domingo, janeiro 29, 2006

O ESSENCIAL É INVISÍVEL


Para os Meus Amigos,

E para todos os que ainda o não são mas que fazem parte, já, dessa teia invisível de relacionamentos que à Amizade conduzem.

[…]
"Em muitos contos, o herói, em busca da verdade, chega a uma zona fronteiriça entre o interior e o exterior, entre a superfície e as profundezas, entre o aquém e o além, onde encontra animais que vêm em sua ajuda, falam com ele e lhe mostram o bom caminho no anti-mundo da sua consciência. Em O Principezinho, é à Raposa que cabe esse papel [...] pois, na fronteira do além do deserto, o seu conselho vem realmente salvá-lo.

Com efeito, mal o Principezinho chega à terra e se aproxima do mundo dos homens, imediatamente se vê posto em questão. Ninguém conseguiria viver sem algo a que se consagrasse, que fosse para si único, belo, precioso. Até então, no seu pequeno planeta, a Rosa constituía para o Principezinho esse tesouro. Considerara-a incomparável durante tanto tempo – nunca pudera confrontá-la com mais nada – que a vira como um milagre único. Ora, eis que calha passar por um jardim cheio de rosas e é forçado a uma dolorosa comparação que ameaça abalá-lo profundamente.

Quando se desmorona aquilo em que acreditámos como algo absoluto, quando o que se reverenciou e amou aparece subitamente como um exemplar entre outros pertencentes a uma espécie de indivíduos multiplicáveis à vontade, quando aquilo a que nos dedicamos de alma e coração parece de repente esvaziar-se de valor pelo simples facto da sua abundância, não só nos decepcionamos como podemos sentir-nos completamente perdidos e órfãos – ficamos sem saber onde fixar o coração. É o que acontece ao Principezinho quando se descobre diante de cinco mil rosas. Num instante tudo é posto em questão: o problema de saber se a sua Rosa é única determina o sentido do mundo, a alegria, a esperança, o amor, a confiança, o passado e o futuro; a única coisa que lhe interessa agora é saber o que torna a sua Rosa única: este carácter não poderá constituir uma qualidade objectiva, pois não se trata de uma propriedade exterior, mas depende de uma visão da alma e portanto só se poderá extrai-lo do interior. É o coração que confere ao outro o seu valor e significado. Essa é precisamente a lição da Raposa, o conteúdo da sua introdução mágica no universo do amor.

No essencial, a Raposa não vem ensinar nada de novo ao Principezinho. As lições que lhe dá apenas servem para muni-lo contra o perigo da realidade exterior mostrando-lhe em que consiste a sua riqueza interior e o carácter único da Rosa. Trata-se de tornar plenamente consciente, e assim fortificar, o que ele já intuíra no seu planeta. Aí, só por acaso, descobrira a Rosa, como um feliz achado. Ela crescera de repente no seu mundo, e foi sem o notar, pelo simples facto de, bem ou mal, ter suportado os seus humores, admirado a sua beleza e protegido a sua susceptibilidade, que se criara um laço interior de confiança e de familiaridade. Tinham-se ligado um ao outro sem querer, duma forma natural. Sem saber, o Principezinho tinha aprendido o segredo da amizade. Como lhe explica a Raposa, a amizade consiste precisamente nesse paciente processo de aprendizagem progressiva e nessa descoberta recíproca da confiança que acontece quando dois seres são «cativados» um pelo outro. No amor, como em tudo o que possui valor para o ser humano, é absurdo pretender «poupar» tempo, como o fazem as «pessoas crescidas», e querer colher frutos antes de florirem e amadurecerem. A pressa, a insistência, a precipitação só lhe podem causar dano, pois os mais tímidos e sensíveis, os mais pudicos e apaixonados dos enamorados precisam de um longo tempo de aproximação que lhes permita desfazerem-se de qualquer receio do «caçador» e habituarem-se progressivamente à presença do outro, entregando-se-lhe de dia para dia um pouco mais. Não se pode comprar o afecto, a confiança, a ternura ou a elevação da alma que possibilita a presença do outro, daquele que se ama. Mas pode descobrir-se a pouco e pouco a linguagem dos seus olhos, as suas expressões, os seus gestos – tudo aquilo que faz com que se inaugure uma relação infinitamente preciosa e única, de valor incomparável.

[...]
Quanto mais longa é a busca do outro, essa maturação da confiança que resulta de se ser «cativado», mais a relação se enriquece com a comunhão e as recordações de tudo o que se viveu em comum, e a poesia da ternura das coisas funde-se com o rosto e o ser do outro, como se o universo fosse afinal um imenso campo de forças cujas linhas levam ao coração amado.

[...]
Não há amizade que não se submeta às leis de tal “cerimonial”, da sacralização ritual do tempo vulgar, para que a presença se dê interiormente.”


Eugen Drewermann, O Essencial é Invisível, uma leitura psicanalítica de O Principezinho, pp. 45-48

15 comentários:

wind disse...

Já conhecia este texto e concordo plenamente, ou não fosse o Principezinho um marco na vida das pesoas:) beijos

Zecatelhado disse...

E a festa foi bonita pá!

Um bração do
Zecatelhado

Fernando Bizarro disse...


Julinha, Julona, minha Amiga bonacheirona e brincalhona. Houve quem não digerisse os cravos, como se eles tivessem espinhos. Mas enfim, cada um é como cada qual.

Com respeito a este pedaço de texto do Eugen Drewermann, foi com muito gosto que o coloquei e escolhi uma música de que gosto muito para o acompanhar.

Beijocas,

Maio disse...

Amigo


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

lazuli disse...

Júlia, isto é verdade...adorei conhecer-te, mulher espectacular, fantástica, uma simpatia e mais não digo que as palavras para te descrever não me acorrem..

Muitos beijos para ti

fernanda G.

Reporter disse...

Não fui à festa.
Mas acredito na amizade. A verdadeira.
O resto é paisagem.
E sorrio, como uma princezinha me ensinou, em tempos.
Se tivesse ido...

Mendes Ferreira disse...

olá....subscrevo as palavras da LAZULI...e dizer mais seria recorrente...b.e.i.jo.

Paula Raposo disse...

Não conhecia este texto. Cada um faz a sua análise, obviamente. Obrigada pelo teu comentário no meu poema, sei que és sincera nas tuas palavras, por isso gosto de ti. Beijinhos Amiga.

absolutely disse...

Brilhante este texto.

Gostei muito de voltar a estar contigo no jantar de sábado.

As tuas gargalhadas são contagiantes. Eu sou a Olivia, como já deves ter percebido.

Beijinho

António Oliveira disse...

Parabéns pelo post, Júlia.
Bastante oportuno, nesta fase do campeonato.
Um beijo dos amigos do 2+2=5

Manuel Gomes disse...

Também não conhecia este seu Blog. Afinal as virtualidades das novas comunicações servem igualmente para isto, não é?
Fiquei visitante assíduo, parabéns.

armando disse...

É invisível sim. Mas sente-se tão facilmente...

Beijo

Anónimo disse...

Festa???:) ,onde ?Conte:))annie hall

Júlia Coutinho disse...

Querida Annie,
Foi um jantar/encontro de malta dos blogues, no passado dia 28 de Janeiro, no restaurante da A25A.
Foi divertido, agradável, com boa comida e ... temos já outro agendado para 25 de Março !
Queres vir ?
As fotografia em breve estarão no blog organizador, o Fraternidade.

Cleopatra disse...

Tomei a liberdade de lhe copiar esta postagem para levar até ao meu Blog.
Tem um significado especial e está muito bem explicado pelo autor.
pode ser que se tyransmita a mensagem ou uma forma de ver a mensagem.
Bj
gostei do seu Blog.
Mulher activa!
corajosa!
Bom Blog