quarta-feira, dezembro 31, 2008

Neste final de 2008















Quando um ano chega ao fim e outro se perfila no horizonte deixo-vos com mais um poema inédito de Maria Tereza Horta e um desenho de Maria Keil, duas mulheres que muito admiro e que honram as artes portuguesas.
Feliz 2009!

FIM DE ANO
São os meses
São os dias
as horas todas as vezes

Quantas depois
se iniciam
retornando ao seu alpendre

São os anseios
São os sonhos
a esperança e o devaneio

Quando o ano
no seu fim
torna ao começo em seu veio

Maria Teresa Horta

Lisboa, 30 de Dezembro de 2008

terça-feira, dezembro 30, 2008

Na morte de Arnaldo Louro de Almeida (1926-2008)

Arnaldo Louro de Almeida
(1.Agosto.1926 - 28.Dez. 2008)
Tinha 82 anos e faleceu no dia 28, pelas 11 horas. Serena e discretamente, tal qual foi a sua vida. O funeral realiza-se hoje, dia 30 de Dezembro, pelas 15,30h, a partir da igreja de Loures para o cemitério local.
Oriundo da Escola António Arroio, tal como seu irmão Fernando, ambos se viriam a formar na Escola de Belas-Artes de Lisboa, o Fernando em Escultura e o Arnaldo em Pintura.
Começou a expor colectivamente logo na 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1946-1956), a cuja comissão organizativa deu apoio, com outros colegas estudantes de Belas-Artes.
Foi um dos 11 artistas que viu um dos seus quadros apreendidos pela PIDE na 2ª EGAP em 1947. Tinha apenas 20 anos e era o mais novo dos expositores. A foto que se publica data dessa altura.
Fez a primeira exposição individual na SNBA em Janeiro de 1949.
Pertenceu aos corpos directivos da SNBA e era seu Secretário quando em 1952 a PIDE fechou aquela instituição na sequência das provocações de Eduardo Malta, um pintor afecto ao regime. Foi a sua direcção quem geriu a crise então instalada e que durou até finais desse ano.
Foi professor e, mais tarde, director da Escola de Artes Decorativas António Arroio, cargo que ocupava quando se deu o 25 de Abril.
Viveu vários anos na Madeira onde exerceu grande actividade pedagógica, tendo ficado ligado à fundação da Academia de Belas-Artes da Madeira de que foi o primeiro director. Devem-se-lhe ainda muitas das traduções de livros técnicos, fundamentais para o ensino artístico.
Arnaldo Louro de Almeida nasceu em Lisboa, freguesia de Arroios, no dia 1 de Agosto de 1926 no seio de uma família com grandes tradições antifascistas. Seu pai, Manuel Guilherme de Almeida, foi um dos fundadores do PCP em 1921, tendo sido várias vezes preso pela polícia política e chegando a estar desterrado. Constituiu e dirigiu o Sindicato dos Alfaiates e fundou, em 4 de Março de 1934, a Academia de Corte Sistema Maguidal, (Maguidal, um acrónimo do seu nome), com um sistema de ensino inventado por si, cuja sede, ainda hoje existente na Rua da Palma, bem pode considerar-se um baluarte da resistência a Salazar, tal o trabalho conspirativo ali desenvolvido e os muitos clandestinos que acolheu.
Sua mãe, Alice Marques Louro, foi uma corajosa mulher que sempre desenvolveu um constante trabalho legal e clandestino no apoio aos presos políticos e a suas famílias, em conjunto com militantes antifascistas como Manuel Alpedrinha e Maria Machado, entre outros. Nos anos 50 a PIDE assaltou a casa da família, numa altura que ali estava recolhida Maria Machado e todos os seus membros, incluindo o Arnaldo, foram presos.
Pessoalmente devo a Mestre Arnaldo Louro de Almeida uma ajuda preciosa no deslindar da história da sua geração, uma «ínclita geração» (digo eu) da Escola de Belas-Artes de Lisboa, dos anos 40/50, fundamental na historiografia artística portuguesa, mas cuja História ainda está por fazer.
Insisti várias vezes para que doasse o seu espólio ao Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira. Dizia-me sempre que, antes, queria fazer uma grande exposição retrospectiva da sua obra, em Lisboa. Cidade que amava. Onde se estreou como artista e onde queria terminar. Ainda em Agosto me dizia que, com esse objectivo, tinha ido tentar falar à CML, ao pelouro da Cultura, mas entretanto tinham-se mudado para a Casa dos Bicos, o vereador da cultura era outro... mas sim, voltaria a tentar logo que possível. Não queria desistir do seu sonho. Porque o Arnaldo era um sonhador, essa categoria de homens cada vez mais rara.
Um quadro seu, inédito, datado de 1947, quando tinha 20 anos, foi doado e encontra-se exposto no Museu do Fado. Precisamente o quadro apreendido pela PIDE durante a II EGAP.
Em Lisboa deram o seu nome a uma escola, a ex- Escola Primária nº 44, ao Bairro Azul, numa homenagem ao Mestre que nos anos 50 fez os paineis de azulejos que adornam aquele estabelecimento de ensino.
Vi-o pela última vez no jantar comemorativo do 25 de Abril deste ano, no Parque das Nações. Falei-lhe por telefone na véspera de Natal quando já estava internado em Santa Maria. Faleceu três dias depois um tanto inesperadamente, apesar da gravidade da sua doença. Perdi um grande amigo. Portugal perdeu um homem e um artista que desconhece de todo. Portugal não merece homens como o Arnaldo Louro de Almeida.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Carta do Aljube no Natal 1962

Em Dezembro de 1962 o Capitão João Varela Gomes estava detido na cadeia do Aljube, às ordens da PIDE, por ter participado no Golpe de Beja. Também sua mulher, Maria Eugénia, se encontrava na prisão de Caxias, acusada de cumplicidade.
Era o primeiro Natal que passavam separados e longe dos filhos, o Paulo, o João António, a Maria Eugénia e a Maria da Luz, de 10, 9, 7 e 5 anos, respectivamente.
A carta que se segue foi escrita por um pai dilacerado (por vezes nem lhes era permitido um abraço) mas apostado em incutir nos filhos os valores da coragem, da responsabilidade, do respeito, da liberdade e da solidariedade. Um esforço para que, apesar de tudo, as crianças sentissem a «presença e o amor dos pais» numa época particularmente difícil e sensível. Um documento comovente.
«... Acabei de escrever aos filhos a carta de Natal. É mais a festa das crianças que dos papás. Que continuem felizes. Calculo que vais ter uns momentos, ou dias, de angústia e tristeza. Há que reagir, paciência» (carta para a mulher)

Lisboa, 21 de Dezembro de 1962 
 
Meus queridos filhos,
O pai não queria, nesta altura do Natal, deixar de vos dizer quanto pensa nos seus quatro filhos e quanto deseja que decorram com alegria estes dias de festa. São festas para os meninos pequenos, Boas Festas para todas as crianças deste mundo, mesmo para aquelas, pobrezinhas e infelizes, que são esquecidas durante todo o resto do ano. Não é o vosso caso, meus filhos, que têm o Avô e os Tios para cuidarem de vocês, e o Pai e a Mãe Gena para vos acompanharem em pensamento, dia por dia, dos 365 que conta o ano.
Conhecem a história do nascimento do Menino Jesus, num curral de gado, porque o Pai e a Mãe (José e Maria) estavam a ser perseguidos, por um rei mau - Herodes - que era quem mandava na terra deles.
Pois José e Maria tiveram que fugir para outro país - o Egipto - e foi no caminho que nasceu o filho deles. Nasceu numa ocasião de desgraça, de tristeza para a família, para todos os amigos e para todo o povo judeu. Quando tudo parecia perdido, nasce um menino, nasce com ele a esperança de melhores dias, de felicidade futura, de regresso a casa, duma nova Pátria sem nenhum Herodes. E, conta a história, que apareceram estrelas a brilhar e anjos a cantar e que desde os mais pobres - os pastores - até aos mais ricos - os reis Magos - todos se alegraram e confiaram. Até mesmo os animais - o burro e as vacas - olhavam para o menino como alguma coisa de precioso.
Ora bem, filhos, isto que sucedeu há 1962 anos, ensinou os homens a nunca desesperarem, a nunca se afundarem na tristeza, enquanto houver crianças, enquanto nascerem meninos que cresçam bons e valentes como vocês e de quem os mais velhos possam dizer, como diz daqui o Pai João e da outra cadeia a Mãe Gena: «os nossos filhos são o nosso orgulho; eles são a garantia que não vivemos em vão e que um mundo melhor se está a construir.»
 
Muito tempo se passou depois do nascimento do Menino Jesus; ele próprio, já homem, teve que morrer pelas suas ideias. Muita gente, como vocês sabem, toma-o ainda agora por Deus (na altura foram muito poucos: estava tudo com medo dos soldados romanos). A família lá de casa também acredita que foi Deus que nasceu quando nasceu o Menino Jesus. O Pai João e a Mãe Gena, como os meninos devem saber, apenas acreditam que nasceu com ele a esperança, morta e novamente renascida sempre que nasce um menino de bondade, um menino de coragem.
Para o Pai e para a Mãe Gena, os seus quatro filhos, são quatro Meninos Jesus; e, creio bem, que todos os pais pensam da mesma maneira em relação aos seus filhos.
 
Tinha imaginado acabar a carta com uns conselhos, mas vou desistir. Eram pequenas recomendações sobre um ou outro ponto que me parece, daqui, precisarem de correcção. Os tios e as tias se encarregarão de vos dizer o que eu penso sober os estudos, as companhias, as birras e as fúrias, os cuidados com as vossas coisas, a necessidade de fazer poucos pedidos aí em casa e de darem pouco trabalho.
Sois muito pequenos e as vossas responsabilidades já são grandes; mas eu, que conheço os meus filhos, confio em todos vocês. Neste Natal, ao redor do presépio, pensai num menino que nasceu quase no meio da rua, cresceu pobre e fugido e se fez Homem tão superior aos outros, que o chamaram de Deus; e, à volta da árvore dos brinquedos, pensai em todos os outros meninos que precisam de ajuda para sairem da miséria e da ignorância.
 
Beijos de Feliz Natal para toda a miudagem aí de casa e saudades para os adultos do
Pai João»

João Varela Gomes, Tempo de Resistência, Ler Editora, 1980, pp- 167-169 

NOTA: Na foto acima, Maria Eugenia Varela Gomes com os quatro filhos, nos finais dos anos cinquenta. Foto retirada daqui.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Palavras de Azevinho

PALAVRAS DE AZEVINHO
Natal de malva
e linho
de ternura mosqueada
Onde no peito
faz ninho
e no coração se alaga

Na entrega e no refúgio
de memória deslumbrada
entre o sonhado e o lume
Natal no seu aprisco
perfumes
de seda e cassa
Pela calada do tempo
da infância
sendo imagem
Com palavras
de azevinho
e nas costas duas asas

Natal de 2008
Maria Teresa Horta




Agradeço à minha querida amiga Teresa Horta este seu poema lindíssimo, inédito, feito expressamente para a quadra que atravessamos, e a generosidade em aceder que aqui o partilhe com os meus leitores.
Obrigada, Teresa!

domingo, dezembro 21, 2008

Carta ao Pai Natal










Olá Pai Natal

É a primeira vez que escrevo para ti
Venho de Lisboa e o pessoal chama-me AC
Desculpa o atrevimento mas tenho alguns pedidos
Espero que não fiquem nalguma prateleira esquecidos
Como nunca te pedi nada
Peço tudo duma vez e fica a conversa despachada
Talvez aches os pedidos meio extravagantes
Queria que pusesses juízo na cabeça destes governantes
Tira-lhes as armas e a vontade da guerra
É que se não acabamos a pedir-te uma nova Terra
Ao sem-abrigo indigente, dá-lhe uma vida decente
E arranja-lhe trabalho em vez de mais uma sopa quente
E ao pobre coitado, e ao desempregado
Arranja-lhe um emprego em que ele não se sinta explorado
E ao soldado, manda-o de volta para junto da mulher
Acredita que é isso que ele quer
Vai ver África de perto, não vejas pelos jornais
Dá de comer ás crianças ergue escolas e hospitais
Cura as doenças e distribui vacinas
Dá carrinhos aos meninos e bonecas ás meninas
E dá-lhes paz e alegria
Ao idoso sozinho em casa, arranja-lhe boa companhia
Já sei que só ofereces aos meninos bem comportados
Mas alguns portam-se mal e dás condomínios fechados
Jactos privados, carros topo de gama importados
Grandes ordenados, apagas pecados a culpados
Desculpa o pouco entusiasmo, não me leves a mal
Não percebo como é que isto se tornou um feriado comercial
Parece que é desculpa para um ano de costas voltadas
E a única coisa que interessa é se as prendas estão compradas
E quando passa o Natal, dás á sola?
Há quem diga que tu não existes, quem te inventou foi a Coca-Cola
Não te preocupes, que eu não digo a ninguém
Se és Pai Natal é porque és pai de alguém
Para mim Natal é a qualquer hora, basta querer
Gosto de dar e não preciso de pretextos para oferecer
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos Paz e Amor e nem é preciso embrulhar
Muita Felicidade, saúde acima de tudo
Se puderes dá-nos boas notas com pouco estudo
Desculpa o incómodo e continua com as tuas prendas
Feliz Natal para ti e já agora baixa as rendas.

Boss AC, álbum Ritmo Amor e Paz

Passar a(s) palavra(s)

palavras não existem
fora da nossa voz as
palavras não assistem
palavras somos nós
(Gastão Cruz)

sábado, dezembro 20, 2008

Jorge Vieira: «cada desenho um amigo»

Jorge Vieira
(1922-1998)

O Município de Alvito associando-se à Homenagem a Jorge Vieira, inaugura hoje, dia 20 de Dezembro, pelas 16 horas, na Sala Polivalente do Centro Cultural de Alvito, a exposição «Cada Desenho um Amigo».

Não fora a Noémia, companheira de vida e paladina incansável na divulgação da sua vida e da sua obra, e Jorge Vieira estaria hoje, muito possivelmente, completamente silenciado pela indiferença e pelo olvido dos portugueses, tal como já está pelas instituições culturais do seu país. País que lhe deve não só o renovo da escultura portuguesa no após Segunda Guerra Mundial como a formação de uma pleiade de jovens artistas plásticos que, sob a sua influência, continuam ainda hoje a honrar a nossa escultura dentro e fora do país. Um Mestre que fez escola e deixou discípulos.

Quando se perfazem 10 anos da sua morte (23 Dez 1998) esta é a homenagem da Noémia e dos Amigos. A única homenagem pública que se conhece. Uma homenagem dos afectos que são a seiva e a raíz deste projecto. Por isso, parafraseando Zeca Afonso, chamou-se-lhe «Cada Desenho um Amigo». Por que todos os amigos trouxeram para a festa os desenhos que, generosamente, ao longo da vida o Jorge lhes ofereceu.

Depois da Artecontempo e do Museu Municipal Prof Joaquim Vermelho, em Estremoz, é agora a vez de Alvito receber esta exposição itinerante. O Alentejo a fazer juz ao amor e dedicação que Vieira sempre lhe dedicou.

Não temos dúvidas: esta é a homenagem que o Jorge gostaria de ter. Por ser feita por quem o ama. Não são necessárias outras. Um dia a História da Arte Portuguesa dar-lhe-á o valor e o destaque que a sua Obra merece.

Em Beja encontra-se o Museu Jorge Vieira que contém grande parte da sua obra. Será que se esqueceram de assinalar esta data?!

sexta-feira, dezembro 19, 2008

José Dias Coelho: uma vítima da PIDE





No dia em que se assinalam 47 anos da sua morte queremos lembrar José Dias Coelho, o escultor e militante comunista que em 1961 foi brutalmente assassinado a tiro, pela PIDE, na Rua da Creche, em Alcântara. Tinha apenas 38 anos. Deixou duas filhas: a Teresa e a Margarida.
O artigo aqui exposto foi publicado no Público de 18 de Dezembro de 2005, da autoria de São José Almeida, com base em entrevista minha.
Para que a Memória se não dilua no tempo.


NOTA: o artigo contém dois erros que pretendo corrigir. 1 - Onde se refere a Ordem dos Arquitectos, trata-se da Ordem dos Engenheiros. 2 - Onde se refere que a Associação de Estudantes de Belas-Artes foi eleita em 1946, na verdade tratou-se da eleição de uma pró-Comissão Académica, mas em 1949; tinha por objectivo tratar dos estatutos e do processo de legalização da Associação de Estudantes. Os estatutos foram amplamente discutidos em reuniões de alunos e até sancionados pela direcção da escola mas, lamentavelmente, nunca se conseguiu que fossem aprovados pela Direcção-Geral do Ensino Superior e das Belas-Artes que tutelava aquele estabelecimento de ensino.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

António Simões Abreu: lembrando um bom amigo



António Horácio Simões de Abreu
(2.Maio.1923 - 14.Dez.2005)
Morreu em Dezembro de 2005, no Hospital de Curry Cabral, escassos dias após o presidente Jorge Sampaio o ter distinguido com a Ordem da Liberdade. E passados oito meses, em Agosto de 2006, morria a querida Regina, a companheira que não soube nem quis viver sem ele.
Tive a sorte de me terem distinguido com a sua amizade e de com eles conviver nos tempos finais das suas vidas. A privilegiada fui eu. Com eles convivi cinco anos que valeram por uma vida inteira. Dois seres superiores, de extraordinária humanidade e um repositório vivo de memórias e vivências de luta contra o fascismo. Uma família de afectos que sempre souberam transmitir. Por mim, adorava ir àquela casa na Av São João de Deus, tocar à campainha do nº 31 e ouvir a Luna a ladrar como sempre fazia, fosse com quem fosse, até entrarmos e lhe darmos miminhos para depois se enroscar no aconchego do sofá junto da dona. Adoravam-se, o casal Abreu. Mesmo quando rezingavam. Fora toda uma vida de grande companheirismo, de grandes dificuldades, de grandes lutas, mas de muito amor e cumplicidade.
O António muito discreto, sempre entretido nas suas leituras ou palavras cruzadas, sempre atento às notícias da televisão, frequentemente a mandar-nos falar mais baixo para não perder pitada. Era ele quem diariamente fazia as compras e levava a Luna a passear. A Regina, mais faladora, adorava conversar sobre os filhos, os netos, as histórias com a PIDE quando lhes invadiam a casa, a vida. Vida que ela transpirava por todos os poros. Mesmo depois de ter sido sujeita a uma operação delicadíssima a um tumor no cérebro. Mas a força vital era de tal ordem que se recompôs e, praticamente até à morte do António, nunca quis ninguém permanentemente lá em casa para ajudá-la. Com um sentido de humor notável, adorava uma boa partida, uma boa gargalhada e eu própria cheguei a ser uma das «vítimas» dos imprevisíveis telefonemas que fazia disfarçando a voz. Tinha uma mão para a comida como nunca vi igual e adorava cozinhar, tanto como que gostassem dos seus cozinhados.
A família era a prioridade maior dos Abreus. Quando conseguiam reunir os três filhos e as respectivas proles sentiam-se abençoados e felizes. Habituei-me aos seus afectos. Senti-me orfã quando partiram. Não há vez nenhuma que passe pela avenida de Roma que me não lembre deles e  sinta desejos de ir bater-lhes à porta na ilusão de que me respondam e deixem entrar.
António Simões Abreu foi um firme militante comunista desde os 18 anos. Um homem íntegro que cedo ficou orfão, terminou o curso de engenharia com muitas dificuldades, e pelas suas ideias foi impedido de ensinar no Instituto Superior Técnico, onde chegou a ser assistente, ou em qualquer outra escola pública.
Dirigente do MUD Juvenil, pertenceu à sua Comissão Central (com Areosa Feio, Maria Fernanda Silva, Júlio Pomar, Mário Soares, Octávio Pato, Óscar dos Reis, Rui Grácio e Salgado Zenha). Foi preso pela PIDE várias vezes e, no serviço militar, sofreu a humilhação de ser despromovido e enviado para Penamacor como soldado. Casou em Caxias, em 1947 quando estava preso. O primeiro filho nasceu-lhe tempos depois e só muito a custo foi autorizado a visitá-lo na maternidade, sempre escoltado pelos agentes da PIDE e obrigado a pagar do seu bolso os transportes, como fazia questão de sublinhar.
O casal teve três filhos, o António, o Luis e o Rui, e a família atravessou momentos difíceis sob o regime de Salazar, vivendo das explicações particulares que Abreu dava em casa. Brilhante matemático, só foi reintegrado no ensino universitário, como merecia, pouco antes do 25 de Abril.
A sua acção política na Oposição Democrática foi especialmente importante aquando das eleições presidenciais de 1958. A ele se devem as diligências com vista a uma candidatura abrangente, primeiro junto de Cunha Leal e, na recusa deste, de Arlindo Vicente. Foi o homem-chave das negociações que levaram à unificação da candidatura oposicionista em Humberto Delgado, com quem estabeleceu uma relação política e pessoal de grande respeito e proximidade.
Acreditou sempre que, não tivesse Humberto Delgado tomado a decisão errada de se exilar, o 25 de Abril teria sido antecipado de alguns anos.

JC

terça-feira, dezembro 16, 2008

Pavel não esteve envolvido no assassinato de Trotsky

O jornal Público de hoje, na rubrica Cartas ao Director, publica um esclarecimento de Zínia Rodriguez, filha de Francisco de Paula Oliveira / Pavel / Antonio Rodriguez, sobre as insinuações ultimamente vindas a público acerca do possivel envolvimento do pai no assassinato de Trotsky. Por se tratar de um documento da máxima importância para a clarificação do percurso político-social de Pável, aqui o transcrevemos.


«Em relação ao artigo "O 'olhar triste' de um antigo herói do comunismo", de 21 de Novembro, envio, em nome da família de Pavel, a seguinte resposta para reposição da verdade.
Pavel não esteve envolvido em qualquer tentativa ou acção para assassinar Trotsky no México. Qualquer insinuação a esse respeito é completamente especulativa e infundada.
A História faz-se com factos, documentos claros e investigação da verdade directamente nas fontes.  As pessoas que tiverem dúvidas podem consultar no México a informação existente no Museu Trotsky. 
 
O assassinato de Trotsky está perfeitamente esclarecido. Os nomes dos seus autores são conhecidos.
Pavel chegou ao México em meados de 1939. Trotsky foi assassinado em 1940. Nessa época Pavel já tinha sido afastado pela Internacional Comunista e não tinha qualquer relação com Moscovo. Trabalhava no seu ofício de serralheiro mecânico para poder sobreviver, ao mesmo tempo que ia escrevendo em jornais. Só posteriormente conheceu e se aproximou de intelectuais mexicanos como David Alfaro Siqueiros.

O seu trabalho como jornalista era essencialmente de repórter sobre a situação dos indígenas, para os ajudar a obter melhores condições de vida. E começou a escrever sobre arte anos depois.

Não mais retomou uma actividade partidária, mas continuou a lutar a nível social e cultural, para dar voz às pessoas que não a tinham e ajudar à construção de uma sociedade mais justa.

A vida de Pavel no México é clara e transparente. Para os que quiserem saber a verdade.

Por último, aproveito para informar que, no próximo ano, o Museu Trotsky, na Cidade de México, vai promover uma homenagem à memória de Pavel. Aliás, o director do Museu Trotsky foi aluno e grande amigo de Pavel.

Como representante de minha mãe e meus irmãos,

Zinia Rodriguez (filha de Pavel)»

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Anulado Debate de Hoje

Devido a indisponibilidade do Dr Jorge Sampaio, que alegou compromissos em Coimbra, foi anulado o debate programado para hoje, dia 15 de Dezembro, pelas 21 horas, no Hotel Zurique.
Sendo embora uma figura de peso, a ausência de Jorge Sampaio não deveria invalidar a presença de todos os outros intervenientes.
Lamentamos que a organização se tenha decidido pela anulação do evento.
Aos leitores deste blog pedimos desculpa.
Adenda em 16.Dez.: A Comissão Organizadora informou-nos que o colóquio apenas foi adiado para data a confirmar.

domingo, dezembro 14, 2008

Crise, oportunidade de viragem. Para onde queremos ir?

Segunda, 15 Dez. - 21 H
Hotel Zurique

Rua Ivone Silva (trazeiras Hosp. Curry Cabral)

Participação de
António José Seguro, Florival Lança, Jorge Sampaio e Ricardo Pais Mamede

Debate animado por
Ulisses Garrido



De extensão e profundidade ainda não totalmente conhecidas, a presente crise foi já descrita como a “mais grave desde a grande depressão”. Uma das suas novidades é, não só a de se situar bem no centro do capitalismo financeiro mundial, os EUA, mas também a de se ter já estendido àEuropa e ameaçar contagiar o resto do mundo.
A crise põe em evidência os problemas ligados à desregulação dos mercados, imagem de marca do capitalismo neoliberal em que vivemos desde os anos 1980. Todavia, seria um erro grosseiro reduzir os problemas do capitalismo neoliberal ao mau desempenho e má regulação do sector financeiro. A crise tem e terá ainda mais consequências económicas e sociais.
Por exemplo, o aumento das desigualdades à escala mundial; o crescente número de pessoas desempregadas a sobreviver com o apoio de subsídios; o crescente aumento do número de pessoas que, apesar de trabalharem, têm que ser apoiadas por prestações sociais.
Desejam alguns que a crise seja amortecida com uma socialização dos prejuízos pela via da intervenção do Estado que deixa tudo o resto na mesma. Mas esta crise pode ser também uma oportunidade de viragem no sentido de um outro sistema mais justo, ou (pelo menos) um capitalismo mais regulado, com uma maior e melhor distribuição dos rendimentos, em suma, no sentido de políticas mais alinhadas à esquerda. Muitos, como nós, consideram porém que o sentido das mudanças que se perspectivam dependerá sempre das respostas políticas das forças de esquerda e da capacidade de se encontrarem pontos de contacto entre elas.
Daí a ideia de promovermos este debate.

Promotores:
Almerinda Teixeira, Ana Santos, André Freire, António Avelãs, António Pinto Pereira, Carlos Brito, Carlos Galiza, Cláudio Teixeira, Elísio Estanque, Henrique de Sousa, Isabel do Carmo, João Bau, João Lourenço, João Rodrigues, José Castro Caldas, Miguel Graça, Nuno David, Orlando Almeida, Paulo Fidalgo, Paulo Jacinto, Ricardo Pais Mamede, Silva Alves, Ulisses Garrido, Vitor Sarmento, Viriato Jordão

sábado, dezembro 13, 2008

Por um novo ciclo da esquerda

Fórum 14 de Dezembro
Faculdade de Letras / Aula Magna

Apelo da

Comissão Promotora

Democracia e serviços públicos
Aula Magna, Lisboa, 14 de Dezembro

A crise financeira e as graves dificuldades económicas sentidas no mundo inteiro dão uma medida da irresponsabilidade da especulação e das políticas que têm conduzido ao desemprego, à precariedade e à perda dos salários.

Os signatários consideram que essas políticas devem ser discutidas e combatidas, porque constituem ataques à democracia.

A defesa dos valores democráticos da justiça social é uma ponte de união entre muitos homens e mulheres que, a partir de visões distintas, se comprometem com a política da solidariedade.

Assim, para criar um espaço de pluralidade e de discussão livre das respostas concretas a esta crise de civilização, os signatários organizam no dia 14 de Dezembro um fórum aberto sobre Democracia e Serviços Públicos.

Estão convidados todas e todos quantos queiram participar na análise de alternativas para a educação, os direitos do trabalho, a saúde e as cidades.

Perante a emergência social e como referiu Manuel Alegre na sua intervenção no Teatro da Trindade em Junho deste ano, "é preciso quebrar tabus".

O fórum da Aula Magna será esse espaço de reflexão aberta de quem entende que a defesa de serviços públicos modernos e de qualidade é um valor essencial da responsabilidade da República.
A Comissão Promotora

Painéis de debate (11.00 e 14.30)- Faculdade de letras

11.00 Economia - Moderador: José Maria Castro Caldas

Oradores: João Rodrigues, André Freire, Alexandre Azevedo Pinto, Jorge Bateira

Educação - Moderador: Paulo Sucena

Oradores: Cecília Honório, Nuno David, José Reis, Jorge Martins

14.30 Cidades - Moderador: Helena Roseta

Oradores: Manuel Correia Fernandes, Pedro Soares, Pedro Bingre, Fernando Nunes da Silva

Trabalho - Moderador: Manuel Carvalho da Silva

Oradores: Jorge Leite, Elísio Estanque, Mariana Aiveca

Saúde - Coordenador: António Nunes Diogo

Oradores: Cipriano Justo, João Semedo, Mário Jorge, Manuel Correia da Cunha

Sessão final (17.00) - Aula Magna

Oradores: Ana Drago, Maria do Rosário Gama, Manuel Alegre

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Nos 60 anos dos Direitos Humanos


10.Dezembro.1948
as Nações Unidas aprovam
a
Declaração Universal
dos Direitos Humanos
No final da Segunda Grande Guerra as nações empenhadas no processo da pacificação aprovaram a Declaração Universal dos Directos Humanos, como um Ideal a atingir por todos os povos e todas as nações, no sentido de que jamais se repetisse o Horror do Holocausto e das vítimas indefesas da perfídia dos homens. Lamentavelmente, os homens e as nações ainda se não humanizaram. Aqui fica o texto integral. Para que a Memória registe e perdure.

Preâmbulo:
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos humanos conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração humanos; Considerando que é essencial a protecção dos direitos humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão; Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais humanos, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla; Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais; Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso: A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo 1° Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2° Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3° Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4° Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5° Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Artigo 6° Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica.
Artigo 7° Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8° Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo 9° Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo 10° Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
Artigo 11° Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
Artigo 12° Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
Artigo 13° Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14° Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15° Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16° A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado. Artigo 17° Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18° Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19° Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
Artigo 20° Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios, públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22° Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.
Artigo 23° Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24° Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.
Artigo 25° Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma protecção social.
Artigo 26° Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz. Aos pais pertence a prioridade do direito de escholher o género de educação a dar aos filhos.
Artigo 27° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28° Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
Artigo 29° O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade. No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30° Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.
texto retirado daqui
imagem retirada daqui

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Pintura e Desenho de Graça Marto

Hoje, 3 Dez. - a partir das 18 h
Dias úteis, das 10 - 19 H
até 19 Dezembro
Espaço PT - R Andrade Corvo 8 - Lisboa
Poemas por
José Jorge Letria e Jorge Castro
Graça Marto é licenciada em pintura pela Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto. Nasceu em Cambarinho, Vouzela, e fez o liceu no Rio de Janeiro onde viveu dos 14 aos 22 anos. A par do ensino, tem feito inúmeras exposições individuais e colectivas em Portugal Continental, Açores e Madeira. No estrangeiro, está representada em diversas colecções, principalmente na Bélgica e no Luxemburgo, tendo participado, também, em exposições em Espanha, Brasil, Moçambique, Macau e Estados Unidos.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Hoje é o meu dia

Esta a primeira foto que conheço minha.
Tinha quatro anos e acabava de perder a minha mãe.
Assustadoramente assustada
com o súbito vazio que me atingira.
foi demasiado cedo
essa solidão sozinha
esse frio agreste
... para sempre
em mim

quarta-feira, novembro 26, 2008

Casa da Achada - Centro Mário Dionísio

EXPOSIÇÃO 28 Novembro das 15h - 20h
LEILÃO d'ARTE, 29 Novembro, a partir das 15h
Todo o produto do leilão reverterá para o arranque do
Centro Mário Dionísio

A Casa da Achada já foi adquirida pela família.
O projecto é do Arqtº Hestnes Ferreira.
Os artistas plásticos doaram as suas obras.

Se todos fizermos um pequeno esforço em breve teremos o espólio de Mário Dionísio à disposição dos amantes da arte e da cultura!

domingo, novembro 23, 2008

No 1º Colóquio sobre «Pavel»/Antonio Rodríguez

(Portugal 1908-México 2008)
Com a presença da sua filha, Zínia Rodríguez, realizou-se ontem um colóquio de homenagem a Francisco Paula de Oliveira, «Pável», António Rodriguez, na Biblioteca-Museu República e Resistência. Deixo-vos aqui a comunicação por mim apresentada:


PÁVEL/ANTONIO RODRIGUEZ, O HOMEM DE CULTURA

«Lisboa, a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido. (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho» (Pável, carta a Stella Piteira Santos, 28.12.1988)
Quando em Outubro de 197, a Fundação Calouste Gulbenkian acolhe a exposição "Máscaras Mexicanas" a Secretaria de Estado da Cultura patrocinou a vinda de Antonio Rodríguez a Lisboa para proferir três conferências sobre arte mexicana. Sabia-se que António Rodríguez e «Pavel» eram a mesma pessoa desde o verão de 74 quando a revelação foi feita por Francisco Ferreira na revista do Expresso. Sabia-se que o mítico dirigente comunista dos anos trinta se refugiara no México, adoptara uma nova identidade e ascendera às elites culturais daquele país, sendo considerado o maior especialista em Muralismo Mexicano. Conhecia-se ainda o entusiasmo com que acolhera a revolução do 25 de Abril e como desejava ardentemente voltar ao seu país.
Quando a 3 de Novembro proferiu a primeira das suas conferências na Fundação Gulbenkian, dissertando brilhantemente sobre a estética muralista, essa arte que os pintores mexicanos criaram com o povo e para o povo, se por um lado se comprovou a inteligência superior do antigo operário arsenalista por outro, sobressaiu a dificuldade que tinha já em lidar com a língua portuguesa.
Antonio Rodríguez teria oportunidade de apresentar as suas desculpas pelo facto — mal recebido por alguns que facilmente se distraem do essencial — de se expressar em castelhano na sua pátria, quando afirmou emocionado, mas com elegância e lucidez, num jantar em sua honra: «pode-se falar mal uma língua estrangeira, mas não se pode falar mal a nossa própria língua»[i].
A verdade é que Francisco de Paula Oliveira, cidadão português, viveu em Portugal até aos 30 anos, sendo os últimos 10 já na clandestinidade, como «Pavel». O restante mais de meio século de vida deste homem excepcional, que viria a falecer em 1993, aos 84 anos, foram vividos pelo cidadão mexicano António Rodríguez, com família constituída na sua segunda pátria, perfeitamente inserido na sociedade do país que o acolheu, como assume, ao confessar: «após a perturbação dos primeiros tempos, liguei-me imediatamente ao povo mexicano: estudando a sua história, a sua cultura, a sua arte e fazendo meus os seus problemas.»[ii]
Entre a data da chegada àquele país e a data da sua primeira vinda a Portugal (1976) mediaram praticamente 40 anos, durante os quais pouco ou nada falou português, enquanto o castelhano se tornava numa ferramenta de trabalho imprescindível para a profissão da escrita, que escolhera.
Mas o que importa salientar é que a cultura portuguesa esteve sempre presente na vida de António Rodríguez, nos seus hábitos pessoais (em sua casa comia-se bacalhau, ensinava canções portuguesas aos filhos) e também na sua obra, onde abundam as referências culturais portuguesas, como em «El Quijote, mensaje oportuno» ou no opúsculo «Saudade», escrito após a primeira visita a Lisboa.
Profundamente reconhecido ao país que o acolheu, dirá então, numa entrevista: «cheguei [ao México] com 31 anos, pronto a renascer e estou muito contente por ter encontrado um país difícil, cheio de problemas, que me deu a possibilidade de realização como homem e, dentro das minhas limitações, de o servir também» porque, afirma mais adiante, «o que interessa é lutar, não importa o sítio».[iii]
Estivera duas semanas em Lisboa. Tinha cerca de 70 anos e na altura escrevia em vários periódicos, era professor de jornalismo na Universidade Nacional Autónoma, fundara e dirigia uma revista cultural de grande prestígio editada pelo Museu Tecnológico da Cidade do México, (do qual fora director durante 11 anos) tinha vários ensaios entre mãos e recebera já vários prémios literários dentro e fora do país. Era ainda promotor e consultor da prestigiada e internacionalmente conhecida Galeria de Arte Estela Shapiro.
Ao assinalarmos os cem anos do seu nascimento (29.10.1908), uma pergunta se nos impõe: como foi possível a alguém que nasceu numa família humilde, começou a trabalhar aos 11 anos, foi operário do Arsenal da Marinha, sem quaisquer estudos académicos, autodidacta, tornar-se na grande referência cultural que todos reconhecem, mercê apenas do seu esforço pessoal? Quais as motivações e as influências que moldaram o seu carácter e o seu percurso de homem e de esteta?
Em 1988, ao evocar a sua cidade natal, que há pouco visitara pela segunda e última vez, «Pável» refere-se a «Lisboa, a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho»[iv], fornecendo-nos, assim, a chave para a compreensão do fenómeno Pavel/António Rodríguez.
Se, como ensina Bento de Jesus Caraça, «a vida de todo o homem é uma construção permanente, feita das acções recíprocas que entre ele e o meio se desenvolvem»[v], podemos então dizer que os primeiros 30 anos de vida de Francisco de Paula Oliveira/Pavel terão sido determinantes para a formação cultural e cívica do futuro Antonio Rodríguez, tal como o «renascimento» mexicano a que se dispôs, e que não é mais que a integração e a sintonia com os homens, a arte e a sociedade do seu tempo e lugar: o Homem de Cultura e de Acção, em que veio a transformar-se, forjou-se nestas duas componentes temporais de uma mesma personalidade, cruzada por múltiplas vivências e receptiva ao seu tempo.
Para os jovens da geração de Pável, nascidos com a República e envolvidos socialmente, a Educação e a Cultura eram causas dominantes e objectivos de vida. A educação e a cultura como formas de realização pessoal e factores de progresso da sociedade, impunham-se-lhes como aquisição paralela à da consciencialização política.
Quando Pavel afirma que «o Alfeite era uma autêntica universidade»[vi], está a dizer-nos que os jovens operários arsenalistas, de uma maneira geral, sentiam a cultura como um dever de classe e tudo faziam para se cultivarem, nomeadamente apostando no convívio, na camaradagem e na solidariedade, na troca de conhecimentos entre eles, o que era, e é também uma forma rica e generosa de aprendizagem. Atentemos nas palavras de Pavel: «no Arsenal da Marinha fui, aliás como quase todos os meus colegas, um estudioso. O Arsenal funcionava um pouco como uma elite operária e foi aí que tive contacto com a literatura, com a filosofia e com os grandes problemas do nosso tempo. Os idiomas russo e francês foi lá que os aprendi e também foram esses contactos que me levaram a frequentar, à noite, escolas industriais e comerciais apenas para receber as aulas de literatura».[vii]
É fácil perceber que a estes jovens não interessava uma cultura enciclopédica mas sim uma cultura universalista, que passava por conhecer e assimilar o pensamento daqueles a quem Bento Caraça chamou as «grandes figuras morais contemporâneas» como Romain Rolland, Maximo Gorki, Malatesta, Guerra Junqueiro, Émile Zola, Dostoievsky, Victor Hugo, Anatole France, Pasteur, Einstein, Tolstoi,[viii] mas também Durer, Camões, Cervantes e muitos outros que a Universidade Popular Portuguesa, sob o lema «A ciência e a Cultura ao alcance de todos», tanto se empenhou em divulgar nos anos 20/30, em acções concertadas com os sindicatos (entre eles, o dos arsenalistas) e outras agremiações populares, até se ver cerceada pela censura e ficar restringida às próprias instalações.
É muito provável que Pavel e Caraça tenham contactado em diversas ocasiões, nomeadamente no Sindicato dos Arsenalistas. Mas quando em 1937 Pável regressa da União Soviética e dirige o Partido, vai obrigatoriamente ter contactos com Caraça, directamente, ou através de Alberto Emílio de Araújo, membro do Secretariado. E, fundamentalmente, com o seu pensamento cívico-político-cultural, assimilando essa «nova cultura política»[ix], como lhe chamou Tengarrinha, ou seja, a política de unidade então amplamente ensaiada com a Frente Popular Portuguesa, constituida em Outubro de 35 e extinta em 38, e para a qual o contributo do Prof. Caraça foi decisivo.
Ainda no âmbito do movimento frentista Pavel contacta com diversos intelectuais fora do nosso país, a acreditar numa intervenção que faz na reunião da IC em Abril de 36, onde refere: «em Paris... falei com um intelectual que é considerado o maior matemático que temos em Portugal. Ele propôs-se aderir ao Partido Comunista porque diz que é a única força que luta contra o fascismo».[x] Tudo indica tratar-se de Aniceto Monteiro o matemático que em 1936 se doutorou em Paris, no Instituto Henri Poincaré, com o estudo "Sur l'Activité des Noyaux de Freedholm”.
Conforme conta na sua autobiografia, foi nas enfermarias da prisão e nos sanatórios por onde passou, sobretudo no Caramulo, onde permaneceu um ano, devido a problemas pulmonares que só curou na União Soviética, que Pável estudou os teóricos marxistas e aprendeu a língua russa.
Na célebre conferência «A Cultura Integral do Indivíduo», de 1933, Bento de Jesus Caraça enunciara a noção de Homem Culto, e passamos a citar:
"O que é o homem culto? É aquele que: 1º — Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence; 2º — Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano; 3º — Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida" [xi]
Este enunciado veio a tornar-se no paradigma de sucessivas gerações. Pavel, para além de um jovem muito estudioso e de grande curiosidade intelectual, era um leitor compulsivo e amante das artes. Maria Nogueira Soares, sua primeira companheira e com quem tem um filho em 1928, revelou à revista Cambio16, que já nessa altura «todo o dinheiro que apanhava era para comprar livros»[xii]. Por sua vez, Pedro Rocha, um jovem camarada com quem partilha a direcção e organização das Juventudes Comunistas, refere nas suas memórias: "às vezes, nas horas vagas [da actividade política], líamos algumas páginas de bons autores. Anatole France era um dos autores predilectos de Pavel que conhecia bastante bem o francês e lia, em voz alta, passagens de Thaïs e da Ilha dos Pinguins, no original. Eram horas de distracção para os nossos espíritos bem atribulados"[xiii]. Também Edmundo Pedro, que o conheceu ainda muito jovem, dá o seguinte testemunho: «interessava-se pela história, pela literatura, pela pintura, pela música. Ele, como outros operários do Arsenal, assistia naquele tempo, regularmente, às temporadas de ópera do Coliseu dos Recreios (…) era dotado não só de uma brilhante inteligência como de uma desmedida vontade de se cultivar»[xiv] Carolina Loff, que com ele conviveu na União Soviética refere-se-lhe como «um autodidacta de raras capacidades. Um homem extremamente culto» que «passava o tempo a estudar e a ler». [xv]
A influência da literatura em Pavel projecta-se na sua própria vida. A admiração por Emile Zola fá-lo dar ao filho, nascido em 1928, o nome Germinal, título de um dos livros do escritor francês; enquanto a que nutre por Anatole France não pode desinserir-se da atitude digna e corajosa que este tomou no caso Dreyfus, colocando-se ao lado de Zola e devolvendo ao governo francês a sua Legião de Honra, quando a mesma foi publicamente retirada àquele escritor. Por sua vez, será ao protagonista de A Mãe, de Máximo Gorki, que vai buscar o pseudónimo «Pavel», que adopta para a vida clandestina.
«Sempre utilizei o meu tempo livre para visitar museus, para tomar contacto com outras culturas e outros interesses»[xvi], diz. Os dois anos que passou na União Soviética tiveram uma importância extraordinária no seu desenvolvimento cultural, pois, segundo palavras suas, foi-lhe dado «conhecer a literatura, a pintura e a cultura russas» e, como «dedicava grande parte do seu tempo ao estudo, em particular de obras de arte», e frequentemente encontrava interlocutores cultos com quem podia conversar, fácil é perceber como se lhe foram desvendando horizontes até aí interditos, como, aliás, estavam interditos à generalidade dos portugueses, pelo grande atraso das nossas artes.
Se somarmos a isso as visitas ao Prado quando visitou Madrid em 1932, e os meses que passa em Paris com Álvaro Cunhal, em 1936, e que aproveita para — e, mais uma vez, o citamos — «ir ao Louvre, esse verdadeiro templo do conhecimento»[xvii], aprofundando esta área de interesse que se lhe impõe cada vez com maior acuidade, podemos concluir que, no regresso a Portugal, Pavel estava já a caminho do Homem de Cultura que mais tarde veio a ser. Muito próximo, sem o saber, do futuro Antonio Rodríguez.
«Escritor, jornalista, combatente social, professor e crítico de arte» — assim é referido Antonio Rodríguez (Portugal 1908, México 1993) no Dicionário dos Escritores do México, um cidadão português naturalizado mexicano. Ele não ficou para a História como o cidadão espanhol, do qual se viu obrigado a tomar o nome em 39. Rodríguez nunca deixou de ser português, o jovem revolucionário que chegou ao México com vontade de «renascer» mas sem abdicar de si. Esta postura reflecte a verticalidade de um homem que confessa ter-se mantido «fiel aos princípios da juventude» que nunca esqueceu as suas raízes e que «voltaria a fazer tudo igual»[xviii].
Do conjunto de obras que o dicionário enuncia, apenas uma nos foi dado ler: «El Quijote, mensaje oportuno», um pequeno/grande livro editado em 1947, que recebeu o primeiro prémio de Ensaio e teve, desde então, inúmeras edições. Trata-se de um livro essencialmente didáctico, imbuído dos mais nobres ideais de paz e concórdia entre os homens e que, por isso mesmo, o México fez editar em livro de bolso, na Biblioteca Jovem, uma colecção patrocinada pelo Fundo de Cultura e destinado à juventude daquele país. Nele, o autor mostra a mensagem profunda que se oculta sob a aparência superficial e galhofeira do livro. A esperança numa sociedade nova que os protagonistas colocam no passado, mas que só o futuro pode concretizar. Uma sociedade anticapitalista, de nobres ideais e onde os Homens se aceitem e solidarizem. Uma sociedade justa.
Aqui, no seu país, Antonio Rodríguez é desconhecido. As fontes de que dispomos são nulas. Apenas existe, na biblioteca de arte da Fundação Calouste Gulbenkian, a Historia da Pintura Mural no México — El Hombre en Llamas — uma oferta sua, em 76. Trata-se de uma obra monumental, de excepcional fôlego, que a Gulbenkian teve a amabilidade de nos emprestar e se encontra na nossa exposição. Uma preciosidade para os investigadores que se interessam pela arte do muralismo, uma expressão que entre nós não tem sido valorizada.
Os restantes livros, alguns também aqui expostos, estão nas mãos de particulares, inacessíveis, portanto, a quem pretenda conhecer o pensamento e a arte de Antonio Rodríguez. Seria de extrema importância para a cultura portuguesa que na Biblioteca Nacional de Portugal existissem os seus livros. E daqui faço um apelo à família Rodríguez, a sua filha Zinia, para que, em conjunto com aquela instituição portuguesa, tudo faça para trazer alguns desses livros para o nosso país. Um apelo igualmente ao Ministro da Cultura: o pensamento de Antonio Rodriguez tem que ser dado a conhecer aos portugueses. Há que investir nele. É uma questão de cultura e de justiça.
De justiça seria também que os editores portugueses apostassem na tradução e edição dos seus livros. À nossa historiografia artística fazem falta os estudos de Rodríguez na área. Como fazem falta os seus ensaios, os seus estudos históricos e antropológicos, o pensamento universalista que sempre o animou e fez ombrear com os que sofrem e lutam numa inequívoca opção social. E por que não as crónicas e artigos anti-salazaristas que enquanto jornalista nunca deixou de escrever e que o levou a figurar no index da embaixada de Portugal no México?
Neste colóquio iremos ouvir o próprio Pavel/A. Rodríguez numa gravação feita em 1988 quando pela segunda e última vez esteve em Portugal. Iremos escutar uma autêntica lição sobre a Arte Mural mexicana. Dir-nos-á da forma como esta se lhe revelou. Como se surpreendeu ao encontrar nas paredes dos edifícios oficiais de um país capitalista as lutas, as dores e as alegrias dos operários e camponeses mexicanos. E de como o seu sentido estético e humanista se solidarizou de imediato com essa expressão artística. Até então, a arte popular era ignorada. Os historiadores locais não a valorizavam. Foi Pavel, um ser humano de rara sensibilidade e com uma base ideológica que o predispunha a isso, quem primeiro a entendeu. Ele foi o teorizador e o arauto de uma estética que exaltava o povo. Valorizou-a e divulgou-a. Fez com que os mexicanos se orgulhassem dela. Mas, melhor que eu, disto vos falará o Mestre Antonio Rodríguez.
Quando em 1976, uma jornalista lhe perguntou se não tinha por vezes "saudades do Pavel", respondeu: «Não. Porque o que interessa é lutar, não importa o sítio. E sempre há algo para defender e tempo para militar. Você sabe que escrever implica isso».[xix]
Mas sentia saudades, sim. Não fora impunemente que se reencontrara com Francisco de Paula Oliveira/Pavel e o seu passado. A saudade, esse sentimento tão genuinamente português que, agora mais que nunca se lhe impunha, leva-o a reflectir sobre a fenomenologia saudosista e a escrever um pequeno livro – Saudade – , que oferece aos amigos no Natal de 1978 «como uma mensagem de esperança». Essa mesma «esperança da qual a Saudade tanto se alimenta»[xx], numa dualidade simultaneamente amarga e doce como dual e agridoce foi a vida e a pessoa de Pavel/Antonio Rodriguez.
Portugal, o país deste Homem notável, desconhece-o. É obrigatório conhecê-lo.

[i] O Jornal 26.11.76[ii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7[iii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7[iv] AR, carta a Stella Piteira Santos, 28.12.1988[v] BJC, carta a Carlos Amaro, 3 Set 1939[vi] AR, Sábado 19.11.1988, p.36[vii] AR, Sábado 19.11.1988, p.36[viii] BJC, entrevista a Republica 24.3.1933[ix] JM Tengarrinha, centenário de BJ Caraça, 2001[x] ICS – F. 495, OP.18, D.1099 / AHS. DOC. 110, MAÇO 30, CAIXA 2[xi] Bento de Jesus Caraça, Conferências e Outros Escritos, 1978, p.51[xii] Revista Cambio16, de 4.10.1993[xiii] Pedro Rocha, Escrito com Paixão, 1991, Caminho, p. 39[xiv] Edmundo Pedro, Memorias, p.99[xv] Revista Cambio16, de 4.10.1993[xvi] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7[xvii] AR, Sábado, 19.11.1988[xviii] AR, Sábado, 19.11.1988[xix] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7[xx] AR, Saudade, Cidade do Mexico, edição de autor, 1977/78

sexta-feira, novembro 21, 2008

No centenário de «Pável» / Antonio Rodriguez


Amanhã, 22 de Novembro, às 16 horas, no Museu Republica e Resistência (cimo Rua da Beneficência), vai ser homenageado este lutador antifascista, vítima da ditadura de Salazar, que, no México onde se exilou, veio a ser um prestigiado professor, escritor e critico de arte, especialista em Muralismo.
Através de gravação áudio, ele próprio nos dirá desse percurso

domingo, novembro 16, 2008

João Abel Manta: Caprichos e Desastres

É tão raro podermos ver as obras deste artista, que podemos considerar um autêntico privilégio esta Exposição, precisamente no ano em que Mestre João Abel Manta completa 80 anos de vida e 60 que foi preso pela PIDE.

18 Nov, 3ª feira, 19 horas

domingo, novembro 02, 2008

A tanto chegava a abjecção!

(uma visita aos arquivos da PIDE/DGS)
Ali estava ele na ampla sala de leitura da nova Torre do Tombo, à espera que lhe trouxessem os documentos requisitados. Consultava, finalmente, o seu processo nos arquivos da PIDE/DGS. (...)
Pessoalmente não tinha nenhum prazer em regressar a esse mundo da PIDE/DG, que só muito palidamente aflora nos seus arquivos.
Sim, lá não estão: o suplicio da tortura, as dores dos espancamentos, as alucinações da privaçao do sono, a angústia da incomunicabilidade sem fim, o medo dos interrogatórios feitos por uma roda de esbirros, o pesadelo dos longos anos de prisão, a permanente incerteza do dia de amanhã para quem caia nas garras dos torcionários e para os que viviam permanentemente perseguidos por eles, como acontecia com os clandestinos.
Bastou-lhe, no entanto, o propósito de consultar os arquivos, as formalidades para proceder à consulta e o período de espera que estava agora a viver, para que tudo isto lhe viesse a pouco e pouco à memória. Nunca tivera pressa de saber o que se dizia lá a seu respeito, ao contrário de outros que correram à Antonio Maria Cardoso «para consultar a ficha» (...) talvez por que tinha a consciência absolutamente tranquila quanto ao seu comportamento sempre que enfrentara aquela máquina de terror e de desonra e, além disso, não tinha a menos espécie de vocação masoquista. Ou seria antes por que se entregou de alma e coração à revolução, muito mais virado para o futuro que se queria construir, do que para o passado que se devia soterrar para sempre?
(...)
A primeira peça que o interessou foi um volume que constituia o auto das apreensões feitas pela Pide de uma das vezes que lhe assaltara a casa. Lá estavam alguns raros jornais e folhetos clandestinos, pois tinha o cuidado de não os guardar depois de lidos, mas muitos manifestos, declarações, apelos, tarjetas, selos dos movimentos oposicioistas, legais e semi-legais, rascunhos de artigos da sua autoria, versando matéria mais ou menos política. Achou óbvias estas apreensões. A sua indignação começou quando deparou com um diploma de curso, cuja falta lhe causara os maiores transtornos profissionais. Procurara-o por toda a parte, inclusivamente em casa dos pais e dos avós, nunca pensando que pudesse ter sido objecto de apreensão pela PIDE.
- Com que direito! - interrogou-se interiormente, mas era tanta a veemência da sua pergunta que deve ter produzido alguns sons, pois vários rostos se viraram, com expressa reprovação, na sua direcção.
O espanto indignado que começara a possui-lo não cessava de aumentar à medida que ia encontrando cartas pessoais da mulher, da mãe, dos amigos tratando questões familiares, as mais pessoais e íntimas, mesmo sobre doenças, partilhas, situações afectivas - tudo o que a devassa pidesca abocanhava.
- Com que direito? - Era a pergunta que lhe vinha das entranhas e que tinha de sufocar para não perturbar os restantes leitores.
Não conseguiu ficar sentado, quando, entre muitas outras fotografias, apreendidas, deparou com vários retratos do irmão, já então falecido, dispostos numa fila, com vistas de vários ângulos, como a indicar que se tratava de um elemento suspeito.
(...)
Veio-lhe então às mãos uma peça que continha um conjunto de cartas de «bufos» com denúncias sobre uma viagem que em certa altura fizera ao Algarve, para visitar os pais e outros familiares. Davam informações precisas das terras onde tinha estado, o que fizera, pessoas com quem se tinha encontrado.
Um das cartas informava da descida do Guadiana que tinha feito num barco de carreira - o «gasolina» - que então estabelecia ligação entre Mértola e Vila Real de Sto Antonio, acostando a Alcoutim e parando ao largo de outras povoações ribeirinhas. Referia, velhacamente, como «contactos», as conversas que tivera a bordo com diferentes pessoas, indo ao ponto de identificar algumas delas. Nunca podia ter imaginado que fosse seguido com esta minúcia pelas forças policiais. Os «bufos» algarvias deviam ter sido alertados por ordens de Lisboa.
- Caramba, como o nosso país estava minado! - Comentou para si.
Viu então a última carta do conjunto. Era um «bufo» que o denunciava como tendo participado e dirigido uma reunião em Aljezur. Tratava-se de uma rematada mentira, não estivera em Aljezur, nem de lá se aproximara, nessa viagem.
Ali estava a confirmação de como os «bufos» ao serviço da PIDE, além de denunciarem o que escutavam, observavam ou que de qualquer forma conheciam, faziam também denúncias que sabiam ser falsas, chegando a enganar os comandos repressivos, por razões de pura vingança contra os denunciados ou para mostrarem serviço, os que recebiam subsidios regulares, ou ainda para ganharem mais algum, os que eram pagos à peça, por denúncia apresentada.
- A tanto chegava a abjecção! (...)


Carlos Brito, águas do meu contar, campo das letras, 2002