terça-feira, dezembro 30, 2008

Na morte de Arnaldo Louro de Almeida (1926-2008)

Arnaldo Louro de Almeida
(1926 -2008)
Tinha 82 anos e faleceu no dia 28, pelas 11 horas. Serena e discretamente, tal qual foi a sua vida. O funeral realiza-se hoje, dia 30 de Dezembro, pelas 15,30h, a partir da igreja de Loures para o cemitério local.
Oriundo da Escola António Arroio, tal como seu irmão Fernando, ambos se viriam a formar na Escola de Belas-Artes de Lisboa, o Fernando em Escultura e o Arnaldo em Pintura.
Começou a expor colectivamente logo na 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1946-1956), a cuja comissão organizativa deu apoio, com outros colegas estudantes de Belas-Artes.
Foi um dos 11 artistas que viu um dos seus quadros apreendidos pela PIDE na 2ª EGAP em 1947. Tinha apenas 20 anos e era o mais novo dos expositores. A foto que se publica data dessa altura.
Fez a primeira exposição individual na SNBA em Janeiro de 1949.
Pertenceu aos corpos directivos da SNBA e era seu Secretário quando em 1952 a PIDE fechou aquela instituição na sequência das provocações de Eduardo Malta, um pintor afecto ao regime. Foi a sua direcção quem geriu a crise então instalada e que durou até finais desse ano.
Foi professor e, mais tarde, director da Escola de Artes Decorativas António Arroio, cargo que ocupava quando se deu o 25 de Abril.
Viveu vários anos na Madeira onde exerceu grande actividade pedagógica, tendo ficado ligado à fundação da Academia de Belas-Artes da Madeira de que foi o primeiro director. Devem-se-lhe ainda muitas das traduções de livros técnicos, fundamentais para o ensino artístico.
Arnaldo Louro de Almeida nasceu em Lisboa, freguesia de Arroios, no dia 1 de Agosto de 1926 no seio de uma família com grandes tradições antifascistas. Seu pai, Manuel Guilherme de Almeida, foi um dos fundadores do PCP em 1921, tendo sido várias vezes preso pela polícia política e chegando a estar desterrado. Constituiu e dirigiu o Sindicato dos Alfaiates e fundou, em 4 de Março de 1934, a Academia de Corte Sistema Maguidal, (Maguidal, um acrónimo do seu nome), com um sistema de ensino inventado por si, cuja sede, ainda hoje existente na Rua da Palma, bem pode considerar-se um baluarte da resistência a Salazar, tal o trabalho conspirativo ali desenvolvido e os muitos clandestinos que acolheu.
Sua mãe, Alice Marques Louro, foi uma corajosa mulher que sempre desenvolveu um constante trabalho legal e clandestino no apoio aos presos políticos e a suas famílias, em conjunto com militantes antifascistas como Manuel Alpedrinha e Maria Machado, entre outros. Nos anos 50 a PIDE assaltou a casa da família, numa altura que ali estava recolhida Maria Machado e todos os seus membros, incluindo o Arnaldo, foram presos.
Pessoalmente devo a Mestre Arnaldo Louro de Almeida uma ajuda preciosa no deslindar da história da sua geração, uma «ínclita geração» (digo eu) da Escola de Belas-Artes de Lisboa, dos anos 40/50, fundamental na historiografia artística portuguesa, mas cuja História ainda está por fazer.
Insisti várias vezes para que doasse o seu espólio ao Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira onde seria tratado e preservado. Dizia-me sempre que sim mas, antes, queria fazer uma exposição retrospectiva da sua obra, em Lisboa. Cidade que amava. Onde se estreou como artista e onde queria terminar. Ainda em Agosto me dizia que, com esse objectivo, tinha ido tentar falar à CML, ao pelouro da Cultura, mas entretanto tinham-se mudado para a Casa dos Bicos, o vereador da cultura era outro... mas sim, voltaria a tentar logo que possível. Não queria desistir do seu sonho. Porque o Arnaldo era um sonhador, essa categoria de homens cada vez mais rara.
Viúvo há vários anos, a grande preocupação eram os filhos para os quais vivia inteiramente.
Um quadro seu, inédito, datado de 1947, quando tinha 20 anos, foi doado ao Museu do Fado e faz parte da exposição permanente daquele museu. 
Ainda em vida teve a alegria de ver o seu nome dado a uma escola de Lisboa, a ex- Escola Primária nº 44, ao Bairro Azul, numa homenagem ao Mestre que nos anos 50 fez os paineis de azulejos que decoram aquele estabelecimento de ensino.
Vi-o pela última vez no jantar comemorativo do 25 de Abril deste ano, no Parque das Nações. Estava já muito debilitado e era visível o esforço que fazia para conseguir estar presente.
Falei-lhe por telefone na véspera de Natal quando já estava internado em Santa Maria. Faleceu três dias depois um tanto inesperadamente, apesar da gravidade da sua doença. Perdi um grande amigo. Portugal perdeu um homem e um artista que praticamente desconhece. Portugal não merece homens como o Arnaldo Louro de Almeida.

Julia Coutinho



NOTA: Passados 10 anos é lamentável que nem o espólio tenha sido entregue a uma instituição que cuide dele e o dê a conhecer, nem se tenha realizado a exposição retrospectiva que Louro de Almeida desejava e merecia. Um dia nem sequer os alunos que frequentam a «sua» escola saberão quem foi Arnaldo Louro de Almeida. 

JC





7 comentários:

Paula Raposo disse...

Tens razão. Eu não conhecia. É uma pena que assim seja, obrigada por me ires revelando tanto que desconheço...beijos de um bom ano novo.

OrCa disse...

Os Grandes Portugueses que fazem a nossa Grande História. Talvez não a «oficial», mas isso que importa?

Mas se a memória morrer, a culpa foi nossa.

Bela obra a tua, Júlia. Hás-de pensar em encorporar tudo isto num livro, que já vai fazendo sentido!

O melhor 2009 para ti, com beijos.

casa de passe disse...

porque o João, meu neto, e as meninas andam todos muito ocupados, venho eu desejar um bom ano novo.


Ernesto

Anónimo disse...

Ouvia falar muito deste senhor na minha casa porque o meu avô era muito amigo do seu pai.O meu nome é Olga Pires e sou neta de Joao da Cunha Pires que foi alfaiate na Nazaré

Guilherme de Almeida disse...

Boa noite, Olga,
Sou Guilherme de Almeida, irmão mais novo do Arnaldo (1926-2008) e do Fernando (1924-2013). Sou, portanto, o filho mais novo de Manuel Guilherme de Almeida (1898-1992)

Íamos todos os setembros para a praia da Nazaré e alugávamos casa a uma família de pescadores, chamados os "Formigas"; não sei se este nome era o apelido verdadeiro deles ou se seria uma espécie de alcunha.
O meu pai, Manuel Guilherme de Almeida, passava as manhãs na oficina de alfaiataria seu avô, de quem era muito amigo,a conversar, enquanto o resto da família ia à praia, pois o meu pai não gostava muito de praia.
Pelo que me lembro, a oficina do seu avô ficava na praça central, junto à praia, o largo onde estavam as esplanadas no verão. Nasci em 1950 e lembro-me de quase todas as idas desde 1957, mas sei que já antes de 1950 a família lá ia. A primeira vez que lá fui, segundo parece (não me lembro) foi em 1952.

O meu contacto é g.almeida(a)vizzavi.pt , mas substitua o (a) pela tradicional arroba @.

Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Guilherme de Almeida disse...

Aguardo resposta e contacto de Olga Pires.

O meu contacto é g.almeida(a)vizzavi.pt , mas substitua o (a) pela tradicional arroba @.

Guilherme de Almeida