sábado, julho 15, 2006

Notícias do bloqueio

Aproveito a tua neutralidade
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos em silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia como um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vais pois e conta nos jornais diarios
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

(Egito Gonçalves)


Publicado em 1953, este poema circulou semi-clandestinamente sendo grande a repercussão alcançada entre as hostes oposicionistas. Influenciando toda uma geração de jovens poetas, «Notícias do Bloqueio» foi o nome escolhido por alguns deles ao decidirem editar um fascículo de poesia,entre 1957-1962, a partir do Porto, publicação que constituíu um marco na resistência à ditadura de Salazar.

13 comentários:

Paula Raposo disse...

Aprendo sempre contigo, Júlia. O poema é fabuloso. Muitos beijos.

Manel do Montado disse...

Lindo e historicamente relevante.
Mantém essa chama acesa para que as novas gerações saibam o que foi o passado duro da ditadura e para que eu e outros como eu enriqueçam o que já sabem da história recente da Democracia.
Um beijo de admiração.

El Navegante disse...

O Amor sempre é Amor.
Mais é clásico falar de amor entre homems e mulheres por raçoes dos sentimentos do coraçao.
Mais tudo o Amor que guarda iste poema de um verdadeiro patriota de primeira, e artista maior, estora a alma da gente sensìvel, a`nda sem conehcer infelizmetne comos desejaría, uma historia tan rica en valentìa, despreciando a ditadura e inhumanidade, seja das cores que seja.
Beijo minaha cara amiga.

Nilson Barcelli disse...

Não conheci o "Notícias do Bloqueio".
Lembro-me de ver 2 ou 3 vezes o Avante em mãos amigas.
Eu só ganhei consciência política na "primavera Marcelista", no tempo da Seara Nova e da ala liberal da Assembleia Nacional.
O poema marca um período negro da nossa história. Aparentemente foi feito algures no exílio, mas eu não sei nada do Egito Gonçalves.
Gostei de ler.
Beijinhos.

zecadanau disse...

Não conhecia, mas gostei muito.
Uma boa semana para ti.
Aquele @bração do
Zeca da Nau

lazuli disse...

O grande Egito Gonçalvas..Foi bom tê-lo recordado.

Deixo-te aqui um poema dele

Beijos


Se uma imagem te surge no lance de um poema
usa-a para o amor – jamais para a política.

Há sempre a pôr em verso duas coxas;
há sempre um coito, real ou imaginado,
com que esquives armadilhas panfletárias.

Os campos de concentração, as guerras,
os estados de angústia, não abundam
a arte em que propões engrandecer-te.

Fala do teu exílio, da infância perdida,
do castelo em que vives após o escritório.

Não te é vedado o rumo das flores, mas sempre
longe da campa de inúteis fuzilados.
Desabrocha-as no orvalho. Elas servem
para iluminar o quarto… aquele… tu sabes!

Se recorres às rosas faze que sejam brancas
e elimina as papoilas por motivo igual.
Não despistes a caneta em perigos inglórios:
os caçadores de símbolos
são graves e desconfiados.

wind disse...

Grande poema!
beijos

Friedrich disse...

Nunca é tarde para recordar, nunca é tarde para comentar... Que mais poderei dizer, senão; é um poeta português, com certeza!

Friedrich disse...

Beijos desbloqueados!...

folhasdemim disse...

Sem dúvida, muito forte!
Beijos, Betty
http://desfolhada2.blogspot.com/

Cris disse...

e era um falar baixinho para nós, os mais pequenos não nos apercebermos.
e a minha avó chorava pelos cantos... e era um entrar pela porta dentro e abrir tudo, gavetas e roupa pelo ar...e ele escondido na casa do amigo que já havia sido visitada antes..
só mais tarde nos apercebemos das palavras que escapavam ao "carimbo".
só mais tarde nos apercebemos que aquelas queimaduras nas mãos dele, na cara não eram por ser distraido ou adormecer a fumar...
e o barco que ia para o tarrafal de madrugada?
e a minha avó chorava pelos cantos.
e nada se sabia dele.
mas de quando em vez chegava uma caixa de sabonetes.
e o aroma que se escondia na casa de banho dizia-lhe que ele estava bem...
e ela sorria, no meio de tanto sufoco de lágrimas
só mais tarde os mais pequenos se aperceberam disto.
só mais tarde, quando nos obrigaram a tirar com lixívia os cornos que havíamos desenhado no salazar, no livro de leitura da 3ª classe...

Quantos circularam, amiga, quantos? bem que tentavam pará-los mas ninguém lhes segurava as palavras!
Beijo

amita I disse...

Após a leitura da força destas belas e poéticas palavras, eu me calo e me uno ao grito da verdade que o poeta emitiu pelo espaço.
Obrigado Júlia pela partilha deste maravilhoso poema.
Um bjinho grande e uma flor

Dad disse...

Muito bom este poema. Gostei muitissimo!

Beijinho Júlia!