reduz o mocinho à condição mesquinha de autómato, cessa mais ou menos, quando o estudante entra para a escola superior, já com barba na cara, um pedacinho de homem. A inteligência e o carácter já estão meio formados. O ambiente das Universidades, agora purificadas da lepra dos maus professores, as lições dos conspícuos catedráticos, graves nas suas cadeiras vitalícias, acabam por fazer o resto: é mais um bacharel submisso que se senta à mesa do orçamento, ruminando sossegadamente a sua ração diária, feliz, tranquilo, só saindo do seu beatifico torpor, quando se trate de assistir a uma dessas manifestações espontâneas sugeridas pelo seu superior hierárquico.

É destes cidadãos que a Ditadura quer fabricar em série, através das suas escolas? Que lhe prestem; mas, ou muito nos enganamos, ou a mocidade de hoje, permeável às solicitações do ambiente, contrario ao regime, recebendo incitações da parte culta e sã da Nação, não se deixa totalmente corromper e encontra em si mesma e no ar que respira o antídoto contra os venenos que lhe querem instilar. Pobre mocidade! Nós a salvaremos da ignomínia e da servidão. Nós lhe incutiremos o verdadeiro nacionalismo, que é o culto da verdade no amor da Pátria, a compreensão fraterna e o sentimento da humanidade.


O Modelo Político

P – Vê-se que as suas preocupações politicas continuam vivas. Que pensa do momento politico actual?

R – Ora! O que pensa toda a gente de bom senso: que é chegada a oportunidade de acabar sem sobressalto, com este estado de coisas, que nos envergonha como europeus (continuamos a ser os cafres da Europa, como nos alcunhavam no século XVII) , e nos está causando graves inconvenientes, impedindo que possamos entrar na grande família das Nações Unidas. O regime que há 22 anos nos desgoverna e nos oprime – apesar do rótulo de «democracia orgânica» com que o quiseram camuflar – não tem a menor possibilidade de ingresso, a não ser que se dê a mudança das instituições vigentes, com base nos princípios da verdadeira democracia.

Insisto no adjectivo verdadeira: regime do povo, pelo povo e para o povo, considerado na sua totalidade e com igualdade de todos os cidadãos e a mesma garantia de acesso aos bens da vida. O termo anda de tal modo adulterado, que é necessário reconduzi-lo ao seu significado genuíno, que não pode deixar de ser o que apontei. Enfim, meu caro amigo, e revertendo ao principio, se houvesse nos homens da Situação um pouco de senso-comum e não estivessem muitos deles soldados a isto por interesses que não têm nada de espiritual, era chegada a ocasião de se escapulirem pelas traseiras, com menor prejuízo para a integridade do físico. Mas sucede com eles o que sucede com todos os regimes em decomposição: quanto menos crêem na sobrevivência das instituições que os mantêm, mais aferradamente se empenham na sua defesa.

P – Pensa então que o regime actual se aproxima do fim?

R – Sem duvida. É uma corrida vertiginosa para o abismo. Em 22 anos de Ditadura não convenceram ninguém; e muitos que ajudaram o monstro a nascer, desiludidos e ultrajados, já viram as armas contra ele. Chega a ser cómico o trágico desta situação, que apenas se segura no alto duma baioneta.

A Posição do Escritor

R – Sou escritor e orgulho-me de ter sido algum tempo jornalista, director do jornal O Diabo, órgão da oposição, já se vê. O que passei nesse tempo com a Censura daria para contos largos: paginas inteiras deitadas abaixo pelo lápis azul, o mais vivio e acerado do pensamento obrigado a um silencio injusto, tudo isso, toda essa revolta acumulada na alma, marca um homem para sempre. Desde esse momento compreendi a trágica situação de muitos jornalistas submetidos à censura. Um jornalista manietado, que não ausculta livremente a opinião publica, que se vê forçado a publicar versões falsas ou deturpadas dos acontecimentos, deve sofrer muito. É realmente de endoidecer. Por isso, é aproveitar esta liberdade que nos concedem, de muito má vontade, encher os pulmões de ar fresco e dizê-las boas e bonitas. O dever dos escritores – não consideramos como tais certos escribas arregimentados – é e sempre foi, nos períodos culminantes de crise, como esta que atravessamos, dar o corpo ao manifesto, servir as aspirações do povo, comungar com ele no seu anseio de liberdade e justiça.

P – Defende, portanto, a participação activa do escritor na propaganda política?

R – Pois claro. Não traímos a nossa missão, descendo de vez em quando do nosso gabinete à praça publica, onde rumorejam as multidões do povo que trabalha. Ele precisa de nós, do nosso saber, a que ainda não chegou, do nosso conselho. Nós precisamos dele, da sua energia pura e palpitante, do seu entusiasmo criador.

P – E qual a posição do escritor em face dos actuais problemas políticos nacionais?

R – Estou absolutamente convencido de que a grande maioria dos escritores portugueses está, neste lance decisivo, ao lado do candidato que consubstancia as aspirações do povo e que promete solenemente dar-lhes satisfação, empenhando nisso a sua honra de soldado, que o é de verdade, como o provam a sua acção em África e por ocasião da outra Guerra, ao serviço duma grande causa civilizadora. Não é o homem que sobretudo nos interessa: é o que ele simboliza para nós: um ideal de Democracia actuante, que conduza o País pela via do Progresso e da Liberdade.

terça-feira, julho 04, 2006

Os Cafres da Europa

Em Legítima Defesa
(Nota enviada ao Diário de Lisboa em 18 de Janeiro de 1949, impedida de publicar pela censura)

No dia 6 do corrente fui preso à porta da minha residência. Chegado à Policia Internacional e de Defesa do Estado, entregaram-me um papel: era o mandado de captura. Nele vi que estava incriminado pelos artigos 149 e 174 do Código Penal. Devia ser «um caso sério», como diria um dos meus futuros camaradas de prisão; mas como não estou habituado àquela amena literatura do Código, não soube de que se tratava, calculando embora que fosse por motivo da minha entrevista no Diário de Lisboa. Fui conduzido ao Aljube. À entrada do cárcere, deparei com dois homens, avergados ao peso de atrozes responsabilidades: um deles, o Quesadas Sanches, do Barreiro, cometera um crime imperdoável – fora apanhado com o livro do Sr General Norton de Matos, e ali estava havia mais de um mês; o outro, um rapagão de Monte-Redondo, o Pancadares, perpetrara crime ainda mais hediondo: projectara organizar uma escola nocturna e uma pequena biblioteca e era ainda acusado de «andar a espalhar panfletos à mão armada» (!). Estão a ver os propósitos sinistros daquele homem e como ele inventou um método eficacíssimo de propaganda: chegar ao pé dum sujeito, largar dois tiros para o ar e meter-lhe nas unhas o papelinho…

Só no dia seguinte soube, positivamente, devido ao esclarecimento do meu advogado, o rol dos meus crimes: produzira falsas afirmações susceptíveis de fazer perigar o bom nome, o crédito e o prestígio de Portugal no estrangeiro; instigara à desobediência colectiva; incitara, enfim, à luta politica pela violência ou pelo ódio. Fiquei atónito; mas olhei para dentro de mim e não vi as negridões de que me acusavam. Como é que um pobre estudioso de gabinete podia ser tão mauzinho? E então começou a fazer-se luz na minha consciência: eu, acusado de instigar ao ódio, contra a própria letra das minhas afirmações, tinha sido vitima de uma conspiração odiosa; eu, acusado de desprestigiar o bom nome de Portugal, contra toda a evidência da minha obra, estava sendo perseguido pelos que, a cada momento, pelos seus actos, o desautorizam nas esferas cultas e responsáveis do estrangeiro. Era engraçado, não era?

O mais curioso foi aquela peregrina nota do Ministério da Justiça, publicada nos jornais do dia 7, obra-prima de hermenêutica que vale a pena transcrever na integra:


«Em declarações prestadas ao Diário de Lisboa, o Dr Manuel Rodrigues Lapa, depois de considerar os portugueses como os cafres da Europa, numa continuidade que parece, segundo a opinião expressa, vai do século XVII até aos dias de hoje, atribui a esta incrível inferioridade a impossibilidade de entrarmos como nação (em igualdade de condições com a Inglaterra ou a Libéria, a França ou a Abissínia) na grande família das Nações Unidas. A gravidade da injuria feita a todo o pais, além de outras afirmações que os tribunais julgarão, determinou a instauração de procedimento criminal»

Compare-se agora esta nota com o texto incriminado, e logo se verá a grosseira deturpação das minhas palavras e a precipitação nervosa dos cavalheiros, que queriam à fina força molestar-me e o conseguiram: «é chegada a oportunidade de acabar, sem sobressalto, com este estado de coisas que nos envergonha como europeus (continuamos a ser os cafres da Europa, como nos alcunhavam no século XVII), e nos está causando graves invonvenientes, impedindo que possamos entrar na grande família das Nações Unidas».

Não haverá no gabinete do Senhor Ministro da Justiça alguém que conheça as leis elementares do português literário? Que ligação intima haverá entre a frase já célebre dos cafres, metida cautelosamente entre parênteses, e o que se segue a respeito do nosso ingresso nas Nações Unidas? E a que propósito vem aquela referência à Libéria e à Abissínia? Pois não é absolutamente claro que essa imagem literária atinge não o País, não a Nação, não a Pátria, que do coração estremecemos, mas as instituições transitórias que a envilecem, reduzindo-a, pela incultura, pela barbárie supersticiosa e pela tirania, a uma espécie de tribu cafreal? Pois não é verdade que nós reconhecemos dolorosamente esse facto e que tudo faremos para que assim não seja, reintegrando a Pátria, redimida e purificada, no lugar que lhe compete em meio das nações civilizadas? Pois não é evidente que a repulsão que sentimos por este Governo, que representa uma escassa minoria da Nação, nos é ditada pelo nosso ardente amor da Pátria, que haveremos de servir e honrar através de todos os sacrifícios?

Mas noto que a indignação me faz esquecer… Moderemos o tom, para mais jocoso, e vejamos melhor agora aquela frase alusiva aos cafres, que parece ter irritado sobremodo os homens da Situação. O pobre do Casais Monteiro já sofreu as consequências da simpática solidariedade que teve para comigo: ferraram com ele no Aljube. Agora só falta ir para lá o Senhor Henrique Galvão; e o próprio Senhor Presidente do Ministério não estará muito seguro. Sim, porque estes notáveis senhores também abundam nas mesmas ideias. O Senhor Henrique Galvão, por motivo da proposta de lei da organização hospitalar, em 24 de Janeiro de 1946, disse o seguinte na Assembleia Nacional: «Mas não terá paralelo o que se passa com os pretos, os seus feitiços e feiticeiros, com o que se passa com os aldeãos de muitas das nossas aldeias e povoados, perdidos em reconcavos da serra e cantos frios sem civilização? Não haverá entre nós também uma população que, pelas dificuldades com que luta, pela ignorância, pelo recurso tradicional à bruxa, pela distancia, etc., vive e morre sem assistência medica e que só se tratará se o hospital for ao seu encontro?» A comparação é evidente e acertada, e a forma interrogativa da frase não ilude ninguém: o orador punha ao nível dos cafres as baixas superstições, crendices e ignorância de certas populações rurais portuguesas. O Senhor Presidente do Ministério, que parece ter por nós todos o mais absoluto desprezo, não declarou no seu último discurso que a desliberdade que nos impõe é proporcional à incultura em que jazemos? O Armindo Rodrigues viu perfeitamente o caso (vê lá no que te metes…) e já estabeleceu o paralelo entre dois homens e as duas situações. E cabe-me agora protestar contra a desigualdade de tratamento que se dá a um e a outro.

O mais patusco guardo-o para o fim. Aquela referência aos cafres nem sequer é minha, ó cavalheiros. É um plagio desavergonhado, sabem de quem: do padre António Vieira, o grande orador jesuíta do século XVII! Vejam o grande escândalo: os homens da Oposição a fazerem causa comum com os jesuítas ! Já vão ver porquê. Como todas as pessoas cultas sabem, o padre António Vieira, que foi um grande lutador de nobre ideais, tomou a defesa dos cristãos-novos, que desejava ver reintegrados na vida nacional por uma politica de tolerância e de inteligência, que soubesse aproveitar em beneficio do País o seu trabalho, as suas iniciativas e as suas riquezas. Nos países cultos da Europa que visitou, viu-os considerados e felizes; e quando ouvia o apodo de cafres da Europa, com que por lá nos mimoseavam, e que se dirigia não ao povo mas às instituições retrógradas que o cafrealizavam, não podia deixar de reconhecer o bem fundado da metáfora. Um dia, a propósito de uma superstição grosseira, uma venda de relíquias, que comentava ironicamente, escreveu ao seu amigo Duarte Ribeiro de Macedo:

«Assim resgatávamos antigamente o ouro na Cafraria, e imos qualificando o nome, que não sem razão nos chamam, de cafres da Europa».

Moral do caso e sem largos comentários: se o padre António Vieira fosse hoje vivo, iria malhar com os ossos ao Aljube, pelo mesmo «crime» que eu cometi, arrimado a ele na citação da frase. Aliás, por esse e outros «crimes», também teve de prestar contas à Inquisição. E vejam o paralelismo flagrante de tudo isto: no século XVII a oposição era formada pelos cristãos-novos; hoje, a oposição, muito mais numerosa, quase todo o País, constituimo-la nós, e contra ambos se moveu e move o mesmo aparelho repressivo. Já é um bem que não tenhamos a fogueira e o espectáculo medonho dos autos-de-fé.

Ora aqui têm os cavalheiros a explicação da frase que tantos engulhos causou nos arraiais da Situação. Não lhes levo nada pela lição, embora não esteja disposto, depois de me terem demitido da Universidade sem me pagarem o que me deviam, a exercer o magistério gratuitamente. Também, era melhor …

a) Manuel Rodrigues Lapa

(Em Legítima Defesa, in Depoimentos, 2ª série, Campanha Eleitoral da Oposição, edição dos Serviços Centrais da Candidatura, Lisboa, 1949, p.10-15)

quarta-feira, junho 28, 2006

Do que um homem é capaz



DO QUE UM HOMEM É CAPAZ
AS COISAS QUE ELE FAZ
PARA CHEGAR AONDE QUER

É CAPAZ DE DAR A VIDA
PARA LEVAR DE VENCIDA
UMA RAZÃO DE VIVER

A VIDA É COMO UMA ESTRADA
QUE VAI SENDO TRAÇADA
SEM NUNCA ARREPIAR CAMINHO

E QUEM PENSA ESTAR PARADO
VAI NO SENTIDO ERRADO
A CAMINHAR SÓZINHO

VEJO GENTE CUJA VIDA
VAI SENDO CONSUMIDA
POR MIRAGENS DE PODER

AGARRADOS A ALGUNS OSSOS
NO MEIO DOS DESTROÇOS
DO QUE NUNCA HÃO-DE FAZER

VÃO POLUINDO O PERCURSO
COM AS SOBRAS DO DISCURSO
QUE LHES SERVIU PARA ABRIR CAMINHO

À CUSTA DAS NOSSAS UTOPIAS
USURPAM REGALIAS
PARA CONSUMIR SÓZINHO

COM POLITICAS CONCRETAS
IMPÕEM ESSAS METAS
QUE NOS ENTRAM CASA DENTRO

COMO A TRILATERAL
COMO A TRETA LIBERAL
E AS VIRTUDES DO CENTRO

NO LUGAR DA CONSCIÊNCIA
A LEI DA CONCORRÊNCIA
PISANDO TUDO PELO CAMINHO

PARA CASTRAR A JUVENTUDE
MASCARAM DE VIRTUDE
O QUERER VENCER SÓZINHO

FICAM CINICOS, BRUTAIS
DESCENDO CADA VEZ MAIS
PARA SUBIR CADA VEZ MENOS

QUANTO MAIS O MAL SE EXPANDE
MAIS ACHAM QUE SER GRANDE
É LIXAR OS MAIS PEQUENOS

QUEM ESCOLHE SER ASSIM,
QUANDO CHEGAR AO FIM
VAI VER QUE ERROU O SEU CAMINHO

QUANDO A VIDA É HIPOTECADA
NO FIM NÃO SOBRA NADA
E ACABA-SE SÓZINHO

MESMO SENDO OS PODEROSOS
TÃO FRACOS E GULOSOS
QUE PRECISAM DO PODER

MESMO HAVENDO TANTA GENTE
PARA QUEM É INDIFERENTE
PASSAR A VIDA A MORRER

HÁ PRINCIPIOS E VALORES
HÁ SONHOS E HÁ AMORES
QUE SEMPRE IRÃO ABRIR CAMINHO

E QUEM VIVER ABRAÇADO
À VIDA QUE HÁ AO LADO
NÃO VAI MORRER SÓZINHO


José Mário Branco, in Resistir é Vencer, 2004

segunda-feira, junho 26, 2006

Os Telhados de Lisboa





Lisboa vista do Castelo



Os Telhados de Lisboa


Os cenários da cidade, tomados do alto, poder-se-iam chamar os telhados de Lisboa.

Há os miradouros de panorama extensivo, que abarcam todas as distâncias. E há os miradouros suspensos sobre a cobertura confusa do casario: só se distinguem empenas, mansardas, telhados, campanários pequeninos, a ramagem tímida de um quintal.

E tudo se amalgama na intimidade dos planos. Perdem-se as linhas do trânsito, os portais fidalgos, as belas varandas de renda, as bocas sombrias dos casebres.

Destes cenários desgrenhados a poesia ascende, sem ritmo, num pitoresco desconcertante de acaso.

Põe-se de poleiro o galo alfacinha!

Do alto suspenso do Carmo ou das lombas de S Cristovão, de S Pedro de Alcântara ou do Monte de S. Gens, Lisboa parece um castelo de cartas, numa das quais há sempre uma nesga do Castelo. Lisboa é, assim, uma estampa aberta em xilogravura, traço aqui, traço ali, sem nenhum «talhe de foice». Mas nem bárbara nem atropelada. Nem monótona nem hostil.

Ao pé de Santa Luzia aninha-se a Alfama - com os telhados em pérgula contínua: aqui um fragmento de água-forte, além um pedaço de aguarela. Deste cenário alfamista, cinzento, salpicado de rosa e verde-ervilha, ascende a frontaria branca de Santo Estêvão, como que a abençoar aquela mediania urbanista, delirante de labirintos.

Nada mais estranho e mais deslumbrante do que os planos sobrepostos e indecifráveis de Lisboa. Não há que ver: há que sonhar. Por muito que se saiba de bairros, e de ruas, e de palácios, e de eirados - tudo quanto se sabe por adivinhação. As definições pairam como um mistério ondulante, tostado pelo sol das idades.

À tardinha o ocaso esbrasa numa vidraça: será a minha casa que está a arder?
À noite uma luzinha tremula numa janela: será o meu amor que está a costurar?
De madrugada a alva espreguiça-se e levanta-se num telhado: será o sol que ali dormiu esta noite?


(Norberto de Araújo, in Legendas de Lisboa, pp.212-213)

quinta-feira, junho 15, 2006

Os poetas nunca morrem



Eugénio de Andrade

O Comum da Terra
(a Vasco Gonçalves)

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

14 de Maio de 1976

Obrigada, Vasco Gonçalves !



Foto de Eduardo Gageiro


Morreste há um ano (11 Junho).
Recordo-te como o homem mais sério que
gorvernou Portugal.
Aquele que falava a nossa linguagem
Aquele que nos devolveu
- a capacidade de sonhar.
- a capacidade de transformar.
- a capacidade de acreditar.
- a capacidade de viver.

Obrigada, Vasco Gonçalves !

terça-feira, junho 13, 2006

Até Sempre, Álvaro Cunhal



Há um ano desaparecia Álvaro Cunhal. Um Homem e um Político excepcionais.

Assinalando este dia, deixo-vos uma carta escrita para sua irmã Eugénia, em 1966, aquando das mortes do cunhado, o médico Fernando Medina, e do pai, o advogado Avelino Cunhal.

Apreendida pela Pide, a carta nunca chegaria ao destino. Ela revela-nos um homem amargurado e preocupado com a irmã, que adorava. Com a sua família.

Uma faceta praticamente desconhecida de Alvaro Cunhal. Mas que existia. E aqui se revela.

Júlia Coutinho
____________________________________________________________________

Moscovo, 1 de Março de 1966

Minha muito querida irmã:

Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando, a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias. Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho.

A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.

Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamento amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã.

À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdõem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão amargas situações.

Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!

Peço-te, querida irmã, que procures escrever-me algumas palavras, se não do que se passou (por te ser demasiado penoso) ao menos do que se passa. Eu não sei se esta carta te chegará às mãos, dada a pessoa que a escreve, dado o país de onde vai e dado que nem certo estou dos endereços para onde a envio (que em tempos me disseram ser o teu e o do Pai). Tenho porém uma certa esperança em que a venhas a receber. E, se a receberes, tenta escrever-me. A direcção é simples:
URSS - Moscovo 132
Hotel
Álvaro Cunhal

É o bastante e, tratando-se como se trata, de questões familiares e questões desta natureza, pode ser que a tua carta me chegue.

Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.

Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.

Com a imensa ternura do teu irmão

Álvaro


(in Arquivos da PIDE/DGS - ANTT, processo E/GT 2673 - NT 1479, doc. 4)

segunda-feira, junho 05, 2006

VOZ DO SILÊNCIO - PRISÕES POLITICAS PORTUGUESAS

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA

"VOZ DO SILÊNCIO - PRISÕES POLITICAS PORTUGUESAS"

de PEDRO MEDEIROS

Na Associação 25 de Abril
R da Misericórdia, 95 - Lisboa

Entre 2 e 30 de Junho de 2006
de 3ªfeira a Sábado, das 12 às 23 horas, e 2ª feira das 12 às 20 horas.
Encerra ao Domingo.




"Constituir um itinerário da repressão, assinalando o percurso negro da ditadura fascista, é um passo vital para a compreensão da história recente do nosso país.

A resistência dos Presos Políticos Portugueses, o seu contributo decisivo para a criação de uma sociedade livre, é acima de tudo um exemplo humano de convicção e entrega absolutas. O esquecimento ou tentativa de branquear esta determinação e luta é, por um lado, a completa adulteração do sentido da história, por outro, um enorme entrave à procura dos nossos ideais e convicções.

Sendo a fotografia construção de memória, o exercício desta escrita e a necessidade de alcance de um espaço de reflexão e de identificação colectiva são vectores essenciais do campo de acção deste trabalho.

Este é um projecto dedicado a todos os que sofreram a brutal e injusta privação da liberdade, aos que sobreviveram e à memória dos que faleceram no cárcere. Aos Presos Políticos Portugueses, às suas famílias e amigos, a todos os que os apoiaram na sua luta, ao trabalho desenvolvido pela
Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos."

Pedro Medeiros

quinta-feira, junho 01, 2006

Dia Mundial da Criança


Assinalando o Dia Mundial da Criança, deixo aqui a mensagem da FERLAP - Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais, que subscrevo inteiramente.

"Aproveitemos o dia para acompanhar e mimar os nossos pequenos, sem esquecer que educar é autonomizar. Ajudá-los a crescer integralmente e a tornarem-se Mulheres e Homens do Futuro. Autónomos, Conscientes e Solidários." (Antonio Castela)





Clique na imagem para ler o poema

domingo, maio 28, 2006

Testamento



«TESTAMENTO»

de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1993)

Eu lego aos meus amigos

Um azul cerúleo para voar alto.
Um azul cobalto para a felicidade.
Um azul ultramarino para estimular o espírito.
Um vermelhão para o sangue circular alegremente.
Um verde musgo para apaziguar os nervos.
Um amarelo ouro: riqueza.
Um violeta cobalto para o sonho.
Um garança para deixar ouvir o violoncelo.
Um amarelo barife: ficção científica e brilho; resplendor.
Um ocre amarelo para aceitar a terra.
Um verde veronese para a memória da primavera.
Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.
Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.
Um amarelo limão para o encanto.
Um branco puro: pureza.
Terra de siena natural: a transmutação do ouro.
Um preto sumptuoso para ver Ticiano.
Um terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra.
Um terra de siena queimada para o sentimento de duração.


(texto encontrado nos papéis de M Helena Vieira da Silva após a sua morte,
onde nos transmite a convicção de que as cores, simples matéria pigmentada, contêm afinal todo o arco-iris de que a vida é composta)

quarta-feira, maio 24, 2006

Braçadas de cravos vermelhos para ti, Fernando !





O Fernando partiu
Sem dizer adeus.
Foi embora,
simplesmente.

Revelou-me a blogosfera.
Abriu-me as portas.
Convidou-me.
Desafiou-me.
Empurrou-me.
Obrigou-me a entrar.

Fiz-lhe a vontade.
E fiquei a dever-lhe:

Blogstícios
Blognócios
Desafios
Sensações
Discussões
e Amizades

que... valeram a pena!
Que vão ficar.
Para sempre.

Obrigada, Fernando !

terça-feira, abril 25, 2006

Viva o 25 de Abril!

Vivam os militares que no-lo deram!
. Em 25 de Abril de 1974 os militares do MFA
cumpriram a sua missão patriótica, a utopia...
tornava-se realidade e o povo português celebrava
em festa a sua liberdade resgatada!

Vasco Lourenço, fotografado por Dionísio Leitão, a ler

a Mensagem dos Capitães de Abril de 1974 aos Jovens de Hoje:

SINTAM a Liberdade,
como condição essencial da dignidade humana.
VIVAM em Liberdade para a paz, a solidariedade,
a justiça e o bem estar individual e social.
LUTEM pela Liberdade sem medo,
mas com respeito pela liberdade dos outros.

(in 32 Anos de Vida. 30 Anos de Poder Local Democrático, A25A, 2006)

--
Associação 25 de Abril

sábado, abril 15, 2006

Estávamos em 1939...

Na Europa, as guerras sucediam-se. Primeiro a de Espanha (36-39), depois a Segunda Mundial (39-45). Em Portugal viviam-se tempos repressivos: perseguições, prisões, torturas, mortes. A Polícia Política e a Censura eram os principais bastiões da Ditadura. Os seus sustentáculos.

Mas houve, sempre, homens que resistiram. Pelas mais diversas formas.

Este poema foi escrito por José Gomes Ferreira.
Para ser cantado por Edmundo Bettencourt.
A revista Seara Nova quis publicá-lo.
A Censura não deixou.

A Resistência deu-lhe vida.


Serenata Cínica

Menino que vais na rua
não cantes nem chores: berra.
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.

Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.

Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.

Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.

Pisa a lua sem remorsos
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.

Pisa-a, frio, com coragem
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.

Menino que vais na rua
não chores, nem cantes: berra
ou então salta p'rá lua
e mija de lá na terra.


José Gomes Ferreira
o poeta que se recusava a ter mais de 20 anos

in Poeta Militante, 1º volume, pub. D. Quixote, p. 237

segunda-feira, março 27, 2006

Inaugurado Museu da Língua Portuguesa

...em São Paulo, Brasil
"O mesmo estudo aponta o português como a sexta língua mais falada no planeta e como língua oficial de oito países, dos quatro continentes. O que mostra como a língua portuguesa é cada vez mais importante no mundo."
Discurso do ministro da Cultura, Gilberto Gil

Bom dia, amigos e amigas de São Paulo!
Bom dia, amigos e falantes da língua portuguesa!
A Estação da Luz transforma-se na estação da língua e da palavra. E afinal, de que são feitas as palavras, se não da luz do som, da luz dos olhos e das mãos? Os versos de Cecília Meireles nos inspiram: Ai, palavras, ai, palavras, / Que estranha potência a vossa! / Ai, palavras, ai, palavras, / Sois de vento, ides no vento, / No vento que não retorna, / E, em tão rápida existência, / Tudo se forma e transforma! LÍNGUA é uma palavra da língua portuguesa que a língua gosta de falar. Que paixão falar palavras em língua portuguesa. Que paixão é essa que prende e liberta aquele que faz da palavra o seu ofício! “Há pessoas”, como diz Manoel de Barros, “que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras”.
No prazer de saborear palavras com a língua portuguesa poderíamos passar aqui muitas horas a conversar, mas aqui estamos para inaugurar o Museu da Língua Portuguesa, um museu que une tradição e tecnologia para apresentar aos cidadãos a importância da comunicação, que, afinal de contas, é o ponto de encontro dos seres humanos.
A nossa linguagem é falada por uma voz muito própria, de modo gestualizado e corporalmente falante, uma performance de corpo vital em nosso sistema de comunicação. Monteiro Lobato foi um dos que observaram muito bem essa nossa figuração da língua sob a imagem do Jeca Tatu. O cinema brasileiro bebeu nessa fonte em momentos de grande popularidade através dos memoráveis mestres dessa língua corporal brasileira como Masarope, Oscarito e Grande Otelo.
Curiosamente nos reunimos aqui hoje nessa estação da Luz que surge nos contos novos de Mário de Andrade e é o lugar itinerante de um operário que vagueia num primeiro de maio. Nessas vizinhanças nas quais se abriam as tantas portas de entrada para a São Paulo. Uma cidade que começava a crescer com sua indústria e trazia para dentro de si, através da máquina a vapor, os muitos sotaques e as muitas populações que se fundem nesse idioma. Quantas línguas somos capazes de falar ao mesmo tempo e quantos Brasis existem num só território. Língua é identidade nacional em processo.
A inauguração do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo evoca espacialmente essa passagem de Mário de Andrade. Mas para além de suas andanças pela Paulicéia Desvairada, foi ele, Mário de Andrade, que idealizou a criação do Museu da Palavra. Nesse Museu, vinculado à Divisão de Expansão Cultural do Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo, estariam reunidos registros das diferentes modalidades, ritmos, entonações e expressões dos falares brasileiros, eruditos e populares.
Foi ainda Mário de Andrade que organizou o 1º Congresso da Língua Nacional Cantada, em julho de 1939. De algum modo, ali, em Mário de Andrade, encontram-se algumas sementes do Museu que hoje inauguramos.
Oswald de Andrade é outro que devemos evocar com as memórias sentimentais de seu alter ego que perambula nessa região central da cidade fazendo o caminho encantado dos bondes elétricos - outra face dessa mesma São Paulo e de nossa língua desde sempre experimental. Oswald, que foi um precursor da poesia concreta, captou tão bem a língua urbana e sua espacialidade impressa. Assim como Haroldo de Campos que, em seus poemas, traduziu uma língua quase gráfica.
O Museu da Língua Portuguesa hoje inaugurado, ao contar a história da língua, oferece, com arte e tecnologia, uma viagem pelo tempo e pela cultura brasileira. Além disso, com a exposição temporária sobre Guimarães Rosa, comemora os 50 anos de Grande sertão: veredas.
Este Museu, desde o início, contou com o apoio do Governo Federal e do Ministério da Cultura que contribuíram na sua concepção, na restauração desse belo edifício e no seu financiamento, que se viabilizou por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
São investimentos notáveis, mas é preciso avançar e investir ainda mais nas ações de educação, na acessibilidade, nas exposições, na conservação e na segurança dos museus. Nesse sentido, a criação do Instituto Brasileiro de Museus, sobre a qual tenho me manifestado insistentemente, é urgente. Precisamos de um Instituto que cuide dos museus com atenção e carinho especiais.
A instalação do Museu da Língua Portuguesa nesta antiga estação ferroviária, parte de uma rede de caminhos de ferro que se espalham pelo Brasil, deve servir para inspirar a sua vocação. Que esse museu seja um ponto de intensa articulação de uma rede de valorização da língua portuguesa; que ele seja uma estação de idas e vindas, de chegadas e partidas, local de troca e irradiação dos movimentos da língua viva, que nos muda e é continuamente por nós modificada. Um dos desafios desse Museu é tratar a língua portuguesa não apenas como patrimônio que se transmite de uma geração para outra, mas também como Mátria e Matriz que une e irmana, no mundo, todos os cidadãos que falam a língua portuguesa. Um povo é considerado extinto quando sua língua morre. Manter a língua viva é, portanto, manter uma cultura viva. Segundo pesquisa da Unesco, metade das seis mil línguas do mundo estão em risco de extinção e, a cada duas semanas, uma língua desaparece. O mesmo estudo aponta o português como a sexta língua mais falada no planeta e como língua oficial de oito países, dos quatro continentes. O que mostra como a língua portuguesa é cada vez mais importante no mundo. A vitalidade de uma língua é a vitalidade de um povo. Se os atos de fala e os atos de palavra podem ser ações, gerar movimentos e criar realidades, então faço aqui da minha palavra um voto: que este Museu amplifique e ressoe a voz da Língua Portuguesa no mundo.

São Paulo, 20 de março de 2006

sábado, março 18, 2006

Procura-se um Amigo



Por que não sou poeta, recorro às palavras de quem sabe tecê-las para dizer o que sentimos.
JC


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das
canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 
Vinicius de Moraes

segunda-feira, março 13, 2006

Visita ao Forte e Museu de Peniche

O Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!" realiza no dia 1 de Abril (sábado), uma visita ao Forte e Museu de Peniche, seguida de almoço-convívio num restaurante local.


O almoço-convívio será associado a uma reflexão sobre a preservação e divulgação da memória histórica da ditadura e da resistência.

Teremos como convidados o historiador António Borges Coelho e o artista plástico Rogério Ribeiro.



O programa previsto desta iniciativa é:

Partida às 9 horas da manhã, em camioneta, da Praça de Espanha
(junto das antigas instalações do Teatro Aberto);
Visita ao Forte e Museu de Peniche a partir das 11 horas;
Almoço-convívio (caldeirada) às 13.30 horas;
Regresso a Lisboa às 17 horas.


As inscrições devem ser efectuadas até
27 de Março, com o pagamento de 25 € (transporte e almoço)

pessoalmente junto de membros do Movimento Cívico,
na Sede do SPGL (Rua Fialho de Almeida, 3 – Lisboa)
ou na Sede do Movimento (Rua da Misericórdia, 95 – Lisboa).


Contactos telefónicos
21 4116813 e 21 3143649

Mais informações aqui

terça-feira, março 07, 2006

Dia Internacional da Mulher

Comemorações dia 8 de Março, Quarta-feira


A Ferlap* estará presente nos Seminários “Estereótipos de género: olhares sobre a igualdade a diferença” a realizar na Assembleia da República e “Género em Agenda. Boas Práticas de trabalho com Jovens” a realizar no Auditório do Conselho Nacional da Juventude. Para além disso adere ao cordão humano, pela igualdade de direitos e pelo combate às discriminações, organizado pela Comissão para a Igualdade entre Mulheres e Homens da CGTP, que se vai realizar a partir das 15H30, entre o Rossio e a residência do Primeiro Ministro.

DIA 11 (Sábado)
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Na Sede da Ferlap
10H30 -
Abertura dos trabalhos - Saudação do Presidente do CE da Ferlap, António Castela
10H45 -
Colóquio “A mulher e o Associativismo”
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Oradoras:
Maria de Jesus Barroso (Presidente da Fundação Pro Dignitate)
Maria João Boléu Tomé (Primeira Presidente da Ferlap e primeira Presidente da Confap)
Moderadora: Helena Dias (Presidente da Mesa da AG da Ferlap)

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12H30 - Interrupção dos trabalhos para almoço no Restaurante "O Mercado"
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No Salão da Junta de Freguesia de Alcântara
15H30 - Mesa de Debate, "A mulher na família, na profissão e na intervenção social”
Coordenação: Universina Coutinho (Associada Benemérita da Ferlap)
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Participantes:
Elsa Sertório (Escritora, autora do livro "Mulheres Imigrantes")
Luísa Ortigoso (Actriz)
Maria de Fátima Campos (Autarca, Presidente da JF de Monte Abraão)
Maria Helena Gonçalves (Sindicalista)
Maria José Maurício (Mestre em Assuntos da Mulher, Consultora/Formadora para as questões de género).
Maria José Nogueira Pinto (Autarca, Vereadora da Habitação Social da CML).
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Relato dos trabalhos e notas finais: Helena Dias e António Castela (Presidentes da MAG e do CE da Ferlap)
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18H30 - 3 MULHERES com o espectáculo
de poesia dramatizada “EU NÃO SOU EU”
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Estará disponível durante a tarde uma contadora de estórias para crianças (Liliana Lima).
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Com o apoio:
Câmara Municipal de Lisboa
Junta de Freguesia de Alcântara
Restaurante "O Mercado"

Inscrições: Tel. 21 855 03 86 / Tlm. 91 870 99 02 / Fax 21 855 13 71 até ao dia 08/03.
Almoço: 12,50 Euros, no Restaurante “O Mercado”, ao lado da Junta de Freguesia de Alcântara. Asseguramos actividades para as crianças durante a realização dos trabalhos, mediante inscrição prévia.
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*FERLAP
FEDERAÇÃO REGIONAL DE LISBOA DAS ASSOCIAÇÕES DE PAIS
RUA DAS COURELAS, LOTE 3, 1800-154 LISBOA
TEL: 218 550 386 - FAX: 218 551 371
Página: www.ferlap.com

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Aos Meus Amigos

Não sei ser alegre
com hora marcada
em data específica.
Perversas e doridas
as palavras escasseiam.
Sabem a sal.

A cada momento
invento a coragem.
Para amar
para continuar
para ser.

Deixo-vos as palavras do poeta.
(que não sou ... nem sei)

Júlia



Canção da Coragem

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue
deixaria a minha casa
como se fosse um culpado.

Nem que a morte me soltasse
todas as velas do sangue.

Nem que a morte me dissesse:
"-- Virás, de noite, comigo...",
eu trairia um amigo.
Nem que a morte me levasse.

Nem que a morte me dissesse.
Nem que a vida me fugisse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
deixaria de cantar.
Nem que a morte me calasse.

Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho.

Nem que a morte acontecesse
bem por dentro dos meus olhos
eu deixaria de ver
todo o amor de joelhos.

Nem que a morte acontecesse
ou, meu amor, eu cegasse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza
eu me dava por vencido.
Nem que a morte me doesse.

Ai, nem que a morte viesse
como só vem a tristeza.

E se a morte violentasse
as paredes do meu peito
meu coração lá estaria
como uma rosa de esperança.

Como um pássaro de sangue
poisado nas tuas mãos.

(Joaquim Pessoa in Amor Combate)

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Somos Todos Arguidos !


No passado dia 5 de Outubro um conjunto de cidadãos concentrou-se frente à antiga sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, protestando contra a intenção de apagar da memória dos portugueses aquele espaço onde tanto mal foi infligido a milhares de homens e mulheres resistentes antifascistas.

Protestávamos contra a transformação do edifício num condomínio de luxo fechado.

Protestávamos pela história do edifício que se pretende apagada, silenciada.

Protestávamos, porque em vez da sede da polícia política e palco de torturas, passou a ser um antigo palácio da nobreza, palco de faustosos eventos, cujo historial termina, gloriosamente, com a conspiração de 1640.

Tal a versão apregoada no site da imobiliária
PAÇO DO DUQUE.

Para lutar por esta causa foi constituído o movimento cívico "Não Apaguem a Memória! Há uns dias atrás dois membros do nosso movimento, o "Capitão de Abril" Duran Clemente e o João de Almeida, foram convocados pela PSP para prestar declarações sobre a sua participação na dita concentração do dia 5 de Outubro, tendo sido ouvidos no início desta semana. Por estas razões os membros deste movimento decidiram convocar uma conferência de imprensa a fim de denunciarem esta manobra claramente persecutória e intimidatória. Abaixo segue a nota enviada à imprensa.

Fica o convite para estarem presentes e poderem, connosco, denunciar esta situação escandalosa.

Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! Convoca Conferência de Imprensa:

Convidamos os Órgãos de Comunicação Social para participarem na Conferência de Imprensa a realizar sexta-feira, dia 24 de Fevereiro, às 18 horas, na Sede da Associação 25 de Abril - Rua da Misericórdia, 95, Lisboa - tendo como finalidade denunciar a inqualificável atitude persecutória das autoridades policiais sobre dois membros do Movimento Cívico "Não apaguem a Memória!" (o"capitão de Abril" Duran Clemente e João Almeida) e informar sobre os princípios orientadores e actividades deste Movimento. Os cidadãos referidos estarão presentes nesta Conferência de Imprensa.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Amor e Liberdade

14 de Fevereiro - Dia dos Namorados.
Como se fosse necessário um dia específico
para nos lembrar que o AMOR é urgente.
Necessário. Saudável.
... É o consumismo ditatorial a determinar
os "dias" mais convenientes
para a sua própria sobrevivência...

A verdade é que depois do 25 de Abril TODOS podem namorar.
Publicamente. Sem constrangimentos.
Novos e velhos.
Sem falsos pudores.
Pode-se andar de mão-na-mão livremente.
Beijar livremente.
Acariciar.
Mostrar que o amor é (tem que ser) uma prática diária.

......
Mas nem sempre foi assim.
Aqui fica um documento a atestá-lo.
Trata-se de uma Postura da Câmara Municipal de Lisboa
(e quantas outras não existiriam por esse país fora...)
a coberto dos "bons costumes" ...
Por que Salazar zelava.
Através da Polícia de Costumes.
Era a repressão nua e crua.
Estávamos em 1953.

Para Memória Futura.


CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

Aditamento à Postura Municipal nº 69.035, de? De 1953

«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins, e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guardas Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes.

Assim, e em aditamento àquela Postura 69.035, estabelece-se e determina-se que o Artº 48º tenha o cumprimento seguinte:

1º - Mão na mão.................................. (2$50);
2º - Mão naquilo.................................. (15$00);
3º - Aquilo na mão.............................. (30$00);
4º - Aquilo naquilo.............................. (50$00);
5º - Aquilo atrás daquilo...................... (100$00);

Parágrafo Único - Com a língua naquilo ... 150$00 de multa, preso e fotografado.»

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

José Dias Coelho


clicar sobre a imagem

José Dias Coelho nasceu em Pinhel, distrito da Guarda, a 19 Junho de 1923.

Foi morto pela PIDE em Lisboa, na Rua da Creche, no dia 19 Dezembro de 1961.

Escultor. Militante comunista. Vivia na clandestinidade.

Tinha 38 anos.

Tinha duas filhas.

Após o 25 de Abril, um grupo de amigos decidiu homenageá-lo na SNBA.

Entre eles, o escritor José Cardoso Pires.

É da sua autoria o texto que se segue, e que leu na altura.

Publicá-lo-ia mais tarde.

Aqui fica. Para Memória Futura.

«Prá Frente Meu Coração»

Quando revivemos um Amigo como José Dias Coelho, cada um de nós traz dele uma imagem sentida, quase privada. Vemo-lo -- eu, por exemplo -- como companheiro de juventude; sonhamo-lo – alguns poderão até recordá-lo – na pátria da clandestinidade; repetimo-lo através dos versos e dos desenhos que nos deixou, traços da sua voz mais privada. E todos, falando dele, pensamos na cruel, na terrível mancha de luto, que marca a sua ausência neste início de liberdade. Estaria aqui e mais além, no comício ou no atelier, não importa: mas connosco. Trabalhando à luz do dia o país que desponta.

Sabemos que é um capítulo do ódio ou do medo, a morte imposta aos militantes da liberdade. Mas sabemos igualmente que é dela que o fascismo faz moeda própria e alimento essencial; que onde haja exploração do homem está ela, a morte, disfarçada de comum e natural, e que, irmã traidora da fome, tem na guerra, em todas as guerras, a sua razão mercenária. Que, desde os berros falangistas do «Viva la Muerte!» às chacinas do Chile, é a Morte, Morte e sempre a Morte, que aparece como exibição imperialista de orgulho e de poder.

Por isso é que os verdadeiros revolucionários amaram e defenderam a Vida com o risco do último sacrifício -- e entre esses, Dias Coelho, o meu amigo de longe e para sempre. Poucos como ele tiveram tão saudável e empenhado gosto de viver, e raros, raríssimos, usaram de tão serena tolerância no desejo de compreender e lutar.
Uma simplicidade imediata fazia com que tudo nele, ideias, gestos, convívio, fosse um comunicar espontâneo -- ou uma entrega confiante, se quiserem. Revejo-o em 1945 numa concentração na Faculdade de Ciências; ou em certas tardes à mesa do velho Chiado (o café e a «Pomba de Picasso» em cima do tampo de mármore); nos passeios do MUD Juvenil (outro roteiro de politização) – percorro, em suma, todo um passado activo de iniciação, de prisões e de alegrias, e encontro sempre aquele sorriso, tão dele, a perdurar sobre o eco e a recordação.

Jornadas estudantis, domingos sobre o Tejo, onde isso vai. Mas tudo tão nítido neste momento, é curioso, tudo tão identificado com ele, Dias Coelho, que é a sua figura que permanece e se transforma em meridiano natural da nossa geração. Assim: como uma vertical sobre o horizonte.

(Nesse tempo, lembro-me bem, cantava-se Lopes Graça em versos de poetas vivos. «Vozes ao alto / vozes ao alto / unidos como os dedos na mão...». Fazia-se teatro com Manuela Porto e pintura militante: novos e velhos no mesmo salão das Gerais de Artes Plásticas. «Desatávamos os nós do silêncio», como diria Eugénio de Andrade, na Memória a José Dias Coelho, escrita em pleno fascismo.

Um espaço, uma reticência da memória, e retomo Dias Coelho, agora no Movimento da Paz: execução dos Rosenberg, milhões de assinaturas a dizer não à morte, Ehrenburg e Éluard, tanta coisa. Aqui, no país muralhado com juízes do Plenário sentados em torres sinistras, também a Paz era difícil. Contudo, triunfava, e era nossa. Na grande leva de obreiros que a erguiam lá estava Dias Coelho: desenhando cartazes, presente em reuniões, angariando fundos, e sempre com aquele sorriso de camponês citadino que lhe iluminava a voz e o olhar.

Assim fazíamos, ele, eu, toda uma geração, a aprendizagem da vida. Procurávamos, quer isto dizer, saboreá-la no mais simples e no mais denso que ela oferecia, e talvez por isso é que, muitos anos mais tarde, ao ler: «Em toda a parte / há um pedaço de mim / que se quer dar» eu tenha reconhecido subitamente a assinatura do homem que fez esses versos: o José Coelho, o companheiro que se repartia e estava inteiro no bom e no difícil, no prazer e na coragem.

Esta capacidade de abranger o mundo e de tudo partilhar foi, tenho a certeza, a poderosa força de José Dias Coelho, aquilo que o impeliu para a tarefa de modificar e construir contra o errado e o desumano. A morte de um camponês ou um aceno de criança levantavam prontamente nele a indignação ou o amor, e, logo, o tal «pedaço de si que se quer dar». Respondia então com o desenho aberto e tranquilo, o traço limpo, urgente, uma necessidade de comunicar e de fazer testemunho. Ou lançava-se ao barro e esculpia, com aquelas suas mãos sólidas de terra-a-terra, o protesto vincado ou o instante de um amigo na sua expressão mais íntima, pessoalíssima. Aconteceu isso nas peças de escultura que nos deixou em desencontrados períodos de trabalho – na cabeça agreste de Redol, por exemplo, ou no busto de Margarida Tengarrinha, tão repassado de serenidade e de melancolia.

Não sou eu quem melhor pode falar dos capítulos interrompidos da biografia de Dias Coelho, artista e militante. Discutimos, horas e serões, os mil enredos da viabilidade da arte numa sociedade repressiva, a propósito dos desenhos que ele fazia na altura para a revista Vértice sobre textos meus, mas não acho que possa reproduzir agora com fidelidade o essencial dessas conversações. Do que me recordo é que me ficou a palavra Comunidade como tema geral de todos os seus trabalhos de então e daquele que viria depois a produzir. Comunidade. Amor. Na realidade, toda a poesia, toda a arte, toda a vida de José Dias Coelho têm essa constante lírica que não é mais do que a exaltação do amor e do entendimento. As tais coisas partilhadas, torno a dizer.

Penso que um homem assim, que se procura através de todas as formas de comunicar ao seu alcance – a arte, a militância comunista – penso que um homem destes só pede da vida (e com que entusiasmo!) a parte mais árdua e mais justa. Sabemos das prioridades que se lhe põem em certas encruzilhadas decisivas, e como escritores da grandeza de Soeiro Pereira Gomes sacrificaram com dor o sonho de comunicar à luz do dia para se entregarem a uma outra tarefa, mais urgente e perigosa: a de arrancarem a pátria à servidão capitalista, restituindo-lhe a palavra livre, a mão e o olhar livres com que ele e todos pudessem descrever e amar.

Com isto não me refiro apenas aos intelectuais, escritores ou artistas que se jogaram na luta total, no tudo ou nada, sobrepondo a acção político ao talento natural. Penso neles, de facto, pensando em Dias Coelho; sei que fizeram tal opção para libertar o Homem e também a Arte que tanto amavam, e para que outros a seguir, mais felizes, a pudessem retomar. Mas penso também que, a par deles, dezenas e dezenas de operários e camponeses dotados para contar em verso ou em imagem as vidas que experimentaram foram para sempre calados pela fome ou pela exploração cultural.

A luta política, aquela que vai às raízes, entenda-se, é uma técnica de construir a felicidade. O livro e a arte enriquecem o homem, é certo; mas não é menos certo que não se pode escrever ou desenhar a palavra Amor, indiferente às vítimas do ódio que nos rodeiam ou ignorando as desigualdades e os pavores. Se hoje o meu, o nosso orgulho de cidadãos é o de, pela primeira vez, podermos adormecer com a consciência de que ninguém neste país está a ser torturado, isso só exige que defendamos esse privilégio com vigilância dobrada e que escrevamos a tal palavra Amor com maior beleza e imaginação.

Foi exactamente para lutar por um momento assim -- essa paz sem remorso, esse direito -- que José Dias Coelho, há muitos, muitos anos, desabafou comigo num fim de tarde: «Zé, eu não suporto mais isto!»

Escolheu, soube-o depois, a via definitiva, a do comunista que se lança, inteiro e definitivo, contra um mundo velho e feroz. Ia, no fundo, em busca de uma outra expressão do homem e levava dentro de si um verso que um dia iria escrever: «Vai prá frente, meu coração...»

Foi. Para a frente e de cara voltada para a luz. E ele, que tanto adorava a cidade e o ar livre, caiu em plena rua, assassinado. Mesmo assim, quando o recordamos e o temos orgulhosamente connosco, é à frente de nós que o sentimos – à frente, como o seu nobre coração.


José Cardoso Pires, in E Agora, José? Publicações Dom Quixote, pp.96-101