segunda-feira, julho 24, 2006

O menino e a paleta



No hotel, o único hotel daquela cidade, tão pequena que parecia ser a primeira cidade construída no mundo, o meu amigo, meu único amigo naquele momento único, contou-me a história de um menino que desenhava tudo, as flores, as nuvens, os peixes e as estrelas, em cinzento, um cinzento uniforme e triste.

As paredes da sala estavam cheias de quadros dos alunos, numa generosidade, num esbanjamento de cores que fazia sorrir os olhos da gente. Mas, no meio de toda aquela paleta, um desenho cinzento contrastava, doia, fazia pensar. E os professores, convencidos que o menino era daltónico, resolveram mandá-lo ao médico para obterem confirmação do que pensavam.

O médico observou e interrogou o menino, que gostava de cores, saboreava as cores, punha tanta força no que dizia que o verde dos insectos tinha reflexos metálicos, o arco-íris dos pássaros voava, cantava, tão feliz e evidente que só um louco poderia falar de daltonismo. Aquele menino era normal, captava todas as cores, remexia nelas como quem mergulha numa piscina, atirava ao ar o amarelo, o azul, o laranja, o lilás, num jogo malabar, exacto, impressionante, sem hesitações.

Voltou o menino à escola e a curiosidade, quase inquietação, voltou ao cérebro dos professores. E disseram ao menino que passasse o fim-de-semana desenhando e trouxesse de casa cinco trabalhos diferentes que ele próprio deveria escolher. Vieram os desenhos: uma zebra correndo, uma girafa fugindo de um leão com seu pescoço longo, longo, longo, um cacho de bananas no chão congolês, as montanhas pardas do Ruanda Urundi, o sol vermelho mergulhando no rio, tudo cinzento, implacavelmente cinzento, inexoravelmente cinzento. Foi então que os professores chamaram burro ao médico, olharam o aluno com olhos assustados e resolveram visitar os pais do menino nesse mesmo dia.

E lá foram, em comitiva, o mais velho levando a criança pela mão como quem ajuda um enfermo e os outros seguindo, com caras fechadas, graves e ridiculamente solenes. A ladeira era íngreme, o bairro carcomido, e a casa tinha frinchas, buracos, marcas e socos do tempo. Os pais do menino, com gestos amedrontados, pediram desculpa de só terem três cadeiras e os professores falaram dos desenhos do aluno avançando lentamente, preparando terreno, como quem vai anunciar uma desgraça. E afinal tudo era tão simples quanto cruel. O menino não tinha, nem nunca tivera, lápis de cores.

Saímos do hotel curvados pelo peso daquela história. O tempo mudara e tudo era chumbo e cinza è nossa volta. Como nos desenhos do menino pobre.



(Sidónio Muralha, in O Andarilho, Prelo, 1975, pp.19-21)

6 comentários:

Paula Raposo disse...

Percorrida por um arrepio ao ler este texto...Beijos, Júlia.

Nilson Barcelli disse...

E há tanta gente sem lápis de cor na vida.
É por isso (e por outras coisas) que não devemos fazer juízos precipitados acerca dos outros como tantas vezes acontece.
Muito interessante essa parte que nos mostras.
Beijinhos.

El Navegante disse...

Vc truxo as cores con uma historia tao sensível Julia.
Beleza pura, como a pessoa que fiço ista elección,vc.
Beijo

OrCa disse...

Grande Júlia a lembrar-nos o grande Sidónio Muralha!

A cinza da nossa distracção... Essa, sim, a mais cobarde, a mais tristonha, a mais cega, a do que não quer ver.

Uma emoção.

E através de um texto que nos toca, fica-nos também a descoberta, sempre renovada, da beleza encantatória da nossa língua e do quanto ela nos pode unir.

Beijos.

folhasdemim disse...

Este texto lembra-nos a cruel realidade que tantas vezes ignoramos..

Beijos, Betty

wind disse...

Quando acabei de ler fechei os olhos e abanei a cabeça.
Que peso senti de facto!
Tanta pobreza, deuses, não só monetária, como de espírito.
Um dos teus melhores posts!:)
beijos