quarta-feira, fevereiro 08, 2006

José Dias Coelho


clicar sobre a imagem

José Dias Coelho nasceu em Pinhel, distrito da Guarda, a 19 Junho de 1923.

Foi morto pela PIDE em Lisboa, na Rua da Creche, no dia 19 Dezembro de 1961.

Escultor. Militante comunista. Vivia na clandestinidade.

Tinha 38 anos.

Tinha duas filhas.

Após o 25 de Abril, um grupo de amigos decidiu homenageá-lo na SNBA.

Entre eles, o escritor José Cardoso Pires.

É da sua autoria o texto que se segue, e que leu na altura.

Publicá-lo-ia mais tarde.

Aqui fica. Para Memória Futura.

«Prá Frente Meu Coração»

Quando revivemos um Amigo como José Dias Coelho, cada um de nós traz dele uma imagem sentida, quase privada. Vemo-lo -- eu, por exemplo -- como companheiro de juventude; sonhamo-lo – alguns poderão até recordá-lo – na pátria da clandestinidade; repetimo-lo através dos versos e dos desenhos que nos deixou, traços da sua voz mais privada. E todos, falando dele, pensamos na cruel, na terrível mancha de luto, que marca a sua ausência neste início de liberdade. Estaria aqui e mais além, no comício ou no atelier, não importa: mas connosco. Trabalhando à luz do dia o país que desponta.

Sabemos que é um capítulo do ódio ou do medo, a morte imposta aos militantes da liberdade. Mas sabemos igualmente que é dela que o fascismo faz moeda própria e alimento essencial; que onde haja exploração do homem está ela, a morte, disfarçada de comum e natural, e que, irmã traidora da fome, tem na guerra, em todas as guerras, a sua razão mercenária. Que, desde os berros falangistas do «Viva la Muerte!» às chacinas do Chile, é a Morte, Morte e sempre a Morte, que aparece como exibição imperialista de orgulho e de poder.

Por isso é que os verdadeiros revolucionários amaram e defenderam a Vida com o risco do último sacrifício -- e entre esses, Dias Coelho, o meu amigo de longe e para sempre. Poucos como ele tiveram tão saudável e empenhado gosto de viver, e raros, raríssimos, usaram de tão serena tolerância no desejo de compreender e lutar.
Uma simplicidade imediata fazia com que tudo nele, ideias, gestos, convívio, fosse um comunicar espontâneo -- ou uma entrega confiante, se quiserem. Revejo-o em 1945 numa concentração na Faculdade de Ciências; ou em certas tardes à mesa do velho Chiado (o café e a «Pomba de Picasso» em cima do tampo de mármore); nos passeios do MUD Juvenil (outro roteiro de politização) – percorro, em suma, todo um passado activo de iniciação, de prisões e de alegrias, e encontro sempre aquele sorriso, tão dele, a perdurar sobre o eco e a recordação.

Jornadas estudantis, domingos sobre o Tejo, onde isso vai. Mas tudo tão nítido neste momento, é curioso, tudo tão identificado com ele, Dias Coelho, que é a sua figura que permanece e se transforma em meridiano natural da nossa geração. Assim: como uma vertical sobre o horizonte.

(Nesse tempo, lembro-me bem, cantava-se Lopes Graça em versos de poetas vivos. «Vozes ao alto / vozes ao alto / unidos como os dedos na mão...». Fazia-se teatro com Manuela Porto e pintura militante: novos e velhos no mesmo salão das Gerais de Artes Plásticas. «Desatávamos os nós do silêncio», como diria Eugénio de Andrade, na Memória a José Dias Coelho, escrita em pleno fascismo.

Um espaço, uma reticência da memória, e retomo Dias Coelho, agora no Movimento da Paz: execução dos Rosenberg, milhões de assinaturas a dizer não à morte, Ehrenburg e Éluard, tanta coisa. Aqui, no país muralhado com juízes do Plenário sentados em torres sinistras, também a Paz era difícil. Contudo, triunfava, e era nossa. Na grande leva de obreiros que a erguiam lá estava Dias Coelho: desenhando cartazes, presente em reuniões, angariando fundos, e sempre com aquele sorriso de camponês citadino que lhe iluminava a voz e o olhar.

Assim fazíamos, ele, eu, toda uma geração, a aprendizagem da vida. Procurávamos, quer isto dizer, saboreá-la no mais simples e no mais denso que ela oferecia, e talvez por isso é que, muitos anos mais tarde, ao ler: «Em toda a parte / há um pedaço de mim / que se quer dar» eu tenha reconhecido subitamente a assinatura do homem que fez esses versos: o José Coelho, o companheiro que se repartia e estava inteiro no bom e no difícil, no prazer e na coragem.

Esta capacidade de abranger o mundo e de tudo partilhar foi, tenho a certeza, a poderosa força de José Dias Coelho, aquilo que o impeliu para a tarefa de modificar e construir contra o errado e o desumano. A morte de um camponês ou um aceno de criança levantavam prontamente nele a indignação ou o amor, e, logo, o tal «pedaço de si que se quer dar». Respondia então com o desenho aberto e tranquilo, o traço limpo, urgente, uma necessidade de comunicar e de fazer testemunho. Ou lançava-se ao barro e esculpia, com aquelas suas mãos sólidas de terra-a-terra, o protesto vincado ou o instante de um amigo na sua expressão mais íntima, pessoalíssima. Aconteceu isso nas peças de escultura que nos deixou em desencontrados períodos de trabalho – na cabeça agreste de Redol, por exemplo, ou no busto de Margarida Tengarrinha, tão repassado de serenidade e de melancolia.

Não sou eu quem melhor pode falar dos capítulos interrompidos da biografia de Dias Coelho, artista e militante. Discutimos, horas e serões, os mil enredos da viabilidade da arte numa sociedade repressiva, a propósito dos desenhos que ele fazia na altura para a revista Vértice sobre textos meus, mas não acho que possa reproduzir agora com fidelidade o essencial dessas conversações. Do que me recordo é que me ficou a palavra Comunidade como tema geral de todos os seus trabalhos de então e daquele que viria depois a produzir. Comunidade. Amor. Na realidade, toda a poesia, toda a arte, toda a vida de José Dias Coelho têm essa constante lírica que não é mais do que a exaltação do amor e do entendimento. As tais coisas partilhadas, torno a dizer.

Penso que um homem assim, que se procura através de todas as formas de comunicar ao seu alcance – a arte, a militância comunista – penso que um homem destes só pede da vida (e com que entusiasmo!) a parte mais árdua e mais justa. Sabemos das prioridades que se lhe põem em certas encruzilhadas decisivas, e como escritores da grandeza de Soeiro Pereira Gomes sacrificaram com dor o sonho de comunicar à luz do dia para se entregarem a uma outra tarefa, mais urgente e perigosa: a de arrancarem a pátria à servidão capitalista, restituindo-lhe a palavra livre, a mão e o olhar livres com que ele e todos pudessem descrever e amar.

Com isto não me refiro apenas aos intelectuais, escritores ou artistas que se jogaram na luta total, no tudo ou nada, sobrepondo a acção político ao talento natural. Penso neles, de facto, pensando em Dias Coelho; sei que fizeram tal opção para libertar o Homem e também a Arte que tanto amavam, e para que outros a seguir, mais felizes, a pudessem retomar. Mas penso também que, a par deles, dezenas e dezenas de operários e camponeses dotados para contar em verso ou em imagem as vidas que experimentaram foram para sempre calados pela fome ou pela exploração cultural.

A luta política, aquela que vai às raízes, entenda-se, é uma técnica de construir a felicidade. O livro e a arte enriquecem o homem, é certo; mas não é menos certo que não se pode escrever ou desenhar a palavra Amor, indiferente às vítimas do ódio que nos rodeiam ou ignorando as desigualdades e os pavores. Se hoje o meu, o nosso orgulho de cidadãos é o de, pela primeira vez, podermos adormecer com a consciência de que ninguém neste país está a ser torturado, isso só exige que defendamos esse privilégio com vigilância dobrada e que escrevamos a tal palavra Amor com maior beleza e imaginação.

Foi exactamente para lutar por um momento assim -- essa paz sem remorso, esse direito -- que José Dias Coelho, há muitos, muitos anos, desabafou comigo num fim de tarde: «Zé, eu não suporto mais isto!»

Escolheu, soube-o depois, a via definitiva, a do comunista que se lança, inteiro e definitivo, contra um mundo velho e feroz. Ia, no fundo, em busca de uma outra expressão do homem e levava dentro de si um verso que um dia iria escrever: «Vai prá frente, meu coração...»

Foi. Para a frente e de cara voltada para a luz. E ele, que tanto adorava a cidade e o ar livre, caiu em plena rua, assassinado. Mesmo assim, quando o recordamos e o temos orgulhosamente connosco, é à frente de nós que o sentimos – à frente, como o seu nobre coração.


José Cardoso Pires, in E Agora, José? Publicações Dom Quixote, pp.96-101

28 comentários:

Fernando Bizarro disse...

Amiga Júlia,

Aqui está o teu post.

Foi com prazer que o coloquei, homenageando este grande resistente anti-fascista, cobardemente assassinado pela Pide.

Mas fiz-te uma surpresa. Para além da imagem. Clica nela e vê...

Um Abraço,

Júlia Coutinho disse...

Querido Fernando, isto é mesmo a tua cara ... Fazer este tipo de generosas surprezas aos amigos ...
Obrigada. Não por aparecer o meu nome, mas porque será mais uma forma de dar a conhecer José Dias Coelho a quem por aqui passar.
E bem merece porque, se hoje temos Liberdade e Democracia no nosso país, também a ele e a muitos outros como ele, conhecidos e anónimos, omitidos e ignorados o devemos ...
Para que a Memória persista!

Ana Luar disse...

Julia, é com grande surpresa minha, que me acho interessada em assuntos e pessoas relacionados com politica. Nunca fui muito virada à politica talvez porque não a entenda...mas desde que vos conheci...algo despertou em mim essa curiosidade...e como gemeos de signo, sou curiosa por natureza...e nem te passa pela cabeça o que tenho aprendido no teu blog no do Fernando, e outro que conheci no jantar.
Ainda chego a presidente vais ver hahahahahahahah tenho saudades da tua gargalhada, descarada e maravilhosa

Paula Raposo disse...

Para que a memória perpetue os Homens e os acontecimentos. Parece-me que há muito gente que ainda não percebeu que este País teve uma ditadura!!! Beijos para ti,Júlia.

A Rapariga disse...

Muitos amigos, incluindo o meu pai foram perseguidos pela pide. Fugiram, exilaram-se, envergonharam-se de serem portugueses. Muitas histórias desse tempo estão mal contadas.
José Dias Coelho, lembro. Fica-te bem lembrá-lo aqui. Já tinha lido a tal entrevista no DN, em que tu falavas dele.
Achas que as perseguições acabaram? Agora que se diz que estão a criar uma nova secreta?
É cada vez mais difícil chamar alguém de amigo, é o que te digo.
Beijos
Stillforty

PS - Tenho novo blog, mas não esperes nada de muito especial, se quiseres ler, lê com os olhos da alma, ou com os meus...

titas disse...

Não sei como me descobriste, mas em boa hora o fizeste. Obrigada.

Contigo, repito: Para que a Memória
persista!
José Dias Coelho foi uma das minhas referências de juventude e de vida, tal como o de outros membros da minha própria família.

Um beijo carinhoso

Afrodite disse...

Cliquei na imagem por acaso e tive aquela surpresa: fiquei a conhecer-te melhor!
Conheces o Canais Rocha?

Júlia Coutinho disse...

Querida Ana Luar, isso acontece porque tu és uma mulher inteligente ! Só pode !
Vocês sempre querem ir a Santarém ?

Still, hei-de gostar sempre de ti e do que escreves, mulher ! Tenho que ir espreitar ...


Titas, ainda bem que te encontrei !
E que me encontraste ! A vida é importante pelos encontros e desencontros que proporciona. Há aqueles que ficam para sempre. Espero que seja o caso.

Afrodite, claro que sei quem é o Canais Rocha ! Qual a relação ?...
Fico ansiosa por saber.

A TODAS (já repararam que as mulheres estão em maioria ?) um grande Bem-Hajam !

Júlia Coutinho disse...

Paulinha,
Este é especial para ti, minha Amiga. Que esse teu "recolhimento" seja breve porque EU preciso de TI!
Onde está aquele poema diário que só uma mulher pode escrever, e onde eu ia buscar "alimento" ?
Fazes MUITA falta !

Lembra-te.
Para Memória Futura!

Paula Raposo disse...

Obrigada Júlia, por essas palavras tão carinhosas! Obrigada por me fazeres sentir que te faço falta, afinal, é tão bom sentir cá dentro que somos importantes para os Amigos. Não sei quando volto. Mas tenho sempre presente a tua Amizade e envio-te, daqui, milhões de beijos cheios de ternura. Obrigada, Júlia

augustoM disse...

Admiro todos os Homens com H grande, só é pena que a sua grandeza ser tantas vezes desperdiçada. Conheci a Pide muito bem e ainda conheci outra coisa de que não se fala muito, e que na minha opinião talvez tenha sido muito pior, a Legião Portuguesa. Todo o cidadão que fosse denúnciado, mesmo inocente, recebia um tratamento sádico por parte dos legionários aquartelados no quartel da Calçada da Estrela. Os gritos das vítimas ouviam-se na rua durante horas. Coitados não eram ninguém, gente simples que tinham sido denunciados por gente maldosa, que gostava de exajerar a sua colaboração com os legionários, usando a denúncia como arma devingança. Nunca ninguém os cantou ou evocou porque o seu nome ninguém sabe, mas muito antes da existência da PIDE, esta gente anónima suportou todo o período mais negro da repressão.
Todos os dias eram barbaramente açoitados e muitas as vezes a entrada já não tinha saida. Se eu fechar os olhos e apurar o meu ouvido de criança, ainda consigo ouvir o som dessa infâmia, e quem sabe ainda trema como tremiam todos que a escutavam.
Um beijo. Augusto

HarryHaller disse...

Gostei de ler o teu post, sobre um dos homens que deram o corpo e a vida pelo derrube de um regime politico, que aprisionava a liberdade, e ameaçava a vida e não raras vezes ultrapassava essa fronteira da ameaça.
Contudo, a liberdade individual não é nunca um dado adquirido, deve ser uma luta quotidiana, começando desde logo, pela luta consigo próprio. Pois, a título paradigmático, onde está a liberdade do cidadão, quando engole "sapos vivos" no seu mundo laboral para não ser excluído do seu meio de subsistência, ou com medo de outro tipo de perseguições?Onde está a liberdade do cidadão, quando omite a verdade perante alguém do seu grupo, ou mesmo perante o grupo no seu conjunto, com receio de ser excluído do mesmo? E por aqui me fico. Como vês, vivemos em democracia, corrigo em pseudo democracia, mesmo se vislumbre alguns sinais de mudança,e a liberdade continua a ser auto-reprimida ou reprimida por terceiros.

Um abraço

Lobo das Estepes

OrCa disse...

Evocações como esta, minha amiga, têm o condão de despertar, se não em todos os teus leitores, em boa parte deles, aquele frémito de alegria combativa a lembrar-nos de que ainda estamos vivos e de que há tanto para fazer... E de que a Vida, com letra grande, se faz COM gente desta e de que o seu exemplo, longe de provocar saudosismos balofos, incentiva a novos combates.

Um grande abraço.

contradicoes disse...

É sempre importante invocar todos quantos lutaram contra a ditadura e dela foram vitimas com vista a despertar as consciências adormecidas neste País, essencialmente a daqueles que nasceram após ou eram crianças quando se deu o 25 de Abril muitos dos quais não foram suficientemente esclarecidos pelos seus
progenitores do que foram os 48 anos de mordaça. Anima-te amiga. Segue em frente
com a tua aposta. Um abraço do Raul

Arte por um Canudo 2 disse...

Fizeste bem em recordar!Homens que não devem ser esquecidos.Foi através dos sacrificios e até da morte de muitos combatentes como José Dias Coelho que hoje podemos levantar a cabeça e gritar bem alto a palavra liberdade.Bjs.

Betty Branco Martins disse...

Nomes - Pessoas - lutas que travaram à custa da sua própia vida - jamais deverão ser esquecidos.

É verdade às vezes parece que os portugueses se esquecem que portugal viveu uma ditadura.

Parabéns por este trabalho e pela pessoa que és.

Beijinhos

Bom domingo

Zecatelhado disse...

A nossa Júlia sempre em acção. Bom trabalho. Tive o prazer de conhecer de perto uma das filhas do José Dias Coelho, que vivia com um actor meu colega infelizmente já desaparecido.

Um @bração do
Zecatelhado

Friedrich disse...

O espelho da ditadura fascista está reflectida nas lápidas de todos aqueles que deram a vida pela nossa liberdade. Há muitos que nunca saberão dar esse valor porque não se apercebem do que é viver amordaçados. Isto não será a penas uma homenagem a um só homem, mas a todos aqueles que deram a sua vida por uma causa que sempre acreditaram - VIVER EM LIBERDADE!
Beijos e bom fim de semana

m@nuel disse...

É bom que não esqueçamos os que cairam à nossa frente para nós podermos passar. Devemos-lhe o caminho mais fácil para a Liberdade.

amita disse...

Olá Júlia. Parabéns pela excelente homenagem a José Dias Coelho e por trazeres à luz do dia muitos acontecimentos camuflados no seu tempo. Já li alguns livros do José Cardoso Pires. Este que mencionas não o li. Um bjo e uma excelente semana

Jorge disse...

Homem e patriota inesquecível, mesmo neste mundo de agora onde só os interesses obscuros, a mentira e a perversidade prevalecem, mundo que continua a mostrara a sua verdeira face: a face da exploração dos menos afortunados, aqules que se vêm obrigados a ceder sempre a mais valia do seu trabalho.
Obrigado pela visita

Afrodite disse...

Minha muito querida Júlia,

É primo da minha mãe.
Reformou-se do sindicato. Vive em Torres Novas. Está bem.
Escreve (é teu colega de História) e continua coerente como sempre.

A ele e aos meus dois tios (tantos anos de prisão) devo o acordar da minha consciência política.

Beijo muito carinhoso, amiga

caterina disse...

Para causa de entrada, não está, mesmo nada mal lembrado. Apetece é continuar a ler. É o que vou fazer. Há sempre tanto para dizer e às vezes tão pouca gente para nos ouvir...

Mendes Ferreira disse...

...vamos "inventar" mais assim?


b.e.i.j.o

Mendes Ferreira disse...

...vamos "inventar" mais assim?


b.e.i.j.o

vanessa disse...

Olá Júlia! Parabéns pelo blog! Entretanto, deixei-te 1 desafio no meu! abraço

Anónimo disse...

Júlia , como consegue colocar a musica ?bjsannie hall do outsider

lazuli disse...

Júlia, leio-te e releio-te.
Deixo um pouco do "meu" José Cardodo Pires, com um enorme beijo:

" Sim, tive saudades absurdas da paz autêntica que nunca gozei, eu que pertenço a uma geração que já gramou- repito: que positivamente já gramou - duas guerras mundiais com as respectivas consequências do ódio estrangulador de todas as pombas.
Senti saudades, não do passado, mas dum futuro qualquer, tão distante, tão lá no fundo, tão sonho, tecido apenas de pequenas coisas doces, num mundo menos pesado de cadáveres, desdenhoso de outro heroísmo que não fosse o de vivermos persistentes e, sobretudo, alheio à horrivel morte colectiva a substituir a boa, a individual, a sagrada morte de cada um..
Assim cogitei toda a tarde, no oitavo dia do mês de Maio de mil novecentos e quarenta e cinco, data em que findou a segunda guerra mundial no meio de vivas e de bandeiras de triunfo, e em que tentei em vão resignar-me ao mundo dos outros(...)".

O Mundo dos Outros (histórias e vagabungens), de José Gomes Ferreira.