Mostrar mensagens com a etiqueta PIDE. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PIDE. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Nos 57 anos do assassinato de Jose Dias Coelho

Jose Dias Coelho (1923-1961) em 1946, com 24 anos



A 19 de Dezembro de 1961 o escultor José Dias Coelho foi assassinado por uma brigada da PIDE. 

Era então funcionário do Partido Comunista Português e dirigente da organização de Lisboa, partido político a que aderira em 1942 e passara a trabalhar na clandestinidade em 1955. Viveu sete anos clandestino com a companheira Margarida Tengarrinha e a filha de ambos, Teresa (Set.1953). Na clandestinidade nasce-lhes a segunda filha, Margarida (Abril 1959).

Vários foram os pseudónimos adoptados por Dias Coelho nas diversas frentes do trabalho clandestino. Conhecem-se alguns como Fausto e Romeu mas, quando assumiu a responsabilidade do trabalho com os intelectuais, antes ainda de fazer parte da direcção da organização de Lisboa, adoptou o de Pedro. 

Assinalando os 57 anos sobre a sua morte, torno público um artigo da sua autoria, como Pedro, inserido no Militante nº 99, de Fevereiro de 1959.  Aqui fica para memória futura. E para que o seu nome não seja esquecido apesar das entidades públicas deste país do pós-25 de Abril o ignorarem. Tal como ignora outros que foram mortos pela policia política, que sacrificaram a vida pela Liberdade e acabaram esquecidos de qualquer reconhecimento público pelas entidades do país que também ajudaram a libertar.






Júlia Coutinho
19 Dezembro 2018



quinta-feira, março 01, 2018

João Varela Gomes (1925-2018)






No momento em que nos despedimos para sempre de João Varela Gomes, quero prestar-lhe a minha sentida homenagem através de dois pequenos apontamentos.

1 - Em Novembro de 1961 Salazar realizou eleições de deputados à Assembleia Nacional e a oposição decidiu concorrer. Não foi nada fácil a constituição da lista oposicionista por Lisboa mas o então capitão João Varela Gomes teve a coragem de a integrar. Ficaram célebres as suas intervenções públicas, nomeadamente na sessão realizada a 3 desse mês no Teatro da Trindade. Do seu processo nos arquivos da PIDE/DGS respigamos algumas informações dos agentes da polícia política que fizeram a cobertura dessa noite. 
    
a) - "O capitão Varela Gomes disse o seguinte:  "Eu tenho notado que me têm distinguido com aplausos e quero endossar esses aplausos para o povo que tanto tem sido humilhado pelo Governo.  O Governo Salazarista não tem programa e quer sobreviver. Ele embarcou num navio de piratas que se chama fascismo. Imitando esse sistema ele criou a Mocidade e a Legião, e em 1945, sentindo-se atrapalhado criou o Campismo para a Mocidade e incumbiu a Legião da Defesa Civil do Território.
(…) Um grupo de aduladores e subservientes colocou Salazar num pedestal e nós iremos arrancá-lo desse pedestal. (…)  A única vitória que o Estado Novo até hoje conseguiu foi a de nos trazer a todos adormecidos e apáticos".
(SC SR 2846/58 cx 2829, doc 210, informação de "Jacinto Lemos")  
b) - (…) entre os diversos oradores destacou-se o capitão Varela Gomes que  (…)  foi muito ovacionado, com a assistência em pé. Foi de todos os oradores o que mais atacou o Governo e o senhor Presidente do Conselho
(SC SR 2846/58 cx 2829, doc 210, relatório do agente Martins Ferreira)

JVG a discursar no Teatro da Trindade em 3 Nov. 1961. Na mesa podem ver-se Augusto Casimiro, Luis Dias Amado, Lino Neto e Orlando Ramos, entre outros.


Assistência aplaude JVG no Teatro da Trindade em 3 Nov 1961



2 - Conheci Varela Gomes muito antes de o conhecer. Sabia de há muito os feitos, a coragem e o carácter forte e impoluto desse homem que era uma «força da natureza», no dizer do próprio filho, Paulo Varela Gomes,  mas o nosso encontro pessoal deu-se apenas em Março de 2007 aquando de uma série de conferências levadas a cabo pela Cooperativa Militar com o apoio da Comissão Portuguesa de História Militar, subordinadas ao tema: Oposição Político-Militar ao Estado Novo, no 3º Quartel do Séc. XX, efectuadas nos dias 20, 22, 27 e 29 de Março de 2007.  Varela Gomes interveio no dia 27 e a sua comunicação deixou-me entusiasmada pelo que dava a conhecer do percurso antifascista mas também pela forma contundente como se referiu a duas comunicações anteriores, altamente reacionárias, de dois oficiais reformados da Força Aérea. Intervindo a seguir a eles, Pezarat Correia desmontara já esses discursos mas Varela Gomes não quis também deixar de responder aos dois saudosos do salazarismo. 

Tivemos oportunidade de conversar bastante e passados dias escreveu-me a dar conta das suas actividades de escriba interventivo e militante, ao mesmo tempo que enviava o jornal Alentejo Popular, sediado em Beja e onde colaborava, e os dois últimos números dos SAMIZDAT, como chamava aos caderninhos que escrevia e editava clandestinamente, conforme sublinhara.
Escusado será dizer que nunca mais deixei de acompanhar o meu amigo João Varela Gomes e tudo o que saía da sua lavra.







No entretanto, o Alentejo Popular terminou em 2012 e o sr Luis Alves Dias, dono da Livraria Ler e seu editor, faleceu em 2015, embora saibamos que a livraria retomou a actividade sob a direcção do filho e continua a ser um local de referência em Campo de Ourique. 

Deixo-vos o texto da comunicação de João Varela Gomes às Conferências da Cooperativa Militar. O autor acabou por falar de improviso com recurso a uns apontamentos que também estão em meu poder. Mas o conteúdo destas páginas, que JVG entregou previamente à organização, é de tal forma valioso que me parece importante chegar ao conhecimento do maior número de pessoas possível. Por elas se pode acompanhar o percurso combativo de um Homem e de um Militar que entre 1958-1974 escolheu estar contra Salazar e Caetano e ao lado das gentes do seu país. 
Um Homem a quem devemos muito do que somos. E que continua a ser desconhecido por muitos e mal-amado por muitos mais.

Perguntei-lhe porque não continuou o projecto das suas memórias iniciado com Tempo de Resistência, I Parte, (Jan 1962-Set 1963), da Ler Editora, 1980. Resposta: «porque ninguém lê, ninguém se interessa». É pena, digo eu. Todos ficámos a perder.















quinta-feira, agosto 17, 2017

João da Silva: a morte do carrasco do Tarrafal e de Caxias


Devo a António Dias Lourenço o ter-me revelado, nos anos noventa, a forma trágica como ocorreu a morte de João da Silva, esse «carrasco» dos presos políticos no Tarrafal e em Caxias, num desastre de viação na Av da Liberdade. A data não recordava. Falou-me, sim, do regozijo que o acontecimento  provocou nas hostes antifascistas e sobretudo nos ex-tarrafalistas  - que sob o seu jugo sofreram horrores -, que durante muito e muito tempo afluíram ao local numa espécie de «romaria» como que a certificarem-se de que a besta morrera mesmo.

Durante anos procurei noticias que corroborassem as informações de ADL até que encontrei, por fim, quando já desanimava. O desastre deu-se a 15 de Janeiro de 1960, conforme as noticias abaixo de O Século e do Diário de Lisboa de 16, e por elas se pode aferir da brutalidade do acidente provocado pela leviandade do capitão João da Silva ao atravessar fora da placa para peões e que arrastou consigo outras vítimas, uma delas mortal. 


Jornal O SÉCULO, 16 Janeiro 1960


Jornal Diário de Lisboa, 16 Janeiro  1960


João da Silva, capitão do exército ao serviço da polícia política e que integrara uma comissão de militares que fora à Alemanha estudar os campos nazis, foi o homem nomeado pela PVDE  para terceiro director do Campo do Tarrafal, cargo que ocupou entre Outubro de 1938 e Junho de 1940.

Foi durante o seu consulado, a par do do director inicial capitão Manuel Martins dos Reis - o campo foi inaugurado em Outubro de 1936 -, que foram praticadas as maiores barbaridades contra os presos ali concentrados, devendo-se-lhe a criação da chamada Frigideira e a constituição da Brigada Brava dois exemplos de práticas punitivas e destrutivas do ser humano, entre muitas outras.

Não vou aqui tratar em profundidade o Campo do Tarrafal a que os presos chamavam «campo da morte lenta», e os métodos de tortura utilizados, até porque existem já muitos estudos facilmente acessíveis a quem queira informar-se. Este artigo pretende apenas dar a conhecer o final de vida triste do tristemente «célebre» João da Silva, e revelar aspectos até agora desconhecidos do mesmo.

Para além do Tarrafal João da Silva esteve ainda à frente da prisão política de Caxias, nos anos cinquenta, até atingir o limite de idade.

Poder-se-á, eventualmente, questionar o regozijo sentido pela sua morte. Não deveria ser assim, diz-nos o bom-senso. Mas quais as vítimas que resistem a não festejar o aniquilamento dos seus algozes ? E quem se atreve a condená-las ? Eu não.

Sérgio Vilarigues, um dos presos que inaugurou o campo do Tarrafal e sentiu na pele o seu jugo, descreveu João da Silva como «um homem sem escrúpulos e sem quaisquer sentimentos humanos» -  «um autêntico carrasco para os presos». (Avante, 5 Março 97)

Morreu sem honra e sem glória.








terça-feira, maio 09, 2017

Joao Abel Manta: o artista resistente






«Foram dois indivíduos extremamente importantes para a minha formação mental, o Zé [Dias] Coelho e o João Abel [Manta]; dois líderes naturais (...) um pela consciência política, o outro pela grande cultura»
Rolando Sá Nogueira





Falar de João Abel Manta é recordar uma geração que, no período após a Segunda Guerra, forjou um combate militante ao «Estado Novo» e aprendeu a resistência dos actos, das palavras e do silêncio. Num tempo em que a cultura subvertia e incomodava.

Fixemo-nos em 1945, ano em que finda a Segunda Guerra Mundial e surge o movimento oposicionista MUD - Movimento de Unidade Democrática, e também o ano lectivo (45-46) em que o futuro arquitecto ingressa na escola de Belas-Artes de Lisboa no velho casarão de São Francisco, onde o jovem de 17 anos vai encontrar um ensino obsoleto e um ambiente asfixiante, que desprezará, mas onde vai iniciar um ciclo de encontros, partilhas, lutas e emoções que irão consolidar o homem e o cidadão João Abel Manta.

Um curriculum idêntico ao primeiro ano de pintura, escultura e arquitectura aproxima-o de colegas com cadeiras em atraso[i] como Jorge Vieira, Francisco Castro Rodrigues, Duarte Castel-Branco, Rolando Sá Nogueira e José Dias Coelho, criando um grupo de amigos que dará origem a “uma verdadeira tertúlia (...) onde cada indivíduo contribuía com a sua curiosidade e com o seu saber para o conhecimento do grupo inteiro”.[ii]

João Abel já então detinha, pelo berço e pelo convívio[iii], uma enorme cultura nas áreas das artes plásticas, música, cinema e literatura, pelo que a sua preponderância no grupo surge naturalmente. Nas palavras de Sá Nogueira, um dos seus grandes amigos:   “eu costumo dizer que li o Eça de Queirós por causa do João Abel Manta (...) Em miúdo não lia, mas com os meus amigos, nas nossas tertúlias, li o Eça e muitos outros autores porque eu próprio concluí ser necessário, e passei a ter prazer na leitura (...) O mesmo com a música.
Outra particularidade o distingue: as viagens anuais que com os pais faz a Paris e outras cidades europeias de onde regressa carregado de livros e revistas que aqui não existem, e que passam de mão em mão entre os amigos. Será, pois, nestas tertúlias que se vão fomentando gostos e criando hábitos culturais e de convívio, que suprirão, em parte, as lacunas escolares e até familiares de muitos deles.

No grupo, enquanto João Abel prevalecia pela cultura, José Dias Coelho impunha-se pela acção cívica e política e teve, conforme Sá Nogueira, “uma importância muito grande na formação cívica do grupo, porque estava sempre a espicaçar” assumindo a “função de alertar os outros” e levá-los a agir enquanto cidadãos.

J Abel Manta com J Dias Coelho e R Sá Nogueira


O MUD Juvenil é formado em Julho de 46 e a sua organização em Comissões nos diversos estabelecimentos de ensino estendeu-se também a Belas-Artes[iv], tendo-se iniciado aí os maiores esforços  para revitalizar a associação académica que estava inactiva desde os anos trinta. Foi eleita uma pró-comissão abrangente que trabalhou com empenho na discussão e aprovação dos respectivos Estatutos que, lamentavelmente, a tutela nunca homologou. Criou-se no entanto uma dinâmica que jamais se apagaria, tendo Belas-Artes integrado nesse mesmo ano a primeira Festa da Queima das Fitas comum a toda a academia de Lisboa quebrando o velho hábito dos festejos isolados.



Alunos de Belas Artes no final do ano lectivo 1945-46 (JAM é o 3º da 1ª fila a contar da direita)






Belas-Artes no final do Cortejo da Queima das Fitas em 1946 (JAM está na última fila só aparecendo a cabeça)




O ano de 1947 será paradigmático da resistência dos jovens ao regime de Salazar e para a História ficam as violentas repressões ocorridas na Semana da Juventude (Março) e no assalto pelas polícias à Faculdade de Medicina[v] (Abril), onde os estudantes se reuniam em protesto e solidariedade com os camaradas do MUD Juvenil perseguidos e encarcerados. É neste contexto que João Abel concebe o desenho “Natal de 1947” assinado apenas JA (João Abel) para angariação de fundos que revertessem em apoio aos valentes jovens mudistas.



O original foi oferecido pelo autor ao amigo Dias Coelho e este, ao entrar para a clandestinidade, em 1955, ofereceu-o a uma amiga, Lia Fernandes, que ainda o conserva



Ainda nesse ano, participa na II Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP), assistindo à violência da PIDE que invade a SNBA e apreende onze obras de dez neo-realistas, só as devolvendo com a exigência de não mais voltarem a ser mostradas em público.[vi] 
Virá a participar em todas as EGAPs (1946-56) tal como pertencerá aos corpos directivos da SNBA e aos do seu Sindicato (Arquitectos). Igualmente será um dos fundadores e membro activo da cooperativa GRAVURA formada em 1956.
Hoje as EGAPs estão esquecidas. E, no entanto, não subsistem dúvidas de que as mesmas configuraram “o primeiro combate organizado pela oposição ao Salazarismo”[vii] precisamente pela “consciência que trouxeram aos artistas da recusa de expor no SNI”[viii] e ainda pela frente cívica que constituíram e as sensibilidades que juntaram.
À distância, tendo presentes as discussões que se seguiram entre neo-realistas e surrealistas e o desespero aqui evidenciado pelo regime, é legítimo concluir que, por mais ingénua que haja sido a sua formulação, o neo-realismo foi a linguagem certa para o momento certo, a mais incomodativa e aquela que, pelo seu sentido pragmático, na feliz expressão de Ernesto de Sousa, melhor atingiu os objectivos da oposição. Como dissera Álvaro Cunhal num escrito elaborado na Penitenciária e publicado na revista Vértice, sob o pseudónimo de António Vale, o conteúdo haveria de dominar a forma.

 
Jantar de alguns artistas participantes na II EGAP, Maio 1947


Num período propício à formação de movimentos cívicos e culturais como o campismo e o cineclubismo, por exemplo, é criado em Lisboa por iniciativa de José Ernesto de Sousa e outros jovens, o Círculo de Cinema que, entre outras actividades, editava um Boletim. Pelo seu imenso activismo o clube torna-se suspeito e, quando a PIDE assalta a sede e prende alguns membros, apreende também um Boletim em fase de composição no qual se noticia o nome de todos os dirigentes, incluindo João Abel Manta que co-dirigia essa publicação[ix].
Acresce ainda que a sua morada já andava a ser vigiada por servir de recepção de correspondência (que entregava a Dias Coelho) e o seu quarto, “que até tinha uma porta que dava directamente para o patim da entrada” era utilizado para reuniões clandestinas, a pedido do amigo Zé Coelho.

E foi assim que pelas 00:30 da madrugada do dia 1 de Fevereiro de 1948, João Abel é preso pela PIDE na casa dos pais — Rua Tenente Valadim (actual Infante Santo) 362-2º Esq. — e levado para a prisão de Caxias por “fazer parte de uma organização clandestina”.[x]  Tinha 20 anos, acabados de fazer no dia anterior, 29 de Janeiro.


Ficha da PIDE de João Abel Manta (apesar do mau estado é um documento importante)


Em Caxias, começa por ser colocado em companhia dos cineclubistas mas “eles acabaram por sair primeiro e eu fiquei lá sozinho na cela”. Os interrogatórios na sede da PIDE são de extrema violência psicológica com o famigerado Fernando Gouveia a exigir nomes. Para não colocar em perigo gente ainda não assinalada pela polícia, como Dias Coelho, cita alguns membros do Juvenil que estiveram ou ainda se encontravam presos. Fisicamente não foi torturado: os agentes tratariam com alguma deferência uns tantos que consideravam serem filhos-família.

A Direcção [Universitária] Provisória do MUD Juvenil emite um comunicado apelando à unidade e ao protesto, afirmando que “a defesa dos nossos amigos presos é a própria defesa do Movimento”, ao mesmo tempo que um abaixo-assinado de solidariedade para com João Abel é posto a circular na Escola de que era aluno mas sem grande êxito porque “entre os colegas do meu curso [arquitectura] houve uma série de gente que recusou assinar com medo do «Cunha Bruto»”, o professor que tutelava duas cadeiras fundamentais do curso e que todos os alunos temiam. No entanto houve um número restrito que não se deixou intimidar e corajosamente protestou junto da PIDE pela prisão do colega: José Dias Coelho, Rolando Sá Nogueira e Nuno Craveiro Lopes

 
Nuno Craveiro Lopes, colega e amigo de JAM. Ambos terminariam o curso de Arquitectura em 52 mas NCL fará toda a vida profissional em Lourenço Marques (Maputo) tendo aí falecido em 1971.


É solto a 14 de Fevereiro de 1948. Sobre a reacção familiar, recorda que o pai Manta, apesar de oposicionista, “não gostou que eu tivesse sido preso, achava um bocado inútil essas coisas (...) mas a minha mãe reagiu extraordinariamente e deu-me todo o apoio” - ou não fosse Clementina Carneiro de Moura uma digna subsidiária da ética republicana.[xi]

A polícia política não mais o largaria. Mas João Abel Manta nunca deixará de intervir socialmente, sobretudo quando estão em jogo as causas da cultura.

Quando em 1959 morre Diogo de Macedo e o regime nomeia o pintor Eduardo Malta para o substituir na direcção do Museu de Arte Contemporânea, João Abel afirma publicamente: “Com Diogo de Macedo sempre trilhámos os caminhos da arte do nosso tempo, mas agora teremos certamente de lutar contra todos os preconceitos e ameaças que nos vão tolher os passos”[xii]. Essa luta contra o conhecido academismo de Malta ficou expressa numa das várias representações então dirigidas ao ministro da Educação Nacional, discordando da nomeação e sugerindo/exigindo que fosse substituído.[xiii]

Várias obras de João Abel foram censuradas e o auge acontece já na época marcelista com a acusação de ridicularizar a bandeira portuguesa num cartoon publicado no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa de 11.11.1972 e, por isso mesmo, levado à barra do Tribunal. O desenho apresentava uma bandeira nacional sem a totalidade dos atributos e, no centro, por sob a esfera armilar, uma cabeça de mulher, supostamente a cantar. Era óbvia a crítica aos habituais festivais da canção de onde os artistas de maior qualidade estavam arredados. 


O cartoon que irritou Marcelo Caetano



Viu-se obrigado a pagar uma fiança para aguardar julgamento em liberdade e em Junho de 73 quando o processo finalmente foi concluido, com a sua absolvição, foi afirmado pelo advogado de defesa, José Carlos de Vasconcelos:
“Este não foi o processo de João Abel Manta – mas o processo dos seus próprios denunciantes, da censura, do fascismo (...) É portanto um processo político, que leva ao extremo do ridículo a farsa da pseudoliberalização marcelista (...) e é também um processo que felizmente chegou até este tribunal (...) cuja única sentença condenatória será, na consciência de nós todos, homens livres, para o regime que trouxe para este banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Manta.” [xiv]

O 25 de Abril de 1974 chegaria a tempo de João Abel Manta não voltar a ser incomodado pela polícia política, desta feita pelos desenhos do livro Dinossauro Excelentíssimo que produziu com o amigo José Cardoso Pires, e que ficaria para a posteridade, a par com as suas Caricaturas Portuguesas do Tempo de Salazar, como a mais lúcida e feroz denúncia dos cinquenta anos de obscurantismo vividos no nosso país.




Julia Coutinho

Nota:  este artigo, com ligeiras alterações, foi publicado no catálogo de uma Exposição realizada pela CM Amadora, em 2008, pelos 80 anos de vida de João Abel Manta.
 


[i] João Abel Manta foi dos raríssimos alunos (se não o único) a fazer o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, sem atrasos. As razias eram em Geometria Descritiva ou em Desenho Arquitectónico (1º ano) e Construções (4º ano) de Luís Alexandre da Cunha, o “Cunha Bruto”, que também foi director da escola. Ficaram célebres as debandadas para a Escola de Belas-Artes do Porto, para fazer as cadeiras deste professor.
[ii] Rolando Sá Nogueira, entrevista à autora, em Março.2001. Todas as citações de RSN são desta fonte.
[iii] A Família Manta convivia com Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Dordio Gomes, Keil do Amaral, Gualdino Gomes, Lopes-Graça, Bernardo Marques, Bento Jesus Caraça, Pulido Valente, e muitos outros.
[iv] Pertenceram à Comissão do MUD Juvenil da Escola de Belas-Artes de Lisboa, entre 1946-1952, J.Dias Coelho, J.Abel Manta, R.Sá Nogueira, Jorge Vieira, Lima de Freitas, Nuno Craveiro Lopes, Alice Jorge, F. Castro Rodrigues, M.Emília Cabrita, Raul Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, António Alfredo, M.Cecília Ferreira Alves, Bartolomeu Cid, A. Sena da Silva, Lia Fernandes, Tomás Xavier de Figueiredo,  etc.
[v] Em 29.04.1947 com prisões e agressões indiscriminadas. Na sequência, Salazar demitiu grande número de professores do ensino superior, nomeadamente o director da Faculdade de Medicina.
[vi] Foram 10 as EGAP´s, entre 1946-1956. A invasão da Pide deu-se a 13.05.1947 pelas 13 horas, e as obras apreendidas foram 11, de Julio Pomar, Avelino Cunhal, Viana Dionísio (Jose Viana) Jose Chaves (Mário Dionísio), Maria Keil, Arnaldo Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares (2 obras) e Rui Pimentel (Arco).
[vii] Antonio Valdemar, “SNBA: continuidade e ruptura”, DN 18.03.2001
[viii] João Abel Manta, entrevista à autora em 22.08.2002. Todas as citações de JAM são desta fonte.
[ix] A sede funcionava na Rua B às Amoreiras 4-1º Dto – Lisboa, das 21.30 às 24 horas, em casa alugada para o efeito e inaugurada em 10.11.1947. O assalto da PIDE deu-se em 31.01.1948.
[x] Conforme Registo Geral de Presos e Processo  ANTT/ PIDE/DGS 214/48 – NT 4956
[xi] Abel Manta (pai) foi muito maltratado pelo regime. Em 1932, concorre à Escola de Belas Artes de Lisboa para professor de Pintura, sendo preterido por Henrique Franco, num processo muito pouco claro, de que recorreu. Um ano depois, Henrique Franco demite-se e, em vez de ser chamado o segundo classificado no concurso, o regime nomeia Varela Aldemira que fora discípulo de Columbano.  Já em 1939 Abel Manta e Dordio Gomes haviam sido chamados para decorar a escadaria principal do Palácio de S. Bento. Por questões estéticas, são dispensados quando as obras se encontram quase prontas, sendo as mesmas destruídas e ambos substituídos por Lino António, numa humilhação sem precedentes apesar de terem sido indemnizados.
[xii] Lista da PIDE com declarações públicas dos artistas plásticos e assinalando, de entre eles, quais os que se encontravam representados no Museu de Arte Contemporânea.
[xiii] A acção de Eduardo Malta (1900-1967) à frente do Museu de Arte Contemporânea revelar-se-ia catastrófica, a todos os níveis, como já foi publicamente admitido. Após o incêndio do Chiado seria o edifício objecto de requalificação profunda, reabrindo em 1994 como Museu do Chiado.
[xiv] J. Carlos Vasconcelos, «Cartoons» que abalaram o fascismo  e fizeram sorrir a revolução», in O Jornal de 19.12.75, pp. 20-21.