segunda-feira, janeiro 23, 2006

Bandeira da Resistência





Em 1947 a Seara Nova editava Marchas, Danças e Canções.

Uma colectânea de poemas de Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e outros neo-realistas.

Organizados e musicados por Fernando Lopes-Graça.

Divulgados pelo Coro da Academia dos Amadores de Música.

Foram a bandeira da Resistência.

Em Novembro de 1947 a Pide assaltou as instalações da Seara Nova. Apreendeu todos os exemplares existentes e proibíu as canções .

Passaram a ser clandestinas.

Fazem parte da História da Resistência Portuguesa.

Deixo-vos duas dessas Canções.



HINO AO HOMEM

Homem, se homem queres ser
e não uma sombra triste,
olha para tudo o que existe
com olhos de bem o ver.

Nada receies saber.
Ao que não amas, resiste.
Mesmo vencido, persiste
e acabarás por vencer.

Quere e poderás poder.
Vai por onde decidiste.
A liberdade consiste
no que a razão te impuser.


Armindo Rodrigues



OS BURLESCOS E OS BURLADOS

No terreiro de dançar
anda uma dança inocente;
os burlescos e os burlados
dançam e fingem de gente.

Coxeia e tropeça,
ó meu coração !
A dança começa,
cumpre-me a promessa
de rojares o chão.

Com facas de matar porcos
e podôas de podar,
os burlescos fazem roda
e os burlados sem gritar!

Tapa a alma nua
que ta vêem toda !
Atira-te à rua,
come o sol, a lua,
mas entra na roda !

Burlescos com alguidares,
cheios de postas sangrentas,
bebem sangue dos burlados
e fazem caras nojentas.

Coração, volteia
na roda imunda !
Tropeça e coxeia
-- ou dança, ou cadeia ! --
meu coxo corcunda.

E, no São João da vida,
assim burlescos inchados
passam a noite saltando
a fogueira dos burlados.

Ai, dança a sorrir,
coração marreca !
Pudesse dormir,
mesmo a fingir,
a tua soneca !


Carlos de Oliveira

9 comentários:

Fernando Bizarro disse...


Amiga Júlia, coloquei o teu texto conforme considerei melhor. Lamento não ter disponivel qualquer trecho do Fernando Lopes Graça para o poder acompanhar, assim, repito um que já tinha colocado anteriormente.

Um Abraço,

augustoM disse...

Julinha, li muitas Seras Novas que levávamos escondidas debaixo do casaco. Se calhar qualquer dia voltamos ao mesmo.
Estamos de luto, só falta a missa do sétimo dia no próximo Domingo.
Um beijo. Augusto

Ana Luar disse...

Poemas que por sinal, belíssimos.´

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada
ao sol desta canção.

stillforty disse...

Amazing! Li a Seara Nova que me indicaste;) Foi bom ler aqui estes poemas.
Beijocas

contradicoes disse...

Aplaudo o teu empenhamento nesta luta
pela liberdade, cujo facismo teima em regressar, lamentávelmente pela mão de gente do povo. Com um abraço do raul

zoltrix disse...

Obrigado! Obrigado! Mil vezes obrigado!!!

BeanSprouts disse...

Sou demasiado novo. Nao conheco esses tempos nem essas cancoes. Se nao fossem estes bocadinhos de informacao vindos de ti e de outros como tu nao saberia nada ... obrigado!

José Gomes disse...

Obrigado, Júlia, por me fazeres recordar esses tempos, neste tempo que nada de bom augura.
Mas é tempo de Resistência...
Terá de ser tempo de Resistência...
Boa semana.

Paula Raposo disse...

Ainda não tinha vindo aqui, não sei como é que me passou. Quis comprar a Seara Nova aqui na zona, para ler o que escreveste, não encontrei!! Beijinhos, Júlia, vou gostar muito de te rever sábado.