sábado, julho 29, 2006

Carta a Frank




Escrevo-te esta carta com o coração apertado. Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário politico ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas - como te costumas classificar, para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel são árabes - mais progressistas que conheço. Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramalah. Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso.

Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo que defendo para o povo palestiniano. Esqueço, com alguma má consciência, que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico. Esqueço também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700 mil palestianianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.

Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de facto, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de´água e de electricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os check points e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de facto, os meter num vasto campo de concentração). As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano. E agora tudo faz sentido.

A invasão e destruição do Líbano em 1982 ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações. Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?

Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis. Depois do Líbano, seguir-se-ão a Síria e o Irão. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.

Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lóbi comunicacional - que sufocantemente domina os jornais do meus país - com a benção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da UE. Sei que partilhas muito do que penso e espero compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país. Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz.

(Boaventura Sousa Santos, in Visão, 27 Julho 2006)

17 comentários:

Paula Raposo disse...

Maneiras de ver conflitos, guerras, destruições. Nem todos pensamos do mesmo modo. A História conduzir-nos-á, talvez, aos motivos. Beijos, bom fim de semana, Júlia.

Kalinka disse...

Uma carta interessante para acompanhar o seu conteúdo.
Cada um vê à sua maneira o que se passa nestes conflitos entre Países.
Muito obrigado pela tua participação no meu kalinka, as simpáticas palavras que lá deixaste aqui venho agradecer.
Aparece por lá sempre que queiras e tenhas tempo, vou adorar as tuas visitas.
Também virei visitar-te.
Sobre os olhos, eu nem sei que dizer, nunca mais fico curada, e isto preocupa-me, pois tudo no nosso corpo faz falta, pertence a um todo, mas a visão é muito importante, e assusta-me.
Beijos e bom domingo.

El Navegante disse...

Julia , noa vou deijar de te visitar, aínda sem a vontade de fazer comentarios de um tema tao delicado.
A amizade e os blogs, acho que fican além das ideias políticas o religiosas, sem discriminaçoes paa ningué, e falo entre nos, nao pelo artrículo qe vc truxo.
Por isso, tem tudo meu respeito e admiraçao por falar con tua total liberdade, seguro que con bons sentimentos, além de nao opinar sobre iste tema.
Um beijo muito grande, sempre minha grande amiga, semrpe teu amigo.
O Navegante.

Luís disse...

:-|

Dad disse...

Muito oportuno teres publicado este artigo.
Um beijinho,

Metralhinha disse...

Mal fica quem deixa diferenças de opinião afectarem a amizade e o debate de ideias. Aliás, não se discute sobre o que se está de acordo.

lazuli disse...

entre a foto e a carta, hesitei algum tempo. Ambas gritavam aquela dor.
Gostei muito, Júlia. Beijos

manuel maria disse...

Os jornais não rflectem a opinião da maioria dos portugueses. Felizmente.
Todo o teor da carta está correcto nos argumentos e factos históricos. Tudo o mais que se diga é supérfulo.

Bjo

wind disse...

Grande Post.
Totalmente de acordo com o que está escrito.
beijos

José Gomes disse...

Completamente de acordo com o artigo.
Não sei quando a humanidade vai, finalmente, tomar juizo e deixar que se matem e se estropiem uns aos outros.
A esperança já me começa a abandonar...
Santo Tsunami nos valha!
Um abraço
José Gomes

Anónimo disse...

Só lamento não ver o mesmo tipo de indignação quando fanáticos, ou melhor dizendo, tarados, em nome dum qualquer outro deus ou solo sagrado, se fazem rebentar levando indiscriminadamente a vida de quem tiver à sua volta.
Só lamento não ver os milhares de milhões de petrodolares elevarem as condições de vida, o nível civilizacional, de milhões de pessoas mantidas na mais abjecta pobreza material, espiritual e intelectual.
Só gostava de ver os defensores destes 300 milhões de oprimidos por 6 milhões de israelitas, preferirem viver a vida gloriosa desses 300M a viverem entre os 6M de opressores.

Reporter disse...

Inteiramente de acordo.
Saudações, Júlia.
E um beijinho.

Manel do Montado disse...

Que pena… A cegueira de pupila intacta é a pior forma de cegueira e a de pirata, a que usa uma pala num dos olhos ainda é pior.
Lamento que o Sr. Boaventura Sousa Santos só sinta os pés enlameados com o sangue dos palestinianos...Nem acredito que algum Frank o tenha convidado para coisa alguma!
Lamento que toda a UE e os EUA estejam dominados pelos lobbies judaicos da comunicação…Mas esse senhor pensa que somos todos mentecaptos ou quê?
Na guerra, meus caros, não há bons nem maus, há maus e só maus, ponto final.
Por falar em genocídio do povo palestiniano, e o povo Checheno? O Tibete o quê? Ah, está bem, a Rússia e a China estão a em missão humanitária na Chechénia e no Tibete.
Como é que esse Sr. BSS pode afirmar que alguém foi eleito democraticamente na Palestina se as mulheres não votam? Duvidas? Vão ao site da OSCE ou ONU e lá encontram os documentos comprovativos do que aqui afirmo.
Já agora senhores adeptos da missiva do Sr. BSS, se a Europa tem de se penitenciar por qualquer acto praticado contra o povo judeu, o que não terá de fazer a Rússia…
Fico por aqui…É que não sou uma Maria vai com as outras e o Sr. BSS, seja lá quem ele for, não me dá lições de coisa alguma e de imparcialidade muito menos.
Desculpa o ocupar do teu espaço mas nunca fui de ver a realidade só por uma luneta…
Beijinho

André Ferreira disse...

É horrível o que acontece no Libano e na Palestina. É horrível ouvir da boca duma jornalista dum canal público: " a entrada do exército israelita em força no sul do Libano é inevitável" - é inevitável? Tenho-me lembrado muito de Sarajevo nestes dias em que a UE e os EuA tiveram anos a assistir aos massacres. Parece que infleizmente o povo judeu não ficou vacinado contra perseguições raciais ou religiosas, parece que quiseram apenas mudar os papéis, é muito triste.

André Ferreira disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
OrCa disse...

Fala alguém lá mais para trás que a visão unilateral é a pior das cegueiras... Será. Mas a cada um é dado ver com os olhos que lhe aprouver e isso também é muito adequado à natureza humana.

Deste conflito interminável e miserável, como qualquer conflito de morte que se preze, interessa talvez simplificar um pouco (se tal é viável...) e considerar dois "pequenos" aspectos da questão:

1. No mundo da lógica capitalista em que vivemos, o estado de Israel só tem uma condição de sobrevivência: a dominação.

2. Quais são os seres com maior peso: Os tais 300 milhões carregadinhos de ideias retrógadas (face à nossa "sapiente e boa formação ocidental") ou os 6 milhões das altas tecnologias e que até participam nos festivais da Eurovisão?

É que se a nossa hipocrisia "ocidental" colocar o peso do uso das burkas ou da falta de acesso ao voto das mulheres acima do valor da vida humana... talvez devamos reconsiderar em que prateleira do nosso cinismo escondemos nós o humanismo e as humanidades.

Ou não será verdade que é às mulheres árabes, em primeira mão, que compete conquistar os seus direitos?

A verdade, verdadinha, é que o petróleo está a acabar e que as maiores reservas ainda se encontram por aquelas conturbadas paragens. Para os EUA do Bush e do petróleo, também numa lógica de dominação pela sobrevivência, avessa aos interesses de cada um de nós,é determinante ter aquele enclave no coração do dito "mundo árabe" e daí... tudo o resto.

Pensemos, pois, globalmente. Vejamos no ser humano o que ele é, sem misticismos ou abordagens líricas e tentemos lutar por um reequilíbrio do mundo.

Mas não se trata de dar umas migalhas àqueles a quem sugamos até ao tutano, mas sim promover em termos efectivos uma coisa que se chama condição humana, ao nível efectivamente global.

E para essa, seja qual for a lógica da nossa abordagem, é que os governos israelitas se estão nas tintas em cada agressão que cometem.

Talvez por uma lógica de sobrevivência, sim. Mas quem sustentará, então, a razão de 6 para 300?

Metralhinha disse...

Sabem o que é verdadeiramente curioso?
É que os judeus se queixam do preconceito negativo dos europeus contra o Estado de Israel, enquanto que os muçulmanos se queixam do mesmo dos mesmos contra o mundo islâmico.

Afinal quem é que tem razão?
- Cá pra mim, tudo se resume ao «quem não está comigo, está contra mim»!

Já agora, alguém sabe como é que o problema nuclear iraniano vai ser resolvido?
- Mais uma vez, cá pra mim, vai ser o judeu a fazer e a pagar!