segunda-feira, janeiro 02, 2006

GENERAL NORTON DE MATOS

E chegámos a 2006!!!

Que se deseja Venturoso!

Apesar da(s) crise(s) políticas, sociais e económicas que se adivinham.

Talvez um dia vos conte as peripécias e particularidades da minha passagem de ano 2005-2006.

Inusual. Incrível. Invulgar. Inusitada.

Mas... divertida.

Ah! e ... abençoada!

(pois... não é costume dizer-se que "boda molhada é boda abençoada"?

é só uma questão de extrapolar ...)

Deixo-vos com uma personalidade cuja efeméride ocorre hoje.



GENERAL NORTON DE MATOS (1867-1955)

QUEM FOI ESTE HOMEM QUE FEZ TREMER O REGIME ENTRE 1948-1949?

Pode dizer-se que José Mendes Ribeiro Norton de Matos foi o homem que protagonizou a primeira ameaça séria ao regime do Estado Novo.

Nascera em Ponte de Lima, a 27 de Março de 1867.

Velho republicano e maçon, ministro por duas vezes e Governador de Angola onde fundou a cidade de Nova Lisboa (actual Huambo), Norton de Matos fora um dos muitos professores destituídos pelo regime e impedido de continuar a dar aulas no Instituto Superior Técnico.

Após a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, Salazar viu-se constrangido a ceder alguma abertura política, bem aproveitada pela oposição que constituiu o MUD-Movimento de Unidade Democrática, agregando nele toda a família oposicionista. Norton de Matos junta-se a personalidades como Bento de Jesus Caraça, Mário de Azevedo Gomes, Manuel Mendes, Isabel Aboim Inglês, Mário Dionísio e muitos outros, tendo integrado a Junta Consultiva daquele movimento cívico.

O MUD teve o efeito de um autêntico vendaval no marasmo da vida social e política que se vivia no país desde a implantação do Estado Novo.

Em 1948 dá-se início ao processo de candidaturas para as eleições à presidência da república, que viriam a ocorrer em 1949, e o General Norton de Matos aceita ser o candidato de toda a oposição.

No Manifesto que então dirigiu ao povo português, podia ler-se:

"Cansado de divergências internas, o povo português deseja que todos os habitantes de Portugal sejam acima de tudo portugueses; que a tolerância e o respeito pela pessoa humana os ligue a todos e permitam a cada um viver a sua vida sem o terror desmoralizante da incerteza."

Serão estas as primeiras "eleições" presidenciais "abertas" a outras candidaturas que não a do partido único instituído por Salazar, a União nacional.

Em confronto com Carmona, o candidato do regime.

Estávamos em Janeiro de 1949, a campanha eleitoral iniciara-se no primeiro dia do ano. O povo tinha um candidato e em Coimbra, por exemplo, podia ler-se numa parede:

"Se votares por Carmona
Comes broa e azeitona.
Se votares por Norton de Matos
Comes sopa e dois pratos."

No dia 23 de Janeiro, perante uma multidão reunida no Porto, Norton de Matos caracterizava a Segunda República por que lutava:

"[...] não poderá existir nessa Segunda República nada de totalitário, de nazista e de fascista, de anti-democrático, de contrário aos direitos fundamentais do homem, da falta de respeito à pessoa humana, de exploração do homem pelo homem, de apagamento do indivíduo, quero dizer duma entidade real portadora de direitos e deveres, o cidadão, como unidade fundamental de todas as colectividades humanas e cujos atributos inamovíveis são, entre outros, os direitos à vida e à existência sã, à liberdade pessoal, ao trabalho (com o dever correlativo), à residência, à inviolabilidade do domínio, ao sigilo de correspondência, à propriedade pessoal, ao acesso a qualquer profissão, à instrução, à cultura, à personalidade, à assistência médica e à segurança social, à petição aos poderes públicos, à resistência perante a opressão e a tirania."

Mas Salazar recusava-se a abrir mão das "condições mínimas" exigidas pela oposição para um acto eleitoral isento, em pé de igualdade para ambas as candidaturas. Norton de Matos acaba por desistir no dia 12 de Fevereiro, véspera das eleições.

Em Angola, onde a dificuldade das comunicações impediu que chegasse a notícia da desistência, votou-se. E Norton de Matos ganhou em Nova Lisboa.

Faleceu a 2 de Janeiro de 1955.

Faz hoje precisamente 51 anos.



Nota: Este texto é da autoria da Júlia Coutinho. Por lapso ao coloca-lo no passado dia 2, não me apercebi que tinha aparecido o meu nome como seu autor. Só hoje, 7 de Janeiro, dei conta deste lapso.

Aos leitores e particularmente à Júlia, apresento as minhas desculpas.

Fernando Bizarro

21 comentários:

Fernando B. disse...


Foi com muito gosto que coloquei aqui este texto evocativo de um grande resistente anti-fascista.

Força Júla!

Paula Raposo disse...

E assim se muda o curso da História...com uma desistência. Só me resta dizer como o 'padrinho' : Força Júlia! Muitos beijos meus.

saisminerais disse...

Julia, não sendo eu um apreciador de politica, quero deixar-te aqui um beijinho e desejar-te um bom Ano Novo
recheado do que mais gostares, que o sorriso no canto dos labios nunca se apague.

lazuli disse...

Júlia, benvinda. Foi uma boa surpresa esta do Fernando, de que só agora dei conta.
Os teus artigos "prometem". Serei leitora atenta e assídua. Um beijo!
Agora vou ler.

Júlia Coutinho disse...

Quero aqui deixar expresso, publicamente, todo o meu Reconhecimento e Agradecimento ao amigo Fernando do Fraternidades.
O meu Padrinho desta coisa dos blogues.
Obrigada Fernando pela tua disponibilidade, generosidade e todo o trabalho que tiveste para deixar este blog com as características que pedi e que, sei, te ocupou muito tempo.
Obrigada também pela sensibilidade com que escolheste a música.
Paredes é sempre bem-vindo ! Sempre actual.
És um autêntico Ser Fraternal !

Nilson Barcelli disse...

Júlia,
Não conhecia o teu blogue e foi o Bizarro que me fez aqui vir.
Ainda não li nada teu.
A evocação do General Norton de Matos é importante, principalmente para os mais novos que nunca ouviram falar dele.
Boa sorte para o teu blogue.
Beijinhos.

Zecatelhado disse...

Ora bem amiga Júlia; Começa bem este blog, evocando a memória de um homem justo.

Um abração do
Zecatelhado

KingLouis disse...

Que povo este, à beira mar plantado observando num longínquo horizonte um pôr-do-sol esplendorosamente panegírico, sem ter a coragem de se voltar de além para aquém mar, e tal como homens como aquele de quem aqui se escreve, enfrentar um país e a sua nua e crua realidade.

Obrigado é sempre bom recordar que em Portugal existiram grandes homens, que talvez ao serem evocados dêem alento a outros potenciais grandes homens.

Geosapiens disse...

Que o Oriente eterno tenha a sua alma...pois este é recordado em todas as nossas cadeias de união...por isso é imortal...a este grande homem uma tripla bateria e aclamação...pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade...

Adryka disse...

Olá meu amigo, não sendo eu uma pessoa de esquerda, há uma coisa que muito admiro em algumas pessoas cesse quadrante politico,"a inteligência e a perseverança"gosto muito de ti dos teus posts e admiro a tua escrita, és realmente uma pessoa excelente, álias a minha maior e única amiga é comunista, e eu admiro as convicções dela. Um beijinho para ti e um bom 2006

Ricardo disse...

Viva,

Descobri este cantinho e achei-o muito interessante. Nem todas as causas são partilhadas por mim mas isso também não é importante...

Norton de Matos foi, acima de tudo, o homem que criou uma onda de esperança no país. E na altura isso não era uma tarefa nada fácil!

Abraço,

JG disse...

Graças à tecnologia, vim aqui ter e descobri que o meu blog Século Prodigioso está aqui linkado. Obrigado. Vou retribuir. E obrigado ainda pelo aroma a liberdade que este blog exala. Como posso não voltar? Um abraço e até à próxima.

amnésia disse...

Finalmente! é uma alegria ter-te aqui na blogosfera, Já fiz um link no meu blog para aqui.

Beijinhos e um bom ano (que esperemos seja Alegre) para ti.

Anónimo disse...

Gostei de ler.Tb gosto muito de ouvir as guitarras deste mestre.annie hall do outsider

augustoM disse...

Julinha, não deves saber mas o Norton de Matos ainda é meu parente afastado, das bandas da minha avó materna. Falavam muito dele em casa dos meus avós, que ao que parece, se tinham dado na juventude, mas eu nunca estive ao pé dele, calculo que nessa altura já fosse diícil para ele.
Um beijo. Augusto

Joaninha disse...

Fiquei satisfeita por aqui ter passado. Quando nos servem uma talhada de História, ficamos sempre plenamente conscientes de que ainda há quem se dedica a estudar, para transmitir. Gostei e voltarei. Um beijo

contradicoes disse...

Foi pena ele não ter conseguido os seus intentos. Mas Angola poderia ter-se tornado independente graças a si e outro rumo teria levado. Foi uma oportuna
invocação. Com um abraço do Raul

Júlia Coutinho disse...

Não são necessárias desculpas, meu amigo. Eu sei que foi engano.
Nunca o farias deliberadamente.
Um abraço e... continuação de melhoras.

stillforty disse...

Somos família, quase..
Gostei de ler a Seara Nova.
Vamos estar em dois acontecimentos da blogosfera, dia 28 e em Santarém, se aceitarem a minha inscrição;)
beijinho
Teresa

Firmino Mendes disse...

MORREU O NOSSO QUERIDO FERNANDO BIZARRO, ESTA MANHÃ, EM CARNAXIDE!
CHOREMOS!

Anónimo disse...

Fico feliz por pessoas como tu evocarem figuras importantes na história de Portugal. Mais orgulhoso fico por falarem de um ilustre limiano que se opôs ao acérrimo regime da altura. Nasci precisamente na rua que hoje se chama General Norton de Matos, em Ponte de Lima, a sua terra (embora hoje por razões profissionais trabalhe no Porto). Pena é que muita gente já tenha ouvido falar no General mas pouco ou nada saibam o que foi e o que fez.

Continuem com este blog, porque aqui aprende-se...

Ricardo Rodrigues Ponte de Lima/Porto)