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Alvaro Cunhal na sua 1ª prisão, em 1937 |
Partiu há 13 anos, num dia 13 de Junho.
A minha homenagem através de Jose Saramago.
"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros
aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro
Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo
de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável
fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram,
assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução
dos juízos, à perversão das práticas.
As memórias pessoais que se
recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os
fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os
portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o
espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta
teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este
tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais
instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e
das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e
decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós
próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e
que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a
prestá-las.
Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo
tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a
guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de
que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência.
Quer
no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham
sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o
único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de
acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta
distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem
resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O
mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás.
Envelhecer é não ser
preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é
demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de
sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele
penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Green
disse a Eduardo Lourenço: "O meu sonho, no que toca a Portugal, seria
conhecer Álvaro Cunhal." O grande escritor britânico deu voz ao que
tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."
Jose Saramago
http://caderno.josesaramago.org/55262.html
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